sábado, 16 de junho de 2012

Beata Teresa de Portugal, Rainha e Cisterciense - Festa 17 de junho

     Não só nos mosteiros e conventos se refugiava e florescia a santidade na Idade Média. Nos palácios, as famílias reais deram muitos santos a Igreja. Em Portugal, três filhas de D. Sancho I (1154-1211), bem fidalgamente souberam se enfeitar com a riqueza e a beleza das virtudes cristãs, para se tornarem exemplos aos reis e aos povos. Nascidas e educadas na corte, duas delas chegaram mesmo a contrair matrimônio. Mas todas três renunciaram depois ao mundo, suas comodidades e enredos, para se consagrarem à perfeição religiosa. Foram elas Beata Sancha (1180-1229 festejada 11 de abril), Beata Teresa (1177-1250) e Beata Mafalda (1195-1256 festejada 2 de maio). Uma outra irmã, Branca de Portugal, também tornou-se religiosa.
     Hoje a Igreja comemora a Beata Teresa de Portugal, no século Teresa Sanches de Portugal. Ela é a menos conhecida das Santas que levam o seu nome, e às vezes é citada com a forma antiga do seu nome: Tarasia ou Tareja. Ela também ficou conhecida mais tarde como Infanta-Rainha ou Rainha Santa Teresa. Era a filha mais velha de Sancho I, segundo rei português; seus avós paternos foram Mafalda de Saboia, filha do Conde Amadeu III, e Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal.
     Da. Teresa nasceu em Coimbra no ano 1177. Prometida em casamento a seu primo Afonso IX, Rei de Castela e Leão, as núpcias foram celebradas em Guimarães no dia 15 de fevereiro de 1191; do casamento nasceram três filhos: Sancha, Dulce e Fernando. Em 1196 o matrimônio foi declarado nulo por “impedimentum affinitatis” e quatro anos depois Da. Teresa se retirou no convento beneditino de Lorvão, que ela mesma haveria depois de transformar em abadia cisterciense, e nela tomar o véu religioso. Este mosteiro foi um dos principais centros de produção de manuscritos e iluminuras na Idade Média no país, destacando-se o “Apocalipse do Lorvão” e o “Livro das Aves”. Na mesma altura, a sua irmã Da. Sancha fundava em Coimbra o mosteiro feminino de Celas.
     Por ocasião da morte do pai Sancho I, em 1211, a infanta Teresa deveria ter herdado, segundo disposição testamentária deste último, o Castelo de Montemor-o-Velho, e tudo o que compreendia tal posse, inclusive o direito ao título de ‘rainha’, enquanto senhora de tal castelo. Afonso II, seu irmão, desejando concentrar em suas mãos todo o poder, não aceitou tal testamento e impediu Teresa de tomar posse do seu título e dos direitos respectivos, como também o de suas irmãs Mafalda e Sancha.
     Em 1230, seu ex-esposo Afonso morreu depois de ter tido cinco filhos da sua segunda esposa, Berengária de Castela. Este segundo casamento foi também anulado devido à consanguinidade. Assim, os filhos de ambos os casamentos viriam a disputar a coroa (até porque Afonso deserdara o primogênito do seu segundo casamento, e legara o reino às duas filhas que tivera de Da. Teresa). Da. Teresa interveio e permitiu que São Fernando III assumisse o trono, incentivando assim a paz no reino de Castela e Leão.
     Resolvida esta querela dinástica, Da. Teresa retornou ao Mosteiro de Lorvão e finalmente tomou os votos conventuais após ter vivido anos como monja. Ali morreu em 18 de junho de 1250 de causas naturais. Os seus restos mortais foram colocados junto aos de sua irmã Da. Sancha. Ambas encontram-se sepultadas na capela-mor de Lorvão, guardando-se os restos mortais das Santas Rainhas em túmulos de prata, obra realizada em 1715 pelo ourives portuense Manuel Carneiro da Silva.
     A 13 de dezembro de 1705, Da. Teresa foi beatificada pelo Papa Clemente XI, através da bula Sollicitudo Pastoralis Offici, juntamente com a sua irmã Da. Sancha. O Martirológio Romano comemora a Beata Teresa no dia 17 de junho.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Beata Albertina Berkenbrock, Virgem e mártir - Festa 15 de junho

     Albertina Berkenbrock nasceu a 11 de Abril de 1919, em São Luís, Imaruí (Brasil), numa família de origem alemã, simples e profundamente cristã. Era filha do casal de agricultores, Henrique e Josefina Berkenbrock, e teve mais oito irmãos e irmãs. Foi batizada no dia 25 de maio de 1919, crismou-se a 9 de março de 1925 e fez a primeira comunhão no dia 16 de agosto de 1928.
