quarta-feira, 18 de julho de 2012

Beata Stilla de Abenberg, Virgem - Festejada 19 de julho

     Os documentos medievais não mencionam a Beata Stilla (alguns a chamam de Santa), nem se conhece muitos dados de sua vida transcorrida na metade do século XII. Contudo, tem-se conhecimento de seu falecimento pelo ano de 1140 e seu sepultamento na Igreja de São Pedro e São Paulo, que ela mandara construir, e que se encontra sobre o monte junto ao seu castelo.
     Numa relação escrita em 1480 pelo Vigário Geral ao Bispo de Eichstätt, há a menção de uma peregrinação ao túmulo da Beata feita anos anteriores e da fundação, próximo da igreja, do Convento de Marienburg.
     A mais antiga versão da vida da Beata foi escrita pela freira agostiniana Mônica Farcket († 1636) em 1593. O culto à Beata Stilla, conforme documentado desde 1488, se estendeu a Mônaco, Augusta, Würzburg e Nuremberg. Ainda hoje é muito vivo na região de Abenberg, da qual é patrona.
     Em 1893 foi aberto um processo informativo sobre seu culto, que foi aprovado no dia 12 de janeiro de 1927 pelo Papa Pio XI.
De nobre ascendência
     Stilla pertencia à família dos condes de Abenberg que deu muitos padres, bispos e homens santos à Igreja. Abenberg situa-se no centro da Baviera, na Alemanha Ocidental, próximo do rio Abens, afluente do Danúbio. Seu pai chamava-se Zelchus Graf zu Abenberg; tinha duas irmãs, das quais não se sabe os nomes, e dois irmãos, Adalberto e Conrado.
     Em 1136, Stilla mandou construir, sobre um monte junto ao seu castelo, uma igreja que foi consagrada e dedicada a São Pedro e São Paulo. Ela ia a essa igreja todos os dias e foi ali, na presença de Santo Otto († 1139), Bispo de Bamberg, que ela fez seu voto de virgindade. Segundo um documento antigo, ela fez também doações ao convento de Heilsbrunn.
     Stilla vivia como uma religiosa no castelo de seu pai, atendendo caridosamente todos os desafortunados. Segundo a tradição, ela vivia devotamente com outras duas virgens, provavelmente suas duas irmãs. Ela desejava construir um mosteiro onde ela pudesse terminar os seus dias, mas a morte prematura impediu-a de realizar seus desejos.
     Seus irmãos queriam enterrá-la em Heilsbrunn, mas os cavalos que conduziam o carro funerário não puderam puxá-lo naquela direção, voltando-se sempre para a Igreja de São Pedro onde eles então a sepultaram. Seu sepulcro tornou-se local de peregrinação, e, nos séculos seguintes, muitos foram os testemunhos do culto tributado a jovem e nobre virgem de Abenberg.
     Em 1884, seu túmulo foi descoberto na Igreja de São Pedro, já mencionada, e que hoje é conhecida como de Santa Stilla. Posteriormente encontrou-se uma pedra tumular, em parte danificada por um incêndio havido na igreja em 1675.
     Em 1897, o Bispo de Eichstätt pode estabelecer que a veneração da Beata existia antes de 1534. As relíquias da Beata foram distribuídas entre a Paróquia de Abenberg, a Catedral de Eichstätt e a Igreja de Santa Stilla.
     O Convento de Marienburg, ocupado desde 1488 pelas Irmãs Agostinianas, secularizado em 1805, na época napoleônica, desde 1920 é ocupado pelas Irmãs Misericordiosas de Na. Sra. das Dores.
     Nos diversos monumentos, pinturas, pedras tumulares etc., Santa Stilla às vezes é representada como uma virgem com roupas principescas, outras vezes como monja tendo uma igreja nas mãos ou um lírio.
     Uma curta menção a Santa Stilla, reportando alguns milagres, pode ser encontrada na Acta Sanctorum, Julho, vol. iv. O decreto confirmando seu culto e contendo um resumo de sua vida consta da Acta Apostolicae Sedis, vol. xix (1927), pp.
     Sua festa litúrgica é dia 19 de julho, mas alguns locais da Alemanha comemoram-na dia 21 de julho. 
Martirológio Romano: No Mosteiro de Marienburg na Franconia, Alemanha, Beata Stilla, virgem consagrada, sepultada na igreja fundada por ela.

(Stilla significa silenciosa, quieta)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Beata Teresa de Sto. Agostinho e Comp., Mártires - 17 de julho

