domingo, 3 de janeiro de 2016

Epifania do Senhor

    
     A Epifania do Senhor (do grego: Ἐπιφάνεια: "a aparição; um fenômeno miraculoso") é uma festa religiosa cristã que se celebrava no dia 6 de janeiro, ou seja, doze dias após o Natal, e que a partir da reforma do calendário litúrgico em 1969 passou a ser comemorada dois domingos após o Natal.
     A Epifania é relacionada ao momento da manifestação de Jesus Cristo como o enviado de Deus. Na narração bíblica Jesus deu-se a conhecer a diferentes pessoas e em diferentes momentos, porém o mundo cristão celebra como Epifanias três eventos:
  • A Epifania propriamente dita perante os magos do Oriente (como está relatado em Mat 2 1:12) e que é celebrada no dia 6 de janeiro;
  • A Epifania a João Batista no Rio Jordão durante o Batismo de Jesus;
  • A Epifania a seus discípulos e início de sua vida pública com o milagre de Caná, quando começa o seu ministério.
Narração de São Mateus, Capítulo 2
E tendo nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém,
 Dizendo: Onde está aquele que é nascido Rei dos Judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos adorá-lo.
 E o rei Herodes, ouvindo isso, perturbou-se, e toda Jerusalém com ele.
 E congregados todos os principais dos sacerdotes, e os escribas do povo, perguntou-lhes onde haveria de nascer o Cristo.
 E eles lhe disseram: Em Belém da Judeia; porque assim está escrito pelo profeta:
 E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o meu povo Israel.
 Então Herodes, chamando secretamente os magos, inquiriu exatamente deles acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera.
 E enviando-os a Belém, disse: Ide, e perguntai diligentemente pelo menino, e quando o achardes, participai-mo, para que também eu vá e o adore.
 E tendo eles ouvido o rei, foram-se; e eis que a estrela, que tinham visto no oriente, ia adiante deles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar onde estava o menino.
 10 E vendo eles a estrela, alegraram-se muito com grande alegria.
 11 E entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe, e prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, lhe ofertaram dádivas: ouro, incenso e mirra.
 12 E sendo por divina revelação avisados em sonho para que não voltassem para junto de Herodes, partiram para a sua terra por outro caminho.
 13 E tendo eles se retirado, eis que o anjo do Senhor apareceu a José em sonhos, dizendo: Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e demora-te lá até que eu te diga; porque Herodes há de procurar o menino para o matar.
 
Tradições:
     Em Portugal e na Galiza, o bolo-rei ou bolo de Reis possui grande tradição e é confeccionado com um brinde e uma fava. A pessoa que encontra a fava deve trazer o bolo de Reis no ano seguinte. Por todo o país as pessoas costumam «cantar os reis» ou as «reisadas» de porta em porta. São convidadas a entrar para o interior das casas e oferecidas pequenas refeições com doces, salgados, charcutarias, vinhos, etc. Neste dia eram também muito comuns os autos dos Reis Magos, peças de teatro popular.
     No Brasil, geminado culturalmente com Portugal, esta tradição tem muito do que se faz no velho país. A festa é comemorada com doces e comidas típicas das regiões. Há ainda festivais com as Companhias de Reis (grupo de músicos e dançarinos) que cantam músicas referentes ao evento, as conhecidas festas da Folia de Reis.
     Em alguns países, como Espanha, é estimulada entre as crianças a tradição de se deixar sapatos na janela com capim antes de dormir para que os camelos dos Reis Magos possam se alimentar e retomar viagem. Em troca, os Reis magos deixam doces que as crianças encontram no lugar do capim após acordar. A tradição também consiste em comer o Bolo de Reis.
