sexta-feira, 30 de março de 2012

Beata Joana de Toulouse, Condessa, Carmelita - Festa 31 de março

      Entre as santas carmelitas, pouco conhecida é a Beata Joana de Toulouse. De nobre estirpe, nascida no Reino de Navarra, decidiu viver reclusa, no convento carmelita de Toulouse (França), onde se distinguiu por sua austeridade.
      Joana amava falar das coisas celestes com os jovens religiosos e rezava muito por eles, o que por sua vez lhe trazia grande proveito espiritual. Isto não nos causa estranheza, pois a Beata viveu antes mesmo da clausura assumir a estrutura que nos séculos posteriores adquiriu.
      Embora o seu culto seja oficial, as informações sobre ela são muito escassas a ponto de não se saber as datas exatas de nascimento e de morte.
      A sua vida pode ser colocada entre os séculos XIV e XV, pois o seu nome não aparece nos catálogos dos santos carmelitas da segunda metade do século XIV, nem na lista dos santos da Ordem redigida por João Grossi, falecido em 1437, da província carmelitana de Toulouse.
      Joana é citada ao mesmo tempo como terciária e como monja; não é de se excluir que tenha professado a regra carmelitana, como fizeram outras mulheres "conversas" suas contemporâneas.  Após sua morte, os fieis atribuíram a sua intercessão numerosos milagres.
      Na França se diz que Joana teria nascido em 1220 e falecido em 25 de agosto de 1271. Era filha e herdeira de Raimundo VII, Conde de Toulouse, e de Joana da Inglaterra. Ela mesma era Condessa de Toulouse desde 1249 até a sua morte. Joana recebeu o hábito de terciária das mãos de São Simão Stock (¹), merecendo assim ser considerada fundadora da Ordem Terceira do Carmelo.
      Ela não apenas empregou inteiramente o seu tempo, como também o seu dinheiro, para a formação dos religiosos carmelitas.
      Entre 1452 e 1474, o Arcebispo de Toulouse, Bernardo du Rosier, exumou o corpo de Joana colocando-o em uma urna que foi colocada em uma capela da igreja carmelitana da cidade. Na ocasião, concedeu uma indulgência de quarenta dias aqueles que visitassem as suas relíquias.
      Posteriormente foram feitos reconhecimento de suas relíquias nos anos de 1616, 1656 e 1688: em 1656 foi notado que o braço e a mão direita estavam faltando, transferidos para a Espanha pelo Prior Geral, Henrique Silvio, durante uma visita ao convento; e em 1688 faltavam também a mão esquerda e alguns dentes.
Catedral de Sto. Estevão, Touloue
      Depois da Revolução Francesa, durante a demolição da igreja carmelitana de Toulouse, em 1805, os restos de Joana foram encontrados em uma parede, junto com o documento de reconhecimento de 1688 e algumas orações que a Beata recitava habitualmente.
      Levados para a igreja metropolitana de Santo Estevão, os seus despojos foram sepultados na capela de São Vicente de Paulo, até que em 1893, por ocasião da beatificação, foi novamente exumado e colocado em um relicário de forma ogival.
      A Beata Joana de Toulouse foi oficialmente beatificada por Leão XIII em 1895.
(¹) São Simão Stock, comemorado dia 16 de maio, faleceu na Inglaterra em 1265. Geral da Ordem do Carmo, recebeu da Santíssima Virgem o Escapulário com a promessa de que quem com ele piedosamente morresse não padeceria as penas do inferno.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Santa Gladys, Rainha e Eremita - Festejada 29 de março

     O nome Gladys (ou Gwladys, em galês) etimologicamente significa "lírio, gladíolo".
     A vida desta rainha galesa, do início do século VI, tornou-se conhecida por meio da Vida de seu marido, São Gunleu (ou Gwynllyw), escrita cerca de 1130, e de uma Vida de seu filho, São Cadoc, do século XI.
     Gladys era a filha mais velha dos 24 filhos de Brychan de Brecknock e foi dada por esposa ao rei de Gales, Gunleu.
     Gladys e Gunleu tiveram os seguintes filhos: Cadoc, Cynidr, Bugi, Cyfyw, Maches, Gladys II e Egwine. Segundo os relatos, os primeiros anos de matrimônio de Gladys estavam longe de serem exemplares.
     Entretanto, o filho, Cadoc, persuadiu-a a emendar-se. Depois de sua conversão, pelo exemplo e a exortação de seu filho, ela e Gunleu viveram uma vida austera.
     À pedido de seu filho, Gunleu retirou-se para o local chamado hoje Stow Hill (Newport, Gales do Sul), onde existe uma antiga igreja dedicada a São Wooloo. Gladys acompanhou o marido na vida eremítica e por algum tempo eles viveram juntos naquele local, jejuando, alimentando-se de vegetais, banhando-se nas frias águas do Usk para provar sua piedade.
    Embora ambos levassem uma vida de penitência, Cadoc obrigou-os a ficarem completamente separados, e Gladys foi para um local ainda mais solitário em Pencarn, Bassaleg, provavelmente o local hoje da Pont Ebbw, onde construiu uma igreja em honra da Ssma. Virgem.
     Mais tarde, aconselhada por Cadoc, ela mudou-se para Capel Wladus, em Gelligaer.
     Foram relatados milagres que aconteceram nos tempos de Santo Eduardo o Confessor e Guilherme I.
     A festa de Santa Gladys e de seu esposo foi fixada no dia 29 de março, e ambos são recordados em várias igrejas de Gales.

Fonte: Lifris, 'Vita sancti Cadoci', Vitae sanctorum Britanniae et genealogiae, ed. and trans. A. M. Wade-Evans (1944), 24–141.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Beata Madalena Catarina Morano, Salesiana - Festejada 26 de março