     O mosteiro das carmelitas de Compiègne, França, vivia entregue ao espírito de oração, de silêncio e de renúncia, quando rebentou a Revolução Francesa.  A 4 de agosto de 1790, os membros do diretório do distrito procederam ao inventário dos bens da comunidade.  As religiosas foram convidadas a despir o hábito e a abandonar o mosteiro.  Cinco dias mais tarde, a conselho da câmara, assinaram todas o juramento de Liberdade-Igualdade.  Desde então, viveram dispersas.
     Um século antes, uma irmã chamada Batista vira em sonho todas as religiosas do seu convento na glória, revestidas do manto branco e tendo uma palma na mão...  Reservava-lhes o céu a honra do martírio?  Durante o ano de 1792, fizeram um ato de consagração pelo qual se ofereceu a comunidade “em holocausto para apaziguar a ira de Deus e para que a divina paz, que o Seu querido Filho tinha vindo trazer ao mundo, fosse transmitida à Igreja e ao Estado”.  E cada dia era renovada a consagração, mantendo uma chama que não devia extinguir-se em cada uma, senão sob o cutelo da guilhotina.
     Todavia, mesmo dispersas, a regularidade da vida de cada grupo não passou despercebida aos jacobinos de Compiègne.  Decidiram estes uma inspeção, durante a qual se apoderaram de vários elementos que lhes pareceram gravemente comprometedores: cartas de padres em que se tratava de novenas, escapulários e direção espiritual, um retrato de Luís XVI e imagens do Sagrado Coração. O grupo revolucionário, “considerando que as anteriormente religiosas, com desprezo das leis, viviam em comunidade”; que as correspondências provavam “que elas tramavam em segredo pelo restabelecimento da monarquia e pela aniquilação da república”, mandou deter as religiosas e mantê-las incomunicáveis.
     A 22 de junho de 1794, foram encerradas no mosteiro da Visitação, transformado em cárcere.  Lá, as reclusas retrataram o juramento feito de Liberdade-Igualdade, “preferindo mil vezes morrer a manterem-se culpadas de tal juramento”.
     E julgaram-se felizes por terem retomado em comum os exercícios da Regra.  Mas esta consolação depressa lhes seria tirada.  A 12 de julho, chegava a Compiègne a ordem da Comissão de salvação pública, para serem levadas a Paris.  Sem lhes ser permitido acabar a sua frugal refeição, nem mudar os vestuários molhados por causa duma barrela que faziam, meteram-nas todas em duas carroças, ficando elas com as mãos presas atrás das costas.  O cortejo chegou à Paris no dia seguinte, pelas três horas da tarde, à Conciergerie, a prisão anexa ao palácio da justiça.
     Uma religiosa octogenária e doente, com os membros entorpecidos por demorada imobilidade, não sabia como descer da carroça. Impacientes, os carreteiros pegaram nela e atiraram-na ao chão com brutalidade.  Ergueu-se toda ensangüentada, mas contentou-se com dizer aos que a tinham tratado assim: “Acreditai que não vos quero mal por isto. Ao contrário, quero-vos muito bem porque não me matastes, pois, se eu tivesse morrido, teria perdido a felicidade e a glória do martírio”.
     Na Conciergerie, como em Compiègne, prosseguiram as 16 carmelitas em observar a regra; testemunha digna de fé asseverou que “eram ouvidas todas as noites, às 2 da manhã, rezar o ofício”.  A 16 de julho, celebraram a festa de Nossa Senhora do Carmo com tal entusiasmo que, segundo afirmou um preso, “a véspera da morte parecia para elas um dia de grande festa”.
     À tarde foram avisadas que iriam comparecer, no dia seguinte, diante do tribunal revolucionário.  Realmente, este conselho ouviu nesse dia o acusador público lançar contra as rés um requisitório dos mais violentos: “Embora separadas pelos domicílios, formavam conciliábulos de contra-revolução entre elas e outras, que a si reuniam. Viviam sob a obediência duma superiora e, quanto aos seus princípios e votos, bastava ler as cartas e os escritos delas”.
     Depois de breve interrogatório e sem ouvir testemunhas, o tribunal condenou à morte as 16 carmelitas.  E como, sem se perturbar, uma religiosa perguntasse ao presidente o que se devia entender pela palavra “fanático”, que figurava no texto do julgamento, recebeu esta confissão, que devia enchê-las de alegria inexprimível: “Entendo por essa palavra o vosso apego a essas crenças pueris, às vossas loucas práticas de religião”.  Era isto que lhes merecia a palma do martírio!
     Uma hora depois, subiram elas para as carroças que as levaram à Praça do Trono Derrubado (Praça da Nação).  Enquanto, à passagem delas, uma multidão contraditória exprimia sentimentos diversos – desde gritos e injúrias até à admiração – elas, indiferentes e serenas, cantaram o Miserere e depois a Salve Rainha.  Chegadas à base do cadafalso, entoam o Te Deum, o canto de ação de graças, a que juntam o Veni Creator.  Depois, renovam as promessas do batismo e os votos de religião.
     Mas eis que uma jovem noviça se ajoelha diante da prioresa. Com tanta simplicidade como fazia dentro das paredes do convento, pede-lhe a bênção e a licença de morrer. Em seguida, cantando o salmo Laudate Dominum omnes gentes, sobe os degraus do cadafalso. Sucessivamente, as outras religiosas observam o mesmo cerimonial e vêm receber a bênção da Madre Teresa de Santo Agostinho. Esta, em último lugar, depois de ver todas as suas filhas dar a Deus a maior prova de amor, confia a sua cabeça aos algozes.
     Assim pereceram, na tarde de 17 de julho de 1794. O sacrifício, das que se tinham generosamente oferecido em holocausto “pela paz da Igreja e da França”, não foi em vão.  De fato, “somente dez dias após o suplício delas, cessava a tormenta que, ao longo de dois anos, tinha espalhado pelo solo da França o sangue dos filhos da França” (Decreto de declaração do martírio, 24 de junho de 1905). São Pio X, a 10 de dezembro de 1905, declarou “beatas” aquelas que “desde que foram expulsas, continuaram a viver como religiosas e a honrar, com muitas devoções, o Sagrado Coração”.

