quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Beata Isabel Remiñán Carracedo, Religiosa e mártir - 7 de agosto

      
 
      A Irmã Isabel Remiñán nasceu no dia 17 de junho de 1876 em Seavia de Coristanco, localidade de Amboade (La Coruña). Era filha de Francisco Remiñán e de Pilar Carracedo. Foi batizada em 18 de junho de 1876 recebendo em nome de Maria do Consolo. Pertencia à uma família de lavradores de boas condições financeiras, católicos praticantes. Vários familiares e parentes próximos seguiram a vocação religiosa.
     "Pessoa de carácter, de constância, de energia e decidida, deixou a casa paterna e foi a Santiago para estudar e preparar-se para ser religiosa" (carta de seu parente D. Antônio Carracedo Viña, pároco de Sofán).
     Maria do Consolo recebeu a confirmação, como era necessário para iniciar a vida religiosa, em 19 de novembro de 1905 e vestiu o hábito no noviciado da Casa Generalícia da Congregação da Mãe do Divino Pastor, mudando o seu nome para Irmã Isabel. Emitiu sua profissão temporária em 12 de dezembro de 1907 e a perpétua em 15 de dezembro de 1912 também na Casa Generalícia.
     A função principal de Irmã Isabel era o ensino, mas o Senhor a provou nos seus últimos anos com uma enfermidade que a fez ingressar na enfermaria da comunidade e foi então o momento que se tornou patente sua humildade e seu espírito de sacrifício, nunca foi ouvida se lamentando. Em março de 1936 ingressou no Hospital da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, em Madrid, ocupando a cama 2 da sala aos Mártires, com o diagnóstico de Lupus tuberculoso no rosto.
     Quando os distúrbios políticos e revolucionários conturbaram Madrid, pensou-se que ela poderia permanecer no hospital, mas ela teve que sair e, com as outras religiosas, se refugiar em um dos andares que os superiores haviam indicado na Rua Arenal. Irmã Isabel permaneceu ali algum tempo, mas pensou em retornar ao hospital e foi reconhecida pelas turbas revolucionárias quando para lá se dirigia, e foi aprisionada.
     O que ocorreu depois é incerto, não se sabe com certeza como chegou ao local da execução, nem as circunstâncias exatas dela. Presume-se que foi reconhecida e feita prisioneira na porta do hospital. Algumas testemunhas afirmaram que ela ficou no meio da turba e foi lapidada; outros disseram que ela foi amarrada pelas mãos e pés a dois caminhões que, partindo em direções opostas, esquartejaram o corpo.
     É fato, porém, que o seu corpo foi encontrado no dia 7 de agosto de 1936 a cinco quilômetros da estrada de Perales del Rio, nos extremos municipais de Villaverde, perto de Madrid. Os documentos judiciais estabeleceram que Irmã Isabel foi morta por feridas de arma de fogo, o que contraria os comentários difundidos entre o povo.
     Fontes da Congregação afirmam que se ignora o local de seu sepultamento, mas recentemente foi encontrado em Villaverde Alto um atestado de óbito que se refere ao cadáver de uma mulher cuja documentação identifica como Consolo Remiñán Carracedo.
     O processo canônico para confirmar sua morte como vítima do ódio à Fé, bem como a de suas coirmãs Gertrude (no século Doroteia) Llamazares Fernández e Assunta (no século Juliana) González Trujillano, transcorreu de 27 de setembro de 1999 a 15 de outubro de 2000 na Arquidiocese de Madrid, e foi integrado a um processo da Diocese de Orense em 17 de fevereiro de 2000.
     As três foram beatificadas em Tarragona no dia 13 de outubro de 2012, incluídas no grupo de 522 mártires que foram assassinados durante a guerra civil espanhola.
 
