terça-feira, 21 de outubro de 2014

Santa Laura Montoya Upegui, Fundadora - 21 de outubro

    
     Laura Montoya Upegui, a primeira mulher colombiana a ostentar o título de Santa, nasceu em Jericó, Colômbia, no dia 26 de maio de 1874. Foi batizada no mesmo dia de seu nascimento com o nome de Maria Laura de Jesus. Filha de João da Cruz Montoya e de Maria Dolores Upegui Echavarría, teve dois irmãos: Carmelita, que era mais velha, e João da Cruz, seu irmão mais novo.
     Sua vida esteve sempre marcada pela dor, pobreza e toda espécie de acontecimentos desafortunados, que serviriam para temperar seu carácter e fazer dela a mulher que a história conhece: um ser que se dedicou aos mais desvalidos e aos indígenas.
     Segundo seus biógrafos, que são muitos, entre os quais se contam religiosas da congregação por ela fundada, aos dois anos, em plena guerra civil de 1876, perdeu seu pai, que era médico e comerciante, ao defender este seus princípios religiosos.
     Desde então, a infância e a adolescência de Laura mudariam radicalmente, pois todos os bens de sua família, bem como a de seus vizinhos de Jericó, foram confiscados. Sua mãe, repudiada e humilhada até por sua própria família, passou fome e toda espécie de necessidades, até que o avô materno chamou-a e aos filhos para que fossem viver em sua propriedade, em Amalfi, onde as penúrias continuaram. Havia também a antipatia que a pequena Laura despertava entre alguns de seus familiares por sua seriedade. Isto a obrigou a passar boa parte do dia no campo, circunstância que serviu para que ela se tornasse uma pessoa contemplativa e amante da natureza.
     Aos sete anos continuava sem estudar e um dia, vendo um formigueiro, descobriu qual seria o sentido de sua vida: “De repente fui como que ferida por um raio. Aquele raio foi como um conhecimento de Deus que hoje, depois de tanto estudar e aprender, não sei mais de Deus do que soube então...”, segundo ela própria contaria mais tarde.
     Laura foi depois levada para um orfanato em Robledo (atualmente parte da cidade de Medellin) que era dirigido por sua tia Maria de Jesus Upegui, religiosa fundadora da Comunidade das Servas do Santíssimo e da Caridade. Como não tivera instrução oficial, aos 11 de idade sua tia a inscreveu como externa no Colégio do Espírito Santo, uma instituição de educação frequentada por meninas da classe alta da cidade. Devido às adversidades que enfrentou ao morar em um orfanato, sem dinheiro para comprar livros estudando em um colégio de classe alta, se retirou da instituição ao findar o ano.
     No ano seguinte foi morar em San Cristóbal numa propriedade aos cuidados da tia enferma. Ali se entregou às leituras espirituais que despertaram o desejo de fazer-se religiosa carmelita. Em 1887 voltou a Medellin para estar com sua mãe e pouco tempo depois seu avô adoeceu e ela foi para Amalfi para cuidar dele até sua morte. A morte de seu avô piorou ainda mais a situação financeira da família.
     Aos 16 anos, demonstrando seu carácter e sua decisão de conseguir o que se propunha, se apresentou diante da reitora da Escola Normal de Medellín a quem expos a necessidade que tinha de estudar. Foi-lhe conseguido a permissão para estudar, porém na biblioteca, porque não tinha livros; ficou alojada naquela escola e obteve excelentes resultados em seus estudos. Em 1893 se formou como professora elementar.
     Aos 20 anos, voltou a viver com a mãe e se dedicou à formação das jovens na fé católica em diferentes escolas públicas de Antioquia. Sua primeira experiência docente foi em Amalfi onde foi nomeada diretora da Seção Superior da escola municipal, segundo o decreto 234 de janeiro de 1894. Nela procurou combinar seu ensino com uma orientação religiosa que não era do agrado das autoridades do município.
     Alguns opositores da formação religiosa apresentaram uma queixa ao governo da região, que deu resposta favorável a Laura, apoiada pelo secretário da Instrução Pública, Pedro A. Restrepo, que a conhecia muito bem desde sua passagem pela Escola Normal de Medellín. A guerra civil de 1895 obrigou o fechamento das escolas, o que forçou Laura a manter somente aulas pré-escolares em sua própria.
     Em agosto de 1895 foi nomeada professora na Escola Superior Feminina de Fredonia. Em 23 de fevereiro de 1897 foi transferida para Santo Domingo. Ali decidiu dar catecismo às crianças no campo.
     Por sua experiência docente, sua prima Leonor Echavarría convidou-a para colaborar na direção do recém-inaugurado Colégio da Imaculada em Medellín. O colégio ganhou muito prestígio na cidade, nele estudavam as filhas de famílias em ascensão. Quando sua prima Leonor faleceu, em 10 de junho de 1901, o colégio ficou completamente nas mãos de Laura. Em novembro de 1905 o escritor Alfonso Castro começou a publicar uma novela chamada "Filha Espiritual" na revista "Leitura Amena", cuja intriga desacreditou notavelmente o Colégio da Imaculada e sua diretora, Laura, a tal ponto que levou ao seu fechamento definitivo.