     Na França e em Quebec (no Canadá), come-se o Galette des Rois (Bolo de Reis), que contém um brinde no seu interior. O bolo vem acompanhado de uma coroa de papel e quem encontrar o brinde na sua fatia, será coroado e terá de oferecer o bolo no ano seguinte. 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Santa Elisabete Chong Chong-hye, Virgem e mártir - 29 de dezembro

    
Mártires Coreanas
     Elizabeth Chong Chong-hye (ou Jeong Jeong-hye) nasceu em 1797, em Majae, Coréia do Sul; era filha de Agostinho Jeong Yak-jong e de sua segunda esposa, Cecilia Yu So-sa. Ela tinha um irmão de sangue, Paulo Jeong Ha-sang (ou Chong Hasang), e um meio-irmão, Carlos Jeong Cheol-sang. Todos os filhos foram educados na fé católica pelo pai.
     Quando Elizabeth tinha cinco anos, Agostinho foi preso e posteriormente decapitado. Cecilia e os filhos também foram colocados na prisão: privados, por ordem do governo, de todos os seus bens, foram liberados mais tarde e foram morar com um parente que permanecera na religião de seus antepassados. Carlos, no entanto, sofreu o mesmo destino de seu pai.
     Para sustentar a mãe e o irmão, a jovem ganhava a vida fiando e tecendo, e fez um voto a Deus oferecendo-lhe sua virgindade. Ela era tão reservada, que nunca olhava o rosto dos homens. Seus parentes, que inicialmente a desprezavam, começaram a amá-la por causa de seu caráter suave.
     Quando Elisabeth estava com trinta anos, sofreu fortes tentações por um período de cerca de cinco anos, mas conseguiu superá-los através da oração, jejum e até mesmo flagelação. Seu maior desejo, que os missionários viessem à Coréia, foi realizado quando, graças ao seu irmão, chegaram o bispo Laurent Imbert e dois padres, Jacques Chastan e Pierre Maubant, das Missões Exteriores de Paris.
     Foi grande sua alegria ao hospedá-los em sua casa e em cuidar deles. Não cuidava só dos missionários, mas também das pessoas pobres que vinham vê-los, aos quais ensinava o catecismo e dava esmolas. Mons. Imbert ficou tão impressionado com sua atitude que disse: "Elizabeth é mesmo uma catequista".
     Quando a perseguição contra os cristãos recomeçou, o bispo fugiu de Seul para refugiar-se na zona rural, enquanto Elizabeth, Paulo e sua mãe fizeram o melhor para confortar os irmãos na fé, e fornecer alimentos e roupas para aqueles entre eles que eram pobres ou estavam na prisão. Enquanto isso, eles preparavam-se para o martírio.
     Os três foram presos em 19 de julho de 1839. Elizabeth foi submetida a interrogatórios, mas, porque recusou renunciar à sua fé, foi espancada 230 vezes em sete ocasiões distintas, mas nunca se rendeu. Ela estava determinada a suportar tudo por amor a Deus e a Nossa Senhora.
     Enquanto estava na prisão, ela nunca deixou de rezar e encorajar seus companheiros. Os espancamentos repetidos, ela dizia, faziam com que ela entendesse muito bem os sofrimentos de Nosso Senhor. Ela ainda obtinha alimentos e roupas para os prisioneiros.
     Em 29 de dezembro de 1839 foi decapitada junto com outros seis companheiros (Bárbara Cho Chung-i, Madalena Han Yong-I, Pedro Ch'oe Ch'ang-hub, Benta Hyong Kyong-Nyon, Bárbara Ko Sun-i e Madalena Yi Yong -dok), perto da Pequena Porta Ocidental de Seul. Ela tinha 43 anos. Paulo Jeong Ha-sang e Cecilia Yu So-sa também sofreram o martírio.
     Elizabeth e seus companheiros, junto com seu irmão e sua mãe, foram incluídos no grupo de 102 mártires coreanos canonizados pelo Papa João Paulo II em 6 de maio de 1984, como parte da sua viagem apostólica à Coréia, Papua Nova Guiné, Ilhas Salomão e Tailândia. Seu pai Agostinho Jeong Yak-jong e o filho do primeiro casamento, Carlos Jeong Cheol-sang, foram beatificado pelo Papa Francisco em 16 de agosto de 2014, durante a visita apostólica à Coreia do Sul.
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    No mesmo dia, comemoração de Santa Benta Hyon Kyong-nyon e seis companheiros mártires.
