terça-feira, 4 de outubro de 2016

Santas Fé e Alberta, Virgens e mártires - 6 de outubro

Martirológio Romano: Em Agen na Aquitânia, hoje França, Santa Fé, mártir.

     Venerada na Idade Média, na França e em outros lugares, infelizmente esta Santa é conhecida apenas por documentos lendários. O Martirológio Geronimiano a recorda no dia 6 de outubro, mas não indica quando a santa morreu. O autor desconhecido do original da passio, hoje perdida, contudo era conhecida por Floro; este a inseriu no seu martirológio. A passio afirma que Fé morreu durante a perseguição de Diocleciano e Aronis precisa o ano: 303. Seu martírio deve ter ocorrido em uma das perseguições do século III.
     A vida de Santa Fé é relatada em um poema do século XII, a Canção de Santa Fé. A pequena Fé, nascida em uma rica família de Agen, foi convertida ao catolicismo pelo bispo São Caprasio. Tinha 12 anos quando eclodiu a perseguição de Diocleciano. O prefeito Daciano mandou prendê-la e não conseguindo convencê-la a sacrificar aos ídolos, fez com que ela fosse colocada sobre uma chapa de ferro em brasa. Uma tempestade providencial apagou o fogo, e finalmente a pequena Fé foi decapitada.
     Muitos milagres ocorreram junto ao túmulo da santa, o que a tornou muito conhecida. A ela é atribuído o fato de ter livrado prisioneiros.
    No século V o bispo Dulcídio construiu em Agen uma basílica, restaurada no século XIII e ampliada no século XV; foi demolida em 1892 para atender as necessidades urbanísticas.
     Mas, ao contrário de todos os costumes, o centro de irradiação do culto a Santa Fé não foi a basílica ad corpus, mas a igreja de Conques-en-Rouergue, para onde, no século IX, foram transladadas algumas de suas relíquias. Além da igreja, havia também um mosteiro que se tornou famoso devido sua localização. Estando na rota medieval dos peregrinos de São Tiago de Compostela, estes paravam ali para venerar a santa; paravam também os cavaleiros cristãos que iam para o mesmo Santuário de Compostela antes de enfrentar os mouros invasores na Espanha.
     O culto de Santa Fé espalhou-se assim por toda a Europa e depois para a América, onde muitas cidades e igrejas foram dedicadas a ela. Entre as mais importantes são dignas de nota a Abadia de Conches na Normandia e a igreja Sélestat, na Alsácia.
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     De acordo com uma tradição e um culto recente, Alberta seria irmã de Santa Fé e foi decapitada provavelmente no século III. Celebrada em 11 de outubro em Agen desde 1727, ela é comemorada no dia 6 de outubro junto com sua irmã.
     Seus restos mortais são conservados na igreja de São Pedro e São Febade de Venerque, no Alto Garonne. Eles foram encontrados no mesmo relicário de São Febade. O Abade Melet foi o responsável pelo encontro destas relíquias. Ele sabia que a cabeça de São Febade não estava neste relicário pois ela continua em Agen. Ora, ele descobriu ossos de crânio e outros ossos que visivelmente não pertenciam ao bispo de Agen. Após minuciosas buscas em velhos arquivos, o Abade Melet desvendou o segredo: tratava-se dos restos de Santa Alberta; eles estavam reunidos em um mesmo relicário desde o século X. Uma parte das relíquias foi distribuída especialmente à catedral São Caprasio d’Agen.
     Na nova edição do Martirológio Romano de 2003, o nome Santa Alberta virgem e mártir não aparece, embora tivesse sido mencionada em edições anteriores. A autorizada Bibliotheca Sanctorum informa sobre uma Santa Alberta, virgem e mártir de Agen, cidade da França (Lot-et-Garonne), seu culto e a vida está intimamente ligada à de Santa Fé, célebre menina mártir que sofreu muitos tormentos antes de ser morta.
     Acredita-se que Alberta é irmã de Santa Fé e foi decapitada junto com santos Caprasio, bispo, Primo e Feliciano, outros cristãos do lugar. Maior foi o culto da mártir Santa Fé, talvez por causa do significado do seu nome, ou devido sua jovem idade e, sobretudo, porque foi dedicada a ela a igreja de Conques-en-Rouergne. Isto deve ter deixado na sombra a figura da suposta irmã Alberta, provavelmente mais velha do que ela.
     O nome Alberta é principalmente lembrado como o feminino de Santo Alberto Magno, mestre de São Tomás de Aquino, que é festejado em 15 de novembro, mas no uso corrente a versão mais difundida é Albertina.
Relicário de Sta. Fé em Conques