     Há uma singular concordância entre os testemunhos dados nos vários processos canônicos por parte das testemunhas que a tinham conhecido e convivido com ela, ao descrevê-la como uma menina bondosa no mais amplo sentido do termo. A natural mansidão e bondade de Albertina conjugavam-se bem com uma vida cristã compreendida e vivida completamente. Da prática cristã derivava a sua inclinação à bondade, às práticas religiosas e às virtudes, na medida em que uma criança da sua idade podia entendê-las e vivê-las.
     Sabia ajudar os pais no trabalho dos campos e especialmente em casa. Sempre dócil, obediente, incansável, com espírito de sacrifício, paciente, até quando os irmãos a mortificavam ou lhe batiam ela sofria em silêncio, unindo-se aos sofrimentos de Jesus, que amava sinceramente.
     A frequência aos sacramentos e a profunda compenetração que mostrava ter na participação da mesa eucarística é um índice de maturidade espiritual que a menina tinha alcançado; distinguia-se pela piedade e recolhimento.
     O cenário no qual foi consumado o delito é terrivelmente simples, quanto atroz e violenta foi a morte de Albertina. No dia 15 de junho de 1931, estava ela apascentando os animais de propriedade da família quando o pai lhe disse para ir procurar um bovino que se tinha distanciado. Ela obedeceu. Num campo vizinho encontrou Idanlíci e perguntou-lhe se tinha visto o animal passar por ali.
     Idanlício Cipriano Martins, conhecido com o nome de Manuel Martins da Silva, era chamado pelo apelido de Maneco. Tinha 33 anos, vivia com a mulher próximo da casa de Albertina e trabalhava para um tio dela. Embora já tivesse matado uma pessoa, era considerado por todos um homem reto e um trabalhador honesto. Albertina muitas vezes levava-lhe comida e brincava com os seus filhos; portanto, era uma pessoa do seu conhecimento.
     Quando Albertina lhe perguntou se tinha visto o boi, Maneco responde que sim, acrescentando que o tinha visto ir para o bosque próximo dali e ofereceu-se para acompanhá-la e ajudar na busca. Mas, ao chegarem perto do bosque, fez-lhe proposta libidinosa, e a seguira com intenção de lhe fazer mal. Albertina não consentiu e Maneco então a pegou pelos cabelos, jogou-a ao chão e, visto que não conseguia obter o que queria porque ela reagia, pegou um canivete e cortou o seu pescoço. A jovem morreu imediatamente. Dos testemunhos dos companheiros de prisão de Maneco foi revelado que a menina não aceitou o convite dizendo que aquele ato era pecado. A intenção de Maneco era clara, a posição de Albertina também: não queria pecar.
     Durante o velório, Maneco controlava a situação fingindo velar a vítima e ficando por perto da casa. Porém, antes que descobrissem quem era o assassino, algumas pessoas notaram um fenômeno: todas as vezes que ele se aproximava do cadáver de Albertina a grande ferida do pescoço começava a sangrar.
     No funeral de Albertina participou um elevado número de pessoas e todos diziam já que era uma "pequena mártir", pois dado o seu temperamento, a sua piedade e delicadeza, estavam convencidos de que tinha preferido a morte ao pecado. Albertina sacrificou a vida somente pela virtude.
     Com o decreto de beatificação assinado por Bento XVI, no dia 16 de dezembro de 2006, Albertina Berkenbrock foi beatificada em 20 de outubro de 2007.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Beata Maria Cândida da Eucaristia, Carmelita Descalça - Festa 12 de junho

     Nasceu no dia 16 de janeiro de 1884, em Catanzaro (Itália), cidade para onde a família, originária de Palermo, se transferiu por um breve período de tempo devido ao trabalho do pai, Pedro Barba, que era Conselheiro do Tribunal de 1ª Instância; foi batizada três dias depois com o nome de Maria Barba. Sua mãe chamava-se Joana Florena. Maria era a décima de doze filhos.
     Quando a menina completou dois anos, a família retornou para a capital siciliana e ali Maria viveu a sua juventude. Aos quinze anos manifestou a sua vocação religiosa à qual seus pais, apesar de serem profundamente religiosos, se opuseram com determinação. De fato, Maria teve que esperar quase vinte anos para poder realizar a sua aspiração, demonstrando, nestes anos de expectativa e de sofrimento interior, uma força de ânimo surpreendente e uma fidelidade incomum. Depois da morte de sua mãe, seguindo o conselho do Cardeal Alessandro Lualdi, entrou finalmente no Mosteiro das Carmelitas Descalças de Ragusa, que tinha surgido havia pouco tempo e era muito pobre.