*  *  *
Os nomes das Beatas são os seguintes:
 - Anne-Marie Madeleine Thouret (Irmã Carlota da Ressurreição) + em Mouy, 16/9/1715, professou 19/8/1740, sub-priora em 1764 e 1778. Sacristã da capela do Convento.
 - Anne Petras (Irmã Maria Enriqueta da Providência) + em Carjarc, 17/6/1760, professou em 22/10/1786
 - Marie-Geneviève Meunier (Irmã Constance) + em Saint Denis, 28/5/1765, noviça, tomou o hábito em 16/12/1788 (ela sobe os degraus do cadafalso cantando o Salmo Laudate Dominum omnes gentes)
 - Rose-Chrétien de la Neuville (Irmã Julia Luisa de Jesús) + Evreux, 1741, casou-se jovem, enviuvou, entrou para o Carmelo e professou em 1777
 - Marie Claude Cyprienne Brard ou Catherine Charlotte Brard (Irmã Euphrasia da Imaculada Conceição) + 1736 em Bourth, professou em 1757
 - Madeleine-Claudine Ledoine (Madre Teresa de Santo Agostinho), priora, + em Paris, 22/9/1752, professou em 16 ou 17/5/1775
 - Marie-Anne (ou Antoinette) Brideau (Madre São Luís), sub-priora, + em Belfort, 7/12/1752, professou em 3/9/1771
 - Marie-Anne Piedcourt (Irmã de Jesus Crucificado), religiosa do coro, + 1715, professou 1737; ao subir no cadafalso ela disse: "Eu perdôo vocês do mesmo modo como desejo que Deus me perdoe".
 - Marie-Antoniette ou Anne Hanisset (Irmã Teresa do Sagrado Coração de Maria) + em Rheims, 1740 ou 1742, professou em 1764
 - Marie-Françoise Gabrielle de Croissy (Madre Henriette de Jesus), + em Paris, 18/6/1745, professou 22/2/1764, priora de 1779 a 1785
 - Marie-Gabrielle Trézel (Irmã Teresa de Sto. Inácio), religiosa do coro, + em Compiègne, 4/4/1743, professou 12/12/1771

Havia ainda três irmãs leigas:
 - Angélique Roussel (Irmã Maria do Espírito Santo) + em Fresnes, 4/8/1742, professou em 14/5/1769
 - Julie ou Juliette Vérolot (Irmã São Francisco Xavier) + em Laignes ou Lignières, 11/1/1764, professou 12/1/1789
 - Marie Dufour (Irmã Santa Marta) + em Beaume, 1 ou 2/10/1742, entrou na comunidade em 1771

E duas serventes que não eram Carmelitas, mas ocupavam-se dos trabalhos na comunidade:
  - Catherine Soiron, + 2/2/1742 em Compiègne
  - Teresa Soiron, + 23/1/1748 em Compiègne

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Tesouro Carmelitano pouco conhecido do Brasil


      Irmã Francisca de Jesus Maria, infelizmente pouco conhecida mesmo nos ambientes católicos do Brasil, é irmã da Madre Jacinta de São José, fundadora do Carmelo Descalço no Brasil.
      Nasceu Francisca no Rio de Janeiro, em 1719, sendo a última dos quatro filhos de José Rodrigues Ayres e Da. Maria Lemos Pereira, ambos pertencentes a famílias católicas e abastadas. O virtuoso casal proporcionou a seus filhos, dos quais três abraçaram o estado religioso, sólida formação.
      Francisca, reconhecendo desde logo o modo extraordinário pelo qual a Providência divina dirigia sua irmã Jacinta, deixou-se docilmente guiar por ela, apesar da diferença de apenas quatro anos na idade. Obedecia-a como sua superiora e, desde a infância, empregavam ambas o tempo que lhes sobrava, após as ocupações domésticas, em leitura espiritual, meditação, silêncio, mortificação e penitências rigorosíssimas.
Cilícios como presentes
      Um fato surpreendente para nossa época ocorreu nessa família: José Ayres, compreendendo que um desígnio especial pairava sobre suas filhas, não só não proibia, mas incentivava as santas inclinações de ambas, chegando a dar-lhes cilícios como presente de Natal, certo de agradá-las com este gesto, como também a Deus.
     Francisca ainda não atingira os 12 anos de idade quando Jacinta expôs-lhe as vantagens do estado religioso, resolvendo ambas, então, abandonar o mundo para se encerrar no claustro.
     Embora recebessem do pai todo apoio, encontraram por parte da mãe uma oposição peremptória. A morte repentina do pai submeteu-as por completo à vontade materna, sem contudo deixarem as duas irmãs de viver em casa como se estivessem num convento, ao mesmo tempo que cumpriam fielmente seus deveres filiais. As duas irmãs compraram uma chácara, em local deserto do Morro do Desterro, adaptando as toscas habitações nela existentes, onde as duas irmãs iniciaram a vida em comum.
O prêmio da obediência
     Um dia, Jacinta, na qualidade de superiora, dirigiu-se a Francisca e mandou-lhe plantar alguns pedregulhos, por estarem precisando de coentro, planta medicinal da família das umbelíferas.
     Francisca obedeceu incontinenti, regando todos os dias o que plantara, como se se tratasse de preciosas sementes. Deus Nosso Senhor abençoou aquele ato de obediência operando o milagre: daqueles pedregulhos nasceram magníficos coentros.
Obediência após a morte
     Em consequência do excessivo trabalho e das austeridades, Francisca foi atacada de congestão pulmonar. Durante os grandes sofrimentos da última doença, guardou sempre o mesmo semblante sereno e alegre. No dia 13 de julho de 1748, entregou a alma a Deus, aos 30 anos de idade.
Madre Jacinta de S.José
     Quando Madre Jacinta a foi amortalhar com algumas outras jovens, que a elas se tinham associado na mesma vida de austeridade, era tal a flexibilidade do corpo de Francisca, que sua irmã não conseguia colocar nele as meias. Disse-lhe, então, Madre Jacinta: "Francisca, não estareis quieta com essas pernas?" Imediatamente o cadáver suspendeu-as, de maneira a facilitar o trabalho da irmã.
     Entretanto, a notícia da morte da serva de Deus e do estado de seu corpo percorreu a cidade. Inúmeras autoridades vieram presenciar o milagre. O corpo foi depositado provisoriamente num sepulcro, mas o povo, acorrendo em massa para ver a "bem-aventurada" - como a chamavam - abriu a sepultura e o caixão. Uns moviam-lhe os braços, outros lhe abriam os olhos, admirados e louvando a Deus.
     Dias depois, os Irmãos Terceiros Franciscanos, querendo para si aquele tesouro, apesar do desejo contrário da Madre Jacinta, que desejava ter o corpo junto a si - com insistência e quase com violência - começaram a transportar os santos despojos para sepultá-los em sua igreja. Jacinta, no entanto, ordenou ao cadáver: "Francisca, veste-te de corrupção!". Imediatamente desapareceram todos os vestígios gloriosos e o corpo se corrompeu. Os Irmãos Terceiros, admirados, retiraram-se. Apenas tinham eles se afastado, o corpo recuperou sua incorruptibilidade anterior, sendo em seguida revestido com o hábito do Carmo e sepultado na capela do convento, onde se encontra até hoje.