Etimologia: Isabel, forma portuguesa/espanhola do francês antigo Ysabel. Ou variação de Jesabel. Outros fazem-no provir do hebraico Izebel: “casta”.

sábado, 2 de agosto de 2014

Stas. Licínia, Leôncia, Ampélia e Flávia, Virgens - 3 de agosto

    
 

     As santas irmãs Licínia, Leôncia, Ampélia e Flávia constituíram um digno círculo em torno da figura e da obra do grande Santo de Vercelli, Santo Eusébio († 1° agosto 371), que com o seu célebre cenóbio formou e produziu tantas figuras santas, sobretudo de bispos, que honraram quase todas as dioceses da Itália setentrional com seus luminosos episcopados a partir da antiga diocese de Vercelli.
     Santo Eusébio fundou também um mosteiro feminino em Vercelli, colocando-o sob a direção de sua irmã, Santa Eusébia (comemorada em 15 de outubro), que foi a primeira superiora. Desde o início neste mosteiro floresceram santas figuras de monjas, entre as quais as quatro virgens de que falamos. A existência das virgens consagradas no tempo de Eusébio está documentada por alguns escritos do próprio Eusébio em sua segunda carta escrita em Scitópoli, às “Santas Irmãs” de Vercelli e às “Santas Virgens”.
     O mosteiro ficava próximo da catedral em que era bispo Santo Eusébio, notável pela sua austeridade e doutrina espiritual, e que com a irmã deu a este cenóbio as normas de vida ascética.
     As monjas deviam praticar jejuns, viver em austera pobreza, recolherem-se várias vezes ao dia e também à noite, cantar em coro os louvores ao Senhor, observar escrupulosamente a clausura, ocupar as horas livres no trabalho para atendimento das necessidades do mosteiro e cuidar também dos paramentos da catedral. No interior da catedral havia, nas naves laterais e no vestíbulo, um local onde as monjas podiam assistir aos ritos sagrados, associando-se às orações do povo.
     Além do nome da primeira superiora, Santa Eusébia, são conhecidos oito ou nove nomes de monjas conservados nas antigas inscrições que ornavam seus túmulos. É o caso das monjas Zenobia, Constança e das quatro irmãs que celebramos hoje. Elas foram objeto de culto na antiga liturgia eusebiana e eram invocadas com os santos daquela Igreja nas ladainhas.
     Uma inscrição métrica e acróstica ornava o sepulcro das quatro virgens e exaltava as suas virtudes com expressões cheias de admiração. Recentemente o mármore foi perdido, mas felizmente os trinta versos tinham sido transcritos e são atualmente a única fonte que temos sobre as santas.
     Daquela inscrição, no último verso tomamos conhecimento de que a sobrinha das santas virgens, Taurina, monja ela também e superiora, desejou colocar sobre o túmulo que guardava as tias todas juntas, o poema que foi composto provavelmente pelo bispo São Flaviano, já então aluno do cenóbio eusebiano e poeta que celebrava os méritos dos personagens mais dignos florescidos na Igreja de Vercelli.
     Característica singular deste poema é que as quatro irmãs não são nomeadas, mas no final do elogio o poeta adverte os leitores para o fato de que seus versos são acrósticos, isto é, as iniciais de cada verso lidas na ordem formam os nomes das pessoas a quem o poema é dedicado; assim, os nomes das santas irmãs são revelados lendo-se em seguida as primeiras letras dos 30 versos.
     No que se refere à época em que elas viveram, calculando a idade de sua sobrinha Taurina, que viveu uma geração depois e foi contemporânea de São Flaviano († 542), se pode calcular que elas viveram na segunda metade do século anterior, isto é, no século V, portanto cem anos depois da fundação do mosteiro. Por outro lado, seus nomes singularmente romanos indicam que elas viveram no período anterior às invasões bárbaras.
     Os versos do poema elogiam a piedade e a fé dos seus pais, que dedicaram ao Rei celeste tantas filhas no mosteiro eusebiano. O autor dedica especialmente sua inspiração poética à mãe das quatro irmãs, Maria, que as dera à luz e repousa na paz eterna iluminada pela luz dos quatro astros esplêndidos consagrados a Deus. O poema continua elogiando as virtudes das irmãs, que no mosteiro se assemelhavam às virgens da parábola, rezando e esperando a vinda do Esposo Divino.
     Sob o véu imposto sobre suas cabeças pelo bispo celebrante, as suas vidas transcorreram inocentes e ricas de boas obras. E os seus corpos, livres de todo sofrimento, jazem num único túmulo: tal foi o amor que as manteve unidas em vida que um só sepulcro as guarda e as conserva para veneração dos fieis.
     São Jerônimo, escrevendo a Inocêncio no ano de 370, conta de uma mulher condenada à morte pelo governador de Vercelli. Dada como morta, durante a sepultura reviveu e foi confiada aos cuidados de algumas virgens que a acolheram e cuidaram dela em sua casa até sua completa recuperação. Este é um testemunho precioso que documenta a obra de caridade das virgens eusebianas.
     Desde a metade do século VI desaparecem as notícias desta instituição e este silêncio deve-se às invasões dos Longobardos na Itália.
     O historiador M. A. Cusano, no Calendário Eusebiano por ele publicado, coloca as quatro santas no dia 3 de agosto. Suas relíquias estão na catedral de Vercelli e uma parte também na igreja da Casa Mãe da Congregação das Irmãs Filhas de Santo Eusébio, fundada em Vercelli no dia 29 de março de 1899 por Mons. Dario Bognetti e pela Irmã Eusébia Arrigoni, sob a inspiração da espiritualidade do milenar mosteiro eusebiano.

