terça-feira, 16 de agosto de 2016

Beata Hugolina de Vercelli, Virgem e eremita - 16 de agosto

    
     Hugolina nasceu em Vercelli no seio da nobre e poderosa família De Cassami (ou De Cassinis, segundo estudos recentes). Era filha única e bem cedo se destacou por sua prática da caridade ao próximo, a oração constante, a perfeita adesão aos ensinamentos transmitidos por sua piedosa mãe.
     A jovem tinha um amor especial pelos peregrinos, que naquele tempo eram numerosos. Quando ficava sabendo que a meta era a Terra Santa, lhes dava dinheiro para a viagem.
     Aos 14 anos, ao morrer sua mãe, seu pai quis seduzi-la, mas graças a sua oração conseguiu guiar seu pai na senda correta. De qualquer forma, o equilíbrio familiar ficou prejudicado e Hugolina confiou à uma senhora de nome Libera seu desejo de servir ao Senhor na oração, vivendo retirada do mundo. Esta senhora lhe disse que meditasse sobre sua decisão e que esperasse um sinal do céu.
     Quando seu pai se encontrava em viagem a Turim, Hugolina fugiu de sua casa disfarçada de homem. Chegou a um bosque, distante uma milha da cidade, no local onde havia uma capela de Santa Maria de Belém. Um ermitão de nome São Favorino, regressando da Terra Santa, construíra aquele local para ali viver santamente. A cela que ele ocupara ao lado da capela estava vazia e Hugolina resolveu que aquele seria o local de seu retiro.
     Durante 47 anos, tomando o nome de Hugo, ela ali viveu com o estritamente necessário, em oração, em intensos colóquios com Deus e penitências para combater as tentações, que não lhe faltaram.
     A capela se tornou um ponto de referência para toda a região, local de oração, de conselho para pessoas de diferentes classes sociais. Hugolina se comunicava, sem mostrar seu rosto, através de uma pequena janela. Somente seu confessor, o padre dominicano Valentino, e sua confidente, Libera, sabiam de sua identidade.
     Após muitos anos, suas forças físicas começaram a declinar, dores de estomago e febres levaram-na ao leito. Uns dias antes de sua morte, chamou o Padre Valentino (que seria seu biógrafo*), fez uma confissão geral e recebeu o Viático. Faleceu no dia 16 de agosto de 1300.
     A notícia de sua morte rapidamente se difundiu na cidade. O Bispo, Mons. Aimone de Challant, que estava a par de toda a história de Hugolina, revelada a ele pelo Padre Valentino, em procissão solene com o clero e o povo vai prestar-lhe homenagem. Ugolina repousava na paz do Senhor num pobre leito de palhas, com o Crucifixo, que tinha nas mãos, apoiado nos lábios. Comovido, o bispo ajoelhou-se e beijou suas mãos. Todo o povo desfilou diante dos seus despojos, ficando então sabendo que ela era a filha do rico De Cassami.
     De acordo com seu desejo, Hugolina foi sepultada em sua cela, posteriormente foi transladada para a igreja. Seu túmulo se tornou meta de peregrinações e local onde se produziam muitos milagres.
     Em 1453 os franciscanos erigiram ao lado da igreja um importante convento, chamado de Santa Maria de Belém, perdurando a devoção a Beata.
     A relíquia do crânio foi autenticada pelo bispo Mons. d’Angennes em 26 de junho de 1832. Por ocasião das supressões napoleônicas das ordens religiosas esta relíquia ficou em poder de uma pessoa piedosa, para depois ser finalmente recolocada na igreja.

* Esta importante obra foi citada pelo franciscano Luís da Cruz, que escreveu a biografia mais antiga desta Beata.

Etimologia: Hugolino (a) adaptação do italiano Ugolino (a), derivado de Hugo.
Hugo, abreviação do alto alemão antigo de Hugubert: “brilhante (bert) no pensar, na mente (hugu).