Martirologio Romano: Em Seul, na Coréia, Santa Benta Hyŏn Kyŏng-nyŏn, viúva e catequista, e seis companheiros, mártires, que, depois de terem sofrido muitos suplícios em nome de Cristo, morreram finalmente decapitados.
 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Natal!

Santo Natal: A hora da confiança na noite do mundo

Por Roberto de Mattei | Tradução: Hélio Dias Viana FratresInUnum.com: 
     O Santo Natal não é apenas uma tradição cultural do Ocidente ou a simples memória, cara aos cristãos, de um fato histórico ocorrido na Palestina há 2015 anos. Ele é o momento em que o Redentor da humanidade se fez presente entre nós numa manjedoura, devendo ser adorado como Rei e Senhor do universo. O Natal é, sob esse aspecto, um dos mistérios centrais da nossa fé, a porta que permite entrar em todos os mistérios de Cristo. O Papa São Leão Magno (440-461) escreve: “Aquele que era invisível na sua natureza tornou-se visível na nossa. O Incompreensível quis ser compreendido; Aquele que é anterior ao tempo, começou a existir no tempo; o Senhor do universo, velando a sua Majestade, recebeu a forma de escravo” (Sermo in Nativitate Domini, II, § 2).
     A manifestação do Verbo encarnado foi também a hora de maior triunfo na história dos Anjos. A partir do momento de sua criação, na aurora do universo, eles sabiam que Deus se tornaria homem e O adoraram, deslumbrante, no seio da Santíssima Trindade. Esta revelação haveria de separar irrevogavelmente os anjos fiéis e os rebeldes, o Céu e a Terra, os filhos da luz e os filhos das trevas. Em Belém, chega finalmente para os Anjos a hora de se prostrarem diante do Divino Infante, causa e meio, escreve o Padre Faber, da sua perseverança.
     As harmonias do Gloria in excelsis inundaram o Céu e a Terra, mas naquela noite elas foram ouvidas apenas pelas almas que viviam desapegadas do mundo e com amor de Deus. Entre estas estavam os Pastores de Belém. Eles não pertenciam ao círculo dos ricos e poderosos, mas na solidão e nas noites de vigília em torno de seus rebanhos, mantiveram a fé de Israel. Homens simples, abertos ao maravilhoso, não se surpreenderam com a aparição do Anjo que, fazendo refulgir sobre eles uma luz celestial, disse: “Não temais, porque eis que vos anuncio uma boa nova, que será de grande alegria para todo o povo: Nasceu-vos hoje na cidade de David um Salvador, que é o Cristo, o Senhor. Eis o que vos servirá de sinal: Encontrareis um Menino envolto em panos, e deitado numa manjedoura” (Lc 2, 11-12).
     Os Pastores seguiram docilmente as indicações do Anjo e foram guiados até a Gruta,  onde encontraram o Menino na manjedoura, com Maria e São José: “Invenerunt Mariam, et Joseph et Infantem positum in Praesepio” (Lc 2, 16). Tiveram a graça de ser os primeiros,  depois de Maria e José, a oferecer na Terra um ato de adoração eterna ao Menino de Belém.  Eles O adoraram, e compreenderam que na sua aparente fragilidade era o Messias prometido, o Rei do Universo.
     O Natal é a primeira afirmação da Realeza de Cristo, que tem por trono a manjedoura, a qual é o escrínio da Civilização Cristã nascente, cujos primeiros profetas são os Pastores. O programa dessa Civilização estava resumido nas palavras que uma miríade de Anjos proclamou naquela noite: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2, 14).
     Com imensa alegria, os Pastores passaram a anunciar a Boa Nova por todas as partes, nos campos e nos montes. “Omnes qui audierunt mirati sunt” (Lc 2, 18), todos ficaram maravilhados, mas nem todos se dirigiram à Gruta de Belém. Muitos estavam imersos em suas ocupações e renunciaram a um esforço que teria mudado as suas vidas, no tempo e na eternidade. Outros tantos passaram diante da  Gruta naqueles dias, para satisfazer a própria curiosidade, mas não compreenderam,  ou não quiseram compreender, a maravilha do acontecimento.