Reunião das duas irmãs
     Após a descoberta das relíquias de Santa Alberta, em 22 de setembro de 1884, o bispo de Rodez doou a Venerque uma relíquia de Santa Fé, “a fim de que as duas irmãs se reúnam novamente”. Estas novas relíquias provêm do relicário de Santa Fé que foi descoberto em Conques. Este evento aconteceu em 21 de outubro de 1884, numa cerimônia solene no lugar chamado Montfrouzi em Venerque, pelo vigário de Agen, o Abade Rumeau. O martírio da santa foi dado como exemplo as jovens como coragem diante da morte. Três bispos e quarenta padres estavam presentes além de uma multidão imensa.

     Santa Alberta é representada no frontispício da Abadia de Santa Fé de Conques.  Ela está ao lado do Cristo Majestoso, à direita, que simboliza o Paraiso. Ela faz parte do cortejo dos eleitos precedidos pela Virgem. Carlos Magno, benfeitor legendário da abadia, também está ali. Santa Alberta está entre São Caprasio, bispo de Agen, e Aronis, o monge que levou de Agen as relíquias de sua irmã, Santa Fé.   

Abadia de Santa Fé de Conques

sábado, 1 de outubro de 2016

Madre Jacinta de São José, Carmelita – 2 de outubro

Na América, o aparecimento e desenvolvimento do Carmelo Descalço feminino deu-se, em certa medida, de forma semelhante ao caso francês e belga. Sem poder contar com a iniciativa direta da Ordem, muitos colonos que alimentavam o desejo de que se fundassem conventos carmelitas em suas terras, tiveram que constituí-los por conta própria, recebendo quando muito um apoio indireto por parte da Ordem. Foi o que ocorreu no caso do Brasil. Aqui, o primeiro Convento de Carmelitas Descalças surgiu do empenho pessoal de uma leiga, Jacinta Pereira Ayres, filha de importante família de Colônia, que com o apoio do Bispo do Rio de Janeiro, Dom Frei João da Cruz, Carmelita Descalço, e do Governador da Província, Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela, o fundou em 1750, nas encostas do morro do Desterro, nas imediações do atual Bairro da Lapa.
Madre Jacinta – como ficou conhecida por todos, apesar de nunca haver professado canonicamente – nasceu no Rio de Janeiro, a 15 de outubro de 1715, festa de Santa Teresa de Jesus, de pais profundamente cristãos. Crescendo nesse ambiente de profunda religiosidade, desde pequena foi favorecida de graças extraordinárias e tornou-se admirável por suas virtudes e pela vida perfeita que levava na casa paterna. Jacinta sentiu-se naturalmente inclinada a abraçar a vida religiosa. Revelou o seu desejo à sua irmã Francisca, e ambas resolveram entrar num Convento. Não havendo, porém, convento de religiosas, naquele tempo, no Rio de Janeiro, o padrasto - pois seu pai já havia morrido - requereu a licença de Sua Majestade D. João V, Rei de Portugal, que benignamente deferiu, a fim de que Jacinta e sua irmã Francisca fossem para Lisboa e aí escolhessem o Convento e a Ordem que mais lhes agradasse.
É interessante a observação da historiadora Leila Mezan Algranti: "Numa colônia de população tão rala, não havia espaço para a vida contemplativa feminina. Embora a presença de religiosos homens tenha marcado a colonização desde o início, o estabelecimento de congregações de mulheres é bem posterior. Mesmo quando a colonização já ia avançada, nos séculos XVII e XVIII, a Coroa procurou manter-se fiel à política de incentivo ao casamento, proibindo, sempre que possível, o surgimento de mosteiros para mulheres, principalmente nas zonas menos povoadas e pouco desenvolvidas”.