Fonte: www.santiebeati.it 

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A Glória extraordinária da Assunção de Nossa Senhora - 15 de agosto


    


     Embora a Assunção (em latim: assūmptiō - "elevado") tenha sido definida em tempos relativamente recentes como um dogma infalível pela Igreja Católica, a própria Igreja interpreta o capítulo 12 do Apocalipse como fazendo referência ao evento.
     A mais antiga narrativa é o chamado Liber Requiei Mariae ("O Livro do Repouso de Maria"), que sobrevive intacto apenas em uma tradução etíope. Provavelmente composta no início do século IV, esta narrativa apócrifa cristã pode ser do início do século III. Também muito primitivas são as diferentes tradições dos "Narrativas da Dormição dos 'Seis Livros'". As versões mais antigas deste apócrifo foram preservadas em diversos manuscritos em siríaco dos séculos V e VI, embora o texto em si seja provavelmente do século IV.
     A Assunção também aparece no De Transitu Virginis, uma obra do final do século V atribuída a São Melito que preserva uma versão teologicamente editada das tradições presentes no Liber Requiei Mariae.
     De Transitus Mariae conta a história de como os Apóstolos teriam sido transportados por nuvens brancas até o leito de morte de Maria, cada um vindo da cidade em que estava pregando no momento.
     Uma carta em armênio atribuída a São Dionísio, o Areopagita, também menciona o evento, embora seja uma obra muito posterior, escrita em algum momento do século VI. São João Damasceno é a primeira autoridade eclesiástica de sua época a advogar a doutrina pessoalmente (e não na forma de obras anônimas). Seus contemporâneos, São Gregório de Tours e Modesto de Jerusalém, ajudaram a promover o conceito por toda a Igreja.
     Em algumas versões da história, o evento teria ocorrido em Éfeso, na Casa da Virgem Maria, embora esta seja uma tradição muito mais recente e localizada. As mais antigas apontam que o fim da vida da Virgem Maria se deu em Jerusalém. Pelo século VII, uma variação apareceu, que conta que um dos apóstolos, geralmente identificado como sendo São Tomé, não estava presente na morte de Maria Ssma., mas sua chegada atrasada teria provocado uma reabertura do túmulo da Virgem, que então se descobriu estar vazio, com exceção de suas mortalhas. A Virgem Maria teria lançado do céu sua cinta para o apóstolo como uma prova do evento. Este incidente aparece muitas vezes nas pinturas sobre a Assunção.
     A doutrina da Assunção de Maria se tornou amplamente conhecida no mundo cristão, tendo sido celebrada já no início do século V e já estava consolidada no Oriente por volta de 600. O evento era celebrado no Ocidente na época do Papa Sérgio I no século VIII e foi confirmada como oficial pelo Papa Leão VI. O debate teológico sobre a Assunção continuou depois da Pseudo Reforma Protestante e atingiu um clímax em 1950, quando o papa Pio XII o definiu como dogma para os católicos.

Definição dogmática

     Em 1º de novembro de 1950, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, o Papa Pio XII declarou a Assunção da Virgem Maria como um dogma:
     “Pela autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e em nossa própria autoridade, pronunciamos, declaramos e definimos como sendo um dogma revelado por Deus: que a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, tendo completado o curso de sua vida terrena, foi assumida, corpo e alma, na glória celeste”.
     Desde a declaração solene da infalibilidade papal pelo Concílio Vaticano 1º, em 1870, esta declaração de Pio XII foi a única vez que um papa fez uso ex cathedra da prerrogativa. Pio XII deliberadamente deixou em aberto a questão se Maria teria ou não morrido antes da Assunção.
     Antes da definição dogmática, em Deiparae Virginis Mariae, Pio XII buscou a opinião dos bispos católicos e um grande número deles apontou para o Gênesis (Gen 3:15) como um suporte escritural para o dogma. Em Munificentissimus Deus (item 39), Pio XII faz referência à "luta contra o inimigo infernal" como neste versículo e a "vitória completa sobre o pecado e a morte", como em I Coríntios (I Coríntios 15:54).
*
     “À medida que Ela ia subindo, com certeza, como numa verdadeira transfiguração, como num verdadeiro Monte Tabor, a glória interior dEla ia transparecendo aos olhos dos homens. Falando dEla diz o Antigo Testamento: omnis glória filia regis ab intos - toda [a] glória da filha do rei lhe vem de dentro, daquilo que está dentro dEla. E com certeza essa glória interna que Ela tinha se manifestou do modo mais estupendo quando, já no alto de sua trajetória celeste, Ela olhou uma última vez para os homens, antes de definitivamente deixar esse vale de lágrimas e ingressar diante da glória de Deus”.
     (Conf. SD de 10/8/1968, por Plinio Corrêa de Oliveira)