Etimologia: Licínia, do latim Licinius, do grego Likínnios. Talvez o mesmo que Licinus: “o que tem o cabelo levantado na testa”...
Leôncia: do grego Leóntios, do latim Leontius: “leonino(a)”.
Ampélia: do latim Ampelius, do grego Ámpelos: “vinhedo”.
Flávia: do latim Flavius: “louro(a), áureo(a), o(a) de cabelos louros”.
Fonte: www.santiebeati/it

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Beata Clara de Orléans, Monja cisterciense - 1 de agosto


     Dentre as doze santas ou beatas relacionadas pela “Bibliotheca Sanctorum” com o nome de Clara, e todas vivendo em tempos longínquos, a única de nacionalidade francesa é a Beata Clara venerada em Orléans, mas originária da Normandia.
     Ela é recordada pelo hagiógrafo Castellano nas suas “Additiones” (Anexos ou Apêndices) ao Martirológio Romano como virgem da Ordem Cisterciense que se desenvolveu sobretudo em 1112 com São Bernardo de Claraval.
     Embora não sendo recordada no Calendário de Digion, nem no Menológio de Henriquez, é reconhecida com o título de beata. Mas antes do hagiógrafo Castellano, o pesquisador Calemoto já havia escrito que a festa da Beata Clara, virgem reclusa, era celebrada no dia 1º de agosto em um convento de monjas cistercienses da Diocese de Orléans, na localidade ‘Notre-Dame’.
     Os restos mortais da monja penitente foram transferidos para o convento e ali permaneceram custodiados por muito tempo. Durante uma das recorrentes guerras locais, as relíquias foram destruídas pelo fogo, mas sua lembrança continuou viva entre os numerosos peregrinos da época.
     Estas são as únicas informações que temos sobre esta Beata, que é venerada em Orléans no dia 1º de agosto.
 
Fonte: santiebeati
 
Etimologia: Clara, do latim Clarus: “clara, ilustre, brilhante”. Clarissa, derivado de Clara.
 
PS. A gravura acima não representa efetivamente a Beata Clara de Orléans, mas uma religiosa cisterciense anônima. Entretanto, achamos que ela bem podia ser adaptada à Beata comemorada no dia de hoje.

