quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Santa Ada (ou Adenette), Abadessa - 4 de dezembro

     Santa Ada, também conhecida como Ade, Adna, Adrechilde, Adenette é uma santa da segunda metade século VII. Ada nasceu em Mans ou nos seus arredores. Ela era sobrinha de Santo Engelberto, Bispo de Mans, que foi assassinado por seu primo.
     Tendo crescido num lar profundamente religioso e influenciada por seu tio, Ada recebeu uma boa educação religiosa e ingressou no convento, tornou-se monja beneditina em Soissons, França, depois foi nomeada abadessa do mosteiro de Saint-Julien-des-Pré em Mans (*). Acredita-se que ela ocupou este cargo por cerca de 60 anos.
     As relíquias de Santa Ada foram colocadas na catedral e foram profanadas provavelmente pelos normandos no tempo do bispo Santo Alderico (por volta de 850).
     Sua festa é celebrada normalmente no dia 4 de dezembro, mas também localmente nos dias 4 de maio ou 28 de junho. Ela é patrona das mulheres religiosas e das freiras na França.
 
Martirológio Romano: Em Mans, no século VII, Santa Adrehilde (Ada ou Adnette), abadessa do Mosteiro de Santa-Maria. (4 de dezembro)
 
(*) Ou do Mosteiro de Santa Maria. Há um documento de Santo Engelberto datado de julho de 692 que diz que 50% dos dízimos de Villaines-la-Juhel, Trans e Thorigné devem ser doados ao “Monastère de Sainte Marie”. Neste documento há referência a Ada.
 
     O nome Ada é de origem germânica. Ada ou Ade significa “nobre”. Em 1203 uma condessa do Comté de Hollande chamava-se Ada. O nome tornou-se bastante usado na região. 
 
Catedral de Saint-Julien, Mans, França
 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Beata Liduina Meneguzzi, Religiosa - 1 de dezembro


     Ângela Elisa nasceu em Giarrre, Abano Terme, província de Pádua, no dia 12 de setembro de 1901. Junto com o leite materno sorveu doses abundantes de e honestidade, as únicas riquezas de sua humilde e modesta família camponesa.
     Ela cresceu à sombra do campanário, não tanto geograficamente falando, pois eram dois quilômetros de estrada a serem percorridos a pé para chegar à igreja, mas porque ela se sentia irresistivelmente atraída pela paróquia como por um ímã. A missa diária e o catecismo, primeiro para aprender e em seguida para ensiná-lo, e à noite, com toda a família em torno da mesa da cozinha, o rosário era rezado com fervor.
     Aos 14 anos ela foi trabalhar fora de casa, como servidora em famílias e em hospedarias que não faltavam em Abano Terme, mas aos 25 anos, ela deixou tudo para ingressar nas Irmãs de São Francisco de Sales (as "freiras Salesianas"), que têm a Casa Mãe em Pádua.
     Naquela instituição lhe deram o novo nome, Irmã Liduina, e ali exerceu as tarefas domésticas humildes que já exercera em casa. Com facilidade e simplicidade que encanta, passou do ofício de cuidadora do vestiário ao de enfermeira, da função de sacristã ao de assistente no colégio feminino. Em cada posto e em cada tarefa um toque humano, um sorriso, muita disponibilidade. As meninas do internato veem nela uma amiga e confidente, e a procuram para causa da ternura, serenidade e paciência que emana dela.
     Há muito tempo ela desejava ir para uma missão e os superiores a fazem esperar até 1937, quando finalmente a mandam para a Etiópia. Chegando à Dire-Dawa, uma cidade cosmopolita, caracterizada pela presença de pessoas de origens, costumes e religiões diversas, esta freira italiana se encaixou nesse mosaico de raças e religiões com a única arma que possui: a bondade, distribuída à mão cheia no hospital em que trabalha como enfermeira atenciosa, atenta, muito terna.
     A eclosão da guerra transformou aquela unidade de saúde em um hospital militar e ela tem que multiplicar sua generosidade e sua atenção com os soldados feridos que são trazidos de todos os lugares, e que logo que a conhecem só a querem à sua cabeceira. Sua generosidade se transformou em heroísmo durante os bombardeios frequentes da cidade: sem se importar com os perigos, mesmo sob as bombas, ela corria buscar os feridos nos escombros para transportá-los para abrigos, prestar-lhes os primeiros socorros, acompanhá-los no momento de sua morte.
     Neste trabalho de assistência a sua caridade não tem fronteiras e se difundia a todos sem distinção de raças. a doença pode pará-la: um tumor devastador ceifou sua vida aos 40 anos, no dia 2 de dezembro de 1941 e todos a choraram como a uma mãe.
     Beatificada em 2002, Irmã Liduina Meneguzzi tornou-se um autêntico espelho de humildade e caridade cristãs, manifestando a misericórdia de Deus com os pobres, doentes e feridos.
 