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Agnès de La Barre de Nanteuil - 13 de agosto

(continuação)

    Mas Agnès quer fazer mais pelo seu país. Com 20 anos ela é recrutada como agente de ligação: com sua velha bicicleta, sob as barbas dos alemães e dos colaboradores, ela percorre as estradas da Bretanha para encontrar os agentes e transmitir as instruções dos líderes da rede. As cartas que ela leva, com risco de sua vida, estão escondidas no guidão de sua bicicleta, no revestimento de suas roupas, em seus sapatos. Ao mesmo tempo, com ar de quem não quer nada, ela dá aulas de inglês, leva as crianças para jogar no campo de Vannes, sai com as amigas e, como a mais velha da casa, ajuda a mãe nos trabalhos domésticos: "Sempre a alegria, a paz, a irradiação onde quer que ela chegue", escreveu dela seu primo Raul de Vitton. Seus amigos não suspeitam de nada.
     Mas, em março de 1944, ela foi denunciada, presa, torturada pela Gestapo e encarcerada em Rennes. Embora torturada, ela nada revelou por muitos dias, para dar aos seus companheiros combatentes tempo para se esconder. Ela encontra na prisão sua irmã Catarina, também resistente.
     No início de agosto, quando os norte-americanos estão às portas de Rennes, a prisão é evacuada e todos os prisioneiros são deportados para a Alemanha. Nesse comboio de 2.000 pessoas, durante um ataque de caças aliados na região de Langeais, Agnès foi ferida por um soldado alemão. Gravemente ferida no estômago, ela foi colocada de volta no vagão do trem quase destruído e foi sacudindo de estação a estação no caminho para St-Pierre-des-Corps (Indre-et-Loire) e Paray-le-Monial (Saône-et-Loire), onde o ferimento foi finalmente cuidado, a despeito da oposição da SS.
     Ela foi então colocada numa maca e em um vagão de carga quente e sem água. Ela sobreviveu por mais três dias sem reclamar. Segundo o testemunho das 35 prisioneiras presentes nas suas três horas de agonia, no vagão que as levaria à deportação, Agnès sofreu atrozmente: no ferimento mal cuidado se havia instalado uma gangrena. Mas de seus lábios não se ouve nenhuma lamentação, apenas palavras de encorajamento.
Vagão das deportações
     Esta jovem “tão bela, tão loira, tão jovem e tão corajosa” lhes fala de sua família, de seu Deus e só pede a elas para rezarem o terço junto dela. Com frequência elas a ouvem murmurar: “Ave Maria, perdoai-os”. “E ela morreu sob nossos olhos, calmamente, heroicamente, seu rosto iluminado”. No início da guerra ela havia escrito ao seu pai espiritual: “Eu creio que morrer jovem é uma grande graça que o Bom Deus concede, eu desejaria tanto de ser digna logo. Ó não vos inquieteis, não é que eu esteja farta de viver, longe disto! Mas ver o Bom Deus face a face, que perspectiva!”