Adicionar legenda
     Madalena Catarina Morano foi contemporânea de São João Bosco e faz parte do grande número de sacerdotes e religiosas que floresceram nos primeiros tempos das fundações salesianas
     Nasceu em Chieri (Turim) no dia 15 de novembro de 1847, a sexta de oito filhos de uma família modesta, embora descendente de nobres. A família transferiu-se para Buttigliera d’Asti e aos oito anos Madalena ficou órfã de pai, ocasião em que ela começou a trabalhar como tecelã em sua casa, um dos poucos ofícios a que uma jovem podia se dedicar naquela época.
     Um parente sacerdote deu-lhe as primeiras lições de gramática italiana; aos 14 anos, o pároco local deu-lhe o encargo de cuidar de uma escola maternal, apesar de sua pouca idade. Continuando os estudos, conseguiu o diploma de professora para ensinar nas escolas elementares.
     Em 1877, confessa a sua mãe o seu desejo de ingressar na vida religiosa. Mas, tendo já 30 anos, não foi aceita nem nas Filhas da Caridade nem nas Dominicanas.
     Neste período era difundida naquela província a nova instituição salesiana fundada pelo dinâmico sacerdote João Bosco. Dom Bosco a dissuadiu de tornar-se religiosa de clausura e a encaminhou ao seu colaborador, Pe. João Cagliero, o qual a convidou a entrar nas Filhas de Maria Auxiliadora.
     Em 4 de setembro de 1879, aos 32 anos, tendo Dom Bosco aceitado seu ingresso nas Filhas de Maria Auxiliadora, ela professou naquele Instituto.
     Devido à sua instrução e habilidade educativa, Madalena logo se sobressaiu entre suas coirmãs, tendo assumido vários cargos de responsabilidade; foi enviada para a Sicília como Superiora em Alì Marina (Messina) e em seguida como inspetora da Inspetoria de São José.
    A sua atividade era prodigiosa e surpreendente: em 26 anos fundou 19 casas, 12 oratórios, 6 escolas, 5 asilos, 11 laboratórios, 4 internatos, 3 escolas de religião, suscitando a admiração de todos, inclusive das autoridades eclesiásticas. Dizia-se dela: “É uma grande mulher, é uma mulher extraordinária”.
     Madre Morano tinha uma união ininterrupta com Deus, um desejo de santidade e uma vontade de ação salesiana imensa.
     A Beata faleceu em Ali Marina no dia 26 de março de 1908, aos 61 anos de idade. A Apóstola Salesiana da Sicília foi beatificada em 5 de novembro de 1994 em Catânia. No Martirológio Romano sua memória é celebrada em 26 de março. Sua Congregação a celebra, a nível local, no dia 15 de novembro.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Santa Catarina de Suécia - Festejada dia 24 de março

     Santa Catarina de Suécia, também chamada Santa Catarina de Vadstena, nasceu em 1331. Era a quarta filha do Príncipe Ulf Gudmarsson, e de sua esposa, Santa Brígida da Suécia. Pequena ainda foi confiada à abadessa do Mosteiro Cisterciense de Bisberg, para ali receber sua educação.
     Por decisão de seu pai, casou-se aos dezesseis anos com o virtuoso Conde Egard Lydersson van Kurner. Como era freqüente então, os jovens esposos decidiram, de comum acordo, viver em castidade, imitando a Santíssima Virgem e São José, e inteiramente dedicados à oração, aos jejuns e às obras de caridade.
     Karl, o irmão mais velho de Catarina, príncipe leviano e mundano, procurou de todas as formas afastar a irmã de tal vida de perfeição, sem resultado. Por outro lado, com suas admoestações e com seu exemplo Santa Catarina conseguiu que sua cunhada, Gyda, esposa de Karl, renunciasse à vida luxuosa e dissipada que levava.
     Numa peregrinação a Santiago de Compostela, que Santa Brígida fizera com o marido, este faleceu ainda na Espanha. Viúva, Santa Brígida resolveu ir para Roma, a fim de estar nos lugares santos e para socorrer os peregrinos suecos.
     Catarina desejou ardentemente ir reunir-se à mãe. Tendo obtido a permissão do marido, iniciou a longa viagem para Roma no Ano Santo de 1350. Quando chegou na Cidade Eterna, sua mãe se encontrava no Mosteiro de Farfa, no Lácio. Dirigiu-se então Catarina para aquele mosteiro para se encontrar com a mãe.
     Catarina havia passado já algumas semanas com a mãe, quando decidiu voltar à Suécia. Contudo, sua mãe havia tido uma revelação divina em que Deus a fazia saber que Catarina era a companheira e a colaboradora que Ele havia designado para que Brígida concluísse a fundação da Ordem de São Salvador.
     Consultada sobre os planos de Deus a seu respeito, sabedora que junto com sua mãe teria que enfrentar dores e contrariedades, Catarina respondeu que estava disposta a acatar a vontade divina, nem que para isso devesse deixar a Pátria, os amigos e parentes, e mesmo seu esposo. Pouco depois Santa Brígida tomou conhecimento, por meio de uma visão, do falecimento do Conde Egard em seu castelo da Suécia.
     Catarina passou então por uma provação enorme: foi invadida por uma grande depressão. Em meio à tristeza sentia um grande amargor e desalento. Enquanto sua mãe e seus acompanhantes visitavam as igrejas romanas para ganhar indulgências, ela permanecia em casa. A Virgem Maria veio em seu socorro: apareceu-lhe e prometeu-lhe sua proteção se ficasse junto de sua mãe.
     Catarina obedeceu a sua Mãe celeste: ela e a mãe viviam em Roma na mais estrita pobreza voluntária, ganhando o sustento com o trabalho de suas mãos, visitando igrejas, dedicando-se a penitências e jejuns, sem abandonar os exercícios de piedade, especialmente a meditação da Paixão de Cristo, e praticando a caridade. Davam esmolas aos pobres e ensinavam a doutrina católica para os pobres estrangeiros.
     Os biógrafos nos contam um fato que ressalta a ternura filial de Catarina. Ela e sua mãe dormiam sobre o solo; porém quando Santa Brígida já havia adormecido, sua filha procurava pôr uma almofada sob a cabeça da mãe.
     Catarina viveu durante 25 anos com sua mãe, a quem procurava imitar. Em 1372, ela e seu irmão Birger acompanharam a mãe em peregrinação pela Itália - foram a Assis para visitar a igreja de São Francisco - e chegaram à Terra Santa. Após regressarem a Roma, Santa Brígida faleceu, em 1373, e foi enterrada na Igreja de São Lourenço. Seu corpo foi depois transladado para a Suécia por Catarina, seu irmão Birger Ulfsson, seus amigos e compatriotas, os Bispos Pedro de Skänninge e Pedro de Alvastra.
     O cortejo fúnebre passando por diversos países da Europa fez uma obra missionária. Santa Catarina dava saudáveis conselhos aos pecadores, procurava com seu exemplo e palavras inspirar o santo temor de Deus por toda parte, e, ao mesmo tempo, divulgava as predições e revelações de sua Santa mãe. Embarcaram finalmente em Danzig para a Suécia, aonde chegaram em junho de 1374.
     A passagem dos restos mortais de Santa Brígida pela Suécia foi uma procissão triunfal. O povo acudia de toda parte para ouvir os sermões de Pedro de Alvastra e os milagres floresciam. Santa Brígida foi enterrada no Mosteiro de Vadstena, situado nas margens do grande lago Vättern.
     Após o enterro de sua mãe, Catarina ingressou no Mosteiro de Vadstena, vivendo ali sob a Regra que durante vinte e cinco anos havia praticado em Roma junto de sua mãe. Pouco tempo depois, foi eleita abadessa.
     Catarina voltou a Roma para apressar a canonização de sua mãe, lá permanecendo cinco anos. Com a morte de Gregório XI e o cisma que ocorreu com a ascensão de Urbano VI, a canonização de Santa Brígida só seria aprovada por Bonifácio IX em 1401, quando Catarina já havia falecido.
     Em 1380, Catarina já estava de volta ao seu Mosteiro de Vadstena, onde morreu em 24 de março de 1381, após longos meses de enfermidade, dando exemplos de humildade, mortificação e paciência. Mas, o fim de sua vida não foi o fim de sua influência. Logo após seu falecimento luzes eram vistas sobre seu corpo, e por vários dias uma estrela pairou sobre a casa onde estavam seus restos mortais.
     Os funerais de Santa Catarina foram celebrados solenemente pelo Arcebispo Birgen de Ulfala e pelos Bispos Nicolás de Linköping (que também foi elevado aos altares) e Tord de Strägnäs. O príncipe Erik, filho do Rei da Suécia, bem como importantes personagens do reino, também estavam presentes.
     Conta-se que em uma ocasião Catarina salvara Roma de uma inundação apenas tocando as águas do Tibre com seus pés. Ainda em Roma, a irmã de um de seus conhecidos caiu doente. Ela havia levado uma vida pecaminosa e, apesar de estar à morte, não queria se arrepender nem se confessar. Santa Catarina de joelhos pediu a Deus que comovesse aquele coração duro. Imediatamente desencadeou-se uma grande tormenta que abrandou o coração da moribunda: ela fez uma confissão contrita e morreu convertida.
     Depois de sua morte, um rapaz de Mjölby, cidade sueca hoje muito populosa, caiu na prensa de um moinho, mas saiu são e salvo graças a ajuda de uma mulher vestida de branco, que não era outra senão Santa Catarina.
     Seus biógrafos relatam inúmeros outros milagres, certificados e fidedignos, apresentados em seu processo de canonização. Como sua mãe, Santa Catarina teve o dom das revelações e das profecias. Predisse, por exemplo, a morte do Rei da Suécia, Magnus Eriksson, na Noruega, em 1374, morte que foi comprovada seis semanas depois, ao regressarem os acompanhantes do rei.
     Em 1484, o Papa Inocêncio VIII permitia festejar Santa Catarina como a segunda fundadora dos mosteiros brigidinos. Santa Brígida fora a autora da Regra da Ordem e foi sua filha quem a pôs em prática em Vadstena, organizando o primeiro mosteiro e trabalhando para obter a aprovação canônica da Ordem. Santa Catarina deixou assegurada a fundação da Ordem de São Salvador, de monges e monjas, sob a jurisdição da Abadessa de Vadstena.
     Durante o final da Idade Média, a Ordem fez uma brilhante obra cultural: a Bíblia foi traduzida para os idiomas escandinavos, e os monges de Vadstena tiveram a primeira imprensa da Suécia. No século XVI, uma dama espanhola, Marina de Escobar, deu impulso ao ramo espanhol da Ordem, que existe na Espanha e no México.
     Em nossos dias, a Ordem foi restaurada na Suécia, tendo sido construído um novo mosteiro em Vadstena, à sombra da famosa "Igreja Azul" (Blakyrka), a primeira da Ordem de São Salvador, graças aos desvelos da Madre Maria Isabel Hesselblad, falecida em 1957.
     Santa Catarina foi uma fundadora tenaz e incansável peregrina, resultado de uma alma ardente cheia de Fé, de piedade e de fortaleza. Outros aspectos de sua alma são: filha devotada e decidida que não mediu esforços para transladar de Roma a Vadstena o corpo de sua santa e admirada mãe; organizadora vigorosa que dirigiu Vadstena nos primeiros e difíceis anos da fundação e que batalhou para a aprovação da Ordem com tenacidade. Ela nos dá um exemplo de superação nas duras batalhas desta vida.
     O Mosteiro de Vadstena era originalmente um palácio pertencente à Dinastia Folkung, reinante na Suécia nos séculos XIII e XIV. Os reis Magnus Eriksson e Branca de Namur cederam o palácio para Santa Brígida para que ela o tornasse um convento. A doação constou do testamento dos monarcas em 1346 e no testamento norueguês de 1347. Os reis pediram que as monjas rezassem por eles por ocasião de suas mortes, para a salvação de suas almas.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Santa Leia, Viúva - Festejada 22 de março

