segunda-feira, 13 de junho de 2016

Beata Francisca de Paula De Jesus (Nhá Chica), Leiga - 14 de junho

    
[...] Passando por Caxambu, tive minha atenção voltada para vários estabelecimentos comerciais com um nome ao mesmo tempo antigo e popular, mas com o charme do Brasil real, do Brasil verdadeiro, bem diferente daquele Brasil falseado apresentado pelas novelas de TV.
     Satisfazendo minha curiosidade, perguntei ao proprietário da lanchonete Nhá Chica a razão de tal nome. Com calma do montanhês, falou-me longamente a respeito da personagem, cuja vida transcorreu, quase toda ela, na cidade de Baependi, a cinco quilômetros daquela conhecida estância mineira, renomada por suas águas medicinais.
Tirou da gaveta um pequeno livro que trazia a biografia de Francisca Paula de Jesus Isabel, de autoria de Helena Ferreira Pena. Abriu-o e mostrou-me um soneto – que a diligente autora aproveitou, à guisa de apresentação ao leitor, na 14a edição de seu livro – dedicado à conhecida e venerada em toda região, Nhá (forma abreviada de Senhora) Chica (forma abreviada de Francisca).
     Da lavra do Conselheiro João Pedreira do Couto Ferraz, tais versos, compostos nos idos tempos do Brasil Império – 1873 –, prestam homenagem a Nhá Chica, cujo processo de beatificação foi instaurado no Vaticano, em 1992 (*).
     Mas, afinal, quem foi Nhá Chica? Não se imagine uma dama da aristocracia, como as houve no Brasil, até muito virtuosas. Nhá Chica não foi nem pretendeu ser uma delas, mas sim uma moça interiorana voltada para Deus.
* * *
     Nascida em 1810, em São João del Rei (MG), ainda menina mudou-se com sua mãe para Baependi. Ali, numa modestíssima casa que ainda se conserva, no cimo de um morro onde se ergue hoje a igreja de Nossa Senhora da Conceição, por ela construída, viveu virtuosamente e morreu em odor de santidade no dia 14 de junho de 1895.
     Sua certidão de Batismo fala-nos claramente de sua origem: “Aos vinte e seis de abril de mil oitocentos e dez, na Capela de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, filial desta Matriz de São João del Rei, de licença, o Reverendo Joaquim José Alves batizou e pôs os santos óleos a FRANCISCA, filha natural de Isabel Maria. Foram padrinhos, Ângelo Alves e Francisco Maria Rodrigues. O coadjutor Manuel Antônio de Castro”.
     Com efeito, por uma pintura, na qual ela é retratada e que se conserva na capelinha de sua casa, percebem-se claramente os traços de mestiça, tão frequentes em nosso Brasil real. Como afirmou o Conde Affonso Celso, os negros que vieram para o Brasil mostraram-se dignos de consideração por seus sentimentos afetivos, por sua resignação, coragem e laboriosidade. São dignos, pois, de nossa gratidão.
     Segundo sua biógrafa, Nhá Chica era portadora de nobre missão: “Para todos tinha uma palavra de conforto e a promessa de uma oração”. Sua companhia diuturna era uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, em tosco oratório, ainda hoje venerada na igreja, conhecida na cidade como igreja da Nhá Chica. Diante da bela imagem esculpida por hábeis mãos de artista em cuja alma vicejava a fé, pude rezar a oração predileta de Nhá Chica, aliás, umas das mais belas preces compostas nos dois mil anos de cristianismo: a Salve Rainha.
     Um fato narrado por Helena Ferreira Pena descreve o perfil espiritual dessa alma de eleição. Certo dia, Nhá Chica recebeu manifestação da Mãe de Deus mediante a qual pedia que Lhe fizesse uma capela. Como isso requeria muito dinheiro, saiu Nhá Chica pelas vizinhanças em busca de auxílio, que não lhe faltou.
