terça-feira, 1 de julho de 2014

Santa Monegonda, Reclusa de Tours - 2 de julho


 

     A vida de Santa Manegonda (século VI) foi relatada por São Gregório de Tours no capítulo XIX de sua Vitæ Patrum, e no capítulo 24 de In Gloria Confessorum. Este grande Santo foi contemporâneo de Monegonda e, entre outras informações, diz que embora ela não fosse nobre, pertencia a uma família abastada. Monegonda faz parte de um grupo de personagens contemporâneos do Santo cujas vidas exemplares ele descreve para nossa edificação.
     Santa Monegonda nasceu em Chartres, cidade famosa pela antiga devoção que seus moradores tinham por Nossa Senhora, mesmo antes da Encarnação, pois se acredita que os druidas (assim os gauleses chamavam seus sacerdotes), construíram, muito antes do nascimento do Salvador, uma estátua com esta inscrição: VIRGINI PARITURÆ, isto é, à Virgem que dará à luz.
     Foi também nesta cidade que, para agradar seus pais, nossa Santa comprometeu-se na vida matrimonial; ela teve duas filhas. Mas a alegria que ela teve ao ser mãe não foi de longa duração, porque Deus levou suas crianças logo após o nascimento. Ela ficou privada, por causa dessas mortes, de todo consolo que tinha neste mundo.
     A aflição dessa perda foi tão grande, que ela não cessava de chorar dia e noite, sem que o marido, seus amigos, nem nenhum de seus parentes, pudessem trazer alívio para a sua dor; mas, finalmente, caindo em si mesma, e considerando que a sua tristeza era excessiva e poderia desagradar a Deus, ela tomou a generosa resolução de enxugar suas lágrimas e de dizer o resto de seus dias com Jó: "O Senhor as deu para mim, o Senhor as tomou; Ele fez o que era sua vontade: que o seu santo nome seja bendito para sempre".
   Em seguida, tendo obtido a permissão do marido para levar uma vida de reclusa, ela instalou-se em uma pequena cela que ela mandou construir; ali, vendo a luz do dia através de uma claraboia, ela vivia em um desprendimento total de todas as vaidades do mundo e de todas as delícias dos sentidos, para somente pensar em Deus, em quem somente ela desejava colocar toda a sua esperança.
     Na verdade, todo seu tempo era empregado em se entreter com Ele e a dedicar à sua majestade divina suas fervorosas orações. Ela reservara para si apenas o socorro temporal de uma jovem que tinha como encargo levar-lhe um pouco de farinha de cevada e água (São Gregório de Tours explica que naquela época os santos de boa família, mesmo quando renunciavam a tudo, conservavam ao menos um servo para auxiliá-los). Monegonda mesma fazia para si a comida, uma espécie de massa à qual ela acrescentava cinzas; ela só a comia depois de já estar enfraquecida por longos jejuns.
     Monegonda vivia feliz em seu retiro, quando Deus, para testar sua paciência, permitiu que sua serva a abandonasse. A Santa ficou cinco dias sem que alguém lhe levasse algum alimento, mas, em vez de se preocupar com isso, ela se manteve calma e unida a Deus, esperando que como outrora Ele enviara o maná do céu e fizera sair água de uma rocha para alimentar o seu povo no deserto, Ele teria a bondade de suprir suas necessidades para que não fosse forçada a deixar a sua solidão.
     Ela estava absorta nesses pensamentos piedosos, quando percebeu que caia neve em torno de sua cela. Isso era tudo o que ela precisava, pois estendendo a mão através da janela ela recolheu o suficiente para fazer a sua massa. Ela passou desta forma por mais cinco dias.
     Próximo de sua cela havia um pequeno jardim onde às vezes ela caminhava para dar um pouco de descanso à sua mente, que ela tinha sempre voltada para Deus. Um dia em que ela aí estava para tomar um pouco de ar, uma mulher, que a viu e parou para observá-la com muita curiosidade, foi atingida imediatamente de cegueira. Reconhecendo que essa desgraça acontecera com ela como punição de seu pecado, ela foi ao encontro da Santa e expondo-lhe a sua desgraça, implorou que ela obtivesse misericórdia. Monegonda, tocada de compaixão, colocou-se logo em oração, dizendo: "Ai de mim, criatura vil e pobre pecadora! Esta mulher perdeu a visão por minha culpa".