     Ela morreu com a idade de 22 anos, no dia 13 de agosto de 1944, na estação de trem de Paray-le-Monial, mas antes de expirar ela pode ditar uma última mensagem para sua família: "Eu dou a minha vida ao meu Deus e ao meu país... fui traída, mas eu perdoei...".
     Seus companheiros de infortúnio, alguns deles membros da Juventude Comunista, rezam e fazem uma vigília por ela, "uma santa com um rosto bonito", como eles diziam, antes de entregar o seu corpo para as autoridades civis de Paray-le-Monial. A Cruz Vermelha enterrou-a temporariamente naquela cidade, na presença de guias escoteiros e líderes, que foram informados de sua morte.
     De uma família profundamente católica, Agnès de Nanteuil é certamente uma digna "mulher forte do Evangelho". A religião é o motor de sua vida, uma vida que ela ofereceu por seu país e pelo próximo. Até o fim ela reza e perdoa os franceses que a denunciaram, o alemão que a ferira, aqueles que a torturaram. No último vagão, deitada em sua maca, as jovens comunistas acompanham-na em seus últimos momentos e rezam com ela o Rosário.
-.-
     Em 1947, Charles de Gaulle condecorou-a postumamente com a Medalha da Resistência. Em 1951, ela recebeu a Legião de Honra. Sua mãe e seus outros irmãos também foram condecorados pela França, Estados Unidos e Reino Unido. Na Bretanha várias ruas levam o seu nome e várias unidades de escoteiros também, mas nenhuma escola pública, porque ela não era comunista ou membro ateu da Resistência.
     Em 2002, Agnès foi nomeada patrona da 26ª turma da Escola Militar de Saint-Cyr-Coëtquidan. Com Santa Joana d'Arc, ela é a única mulher a ser honrada desta maneira pela prestigiada Academia Militar.
Escola Militar de Saint-Cyr-Coëtquidam
Fontes:
1. (*) Christophe Carichon, Agnès de Nanteuil (1922-1944), Artège 18 €. Sobre o Autor: Casado e com cinco filhos, é professor de história na escola de Anjou e pesquisador associado ao Centro de Pesquisa bretão e celta (Universidade de Brest). Historiador especializado na história dos movimentos de juventude e história religiosa, ele é autor de dezenas de artigos e livros sobre esses assuntos.
2. Reproduzido com a permissão de Paul Vegliò. Traduzido por Nobility.org a partir do original francês, que foi publicado em 23 de fevereiro de 2014, no Boulevard Voltaire.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Agnès de La Barre de Nanteuil - 13 de agosto