     Providenciou logo os adobes (tijolo cru). Quando havia certa quantidade pronta desse material de construção, recebeu Nhá Chica ordem de Nossa Senhora para dar início à edificação. Contratou então um oficial de pedreiro que pôs mãos à obra. Encontrando-se os serviços já em certo estágio, o oficial notou que iria faltar material e disse-lhe: - “Nhá Chica, os adobes não vão chegar!” Respondeu ela: “Nossa Senhora é quem sabe”. O pedreiro continuou o serviço e, ao terminar, não faltou e nem sobrou um só pedaço de adobe.
     Fatos como esse deram-se ao longo de toda construção até o seu término. Mas Nossa Senhora queria mais alguma coisa. Manifestou a sua serva seu desejo: “Queria um órgão para a igreja”. Nhá Chica, porém, na sua incultura, não sabia o que era aquilo. Foi consultar o vigário local, Mons. Marcos Pereira Gomes Nogueira, sobre o que era o órgão que Nossa Senhora desejava para a capela.
     Segundo vai narrando sua biógrafa, Mons. Marcos lhe disse: “Órgão é um instrumento até muito bonito que toca nas igrejas, mas para isso precisa muito dinheiro!”... - “Mas Nossa Senhora queria. Na Rua São José, casa 73, no Rio de Janeiro, chegou um assim”, disse ela.
     Mal Nhá Chica manifestara o desejo de Nossa Senhora, as esmolas começaram a afluir abundantes às suas mãos. Foi encarregado da compra o Sr. Francisco Raposa, competente maestro, que partiu para o Rio de Janeiro. O órgão foi despachado até Barra do Piraí (RJ) por via férrea. De lá até Baependi foi levado em carro de boi.
     Marcada sua inauguração numa quinta-feira às 15 h, ela fez tocar o sino, convidando o povo. Começam a chegar os devotos e a capela ficou lotada. O maestro subiu ao coro e, deslizando suas mãos sobre o teclado, qual não foi a sua surpresa: não se ouviu uma nota sequer! O que teria acontecido?
     “Com certeza estragou-se com a viagem em carro de bois, diziam uns”. – “Qual! Com certeza venderam coisa velha estragada”, diziam outros.
     Nhá Chica chorava... De repente, acalma-se e diz: “Esperem um pouco”. E foi prostrar-se aos pés da Virgem, sua Sinhá.
     O povo esperava ansioso. Ela voltou serena e sentenciou: - “Podeis voltar para suas casas, porque o órgão não tocará hoje, mas amanhã às 15 h (sexta-feira)”, dia da devoção de Nhá Chica. - “Nossa Senhora quer que entoem a ladainha”.
     E assim se fez. No dia seguinte, novamente o sino soava conclamando os fiéis, que, desta vez, foram em número maior, movidos pela curiosidade. E às 3 horas da tarde em ponto, o maestro fez ecoar pela primeira vez por toda a igreja, ao som do órgão, a linda melodia da ladainha de Nossa Senhora! As lágrimas desciam dos olhos de Nhá Chica, mas desta vez lágrimas de alegria e felicidade.
     Pude ver o órgão, infelizmente em mau estado de conservação, na casinha onde viveu esta personagem muito brasileira, carinhosamente chamada de Nhá Chica. Ele não toca mais.
     Caro leitor: se a conselho médico ou para repouso fores a Caxambu, não deixes de percorrer os cinco quilômetros até Baependi, para ouvir, no silêncio acolhedor daquela modesta casa, os conselhos que a graça certamente te inspirará na alma. E encontrarás o único repouso verdadeiro, que é conhecer, amar e servir a Nosso Senhor Jesus Cristo – o Caminho, a Verdade e a Vida.
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Fontes de referência:
Por que me ufano do meu país, Affonso Celso, Coleção Páginas Amarelas, Editora Expressão e Cultura, 1997.
Biografia de Francisca Paula de Jesus, “Nhá Chica”, Helena Ferreira Pena, Editora O Lutador, Juiz de Fora, 14a. edição.
Francisca de Paula Jesus Isabel, Nhá Chica, Mons. José do Patrocínio Lefort – Editora O Lutador, Juiz de Fora, 4a. edição.