 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Beata Delfina de Provença, Patrona das Noivas - 26 de novembro


Martirológio Romano: Em Apt, da Provença, Beata Delfina, esposa de São Elzear de Sabran, com quem prometeu guardar a castidade, e depois de sua morte permaneceu na pobreza e na oração.
 
     Delfina de Signe nasceu por volta de 1284 em Puy Michel nos montes de Luberón, França, da nobre família Glandèves. Uma encantadora figura de mulher, que passa pelo mundo levando a todas as partes a luz de sua graça, o perfume da virtude, o calor de seu afeto. Não era uma santidade ruidosa, que tenha marcado a história de seu tempo, mas uma santidade delicadamente feminina que se difundiu a seu redor como linfa silenciosa e generosa para alimentar no bem a quantos estiveram em contato com ela durante sua vida.
     Desde menina sua presença foi luz e consolo para sua família. Aos 12 anos já estava prometida a um jovem não inferior a ela por sua gentileza, nobreza de sangue e beleza de alma. Elzear, o noivo, era filho do Senhor de Sabran e Conde de Ariano no reino de Nápoles. Desde o nascimento sua mãe o havia oferecido em espírito a Deus e mais tarde um austero tio o havia educado em um mosteiro.
     O casamento teve lugar quatro anos mais tarde. Foi um matrimônio “branco”, porque os dois jovens esposos escolheram a castidade, um meio de perfeição espiritual mais alto e árduo. No Castelo de Ansouis, os dois nobres cônjuges viveram não como castelãos mas como penitentes; não como senhores feudais mas como ascetas dignos dos tempos heroicos da primitiva Igreja.
     Tendo se transferido para o Castelo de Puy Michel, entraram na Ordem Terceira Franciscana. Sua vida interior se enriqueceu com uma nova dimensão, a da caridade, mediante a qual eles, ricos por sua condição, se fizeram humildes e pobres para socorrer aos pobres. Delfina e seu esposo além das penitências, orações e mortificações, se dedicaram a todas as obras de misericórdia, destacando-se em todas.
     Quando Elzear foi enviado ao seu ducado de Ariano como embaixador no reino de Nápoles, a atividade benéfica dos dois esposos continuou em um ambiente ainda mais difícil. Em meio a tumultos e rebeliões, os dois Santos foram embaixadores de concórdia, de caridade, de oração. Continuaram suas boas obras multiplicando seus próprios esforços e sacrifícios até conquistar a admiração do povo.
     Elzear morreu pouco depois em Paris. Delfina entretanto sobreviveu a ele por muito tempo e honrou a memória de seu esposo do melhor modo possível, continuando as boas obras e imitando suas virtudes. Teve a alegria de ver seu esposo colocado pela Igreja no número dos Santos. Ela, aos 74 anos pode reclinar sua cabeça serena e feliz para o eterno descanso. Morreu em Calfières, em 26 de novembro de 1358. Foi beatificada pelo Papa Inocêncio XII em 24 de julho de 1694.
 