     No entanto, a Realeza do Menino Jesus foi reconhecida por alguns dentre os mais sábios daquele tempo. Os Magos, Reis do Oriente, eram homens cujos olhares viviam fixados nas coisas celestes, quando no Céu apareceu uma estrela. Esta foi para eles o que o Anjo havia sido para os Pastores –  a voz de Deus que lhes diz: “Ego sum stella splendida et matutina” (Apoc. 22, 16). Também os Reis Magos, como os Pastores, corresponderam perfeitamente ao impulso divino. Eles não foram os únicos a ver a estrela, nem provavelmente os únicos a compreender o seu significado, mas foram os únicos a se porem em marcha rumo ao Ocidente. Outros talvez compreenderam, mas não quiseram  abandonar seus países,  suas casas, seus negócios.
     Os Pastores eram próximos de Belém, e distantes os Magos. Mas a ambos aplica-se o princípio segundo o qual aquele que se aproxima de Deus com pureza de coração jamais é abandonado. Os Pastores e os Magos arrecadaram dons de diversos valores, mas tanto uns quanto outros ofereceram o maior dom que possuíam. Eles deram ao Menino Jesus seus olhos, seus ouvidos, sua boca, seu coração, toda a sua vida;  em uma palavra, consagraram à Sabedoria Encarnada o próprio corpo e a própria alma, e o fizeram através das mãos de Maria e de José, na presença de toda a Corte celeste.
     Nisso imitaram a perfeita submissão à Vontade de Deus do Menino Jesus, que sendo o Verbo de Deus se aniquilou na forma de escravo da Vontade divina, e depois se deixou conduzir por todas as estações até a morte na Cruz e a glória: não escolheu o seu estado, mas deixou-se guiar, a cada momento, pela inspiração da graça, como escreveu um místico do século XVII (Jean-Baptiste Saint-Jure, Vita di Gaston de Renty, tr. it., Glossa, Milano 2007, p. 254).
     A devoção ao Menino Jesus é uma devoção na qual se experimenta um abandono radical à Divina Providência, porque aquele Menino envolto nas palhas é um Deus-homem que aniquilou a sua vontade para fazer a vontade de seu Pai que está nos céus, e o fará submetendo-se a duas criaturas excelsas, mas submissas a Ele: a Bem-aventurada Virgem Maria e São José.
     O Santo Natal é o dia do extremo abandono à Divina Providência, mas também da imensa confiança nos planos misteriosos de Deus. É o dia, escreve São Leão Magno, no qual “o Filho de Deus veio para destruir a obra do diabo (1 João, 3, 8), o dia em que se uniu a nós e nós a Ele, a fim de que o abaixamento de Deus até a humanidade eleve os homens até Deus” (Sermo in Nativitate Domini, VII, § 2). No mesmo sermão, São Leão denuncia o escândalo daqueles que, subindo na sua época os degraus da Basílica de São Pedro, misturavam as orações da Igreja com invocações voltadas aos astros e à natureza: “Que os fiéis – escreve – rejeitem este hábito condenável e perverso, que a honra devida somente a Deus não seja mais misturada com os ritos daqueles que adoram as criaturas. A Sagrada Escritura diz: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e servirás somente a Ele’” (Gn 1: 3).
     Como não entender a atualidade dessas palavras quando na fachada da Basílica de São Pedro são projetados espetáculos neopagãos e se celebra o culto panteísta da Natureza? Nestas horas sombrias, os católicos fiéis continuam a ter a mesma confiança da qual estavam imbuídos os Pastores e os Magos que se aproximavam do Presépio para contemplar Jesus.
     Chega o Natal. As trevas em que o mundo está submerso serão dissipadas e os inimigos de Deus estão tremendo, porque sabem que a hora de sua derrota se aproxima. Por isso eles odeiam o Santo Natal, e por isso nós, com o olhar confiante, contemplamos o Menino Jesus que nasce e Lhe pedimos que ilumine as nossas mentes no meio da escuridão, aqueça os nossos corações no frio, fortaleça as nossas consciências perdidas nas brumas da noite do nosso tempo. Menino Jesus, venha o teu Reino! 