Fonte: Paulo Henrique Chaves, Catolicismo de janeiro de 1999 (excertos)

(*) Nhá Chica foi beatificada no dia 4 de maio de 2013 em Baependi MG durante a celebração presidida por Sua Eminência o Cardeal  Angelo Amato, Prefeito da Congregação das Causas dos Santos.

sábado, 11 de junho de 2016

Santa Cunera, Virgem e Mártir - 12 de junho

    
     Segundo uma legenda (não anterior ao século XIV), Cunera teria sido uma das companheiras de Santa Úrsula, que fora salva e protegida por um certo Radbout, rei da Frísia. Levada para a residência deste, em Rhenen, perto de Utrecht, foi estrangulada pela ciumenta mulher de Radbout com um xale, e sepultada no mesmo estábulo em que fora assassinada. Radbout descobriu o corpo de Cunera no estábulo e açoitou a esposa. Esta ficou louca e se suicidou, enquanto Radbout transformou o estábulo em uma capela ricamente adornada. O local ficaria mais tarde conhecido como “A colina de Cunera”.
     Trezentos anos depois de sua morte, os habitantes de Rhenen pediram ao Bispo São Vilibrordo (m. 739) que declarasse ser santa a jovem. Segundo a história, ao abrir o sarcófago encontraram o corpo de Cunera e o xale intactos. São Vilibrordo transferiu dali as relíquias de Cunera, então famosa pelos muitos prodígios ocorridos junto ao seu sepulcro, para a igreja de Rhenen. Em 694 o xale foi depositado na igreja Pieterskerk, em Rhenen.
     Segundo o parecer de Papebroch, o núcleo histórico da legenda pode ser este: Cunera devia ser uma escrava cristã de qualquer príncipe frísio convertido ao Catolicismo por São Vilibrordo, morta pela patroa por ciúmes e depois, devido aos prodígios ocorridos no seu sepulcro, honrada como santa com a aprovação do mesmo São Vilibrordo, ou de algum de seus sucessores que providenciaram a transferência do corpo para a igreja de Rhenen.
     Na verdade, uma igreja em honra de Cunera em Rhenen, e detentora de suas relíquias, é recordada na Vida de São Meinverco, bispo de Ratisbonne (m. 1036), redigida no século XIII. Segundo esta vida, era costume em Rhenen jurar sobre as relíquias da santa, indício da grande veneração popular por ela.
     Papebroch recorda que no seu tempo era uso frequente colocar o nome de Cunera nas meninas. Ele também recorda um breve elogio da santa encontrado nas cartas do Pe. Rosweyde: “Rhenis, ad pedem sublimis atque magnificae turris, stat ornatissima S. Cunerae ecclesia, ibi, ut fertur, martyrizatae: cuius ibi corpus requiescit, et sepulchrum visitatur ab hominibus, equis et bobus, gravi morbo laborantibus: curantur autem ibi praecipue saucium dolores” (*).
     Algumas relíquias da santa foram transferidas para Portugal em 1565, de onde foram levadas para Anversa. Outras passaram para o colégio dos Jesuítas de Emmerik, em 1602; outras ainda são lembradas como estando presentes na catedral de Utrecht, em Berlicum e em Heeswijk. Em Rhenen elas foram reconhecidas em duas ocasiões: em 1615 e 1638.
     A festa de Santa Cunera é celebrada em Rhenen e em Nibbixwoud no dia 12 de junho
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Fonte: www.santiebeato.it - Willibrord Lampen

(*) Rhenen, aos pés da magnífica e sublime torre da igreja ornamentada de Santa Cunera, diz-se martirizada, cujo corpo ali repousa, e seu túmulo é visitado por homens, cavalos e bois, aqueles que sofrem de uma doença grave: há especialmente o cuidado das feridas e da dor. (tradução livre).
Igreja de Santa Cunera em Rhenen 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Santa Faustina de Cizico, Mártir - 10 de junho

    
Martírio de Santa Faustina e Santo Evilásio



     Santa Faustina é venerada na igreja de S. Miguel Arcanjo de Palma Campania desde 1839.
     Foi complexa a transladação dos espólios da Santa de Roma a Palma. Francisco Dello Iacono, cônego de Palma, pediu ao Papa Gregório XVI os restos de uma mártir santa. Com um breve de 31 de julho de 1839, o pontífice permitiu que do relicário romano fosse levado, para ser transportada para Palma, a cabeça da virgem e mártir Faustina.
     Os sagrados espólios já haviam sido exumados por ordem do Papa Leão XII; eles haviam sido descobertos em 1830 na catacumba de São Calixto em Roma. Deste relicário de culto e de martírio foi exumada a cabeça da mártir de 13 anos, cujo nome em vida fora Faustina, segundo o que havia escrito na pedra que ocultava o local: FANA, abreviação de Faustina. Na mesma pedra sepulcral estava esculpido o ano da sepultura CCCIII. No interior foi encontrada a ampola com sangue, indício do martírio que sofreu Santa Faustina.
     Os restos da Santa, encerrados em uma caixa com os selos papais, chegaram a Nápoles em 1º de setembro de 1839. O relicário trazido pelo Cônego Dello Iacono foi levado para Nola, onde o Bispo, Mons. Gennaro Pasca, procedeu à remoção dos selos e deu sua aprovação aos sagrados espólios.
     O esqueleto foi recomposto em uma urna de vidro em Nápoles, perto da Casa dos Doutrinários de São Nicolau de Caserti, e o corpo da jovem mártir foi transportado para Somma Vesuviana em 1º de outubro de 1839, para a igreja dos padres redentoristas. Acolhido com grande entusiasmo pelos fiéis, no dia seguinte foi transladado para a igreja dos padres reformados em São Gennaro de Palma.
     Desta igreja, em 3 de outubro, em solene procissão com grande participação do povo, a urna foi transferida para a igreja paroquial de São Miguel Arcanjo. Com o breve de 31 de janeiro de 1841, o Papa Gregório XVI concedia indulgência plenária a todos que visitassem as relíquias da Santa no dia de Pascoa, no dia do nascimento de Maria Ssma. (8 de setembro) e no dia da festividade da Santa Sé.  
     O martírio de Faustina é ligado ao de Evilásio, ambos de Cizico, antiga cidade do Mar Negro. Evilásio, primeiro ministro, foi tocado pelos prodígios que se manifestaram durante o suplício de Faustina, e se converteu à fé cristã. O prefeito que por sua vez foi mandado a condenar o ministro Evilásio, mandou torturar ambos inutilmente, porque todos os suplícios aumentavam ainda mais o fervor de sua fé, até que uma voz vinda do céu os chamou e assim entregaram o espírito.
     Em Palma, a festa litúrgica de Santa Faustina é celebrada em 10 de junho e 3 de outubro (para recordar o dia da chegada dos sagrados espólios).