Etimologia: Delfina = do grego, “aquela que mata serpentes”.
 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Santas Flora e Maria de Córdoba, Mártires - 24 de novembro


     A “passio” destas duas virgens mártires foi escrita por Santo Eulógio de Córdoba, que as conheceu na prisão.
     Flora, nascida em Córdoba, era filha de pai muçulmano e mãe cristã, e foi por esta educada. Foi batizada clandestinamente e praticava em segredo a religião. Quando seu pai morreu, seu irmão muçulmano denunciou-a ao cadi que a mandou pender e castigar com severidade. Foi açoitada barbaramente, bateram-lhe na cabeça e entregaram-na ao denunciador para que a fizesse apostatar. Ela porém conseguiu escapar e foi procurar asilo na casa de uma irmã. Durante seis anos ficou escondida nas vizinhanças de Martos (Jaén).
     Os mouros do califado de Córdoba andavam então desenfreados, e as pessoas que escondiam cristãos em suas casas expunham-se aos piores aborrecimentos. Receando qualquer desgraça, a irmã de Flora e a gente da casa avisaram a refugiada de que tinha de sair.
     Flora voltou para Córdoba e, sem saber para onde ir, entrou na Basílica de São Acisclo, mártir, onde se encontrou com Maria, que crescera no mosteiro de Santa Maria de Cuteclara, próximo de Córdoba, sob a direção da santa viúva Artemia. Como seu irmão, o diácono Valabonso, fora martirizado, ela própria andava a ser procurada e talvez estivesse em vésperas de ser presa. Maria saíra então do mosteiro em busca do martírio.
     Assim, Flora e Maria, não vendo outra saída senão a morte, foram juntas se apresentar ao juiz e professaram publicamente a fé católica. Colocadas na prisão, foram visitadas por Santo Eulógio, que também se encontrava na prisão, o qual, comovido pela fortaleza e os sofrimentos das duas virgens, ao voltar à sua cela apressou-se em escrever para elas o ardente tratado Documentum martyriale, que é a mais nobre apologia e exortação ao martírio.
     Interrogadas e instigadas pelo cadi por diversas vezes, elas perseveraram fortes na Fé e por isso foram decapitadas em 24 de novembro de 851, durante a cruel perseguição do emir Abd al-Rahmàn II.
     Os seus corpos, abandonados nos campos e respeitados pelos animais, foram então lançados no Rio Guadalquivir. O corpo de Maria foi encontrado e sepultado pelos cristãos na igreja do Mosteiro de Cuteclara. As cabeças das duas mártires foram colocadas na Basílica de São Acisclo.
     Santo Eulógio, que atribuiu à intercessão destas virgens a sua libertação ocorrida poucos dias depois, informou o martírio delas em duas cartas ao seu amigo Álvaro Paolo e à irmã de Flora, Baldegoto, e as inseriu no seu Memoriale sanctorum.
     As Santas Flora e Marta são recordadas no Martirológio Romano em 24 de novembro.
 
Martirológio Romano: Em Córdoba na Andaluzia, na Espanha, Santas Flora e Marta, virgens e mártires, que durante a perseguição dos Mouros foram lançadas no cárcere junto com Santo Eulógio e depois mortas com a espada.
 
Fontes: Santos de cada dia, Pe. José Leite, S.J.; Isidoro da Villapadiema, www.santiebeati/it
     Nota: As execuções estão recolhidas em uma única fonte, escrita por Santo Eulógio, que foi um dos últimos a morrer. Em Oviedo se conserva um manuscrito de seu Documentum martyriale, três livros Memoriale sanctorum e o Liber apologeticus martyrum, que são os únicos escritos conservados deste Santo, cujos restos foram trasladados para a capital asturiana em 884. O Santo registrou 48 execuções de católicos entre 850 e 859, 38 homens e 10 mulheres. Todos, salvo Sancho e Argemiro, foram decapitados.
 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Beata Maria Fortunata Viti, Religiosa beneditina - 20 de setembro