Faltando, contudo, pouco tempo para seu embarque a Lisboa, um acidente impediu Jacinta de deixar o Rio de Janeiro. Presa à cama com o quadril fraturado, sem poder andar ou ficar de pé, Jacinta se viu obrigada então a abandonar seu projeto.
Mais tarde, já se convalescendo da fratura, Jacinta "um dia, ao descer a ladeira do Desterro, depois de assistir à Missa que ali era celebrada, teve a FELIZ INSPIRAÇÃO de escolher naqueles arredores um lugar solitário para aí, com sua irmã e outras piedosas donzelas, que a quisessem acompanhar, viver debaixo de uma Regra". Encontrando uma chácara abandonada, conhecida como chácara da Bica, Jacinta, com o apoio de um tio, conseguiu adquiri-la por preço moderado e, no dia 27 de março de 1742, acompanhada por seu irmão por parte de pai, que era sacerdote, e uma criada, deixou a casa paterna e, "depois de se ter confessado e comungado, ouvido Missa na ermida do Desterro, foi encerrar-se naquela chácara isolada, com a firme intenção de nunca mais sair dali". No dia seguinte, Francisca juntava-se a Jacinta. As duas, com a ajuda do irmão José, improvisaram então, em meio às ruínas da chácara, um insólito convento, estabelecendo inclusive clausura. Construíram uma capelinha em honra ao Menino Deus, que ainda hoje existe na Rua Riachuelo, restaurada pela Sociedade de São Vicente de Paula.
Logo a notícia do aparecimento da nova casa se difundiu por toda a cidade, causando ótima impressão na opinião pública, e no poder civil e eclesiástico da Colônia. Assim, a partir de 1748, outras jovens foram se agregando a elas e, desde então, Madre Jacinta passou a contar com o apoio e a admiração do governador, o Conde de Bobadela, Gomes Freire de Andrade, e do Bispo, Dom Frei João da Cruz. Aconselhada pelo confessor do bispo, Frei Manoel de Jesus, também Carmelita Descalço, Madre Jacinta resolveu adotar, para regular a vida de sua nascente comunidade, as Constituições da reforma teresiana, ainda que oficialmente as donzelas da Chácara da Bica continuassem a ser leigas.
Desejosa de transformar o recolhimento em Convento Carmelita Descalço, Jacinta pede a autorização e o apoio do bispo D. Frei João da Cruz que, entusiasmado com a idéia, iniciou os procedimentos para obter as licenças que deveriam ser dadas por Roma e pela Coroa portuguesa. Entrementes, permitiu que se recebesse oficialmente postulantes em seu recolhimento, autorizando que vestissem o hábito carmelitano depois de cumprido o tempo regular da profissão religiosa. Ao mesmo tempo, Madre Jacinta, providenciava com o Governador o projeto do edifício que abrigaria a primeira comunidade carmelitana do Brasil, cuja pedra seria assentada pelo Bispo, às 15:00 hs do dia 24 de junho de 1750.
O Governador, Gomes Freire de Andrade, atraído pela fama das virtudes de Madre Jacinta e suas filhas, foi visitá-las com o Bispo D. Antônio do Desterro e adquiriu-lhes tão grande estima, que tendo alcançado do Bispo a doação da antiga ermida do Desterro (não se pode precisar o ano de sua fundação; sabe-se que sua construção data de 1629, no dia 15 de agosto.), que há mais de um século se elevava no outeiro do mesmo nome (o atual Morro de Santa Teresa), um pouco acima da Chácara, onde muitas vezes ela tinha ido rezar, edificou ao lado o Convento de Santa Teresa, à sua custa, segundo o projeto do Brigadeiro José Fernandes Alpoim, indo muitas vezes inspecionar o andamento da construção.