Etimologia: Faustina, diminutivo de Faustus, Fausto = “feliz, venturoso, ditoso”

terça-feira, 7 de junho de 2016

Santa Quitéria, virgem e mártir - 8 de junho

    
     Segundo consta do hagiológio português e na história d Braga, Portugal, Quitéria foi uma das nove filhas nascidas de parto único de Cálsia Lúcia, mulher de Lúcio Caio Otílio, governador de Portugal e Galiza sob o Império Romano, no século II da nossa era. Quitéria nasceu no ano de 120, em Bracara Augusta, na região do Minho, por ocasião em que seu pai acompanhava o imperador romano Adriano em viagem pela Península Ibérica.
     Naquela época predominavam as superstições, a ponto de represália do marido, homem de procedimento muito rígido, levar Cálsia Lúcia a instruir a parteira de nome Cília que matasse as nove crianças. Mas, movida pelos sentimentos cristãos de piedade e amor ao próximo, Cília desobedeceu à patroa entregando as meninas ao arcebispo de Braga, Santo Ovídio, que as batizou e encomendou o seu cuidado e educação a diversas famílias cristãs, tudo a suas expensas.
     Anos mais tarde, tomando conhecimento da existência das suas filhas e estando comprometido com um cortesão de nome Germano, Otílio desejou que a filha Quitéria com ele se casasse. Ante a recusa da filha, Otílio condenou-a à morte, cuja execução foi perpetrada pelo próprio Germano no dia 22 de maio do ano de 135. Quitéria estava com 15 anos de idade.
     Conta-se que os soldados que a prenderam ficaram cegos. Diz ainda a tradição que após ter a cabeça decepada, Quitéria a tomou em suas mãos e caminhou até a cidade vizinha onde caiu e foi sepultada
     De Quitéria diz-se que tinha a graça de estar sempre perante a presença física do seu Anjo da Guarda, com quem conversava frequentemente e que a aconselhava em cada momento da sua vida.
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     A vida de Santa Quitéria se encontra envolvida em aspectos lendários, ainda pouco estudados.
     O martírio é referido pela primeira vez no século XII, estando relatado nos Flos Sanctorum de Alonso de Villegas e de Diogo do Rosário e inscrito no Martirológio Romano (22 de maio).
     Os primeiros milagres obtidos por sua intercessão datam do século VIII, altura em que começou a ser venerada como mártir. O culto de Santa Quitéria, promovido particularmente pelos jesuítas, encontra-se bem alicerçado na devoção popular que a invoca como advogada contra a raiva.
     A arquidiocese de Braga celebra a sua memória no dia 8 de junho. Felgueiras não só lhe erigiu um santuário no local onde supostamente foi sepultada, como tem Santa Quitéria como padroeira.
     A iconografia desta nobre donzela romana faz alusão a certos episódios da sua vida e revela o instrumento material do martírio, aspectos que nos propomos analisar bem como fazer referência ao culto e às dificuldades causadas pelas diversas lendas sobre a sua vida.
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     Segundo uma tradição espanhola, o corpo de Santa Quitéria foi recolhido e sepultado pelos cristãos perto das ruínas de um antigo mosteiro, São Pedro da Mata, da época visigótica, que fora mandado edificar por São Eugênio, bispo de Toledo, no século V. O rei visigodo Wamba, mandou reconstruir o mosteiro para render culto a Santa Quitéria.
     Segundo esta versão espanhola da vida de Santa Quitéria, as relíquias da santa foram transladadas para o sul da França no ano de 711, quando da invasão dos árabes, por se temer que elas fossem profanadas. As relíquias foram levadas para a cidade de Aire-sur-Adour, a 100 k da fronteira espanhola. As relíquias foram colocadas em um sarcófago e ali permaneceram até o século XI, sendo seu túmulo confiado aos monges beneditinos da Abadia de Chaise-Dieu. Estes monges edificaram um mosteiro e uma bela igreja no local onde existira a velha igreja dedicada a Santa Quitéria. Em sua cripta românica há um belo sarcófago de mármore onde se guardava as relíquias da santa.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Imaculado Coração de Maria - 4 de junho

Por que Nossa Senhora em Fátima propôs a devoção a seu Imaculado Coração como solução para a imensa crise do mundo moderno?