Beata Antônia Maria Verna, Fundadora - 25 de dezembro

    
     Antônia Maria Verna nasceu no dia 12 de junho de 1773 em Pasquaro, pequena localidade da fértil e delicada planície do Piemonte italiano, terra regada pelo rio Orco, a poucos quilômetros de Rivarolo (Turim). Seus pais eram Guilherme Verna e Domingas Maria Vacheri, pobres camponeses; ela era sua segunda filha e a batizaram no mesmo dia de seu nascimento.
     Um único cômodo servia de lar para todos os membros da família, fortemente unida e ancorada na fé e seus princípios. Mamãe Domingas foi sua primeira catequista. Pequenina frequentava a igreja paroquial, seguindo com atenção as homilias e participava das aulas de catecismo; assim que voltava para casa, ensinava o aprendido às crianças que se reuniam em torno dela. Aprendeu a amar o Menino Jesus, a Virgem Imaculada (a quem se consagraria e que teria grande influência na fundação de seu instituto) e a São José, a quem elegeu como seu especial patrono. Três devoções que a acompanharão durante toda sua vida.
     Aos 15 anos estava desejosa de compreender o que Deus queria para ela. Os pais querem encontrar-lhe um bom marido, mas Antônia Maria tem uma ideia completamente diferente. Esta divergência de opções causou muito sofrimento a ela. Naqueles tempos de "combate espiritual" encontrou a força e a coragem na oração, e depois de longo estudo com seu confessor, tomou a decisão de se consagrar a Deus com o voto de virgindade perpétua. Não sabemos exatamente onde e quando ela fez o voto, talvez na igreja de sua terra natal, ou em uma capela dedicada a Nossa Senhora da Providência.
     Devido a insistência reiterada para o casamento (de fato não faltavam os pretendentes), Antônia Maria se vê obrigada a deixar Pasquaro por um certo período de tempo.
     Entrementes, as comoções causadas pela ideologia da Revolução Francesa de 1789 debilitavam também na Itália o sentimento religioso, reduzindo o senso ético da sociedade. A lava revolucionária ia invadindo e cobrindo de naturalismo e de racionalismo todos os campos, para proclamar com violência os “direitos humanos”, direitos que nada têm que ver com a dimensão sobrenatural, dimensão que era expulsa com agressão e ódio.
     O protestantismo, o iluminismo, a filosofia laicista, a maçonaria penetraram no tecido da civilização europeia. Antônia Maria, inteligente e com visão do futuro, dá conta de que chegara o momento de enfrentar o mal, apesar de ter somente 17-18 anos de idade.
     Seu primeiro biógrafo, Francisco Vallosio, escreveu: “Ela intuiu a causa do mal de seu tempo: ‘a falta de instrução e de uma educação cristã básica’. E assim surgiu nela o pensamento generoso de opor-se àquele rio, para deter o vício desenfreado, dissipar as trevas da ignorância, formar os jovens na virtude e levá-los a Deus”.
     Depois do voto de virgindade, emitido aos 15 anos, decidiu retornar humildemente aos bancos escolares, percorrendo a pé 8 quilômetros diariamente para por em prática o que tinha em mente e que sentia que fora ditado por Nosso Senhor. A oração e a penitência são as armas de sua impetuosa chamada: assim começou o apostolado em Pasquaro, com simplicidade, porém com grande eficácia, cuidando maternalmente das crianças e dos jovens.
     Vallosio escreve: “Com amor de mãe reprova, reza e evitava que aqueles rechaçassem as práticas cristãs: toda zelo e paciência para instruir os ignorantes, reconfortar os débeis, consolar os aflitos, e com doçura inefável compartilha o pão do intelecto com as crianças, instruindo-as nos princípios básicos da religião”.