     Sua vida profissional, portanto, também foi selada pela dor, porém isto não a fez esmorecer. Enquanto a vida ia passando, Laura continuava empenhada em ser monja carmelita, cultivava uma mística profunda e a oração contemplativa. Mas seu caminho estava destinado à outra causa: ser missionária nas selvas para resgatar do esquecimento os “infiéis”, ou as suas “chagas”, como ela chamou as pessoas que viviam sem alimento espiritual e sem conhecer a Deus.
     Após o fechamento do colégio Laura foi nomeada professora da escola de La Ceja onde ficou por pouco tempo: em 1907 a população lhe solicitou a fundação de um colégio em Marinilla. Soube que seria missionária em 1908, quando, acompanhada por algumas amigas e pelo sacerdote Ezequiel Pérez, viajou para Guapá, trilha de Chocó.
     Seu trabalho missionário se sentiu mais estimulado quando o Papa São Pio X escreveu a encíclica “Lacrimabili statu indorum”, na qual exortou a Igreja da América a se interessar pelos índios e dar facilidades para o trabalho com eles.
     Aos 39 anos, Laura decidiu mudar-se para o povoado de Dabeiba, com a aprovação do Bispo de Santa Fé, Mons. Maximiliano Crespo Rivera, e em companhia de seis catequistas passou a trabalhar com os indígenas Emberá Katíos.
     Na busca dos índios era incansável. Lembro-me que viajávamos uma vez pelos tortuosos caminhos de uma missão de Urabá... O dia havia sido como eram então os dias de apostolado nas selvas: lombo de mula, sol calcinante, pouca comida, muito entusiasmo e ânimo na procura dos katíos”, relata a Irmã Maria de Betânia.
     À medida que sua missão continuava nas inóspitas selvas, Madre Laura desejava fundar centros missionários, sem importar-se com a falta de comodidades ou com as dificuldades. Tão pouco lhe importava sua precária saúde, nem viajar para Roma para buscar o decreto laudatório para a congregação que queria fundar. Como sempre, conseguiu o que se propunha: depois de sua morte, em 1968, a congregação de direito pontifício, Missionárias de Maria Imaculada e Santa Catarina de Siena, foi aprovada.
     A Congregação de Missionárias de Maria Imaculada e Santa Catarina de Siena foi fundada por ela em 14 de maio de 1914, com o grupo de catequistas que a acompanhavam nas missões. A partir de então se dedicou a estabelecer com as irmãs missionárias centros próximos das comunidades indígenas, cuja casa principal ficava em Dabeiba. Estabeleceu as constituições da Congregação e em 1917 as apresentou ao bispo Maximiliano Crespo Rivera. Em 1919 fundou em San José de Uré uma missão para trabalhar com os negros da região.
     Em 1939 o presidente Eduardo Santos a condecorou com a Cruz de Boyacá.
     Escreveu mais de 30 livros nos quais narrou suas experiências místicas com um estilo compreensível e atraente. Redigiu para suas religiosas as “Vozes Místicas”, inspirada na contemplação da natureza, e outros livros, como o Diretório ou guia de perfeição, que ajudam as Irmãs a viver em harmonia entre a vida apostólica e a contemplativa.
     Sua autobiografia se titula "História da Misericórdia de Deus em uma alma", é sua obra-prima, livro de confidências íntimas, experiência de suas angústias, desolações e ideais; vibrações de sua alma em contato com Deus, vivências de sua luta titânica para levar a cabo sua vocação missionária. Ali mostra sua “pedagogia do amor”, pedagogia acomodada à mentalidade do indígena, que lhe permitiu penetrar na cultura e no coração do índio e do negro de nosso continente.
     Madre Laura viveu para a Igreja, que amava entranhadamente, e para estender suas fronteiras no meio de dificuldades, sacrifícios, humilhações e calúnias.
     Depois de infatigáveis jornadas missionárias, Madre Laura passou seus últimos 9 anos de vida em uma cadeira de rodas, sem deixar seu apostolado, dando o exemplo, a palavra e os escritos. Faleceu em Medellin em 21 de outubro de 1949, após uma longa e penosa agonia. A Congregação de missionárias contava com 93 casas no momento de sua morte, com 467 religiosas trabalhando em três países.
     A causa para a beatificação da Madre Laura foi introduzida em 4 de julho de 1963 pela Arquidiocese de Medellin. João Paulo II a beatificou no dia 25 de abril de 2004; foi canonizada em 12 de maio de 2013, é a primeira santa colombiana. Sua festa se celebra em 21 de outubro.
     A tradição oral que se conserva entre as Lauritas, como são chamadas atualmente suas religiosas, a descreve como uma mulher sensível, com a ingenuidade de criança e sumamente humilde. Suas filhas espirituais estão certas de que ela se oporia a todo o barulho que se fez pela sua canonização, porque sempre quis passar despercebida. Para ela o mais importante era o trabalho missionários junto aos índios e aos desvalidos. Também estão convencidas de que se antes as ajudava a partir do Céu, agora poderá com mais ênfase dizer: “Eu tenho sede de acalmar Tua sede”.
Santa Laura idosa