     Além de uma longevidade extraordinária, quase 96 anos, nesta vida não há nada de excepcional: uma vida tão humilde, escondida, alguns diriam, insignificante, que quase é difícil falar sobre ela.
     Ela veio ao mundo no seio de uma família mais que remediada, aos 10 de fevereiro de 1827, em Veroli (Itália). Com a mãe e uma piedosa senhora, aprendeu as primeiras letras. Acompanhava a mãe à igreja todos os dias para assistir à Santa Missa e visitar o Santíssimo Sacramento.
     Seu pai é um rico proprietário de terras de Veroli que vai arruinar a saúde e a carteira graças à sua paixão pelo jogo e sua tendência a se consolar com muitos copos de vinho. Sua mãe não resistiu a esta desgraça e faleceu aos 36 anos, depois de ter dado à luz nove filhos. Ela, aos 14 anos, se torna a mãezinha de seus irmãos menores.
     Tem tanta coisa para fazer – cuidar da casa, do pai e dos irmãos – que não pode pensar em si mesma e no seu futuro. Sua ocupação principal é fazer com que todos na casa respeitem o pai colérico, alcoólatra e empobrecido, como ela é capaz de fazer: todas as noites beija sua mão e pede a bênção, engolindo lágrimas e humilhação. E pensar que a haviam batizado com o nome de Ana Felix e a irmã a chamava de Fortunata!
     Diante de tantas agruras, buscava alívio na frequência dos Sacramentos e nos exercícios de piedade.
     Com 20 anos empregou-se como criada em casa de uma boa família a fim de lograr meios para ajudar os seus e também para poder entrar na vida consagrada, como tanto desejava. Ficou nesta casa três anos. Regressou então à família e tratou do pai e dos irmãos.
     Aos 24 anos, quando viu que não precisavam mais de si, decidiu entrar no convento das "boas irmãs", ou seja, as beneditinas de sua cidade, no dia 21 de março de 1851.
     Ela manteve sua proposta firme, formulada naquele dia, de "ser santa"; não sabia que para atingir a meta teria de viver mais de 70 anos "enterrada viva" no anonimato de sua cela, com todos os dias iguais marcados por ações repetitivas que algumas pessoas podem definir monótona: fiar e costurar, lavar e consertar. E rezar, embora para ela isto não devesse ser um problema, pois parecia estar sempre absorta na contemplação de seu Deus.
     Só depois se descobrirá quanta aridez espiritual se escondia atrás daquele fervor; quantos tormentos e batalhas íntimas estavam encobertos por sua serenidade aparentemente imperturbável. Ela não possuia muita facilidade em ler e escrever devido os eventos familiares conhecidos, e por isso não pode ser aceita entre as monjas do coro, as religiosas que se dedicam a funções litúrgicas. Para ela, portanto, somente o trabalho, que começa às 3:30 da manhã e continua em ações fatigantes e humildes que ela executa tão bem, que as transforma em uma obra-prima, temperando-as com muita oração, mesmo no meio da aridez espiritual mais completa.
     Gasta pelo trabalho e consumida pelos anos, atormentada por reumatismos nos últimos anos, foi obrigada a permanecer no leito, incapaz até mesmo do menor movimento, cega, surda e aleijada.
     Depois de 72 anos de reclusão, faleceu no dia 22 de novembro de 1922. Ninguém parecia perceber-se dela e assim a enterram tão rapidamente no dia seguinte na vala comum. Mas ela é exumada 13 anos depois e sepultada na igreja, resultado de seu grande sucesso junto ao povo, tantos são os milagres que ocorrem em seu túmulo.
     Em 1967, Paulo VI proclamou beata a Irmã Maria Fortunata Viti, a monja que trabalhando e sorrindo tinha se santificado na monotonia da vida cotidiana, na clausura de um convento, com um monte de doenças, e que desde então podemos comemorar no dia 20 de novembro.
 