     Os poucos dados sobre Santa Leia estão contidos numa carta escrita por São Jerônimo a Santa Marcela quando soube da sua morte, em 384.
     Leia era uma rica romana que ao ficar viúva ainda jovem recusou um novo casamento, como era o costume da época, para se juntar à Marcela e outras mulheres, em um mosteiro criado em sua própria residência em Aventino, Roma. São Jerônimo, Doutor da Igreja, em sua estadia em Roma dava a elas lições de Sagrada Escritura e as dirigia,
     Leia havia recusado ninguém menos que Vécio Agorio Pretestato, cônsul romano, que lhe proporcionaria uma vida ainda mais luxuosa pelo prestigio e privilégios que envolviam aquele cargo. Teria uma vila inteira como moradia e incontáveis criados para atendê-la. Entretanto, Leia preferiu viver numa cela pequena, fria e escura, com simplicidade e dedicada à oração, à caridade e à penitência. Curiosamente, Leia morreu em Roma no mesmo ano em que faleceu Vécio, o cônsul rejeitado por ela.

     Na ocasião da morte de Leia, São Jerônimo já havia se retirado de Roma, depois de ter sido caluniado, para viver solitariamente perto de Belém. Dali continuou a dirigir suas discípulas de Roma.
     Santa Leia logo foi venerada pelo povo.
     Eis o resumo feito por São Jerônimo sobre sua santa discípula, contido na carta a Santa Marcela:
     Quem renderá a bem-aventurada Leia os louvores que merece? Renunciou a pintar o rosto e a adornar a cabeça com pérolas brilhantes. Trocando ricos atavios por vestido de saco, deixou de dar ordens aos outros para obedecer a todos; viveu num canto com alguns móveis; passava as noites em oração; ensinava as companheiras mais com o exemplo do que com admoestações ou discursos; esperou a chegada ao Céu para ser recompensada pelas virtudes que praticou na terra.
     É lá que ela goza, daqui em diante, felicidade perfeita. Do seio de Abraão, onde está com Lázaro, olha para o nosso cônsul, outrora coberto de púrpura e agora revestido de ignomínias, pedindo em vão uma gota de água para matar a sede. Embora ele tivesse subido ao Capitólio entre os aplausos da população e a sua morte enlutasse toda a cidade, é em vão que sua mulher proclama imprudentemente que ele foi para o Céu e lá ocupa um grande palácio. A realidade é que foi precipitado nas trevas exteriores, ao passo que Leia, que queria passar na terra por insensata, foi recebida na casa do Pai ao festim do Cordeiro.
     Por isso vos peço, com lágrimas nos olhos, que não procureis os favores do mundo e que renuncieis a tudo o que é da carne. Em vão se procuraria seguir ao mesmo tempo o mundo e Jesus. Vivamos na renúncia de nós mesmos, porque o nosso corpo em breve se converterá em pó e o resto não durará também muito.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Sta Maria Josefa do Coração de Jesus, Fundadora - Festa 20 de março