domingo, 27 de julho de 2014

Santa Natália e comp., mártires de Córdoba - 27 de julho

     
      Em 711, um exército muçulmano vindo do Norte da África conquistou a Ibéria visigótica cristã. Sob o seu líder, Tárique (Tariq ibn Ziyad), eles desembarcaram em Gibraltar e colocaram a maior parte da Península Ibérica sob o jugo do Islã numa campanha que durou oito anos. A região foi rebatizada de Al-Andalus pelos novos líderes. Quando os califas omiadas foram depostos pelos abássidas em Damasco em 750 d.C., os sobreviventes da dinastia se mudaram para Córdoba e ali passaram a governar um emirado, tornando a cidade um centro da cultura islâmica ibérica.
     Uma vez conquistada a Ibéria, a sharia (lei islâmica) foi imposta em todo o território. Os cristãos e os judeus eram chamados de dhimmis ("povos do livro") e estavam sujeitos à jizyah, um imposto pago por pessoa, que os permitia viver sob o regime islâmico. Sob a sharia, a blasfêmia contra o Islã, seja por muçulmanos ou dhimmis, e a apostasia eram motivos suficientes para a pena de morte.
     Apesar de quatro basílicas cristãs e diversos mosteiros - mencionados no Martirológio de Eulógio - terem permanecido abertos, os moçárabes (cristãos em território muçulmano) foram gradualmente aderindo ao Islamismo, num processo estimulado pela taxação e pela discriminação legal imposta aos cristãos (como as leis regulando os filhos de casamentos entre cristãos e muçulmanos).
     De forma incomum, Recafredo, bispo de Córdobra, ensinava as virtudes da tolerância e da acomodação com as autoridades muçulmanas, que não ajudou a estancar as conversões. Para espanto de Eulógio, cujos textos são a única fonte para os martírios e que passou a ser venerado como santo ainda no século IX, o bispo ficou do lado das autoridades muçulmanas contra os martírios, que ele entendia serem obra de fanáticos. O fechamento dos mosteiros começou a aparecer nos registros a partir da metade deste mesmo século.
     Santo Eulógio encorajava os mártires como forma de reforçar a fé da comunidade cristã, como nos tempos das perseguições aos cristãos sob o Império Romano. Ele compôs tratados e um martirológio para justificar a autoimolação dos mártires, dos quais um único manuscrito contendo sua Documentum martyriale, os três livros de sua Memoriale sanctorum e sua Liber apologeticus martyrum, foi preservado em Oviedo, no reino cristão das Astúrias, no extremo noroeste da Ibéria.
     Santo Eulógio foi enterrado na Catedral de San Salvador, em Oviedo, para onde as suas relíquias foram transladadas em 884 d.C.
As execuções
     Os quarenta e oito cristãos (a maioria monges) foram martirizados em Córdoba na década de 860 por decapitação por ofensas religiosas contra o Islã.
     A Acta detalhada destes martírios foi atribuída ao habilmente chamado "Eulogius" ("benção"), que foi um dos últimos a morrer. Embora a maior parte dos mártires de Córdoba terem sido hispânicos, beto-romanos ou visigodos, houve um árabe, um sírio, um monge grego e dois outros cujos nomes eram gregos.
Santa Natália e seus companheiros
     Santa Natália de Córdoba nasceu nesta cidade por volta do ano 825 d.C., em plena dominação muçulmana. Reinava então o emir Abderramán II, que acreditando que com isto amansaria o caráter indomável dos cristãos, desencadeou contra eles uma perseguição que enfrentou ainda maiores problemas.
     Natália nascera de pais maometanos. Mas após a norte do pai, sendo ainda bem pequenina, sua mãe se casou em segundas núpcias com um cristão, que a converteu. Natália, portanto, foi educada nos preceitos cristãos e casou-se com Aurélio, também cristão, mas na clandestinidade, para evitar as perseguições.
     Certo dia, Aurélio presenciou um espetáculo humilhante em que João, um cristão, amarrado a um jumento com o rosto voltado para a cauda do animal, era conduzido ao lugar da execução sob a gritaria dos infiéis. A partir daquele momento, os esposos resolveram ser mais corajosos e praticar sua religião em público para animar aos demais cristãos, evitando que eles aderissem à religião oficial naquele momento e lugar.
     Juntaram-se a eles o casal Felix e Liliana. Pressentindo que chegava a sua hora, o casal distribuiu os seus bens aos pobres e necessitados. Félix e Liliana fizeram o mesmo.
     Natalia, Aurélio, Felix e Liliana eram ibéricos cuja ascendência, ainda que religiosamente mesclada, legalmente requeria que eles professassem o islamismo. Após terem recebido quatro dias de prazo para se retratarem, eles foram condenados como apóstatas por revelarem que eram cristãos em segredo.
     O diácono Jorge era um monge da Palestina que foi preso juntamente com os dois casais. Mesmo tendo recebido o perdão por ser estrangeiro, ele escolheu denunciar o Islã para poder morrer com eles.
     Após juiz e verdugo tentarem de todos os meios que eles renegassem sua Fé, nem as promessas nem as torturas os demoveram; finalmente foram degolados em 27 de julho de 852.
     Seus corpos foram sepultados e venerados pelos cristãos; mas, por estarem pouco seguros em Córdoba, Carlos o Calvo seis anos mais tarde providenciou o traslado do corpo de Santo Aurélio e a cabeça de Santa Natália para Saint-Germain (Paris).
Etimologia: Natália, do latim Natalis, derivado de nascor, nascere, natus, que significa “nascer”. Derivado de Natal: “nascida do Natal de Jesus”. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Santa Cristina, a Admirável - 24 de julho