     Esta breve oração, reflexo de uma profunda humildade, penetrou imediatamente no céu, pois mal Monegonda a tinha terminado e feito o sinal da cruz sobre a pobre mulher, ela recuperou a visão. Este milagre, que foi seguido por vários outros, logo atraiu para sua cela uma grande quantidade de pessoas que vinham para implorar o auxílio de suas orações, o que a obrigou a pensar em outro local de retiro.
     Como ela havia se retirado para fugir das honras do mundo e para levar uma vida escondida, vendo-se exposta às visitas das criaturas em seu pequeno eremitério, ela deixou sua casa, sua família, seu marido e todos os seus conhecidos e foi para a cidade de Tours onde, junto do túmulo do grande São Martinho, ela fixou-se.
     Mas a honra, que não é menos teimosa em seguir aqueles que fogem dela, do que fugir daqueles que são ávidos dela, nunca a deixou mais, nem em sua viagem, nem em seu refúgio, porque ela curava por toda parte vários doentes pela virtude de sua oração, que ela fazia não obstante reconhecer sua indignidade. Esses milagres fizeram com que sua eminente santidade brilhasse por toda parte. A sua reputação chegou a Chartres, tendo como resultado que seu marido a fosse buscar em Tours e a trouxesse de volta para sua primeira cela.
     No entanto, pouco tempo depois, seja porque seu marido tivesse morrido, ou dado seu consentimento, ela a deixou novamente para retomar a de Tours, onde ela passou tranquilamente o resto de seus dias em jejuns, vigílias e orações, e sem o comércio com as pessoas do mundo. Sua caridade, porém, era incapaz de se encerrar em sua cela. Algumas piedosas jovens, atraídas pela solidão, decidiram acompanhá-la e com ela faziam todos os exercícios espirituais. Assim, trabalhando em conjunto na prática da virtude, elas se tornaram mais agradáveis a Jesus Cristo.
    Não vamos dar detalhes de muitos milagres que Deus fez por intermédio dela; é suficiente dizer que ela curou um grande número de doentes com um pouco de saliva; que ela purificou pessoas cobertas de feridas, e que, pelo sinal da cruz, ela libertou os possessos, deu saúde aos moribundos, deu o uso dos membros aos paralíticos e os olhos dos cegos.
     Deus recompensou nesta vida a piedade de Monegonda pelo dom dos milagres, Ele a chamou a si para coroar ainda mais no céu sua incomparável virtude. Suas piedosas companheiras, vendo que a última hora estava perto, disseram-lhe, banhadas em lágrimas:
     - "Vós nos abandonareis completamente? Lembrai-vos que sois a nossa mãe, e que vós nos reunistes aqui para servir a Deus. Então, dizei-nos a quem vós nos recomendais depois de vossa morte, nós que somos suas amadas filhas".
     - "Se a paz reinar entre vós”, disse-lhes ela, “e se continuardes trabalhando para a vossa santificação, o próprio Deus será o vosso protetor, e vós tereis por pastor de vossas almas o grande São Martinho, bispo de vossa cidade. Eu também não vou me afastar de vós: assim que me chamardes para ajudá-las, eu me encontrarei no meio de vossa caridade".
     - "Os doentes”, retomaram as santas mulheres, “certamente virão, como sempre, pedir vossa bênção. O que vamos fazer quando não mais a teremos? Vós desejais que eles saiam daqui sem qualquer alívio, depois de ter recebido tantas graças através de vossa intercessão? Nós vos suplicamos, abençoai pelo menos um pouco de sal e de óleo, a fim de que os apliquemos neles e eles sintam sempre os efeitos de vossa intercessão”.
     Monegonda não podia recusar tal pedido, e esta foi a última ação de sua vida, porque após essa bênção ela morreu em paz, no segundo dia de julho, no sexto século da Igreja (provavelmente antes de 573). As coisas que ela tinha abençoado serviram depois para curar inúmeros doentes.
     Seu corpo foi enterrado na mesma cela que ela havia santificado por suas lágrimas, orações e penitências, e seu túmulo foi honrado por vários milagres que São Gregório de Tours relata, e parte dos quais ele afirma ter presenciado. ...
     A Diocese de Tours não tem mais relíquias de Santa Monegonda. Em 1562 os protestantes tomaram a cidade, saquearam as igrejas e queimaram os corpos dos santos. O de Santa Monegonde, que havia sido transladado para o mosteiro de Saint-Pierre-Puellier, no bairro de Saint-Martin, e aí era conservado, não foi poupado.
     O culto a Santa Monegonda, porém, não desapareceu naquela diocese e igrejas em sua honra ainda hoje são encontradas na França.
 