Antes, porém, que pudesse encaminhar os pedidos de oficialização do Convento, D. João da Cruz viu-se obrigado a deixar a Diocese, passando o governo a D. Frei Antônio do Desterro, franciscano, que orientado por Madre Jacinta e pelo Conde de Bobadela, deu prosseguimento às gestões de seu antecessor. No momento de pedir autorização para a fundação de um Convento Carmelita, o fez para um de Clarissas. Ao saberem disso, quando chegou o Breve Pontifício, em janeiro de 1751, Madre Jacinta e suas companheiras não o aceitaram, recusando-se a professarem numa Regra que não condizia com as suas reivindicações.
Sentindo-se traídas, pediram a intervenção do Conde de Bobadela para que convencesse o Bispo a mudar de idéia e lhes permitissem professar na Regra que haviam escolhido. Como ele se mantinha inflexível, Madre Jacinta decidiu resolver pessoalmente a questão, indo a Lisboa em busca de um novo breve e da licença real.
"Uma teia de intrigas desencadeou-se a partir da viagem de Madre Jacinta..." Mas depois de examinar os documentos referentes ao caso e investigar pessoalmente a Madre, o Padre Col manifestou-se favorável ao seu pedido, julgando-a capaz e bem intencionada. Entretanto, buscando testar a humildade e obediência da brasileira, sugeriu ao monarca, em seu parecer, “que lhe fosse vedada a condição de Fundadora e Priora e que, para o estabelecimento do convento, fossem enviadas de Portugal carmelitas experientes”. Assim instruído e tendo entrevistado pessoalmente Madre Jacinta, o rei, D. José I, não apenas expediu o alvará favorável, como ainda providenciou para que seu representante em Roma, Antônio Freire de Andrade Encerrabodes, obtivesse a fundação de um convento segundo a Regra e as Constituições da Reforma Carmelitana de Santa Teresa. Este foi expedido no dia 22 de dezembro de 1755.
Munida das devidas licenças, Madre Jacinta retornou ao Brasil, aportando no Rio de Janeiro a 17 de abril de 1756.
Apesar das autorizações, o Bispo D. Antônio não quis professar canonicamente Madre Jacinta e suas filhas, indo de encontro às disposições oficiais de Roma e Portugal. Porém, em vista desta divergência irreconciliável, o Conde de Bobadela achou prudente não insistir mais, esperando que com o tempo, havia afinal de desaparecer todos os embaraços. Madre Jacinta, que podia apelar à Corte e à Sé apostólica, resolveu aceitar o conselho do conde e não insistiu mais no assunto.
Em 1757, concluídas as obras do edifício do convento, Madre Jacinta e suas filhas ali se recolheram definitivamente, “vivendo em observância religiosa, seguindo em tudo a Regra e Constituições da reforma carmelitana...” Em 1767, o Recolhimento de Santa Teresa contava já com 21 mulheres, número máximo definido pelas Constituições.
Madre Jacinta, findou seus dias na prática constante das virtudes e no dia 2 de outubro de 1768 morre, aos 52 anos de idade, sem ter podido receber a profissão canônica. Seus restos mortais são conservados no Convento de Santa Teresa, assim como os do fundador, Gomes Freire de Andrade, falecido em 1º de janeiro de 1763.
As filhas de Madre Jacinta continuaram recolhidas em seu Convento, imitando os exemplos de sua admirável Fundadora, até que após a morte de D. Frei Antônio do Desterro, ocorrida em 1773, o seu sucessor, D. Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco, em 1780, reconheceu oficialmente a clausura e vestiu canonicamente as recolhidas com o hábito carmelitano. Em seguida, no dia 23 de janeiro de 1781, finalmente, as filhas de Madre Jacinta professaram os votos religiosos solenes.
Quantos anos de perseverança! Vinte e cinco anos desde a expedição do Breve Pontifício! O Convento de Santa Teresa teve a alegria de celebrar os seus 250 anos de Fundação, no ano Jubilar 2000 do nascimento de Jesus Cristo (1750 - 2000).
1o. Convento Carmelita do Brasil - Rio de Janeiro