Martirológio Romano: Em Sint-Truiden, no Brabante, moderna Bélgica, Beata Cristina, virgem, dita a Admirável, porque nela, na mortificação do corpo e nos êxtases místicos, o Senhor operou maravilhas.
     Nascida de família aldeã, em Brusthem, na diocese de Liège, cerca do ano de 1150, Cristina ficou órfã aos quinze anos; vivia com duas irmãs mais velhas e ocupava-se em guardar os rebanhos nos campos.
     Os fatos que a seu respeito narram o dominicano Tomás de Cantimpré (+ 1270) e o Cardeal Tiago de Vitry não merecem grande crédito, mas compõem a sua legenda.
     Tomás de Cantimpré, antigo professor de Teologia em Lovaina, afirma narrar o que ouviu da boca dos que a conheceram, mas mostra-se demasiado crédulo. Quanto a Tiago de Vitry, trata-se de cronista sério que afirma ter conhecido Cristina pessoalmente.
     “Deus operou nela”, escreve ele, “coisas verdadeiramente maravilhosas. Já estava morta há muito tempo, mas conseguiu a graça de retomar o corpo, a fim de sofrer o seu Purgatório cá na terra. Desta forma sujeitou-se a mortificações inauditas, ora rolando-se por cima do fogo, ora permanecendo nos túmulos dos mortos. Acabou por ser favorecida com graças sublimes e gozar duma paz profunda. Muitas vezes, transportada em êxtase, levou as almas dos mortos para o Purgatório e outras vezes tirou-as do Purgatório para as levar para o Paraíso”. (ed. in Acta SS. Iulii, V, Veneza 1748, pp. 650-60).
     Ativados pela contemplação, os ardores da sua alma tornaram-se tão intensos, que o corpo não pôde resistir: ela caiu doente e “morreu” pela primeira vez quando tinha pouco mais de vinte anos. No dia seguinte, levaram os seus despojos à igreja para a cerimônia dos funerais.
     Durante a missa de Réquiem, viram-na de repente mexer-se, levantar-se no esquife e voar, como um pássaro, até à abóbada do templo, tal era o desgosto que lhe causava a presença dos pecadores que assistiam às cerimônias. Os assistentes fugiram espantados, à exceção da irmã mais velha, que ficou imóvel, mas não sem terror, até ao fim da missa. Atendendo à ordem do sacerdote, Cristina desceu ilesa e voltou para casa, onde tomou a refeição com as suas irmãs.
     Contou depois aos amigos, que vieram interrogá-la, que logo depois da sua morte os anjos a tinham sucessivamente transportado ao Inferno, onde encontrara muitas pessoas conhecidas; a seguir ao Purgatório, onde ainda encontrara mais; e por fim ao Paraíso, onde lhe foi dada a escolha de ficar para sempre ali ou de voltar a Terra para, com os seus sofrimentos, trabalhar no resgate das almas do Purgatório, orar e sofrer pelos fiéis defuntos, o que ela aceitara sem hesitação.
     A sua existência transcorreu no meio de milagres e fenômenos misteriosos. O odor do pecado repugnava-lhe de tal forma, que só depois de algum tempo conseguia suportar o contato com os seus semelhantes. Envergonhados das suas aparentes extravagâncias, que o público atribuía a uma legião de demônios, suas próprias irmãs e amigos a perseguiam.
     Cristina retirou-se primeiro no castelo de Looz, depois em Saint-Troud, onde faleceu cerca do ano de 1224, no Convento de Santa Catarina, cuja superiora declarou ter sido Cristina sempre duma submissão perfeita.
     Suas relíquias, conservadas em Nonnemielen, se encontram atualmente na igreja dos Redentoristas de Saint-Troud.
 
Fonte: www.portalcatolico.org.br; Santos de cada dia, Pe. José Leite, S.J. 3a. ed. Editorial A.O. – Braga.
 