Fontes: Notícias históricas pelas religiosas do Convento de Sta. Teresa, Rio de Janeiro; Frei Nicolau de São José OCD, "Vida da Serva de Deus Madre Jacinta de São José", Est de Artes Graf C Mendes Jr., Rio de Janeiro, 1933.

Origens do Convento de Santa Teresa, Rio de Janeiro
     No começo do século XVII foi construída por Antônio Gomes do Desterro, no Morro de Santa Teresa, uma ermida consagrada à Sagrada Família. Esta, sob invocação a Nossa Senhora do Desterro, era muito frequentada por romeiros e devotos e nela eram celebradas cerimônias do culto com regularidade. Assim formou-se o Caminho do Desterro, depois chamado Rua dos Barbonos e, a partir de 1870, Rua Evaristo da Veiga, na Lapa, centro do Rio de Janeiro.
     No tempo em que ainda permaneciam os capuchinhos na ermida do Morro do Desterro, havia no Rio de Janeiro uma moça de destacada família, Jacinta Rodrigues Aires, de acentuado espírito religioso e filha de João Batista Aires e D. Maria de Lemos Pereira. Em sua devoção, que incluíam visões e chamados de vozes que lhe determinavam uma missão a cumprir, subia ao Morro do Desterro para assistir aos atos religiosos celebrados pelos capuchos.
     No trajeto que percorria, chamou-lhe a atenção, o terreno semiabandonado da Chácara da Bica, no Caminho de Mata-Cavalos (atual Rua Riachuelo). A tranquilidade do local inspirou-lhe o desejo de ali construir um recolhimento consagrado à vida religiosa. Com a ajuda de seu tio, Capitão-Mor Manuel Pereira Ramos, tornou-se Jacinta Aires proprietária da velha chácara. Jacinta e sua irmã Francisca mudaram-se para lá, decididas a seguir a vida religiosa e adotaram nomes claustrais: Jacinta de São José e Francisca de Jesus Maria.
     Entusiasmado com a sua devoção, Gomes Freire de Andrade, o Conde de Bobadela, confiou a Jacinta a aspiração que ela tanto nutria: a construção de um convento de carmelitas sob a regra de Santa Teresa de Jesus, a Ordem das Carmelitas Descalças, da qual estava sendo a fundadora no Brasil. O local escolhido foi justamente a Ermida do Desterro e o autor do projeto foi o Brig. José Fernandes Alpoim (1700-1765), um dos principais nomes da arquitetura do século XVIII no Brasil colonial, como o Aqueduto da Carioca e o claustro do Mosteiro de São Bento, todos no Rio de Janeiro.
     Em 24 de junho de 1750, em grande solenidade, foi lançada a pedra fundamental da igreja e convento "debaixo da invocação e Título de Nossa Senhora do Desterro, para religiosas que hão de professar a regra de Santa Teresa", por Provisão do Bispo, de 15 de junho do mesmo ano.
     O Bispo D. Frei Antônio do Desterro, embora vendo com bons olhos a devoção das religiosas e o estabelecimento de mais um convento em sua diocese, não aprovava o exagero místico de Jacinta de São José e as regras demasiado severas de Santa Teresa, sendo estas ordenadas a professar, no novo convento, as regras de Santa Clara. Somente após a morte de D. Antônio do Desterro (1774) e sob ordem de D. Maria I, em 1777, realizou-se a profissão das monjas (em 1781), que se recolheram ao claustro do Convento que colocou sob a proteção de Santa Teresa o morro e o bairro.
     Sobre o Convento, Mons. Pizarro, em sua obra Memórias Históricas do Rio de Janeiro (ed.1825), assim o descreve: "O local do convento é mui agradável por se desfrutarem dali as vistas do mar, desde a barra até o interior da enseada e da terra, pelo centro da cidade e suas circunvizinhanças. O edifício, fabricado com prospecto regular, e majestoso, contem acomodações mui suficientes, e dentro dos seus muros um terreno sofrível, que as próprias habitantes fazem cultivar para seu recreio".
     No Brasil Pitoresco ( ed. 1859), Charles Ribeyrolles, achando encantador o sítio onde o construíram, escreve: " Castelo senhorial, que vale bem o castelo da Alma, ao qual se chega pelo caminho da perfeição ".