     Ela sente que os confins de Pasquaro são demasiado estreitos para sua missão e se muda, entre 1796 e 1800, para Rivarolo Canavese. Eram tempos duros e difíceis: primeiro os ventos da Revolução Francesa chegaram ao Piemonte, depois chegaram as campanhas militares de Napoleão; as pessoas estão cada vez mais pobres, a delinquência se expande.
     A nova casa de Antônia Maria era constituída de um único quarto que serve de “templo, sala de aula e claustro”. Neste local inicia aulas que incluem o ensino do catecismo e a alfabetização. Sua caridade também se estende a assistência aos doentes em suas casas. Mas, está sozinha, as tarefas são muitas e não dá conta de todas, por isto, entre 1800 e 1802, reúne várias companheiras (não se tem os dados precisos), e a primeira comunidade foi constituída. Assim surgiu as Irmãs da Caridade da Imaculada Conceição.
     Para conseguir a ereção canônica da Congregação, Madre Verna teve que enfrentar muitos obstáculos. Em 7 de março de 1828 obteve a Patente Real de aprovação do Instituto; nesse mesmo ano, em 10 de junho, e com o apoio do Bispo de Ivrea, as fundadoras da Congregação puderam tomar o hábito e realizar sua profissão religiosa. Em 27 de novembro de 1835 recebeu a aprovação eclesiástica definitiva.
     Madre Verna faleceu no dia de Natal de 1838, deixando a suas filhas uma atividade fecunda, capaz de oferecer gratuitamente (“grátis”, como a fundadora costumava dizer), sem reservas, e por amor de Deus, “o aceso completo ao trabalho da salvação, à exemplo de Maria Imaculada”, como é indicado na Regra da Congregação.
     Data de sua beatificação: 2 de outubro de 2011, durante o pontificado de S.S. Bento XVI.
Fonte: www.santiebeati.it

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Santa Adélia de Pfalzel, Abadessa beneditina - 24 de dezembro

    
     A tradição oral germânica nos conta que Adélia (ou Adela) era a irmã mais nova de Hermínia, ambas princesas, filhas do rei da Austrásia, Dagoberto II, o Bom.
     Adélia foi identificada, também, como a abadessa Adola, a quem Alfreda, abadessa do Mosteiro de Streaneshalch, teria enviado uma carta. Também como Adula, "religiosa matrona nobilis", que se hospedou no Mosteiro de Nivelles em 17 de março de 691, com um filho pequeno.
     Depois da morte de seu marido, Alderico, influente nobre da região, Adélia decidiu recolher-se na vida religiosa. Fundou então o Mosteiro de Pfalzel, na região de Trèves, atual Alemanha, onde ingressou e foi a primeira abadessa. Escolheu a Regra beneditina, como fizeram os mosteiros de Ohren e de Nivelles, o primeiro fundado por sua irmã, a futura Santa Hermínia.
     O neto da abadessa, Gregório, um rapaz esperto e vivaz, era hóspede frequente do mosteiro. O jovem ficou encarregado de ler em voz alta os textos sagrados enquanto as religiosas estivessem no refeitório. Em 722, passou pelo mosteiro um monge inglês de nome Bonifácio, em seu retorno da primeira missão na Frísia. Acolhido como hóspede, mesmo não sendo conhecido, foi levado para o refeitório no momento em que Gregório lia uma bela página do Evangelho em latim.
     Bonifácio se aproximou dele assim que terminou a leitura e cumprimentou-o, mas pediu que ele explicasse o que acabara de ler. Gregório tentou repetir a leitura, mas Bonifácio pediu que o jovem explicasse no seu próprio idioma. Embora lesse muito bem o latim, o rapaz não compreendia o que o texto dizia. "Deixe-me explicar para todos os presentes", disse o monge. Com tal clareza ele explicou o texto latino, com tamanha profundidade comentou-o e de maneira tão convincente, que deixou todos os ouvintes encantados.
     Gregório foi o mais tocado, a ponto de não querer separar-se do monge que ninguém sabia de onde era. Adélia permitiu que o neto partisse com Bonifácio, confiando na sua intuição e na Providência Divina. Muitos anos depois, Gregório tornou-se o Bispo de Utrecht e foi um dos melhores discípulos de São Bonifácio, o "apóstolo da Germânia".