Fonte: Les Petits Bollandistes; Vies des saints, tomo 7, p. 615 à 617.

sábado, 28 de junho de 2014

Stas. Maria Du Tianshi e Madalena Du Fengju, Mártires chinesas - 29 de junho


Martirológio Romano: No território de Dujiadun, próximo de Shenxian, as santas mártires Maria Du Tianshi e Madalena Du Fengju, sua filha, que na mesma perseguição foram tiradas do local em que se haviam escondido, morrendo por causa de sua fé em Cristo, a segunda lançada ainda viva no sepulcro. 
 
 
     Na solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, a Igreja também se recorda de alguns mártires de dezenove séculos depois, os quais fazem parte dos 120 chineses canonizados em outubro de 2000.
     Por muitos séculos, até nos dias atuais, os cristãos chineses têm sido vítimas de perseguições violentas que atingiram um ápice no ano de 1900, com a assim chamada “revolta dos Boxers”. Na metade do mês de junho esses revoltosos atingiram Shenxian, vicariato apostólico chinês confiado aos cuidados pastorais dos Jesuítas.
     Em 29 de junho, os soldados chegaram ao vilarejo de Dujiadun, perto de Shenxian, na província chinesa do Hebei, e ali mataram duas mulheres que não hesitaram em professar a sua fé católica: a leiga casada, Maria Du Tianshi (51 anos) e sua filha Madalena Du Fengju (19 anos). Elas eram nativas de Shenxian e foram martirizadas quando foram descobertas em um local onde se haviam refugiado. Uma delas foi enterrada ainda agonizante.
     Naquele período foram milhares as vítimas da perseguição e os Jesuítas consideraram oportuno não perder a lembrança destas intrépidas testemunhas da fé. Recolheram então o material que se pode encontrar e, em 28 de maio de 1948, a causa de canonização do grupo denominado “Leon-Ignace Mangin e 55 companheiros” foi introduzida.
     Em 17 de abril de 1955 deu-se a beatificação e a canonização de todo o grupo que compreende 120 mártires chineses de várias épocas ocorreu durante o Grande Jubileu de 2000.
 

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Beata Margarida Bays, Terciaria Franciscana - 27 de junho

    
 