domingo, 19 de outubro de 2014

Santa Iria de Tomar, Virgem e mártir - 20 de outubro

    
      Conta a legenda que Iria – ou Irene – nasceu em Nabância, uma villae romana próxima de Sellium, a atual cidade de Tomar. Oriunda de uma família abastada, seus pais Ermígio e Eugênia, eram pessoas de sangue ilustre. Iria recebeu educação esmerada num mosteiro de monjas beneditinas governado pelo seu tio, o Abade Célio. Vendo este a vivacidade e a boa disposição da sobrinha, encarregou o monge Remígio, homem douto e religioso, de instruí-la nas letras e bons costumes.

     Devido à sua beleza e inteligência, Iria cedo congregou a afeição das religiosas e das pessoas da terra. A menina vivia retirada do mundo em companhia de Casta e Júlia, irmãs de seu pai. Uma só vez por ano, no dia de São Pedro, elas costumavam visitar a igreja dedicada a este Apóstolo, que se erguia junto ao palácio de Castinaldo, governador daquelas terras.
     Castinaldo tinha um único filho, Britaldo, que tinha por hábito compor trovas junto da igreja de São Pedro. Um dia, Britaldo viu Iria e ficou enamorado dela. Ficou doente e, em estado febril e desesperado, reclamava a presença da jovem. Iria decidiu ir visitá-lo para dizer que a doença não era mortal e que Deus lhe restituiria a saúde se ele afastasse o mau afeto a que os olhos o tinham inclinado. Alentado pelas exortações da Santa o doente tranquilizou-se. Iria prometeu que não se casaria com outro. Britaldo em breve se restabeleceu e seus pais ficaram a ter maior devoção ao mosteiro aonde Iria estava recolhida, dando-lhe muitas esmolas e privilégios.
     Algum tempo depois, o monge Remígio, ao qual a beleza da donzela também não passara despercebida, inspirado pelo demônio, concebeu um amor impuro pela discípula. Como a Santa recusasse as suas solicitações e o repreendesse, o monge ministrou-lhe uma tisana que deu ao seu corpo opulência própria da gravidez. Por causa disso Iria foi expulsa do convento, recolhendo-se junto do Rio Nabão, que passava próximo ao convento, para orar.
     Aí, no dia 20 de outubro de 653, foi assassinada à traição por um servo de Britaldo, ou pelo próprio, a quem tinham chegado os rumores destes eventos e julgava que ela faltara à promessa.
     Atirado ao Rio Nabão, cujas águas correm para o Rio Zêzere, o corpo da mártir chegou a este rio e a partir deste ficou depositado nas areias do Rio Tejo, aí permanecendo, incorruptível. Para conservar a sua memória e milagre, a povoação de Scallabis construiu-lhe um sepulcro de mármore. Séculos depois, as águas do Tejo se abriram para revelar o túmulo à rainha Da. Isabel, que mandou colocar o padrão que ainda hoje se encontra.
     O seu culto foi tão popular durante a dominação visigótica, que a velha Scallabis romana passou a ser chamada de Santa Iria e daí derivou a moderna Santarém, através de Sancta Irene. O culto foi perpetuado através do rito moçárabe, mantendo-se ainda hoje como padroeira de algumas igrejas portuguesas, muito embora não seja considerada uma santa canônica pela Igreja Católica.
     Concluindo a sua biografia, a edição portuguesa das Vidas dos Santos, 1955, apresenta esta nota: “Retocamos a lenda apresentada pelo Autor, de harmonia com as lições ‘próprias’ de Lisboa. O caso é atribuído ao ano de 653 e anda contado de modo diverso num conhecido romance popular”. Nabância, diz o Ano Cristão, vol. X, p. 270, é o nome antigo de Tomar.