Etimologia: Cristina, do latim Christinus, diminutivo derivado de Christus, do grego Christó: “o ungido, consagrado”, derivado do verbo chrio: “ungir”.

domingo, 20 de julho de 2014

Beata Lucrécia Garcia Solanas, Viúva e mártir de 1936 - 21 de julho


     Lucrécia Garcia Solanas nasceu em Aniñon, perto de Zaragoza, no dia 13 de agosto de 1866. Em 9 de outubro de 1910 casou-se com José Gaudi Negre, que faleceu em 1926. Não se sabe se tiveram filhos. Desde então ela passou a viver no convento das monjas do Instituto das Descalças Mínimas de São Francisco de Paula, em Barcelona, em uma casa fora da clausura, para ficar próxima de sua irmã, Madre Maria de Montserrat.
     Sempre à disposição das monjas, atuava como porteira recebendo as mensagens para elas; era mediadora entre o mosteiro e o mundo exterior. Muito piedosa, se habituara a seguir as orações da comunidade.
     Sua história foi recentemente relatada pelo Monsenhor Vicente Cárcel Ortí, historiador e autor de vários livros que contam a história de católicos perseguidos na Espanha.
     Conforme seu relato, tudo começou no dia 19 de julho de 1936, quando Lucrécia foi correndo ao convento para avisar as religiosas para deixarem o lugar imediatamente, uma vez que várias igrejas em Barcelona estavam sendo queimadas pelos responsáveis pela perseguição religiosa.
     Madre Maria de Montserrat, superiora daquele Instituto, que apesar da violência até aquele momento não quisera deixar o convento, ordenou às irmãs que se vestissem como civis, se escondendo em uma torre nas proximidades do local, além de se refugiarem em vários lugares, incluindo o porão da casa da viúva, que ficava ao lado do convento.
     Em 21 de julho um grupo armado entrou no mosteiro, forçando a porta com dinamite. Os “vermelhos” entraram na igreja adjacente, a profanaram e depois a queimaram. Tentando saquear o mosteiro, os republicanos profanaram os corpos de duas irmãs enterradas alguns meses antes, deixando-os expostos ao ridículo público.
     De onde estavam escondidas, algumas das Irmãs podiam ouvir o ruído dos milicianos que com a ajuda de cães buscavam suas vítimas.
     No dia 22 de julho, o grupo de refugiadas aumentou, porque algumas delas voltaram por não poderem permanecer mais em suas casas. No dia seguinte, o porteiro do convento as traiu. Os anticatólicos as encontraram na torre rezando o Rosário. Perguntaram quem era a Madre Superiora para interrogá-la sobre as riquezas que esperavam encontrar no mosteiro.
     A Madre ofereceu a própria vida em troca da de suas Irmãs, disse aos milicianos que Lucrécia era uma leiga, porém eles não a escutaram e quiseram saber onde estavam as outras monjas. Encontraram-nas no sótão, rezando de joelhos. Todas foram aprisionadas e começou para elas o Calvário.
     Os comunistas insultaram as religiosas, colocaram seus rosários ao redor de seus pescoços e, ridicularizando-as, puseram-nas em fila para arrastá-las pela rua. Somente uma delas, irmã de um famoso anarquista, foi poupada. Amparo Bosch Vilanova, testemunha ocular, descreveu o fim das outras Irmãs: “Colocaram-nas em fila como se fossem receber a Comunhão, empurraram-nas para a rua onde havia um caminhão, onde as jogaram como sacos de batatas, com uma violência tal, que com certeza lhes quebraram algum osso”.
     O caminhão se dirigiu a Santo André, onde as mulheres, depois de terem sido submetidas a prolongadas torturas, foram assassinadas. Algumas testemunhas disseram que por volta das 19 h desse dia foram ouvidos vários disparos. Os corpos das monjas foram deixados amontoados. Era um total de dez, nove religiosas e uma leiga. Tinham feridas de arma branca no peito e nas partes íntimas, as roupas arrancadas.
     Enquanto eram torturadas pelos “vermelhos”, todas as monjas, e com elas Lucrécia, temiam mais a violação do que a morte e em seus corpos deixaram sinais de uma luta terrível. Uma mulher relatou que os próprios agressores ficaram perturbados diante da valentia dessas mulheres, inclusive comentado no bar, depois de tê-las martirizado: “Que monjas mais valentes morreram hoje!” Segundo outras testemunhas, as dez mártires haviam dado suas vidas rezando de joelhos e pedindo o perdão para seus verdugos.
     No dia 13 de outubro de 2013, 522 mártires da Guerra Civil Espanhola foram beatificados em Tarragona. Entre os mártires estavam sacerdotes, religiosos, religiosas, vários leigos que deram sua vida em defesa da Fé, inclusive Lucrécia Garcia Solanas. 
 