     Entrou no Carmelo a 16 de abril de 1920, onde assumiu o nome de Maria Cândida da Eucaristia, em certos aspectos profético. Em 17 de abril de 1921 pronunciou a profissão simples e a solene no dia 23 de abril de 1924.
     O amor pela Eucaristia manifestou-se nela desde a primeira infância quando, com 10 anos, foi admitida à Primeira Comunhão e a sua maior alegria era poder comungar. Desde então, privar-se da Santa Comunhão tornou-se para ela "uma cruz pesada e angustiante".
     Maria Barba, sempre estimulada por uma devoção especial ao mistério eucarístico, no qual ela via o mistério da presença sacramental de Deus no mundo e a concretização do seu amor infinito pelos homens, motivo da nossa confiança plena nas suas promessas, constrói alguns anos mais tarde um novo mosteiro, que ainda hoje existe.
     Irmã Maria Cândida quis "fazer companhia a Jesus no seu estado de Eucaristia quanto mais fosse possível". Prolongava as suas horas de adoração e, sobretudo, das 23 às 24 horas de cada quinta-feira, prostrava-se diante do Tabernáculo em adoração. A Eucaristia polarizava verdadeiramente toda a sua vida espiritual, não tanto pelas manifestações devocionais, quanto pela incidência vital da relação da sua alma com Deus. Foi da Eucaristia que Maria Cândida encontrou as forças necessárias para se consagra a Deus como vítima no dia 1 de novembro de 1927.
     Seis meses depois da profissão solene, em 10 de novembro de 1924 foi nomeada pela primeira vez Priora do seu Mosteiro: um cargo que aceitou e uma responsabilidade que desempenhou em sinal de obediência a Deus, com dedicação total e grande seriedade. Durante os três primeiros anos como Priora, assumiu também o cargo de Mestra de noviças.
     Desenvolveu plenamente o que ela mesma definia como a sua "vocação pela Eucaristia", ajudada pela espiritualidade carmelita – são muito conhecidas as páginas em que Santa Teresa de Jesus descreve a sua especialíssima devoção à Eucaristia e como na Eucaristia a Santa Fundadora experimentasse o mistério fecundo da Humanidade de Cristo – na qual se apoiou depois da leitura de "História de uma Alma" de Santa Teresinha do Menino Jesus.
     Durante os anos em que guiou o seu mosteiro, de 1924 a 1947, salvo uma breve interrupção, infundiu na sua comunidade um profundo amor pela Regra de Santa Teresa de Jesus e contribuiu de modo direto para a expansão do Carmelo Teresiano na Sicília, a fundação de Siracusa, e para o retorno do ramo masculino da Ordem na região.
     A partir da solenidade do Corpus Christi de 1933, Maria Cândida começou a escrever a sua pequena "obra-prima" de espiritualidade eucarística, "A Eucaristia, verdadeira joia de espiritualidade vivida". Trata-se de uma longa, intensa meditação sobre a Eucaristia, uma recordação da experiência pessoal e um aprofundamento teológico dessa experiência.
     Na Eucaristia, a Beata vê sintetizadas todas as dimensões da experiência cristã. A Fé: “Ó meu Amado Sacramento, eu Te vejo, eu creio em Ti! Ó Santa Fé!”. “Contemplar com Fé redobrada a nosso Amado no Sacramento: viver com Ele que vem cada dia”. A Esperança: “Ó minha Divina Eucaristia, minha querida esperança, tudo espero de Ti! Desde menina foi grande minha esperança na Santíssima Eucaristia”. A Caridade: “Jesus meu, quanto Te amo! É um imenso amor o que eu nutro em meu coração por Ti, ó Amor Sacramentado! Quão grande é o amor de um Deus feito pão para as almas! De um Deus feito prisioneiro por mim!”
     Sem dúvida a Virgem Maria é o verdadeiro modelo de vida eucarística. Ela levou em seu seio o Filho de Deus e continuamente o engendrava nos corações de seus discípulos. “Eu quisera ser como Maria” – escreve a Beata em uma das páginas mais intensas e profundas de A Eucaristia – “ser Maria para Jesus, ocupar o lugar de sua mãe. Em minhas Comunhões, tenho sempre Maria presente. De suas mãos quero receber Jesus, Ela deve fazer de mim uma coisa só com Ele. Eu não posso separar Maria de Jesus. Salve, ó Corpo nascido de Maria! Salve Maria, aurora da Eucaristia!”
     Para a Beata Maria Cândida, a Eucaristia é alimento, é encontro com Deus, é fusão de coração, é escola de virtude, é sabedoria de vida. “O Céu mesmo não possui mais; Aquele tesouro único está aqui, é Deus! Verdadeiramente, sim verdadeiramente: meu Deus e meu Tudo”. “Peço a meu Jesus ser colocada como sentinela de todos os sacrários do mundo até o fim dos tempos”.