      Santa Maria Josefa nasceu em Vitória (Espanha), no dia 7 de setembro de 1842; no dia seguinte recebeu o nome de Maria José no batismo. Ficou órfã de pai muito cedo e foi sua mãe quem a preparou para a Primeira Comunhão, recebida aos dez anos.
       Aos 16 anos foi completar a sua formação e educação em Madrid, hospedando-se na casa de alguns parentes, e desde muito cedo começou a demonstrar uma grande devoção à Eucaristia e a Nossa Senhora, uma forte sensibilidade em relação aos pobres e aos doentes e uma inclinação para a vida interior.
       Regressou a Vitória aos 18 anos e logo manifestou à sua mãe o desejo de entrar num mosteiro, pois se sentia atraída pela vida de clausura. Mais tarde, costumava dizer: "Nasci com a vocação religiosa".
       A 3 de dezembro de 1865 ingressou na Congregação das Servas de Maria, recentemente fundada por Santa Maria Torres Acosta. Assistiu com exímia caridade as vítimas da peste que flagelou a cidade de Madrid, Medina del Campo e Osuna.
       Depois de algumas dúvidas e incertezas, tendo consultado o Arcebispo de Saragoça, futuro Santo Antônio Maria Claret, e depois de vários contatos com Madre Torres Acosta, decidiu criar uma nova família religiosa que se dedicasse aos doentes, em casa ou nos hospitais. Assim nasceu o Instituto das Servas de Jesus, fundado em Bilbau em 1871, que foi aprovado em 1874 pelo Bispo de Vitória e confirmado definitivamente por Leão XIII em 1886.
       Maria José, que tomou o nome de Irmã Maria do Coração de Jesus, foi eleita Superiora Geral e governou a Congregação até a sua morte, que ocorreu em Bilbau, em 20 de março de 1912.
       A Santa teve a alegria de ver em vida a Congregação estender-se às cidades de Vitória, Santander, Valhadolid, Burgos e Chile, contando cerca de 300 religiosas, que tratavam de doentes em residências, hospitais, sanatórios. Atendiam também idosos e crianças abandonadas.
       A sua morte foi muito sentida em toda a região e o seu funeral foi uma grande manifestação de pesar. Os seus restos mortais foram trasladados para a Casa-Mãe, onde ainda se encontram.
       Os pontos centrais da espiritualidade de Santa Maria Josefa podem definir-se como: um grande amor à Eucaristia e ao Sagrado Coração de Jesus; uma profunda adoração do Mistério da Redenção e uma íntima participação nas dores de Cristo e na Sua Cruz; e a completa dedicação ao serviço dos doentes, num contexto de espírito contemplativo.
       Para ela, "a caridade e o amor de uns pelos outros formam, ainda nesta vida, o céu das comunidades...; a vida religiosa é uma vida de sacrifício e de abnegação; o fundamento de uma maior perfeição é a caridade fraterna" (Pe. Pablo B. Aristegui, Beata Maria Josefa do Coração de Jesus, Mensajero, 1992, pág. 97).
       Sua vocação de serviço aos enfermos ficou bem expressa nas palavras por ela escritas: "Desta maneira, as funções materiais do nosso Instituto, destinadas a salvaguardar a saúde corporal do nosso próximo, elevam-se a uma grande altura e fazem a nossa vida ativa mais perfeita que a contemplativa, como ensinou o Doutor Angélico, São Tomás de Aquino, que falou dos trabalhos dirigidos à saúde da alma que vêm da contemplação" (Directorio de Asistencias de la Congregación Religiosa Siervas de Jesús de la Caridad, Vitória 1930, pág. 9).
       A causa da Canonização de Santa Maria Josefa começou em 1951; foi solenemente beatificada por João Paulo II em 27 de setembro de 1992 e canonizada em 1 de outubro de 2000.
 

sábado, 17 de março de 2012

Beata Celestina Donati, Fundadora - Festejada 18 de março

     Maria Ana Donati, ultima de seis filhos, nasceu em 1848 em São Lourenço de Marradi, província de Florença, onde seu pai era funcionário do grão-ducado. E como sua profissão de juiz o obrigava a contínuos deslocamentos, a família o segue a Cortona e a Siena, até firmar-se definitivamente em Florença no fim de sua carreira.
      Maria Ana cresce particularmente devota, extraordinariamente madura, precocemente inclinada a vida religiosa. Uma tentativa junto as Irmãs Vallombrosianas não obteve hesito. Isto reforçou no pai sua contrariedade do ingresso no convento daquela filha um pouco especial, que reza tanto e que se interessa tanto pelas necessidades dos outros.
     A jovem esperou pacientemente... Até os 41 anos, sempre fiel também aos seus deveres de filha, docilmente obediente, mas determinada a seguir mais cedo ou mais tarde sua vocação, foi sustentada nesse período por seu diretor espiritual, Pe. Celestino Zini. Este sacerdote percebeu nela os germens de uma vocação autêntica e transmitiu-lhe a espiritualidade de seu fundador, São José Calazans, que se concretiza na educação da juventude.
     As obras de Deus nascem de episódios muitos simples. Assim foi com Maria Ana: um dia ela se viu responsável por uma menina que a mãe queria subtrair às contínuas violências do pai. As bases da Congregação foram lançadas: Maria Ana abriu uma escola gratuita para as meninas pobres com quatro companheiras. Seguindo os ideais educativos e a espiritualidade de São José Calazans, chamou a nova congregação de mulheres que se reuniram ao redor dela de «Filhas Pobres de São José Calazans».
     Tudo era acompanhado pelo Pe. Celestino Zini e com sua aprovação. Em homenagem a ele Maria Ana tomou o nome religioso de Celestina. Madre Celestina consagrou-se totalmente ao Senhor, dedicando-se ao serviço das meninas mais pobres e necessitadas de cuidados.
     A sua atenção se concentra logo nas filhas dos detentos, que além da pobreza material carregavam o peso da miséria moral, ao mesmo tempo a falta da figura paterna. Mas a obra ainda suscitava desconfiança e escândalo.
     Madre Celestina empenhou-se com paciência a atrair para sua obra a benevolência dos florentinos ricos, mas os débitos fora seus fieis companheiros até a morte... Para a filha de um juiz com uma educação rígida que não admitia dívidas, era um sofrimento contínuo este estado de coisas.
     Ela ensinava às suas Irmãs: “Veneremos nas meninas a infância de Jesus” e “as crianças são o templo da Santíssima Trindade”.
     Madre Celestina soube unir contemplação e ação: viveu com profunda intensidade a devoção a Jesus Crucificado e foi ardente apóstolo da adoração perpétua da Eucaristia, guiada por um amor maravilhosamente materno, em sua obra pedagógica, feito de humildade, delicadeza e ternura.
     A Beata faleceu no dia 18 de março de 1925; foi beatificada no domingo, 30 de março de 2008, em Florença.
Parte superior do formulário 