     Santa Iria é representada habitualmente segurando a palma do martírio.
     Em homenagem à Padroeira, realiza-se em outubro a Feira de Santa Iria, que integra a Feira das Passas, com o seu dia mais importante a 20 de outubro, data que se celebra Iria. Esta Feira foi criada por Carta Real de Filipe II de 3 de outubro de 1626. Nela comparecem inúmeros artesãos e comerciantes, tradição que ainda hoje se mantém. 
 
Fontes: Santos de cada dia, Pe. José Leite, S.J.
 
Etimologia: Iria, forma portuguesa popular de Irene. Irene, do grego Eiréne: “paz, deusa da paz; a pacífica”.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Beata Lutgarda de Wittichen, Abadessa - 16 de outubro

    
  

     Lutgarda nasceu no ano 1291 em Schenkenzell na Kinzigtal (Floresta Negra) numa família de agricultores; aos dois anos foi atingida por uma deformação física.
     Lutgarda tinha ouvido falar da beleza dos Santos de Deus, e quando certo dia viu numa fonte que era feia e tinha o pescoço torto, começou a chorar, dizendo: "Ai, pobre de mim que não posso chegar a ser santa com esta cara tão disforme e este pescoço torto!” E sempre que passava perto de uma moça bela e bem vestida, se acreditava abandonada de Deu, porque não tinha roupas boas para usar. Um dia conseguiu colocar um avental novo e sentiu-se quase satisfeita, mas foi só por um instante: assaltada por um descontentamento, jogou o avental vistoso no chão dizendo: “Sou feia, feia irremediavelmente e Deus não pode gostar de mim!”
     Finalmente, Lutgarda se associou às beguinas de Oberwolfach. Depois de vinte anos de vida pobre e mortificada, por inspiração divina Lutgarda ergueu um convento de trinta e quatro religiosas segundo a Regra de São Francisco, para cuja fundação ela mesma recolheu os fundos necessários mendigando. Logo a instituição abrigou setenta membros.
     Após o incêndio do mosteiro em 1327, Lutgarda começou a trabalhar para reconstruí-lo pedindo donativos também na Alsácia, na Suíça, e à Inês da Hungria, em Königsfelden. Em 1332, em Avinhão, ela obteve a confirmação de sua Ordem Terceira Regular, que depois foi transformada (1376) no mosteiro de Clarissas e secularizada em 1803.
     Lutgarda se distinguiu na meditação da Vida e Paixão do Senhor e na oração pela Igreja, acompanhando os contrastes dos papas de Avignon com Luis o Bávaro e se oferecendo como vítima de expiação pela Igreja que passava por uma crise.
     Devotíssima do Sagrado Coração de Jesus e zelosa pelo alívio das almas do purgatório, Lutgarda recomendava essas práticas religiosas às suas irmãs. "Assídua na oração pela conversão dos pecadores, um dia ela viu a imagem do Crucifixo do qual escorria sangue de todas as feridas e depois muita gente se refugiando no Coração dEle".
     Na extrema pobreza do convento, Lutgarda e suas irmãs gosavam de uma alegria sobrenatural.
     Ela morreu em 1348, foi sepultado na igreja, já então conventual, hoje paróquia de Wittichen. Ainda hoje muitos peregrinos visitam seu túmulo, em especial no dia 16 de outubro, o dia de sua festa. O seu culto não foi confirmado.
 