     No dia 12 de junho de 1949, na Solenidade da Santíssima Trindade, depois de alguns meses de sofrimentos físicos atrozes, Maria Cândida da Eucaristia faleceu.
     Em 5 de março de 1956 Mons. Francisco Pennisi, Bispo de Ragusa, abriu o processo ordinário diocesano concluído em 28 de junho de 1962. Foi beatificada em Roma no dia 21 de março de 2004. A Igreja a celebra no dia 12 de junho e o Carmelo Descalço no dia 14 de junho.  

domingo, 10 de junho de 2012

Santa Paula Frassinetti, Fundadora - Festejada 11 de junho

     Igreja de Santa Clara em Albaro (Gênova), 12 de agosto de 1834: nasce uma comunidade de futuras irmãs educadoras. Elas são sete; abrem escolas para crianças pobres, logo recebem novas aspirantes, algumas das quais adoecem, outras vão embora... E o pai da fundadora a faz voltar para casa. Assim nasceram as Filhas da Santa Fé, depois Irmãs de Santa Doroteia, fundadas por Paula Frassinetti, de 25 anos, de saúde frágil, de modos tímidos e doces, mas de uma força de vontade férrea.
     Paula Ângela Maria Frassinetti nasceu em 3 de março de 1809, na cidade de Gênova, Itália. Aos nove anos perdeu a mãe e com o falecimento de uma tia que cuidava da casa, Paula assumiu suas tarefas aos 12 anos... Seu pai incutiu nos filhos profundos princípios católicos e todos seguiram a vida sacerdotal. O mais velho foi o fundador da Congregação dos Filhos de Maria Imaculada.
     Paula tinha uma inteligência aguçada e uma preferência para o estudo da filosofia e da teologia. O pai não consentiu que frequentasse as escolas de Gênova, receando as ideias novas trazidas pelos soldados de Napoleão. Seu pai e seus irmãos assumiram sua educação.
     Em 1827, seu irmão José, já sacerdote, foi encarregado da paróquia da aldeia de Quinto, perto de Gênova. Enfraquecida por um teor de vida rígido, Paula adoeceu gravemente. O irmão convenceu o pai a deixá-la ir para aquela aldeia, para mudanças de ares. A casa do pároco ficava ao lado da igreja e Paula podia ver o sacrário de seu quarto. A pedido do irmão abriu uma escola paroquial para as crianças da aldeia, iniciando uma ação fecunda de apostolado com um pequeno grupo de fiéis seguidoras.
     Em 1834, aos 25 anos, à frente daquele grupo, Paula fundou uma congregação religiosa com o nome de Filhas da Santa Fé, com o propósito de "evangelizar por meio da educação, com preferência pelos jovens e pelos mais pobres".
     Cerca de um ano depois, o Pe. Luca de Passi visitou Gênova. Este sacerdote se preocupava com a situação das crianças do meio operário e criava na Itália comunidades apostólicas de Santa Dorotéia, com a finalidade de formar animadoras jovens também operárias, auxiliadas por adultos. Pe. Passi temia pelo futuro dessa obra e pediu a Paula que se responsabilizasse por ela. Após consultar o irmão e as companheiras Paula aceitou e o antigo Instituto das Filhas da Santa Fé passou a ser chamado de Irmãs de Santa Dorotéia.
     Após as dificuldades inerentes a todo início de grandes empreendimentos, a obra se expandiu e foram abertos novos colégios pelas religiosas. Primeiro em Gênova, depois em Roma, sendo que o de Santo Onofre, instituído em 1844, em Roma, foi mais tarde escolhido para ser a Casa-mãe da instituição.
     Inspirada nas regras de Santo Inácio, fundador da Companhia de Jesus, Paula elaborou os estatutos das Irmãs de Santa Dorotéia à semelhança das religiosas francesas do Sagrado Coração. Estabelecida em Roma com seu instituto, Madre Paula foi recebida pela primeira vez pelo papa Gregório XVI, por quem foi abençoada, recebendo novo estímulo para sua obra.
     O ano de 1848, devido as lutas pela unificação da Itália, foi muito doloroso para as Irmãs de Gênova. Num clima de intolerância, as Doroteias foram expulsas das suas casas e só pouco a pouco conseguiram reunir-se de novo.
     Logo a força de sua obra foi reconhecida e difundiu-se com a criação de novas casas por toda a Itália. Em 10 de janeiro de 1866 seis Irmãs chegaram ao Brasil, e em 16 de junho do mesmo ano as Doroteias chegavam em Portugal. Daí por diante se propagou por todos os continentes, com suas missionárias animadas por suas palavras, que ainda ecoam entre elas: "O Senhor as encha do seu Espírito e as converta em outras tantas chamas ardentes que, onde tocarem, acendam o fogo do amor de Deus".