quinta-feira, 15 de março de 2012

Santa Luisa de Marillac, Viúva e religiosa - Festejada 15 de março

     No dia de Pentecostes de 1623, na Missa solene, a Senhora Le Gras, em solteira Luísa de Marillac, ouviu uma voz interior a certificá-la de que depressa encontraria um bom diretor. Encontrou, de fato, no ano seguinte, São Vicente de Paulo que triunfou onde todos os outros, incluindo São Francisco de Sales, tinham errado. Com efeito, São Vicente conseguiu libertá-la dos escrúpulos, obsessões, dúvidas sobre a fé e outras idéias fixas, que a tornavam infeliz.
     Filha de Luís de Marillac, Senhor de Ferrières, nascera em 1591 e casara-se dez anos antes, 1613, com o escudeiro e secretário da Rainha Maria de Médici, Antonio Le Gras, que era tido como fadado para uma brilhante carreira, mas, de fato, arrastava uma doença de que morreria, doze anos depois do casamento. No dia 19 de outubro daquele ano nasceu-lhe um filho, Miguel. Luísa cuidou do esposo com a maior atenção, ao mesmo tempo em que educava o filho único dos dois. Ela tinha 34 anos quando enviuvou.
     Desde esse tempo reuniu-a Vicente de Paulo aos seus trabalhadores. Quem curara essa alma, descobriu nela riquezas imensas. Utilizou-as ao serviço dos que eram seus preferidos e vieram a tornarem-se também os dela: os enjeitados, os anormais, os desequilibrados, os velhos e os doentes abandonados.
     Em dezembro de 1625, após a morte do esposo e tendo seu filho entrado no seminário, Luísa pode acolher em sua casa as primeiras jovens que vinham se colocar ao serviço dos pobres, em colaboração com as Damas da Caridade. Era o primeiro núcleo da nova Congregação.
     Colaboraram os dois, São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac, durante 35 anos. Juntos fundaram a congregação das Irmãs da Caridade (1633) que deviam ter, dizia Vicente, “por mosteiro só as casas dos doentes, por cela um quarto alugado, por capela a igreja paroquial, por claustro as ruas da cidade ou as salas dos hospitais, por clausura a obediência, por grade o temor de Deus, por véu a santa modéstia”.
     “Só Deus conhece que força de ânimo ela possui”, disse São Vicente a respeito da atividade incansável de Luísa, apesar das precárias condições de saúde e de muitas atribulações.
     Luísa, que lhes escrevera as regras, dirigiu as Irmãs até ao fim. Faleceu a 15 de março de 1660 com sessenta e nove anos, poucos meses antes do “padre dos pobres”, de quem aprendera a simplicidade da vida interior e o espírito prático, e em sintonia com o pensamento do Santo Fundador, segundo o qual a santidade é mais verdadeira quanto mais escondida.
     Luísa de Marillac obteve as honras dos altares em 11 de março de 1934. Em 1960 João XXIII a declarou patrona das Assistências Sociais.
 
Fonte: Santos de Cada Dia, do Pe. José Leite, S.J., 3ª ed. Editorial A.O. Braga

quarta-feira, 14 de março de 2012

Santa Florentina de Cartagena, Abadessa - Festa 14 de março


     Em Cartagena, povoado visigodo do século VI e, mais concretamente, durante o reinado ariano de Toledo, viveu um destacado nobre, Severiano (pai de Florentina), casado com Túrtura (sua mãe). Ali nasceriam seus cinco filhos: Leandro, Fulgêncio, Florentina, Isidoro e Teodósia.
      Em meados do século se trasladaram para Sevilha, aonde São Leandro e São Isidoro chegaram a ser arcebispos e onde São Fulgêncio foi Bispo de Écija e da Diocese de Cartagena. Florentina era irmã de três homens notabilíssimos: São Leandro, aclamado como o homem mais notável da Espanha; São Fulgêncio, cognominado pai dos pobres e dotado de grande zelo pastoral; São Isidoro, sucessor de São Leandro, proclamado insigne doutor da Igreja e acérrimo defensor do catolicismo na Espanha.
     Santa Florentina foi dirigida espiritualmente por São Leandro e estudou a fundo a língua latina. Sendo também formosíssima e cheia de qualidades, resolveu escapar aos perigos do mundo se tornando reclusa em um mosteiro de São Bento, que alguns colocam próximo da localidade sevilhana de Écija e outros no Mosteiro São Bento de Talavera de la Reina.
     Considerada uma mulher de grande cultura, fundou mais de quarenta mosteiros, pois muitas donzelas seguiram seu exemplo e a ela se juntaram. Os três irmãos e o próprio rei ajudaram-na a erguer os mosteiros onde viviam mais de mil religiosas seguindo a Regra escrita para ela por seu irmão São Leandro. Algumas interpretações veem neste texto não uma regra monástica propriamente, mas um elogio da virgindade.
     Infelizmente a observância no mosteiro em que inicialmente entrara decaiu por descuido do bispo, mas tendo a Santa redobrado as orações alcançou a graça de que seu irmão, São Fulgêncio, o sucedesse naquela diocese tudo reformando.
     Como a santa lei de Deus era contínua e deploravelmente perseguida pelos arianos, Santa Florentina aumentou as orações, penitências e súplicas, trabalhando do modo que podia em combater os hereges e manter, com seu exemplo e suas palavras, puro e ileso o depósito da fé, não só entre as suas religiosas, mas também naqueles que a consultavam ou ela encontrava.
     A maior parte de seus restos mortais descansa na paroquia de Berzocana da Diocese de Palescência, e também se conservam relíquias da Santa em uma urna de prata exposta no altar mor da Catedral de Murcia.
     Santa Florentina recebe especial veneração na localidade de Campo de Cartagena, La Palma. Em Écija há um convento em seu nome. A Catedral de Campana, Buenos Aires, Argentina, é a única no mundo que tem como Patrona esta Santa. Nela se encontra um mural realizado por Raúl Soldi.
     A festividade de Santa Florentina é celebrada dia 14 de março.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Beata Francisca Théhet, mártir da Rev. Francesa - Festa 13 de março