 
Etimologia: Lutgarda, ou Leodegária, germânico, alemão Luitgar, Leodegar, Liudger = “lança (gar) do povo (leode)”. Em francês Léger (Saint).

sábado, 11 de outubro de 2014

Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil

     A oração que segue foi composta há 42 anos, por ocasião do 150º aniversário da independência do Brasil, mas é tão bela que vale a pena lê-la e refletir sobre o que nossa Nação foi, é e há de ser sempre: Terra de Santa Cruz.
     Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, rogai por nós! 
 
Prece no sesquicentenário

Ó Senhora Aparecida.
     Ao aproximar-se a data em que completamos um século e meio de existência independente, nossas almas se elevam até Vós, Rainha e Mãe do Brasil.
     Cento e cinquenta anos de vida são, para um povo, o mesmo que quinze para uma pessoa: isto é, a transição da adolescência, com sua vitalidade, suas incertezas e suas esperanças, para a juventude, com seu idealismo, seu arrojo e sua capacidade de realizar.
     Neste limiar entre duas eras históricas, vamos transpondo também outro marco. Pois estamos entrando no rol das nações que, por sua importância, determinam o rumo dos acontecimentos presentes, e têm em suas mãos os fios com que se tece o futuro dos povos. 

Agradecimento
     Neste momento rico em esperanças e glória, ó Senhora, vimos agradecer-Vos os benefícios que, Medianeira sempre ouvida, nos obtivestes de Deus onipotente.
     Agradecemo-Vos o território de dimensões continentais, e as riquezas que nele pusestes.
     Agradecemo-Vos a unidade do povo, cuja variegada composição racial tão bem se fundiu neste grande caudal étnico de origem lusa — e cujo ambiente cultural, inspirado pelo gênio latino, tão bem assimilou as contribuições trazidas por habitantes de todas as latitudes.
     Agradecemo-Vos a Fé católica, com a qual fomos galardoados desde o momento bendito da Primeira Missa.
     Agradecemo-Vos nossa História, serena e harmoniosa, tão mais cheia de cultura, de preces e de trabalho, do que desavenças e de guerras.
     Agradecemo-Vos nossas guerras justas, iluminadas sempre pela auréola da vitória.
     Agradecemo-Vos nosso presente, tão cheio de realizações e de esperanças de grandeza.
     Agradecemo-Vos as nações deste Continente, que nos destes por vizinhas, e que, irmanadas conosco na Fé e na raça, na tradição e nas esperanças do porvir, percorrem ao nosso lado, numa convivência sempre mais íntima, o mesmo caminho de ascensão e de êxito.
     Agradecemo-Vos nossa índole pacífica e desinteressada, que nos inclina a compreender que a primeira missão dos grandes é servir, e que nossa grandeza, que desponta, nos foi dada não só para nosso bem, mas para o de todos.
     Agradecemo-Vos o nos terdes feito chegar a este estágio de nossa História, no momento em que pelo mundo sopram tempestades, se acumulam problemas, terríveis opções espreitam, a cada passo, os indivíduos e os povos. Pois esta é, para nós, a hora de servir ao mundo, realizando a missão cristã das nações jovens deste hemisfério, chamadas a fazer brilhar, aos olhos do mundo, a verdadeira luz que as trevas jamais conseguirão apagar.