     No dia 11 de junho de 1882, aos setenta e três anos de idade, Madre Paula faleceu em Roma, sendo sepultada no cemitério de São Lourenço. Em 1903, seus restos mortais foram exumados, e seu corpo foi encontrado intacto. Três anos depois, foi transferido para a capela da Casa-mãe do Instituto de Santo Onofre, em Roma.
     Muitas foram as graças e milagres atribuídos à intercessão de Madre Paula, e sua veneração tornou-se vigorosa entre os fiéis. Em 1930, foi beatificada pelo papa Pio XI. Depois, em 11 de março de 1984, Paula Frassinetti foi canonizada durante uma comovente cerimônia solene em Roma.

     ... Àquelas de entre as noviças que estão prestes a fazer os Santos Votos, quantas coisas belas quereria dizer! Mas, para não alongar demasiado a conversa, apenas direi que procurem preparar-se com redobrado fervor para um ato tão grande, que se lembrem de que, no feliz dia em que fizerem o seu holocausto, se tornarão verdadeiras esposas do Cordeiro Imaculado. Por isso, o seu maior empenho deverá consistir em procurar sempre, em todas as coisas, o maior gosto do seu Divino Esposo, que se delicia entre os lírios e quer que as suas esposas O sigam sempre com a sua cruz sobre os ombros, ainda que o caminho por onde tenham de passar seja eriçado de espinhos. Mas, se elas procurarem seguir as suas pegadas divinas, os espinhos transformar-se-ão em rosas. ...
Carta de Sta. Paula Frassinetti de 31 janeiro 1876.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Religiosas vicentinas e a 1ª escola feminina de Minas Gerais

     Há tempos que este blog desejava prestar uma homenagem às pioneiras que trouxeram a Congregação das Filhas de São Vicente de Paulo para Mariana e para o Brasil. Estas insignes e desconhecidas heroínas deixaram sua pátria, singraram o Atlântico e, em meio às dificuldades do século XIX, desenvolveram um trabalho educacional que é um sucesso de 162 anos, completados neste ano de 2012.
     Em fevereiro de 1849, doze religiosas oriundas da França chegavam ao Rio de Janeiro, após três meses de travessia do Oceano Atlântico. Depois, desde o Rio de Janeiro, sobre o lombo de animais em trilhas nas montanhas, chegavam a Mariana para fundar a primeira escola feminina do Estado.
     O Museu Casa da Providência criado em 1999, localizado na primeira construção do Colégio, do século XIX, conta muito da história da Instituição e da vida das missionárias pioneiras. Tempos difíceis que elas enfrentaram e cujos esforços resultaram numa sólida Instituição cujo lema “tradição e renovação”, aparentemente formado por palavras antagônicas, garantiu o sucesso do empreendimento e a qualidade do ensino.
     Tudo começou com o convite de Dom Antonio Ferreira Viçoso (1787-1875) (¹), Bispo Arquidiocesano de Mariana, à Congregação com sede em Paris, para desenvolver no Brasil um trabalho educacional. O bispo justificou a iniciativa com a afirmação de que "somente educando a mulher, oferecendo-lhe uma boa condição cultural é que teremos uma sociedade mais civilizada e preparada para dar à pátria cidadãos completos". "Não vos esqueçais de que a mulher, sobretudo a mãe, será sempre a primeira mestra", destacou ainda.
     Conta-se em Mariana que ao chegarem à cidade no dia 3 de abril de 1849 as irmãs vicentinas foram recebidas por Dom Viçoso de joelhos e em lágrimas. Ele teria dito: “A educação dos jovens está salva”.
     O colégio seria exclusivamente feminino, mas um dos principais objetivos era a formação de educadoras que pudessem realizar um efeito multiplicador, o que realmente aconteceu, pois sua fama transpôs as fronteiras de Minas e as famílias abastadas de outros Estados mandavam as filhas para o internato, que chegou a abrigar até 200 estudantes.
     No período de sua adaptação e aprendizado do idioma as religiosas visitavam pobres e doentes. Finalmente, no dia 10 de março de 1850, foi fundado o Colégio Providência, o primeiro do Estado para meninas, com funcionamento em regime de internato. O início modesto da Instituição, numa casa simples no mesmo quarteirão onde ainda hoje está o Colégio Providência, tornou-se o berço das Filhas da Caridade no país.