  
   Quando li há muitos anos A mística cidade de Deus, da Venerável Sóror Maria de Agreda, chamou-me a atenção um ponto a respeito de Nossa Senhora: Ela tem o conhecimento de todas as ciências, até mesmo das militares. Julguei isso um achado, porque não teria sentido que Deus concedesse a Ela tantos privilégios e a privasse nesse ponto.

     Mas, por outro lado, como provar que Nossa Senhora conhece táticas e estratégias?
     Quando analisamos as diversas devoções surgidas ao longo dos séculos à Santíssima Virgem, várias delas fruto de aparições ou revelações, compreendemos a existência de uma ligação lógica profunda entre o tipo de invocação e a época na qual essa devoção se tornou necessária ou até imprescindível.
     Isto é lógico, porque na luta espiritual, assim como na guerra, as armas se adaptam ao tipo de combate e a luta se trava de acordo com o gênero de armas existentes.
     Quando não havia pólvora nem artilharia, as pessoas se protegiam em castelos com altas muralhas, isolados numa montanha ou em algum local de difícil acesso.
     Com o descobrimento da pólvora – e com ela dos canhões – isto já não era suficiente e as pessoas procuravam se resguardar dentro de fortificações sólidas, como tantas existentes no litoral brasileiro.
     Quando nem isto foi suficiente, as pessoas passaram a camuflar tanto quanto podiam o local onde se escondiam, evitando assim ser vítimas de bombardeios.
Para cada situação, nova devoção
     A história da luta espiritual entre a luz e as trevas obedece a semelhante lógica.
     Quando, no início da Cristandade, a corrupção no mundo pagão era generalizada, tornaram-se necessários exemplos ostensivos de vida virtuosa, ou de mártires que provassem pelo heroísmo a existência de outro mundo.
     Nossa Senhora era então apresentada como a Virgem e a Mãe casta por excelência.
     Quando começaram a surgir Estados cristãos, impôs-se o aparecimento de governantes e governados virtuosos e, sobretudo, de devoções a Nossa Senhora enquanto Rainha.
     Para deformar essa virtude, o inimigo infernal açulou o orgulho, que rejeitava servir determinado rei ou nobre poderoso. A Igreja respondeu a essa revolta mediante a devoção do escapulário — símbolo de que servimos a uma Rainha ainda mais poderosa.
     Depois, quando o demônio e seus sequazes começaram a difundir doutrinas erradas, com desvios sutis e difíceis de replicar, apareceu o Rosário, em que se medita uma série de verdades elementares. Contrarrestou-se com isso a investida do adversário.
     Quando o protestantismo estimulou o orgulho, apresentando-o como superioridade espiritual, a Igreja ensinou as devoções a Nossa Senhora como mestra da humildade. Surgiram então devoções como a da Divina Pastora, tão difundida pela Ordem dos capuchinhos.
     Por ocasião dos ataques externos, como o dos turcos muçulmanos para esmagar a Igreja, nasceram devoções como a de Nossa Senhora Auxiliadora dos Cristãos.
     Antes e depois da Revolução Francesa surgiu e propagou-se o Iluminismo, para o qual só a razão é séria, e que tudo aquilo que não se prova no âmbito das ciências naturais (como a existência de Deus) não pode ser levado em conta.
     A Igreja então nos lembrou a beleza dos mistérios mariais, como o da Imaculada Conceição. E não é mera casualidade o fato de Nossa Senhora de Lourdes operar milagres que até hoje deixam atônitos os que veem na ciência a única porta do conhecimento.
     Ficou mais do que provado ter havido uma intervenção sobrenatural nos extraordinários milagres de Lourdes, obrigando os que vilipendiam a fé à incômoda posição de não poderem explicar cientificamente o que não podem negar.
Devoção ao Imaculado Coração de Maria
     Chegamos assim aos nossos dias, com uma crise espiritual, moral, política e financeira generalizada.
     Como contestar e se opor à pretensão moderna de que alcançamos o melhor nível de vida da História, a melhor organização social, e de que podemos fazer o que bem entendermos, até estabelecer estatutos de legalidade para desvios morais condenados claramente nas Sagradas Escrituras?
     É a própria Santíssima Virgem que em Fátima indica o remédio para tão grande mal: a devoção a seu Imaculado Coração. Por quê?
     Se houve por um lado enorme progresso material nos últimos tempos, por outro ninguém pode negar que se verificou também uma decadência moral imensa. Crimes antes difíceis de imaginar ocorrem hoje com frequência.
     Pesquisas de opinião atestam que as pessoas se mostram muito céticas em relação ao futuro, e os jovens tendem a admitir que terão uma vida pior que a de seus pais.
     Os pecados coletivos vão tomando uma proporção assustadora.
     Na Europa, a limitação da natalidade, causada pelo egoísmo e não pela pobreza, chegou a tal ponto que muitas pessoas se perguntam se seus países sobreviverão, ou irão desaparecer submergidos pelas ondas da imigração?
Inauditas misérias e solução materna
     Quando os problemas chegam a um extremo, só a mudança radical resolve. De onde a necessidade da imagem do coração — ou seja, mudar aquilo que amamos com apego e começar outro modo de viver.
     Mas, por que então não conservar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, praticada desde o século XVIII? Por que mudar para o Coração de Maria?
     Eis aí outro problema de caráter psicológico. Primeiramente, não se trata de mudar nada. A devoção ao Imaculado Coração de Maria soma-se à devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Elas como que formam uma só devoção.
     Acontece que o nível de pecado chegou a tal ponto, que alguns poderiam pensar: É demais um Deus perdoar tanto e, para isso, só mesmo o concurso materno poderá ajudar.
     Obviamente, do ponto de vista doutrinário, esta objeção é falsa. Deus Nosso Senhor é a própria Misericórdia e, por maior que seja a bondade de Nossa Senhora, ela é um canal que traz até nós a misericórdia d’Ele.
     Mas como Deus toma em consideração as nossas misérias, para nos fazer sentir melhor sua infinita misericórdia, Ele aponta como saída uma solução materna.
     E, no fundo, as palavras de Nossa Senhora em Fátima, ¨Por fim o meu Imaculado Coração triunfará¨, podem ser assim interpretadas: “Vocês cometeram todo tipo de crimes, mas meu coração materno os ama a tal ponto, que mesmo assim encontrei uma saída e vou conduzir ao Céu todos os que se abrirem ao meu amor¨.
    Só com esta segurança, de que nossa Mãe vai nos ajudar, é que podemos adquirir forças para iniciar o processo da reforma de nossos corações.
     Resumindo, temos hoje dois adversários espirituais terríveis: por um lado, o apego ao pecado, e a pecados incomensuráveis; por outro lado, a sensação de que fracassamos de tal forma, que sem uma ajuda absolutamente extraordinária não sairemos da triste situação em que nos encontramos.
     Para combater esses dois inimigos de nossa alma nos é oferecida uma arma decisiva: a devoção ao Imaculado Coração de admirável Mãe, que move montanhas e resolve casos impossíveis. E que promete ademais, de maneira a não deixar dúvidas, uma vitória completa.
     Podemos duvidar depois disto da sabedoria que, seguindo as melhores regras de estratégia, governa as ações de Nossa Senhora?