Prece
     Nossa oração, Senhora, não é, entretanto, a do fariseu orgulhoso e desleal, lembrado de suas qualidades, mas esquecido de suas faltas.
     Pecamos. Em muitos aspectos, nosso Brasil de hoje não é o País profundamente cristão com que sonharam Nóbrega e Anchieta. Na vida pública como na dos indivíduos, terríveis germes de deterioração se fazem notar que mantêm em sobressalto todos os espíritos lúcidos e vigilantes.
     Por tudo isto, Senhora, pedimo-Vos perdão. E, além do perdão, Vos pedimos forças. Pois sem o auxílio vindo de Vós, nem os fracos conseguem vencer suas fraquezas, nem os bons alcançam conter a violência e as tramas dos maus.
     Com o perdão, ó Mãe, pedimo-Vos também a bênção. Quanto confiamos nela!
     Sabemos que a bênção da Mãe é preciosa condição para que a prece do filho seja ouvida, sua alma seja rija e generosa, seu trabalho seja honesto e fecundo, seu lar seja puro e feliz, suas lutas sejam nobres e meritórias, suas venturas honradas, e seus infortúnios dignificantes.
     Quanto é rica destes, e de todos os outros dons imagináveis, a Vossa bênção, ó Maria, que sois a Mãe das mães, a Mãe de todos os homens, a Mãe Virginal do Homem-Deus!
     Sim, ó Maria, abençoai-nos, cumulai-nos de graças, e mais do que todas, concedei-nos a graça das graças. Ó Mãe, uni intimamente a Vós este Vosso Brasil. Amai-o mais e mais.
     Tornai sempre mais maternal o patrocínio tão generoso que nos outorgastes. Tornai sempre mais largo e mais misericordioso o perdão que sempre nos concedestes.
     Aumentai vossa largueza no que diz respeito aos bens da terra, mas, sobretudo, elevai nossas almas no desejo dos bens do Céu.
     Fazei-nos sempre mais amantes da paz, e sempre mais fortes na luta pelo Príncipe da Paz, Jesus Cristo, Filho Vosso e Senhor nosso.
     De sorte que, dispostos sempre a abandonar tudo para lhe sermos fiéis, em nós se cumpra a promessa divina, do cêntuplo nesta terra e da bem-aventurança eterna.
* * *
     Ó Senhora Aparecida, Rainha do Brasil! Com que palavras de louvor e de afeto Vos saudar no fecho desta prece de ação de graças e súplica? Onde encontrá-las, senão nos próprios Livros Sagrados, já que sois superior a qualquer louvor humano?
     De Vós exclamava, profeticamente, o povo eleito, palavras que amorosamente aqui repetimos: — “Tu gloria Jerusalem, tu laeticia Israel, tu honorificentia populi nostro”. Sois Vós a glória, Vós a alegria, Vós a honra deste povo que Vos ama.
* * *
     A perspectiva do sesquicentenário sugeriu esta prece a meu coração de brasileiro. Resolvi não adiar sua publicação. Espero retomar na próxima semana o assunto que começara a desenvolver no domingo passado.
 
Plinio Corrêa de Oliveira                  Folha de S. Paulo, 16 de janeiro de 1972.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Beata Joana Le Ber, Reclusa - 12 de outubro