     Adélia morreu pouco tempo depois no mês de dezembro de 734, e foi sepultada no Mosteiro de Pfalzel.
      Em 1802, o sepulcro foi aberto: a arca com as relíquias foi levada para a igreja paroquial de São Martinho e foi aberta novamente em 1868. Foi encontrado ali somente uma cópia do testamento de Santa Adélia e uma ata de 1802. A placa de chumbo da transladação de 1207 e a cobertura original do túmulo retornaram no mesmo ano ao altar mor, enquanto a cabeça e os ossos da santa foram descobertos sob o mesmo altar em 1933.
     O culto de Santa Adélia de Pfalzel foi autorizado pela Igreja. São duas as celebrações em dezembro: no dia 18, com uma festa local; no dia 24, junto com Santa Hermínia.
 
Etimologia: Adela (ou Adélia) abreviação de Adelaide, do alemão Adelheid: “semblante, porte (heid) distinto, fidalgo (adel). Ou de “linhagem nobre”.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Santas Vitória e Anatólia, Virgens e mártires - 23 de dezembro

    
     A legenda conta que na época do imperador romano Décio, Anatólia e Vitória eram irmãs cujo casamento fora arranjado com dois nobres romanos pagãos. Anatólia procurava todos os pretextos para adiar o casamento; Vitória via aproximar-se a data do casamento com prazer. Ao tentar convencer a irmã a decidir-se, Vitória provou pela Sagrada Escritura que o casamento era agradável a Deus. Anatólia apresentou-lhe argumentos tão convincentes a favor da virgindade, que no mesmo dia Vitória desfez o noivado e vendeu as joias e o enxoval em proveito dos pobres.
     Seus pretendentes denunciaram as jovens como sendo cristãs, recebendo a permissão para aprisioná-las em suas propriedades até que elas se convencessem a renunciar à sua Fé e a desposá-los.
    Depois de usarem de todos os recursos para abalar a constância das jovens, o noivo de Anatólia, Tito Aurélio, foi o primeiro a perder a paciência, sendo ela a primeira a ser martirizada. Anatólia foi assassinada em "Thora" (identificada como a moderna Sant’Anatolia di Borgorose).
     A legenda conta que ela foi trancada num quarto com cobras venenosas e, como elas se recusassem a picá-la, um soldado chamado Audax foi enviado para matá-la. As cobras o atacaram, mas Anatólia o salvou das picadas. Impressionado pelo exemplo, ele se converteu e foi martirizado pela espada junto com ela.
     Eugênio esperou por meses que o tempo mudasse o coração da noiva, mas, longe de apostatar, Vitória convertia todos os que se aproximavam dela. Desesperado, Eugênio pediu ao prefeito do Capitólio que lhe enviasse o carrasco Liliarco.
     A legenda conta que Vitória foi esfaqueada por Liliarco no coração em 250 em Trebula Mutuesca (Monteleone Sabino). Os hagiógrafos afirmam que o assassino imediatamente foi acometido de lepra e morreu seis dias depois.
     Vitória e Anatólia são mencionadas no Martirológio Romano (sem Audax) na data de 10 de julho. Anatólia foi mencionada pela primeira vez na "De Laude Sanctorum", composta em 396 por Vitrício, Bispo de Rouen (330-409). Ela e Vitória aparecem juntas no Martyrologium Hieronymianum na data de 10 de julho. Vitória é mencionada também, sozinha, em 19 de dezembro. As duas aparecem em mosaicos na Basílica de Santo Apolinário Novo, em Ravena, entre as santas Paulina e Cristina. Uma "Passio SS. Anatoliae et Audacis et S. Victoriae", do século VI, que acrescentou o nome de Audax, foi mencionada por Adelmo (m. 709) e Beda (m. 735), que listaram as três em seus martirológios. César Barônio lista Anatólia e Audax em 9 de julho e Vitória, em 23 de dezembro.