     Francisca nasceu em Saint-Mars-sur-la-Futaie no dia 8 de abril de 1756, em uma nobre família proprietária de terras. Professou os votos religiosos na Congregação das Irmãs da Caridade de Nossa Senhora de Evron, dedicada à educação das jovens e à várias obras de caridade. Devido ao hábito característico de cor cinza, as religiosas deste Instituto eram chamadas de “as irmãzinhas cinza”.
     Em 1783 Francisca foi enviada a Saint-Pierre-des-Landes para abrir uma escola paroquial e logo conseguiu uma auxiliar na pessoa da Irmã Jeanne Véron. As duas religiosas ensinavam e se dedicavam também ao atendimento dos doentes.
     Francisca tinha um caráter muito forte e com a sua vivaz inteligência pressagiou os males que logo viriam com a Revolução Francesa, não apenas para a Igreja, mas para toda a nação.
     Embora não houvesse denúncia ou reclamação contra as duas Irmãs, elas foram inseridas em uma lista de condenados a guilhotina, e por isso foram aprisionadas do final de fevereiro até os primeiros dias de março de 1794. Ambas foram detidas em Ernée: Francisca na prisão e Jeanne no hospital.
     No dia 13 de março Francisca foi chamada a comparecer diante do tribunal dito “Comissão Clément”, onde foi acusada de ter ajudado a monarquia. Ela respondeu que tanto os vandeanos fieis ao soberano como os revolucionários eram todos seus irmãos em Jesus Cristo e consequentemente ela não recusava a nenhum a sua generosa ajuda. Foi-lhe então mandado que gritasse: “Longa vida a República!”, mas a religiosa recusou fazê-lo e foi então definitivamente condenada. O veredito da comissão a acusou de ter “escondido sacerdotes refratários e ajudado os revoltosos vandeanos”.
     A trágica execução ocorreu no mesmo dia e Francisca subiu o patíbulo cantando a Salve Regina. Tinha 37 anos. Sete dias depois Jeanne Véron também foi guilhotinada.
     Seus despojos são venerados na igreja de Saint-Pierre-des-Landes desde 1814. Ambas foram beatificadas em 19 de junho de 1955, junto com outros mártires da Diocese de Laval.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Santa Francisca Romana - Festejada 9 de março