Fonte: Valdis Grinsteins – Revista Catolicismo

Santa Clotilde, Rainha da França - 3 de junho


Estátua de Santa Clotilde no jardim de Luxemburgo, Paris

"Às suas orações a França deve o dom da Fé" (oração litúrgica da festa da Santa)

     O rei da Borgonha morreu e seus quatro filhos dividiram o pequeno reino. Dois  deles, gananciosos e cruéis, uniram-se aos ferozes alamanos para invadir os reinos dos outros dois irmãos. Childerico teve a cabeça decepada, seus filhos foram mortos e a esposa atirada ao Ródano. As duas filhas de Childerico, ainda muito crianças, foram poupadas. Gundebaldo, um dos irmãos invasores, levou-as para sua corte. Apesar de ariano, permitiu que elas continuassem a professar a verdadeira religião.
     Fredegária, a mais velha, tornou-se religiosa num mosteiro, onde terminou seus dias em odor de santidade. Clotilde, a mais nova, por "sua doçura,  piedade e amor pelos pobres, fazia-se bendizer por todos aqueles que viviam a seu redor".
Sua missão: converter um rei e um reino
     A fama de sua virtude e beleza chegou ao reino dos Francos (atual França). Clóvis I, vitorioso rei dos francos, provavelmente influenciado pelo Bispo São Remígio, que gozava da inteira confiança do monarca, pensou em desposar a virtuosa princesa, apesar de ser ela católica. As bodas realizaram-se no ano de 493, em Soissons, com toda a suntuosidade da época.
     Para agradar a esposa, o rei franco mandou instalar um oratório católico no palácio. Nele Clotilde assistia diariamente a Santa Missa com grande devoção.
     Clotilde deu à luz  um herdeiro e obteve de Clóvis licença para batizá-lo. O pequeno inocente faleceu poucos dias depois. Clóvis alegou que se ele tivesse sido consagrado aos seus deuses não teria morrido. A rainha protestou com firmeza e doçura dizendo que em vez de entristecerem-se, eles deveriam alegrar-se por ter o pequenino ido para o Céu.
     No ano seguinte, Clotilde deu à luz outro menino. Apenas batizada, a criança correu perigo de morte. A rainha por suas súplicas e lágrimas, que visavam mais a conversão do marido do que evitar outro falecimento, obteve de Deus que ele se restabelecesse.
     Clóvis começou a admirar as qualidades da esposa, e ouvia-a com gosto, mas a sua conversão haveria de custar muitas lágrimas à esposa. A piedosa rainha entregava-se em segredo a grandes austeridades, prolongadas orações e caridade para com os pobres, a fim de obter a conversão do marido e do reino. Ao mesmo tempo, procurava suavizar o temperamento belicoso do esposo com sua mansidão cristã.
     Clotilde tornou-se amiga de Santa Genoveva, que então resplandecia em Paris por suas virtudes e milagres; a ela e a São Remígio Clotilde recomendou também a conversão do marido. Enquanto isso, Clotilde catequizava suas damas, serviçais e mesmo alguns dos nobres francos que viviam no palácio.
     Na planície de Tolbiac, em 496, a hora da Providência chegou. Clóvis viu-se quase vencido pelos alamanos, mas obteve a reversão da batalha após formular a seguinte promessa: Deus de Clotilde, se me dás a vitória, faço-me cristão". Após a vitória, sua conversão foi pronta e sincera. Não querendo esperar chegar a Soissons para conhecer "a Fé de Clotilde", mandou chamar um virtuoso eremita, São Vedasto, para que, marchando a seu lado, o instruísse na Fé católica.
     No dia de Natal do mesmo ano, Clóvis, com três mil de seus mais valentes guerreiros, suas duas irmãs e seu filho bastardo, Thierry, ingressaram pelo batismo "na Fé de Clotilde". Quando o rei dos francos entrou com o Bispo de Reims no batistério, este lhe disse as famosas palavras: "Curva a cabeça, altivo Sicambro; adora o que queimaste e queima o que adoraste".