 
Etimologia: Lucrécia, do latim Lucretius: “que atrai, que lucra”. Alguns estudiosos acreditam que deriva do Monte Lucretilis, em Sabina, Itália, de onde a gens Lucretia proveio.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Santa Edviges da Polônia, Rainha - 17 de julho

    

 

     Edviges d'Anjou foi rainha da Polônia a partir de 1384 e grã-duquesa da Lituânia a partir de 1386. Filha de Luís I, rei da Hungria e da Polônia e de Isabel Kotromanic da Bósnia, sucedeu seu pai em 1382 na Polônia, enquanto sua irmã Maria herdou o trono da Hungria.
     Embora seja chamada de "rainha", Edviges foi de fato coroada como "Rei da Polônia" (Hedvigis Rex Poloniæ e não Hedvigis Regina Poloniæ). O gênero masculino do seu título significava que ela era monarca de pleno direito, enquanto que o título de rainha era atribuído às esposas dos reis. Edviges pertencia à Casa Real dos Piast, antiga dinastia nativa da Polônia, sendo bisneta de Ladislau I, que reunificou o reino polonês, em 1320.
     Como rainha, Edviges teve efetivamente poderes limitados, mas foi muito ativa na gestão política do reino e na vida diplomática e cultural de seu país.
     No final do primeiro milênio, os apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo tinham ido à terra dos Piast. Naquela época Mieszko I recebeu o Batismo, e isto constituiu ao mesmo tempo o Batismo da Polônia. Séculos depois, os poloneses batizados contribuíram para a evangelização e o Batismo dos seus vizinhos, graças à obra de Edviges.
     Após consultas ao Arcebispo de Bodzanta, ao Bispo de Cracóvia Jan Radlica, a outros nobres do reino polonês, e muita oração diante do Crucifixo de Wawel, ficou estabelecido seu casamento com Jogaila, Grão-Duque da Lituânia, o qual havia prometido receber o Batismo – bem como toda sua Nação, último país pagão na Europa – e unir a Lituânia à Polônia. As bodas se realizaram a 18 de fevereiro de 1386. Convertido ao Catolicismo, o grão-duque foi batizado recebendo o nome de Ladislau II.
     Consciente da missão de levar o Evangelho aos irmãos lituanos, Edviges fê-lo juntamente com o seu esposo. Um novo país cristão, renascido das águas do Batismo, surgiu no Báltico, como no século X a mesma água fizera renascer os filhos da Nação polonesa. Uma vez aberta a estrada para a cristianização da Lituânia, Edviges, coerente no agir, procurou assegurar ao povo recém-batizado uma formação religiosa fundando em Praga um Colégio para os futuros sacerdotes daquela Nação.
     Edviges fora educada na leitura religiosa clássica desde tenra infância. Lia a Sagrada Escritura, o Saltério, as Homilias dos Padres da Igreja, as meditações e orações de São Bernardo, os Sermões e a Vida dos Santos, etc. Algumas destas obras foram traduzidas para a língua polonesa para ela e para seus súditos. A Rainha ordenou a execução de um saltério em três versões linguísticas, chamado Saltério Floriano, o qual se encontra hoje na Biblioteca Nacional de Varsóvia.
     Ela doou as próprias joias para financiar a recuperação da Academia de Cracóvia que, no século XIX, passou a se chamar Universidade Jagelônica, em homenagem à Dinastia Jagelônica, sucessora dos Piast. Nesta Universidade educaram-se e ensinaram pessoas que tornaram o nome da Polônia, e daquela cidade, famosos no mundo inteiro. A fama desta Universidade foi durante séculos um motivo de orgulho para a Igreja de Cracóvia. Dela saíram estudiosos da qualidade de São João Kanty, que exerceram não pouca influência no desenvolvimento do pensamento teológico da Igreja universal.