     Santa Francisca nasceu em Roma, em 1384. Seu pai, Paulo Busa de Leoni, pertencia à nobreza romana. Teve uma educação elevada para uma jovem de seu tempo.
     Ainda pequena acompanhava a mãe nas visitas às várias igrejas de sua região, mas especialmente à longínqua igreja de Santa Maria Nova dirigida pelos beneditinos do Monte das Oliveiras, com os quais a mãe gostava de confessar-se.
     Francisca também ali encontrou seu diretor espiritual, o Padre Antonino de Monte Savello, que logo percebeu a vocação da menina à vida monástica. Mas, foi ele mesmo quem a convenceu a aceitar a vontade do pai, que, segundo os costumes da época, havia combinado o casamento de Francisca, então com 12 anos, com o jovem nobre Lourenço de Ponziani, cuja família se orgulhava de ter entre os ascendentes o Papa mártir Ponciano.
     A história de Francisca confunde-se com a da Cidade Eterna daquela época. Roma estava dividida em dois grupos que se digladiavam: os Orsini, em cuja facção Lourenço ocupava elevado posto, lutavam em favor do Papa Alexandre V; os Colonnas, seus adversários, apoiavam Ladislau de Nápoles.
     Após o casamento Francisca foi morar no palácio dos Ponziani, mas sua inclusão na nova família não foi fácil. Além desta dificuldade, havia o sofrimento por ter renunciado à vocação religiosa, que a levou a um profundo estado de prostração. Tentaram em vão tirá-la desta situação.
     Afinal, na alvorada do dia 16 de julho de 1398, Santo Aleixo lhe apareceu em sonho e disse a ela: "Deves viver! O Senhor quer que vivas para glorificar o Seu nome". Estendeu seu manto de ouro sobre a enferma e lhe restituiu uma saúde perfeita.
     Ao acordar, Francisca, acompanhada da cunhada Vanossa, dirigiu-se à igreja dedicada ao Santo peregrino para agradecê-lo. A partir de então sua vida mudou: aceitou a sua condição de esposa e aos dezesseis anos teve o primeiro filho, João Batista, depois outros dois, João Evangelista e Inês. Somente João Batista chegou à idade adulta e deixou posteridade. Cuidava ela mesma da educação dos filhos e preparou-os tão bem, que João Evangelista, que viveu somente nove anos, chegou a ter o dom da profecia.
     Eram anos dramáticos para Roma: o Cisma do Ocidente devastava a unidade da Igreja e o Estado Pontifício estava politicamente abandonado e economicamente em ruína.
     Por três vezes a Cidade Eterna foi ocupada e saqueada pelo Rei de Nápoles, e por causa das guerrilhas urbanas a cidade estava reduzida a um reduto de miseráveis. Papas e antipapas daquele período de Cisma combatiam entre si, e faltava uma autoridade central que restaurasse a ordem e a prosperidade.
     Numa batalha perdida, Lourenço ficou gravemente ferido e foi feito prisioneiro. Ladislau entrou vitorioso em Roma e levou como reféns os filhos das famílias mais distintas. Francisca viu-se obrigada a entregar seu filho João Batista. Depressa o recuperou, mas, numa segunda invasão dos napolitanos, voltou a perdê-lo depois de ver seu palácio saqueado. Mais tarde, teve seus familiares e bens restituídos.
     Apesar de seu marido estar ferido e aprisionado, junto com seu cunhado, o filho cativo e o palácio saqueado, ela não perdeu a paz de alma, a resignação e o fervor. Os saques de Roma ofereceram a ela a oportunidade de dar asas à sua caridade: procurava os desprotegidos, os enfermos, as crianças para mitigar-lhes a dor, aliviar a pobreza.
     Outras senhoras, desejosas de imitar sua generosidade, juntaram-se a ela, que as dirigia espiritualmente apartando-as das vaidades do mundo e ensinando-lhes as virtudes evangélicas da caridade e do sacrifício.
     Em 15 de agosto de 1425, diante do altar da Virgem, as senhoras que acompanhavam Francisca há tempos, constituíram a confraria das Oblatas Beneditinas Olivetanas, pronunciando uma fórmula de consagração que as agregava a Ordem Beneditina. As senhoras deveriam permanecer cada qual em sua própria casa, empenhando-se em viver as virtudes monásticas e na doação aos pobres.
     Em março de 1433 Santa Francisca pode reunir as Oblatas num local próximo à igreja paroquial de Santo André, e em 21 de julho do mesmo ano o Papa Eugênio IV aprovou a confraria com o título de Oblatas da Santíssima Virgem. Foi depois chamada Oblatas de Santa Francisca Romana.
     Com aquele grupo de senhoras, Francisca cultivava um campo do qual colhia frutas e verduras transportadas por um burrinho, e que ela pessoalmente entregava a uma longa fila de pobres.
     Francisca converteu várias mulheres perdidas, porém a algumas que não quiseram fazer penitência e emendar-se, empenhou-se para que fossem expulsas de Roma para que não pervertessem outras.
     Após o falecimento de seu sogro, Francisca passou a cuidar do Hospital do Santíssimo Salvador, fundado por ele, mas sem deixar as visitas domiciliares que fazia aos pobres.
     Enquanto fazia tão zelosas obras de amor concreto, pelas quais o povinho a chamava de "a pobrezinha de Trastevere", Francisca recebia graças excepcionais de Deus, que ela referia ao seu confessor Padre João Mariotto, pároco de Santa Maria em Trastevere, que as transcrevia.
     Estas confidências, publicadas em 1870, fazem referência às lutas dela contra o demônio; suas viagens místicas ao Inferno, com o seu fogo e os suplícios horríveis; ao Purgatório com o seu fogo claro, de tonalidade avermelhada e lhe foi dito que esse lugar de purificação era também chamado de pousada de esperança. Levada pela mão de Deus, penetrou no Paraíso. A sua visão mais sublime foi a do Ser divino antes da Criação dos anjos.
     Ela meditava constantemente sobre a Paixão de Cristo, e teve a honra de trazer as impressões das chagas de Nosso Senhor no corpo, e sentir as dores de sua Santa Mãe. Francisca teve a alegria de receber o Menino Jesus em seus braços na véspera do Natal de 1433.
     Esses dons extraordinários coexistiam com muitas desgraças. Quando seu marido foi ferido, em 1409, ficou semi-paralizado para o resto da vida, e foi amorosamente cuidado pela mulher e pelo filho durante vinte e cinco anos.
     Depois, Roma foi invadida pela peste. Sua generosa dedicação pelos enfermos a fez cometer a imprudência de abrir as portas de seu palácio aos empestados. Seus dois filhos, Inês e João Evangelista, foram vítimas do contágio, bem como ela mesma; ela conseguiu recuperar-se, não porém seus filhos queridos.
     João Evangelista morreu aos nove anos em odor de santidade; apareceu à sua mãe um ano depois, acompanhado de um anjo belíssimo "do segundo coro da primeira hierarquia". Ele comunicou que aquele Anjo a consolaria, e daquela data em diante estaria junto dela por toda a vida.
     Esse Anjo suplementar acompanhou-a durante 24 anos, sendo especialmente visível quando falava com o confessor e quando o demônio a molestava com fortes tentações. Era ele quem a sustentava quando o demônio a submetia até a agressões físicas.
     Francisca visitava todos os dias o mosteiro fundado por ela, mas continuou a morar no palácio Ponziani, onde cuidava de Lourenço. Em 21 de março de 1436, após a morte do marido, com quem vivera em harmonia por 40 anos, retirou-se de sua casa, deixando-a aos cuidados do filho João Batista e de sua esposa, e se reuniu às companheiras. Estas a nomearam Superiora Geral, cargo que desempenhou até sua morte.
     Viveu ali quatro anos, dedicando-se à formação de suas filhas segundo as luzes que Deus lhe dera, sustentando-as com seu exemplo nas obras de misericórdia e rezando pelo fim do Cisma na Igreja.
     Santa Francisca Romana ensinou às Irmãs a preparação de um ungüento especial; ela o usava para curar doentes e feridos. Este ungüento ainda hoje é preparado no mesmo recipiente usado por ela há mais de cinco séculos.
     A "Santa de Roma" não morreu no seu mosteiro. Seu filho João Batista adoeceu gravemente e ela foi ao palácio Ponziani para tratar dele. Pouco tempo depois o filho se recuperou, mas ela faleceu no dia 9 de março de 1440, no palácio de Trastevere.
     Seus despojos foram expostos por três dias na Igreja de Santa Maria Nova. Ela foi sepultada no altar principal da igreja que depois recebeu o seu nome.
     São Roberto Belarmino juntou ao seu voto favorável à sua canonização a declaração de que Francisca merecia as honras dos altares, pois podia ser apresentada como modelo de virtude a todas as idades e a todos os estados: viveu doze anos como donzela, quarenta num casto matrimônio e, após as tristezas da viuvez, quatro anos de perfeição religiosa.
     Em 29 de maio de 1608, Paulo V a proclamou Santa. Este Papa visitou repetidamente o sepulcro de Santa Francisca e junto dele celebrou Missa. O Papa Urbano VIII mandou erigir um altar com quatro colunas com uma estátua em bronze dourado que a representa em companhia do Anjo da Guarda que a assistira toda a vida.
     Santa Francisca Romana é considerada co-patrona de Roma; é invocada como protetora contra as pestes e como libertadora das almas do Purgatório. Desde 1951 é patrona dos automobilistas.