     No museu temático podemos admirar as montarias originais da primeira viagem das religiosas, livros, baús, tapetes, documentos, paramentos, o diário de bordo da Irmã Dubost, a primeira diretora do Colégio, e até um quarto de dormir, segundo os costumes do século XIX. Há um armário contendo perfumes, essências e outros produtos que as religiosas francesas faziam para obter recursos e manter a escola no início dos trabalhos. A Coroação de Nossa Senhora, a celebração tradicional da Igreja Católica, aconteceu pela primeira vez em Mariana, segundo documento constante do acervo do museu. Tudo enfim retrata a vida das religiosas nos seus primeiros anos em Mariana.
     Em 2012, outra data marca o desenvolvimento do projeto inicial: em 1902, há 110 anos, o Colégio se tornou Escola Normal, equiparado à Escola Normal Modelo, hoje Instituto de Educação de Belo Horizonte.
     Em tese de doutorado na UFMG, a professora do Centro Universitário de Belo Horizonte, Ana Cristina Pereira Lage, revela que a Congregação se implantou no Brasil oito anos antes de fazê-lo em Portugal. “O objetivo inicial de Dom Viçoso, um grande reformador da educação, era ter gente para cuidar das órfãs, pois não havia instituição específica. Sem recursos, as irmãs acreditavam que a futura construção da escola seria auxiliada pela Providência Divina”, explica a professora.
     O governo provincial ajudou com algum dinheiro e o bispo batalhou por novas quantias. O Colégio então abriu as portas para meninas ricas, pois, diz a professora, “Nessa época os anseios da sociedade estavam mudando: para os pais, era importante ter filhas estudando com religiosas francesas, então as mandavam para o colégio”. Na sua pesquisa, Ana Cristina constatou que o segundo colégio feminino em Minas foi o de Macaúbas, em Santa Luzia, na Grande BH. Antes recolhimento, ele teve salas de aula de 1863 a 1926 até se tornar mosteiro. 
Formação para a vida
     Atualmente a gestão da escola, anteriormente restrita às Irmãs, tem a participação de leigos. Nesses 162 anos, o Colégio formou alunos que se tornaram sacerdotes, médicos, engenheiros, professores. Há também a preocupação com a inclusão social: alunos bolsistas, clínica de atendimento psicopedagógico, e outros programas.
 A ex-aluna e atual assessora de administração contábil Kátia Simone dos Santos, que estudou como bolsista de 1979 a 1990, elogia a Instituição que considera sua segunda casa, e define em poucas palavras sua relação com o colégio: “Formação para a vida. Aqui temos a autoestima elevada”.
     A professora emérita de língua portuguesa e lingüística da Universidade Federal de Ouro Preto, Hebe Maria Rola Santos, formou-se normalista em 1949, ano do centenário do colégio. E lembra-se do uniforme: saia de casimira bem abaixo do joelho, blusa de fustão branco, sapatos de verniz preto e meia de três quartos. “Um sol de rachar, a gente de meião e ninguém reclamava”, recorda, bem-humorada. Ela conta que as internas só saíam à rua acompanhadas por uma das freiras ou em grupos. Mas eram admiradas. “As alunas eram o charme de Mariana na época”. A professora avalia que o colégio formava “para o lar”, ensinando, por exemplo, a fazer sabão e creme dental, além das aulas de trabalhos manuais e economia doméstica. Isso, no entanto, não impedia que se tornassem, como ela, professoras universitárias, graças à base sólida do ensino.
     (¹) A cidade de Mariana e o Estado de Minas Gerais orgulham-se, “com fundadas razões”, terem tido o religioso português “como educador e pastor” por mais de 30 anos. “Seus pés missionários palmilharam incansáveis todos os caminhos de Minas, visitaram remotos lugarejos, procuraram, sem discriminação, a todos que dele precisavam, em especial os pobres e os que padeciam da verdadeira sede de Deus”. D. Antonio Viçoso morreu em julho de 1875, aos 88 anos. O seu túmulo encontra-se na cripta da Catedral Basílica de Mariana. Existe um processo para sua beatificação, pois a sua memória permanece “viva”, pelo seu humanismo, a luta contra a escravatura e as preocupações com a educação.
Fontes: "Estado de Minas” de 04/4/2009, caderno Gerais e artigo de Gustavo Werneck de 03/3/2012.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Beata Ana de S. Bartolomeu, Carmelita Descalça - Festa 7 de junho

     É um satélite que se move por completo na órbita de Santa Teresa de Jesus. Tem com ela um ponto de contato excepcional: a vida de ambas está dominada pelos fenômenos místicos, constituindo válido testemunho da existência do sobrenatural, prova patente da presença de Deus no mundo das almas. Ambas nos descreveram as suas experiências. Teresa como mestra, com a exatidão e riqueza das suas minuciosas descrições; Ana com a simplicidade da sua mente inculta e campestre, mas com sinceridade encantadora.