terça-feira, 10 de julho de 2012

Santa Amalberga de Temse, Virgem - Festejada 10 de julho

     Santa Amalberga, patrona de Temse, Bélgica, era, como sua homônima, da alta nobreza e destinada a possuir bens consideráveis, não somente na região das Ardennes, onde ela nasceu, mas também nas mais distantes regiões do país.
     Seu nome vinha de uma tradição antiquíssima entre os Ostrogodos, tanto que a sua dinastia era apontada como a dos “Amali”. O nome atualmente desapareceu e em seu lugar é conhecido na forma abreviada de Amália.
     Há três Santas com o nome Amalberga, dentre as quais duas foram contemporâneas e são festejadas no mesmo dia, 10 de julho, a virgem Amalberga de Temse e Santa Amalberga de Maubeuge.
     Segundo uma Vita escrita pelo monge Goscelin de Canterbury, do Mosteiro de São Pedro de Gand, Santa Amalberga nasceu nas Ardennes, na cidade de Rodingi (Bélgica), e foi educada no Convento de Munsterbilzen por Santa Landrada, onde recebeu uma formação profundamente religiosa que a fez afastar-se do mundo e receber o véu monacal pelas mãos de São Vilibrordo.
     Entretanto, um grande senhor, que se acredita ter sido Carlos Martel, pediu sua mão em casamento, mas ela recusou. E apesar de suas insistentes solicitações, ela se manteve fiel à sua consagração a Deus e se refugiou na igreja, prostrando-se diante do altar. A tentativa de Carlos de levantá-la foi inútil e resultou que o braço dela quebrou-se sem que ele atingisse seu objetivo.
     A tentativa deste rei custou-lhe uma doença que foi curada graças ao perdão e as orações de Amalberga. Ela havia se doado ao Rei dos reis, e queria ser fiel a Ele apesar das magnificências reais que Carlos poderia lhe oferecer. Nem o prestígio desta terra, nem todo o ouro pode superar a lealdade dela. A perseguição do rei obrigou-a a se refugiar em domínios longínquos, inicialmente em Materen, próximo de Audenarde (Flandre Oriental) e em seguida em Temse (*).
     Santa Amalberga faleceu rica em virtudes em Temse, cidade que a honra como sua patrona. Um século depois de sua morte, as suas relíquias foram transladadas de São Pedro do Monte Blandino para Gand, e foram ali expostas solenemente em 1073. Um documento escrito por Carlos o Calvo (823-877), datado de 1º de abril de 870, atesta que de fato as relíquias de Santa Amalberga, virgem, eram conservadas naquele Mosteiro.
     Foram atribuídos a ela numerosos milagres, entre os quais o de ter atravessado um rio sobre um enorme peixe (fato que é representado nas suas imagens). Segundo outra antiga legenda, o barco que transportava suas relíquias do Mosteiro de São Pedro do Monte Blandino para Gand, sob Baldwin Braço de Ferro, foi escoltado por uma multidão de esturjões, de onde viria o uso de um peixe nas suas representações.
     Santa Amalberga é particularmente venerada em Temse, Gand, Munsterbilzen e em outras localidades do Flandres. Ela é comemorada no dia 10 de julho.

(*) Temse, cidade belga de cerca de 27 mil habitantes, é conhecida por ter sido cristianizada por Santa Amalberga. A igreja gótica de Nossa Senhora foi construída em 1645, sobre as fundações da capela de Santa Amalberga do ano de 770. Desde o século XIII havia uma peregrinação dedicada aquela Santa que atraia peregrinos a Temse. Dentro da igreja foi erguido um túmulo para esta Santa em 1841. 