Agnes de Nanteuil, nascida em 17de setembro de 1922 em Neuilly-sur-Seine e falecida em 13 de agosto de 1944 em Paray-le-Monial é uma católica da Resistência Francesa. Christophe Carichon (*) nos retrata uma bela personalidade onde a influência, a paz e a abnegação, resultantes de sua Fé, impressionaram aqueles que a conheceram e em especial as mulheres que participaram de seus últimos momentos em um dos últimos vagões a caminho dos campos de extermínio.
   
     A geração espontânea não existe! Agnès é herdeira de dois grandes nomes franceses dos quais recebeu como legado a tradição de servir a Deus, a Igreja, a França e ao próximo. Do lado do pai, uma antiga família, os La Barre de Nanteuil, ancorada no Vexin normando há muitos séculos. Leais ao trono e ao altar, derramaram seu sangue em todos os campos de batalha da monarquia de dois impérios, da Restauração e da Terceira República: Wagram, Smolensk, Espanha, Crimeia, Paris, Tonkin, China. Um tio-avô de Agnès morreu aos 20 anos nas fileiras das tropas do general Lamoricière em Castelfidardo (1860) em defesa dos interesses papais contra os piemonteses. Do lado materno, uma grande família parisiense: os Cochin. Entre eles estão muitos vereadores e deputados, o mais famoso deles, Denys Cochin, acadêmico, membro do Parlamento e Ministro durante a 1ª Guerra Mundial. Seu filho, primo de Agnès, é o grande historiador da Revolução Francesa Augustin Cochin, que morreu pela França em 1916.
     Agnes nasceu em 1922 em uma família cristã muito amorosa. Seus pais, Gabriel e Sabina de Nanteuil, tiveram seis filhos, sendo Agnès a mais velha. Os primeiros anos de sua infância ela os passou na "bela Paris" e nas propriedades da família na Normandia e no Norte. Quando pequena, ela estava longe de ser uma santa! Seu primo Raul de Vitton escreveu: "Agnès é uma pequena bola de nervos. Ela cresceu rápido, andou muito cedo. Ela é de uma atividade extrema, viva, muito engenhosa, alegre, independente e desobediente. Ela também sabe a que se apegar, mas é assim: é pegar ou largar. À sua mãe, que disse a ela quando ela tinha três anos de idade, ‘você é má a tal ponto, que eu não vou ser capaz de mantê-la: vou dar você de presente a outra senhora’, Agnès respondeu com uma ousadia cândida, sem se desmontar: ‘mas a outra senhora também não vai me querer...’"
     Viva, sorridente, bonita, a pequena Agnès, loira de olhos azuis profundos, já não deixa ninguém indiferente. Ela poderia muito bem ter se tornado insuportável, mas foi após um retiro espiritual, na idade de 14 anos e meio, que ela mudou seu coração, se converteu no primeiro sentido do termo. Ela escolheu um lema que orientaria toda a sua vida: "Tudo para os outros, nada para mim". A partir desse momento, apesar das dificuldades, quedas, desânimos, Agnès se apega a sua promessa de ser melhor para se tornar uma "mulher de caráter". Ela escreveu em seu diário: "Estou resolvida, com a ajuda do Bom Deus, a me assemelhar a uma criança radiante das graças de Deus, alegre, amável, sorridente, honesta, trabalhadora. Eis o que eu desejaria ser, o que eu quero e o que eu espero".
     Ela se doa aos outros: escoteira, catequista. E ela precisa de coragem: em 1937, após reveses de fortuna, os Nanteuil vendem o castelo de seu casamento e se exilam na Bretanha, em Vannes, que não era um “resort chique" de hoje, era profundamente rural. As avenidas parisienses foram substituídas pelas estradas poeirentas; as mansões pelas casas de campo. Agnès escreveu em seu diário: "Um trimestre passou! Como o tempo voa! Eu sou como uma frágil árvore transplantada que ainda não conhece a dureza do clima e a violência dos ventos (29 de dezembro de 1937)", e ainda "Eu me sinto triste com frequência: ter deixado tudo, amizades, cursos, distrações... mas me restam os dois entes mais queridos: o Bom Deus e meus pais, meus irmãos e irmãs (5 de fevereiro de 1938)".
     Após o desastre de 1940, os Nanteuil escolheram rapidamente o campo da resistência aos ocupantes. Sabina de Nanteuil (viúva desde 1942) entra na rede Liberação-Norte. Apesar dos enormes riscos, a Viscondessa de Nanteuil hospeda em sua casa os jovens refratários ao serviço compulsório (STO) e os prisioneiros fugitivos. Em 1943, ela monta uma estrutura para abrigar aviadores britânicos abatidos e ajudá-los a fazer o seu caminho para a liberdade. Com a ajuda dela e de Agnès, cerca de trinta aviadores aliados chegaram com segurança à Espanha. Agnès também ajudou a obter documentos falsos para os franceses que se esquivavam do STO (Força de Trabalho Obrigatório).



(continua no próximo post)