     No momento em que São Remígio ia proceder à unção do rei com o óleo do Santo Crisma, uma pomba trazendo no bico uma ampola com azeite baixou da abóbada do templo. O Bispo ungiu com aquele azeite a cabeça de Clóvis. Esse azeite seria usado para a unção de praticamente todos os reis franceses, até a abominável Revolução Francesa, quando a ampola foi quebrada pelos revolucionários.
     Clóvis tornou-se muito devoto de São Martinho e foi muitas vezes a Tours visitar-lhe o túmulo. Iniciou a aliança entre a França e a Igreja enviando embaixadores ao Papa Anastácio, e fazendo colocar sua própria coroa diante do túmulo do Apóstolo São Pedro. Encorajado por Clotilde, o rei mandou destruir os templos dos ídolos em seu Estado e construiu igrejas dedicadas ao verdadeiro Deus. Clóvis conquistou também a inexpugnável Paris.
     A partir de então, um afeto muito mais forte e sobrenatural uniu os dois esposos, concedendo-lhes a Providência mais dois filhos e uma filha, que é também honrada como Santa.
     Clotilde incentivou seu esposo a empreender uma guerra contra Alarico, rei dos visigodos, que tentava disseminar a heresia ariana na região de Guyenne. Enquanto Clotilde, que o acompanhara nessa cruzada, rezava pelo êxito da batalha, Clóvis abatia o rei visigodo e desbaratava seu exército.
     Extenuado pelas fadigas e lides do governo, Clóvis viu-se atacado por mortal doença em Paris. Clotilde foi ao seu encontro. São Severino, Abade, ministrou-lhe os Sacramentos e ajudou-o preparar-se para a morte. O rei faleceu em 27 de novembro de 511 aos 45 anos de idade.
     Clotilde quis então viver só para Deus; dividiu o reino entre seus três filhos e o enteado. O filho natural de Clóvis, Thierry, reinou em Reims sobre a Austrásia, parte oriental da França, com várias províncias da Alemanha atual; Clodomiro reinou em Orleães; Childeberto em Paris e Clotário I em Soissons.
     Mais de 30 anos de sofrimentos ainda estavam reservados à rainha. Clotilde tinha dado sua filha, que recebera seu nome, como esposa a Amalrico, rei dos visigodos da Espanha, visando a conversão desse monarca. Todavia, a reação do soberano ariano foi de promover toda sorte de perseguições à esposa por sua fidelidade à verdadeira religião. Com permissão do rei, seus vassalos chegavam a atirar-lhe lama quando ela ia à igreja.
     Seus irmãos declararam guerra a Amalrico, que foi morto. Trouxeram então consigo a jovem Clotilde. A mãe não voltaria a ver a filha senão no Céu, pois, acabrunhada de dor, a jovem faleceu a caminho da terra natal.
     As contínuas discórdias e dissensões de seus filhos, e as crueldades cometidas por eles levaram-na a sair de Paris, que tinha sido elevada por Clóvis a capital. Mudou-se para junto do túmulo de São Martinho, em Tours, no mosteiro ali existente, onde, diz São Gregório de Tours, "viu-se uma filha de rei, sobrinha de um rei, esposa de um rei, e a mãe de vários reis, passar as noites em oração, servir os pobres e proteger as viúvas e os orfãozinhos". E ali viveu até à morte.
     Desde essa época viveu ela para a oração, as esmolas, as vigílias, jejuns e outras penitências. E operou vários milagres ainda em vida: curas, mudança de água em vinho, fez surgir uma fonte em campo árido...
     Sentindo aproximar-se a morte, mandou chamar seus dois filhos, exortando-os a servir a Deus e a guardar sua lei, a proteger os pobres, a viverem juntos em perfeita harmonia, e a tratar seus povos com bondade. Depois de fazer pública profissão de Fé Católica, recebeu os Sacramentos e entregou docemente sua alma ao Criador, no dia 3 de junho de 545.