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Santa Eusébia de Marselha, monja - 30 de setembro


Sarcófago de Sta. Eusébia na Abadia de São Vitor
Martirológio Romano: Em Marselha, na Provence, França, Santa Eusébia, virgem, que serviu Deus fielmente da juventude à velhice. 

     No século V, a Igreja de Marselha se expandiu, conforme História de Marselha, pg. 5: “... comunidades religiosas que nos dão a conhecer inscrições funerárias, a de Eusébia, por exemplo, cuja história é pouco conhecida. Há desenvolvimentos legendários posteriores (séc. VII ou IX) que falam de uma Eusébia que viveu no Mosteiro de Saint-Cyr, do qual foi abadessa por 40 anos”.
     Na Abadia de São Vitor de Marselha encontramos um sarcófago de Santa Eusébia.
     A Abadia de São Vitor, segundo a tradição, foi fundada no século V por São João Cassiano, nas proximidades dos túmulos dos mártires de Marselha, entre os quais São Vitor de Marselha († em 303 ou 304), que lhe deu seu nome.
     Após um longo período junto aos monges anacoretas do Egito, Cassiano chegou a Marselha em 416, trazido provavelmente pelo Bispo de Aix, Lázaro, que ele havia encontrado na Palestina no Concilio de Diospolis.
     A Abadia por ele fundada foi um dos primeiros mosteiros masculinos; ao mesmo tempo, João Cassiano fundou o Mosteiro de São Salvador, feminino. Ambos serviram de modelo para o desenvolvimento do período monástico ocidental. No mosteiro de Marselha estudaram vários teólogos relativamente brilhantes, dentre eles se destacam Vicente de Lérins e Fausto de Riez.
     Cassiano permaneceu em Marselha até sua morte em 433 ou 435. Ele teve discípulos e escreveu importantes obras que serviam de regra de vida e de base para reflexão àqueles que ele atraia para a vida monástica. São as Instruções cenobitas ou as Conferências dos padres. Suas obras foram recomendadas por São Bento a seus discípulos.
     Como não temos maiores informações sobre Santa Eusébia, podemos conjecturar que ela tenha sido discípula dos monges da Abadia de São Vitor, viveu no mosteiro feminino fundado por João Cassiano, e aproveitou enormemente das obras do fundador, pois sua virtude a manteve fiel até o fim da vida, conforme menciona o Martiriológio Romano: “serviu Deus fielmente da juventude à velhice”. Santa Eusébia faleceu no ano 497.
     A Abadia de São Vitor ganhou uma importância considerável no primeiro milênio por sua influência em toda a Provence. A era de ouro do mosteiro foi 950 – 1150. Em meados do século XII até o século XIII enfrentou uma crise. Um de seus abades, Guilherme de Grimoard, foi eleito papa em 1362 sob o nome de Urbano V.
     Nos séculos XV e XVI, a Abadia de Saint-Victor entrou em um processo de decadência que levou a seu abandono.
     Em 1966, a Sra. Suzy Fouchet criou uma associação que tem por objetivo promover a renovação de Saint-Victor e organizar duas ou três vezes por ano atividades artísticas, culturais ou arqueológicas. 
Abadia de São Vitor


domingo, 25 de setembro de 2016

Beata Beatriz de Castela, Rainha, mercedária - 25 de setembro


Túmulo da Beata no Mosteiro Sancti Spiritu, Toro, Espanha
 

     Da. Beatriz de Portugal era filha do rei D. Fernando I de Portugal e de sua esposa, a rainha Da. Leonor Teles. Ela nasceu em Coimbra em fevereiro de 1373 e faleceu em Toro, Espanha, após junho de 1412.
     No início de 1383 a infanta Da. Beatriz era a única descendente do rei D. Fernando, já então muito doente, após a morte prematura dos seus irmãos mais novos D. Pedro, em 1380, e D. Afonso, em 1382. Como herdeira do trono, o seu casamento aparentemente iria decidir quem havia de ser o sucessor de D. Fernando.
     D. Fernando arranjou e cancelou o casamento de Beatriz por diversas vezes, até que finalmente, tentando evitar que um príncipe castelhano, D. Fernando, filho segundo do rei de Castela, lhe sucedesse no trono por força do Tratado de Elvas, pensou encontrar a solução, por mais estranho que nos pareça, no casamento da sua única filha e herdeira com o próprio rei João I de Castela. Viúvo desde o ano anterior de uma princesa aragonesa, João de Castela aceitou, crendo que lhe estava aberta a via para anexar o reino de Portugal ao de Castela e Leão. O respectivo tratado de matrimônio e sucessão ao trono de Portugal foi negociado em março de 1383 em Salvaterra de Magos, e a cerimônia final do casamento teve lugar a 17 de maio de 1383 na cidade fronteiriça de Badajoz. Da. Beatriz tinha então apenas 10 anos e cerca de 3 meses de idade.
     Posteriormente João I de Castela persuadiu Da. Leonor Teles a renunciar à regência e a ceder-lha, a si e à sua esposa (uma criança então de cerca de 11 anos), “e foi feita a escritura em que renunciou a todo o direito do regimento que havia de haver no reino, e o pôs em ele e em sua filha”, diz-nos Fernão Lopes. (Crônica de el rei D. João I, cap. LXV)
     Segundo alguns historiógrafos muito posteriores, Da. Beatriz teria dado à luz um bebê, Miguel, que morreu em 1385. Tal tese foi defendida em Portugal por Salvador Dias Arnaut. Mas nos cronistas da época, por exemplo, em Fernão Lopes e Pero Lopez de Ayala, nenhuma referência é feita ao nascimento desse quimérico Infante que teria falecido em muito tenra idade. Aliás, Lopez de Ayala, que conviveu com João I de Castela e Da. Beatriz, é peremptório: além de Henrique III e do “Infante Dom Fernando, filho do Rei Dom João... el Rei Dom João não houve outros filhos legítimos nem em outra maneira em nenhum tempo, salvo uma infanta de que morreu a Rainha Dona Leonor, sua mulher, depois de parida” (Crônica do Rei Dom Henrique III, ano terceiro, capítulo XXV).
     Tendo enviuvado em 1390, Da. Beatriz veio a residir em Toro. Aí seria sepultada no convento de São Francisco. A Beata Beatriz muito fez pela Ordem dos Mercedários e a honrou com sua vida de grandes virtudes.
     O seu falecimento ocorreu posteriormente a meados de 1412, altura em que temos a certeza que ainda era viva, pois conhece-se uma carta sua a Fernando I de Aragão em que lhe pede ajuda para o restauro daquele convento.
     A Ordem a festeja no dia 25 de setembro.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Beata Bernardina Maria Jablonska, Fundadora - 23 de setembro