domingo, 8 de julho de 2012

Santa Verônica Giuliani, Abadessa - Festa 9 de julho

     Úrsula Giuliani nasceu em Mercatello, Urbino, perto de Milão, na Itália, em 1660, e entrou no convento dos Capuchinhos na Città di Castello, Úmbria, em 1677.
     Filha de uma família abastada, já em sua infância os sinais de futura santidade foram observados nela. Ainda menina  trazia  no coração um grande  amor  à Nossa  Senhora; praticava a penitência, a mortificação e se empenhava sinceramente na caridade para com os mais  necessitados. Aos 11 anos era fervorosa devota na Paixão do Senhor.
     Úrsula decidiu-se a tornar-se religiosa quando teve visões da Virgem Maria, mas seu pai se opunha. Ela insistiu e finalmente, em 1677, seu pai permitiu que ela se tornasse uma noviça do Convento dos Capuchinhos em Città di Castello, onde tomou o nome de Irmã Verônica.
     Sua personalidade, inicialmente,  pendia  para  o mal da teimosia, que  acabava  culminando  em desabafos e  violentas explosões de ira. Com a graça divina e sua energia  individual  conseguiu  vencer  estes defeitos e veio a ser a religiosa mística que representa uma verdadeira glória  para os membros de sua  Ordem, consequentemente para toda a Santa Igreja.
     Seu noviciado foi  difícil. Ela aumentou sua devoção à Paixão de Cristo e foi agraciada com visões de Jesus Cristo carregando a cruz e algum tempo depois começou a sentir dores no coração.
     Em 1693, teve outra visão na qual o Senhor lhe deu a tomar o cálice;  Verônica o aceitou e desde aquele momento os estigmas da Paixão começaram a se gravar em seu corpo e em sua alma. No ano seguinte apareceram sobre sua fronte as marcas da coroa de espinhos.
     Três anos mais tarde ela ouviu a Virgem Maria dizer a Jesus “Deixe tua noiva ser crucificada com Vós” e então, com a idade de 37 anos, ela recebeu os estigmas nas mãos, nos pés e no lado, num longo período de êxtase no dia 5 de abril de 1697, uma Sexta-feira Santa. Medicamentos foram dados a ela, mas os ferimentos não cicatrizavam. Ela escreveu com detalhes a sua experiência e disse como os raios de luz vieram dos ferimentos de Jesus e tornaram-se pequenas chamas de fogo em forma de prego e o quinto em forma de uma lança de ouro.
     Ao acordar do êxtase, ela encontrou os ferimentos ainda doloridos, o sangue e a água saindo do seu lado. Ela não queria que os ferimentos fossem vistos e os escondeu até 1700, quando Jesus prometeu que as marcas só ficariam mais três anos. Daí em diante só o seu lado sangrava.
     Logo após o seu primeiro aparecimento, os ferimentos foram examinados pelo bispo de Città di Castello que imaginou uma forma de excluir qualquer fraude. Os ferimentos foram envolvidos em bandagem, atados e lacrados com o selo do bispado, e ela foi cuidadosamente separada das outras Irmãs, sempre sob observação e guarda. Os ferimentos permaneceram. Durante seus êxtases ela exalava um odor suave e às vezes levitava.
     O bispo ficou impressionado por sua obediência e humildade, e convencido de que o fenômeno era genuíno. Um relatório favorável foi enviando ao Santo Oficio em Roma e foi permitido a ela continuar sua vida normal.
     Durante 34 anos Irmã Verônica desempenhou o cargo de mestra de noviças. Em 1716, onze anos antes de sua morte, foi eleita abadessa, cargo que exerceu por 11 anos.  Formava a suas noviças no exercício da perfeição e das virtudes cristãs, proibindo-as de ler livros sobre misticismo.
     Ela não só se empenhava na formação espiritual do seu mosteiro, como era também uma mulher prática. Como abadessa, o mosteiro sob sua direção teve um período de grande prosperidade até material: ela expandiu os prédios do mosteiro e nele instalou água encanada.
     Ao final de sua vida, Santa Verônica, que durante quase 50 anos havia sofrido com admirável paciência, resignação e alegria, se viu acometida de uma apoplexia que causou seu falecimento em 9 de julho de 1727.  Deixou escrito um relato de sua vida, uma autobiografia de 10 volumes escrita para seu confessor, que foi de grande utilidade no processo para sua beatificação. Suas experiências místicas foram autenticadas por várias testemunhas e publicadas após sua canonização.
     Antes de sua morte Santa Verônica havia dito ao seu confessor que os instrumentos da Paixão do Senhor estavam impressos em  seu coração, tendo ela desenhando seu próprio coração, representando estes instrumentos, pois dizia que os sentia porque mudavam de posição.
     Ao fazerem-lhe a autópsia, na qual esteve presente o bispo, o alcaide e vários cirurgiães,  descobriu-se em seu coração uma série de objetos minúsculos, que correspondiam aos que a Santa havia desenhado. Os exames também revelaram que a curvatura do seu ombro direito era como se ela tivesse carregado uma pesada cruz por muitos anos.
     Seu corpo se conserva incorrupto no Mosteiro de Santa Verônica, na localidade de Città di Castello, Úmbria, Itália. Foi beatificada em 1804 e canonizada em 1839.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Santa Darerca (Moninna) de Killeavy, Abadessa - 6 de julho