     A Beata Joana Le Ber ocupa um lugar excepcional entre as grandes figuras religiosas que se destacaram no início da colonização da Nova França (Canadá): a de primeira reclusa na América do Norte.
     Filha de Jacques Le Ber, o maior negociante do Canadá na época, e de Joana Le Moyne, irmã do Barão de Longueil, Jeanne nasceu em Ville-Marie, atualmente Montreal, em 4 de janeiro de 1662. Foi batizada no mesmo dia, sendo seus padrinhos Gabriel Souart, Paulo Chomedey de Maisonneuve (fundador e governador de Montreal) e Joana Mance (fundadora e administradora do Hôtel-Dieu).
     Desde a mais tenra infância Joana se sentia atraída por Jesus presente no Santíssimo Sacramento; esta devoção cresceu dia a dia e se desdobrou numa atração pelo silêncio e pela oração. Acompanhada de sua madrinha Joana Mance, Joana visitava com frequência o Hospital. Ela também mantinha amizade com Santa Margarida Bourgeoys, a fundadora da Congregação de Nossa Senhora, que teve grande influência em sua vida espiritual (veja sua história neste blog, no dia 12/1/2012).
     O ano de 1672 foi marcado pelo início das provas na família Le Ber. Jacques Le Ber foi aprisionado por um breve tempo. A mãe de Joana ficou muito afetada por este evento. Era o fim de uma época. Muitos pioneiros foram mortos ou retornaram para a França. Joana Le Ber vai para Quebec encontrar sua tia, Maria Le Ber da Anunciação, que lecionava nas Ursulinas, para completar a sua educação formal, onde permaneceu por três anos (1674 a 1677). (1)
     Aos quinze anos, Joana concluiu seus estudos e retornou a Ville-Marie. Ela era a única filha de Jacques Le Ber (ela tinha quatro irmãos mais novos) e como herdeira de grande parte da fortuna do pai era considerada o melhor partido na Nova França. Seus pais obrigaram-na a se vestir segundo a sua alta condição social, sonhando realizar para ela um casamento bastante vantajoso. Mas Joana já havia renunciado ao mundo, mas não se sentia chamada à vida comunitária: começou a levar uma vida de recolhimento, afastada do mundo, na casa paterna. Embora não a compreendem-se, seus pais, piedosos, respeitaram sua vocação.
     Joana desejava reparar os pecados do mundo, começando pelos seus próprios e para isto entregava-se a penitências comuns: usar cilício, flagelar-se, comer os restos dos pobres que iam se alimentar à porta da casa do seu pai - isto estava no programa diário de penitências da jovem. Vestia-se com um tecido de lã grosseira acinzentada, sem adorno algum - Joana o usava para honrar a pureza e a humildade de Maria Santíssima - e um capuz cobria sua cabeça. A piedosa jovem reclusa somente saía para assistir a Santa Missa.
     Após cinco anos de reclusão sob a direção dos padres François Dollier de Casson e Séguenot, e dos superiores eclesiásticos, a jovem pronunciou os votos de perpétua reclusão, castidade e pobreza de coração.
     Em 4 de junho de 1685, quando a capela que ela havia mandado construir para a comunidade de Madre Bourgeoys ficou pronta, Joana deixou a casa paterna para morar em uma cela atrás do altar. No dia 5 de agosto do mesmo ano, durante a celebração das Vésperas na festa de Nossa Senhora das Neves, teve lugar a breve e tocante cerimônia da sua solene reclusão.
     Em sua cela de três dependências, construída segundo suas especificações, havia uma mesa de trabalho, uma cadeira, um fogão e um colchão miserável colocado perto do Tabernáculo - isto compunha todo o mobiliário da pobre cela. Para imitar a piedade de Maria para com Jesus, a Beata dedicava-se a bordar paramentos sacerdotais e ornamentos do altar.
     As vestimentas litúrgicas e os ornamentos do altar, bordados com fios de ouro, de prata e de cores vivas, refletiam sua intensa vida de contemplação, bem como sua veneração pelas belezas da natureza, obras de Deus. Ela está na origem da Obra dos Tabernáculos, que perdura ainda hoje em Montreal. Além das roupas brancas e dos ornamentos litúrgicos, Joana também confeccionava roupas para os pobres. (2)
     Sua pobreza e reclusão, entretanto, eram atenuadas pelo fato de que, devido sua posição social, durante seus anos de reclusão ela manteve uma acompanhante, sua prima Ana Barroy, que zelava por suas necessidades materiais e a acompanhava à Missa.