 
Popularização do culto
     Depois da translação de suas relíquias, o culto dos três se espalhou pela Itália. O corpo de Santa Vitória foi transferido, em 827, pelo abade Pedro de Farfa de Piceno para o Monte Matenano por causa das invasões árabes. A cidade de Santa Vittoria in Matenano é uma homenagem a ela. Ratfredo, o próximo abade de Farfa, levou o corpo da santa para a abadia em 20 de junho de 931.
     Os corpos de Anatólia e Audax foram trasladados pelo abade Leão para Subiaco por volta de 950. Em data desconhecida, uma escápula (osso da parte posterior do ombro) de Anatólia foi transladada para a moderna Sant’Anatolia di Borgorose, e um braço, para a moderna cidade de Esanatoglia.
     Os corpos de Anatólia e Audax ainda descansam em Subiaco, na Basílica de Santa Escolástica, sob o altar do Santíssimo. Atualmente o corpo de Santa Vitória está abrigado num altar em Santa Maria della Vittoria, em Roma.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Santa Vivina (Wivine), Abadessa beneditina - 17 de dezembro

Martirológio Romano: Vizinho de Bruxelas, no Brabante, na moderna Bélgica, Santa Vivina, primeira abadessa do mosteiro de Grand-Bigard.
     Há mais história para contar sobre ela após sua morte, do que dados sobre sua vida; o pouco que se sabe contém muitas incertezas.
     Desde sempre Vivina é considerada a fundadora e a primeira superiora da abadia beneditina de Grand-Bigard, na província do Brabante, na Bélgica. Nasceu em 1103, naquela província, fundou um eremo em 1126, adotando posteriormente, em 1129, para ela e para as discípulas que a ela se reuniram, a Regra de São Bento.
     De qualquer forma, o seu nome somente aparece em um documento de Godofredo I de Brabante, datado de 1133, no qual não lhe é dado nenhum título. Além disso, existe um documento de doação para a abadia, da parte de Burcardo, Bispo de Cambrai, que deixa entender a existência de sua presença naquele local entre 1114 e 1130, portanto anterior a 1126, como relatado pela tradição.
     Enfim, não existe documentação que a qualifique como superiora ou priora. A data de sua morte, citada também no moderno Martirológio Romano, é 17 de dezembro de 1170.
     A sua Vita beatae Wivinae é uma biografia datada dos primeiros anos do século XIII, escrita de um modo edificante, mas não atenta a datas históricas, detendo-se mais em milagres ocorridos junto a seu túmulo, do que nas circunstâncias da sua vida. Esta biografia sofreu várias ampliações nos séculos XVI e XVII.
     Uma transladação de suas relíquias aconteceu em 25 de setembro de 1177, aos cuidados de Alardo, Bispo de Cambrai. Em 1625, o Papa Urbano VIII aprovou uma Confraria dedicada a Santa Vivina.
     Em 1764, uma epidemia destruía o gado da região e um fiel do local, de volta de uma peregrinação a Grand-Bigard, fez a promessa de mandar celebrar uma Missa em Orbais (Brabante) para rogar a intervenção da Santa. A epidemia cessou, e em agradecimento ele mandou esculpir uma imagem de Santa Vivina, que foi colocada na igreja de Orbais, em 1766, onde se encontra ainda hoje.
     A abadia beneditina de Grand-Bigard foi supressa em 1796, e as relíquias da fundadora foram transladadas para a igreja de Nossa Senhora das Vitórias, do Sablon, em Bruxelas. No mesmo tempo, o culto da Santa, muito difundido na região, deu ensejo a uma periódica e famosa peregrinação a Orbais.
     No dia 29 de junho de 1812, houve uma solene transladação de uma parte de suas relíquias do Sablon para a igreja de Orbais, onde, em 1820, fora erigida uma nova Confraria dedicada a Santa.
     Santa Wivine ou Vivina é invocada contra a peste, a pleurite, a febre e o mal da garganta, tanto para os homens como para os animais. Ela é festejada em datas diversas nos vários locais em que é venerada: 25 de setembro, 19 de dezembro e 17 de dezembro, data esta, como foi dito, citada no texto oficial da Igreja.