     Nasceu Ana em Almendral, aldeia da província de Toledo, no 1o de outubro de 1549, duma família cristã e campestre, de costumes austeros e profunda piedade, sendo a sexta entre sete irmãos. A sua vida fica marcada desde os alvores com o sinal do sobrenatural. E quando completou sete anos, encontravam-na consequência chorando e, perguntada pelo motivo, respondia: «Porque tenho medo de pecar e condenar-me».
     Quando tinha apenas dez anos, perdeu os pais, e seus irmãos obrigaram-na a guardar o rebanho que a família possuía. Ana aprendeu, contatando com a natureza, a relacionar-se com Deus, a quem via presente na criação. Gostava de passar as horas mortas com o pensamento no céu, absorta em contemplação, e já desde essa altura se entranhou em contínuos colóquios com Jesus Cristo, que, segundo ela nos assegura, lhe aparecia continuamente em figura de menino que lhe falava. Sentia-O junto a si e tornava-O participante dos seus pensamentos e preocupações.
     Ao chegar aos 21 anos, os irmãos quiseram casá-la e buscaram-lhe para marido um moço galhardo e de boa posição. Durante muito tempo continuou a insistência dos seus familiares e foi tanta a guerra que lhe fizeram que faltou muito pouco para que se rendesse: «Se eu encontrasse um homem muito rico, muito agradável, muito santo e que me ajudasse para o serviço de Deus, gostaria de tal companhia». Mas Cristo, que na sua infância se lhe fazia sentir como menino, mostrou-se lhe agora com traços juvenis e sussurrou-lhe ao ouvido: “Eu sou quem tu queres e comigo te hás-de desposar” e desapareceu.
     Desde então, todos os seus pensamentos e desejos se encaminharam para o claustro e, por conselho do confessor, dirigiu-se para o convento de S. José de Ávila, pedindo ser admitida entre as filhas de Santa Teresa.
     A Beata não sabia ler nem escrever, o que trazia grande inconveniente para ser admitida, não podendo tomar parte no coro. Mas a santa Madre, que nunca tinha querido admitir analfabetas nos seus conventos, fez uma exceção com ela, para não perder uma vocação tão privilegiada, e recebeu-a para «freira», como se dizia, sendo a primeira analfabeta entre as descalças. Questão económica não existiu, porque trouxe o dote correspondente.
     No convento impôs-lhe o Senhor duras provas espirituais, retirando-lhe o suave sentimento da sua presença e apresentando-se lhe como Cristo doloroso que a convidava a caminhar pela senda da cruz. Numa visão mostrou-Se aflitíssimo e descarregou-lhe no coração a pena que sentia: «Olha para as almas que se Me perdem! Ajuda-Me. Mostrou-me a França como se estivesse presente ali, e milhões de almas que se perdiam nas heresias».
     Deus provou-a com graves doenças, efeito da sua vida de oração, em que passava mesmo as horas da noite, e não era muito robusta. Mas um dia a Madre Teresa, encontrando-se enferma a nossa Beata, ordenou-lhe por obediência que se transformasse em enfermeira das demais e, vencendo ela a sua debilidade, mostrou tal empenho no ofício que se transformou em «Prioresa das noviças», como gentilmente lhe chamava Santa Teresa.
     Foi a Santa quem lhe moldou o espírito com ensinamentos e familiaridade, pois converteu-a em sua confidente, sua enfermeira, sua ajudante na cela e até sua secretária. Ela mesma confessa: «A Santa estava já tão habituada aos meus pobres e grosseiros serviços, que não se podia ver sem mim».
     Como a Beata Ana não sabia escrever, lamentava-se Teresa disso, porque desejava que a ajudasse a despachar a sua abundante correspondência. Para dar gosto à Madre, empenhou-se com tal entusiasmo em aprender a escrever, que chegou a isso apenas copiando a letra da Santa. E conseguiu-o com tal rapidez, que todos o tomaram como verdadeiro milagre.
     Quando em 1579 foi autorizado de novo a Santa Teresa retomar a visita dos seus conventos e a sua atividade de fundadora - depois do imposto repouso de dois anos em Ávila - quis levar como companheira a Beata Ana de S. Bartolomeu, que andou com ela nas últimas peregrinações, as mais duras e trabalhosas, através de todos os caminhos de Castela. À pena da Beata devemos as vivas descrições destes trabalhos, que são complemento dos que traça Teresa no Livro das Fundações.
     Ana acompanhou-a em três fundações, e a sua presença tomou-se tão necessária à Santa que esta não sabia pôr-se a caminho sem ter a sua companhia.