     Margarida Bays nasceu em La Pierraz, paróquia de Siviriez, no Cantão de Friburgo, Suíça, em 8 de setembro de 1815, segunda dos sete filhos de José Bays e de Maria Josefina Morel, agricultores e bons cristãos. Dotada de vivacidade e de inteligência excepcional, frequentou por 3-4 anos a escola de Chavennes-les-Forts, aprendendo a ler e a escrever. Desde pequena demonstrou particular inclinação para a contemplação, deixando de brincar com suas companheiras para se retirar no silêncio da oração.
     Aos 11 anos foi admitida à Primeira Comunhão na paróquia de Siviriez. Aos 15 anos fez um período de aprendizado como costureira, profissão que exerceu por toda sua vida seja em casa, seja nas famílias vizinhas.
     Margarida descartou a possibilidade de tornar-se religiosa, preferindo permanecer solteira e santificando-se no seio da família e junto à paroquia, onde praticamente ficou toda a vida. Os três irmãos e as três irmãs tinham por ela profunda afeição e ela, costurando e fazendo os trabalhos domésticos, criou com eles uma atmosfera de bom humor e de paz.
     Mas, depois do casamento do irmão mais velho com uma empregada sua, Margarida teve que suportar a hostilidade e a incompreensão da cunhada, que se tornara a dona da casa em seu lugar. Ela reprovava o tempo passado por Margarida em oração ou no tranquilo trabalho de costura, enquanto ela se esgotava nos trabalhos do campo. Por longos 15 anos Margarida opôs a isto o silêncio e a paciência, fruto de sua caridade, que suscitava a admiração de quantos a circundavam. Por fim a cunhada reconheceu seus próprios erros e Margarida com grande caridade cristã a assistiu no seu leito de morte.
     Tanto na sua própria casa, como naquela onde ia trabalhar, Margarida convidava os presentes a recitar com ela uma ou duas dezenas do Rosário. Assistia todos os dias a Santa Missa e isto constituía “o cume de sua jornada”. No domingo, dia de festa e oração, após a Missa ficava na igreja em oração diante do SSmo. Sacramento, fazia a Via Sacra por uma hora e recitava o Rosário.
     Ela gostava de fazer a pé longas e cansativas peregrinações aos Santuários Marianos, sozinha ou com amigas; vivia constantemente na presença de Deus. Leiga cheia de zelo, dedicava seu tempo livre a um apostolado ativo junto às crianças, ensinando-lhes o catecismo e formando-as para uma vida moral e religiosa; também preparava com grande solicitude as jovens para sua futura condição de esposas e mães. Visitava infatigavelmente os enfermos e os moribundos. Os pobres encontravam nela uma amiga fiel, cheia de bondade.
     Introduziu na paróquia as Obras Missionárias e contribuiu para difundir a imprensa católica durante o Kulturkampf (*). Era uma incansável apóstola da oração, pois tinha presente sua importância vital para todo cristão. Amava profundamente a Jesus Eucaristia e a Virgem Maria.
     Em 1835, aos 35 anos, lhe sobreveio um câncer no intestino, que os médicos não conseguiram deter. Margarida pediu à Virgem SSma. que lhe mudasse estas dores por outras que lhe permitissem participar mais diretamente na Paixão de Cristo.
     Em 8 de dezembro de 1854, no momento em que o Papa Pio IX proclamava em Roma o dogma da Imaculada Conceição, uma enfermidade misteriosa inesperadamente se manifestou, a qual a imobilizava em êxtases todas as sextas-feiras, enquanto revivia no espírito e no corpo os sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, desde o Getsemani até o Calvário.
     Recebeu ao mesmo tempo os estigmas da crucifixão, que ela dissimulava zelosamente aos olhos dos curiosos. O bispo de Friburgo, Mons. Marilly, mandou um médico verificar os êxtases e os estigmas de Margarida, o qual autenticou oficialmente a origem mística dos fenômenos.
     Nos últimos anos de sua vida a dor se fez mais intensa, mas suportou-a sem um lamento, abandonando-se totalmente à vontade do Senhor. Foi então que ela compôs a belíssima oração: “Ó Santa Vítima, chama-me a Ti, é justo. Não leve em consideração minha repulsa; que eu complete no meu corpo aquilo que falta aos Teus sofrimentos. Abraço a cruz, desejo morrer contigo. É na chaga de Teu Coração que espero exalar o último suspiro”.
     Morreu, segundo seu desejo, na festa do Sagrado Coração, na sexta-feira 27 de junho de 1879, às três da tarde. Os paroquianos de Siviriez e do entorno, quando do anúncio de sua morte, diziam: “A nossa santa morreu!”. Os funerais ocorreram no dia 30, com a participação de numerosos sacerdotes e uma multidão de fieis. Margarida foi sepultada no cemitério de Siviriez. Mais tarde foi transladada para a igreja paroquial, onde repousa na Capela de São José.
     A fama de santidade que gozava em vida continuou e se ampliou após sua morte. Em 29 de outubro de 1995, João Paulo II beatificou-a. 
 