     Sua oração era contínua e sua imolação total. À noite, ela se levantava sem acender o fogo, mesmo nos mais rigorosos invernos; não acendia luz alguma para que ninguém a percebesse. Virando-se então para o Santíssimo Sacramento iluminado pela claridade da lamparina do santuário, ela prolongava suas orações durante uma hora. Ela pedia particularmente a instauração da Adoração Perpétua.
     Benfeitora de Ville-Marie, no decorrer dos anos Joana se desfez de sua fortuna para ajudar os pobres, a Igreja, a Congregação de Nossa Senhora e a educação das meninas menos favorecidas.
     Em 1695, ela pronunciou um último voto de reclusão. Ela comungava quatro vezes por semana, fato raro para a época. Em meio a pungentes desolações do coração e do espírito, Joana nunca deixou de dedicar três ou quatro horas por dia à oração e jamais deixou de fazer seus exercícios de piedade.
     Muito conhecida na colônia canadense, ela recebeu a visita de Mons. de Saint-Vallier, Bispo de Quebec, e de outras personalidades. Em suas orações, ela sempre incluía as preocupações e as dificuldades de seus compatriotas. O que segue é um exemplo concreto do poder de intercessão de Jeanne.
     Em 1711, a Grã-Bretanha e a França estavam em guerra. Naquela época o Canadá era francês. Joana soube que o general britânico Nicholson estava viajando pela Nova Inglaterra em direção a Montreal, e que o almirante Walker da Grã-Bretanha estava navegando no Rio São Lourenço em direção à cidade de Quebec.
     O Barão de Longueuil, comandante do exército canadense, primo de Joana, a tinha visitado para pedir-lhe que ela fizesse uma bandeira em que ela devia bordar uma oração. Joana fez a bandeira, em que escreveu: "Nossos inimigos colocam a confiança em suas armas, mas nós colocamos a nossa confiança na Rainha dos Anjos, que invocamos. Ela é tão poderosa como um exército pronto para a batalha. Sob sua proteção esperamos derrotar nossos inimigos".
     Uma tempestade no Rio São Lourenço causou o encalhe dos navios de Walker em Île-aux-Œufs. Quando Nicholson soube o que acontecera, decidiu que não iria lutar contra os habitantes de Ville-Marie, atual Montreal.
     Resultado: o exército canadense não teve que lutar para ser vitorioso.
     O “anjo de Ville-Marie”, como era conhecida, deixou a terra em 3 de outubro de 1714, às 9h da manhã, aos cinquenta e dois anos de idade. Seu funeral atraiu toda a população de Montreal, que lhe foi prestar uma última homenagem.
     Seus pobres andrajos foram distribuídos aos fiéis, até mesmo seus sapatos, que eram feitos de palha. Todos os que conseguiram obter alguma coisa que tivesse pertencido à admirável reclusa reverenciavam tal lembrança como relíquia digna de devoção. Seu corpo foi enterrado no subsolo da capela da Congregação de Nossa Senhora.
     Os restos mortais da Beata estão atualmente na Capela Nossa Senhora do Bom Auxílio, onde uma placa mural indica o local. Os bordados de Joana Le Ber estão expostos na Maison Saint-Gabriel, Montreal. Sua vida contemplativa inspirou a congregação religiosa das Reclusas Missionárias, fundada por duas antigas alunas da Congregação de Nossa Senhora. Em 1943, religiosas reclusas foram fundadas em Alberta. Em 2004, um distrito eleitoral recebeu o seu nome.
 
(1) As Ursulinas de Quebec foram marcadas pela forte personalidade da Santa Maria Guyart da Encarnação, sua fundadora; tinham uma excelente reputação quanto à formação para a vida social e a piedade religiosa. Eram muito boas na educação cristã, no ensino dos bordados que decoravam os altares das igrejas novas erigidas nas novas paróquias da região de Quebec.
(2) Joana Le Ber é considerada a maior bordadeira do século XVII em Montreal, Canadá. Os seus bordados contribuem para se conhecer os ornamentos litúrgicos influenciados pelas técnicas e padrões franceses. Joana aprendeu a utilização dos fios de ouro e de prata, uma técnica dispendiosa, portanto rara. Desenhos de acabamento, festões de renda, galões, Joana rapidamente aprendeu os segredos da arte de confeccionar belíssimos ornamentos de altar.
 
Fontes diversas, incluindo: Resumo O. D. M. Tradução e Adaptação: Gisèle do Prado Pimentel
Bordado feito pela Beata Joana Le Ber