Fontes: Santos de cada dia, Pe. José Leite, S.J.; www.santiebeati/it
   

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Quarenta Santas Mártires de Eracléia - 19 de novembro


Na cidade de Eracléia, sofreram o martírio, devido o ódio à fé cristã, 40 santas mulheres, virgens e viúvas, que a tradição oriental distingue em um único e grande ícone. O Martirológio Romano recorda este grupo de mártires em data moderna.

     No dia 19 de novembro, o Martirológio Jeronimiano recorda o martírio de quarenta mulheres em Heraclea (Trácia). Nicéforo Calisto levanta a hipótese de que estas mulheres seriam esposas dos 40 mártires de Sebaste (comemorados em 9 de março), mas não é possível documentar tal fato.
     O relato do martírio foi feito no primeiro Martirológio Romano e a sua autenticidade é digna de fé. Todas as fontes antigas, como o Menológio de Basílio Porfirogenito, dão validade a esta antiga tradição. A "Paixão" menciona o diácono Amon como o mestre e promotor da conversão ao Cristianismo do numeroso grupo de senhoras.
     No tempo do Imperador Constantino (280-337), Licínio Valério Liciniano (250-325) estava associado na direção do Império no Oriente. A perseguição contra os cristãos, cessada definitivamente com o Edito de Milão de 313, e firmado por dois imperadores, ainda estava esporadicamente em uso.
     Licínio mandou Baudo à Berea como funcionário. Apenas instalado, ele recebeu uma denúncia contra Celsina, priora, e as quarenta virgens e viúvas reunidas com ela em uma comunidade monástica. Depois de um interrogatório em que finge se sujeitar às disposições do funcionário pagão, Celsina se retira em oração e é exortada a perseverar pelo diácono Amon, seu diretor espiritual.
     Durante o segundo interrogatório, estando presente toda a comunidade de monjas, os ídolos se esmigalharam e o sacerdote de Zeus foi elevado por anjos pelos ares e precipitado ao solo, esfacelando-se, enquanto Amon e as 40 senhoras cristãs se retiravam.
     Baudo ficou enfurecido e mandou colocar um elmo de bronze na cabeça de Amon, mas o elmo voou em direção à cabeça do mesmo Baudo, que nada fez para perdoar os mártires. Enviou o grupo para Licínio, em Eracléia, onde as virgens veneraram as relíquias de Santa Glicéria, virgem e mártir, depois elevada à padroeira da cidade.
     O imperador ordenou que todo o grupo fosse jogado às feras, mas os animais não quiseram tocá-lo. Licínio então mandou matar o diácono Amon, as virgens encabeçadas por Celsina e as viúvas por Lourença, massacrando-as por grupos em meio aos maiores suplícios inventados pelos pagãos.
     A data do martírio, levando-se em conta os anos de governo dos imperadores Constantino e Licínio, e do Edito de Milão de 313, se pode deduzir que tenha sido 312 ou nos primeiros dias do ano 313.
 

Beatos Isabel Fernandes, Domingos Jorge e Inácio, mártires - 18 de novembro

    