 
(*) Kulturkampf ou luta pela cultura foi um movimento anticlerical alemão do século XIX, iniciado por Otto von Bismarck, Chanceler do Império Alemão em 1872.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Santa Eteldreda de Ely, Rainha e Abadessa - 23 de junho

    
     Eteldreda (lat. Ediltrudis; ingl. Audrey e Ethelthryth), filha de Anna, rei da Anglia oriental, e de sua esposa Saewara. Seu pai era cristão e fez muito pela conversão do seu reino e do Wessex. Irmã das Santas Sexburga, Etelburga e Vitburga, ela nasceu em Exning em Suffolk. A sua vida transcorreu em grande parte na segunda metade do século VII (636-679), quando grande era o fervor dos Anglos, recentemente convertidos.
     Segundo o desejo dos pais, em 652, muito jovem, ela desposou Tondbert, Rei de Gyrne, com o qual viveu em perpétua continência. Três anos depois, enviuvou e retirou-se na Ilha de Ely, que havia recebido do marido como dote de núpcias. Ali viveu vida solitária por cinco anos, dedicando-se à oração a maior parte do seu tempo.
     Em 660, por motivo de família, talvez para assegurar alianças políticas, casou-se com Egfrido, o filho mais novo de Oswy, rei da Nortumbria. Ela aceitou este casamento com a condição de que o jovem marido se empenhasse em respeitar a sua virgindade. Como dote, ela recebeu algumas terras em Hexham, que doou para São Vilfrido de York fundar a basílica de Santo André. São Vilfrido foi seu amigo e guia espiritual.
     Quando de seu casamento, Egfrido era um adolescente e Eteldreda, vários anos mais velha, obteve sua estima e afeição imediatamente; ela exerceu uma pura e nobre influência sobre ele. Ele se sentava junto a ela, dela adquiria sabedoria e ele a ajudava em suas boas obras.
     Em 670, aos 24 anos, Egfrido subiu ao trono da Nortumbria. Enquanto Rainha, Eteldreda se deleitava no convívio com monges e monjas, e convidava para o palácio aqueles mais distinguidos pelo saber e piedade (entre eles São Cutberto, o jovem prior de Lindisfarne).
     Egfrido, que por doze anos fora um mero e humilde adorador de sua bela esposa, agora, arrependido da condição aceita por ocasião do casamento, pediu ao santo bispo Vilfrido que o desobrigasse daquela promessa. Após um período de disputa e seguindo o conselho de São Vilfrido, Eteldreda se retirou no mosteiro de Coldingham, onde sua tia Santa Ebba, era abadessa, e ali recebeu o véu, isto é, tornou-se monja em 672.
     Temendo represálias de Egfrido, Santa Ebba sugeriu que Eteldreda, acompanhada de duas monjas de seu mosteiro, procurasse outro refúgio. Ela então foi para sua Ilha de Ely. Muitas são as histórias relacionadas com os perigos de sua jornada.
     Eteldreda restaurou a antiga igreja de Ely, destruída por Penda, rei pagão dos Mercians, e construiu seu mosteiro ao lado do que atualmente é a Catedral de Ely. Em 673, Eteldreda iniciou o governo do mosteiro duplo que dirigiu até sua morte, em 23 de junho de 680.
     Ela dirigiu o mosteiro deixando um grande exemplo de piedade, abstinência e todas as virtudes monásticas. Embora se tratando de uma grande dama que crescera num ambiente brando, ela passou a usar tecidos rústicos. Ela se negava o uso do banho quente, um luxo muito em uso entre os ingleses de seu tempo. Ela só se permitia esta indulgência nas grandes festas do ano.
     Muitos de seus velhos amigos, relacionamentos e pessoal da corte seguiram o seu exemplo; muitos colocavam suas filhas sob seus cuidados; monges e padres a procuravam como a um guia espiritual.
     São Vilfrido não havia retornado de Roma, onde obtivera de Bento II privilégios extraordinários para a fundação, quando Eteldreda morreu de um tumor no pescoço, que ela mesma dizia ser uma punição pela vaidade com que usara colares em sua juventude. Na realidade foi uma praga que atingiu várias de suas monjas.
     Depois de sua morte, sua irmã, sua sobrinha e sua sobrinha-neta, todas princesas reais e duas delas rainhas viúvas, seguiram-na como abadessas de Ely.
     Dezessete anos após sua morte, seu corpo foi encontrado incorrupto: São Vilfrido e o médico Cinefrido estavam entre as testemunhas. O tumor do pescoço, retirado por seu médico, estava curado. As roupas em que seu corpo fora envolvido estavam tão frescos como no dia em que ela fora enterrada. Seu corpo foi colocado em um sarcófago de pedra de origem romana, encontrado em Grantchester, e enterrado novamente.
     Ao longo de muitos séculos seu corpo foi objeto de devota veneração na famosa igreja que surgiu em sua fundação. Muitos milagres aconteciam junto ao seu túmulo. A Abadia de Ely foi dirigida por princesas da mesma família e por muitos anos foi muito famosa.
     O túmulo de Eteldreda foi meta de peregrinação até a Pseudo-Reforma: em 1539 a Abadia de Ely foi dissolvida por Henrique VIII, e em 1541 o túmulo da Santa foi destruído pelos seguidores aquele rei. A Catedral de Ely começara a ser construída no século XI; a Abadia de Ely sofreu menos do que outros mosteiros, mas mesmo assim, as imagens bem como os vitrais da catedral foram destruídos. A catedral foi restaurada nos séculos XIX e XX.
     A Santa era particularmente invocada contra as doenças da garganta e do pescoço. Os doentes de tais males costumavam usar gargantilhas adquiridas no seu santuário. As gargantilhas eram chamadas Tawdry (abreviação de Saint Audrey, o nome de Eteldreda em inglês).
    Uma mão da santa é venerada na Igreja de Santa Eteldreda, em Ely, que goza da distinção de ser a primeira igreja na Grã-Bretanha restaurada para o culto católico.
 