    
     A Irmã Bernardina Maria Jablonska nasceu no dia 5 de agosto de 1878, na pequena aldeia de Pizuny em Narol, na Diocese de hoje de Zamoœæ Lubaczów. A beleza de sua paisagem nativa teve uma grande influência em sua mente sensível e ajudou a formar uma personalidade gentil e propensa à graça de Deus.

     Viva, inteligente, cheia de alegria, cresceu cercada pelo amor dos pais, permanecendo por um longo tempo única filha. Seus pais eram pequenos proprietários respeitados e estimados pelos seus vizinhos. Como a escola ficava distante de sua casa, os pais confiaram-na a professores particulares.
     Aos 15 anos, sua infância feliz foi subitamente interrompida pela morte de sua mãe. A menina mudou completamente, ela se sentiu sozinha e perdida, evitava a companhia de seus parentes, se apartava buscando a solidão.
     A mãe, profundamente religiosa, teve uma grande influência sobre a filha, transmitindo-lhe de um modo especial a veneração do Santíssimo Sacramento e a afeição filial à Mãe de Deus.
     Morta a mãe terrena, com todo o ardor do seu coração jovem agarrou-se à Mãe celeste. Uma capela pequena na borda da floresta, com uma imagem da Imaculada, onde a menina sempre levava buquês de flores silvestres, tornou-se o local favorito de suas meditações. Lá, ela confiou a Maria os problemas de sua jovem vida. Além disso, ela dedicava muito tempo à adoração do Santíssimo Sacramento na igreja de Lipsk, onde ela tinha sido batizada.
     Ela lia muito, especialmente a vida dos santos. Mais e mais ela se aproximava de Deus, cuja chamada ela sentia no fundo de sua alma, e facilmente O encontrado na beleza da natureza, na solidão, em seu coração. Ela desejava uma vida dedicada totalmente a Deus no silêncio do convento, então ela começou a praticar várias mortificações aprendidas nos livros.
     O momento decisivo foi seu encontro com o Irmão Alberto no festival Horyniec, em 13 de junho de 1896. Ela decidiu entrar na sua Congregação fundada há pouco, pensando que era uma ordem monástica. O pai se opôs a decisão da filha, portanto, Bernardina, uma vez adulta, secretamente deixou a casa e foi para Brusno, onde ficava a ermida das Irmãs Albertinas. Quando o Irmão Alberto perguntou sobre a razão para sua decisão, ela disse pertencer a Jesus Cristo e por amá-Lo tanto.
     Ela precisava dar uma demonstração desse amor, tão jovem foi enviada para o primeiro teste no hospital para os sem-teto em Cracóvia. Ela encontrou-se em um ambiente completamente desconhecido para ela. Até então os pobres eram para ela um velho vagabundo a quem ela oferecia uma refeição quente e uma boa palavra em troca de suas histórias de um mundo distante. Ela não sabia nada da miséria física e moral da cidade grande. Ela queria silêncio e oração e ela encontrou-se de repente em uma casa cheia de gemidos de doentes, gritos dos doentes mentais, insultos vulgares de pessoas marginalizadas que insistentemente pediam ajuda. Ela estava tão perturbada que imediatamente quis desistir de tudo.
     Frei Alberto olhava, explicava e, acima de tudo, ensinava pelo exemplo que essas pessoas não apenas precisavam serem servidas, mas acima de tudo serem amadas como Cristo sofredor e desprezado. Isto era muito difícil, mas o amor fascinante previa o cume da santidade. Só o Senhor sabe o quanto ela teve de sofrer, as suas batalhas internas, como muitos sacrifícios ela tivera que enfrentar. O momento crítico chegou no Sábado Santo, em 1899, quando ela pensou que já não podia sequer levantar-se por um momento.
     Então Frei Alberto escreveu para ela o ato heroico de confiança em Deus, que Bernardina assinou depois de rezar por um longo tempo.