Killeavy
     Um dos mais importantes e antigos conventos da Irlanda foi fundado por Santa Darerca (ou Moninna) no século V. Ela construiu o Convento em Killeavy ao pé do Gullion Slieve e foi enterrada ali sob uma laje de granito no adro da igreja. Ainda hoje existe um poço dedicado a ela nas encostas do Gullion Slieve. Apesar de saqueado pelos vikings em 923, a vida monástica continuou no local e foi ocupado por freiras Agostinianas até 1542. A grande pedra de granito no cemitério arborizado marca o túmulo desta Santa para que os seus devotos o visitem em peregrinação para rezar pelos enfermos.
A Santa
     Santa Darerca (ou Moninna) de Killeavy foi uma das primeiras santas da Irlanda. Uma tradição diz que ela ganhou o nome "Moninna" quando curou um homem mudo e a primeira palavra que ele pronunciou foi "Ninna, Ninna"; diz-se também que quando ela era um bebê a primeira palavra que ela disse foi Ninna. Há versões do nome desta Santa, por exemplo, Darerca, Blinne ou Moninna, que significa em irlandês "minha filha".
     Após instrução na vida religiosa, Darerca fundou uma comunidade inicialmente composta por oito virgens e uma viúva com um bebê, em Sliabh Gullion, Armagh. Elas levavam uma vida eremítica baseada na de Santo Elias e de São João Batista.
     Moninna nasceu por volta de 432. Seu pai era Machta, rei do território de Louth de Armagh, e sua mãe era Comwi ou Coman, filha de um dos reis do norte. Diz-se que ela foi batizada e confirmada por São Patricio. Quando este Santo estava passando pelas terras de Machta, ele parou na casa de seus pais e previu que o nome Moninna iria ser lembrado ao longo dos tempos. É tradição também que ela teria sido consagrada a Deus por São Patricio. Ela trabalhou com Santa Brígida de Kildare por um tempo e elas se tornaram amigas íntimas
     Moninna tinha um irmão mais novo, Ronan, também um missionário. Ele tornou-se bispo e foi abade de Luncarty, perto de Dundeein, Escócia. Após Moninna ter trabalhado por sete anos em Staffordshire, São Patricio a enviou para a Escócia. Ali ela fez uma visita ao seu irmão, e então continuou seu trabalho de difusão do Evangelho fundando comunidades de freiras, que atendiam os doentes e os pobres.
     Na Escócia ela construiu igrejas em nome de Cristo. Um escritor do século 12 nos dá uma lista, ele escreve: "Ela também foi para a Escócia, onde ela construiu igrejas em nome de Cristo Estes são os seus nomes: Chilnecase (agora Whithorn) em Galloyway; outra sobre o cume da colina, que é chamado Dundeneval (agora Dundonald); uma terceira em outro morro, Dumbarton; uma quarta em uma fortaleza chamada Stirling; ainda uma quinta em Dunedin, que em Inglês é chamado Edeneburg; uma sexta na colina de Dunpeleder, e de lá ela cruzou o mar, em Albainn, a Santo André. Depois disto ela foi Alyth, onde há ainda uma bela igreja que ela construiu".
     No fim da vida ela se retirou para Killeavy, onde fundara um convento. Ela morreu por volta do ano 518. Santa Moninna foi sepultada em Killeavy e uma placa de granito foi colocada sobre seu túmulo.
     Nas encostas do Slieve Gullion há um poço sagrado chamado de Poço de Santa Moninna. É marcado por uma grande cruz branca. Em 1928, um santuário foi colocado sobre o poço com uma imagem da Virgem Maria. Na inscrição do poço se lê "Tobhar Naoimh Blathnaidh".
     Na região de Killeavy há ainda hoje uma grande devoção a Santa Moninna e as pessoas visitam o seu poço sagrado e sua sepultura, e a água desse poço cura problemas dos olhos e outras doenças. Santa Moninna é uma santa cujo carinho feminino cuida de todos e, como disse São Patricio, seu nome ainda é lembrado até os dias atuais.
     Moninna é celebrada em 6 de julho que é marcado por peregrinos que visitam o seu santuário em Killeavy.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Santa Isabel, Rainha de Portugal - Festejada 4 de julho