Etimologia: Etel, do anglo-saxão: “nobre pela riqueza”. Inglês: Ethel.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Santa Elia de Ohren, Abadessa - 20 de junho

     Santa Elia (ou Eliada) foi uma magnífica religiosa que a vida toda se enamorou da Regra de São Bento, com ela chegando ao cume da santidade. O cumprimento da Regra constituía para a Ordem Beneditina o fator principal para estender-se por todo mundo.
     Elia se preocupou durante todo o tempo em que foi abadessa da Abadia de Ohren, na qual havia doze irmãs, em tratar com santidade, elegância e finura a todas e a cada uma em particular, com a caridade que emanava de seu grande coração. Elia tinha consciência de que era como uma mãe para suas filhas na comunidade. Também era grande seu amor à Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.
     O titulo de abadessa é usado nos Beneditinos, nas Clarissas e em certos colégios de canonisas. Elia tinha o direito de usar o anel e a cruz como símbolos de seu cargo. Foi a quinta abadessa da Abadia de Ohren, próximo de Trier (Renânia-Palatinado), Alemanha, e faleceu por volta do ano 750.
     Há livros de oração que fazem menção específica a ela. Podemos enumerar entre outros o breviário do Arcebispo Balduíno, os calendários de Santo Irmino, de São Máximo no esplendoroso século XIV. Também a celebra o Greven nas Atas do Martirológio de Usuardo. Nos martirológios beneditinos, desde Wion, sua festa fixou-se definitivamente em 20 de junho.
     Embora de tão longínquas épocas, esta santa abadessa não perde atualidade, porque a relíquia de seu braço está hoje no mosteiro franciscano de Ohren.
 
Etimologia: Elia = do grego, “resplandecente como o sol”.

Corpus Christi, a festa para honrar e adorar o Santíssimo Sacramento

     "Eu Te adoro com efeito, Deus oculto, que Te escondes nestas aparências. A Ti sujeita-se o meu coração por inteiro e desfalece ao Te contemplar".
     "A vista, o tato e o gosto não Te alcançam, mas só com o ouvir-Te firmemente creio. Creio em tudo o que disse o Filho de Deus, nada mais verdadeiro do que esta Palavra de Verdade".
                                                                                          Adoro te devote, de Santo Tomás de Aquino
 