     Domingos Jorge nasceu em Vermoim da Maia, perto do Porto (Portugal). Muito jovem, partiu para a Índia, onde combateu pela fé e pela Pátria. Aventureiro por natureza, empreendeu viagem para o Japão, onde nesse tempo reinava perseguição furiosa. Todos os missionários eram mortos, e mortos também todos aqueles que os acolhessem em suas casas. 
     Apesar de todos os riscos, não quiseram os missionários estrangeiros abandonar aqueles fervorosos católicos. Disfarçados de comerciantes andavam de terra em terra para os instruir, animar e lhes administrar os sacramentos.
     Domingos Jorge, membro da Companhia do Rosário, casou com uma jovem japonesa, à qual o missionário português, Padre Pedro Gomes, oito dias após o nascimento, deu o nome de Isabel Fernandes. Vivia este casal modelo no amor de Deus, na paz e na felicidade, perto da cidade de Nagasaki.
     Por bondade e piedade, receberam em sua casa dois missionários jesuítas, o Padre Carlos Spínola, italiano, e o Irmão Ambrósio Fernandes, natural da povoação do Xisto, na Diocese do Porto.
     Às 11 horas da noite do dia 13 de dezembro de 1618, festa de Santa Luzia, o governador de Nagasaki ordenou que fossem presos os dois missionários juntamente com Domingos Jorge. Após um ano de prisão, foram condenados à várias Ordens, condenados a morrer a fogo lento; os outros 32 eram constituídos por 14 mulheres e 18 homens (a maioria deste segundo grupo recebeu como condenação serem decapitados).
     Isabel Fernandes, antes de ser degolada juntamente com seu filhinho Inácio, exclamou: “De todo o coração ofereço a Deus as duas coisas mais preciosas que possuo no mundo: a minha vida e a do meu filhinho”. Voltando-se para a criança, disse: “Olha, Inácio, para quem te fez filho de Deus (o Padre Carlos Spínola) e te deu uma vida muito melhor do que esta, que vai agora acabar. Recomenda-te a ele para que te abençoe e reze por ti”. O anjinho ajoelhou-se, juntou as mãos e pediu a bênção ao Padre que o tinha batizado e já estava envolto em chamas.
     O carrasco aproximou-se de Isabel, que levanta ao alto a mão e agita o lenço morte. Domingos Jorge, após escutar a sentença, pronunciou estas palavras: “Mais aprecio eu esta sentença do que me fizessem Senhor de todo o Japão”.
      Era o ano de 1619. Domingos Jorge fez a pé o percurso até o “Monte Santo” de Nagasaki, onde tantos cristãos deram a vida por Deus. Ao oferecerem ser levado de carro, nosso destemido Domingos respondeu “que a pé e descalço havia de ir, para imitar a Jesus Cristo Nosso Senhor que a pé descalço fora ao monte Calvário a morrer por nós”. Ali, foi amarrado a um poste e juntamente com outros mártires rezou com voz timbrada a oração do Credo até as palavras “nasceu da Virgem Maria”,quando o fumo e o fogo tolheram-lhe a fala, e em veneração do Mistério da Encarnação baixou a cabeça para depois erguer os olhos ao céu e continuar a oração até expirar. Domingos Jorge foi queimado vivo.
      Passados três anos, na manhã de 10 de novembro de 1622, o “Monte Santo” de Nagasaki, regado com o sangue de tantas centenas de cristãos, apresentava um aspecto solene e comovedor. Ali se apinhavam mais de 30.000 pessoas para assistirem ao Grande Martírio, isto é, à morte de 56 filhos da Santa Igreja Católica. Entre eles, encontravam-se Isabel Fernandes, de uns 25 anos de idade, viúva do Beato Domingos Jorge, e seu filhinho Inácio, de quatro anos.
      Os mártires foram divididos em dois grupos: 24 religiosos de num adeus de despedida. Cai de joelhos, ergue as mãos, recolhe-se em oração e o alfanje assassino corta-lhe a cabeça. A cabeça desta heroica mártir rola pelo chão e vai cair mesmo junto do filhinho, que não se assusta. Sem mostrar medo, ajoelha-se. Afasta a gola da camisa, cruza as mãos sobre o peito e estende a cabeça ao ferro cruel do algoz, e a cabecinha do pequeno mártir rola também pelo chão.

   Esta cena impressionante comoveu o mundo, até o próprio Papa Pio IX, que no Breve de Beatificação, ocorrida em julho de 1867, assim expressou os seus sentimentos acerca desta família santa:
     “Domingos Jorge, com a esposa Isabel Fernandes e o filho, menino de quatro anos, foi levado ao local do martírio pelos algozes. Dele se lê nas Atas algo que parece prodigioso, pois imóvel, sem dar um ai, ao ver a cabeça da mãe rolar, como desejasse associar-se à confissão da fé de sua mãe, com a mesma alegria, mostrada por ela, perante a admiração da multidão que presenciava, oferece ao algoz o pequeno pescoço para ser decapitado”.
 
Fonte: Santos de cada dia, Pe. José Leite, S.J.