sábado, 6 de agosto de 2016

Festa da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo - 6 de agosto

    
     A Festa da Transfiguração do Senhor remonta ao século V. Ela nos convida a olhar para a Sagrada Face do Filho de Deus, como o fizeram os Apóstolos Pedro, Tiago e João, que viram a Sua transfiguração no alto do Monte Tabor.
     O fato é narrado pelos evangelistas São Mateus, São Marcos e São Lucas. A seguir a narração segundo São Mateus:
     "Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João, e conduziu-os a sós a um alto monte. E transfigurou-se diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes e de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia fazer assim tão brancas. Apareceram-lhes Elias e Moisés, e falavam com Jesus. Pedro tomou a palavra: ‘Mestre, é bom para nós estarmos aqui; faremos três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias’. Com efeito, não sabia o que falava, porque estavam sobremaneira atemorizados. Formou-se então uma nuvem que os encobriu com a sua sombra; e da nuvem veio uma voz: ‘Este é o meu Filho muito amado; ouvi-O’. E olhando eles logo em derredor, já não viram ninguém, senão só a Jesus com eles. Ao descerem do monte, proibiu-lhes Jesus que contassem a quem quer que fosse o que tinham visto, até que o Filho do homem houvesse ressurgido dos mortos. E guardaram esta recomendação consigo, perguntando entre si o que significaria: Ser ressuscitado dentre os mortos". (Mt 9,2-10)
     Desta forma Nosso Senhor Jesus Cristo queria fortalecer a Fé dos três privilegiados Apóstolos, que iriam presenciar os dias terríveis de Sua Paixão. Contemplando antecipadamente num instante seu esplendor e sua glória, eles podiam avaliar o que os aguardava na eternidade: contemplar a Face adorável de Deus... São Pedro recorda com emoção aquilo que presenciou, afirmando: "Fomos testemunhas oculares da Sua majestade" (2 Pd 1, 16).
     Em 1457 esta celebração se estendeu a toda Cristandade por determinação do Papa Calisto III, para celebrar a vitória das tropas cristãs, ocorrida no ano anterior, sobre os turcos muçulmanos que ameaçavam a liberdade na Europa cristã.
Basílica da Transfiguração, Monte Tabor
     Nos dias atuais, mais do que nunca esta festa nos é necessária, pois assim como Ele ao se transfigurar para os Apóstolos procurava fortalece-los, nós precisamos de Sua proteção para permanecermos firmes na Fé num mundo cada vez mais afastado de Deus e de sua Santa Igreja.
Monte Tabor


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Nossa Senhora das Neves e a Basílica de Santa Maria Maior - 5 de agosto

    
     Sob o pontificado do Papa Libério (352-366), o patrício romano João e sua esposa de igual nobreza, não tendo filhos aos quais pudessem deixar seus bens, prometeram dar sua herança à Santíssima Virgem Mãe de Deus, suplicando-lhe por fervorosas e ardentes preces que indicasse a obra pia preferida por Ela, na qual deveriam empregar esse dinheiro. A Bem-aventurada Virgem Maria, ouvindo com bondade estas orações e pedidos vindos do coração, a eles respondeu através de um milagre.
     No dia 5 de agosto, época para Roma de maior calor, a neve cobriu durante a noite uma parte da Colina Esquilina. Nessa mesma noite, a Mãe de Deus, em sonho, deu aviso a João e a sua esposa, separadamente, para que mandassem construir no local que vissem coberto de neve uma igreja, a qual seria consagrada sob o nome da Virgem Maria: assim, queria Ela ser nomeada herdeira deles. João, comunicando o fato ao Papa Libério, soube que também este havia tido a mesma visão.
     Solenemente acompanhado pelos sacerdotes e pelo povo, veio o Soberano Pontífice, então, à colina coberta de neve, e aí determinou o lugar da igreja, que foi edificada às expensas de João e de sua esposa. Sixto III a restaurou mais tarde. Foi chamada, de início, por diversos nomes, basílica de Libério, Santa Maria do Presépio. Mas, tendo sido construídas na cidade numerosas igrejas sob a invocação da Santíssima Virgem Maria, para que a basílica – que excedia em dignidade às outras do mesmo nome, devido ao brilho de sua miraculosa origem – fosse também honrada pela excelência de seu título, designaram-na pelo de Santa Maria Maior. Celebra-se a solenidade no aniversário de sua consagração, como lembrança do milagre da neve caída neste dia.
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Dom Prosper Guéranger, L 'Année liturgique, les temps après Pentecôte, tome IV, Maison Alfred Mame et fils, 1922, excertos das pp. 368 e 369.
* * *