Felizes os povos aos quais foi dada uma mãe, pela divina munificência.
Santa Clotilde, vitral

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Mês do Sagrado Coração de Jesus

    
     Em 1675, atendendo ao apelo de Jesus, Santa Margarida Maria Alacoque propagou essa devoção.
     “Eis este coração que tanto tem amado os homens. Não recebo da maior parte senão ingratidões, desprezos, ultrajes, sacrilégios, indiferenças… Eis que te peço que a primeira sexta-feira depois da oitava do Santíssimo Sacramento (Corpo de Deus) seja dedicada a uma festa especial para honrar o Meu coração, comungando neste dia e dando-lhe a devida reparação por meio de um ato de desagravo, para reparar as indignidades que recebeu durante o tempo em que esteve exposto sobre os altares. E prometo-te que o Meu Coração se dilatará para derramar com abundância as influências de Seu divino Amor sobre os que tributem esta divina honra e que procurem que ela lhe seja prestada”.
     No sábado celebramos o Imaculado Coração de Maria.
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     A devoção ao Sagrado Coração de Jesus foi sempre muito especial aos franciscanos, a exemplo de São Francisco de Assis, inflamado de seráfico amor por Jesus. Seu coração ardia de amor pelo coração do Mártir Crucificado.
     Escreveram e falaram do Coração de Jesus: São Boaventura, Santo Antônio de Pádua, São Bernardino de Sena e muitos outros santos franciscanos.
     A festa do Sagrado Coração de Jesus é complemento da do Corpo e Sangue de Cristo, reunindo todos os mistérios de Jesus em um só, que materialmente é o coração de carne de Jesus, espiritualmente quer expressar os infinitos tesouros do amor.
     É a festa do amor de Deus para conosco. A Igreja celebra a Festa do Sagrado Coração de Jesus na sexta-feira da semana seguinte à Festa de Corpus Christi.
     O coração é mostrado na Escritura como símbolo do amor de Deus. No Calvário o soldado abriu o lado de Cristo com a lança (Jo. 19,34). Diz a Liturgia que “aberto o seu Coração divino, foi derramado sobre nós torrentes de graças e de misericórdia”. Jesus é a Encarnação viva do Amor de Deus, e seu Coração é o símbolo desse Amor. Por isso, encerrando um conjunto de grandes Festas (Páscoa, Ascensão, Pentecostes, Santíssima Trindade, Corpus Christi), a liturgia nos leva a contemplar o Coração de Jesus.

Fonte: “Santos franciscanos para cada dia”, de Frei Giuliano Ferrini e Frei José Guillermo Ramirez, OFM, edição Porziuncola