     Na última doença de Santa Teresa, a Beata não se apartou do seu lado, esquecendo-se de comer e dormir; e tal era a consolação que lhe dava ver-se por ela atendida que, ao apartarem-se, reclamava insistentemente a sua presença. Acompanhou-a na agonia e conservou reclinada em suas mãos a cabeça da santa Madre, até que nelas expirou.
     Falecida a Santa, converteu-se Ana em oráculo para as descalças, que a ela acudiam na ambição de conhecer pormenores da vida e do ensino da sua Madre, que ela melhor que ninguém conhecia.
     Quando o Cardeal de Bérulle veio a Espanha para levar a França um grupo de carmelitas, recordou-se Ana da revelação que, a respeito da França, lhe tinha comunicado o Senhor em tempos passados, e dos desejos de Santa Teresa. Acolheu ela a ida com entusiasmo, formando parte da primeira expedição.
     Na França, obrigaram-na os Superiores a tomar o véu preto de corista e nomearam-na prioresa, primeiro de Pontoise e depois de Paris. A Madre Ana teve de habituar-se ao trato com as damas e as personagens da corte, que entraram na moda de visitar as descalças e sujeitar-se à direção das mesmas. As primeiras vocações francesas para o Carmo pertenciam à nobreza, e foi Ana encarregada da formação delas, transfundindo para as mesmas o espírito teresiano de que o seu transbordava.
     Grave dificuldade apresentava a permanência em França da descalcez. O Cardeal de Bérulle, uma das maiores figuras da espiritualidade francesa, quis amoldar as carmelitas ao seu próprio espírito, embora seguindo a linha de Santa Teresa. As espanholas estavam habituadas à direção dos padres e não podiam habituar-se a viver sem consultar o seu espírito com eles. A Beata Ana aguentou quanto pôde; mas não compreendeu bem que podia o Carmo de França continuar com os seus próprios meios; aceitou por isso o convite a trasladar-se para a Bélgica, onde lhe seria possível dirigir-se com os descalços, já aí existentes.
     Chegou à Bélgica aos 63 anos de idade e foram os anos que lá viveu, até à morte, os mais fecundos que teve na vida. A sua recordação anda unida na Bélgica com a fundação de Antuérpia, por ela realizada, fundação que depressa se converteu em potente fogo de irradiação espiritual. Da grade do locutório e através da correspondência, exerceu poderosa influência sobre a sociedade belga, colaborando no desenvolvimento da espiritualidade e vida de oração entre aquelas gentes, que se distinguiram sempre entre as mais dispostas para a vida sobrenatural.
     Quando Maurício de Nassau intentou por três vezes tomar por surpresa a fortaleza de Antuérpia, a população atribuiu às orações da Beata e das suas religiosas a libertação, e a infanta e os generais vieram ao locutório agradecer-lhes a intervenção.
     Morreu a Beata Ana de S. Bartolomeu a 7 de junho de 1626, precisamente no dia da Santíssima Trindade, cuja presença sentiu de maneira especial na alma durante os últimos anos da existência.
     A memória dela perdura viva no Carmo e na cidade de Antuérpia, que nos dias terríveis da guerra mundial voltou a recomendar-se a ela, atribuindo à sua mediação protetora ter-se visto livre da destruição. Foi beatificada em 1917 pelo papa Bento XV.

Fonte: Pe. José Leite S.J., Santos de cada dia

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Santas Valeria e companheiras, Mártires de Cesareia - Festa 5 de junho

     No Martirológio Romano, as Santas Valéria, Zenaide, Círia e Márcia são comemoradas no dia 5 de junho. Estas mártires de Cesareia da Palestina sofreram muitas torturas que culminaram na sua gloriosa morte.
     Os antigos Sinassários (*) relatam que Círia, Valéria e Márcia tendo conhecido a religião cristã deixaram o paganismo e depois de terem sido preparadas receberam o batismo. A adesão à Fé as transformou e passaram a viver em jejuns, orações e penitências.
     Foram denunciadas durante uma das perseguições, processadas e condenadas à morte depois de vários suplícios. A época do martírio não consta dos relatos. Os Sinassários bizantinos ao contrário do que consta do Martirológio Romano, não indicam Santa Zenaide junto com estas três mártires, sendo ela indicada como fazendo parte de outro grupo de cinco mártires que não são as citadas acima. Santa Zenaide é recordada sozinha no dia 5 de junho no célebre Calendário Marmóreo de Nápoles.

(*) Sinassário é o nome dado pelo Cristianismo oriental (Igrejas Católicas orientais, Igrejas Ortodoxas e Igrejas orientais antigas) a uma coleção de hagiografias assimiláveis ao Martirológio da Igreja latina.