terça-feira, 6 de março de 2012

Santas Perpétua e Felicidade, mártires - Festejadas 7 de fevereiro

     Estas duas santas morreram martirizadas em Cartago (África) no dia 7 de março de 203. Perpétua era uma jovem mãe de 22 anos, que tinha um filhinho de poucos meses. Pertencia a uma família rica e muito estimada por toda a cidade. Enquanto estava na prisão, a pedido de seus companheiros mártires, foi escrevendo o diário de tudo o que ia acontecendo com eles. Felicidade era uma escrava de Perpétua. Era também muito jovem e na prisão deu à luz uma menina que depois os cristãos se encarregaram de criar muito bem.
     Uns escravos que foram aprisionados com elas as acompanharam em seu martírio, bem como o diácono Sáturo, que as havia instruído na religião e as havia preparado para o Batismo. Não tinham prendido Sáturo, mas ele se apresentou voluntariamente.
     Os antigos documentos que narram o martírio destas duas Santas eram imensamente estimados na antiguidade e Santo Agostinho disse que eram lidos nas igrejas com grande proveito para os ouvintes. Esses documentos narram o seguinte:
     No ano 202, o imperador Severo mandou matar aqueles que continuassem a ser cristãos e não quisessem adorar os falsos deuses.
     Perpétua estava celebrando uma reunião religiosa em sua casa de Cartago, quando chegou a polícia do imperador e a levou prisioneira, junto com sua escrava, Felicidade, e os escravos Revocato, Saturnino e Segundo.
     Diz Perpétua em seu diário: "Nos lançaram no cárcere e eu fiquei consternada, porque nunca havia estado em um lugar tão escuro. O calor era insuportável e estávamos em muitas pessoas em um subterrâneo muito estreito. Me parecia morrer de calor e de asfixia, e sofria por não poder ter junto de mim meu filhinho que era tão pequeno e que necessitava muito de mim. O que mais eu pedia a Deus era que nos concedesse uma coragem muito grande para sermos capazes de sofrer e lutar por nossa Santa Religião".
     Felizmente dois diáconos católicos chegaram no dia seguinte e deram dinheiro aos carcereiros para que passassem os prisioneiros para outra habitação menos sufocante e escura que a anterior, e foram levados a uma sala aonde pelo menos entrava a luz do sol e não ficavam tão apertados e incômodos. E permitiram que o filhinho de Perpétua fosse levado até ela, pois ele estava sofrendo muito a sua falta. Ela diz em seu diário: "Desde que tive meu pequenino junto de mim aquilo não me parecia um cárcere, mas um palácio, e eu me sentia cheia de alegria. E o menino também recuperou a sua alegria e o seu vigor". As tias e a avó se encarregaram depois da criança e de sua educação.
     O chefe do governo de Cartago chamou a juízo Perpétua e seus companheiros. A noite anterior Perpétua teve uma visão na qual lhe foi dito que teriam que subir por uma escada cheia de sofrimentos, mas que no final de dolorosa escalada estaria o Paraíso Eterno os esperando. Ela narrou a visão que tivera a seus companheiros, e todos se entusiasmaram e fizeram o propósito de permanecerem firmes na Fé até o fim.
     Os primeiros a comparerer foram os escravos e o diácono. Diante das autoridades todos proclamaram que eram cristãos e que preferiam morrer a adorar aos falsos deuses.
     Em seguida, chamaram Perpétua. O juiz suplicava que deixasse a religião de Cristo e que aceitasse a religião pagã, pois assim salvaria a sua vida. E lhe recordava que ela era uma mulher jovem e de família rica. Porém Perpétua proclamou que estava resolvida a ser fiel à religião de Cristo Jesus até a morte.
     Então chegou seu pai (o único da família que não era cristão) e de joelhos lhe rogava e suplicava que não persistisse em se chamar cristã, que aceitasse a religião do imperador, que o fizesse por amor a seu pai e a seu filhinho. Ela se comoveu intensamente, porém terminou dizendo-lhe: "Pai, como se chama essa vasilha que há aí em frente?" "Uma bandeja", respondeu-lhe o pai. "Pois bem, essa vasilha deve ser chamada de bandeja, e não de xícara, ou de colher, porque é uma bandeja. E eu, que sou cristã, não posso ser chamada nem de pagã, nem de nenhuma outra religião, porque sou cristã e quero ser para sempre". E acrescenta o diário escrito por Perpétua: "Meu pai era o único de minha família que não se alegrava porque nós íamos ser mártires por Cristo".
     O juiz decretou que os três homens seriam levados ao circo e ali, diante da multidão, seriam destroçados pelas feras no dia da festa do imperador; e que as mulheres seriam amarradas diante de uma vaca furiosa para que as destroçasse.
     Havia, entretanto um inconveniente: Felicidade ia ser mãe e a lei proibia matar aquela que ia dar à luz. Felicidade deu à luz uma linda menina, que foi confiada a cristãs fervorosas, e assim a mãe pode sofrer o martírio. Ela desejava, sim, ser martirizada por amor a Cristo.
     Então os cristãos rezaram com fé e era permitido aos condenados à morte fazer uma ceia de despedida. Perpétua e seus companheiros converteram sua ceia final em uma Ceia Eucarística. Dois santos diáconos levaram-lhes a Comunhão e depois de rezarem e de animar-se uns aos outros, se abraçaram e se despediram com o ósculo da paz. Todos estavam animados, alegremente dispostos a entregar a vida para proclamar a sua fé em Jesus Cristo.
     Os escravos foram lançados às feras que os destroçaram, e eles derramaram assim o sangue por nossa religião. Antes de levá-los à praça os soldados queriam que os homens entrassem vestidos de sacerdotes dos falsos deuses e as mulheres vestidas de sacerdotisas das deusas dos pagãos. Porém Perpétua se opôs corajosamente e ninguém quis colocar roupas de religiões falsas.
     O diácono Sáturo havia conseguido converter um dos carcereiros, chamado Pudente, e lhe disse: "Para que vejas que Cristo sim é Deus, te anuncio que me lançarão a um urso feroz, e essa fera não me fará nenhum mal".
     E assim aconteceu: amarraram-no e aproximaram-no da jaula de um urso muito agressivo. O feroz animal não lhe quis fazer nenhum mal, mas, pelo contrário, deu uma tremenda mordida no domador que tratava de fazê-lo se lançar contra o santo diácono. Soltaram então um leopardo, que destroçou Sáturo. Quando o diácono estava moribundo, untou com seu sangue um anel e o colocou no dedo de Pudente. Ele aceitou definitivamente a fé cristã.
     Perpétua e Felicidade foram envolvidas em uma malha e colocadas no centro da praça; os algozes soltaram uma vaca bravíssima que as chifrava sem misericórdia. Perpétua unicamente se preocupava em manter as roupas arrumadas para não dar escândalo por parecer pouco coberta. Ajeitava também os cabelos para não parecer despenteada como uma pagã chorona.
     A multidão, emocionada diante da valentia destas jovens mulheres, pediu que as tirassem pela porta por onde levavam os gladiadores vitoriosos. Perpétua, como que saindo de um êxtase, perguntou: "E onde está a tal vaca que ia nos chifrar?" Porém, logo o povo cruel pediu que as trouxessem de novo para a praça e lhes cortassem a cabeça ali, diante de todos.
Local do martírio das Santas
     As duas jovens valentes se abraçaram emocionadas e voltaram para a praça. Um golpe cortou a cabeça de Felicidade, porém o verdugo que devia matar Perpétua estava muito nervoso e errou o golpe. Ela deu um grito de dor, estendeu a cabeça sobre o cepo e indicou com a mão o local preciso onde o verdugo devia dar-lhe o golpe. Esta mulher valorosa demonstrou com este gesto que morria mártir por sua própria vontade e com toda generosidade.