Origens da Basílica de Santa Maria Maior
     A primitiva igreja do século IV, da qual não restam vestígios, foi erigida pelo Papa Libério perto do Mercado de Lívia - construído pelo Imperador Augusto -, segundo uma fonte autorizada como o Liber Pontificalis.
     Investigações arqueológicas efetuadas no subsolo da atual basílica, de meados da década de 70, comprovaram a existência de um edifício que deve ter sido o mencionado mercado dedicado por Augusto a sua esposa Lívia.
     Esse edifício foi soterrado e sobre ele o Papa Sixto III construiu, de 432 a 440, a Basílica de Santa Maria Maior. O grandioso templo, basicamente o mesmo que hoje admiramos, é dedicado ao culto de Maria, Mãe de Deus, devido à proclamação, pouco anterior à construção da basílica, do dogma da maternidade divina da Virgem Santíssima, no Concílio de Éfeso (43 I).
     Até o século IX, o grande templo mariano era comumente chamado Basílica de Libério. Depois, passou a ser denominado Basílica da Beata Virgem das Neves, em virtude do milagre ocorrido no século IV, tendo sido estabelecida uma festa em comemoração daquele evento prodigioso.
     O relato do episódio, referente ao patrício João, sua esposa e o Papa Libério, conservado pela Tradição, foi transmitido por escrito por Frei Bartolomeu de Trento e representado em mosaico por Fi­lippo Rusuti sobre a parede do pórtico da fachada medieval da basílica, parcialmente conservada.
     A veneranda igreja também foi chamada Basílica de Santa Maria do Presépio, bem como Belém de Roma. Narra a História que no dia seguinte ao da solene definição do dogma da maternidade divina de Maria, no Concílio de Éfeso (43 I), Sixto III promoveu um ato solene na presença do povo para evidenciar a homenagem àquele dogma. Nessa ocasião, o Pontífice mandou construir uma capelinha que, segundo parece, reproduzia a Gruta de Belém e continha relíquias da manjedoura onde nascera o Redentor da humanidade. Quando foi construída posteriormente a Basílica, a pequena capela constituía uma edificação à parte, a qual, no decorrer do tempo, não se conservou.
     Hoje, as relíquias da Gruta de Belém são veneradas na cripta da Basílica.

Fontes de referência:
1.P. Gabriel M. Roschini OSM, Mariologia, tomo lI, Pars III, De singulari cultu BMV, 2ª ed., Angelus Belardetti Editor, Roma, 1948.
2. Il Vaticano e Roma cristiana, Libreria Editrice Vaticana, Cidade del Vaticano, 1975.


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Santa Centola, mártir - 2 de agosto