     Visitando os hospitais medievais (Biecz, Sandomierz, Sącz, Stradom) podemos admirar as numerosas obras fundadas pela misericórdia da soberana.
     A Santa Rainha tinha compreendido o ensinamento de Nosso Senhor e dos Apóstolos. Muitas vezes ela se ajoelhara aos pés do Crucifixo de Wawel para aprender dEle mesmo o amor generoso. E com Ele, do Cristo de Wawel, este Crucifixo negro que os habitantes da Cracóvia visitam em peregrinação na Sexta-Feira Santa, a Rainha Edviges aprendeu a dar a vida pelos irmãos. A sua profunda sabedoria e a sua intensa atividade brotavam da contemplação, do vínculo pessoal com o Crucificado.
     Perita na arte da diplomacia, ela lançou os fundamentos da grandeza da Polônia do século XV. Incentivou a cooperação religiosa e cultural entre as nações, e enriqueceu a Polônia com um patrimônio espiritual e cultural. Graças à profundidade da sua mente Cracóvia se tornou um importante centro do pensamento na Europa, o berço da cultura polonesa e a ponte entre o Ocidente e o Oriente cristãos.
     A sua bondade e senso de justiça era fruto de uma vida de muito sofrimento. Coroada aos dez anos, em 1384, aos doze deixou seu país natal. Em 1387 perdeu sua mãe, em 1395 sua irmã. Era vítima de calúnias difundidas no mundo europeu que tentavam criar animosidades entre seu esposo bem mais velho e ela; enfrentou dificuldades políticas e humanas, sofreu também com o fato de durante vários anos não poder dar um herdeiro ao trono.
     Para aproximar os súditos poloneses, lituanos e rutenos dos frutos espirituais da Igreja, pediu ao Papa Bonifácio IX a graça de poder celebrar o Ano Santo de 1390 no próprio país. Seu pedido foi motivado pelos grandes perigos políticos e sociais a que estariam expostos os peregrinos numa viagem à Roma. O Papa atendeu seu pedido, enviando, em 1392, o seu legado, João de Pontremoli, com a bula e as respectivas instruções.
     A Santa Rainha fundou, em 1393, o Colégio dos 16 Salmistas, para que noite e dia se louvasse a glória de Deus.
     Finalmente a Santa Rainha recebeu a graça de se tornar mãe, mas gozou por pouco tempo a alegria da maternidade física, porque a herdeira do trono, Isabel Bonifácia, morreu pouco depois. Quatro dias depois, em 17 de julho de 1399, Edviges falecia, em decorrência de complicações do parto, aos 25 anos e cinco meses. A Dieta da Polônia elegeu Ladislau II para sucedê-la. Este teve como sucessores os filhos havidos com sua última mulher, Sofia de Halshany.
     Apesar da veneração espontânea do povo polonês que a considerava Santa, foram necessários seiscentos anos para que o seu culto fosse reconhecido oficialmente pela canonização, o que ocorreu no dia 8 de junho de 1997, em Cracóvia, Polônia, durante a visita de João Paulo II àquela cidade.
O Crucifixo Negro e a Rainha Santa Edviges
     O Crucifixo Negro foi trazido para a Polônia por ela mesma em 1384. Santa Edviges passava horas rezando diante do crucifixo e em várias ocasiões Nosso Senhor lhe falou por meio dele. Desde 1745 o Cristo Negro, de 13 pés de altura, ocupa a parte central do altar barroco da Catedral. A Santa Sé declarou que ouvir a Santa Missa neste lugar obtém a graça de livrar uma alma do Purgatório.
     Quando a Rainha Edviges foi beatificada, em 1987, suas relíquias foram transferidas para o altar do Crucifixo Negro.
 
Etimologia: Edviges = do alemão antigo Haduwig, composto de sinônimos “luta” (hadu) e “combate” (wig). Outros: “lutadora que odeia”. Hedwig em alemão; Jadwiga em polonês; Eduvigis em espanhol; Edvige em italiano; Hedvigis em latim.