Orvieto, a "Cidade do Corpus Christi"
     Na belíssima Catedral se encontra o famoso Corporal que protagonizou o “Milagre de Bolsena”, em que a Santa Hóstia verteu sangue (ano de 1263), durante a Consagração na Missa rezada pelo Padre Peter de Praga, que passava por uma crise de fé na Presença Real.
     O Papa Urbano IV mandou trazer à sua presença aquele corporal e ordenou uma apuração meticulosa, que resultou na comprovação inequívoca do milagre.
     Com a bula Transiturus de hoc mundo, de 11 de agosto de 1264, Urbano IV estendeu a todo o Orbe católico a Festa de Corpus Christi, a ser celebrada publicamente de modo solene pelas ruas e praças. A data da comemoração foi fixada para a quinta-feira após o dia da Santíssima Trindade.
     A partir desta determinação de Urbano IV, uma soleníssima procissão se realiza todos os anos pelas encantadoras ruas de Orvieto. O Corporal milagroso é solenemente transportado naquela procissão.
 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Santa Julita e São Ciro, mártires - 16 de junho


     Julita vivia na cidade de Icônio, na Licaônia, atualmente Turquia. Ela era uma senhora riquíssima, da alta aristocracia e cristã, que enviuvara logo após ter dado à luz um menino. Ele foi batizado com o nome de Ciro, mas também atendia pelo diminutivo Ciríaco ou Quiríaco. Tinha três anos de idade quando o sanguinário imperador Diocleciano começou a perseguir, prender e matar cristãos. As pessoas ao olharem para seu semblante angélico pensavam que ele era um desses celestes espíritos bem-aventurados e não uma criança deste mundo.
     Julita, levando o filhinho e algumas servidoras, fugiu para a Selêucia e, em seguida, para Tarso, mas ali acabou presa. O governador local, um cruel romano chamado Alexandre, perguntou quem era ela e de onde vinha. Ela somente respondeu: "Sou cristã!"
     Irritado, o governador tirou-lhe o filho dos braços e passou a usá-lo como um elemento a mais para sua tortura. Colocou-o sentado sobre seus joelhos, enquanto submetia Julita ao flagelo na frente do menino, para fazê-la renegar a fé em Cristo. O menino entretanto não se aquietava e estendia os braços em direção da mãe, querendo unir-se a ela.
     Como Julita continuasse firme na sua fé, os castigos aumentaram. Enquanto era flagelada ela apenas dizia: "Eu sou cristã!" Foi então que o pequeno Ciro começou a gritar: "Também sou cristão!" Foi tamanha a ira do governador, que ele pegou o menino pelo pé e, do alto do local onde ele se sentava, atirou-o com violência no chão. Ciro bateu a cabeça no canto do degrau que levava ao tribunal e ela se quebrou. No mesmo momento sua alma subiu ao Céu.
    Conta-se que Julita ficou imóvel, não reclamou, nem chorou, apenas rezou para que pudesse seguir seu filho no martírio e encontrá-lo o mais rápido possível ao lado de Deus.
     O juiz, vendo que nem ameaças nem castigos podiam abalar a coragem da heroica mulher, mandou que ela fosse decapitada e seu corpo, bem como o de seu filho, fossem lançados no local onde os corpos dos criminosos eram jogados.
     No local da execução Julita ajoelhou-se e rezou. Ao final, o carrasco ergueu a espada e golpeou-a. Era o ano 304.
     Os corpos foram recolhidos por uma de suas fiéis servidoras e sepultados num túmulo que foi mantido oculto até que as perseguições cessassem. Quando isso aconteceu, poucos anos depois, o Bispo de Icônio, Teodoro, resolveu, com a ajuda de testemunhas da época e documentos legítimos, reconstruir fielmente a dramática história de Julita e Ciro. E foi assim, pleno de autenticidade, que este culto chegou até nossos dias.
     Ciro tornou-se o mais jovem mártir do cristianismo, precedido apenas dos santos mártires inocentes, exterminados pelo rei Herodes em Belém. Por isso é considerado o santo padroeiro das crianças que sofrem de maus-tratos. A festa de Santa Julita e de São Ciro é celebrada pela Igreja no dia 16 de junho em todo o mundo católico. 
 
Etimologia: Julita, do latim Julitta, que parece ligar-se a Julius (o luzente, o brilhante), mas é provável que tenha sofrido influxo etrusco, denunciado pelo sufixo feminino ta.
 
Fontes:
Rev. D. Chisholm, The Catechism in Examples (London: R & T Washbourne, Ltd., 1919), 277-80.