    
     Segundo o Ano Cristão, Centola nasceu em Toledo, de pais nobres e pagãos. Desde pequena, por seu próprio raciocínio e observação da realidade, sobretudo pela graça divina, compreendeu a falsidade da idolatria. Assim, abraçou em segredo a fé cristã com tudo o que isto significa: oração, caridade, sacrifícios, anúncio de Nosso Senhor Jesus Cristo. Seu pai tentou fazê-la abandonar a nova fé e voltar à fé de seus pais. Promessas, presentes, ameaças, nada pode “separá-la de Jesus Cristo, cujo amor se havia apoderado de seu coração inteiramente”.
     Sentindo muito, fugiu de sua casa chegando a Soris ou Siaria (atualmente Sierro), terra que pertencia ao antigo bispado de Burgos, embora não à cidade. Ali se hospedou na casa de uma senhora cristã chamada Helena. As crônicas ou as tradições não nos relatam como elas se conheceram, nem porque ali, porém é provável que sendo a hospitalidade entre os seguidores da mesma fé uma virtude amada pelos cristãos, Helena a acolheu ao saber que fugia por motivos religiosos. Assim foi que Centola e Helena se dedicaram às obras de caridade e de piedade.
     Entretanto, o imperador Maximino, “persuadido de que a subsistência de seu império dependia da destruição da religião do Crucificado” (segundo o Ano Cristão), enviou seu ministro Eglisio às terras cantábricas para obrigar aos cristãos a cumprir a lei de sacrificar aos deuses renegando sua fé. Inteirado de que Centola, além de não ocultar sua fé, a pregava e convertia à Igreja muitos habitantes da região, mandou-a chamar ao tribunal.
     Outra vez foi submetida a promessas, ameaças, desta vez por parte de quem a executaria, que não puderam dobrá-la, o que levou Eglisio mandar colocá-la no ‘potro’, que estiraria seu corpo. Embora ouvindo claramente que seus ossos se desconjuntavam, mandou ferir seu corpo com garfos de ferro. Centola porém nem renegou sua fé, nem implorou, mas ao contrário, ridicularizava seus verdugos e os desafiava a provar novos tormentos. Ela foi levada para a prisão e a deixaram agonizar devido às feridas que sangravam.
     Inteiradas disto, algumas nobres senhoras da vila, espantadas diante da crueldade do governador, e compadecidas de Centola, foram até a prisão. Tentaram persuadi-la a ceder às leis. Centola respondeu com uma apologia à fé cristã e lhes deu a entender o prêmio que lhe estava reservado por permanecer fiel a Cristo, e se elas pudessem intuir qual seria ele, elas teriam inveja dela e não compaixão.
     Eglisio soube desta admoestação no cárcere e mandou cortar sua língua, porém “aquele Senhor por quem padecia fez com que falasse sem este instrumento, por uma daquelas portentosas maravilhas de Seu infinito poder”. Ou seja, sem a língua falou, e mais do que falar, profetizou que Helena, que veio visitá-la, também seria martirizada e desejou a ela “valor para que não desfaleças na prova”.
     Tendo Eglisio se inteirado de que Helena também visitara Centola e que era cristã, mandou-a aprisionar, com o que ela se alegrou “desejosa de acompanhar sua amiga na morte, como havia feito em vida”. Finalmente, ambas foram degoladas no ano 304 da era cristã. Provavelmente foram executadas fora da cidade.

     Em 782, os esposos Fernando e Gutina, senhores de Castro-Sierro, construíram uma pequena igreja em Valdelateja, sobre o local tradicionalmente considerado o do martírio. No século IX, Fernando, Conde de Santander e Castela, mandou restaurar o santuário da Santa em Sierro.
     Os calendários moçárabes celebram Centola o dia 2 de agosto, porém não lhe dão o título de mártir e seu culto não se associou ao de Helena até o século XIV, quando do translado dos corpos realizado por D. Gonzalo de Hinojosa, que pôs seu martírio a 4 de agosto de 304.
     Este translado se realizou em 1317, reinando Alfonso XI, para que elas recebessem um culto mais apropriado na catedral de Burgos (embora suas cabeças permanecessem em Sierro). D. Gonzalo colocou suas relíquias no altar mor, e lhes concedeu Missa e Ofício próprio, com rito duplo de primeira classe. Decretou que se fizesse procissão e que esse dia fosse de preceito para a cidade e diocese de Burgos.
     Baronio as inscreveu em seu martirológio em 13 de agosto “Burgis in Hispania Santarum Centollæ & Elena Martirum”, seguindo Alfonso de Villegas, autor do Flos Sanctorum (Toledo 1578).
     Atualmente o arcebispado de Burgos celebra Santa Centola dia 2 de agosto, e não no dia 13, como antes. Ao revisar e reformar seu calendário próprio, somente Centola é celebrada, porque ainda que as atas sejam legendárias e sem crédito, o culto a Centola está enraizado em Sierro, não o de Helena, cuja pessoa e culto foi acrescentado no século XIV, e sobre a qual nada se sabe; talvez seja outra mártir desconhecida.

Martirológio Romano: Na região próxima da atual cidade de Burgos, na Espanha, Santa Centola, mártir.
Interior da ermida, com as imagens das Santas