     Isabel de Aragão nasceu no palácio de Aljaferia, na cidade de Zaragoza, onde reinava o seu avô paterno, D. Jaime I. Era a filha mais velha de D. Pedro III e de D. Constança de Hohenstaufen. Por via materna era descendente de Frederico II, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, pois seu avô era Manfredo de Hohenstaufen, rei da Sicília, filho de Frederico II.
     A princesa recebeu o nome de Isabel por desejo de sua mãe, em recordação de sua tia Santa Isabel da Hungria, Duquesa da Turíngia. O seu nascimento veio acabar com as discórdias na corte de Aragão, pelo que o seu avô a chamava “rosa da casa de Aragão”.
     As virtudes da sua tia-avó viriam a servir-lhe de modelo e desde muito nova começou a mostrar gosto pela meditação, oração e jejum, não a atraindo os divertimentos comuns das jovens de sua idade. Isabel não gostava de música, passeios, nem joias e enfeites, vestia-se sempre com simplicidade.
     A infanta D. Isabel tornara-se conhecida pela beleza, discrição e santidade. As suas virtudes levaram muitos príncipes a se apresentarem a D. Pedro como pretendentes à mão da sua admirável filha.
     D. Dinis I de Portugal tinha 19 anos quando subiu ao trono e, pensando em casamento, convinha-lhe Isabel de Aragão; assim, D. Dinis enviou uma embaixada a Pedro de Aragão em 1280. Quando os embaixadores lá chegaram, estavam ainda à espera de resposta enviados dos reis de França e de Inglaterra, cada um desejoso de casar com Isabel um dos seus filhos. Aragão preferiu entre os pretendentes aquele que já era rei.
     Isabel estava mais inclinada a encerrar-se num convento, no entanto, como era submissa, viu na resolução dos pais a vontade do céu.
     A 11 de fevereiro de 1282, com 12 anos, Isabel casou-se por procuração com D. Dinis, tendo celebrado a boda ao passar a fronteira da Beira, na Vila de Trancoso, em 26 de junho do mesmo ano. Por esse motivo, o rei acrescentou esta vila ao dote que habitualmente era entregue às rainhas (a chamada Casa das Rainhas, conjunto de senhorios a partir dos quais as consortes dos reis portugueses colhiam as prendas destinadas à manutenção da sua pessoa).
     Nos primeiros tempos de casada Da. Isabel acompanhava o marido nas suas deslocações pelo país e com a sua bondade conquistou a simpatia do povo. Dava dotes a jovens pobres e educava os filhos de cavaleiros sem fortuna.
     Da. Isabel deu ao rei dois filhos: Constança (3/1/1290 – 18/11/1313), que casou em 1302 com o rei Fernando IV de Castela; e D. Afonso IV (8/2/1291 – 28/5/1357), sucessor do pai no trono de Portugal.
     As numerosas aventuras extraconjugais do marido humilhavam-na profundamente. Mas Da. Isabel mostrava-se magnânima no perdão, criando com os seus também os filhos ilegítimos de Dinis, aos quais reservava igual afeto.
     Entre seus familiares, constantemente em luta, desempenhou obra de pacificadora, merecendo justamente o apelido de "Anjo da paz". Desempenhou sempre o papel de medianeira entre o rei e o seu irmão D. Afonso, bem como entre o rei e o príncipe herdeiro. Por sua intervenção foi assinada a paz em 1322.
     A sua vida será marcada por quatro virtudes fundamentais: a piedade, a caridade, a humildade e a inquietude pela paz. Tornou-se uma mulher de grande piedade conservando em sua vida a prática da oração e a meditação da palavra de Deus. Buscou sempre a reconciliação e a paz entre as pessoas, as famílias e até entre Nações.
     Da. Isabel costumava dizer “Deus tornou-me rainha para me dar meios de fazer esmolas”. Sempre que saía do paço era seguida por pobres e andrajosos a quem sempre ajudava.
     D. Dinis morreu em 1325. Pouco depois da sua morte Da. Isabel peregrinou ao Santuário de Santiago de Compostela, fazendo-o montada num burro e a última etapa a pé, onde ofertou muitos dos seus bens pessoais. Há historiadores que defendem a ideia que ela terá se deslocado local duas vezes.
     Após a morte de seu marido, entregou-se inteiramente às obras assistenciais que havia fundado. Recolheu-se por fim no então Mosteiro de Santa Clara-a-Velha em Coimbra, vestindo o hábito da Ordem das Clarissas, mas não fazendo votos, o que lhe permitia manter a sua fortuna usada para a caridade. Só voltaria a sair dele uma vez, pouco antes da morte, em 1336.
     Nessa altura, Afonso declarara guerra ao seu sobrinho, o rei D. Afonso XI de Castela, filho da infanta Constança de Portugal, e portanto neto materno de Isabel, pelos maus tratos que este infligia à sua mulher Da. Maria, filha do rei português. Não obstante a sua idade avançada e a sua doença, a rainha Santa Isabel dirigiu-se a Estremoz, cavalgando na sua mula por dias e dias, onde mais uma vez se colocou entre dois exércitos desavindos e evitou a guerra. No entanto, a paz chegaria somente com a intervenção da própria Maria de Portugal, por um tratado assinado em Sevilha em 1339.

     Da. Isabel faleceu, tocada pela peste, em Estremoz, a 4 de julho de 1336, tendo deixado expresso em seu testamento o desejo de ser sepultada no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Constavam também de seu testamento grandes legados a hospitais e conventos.
     Segundo uma história hagiográfica, sendo a viagem demorada, havia o receio de o cadáver entrar em decomposição acelerada pelo calor que fazia, e conta-se que a meio da viagem, debaixo de um calor abrasador, o ataúde começou a abrir fendas, pelas quais escorria um líquido, que todos supuseram provir da decomposição cadavérica. Qual não foi, porém a surpresa quando notaram que em vez do mau cheiro esperado, saía um aroma suavíssimo do ataúde.
     Da. Isabel mandou edificar o hospital de Coimbra, o de Santarém e o de Leiria para receber enjeitados. Viveu uma profunda caridade sendo sempre sensível às necessidades dos mais pobres; o resto da vida praticou a pobreza voluntária, dedicando-se aos exercícios de piedade e de mortificações.
     O povo criou à sua volta uma áurea de santidade, atribuindo-lhe diversos milagres, como a cura da sua dama de companhia e de diversos leprosos. Diz-se também que fez com que uma pobre criança cega começasse a ver e que curou numa só noite os graves ferimentos de um criado. No entanto o mais conhecido é o milagre das rosas.
     Reza a tradição que durante o cerco de Lisboa D. Isabel estava a distribuir moedas de prata para socorrer os necessitados da zona de Alvalade, quando o marido apareceu. O rei perguntou-lhe: “O que levais aí, Senhora?” Ao que ela, com receio de desgostar a D. Dinis, e, como que inspirada pelo céu respondeu: "Levo rosas senhor”, e, abrindo o manto, perante o olhar atônito do rei, não se viram moedas, mas sim rosas encarnadas e frescas.
     Por ordem do bispo D. Afonso de Castelo Branco abriu-se o túmulo real, verificando-se que o corpo da saudosa Rainha estava incorrupto. Beatificada pelo Papa Leão X (breve de 15/4/1516), a canonização solene teve lugar em 1625, pelo Papa Urbano VIII. Quando esta notícia chegou à cidade realizaram-se grandes festejos que se prolongam até aos nossos dias. É reverenciada a 4 de julho, data do seu falecimento.
     O seu marido, D. Dinis, repousa no Mosteiro de São Dinis, em Odivelas.
Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, Coimbra, onde se encontra o sarcófago de Sta. Isabel