     Dou a Jesus Cristo a minha alma, a minha mente e tudo o que possuo. Ofereço a minha pessoa com todas as dificuldades interiores, os tormentos e os sofrimentos espirituais, todas as humilhações e desprezos, a todas as dores do corpo e as doenças. Em troca não desejo nada nem agora nem depois de minha morte, porque faço tudo isto por amor de Jesus Cristo”.
     A partir desse momento, pararam as dúvidas e soube manter a sua palavra e o Senhor magnanimamente levou-a através do misticismo às alturas da contemplação.
     Frei Alberto, apreciando seus grandes dons, em 1902 a nomeou, com apenas 24 anos, a primeira superiora geral da Congregação das Irmãs Albertinas. Ela desempenhou esta função até sua morte, aclamada sempre nos capítulos gerais. Foi uma verdadeira mãe para as Irmãs e para os pobres.
     Depois de uma longa vida cheia de sofrimento morreu em 23 de setembro de 1940 e foi enterrada no cemitério de Rakowicki em Cracóvia.
     Em seu testamento, ela escreveu para as Irmãs: "Façam o bem a todos". Seu culto começou a se espalhar desde o início, aqueles que a conheceram recorriam a ela também depois de sua morte, com a profunda convicção de que ela poderia fazer muito com a sua intercessão junto a Nosso Senhor. As graças recebidas ampliaram o círculo de seus admiradores.
     Em 23 de maio de 1984, a Congregação das Irmãs Albertinas apresentou a Cúria Arquidiocesana de Cracóvia, nas mãos do Cardeal Franciszek Macharski, um pedido para iniciar o processo de informação sobre a Irmã Bernardina Jablonska.
     Ao mesmo tempo, seus restos mortais foram transferidos do cemitério para a Igreja de Ecce Homo de Cracóvia, que também abriga as relíquias do Irmão Alberto. Em 25 de abril de 1986, a documentação foi enviado a Roma e já no dia 3 de maio de 1986 o processo de canonização foi aberto formalmente na Congregação para as Causas dos Santos, em Roma. A segunda etapa do processo foi o anúncio do decreto sobre o heroísmo de vida e das virtudes da Serva de Deus Irmã Bernardina, em 17 de dezembro de 1996.
     No dia 6 de junho de 1997, João Paulo II a proclamou Beata em Zakopane durante sua viagem apostólica à Polônia.
A espiritualidade e a santidade de Irmã Bernardina
     Irmã Bernardina tinha herdado de seus pais duas qualidades de caráter muito importantes que desenvolveu ao longo de toda a vida e alcançou uma dimensão rara.
     De sua mãe herdou uma bondade delicada e do pai uma vontade forte e determinada. Quando Deus predestina alguém para uma missão extraordinária geralmente concede a capacidade inata que predispõe maravilhosamente para a tarefa. A vida dos santos é expressa em duas direções: a vida interior e a atividade exterior, as proporções são mantidas.
     Na base da vida interior da Irmã Bernardina, bem como de suas atividades, encontramos amor e sofrimento. Nosso Senhor a provava, mas ela manteve suas promessas. Em troca deste imenso sacrifício Ele lhe deu a capacidade de amar com amor misericordioso toda miséria humana na medida do Seu Coração Divino.
     Ela rezava intensamente, especialmente à noite, porque durante o dia estava envolvida nas atividades da Congregação e com os pobres. Ela passava muitas horas diante do SSmo. Sacramento da Eucaristia, que era o objeto de seu amor constante de quem obtinha a sua força.
     Ela estimulava as Irmãs a fazer visitas frequentes à capela dizendo que "o Prisioneiro Divino não pode ficar sozinho". Em seus diários ela escreveu assim: "Jesus - Hóstia Santíssima: Que felicidade para mim! Oh! Se eu pudesse ficar aos Seus pés séculos inteiros. Gostaria de ficar com o Senhor aqui, neste vale de lágrimas, até o dia do julgamento – permanecer aos pés do altar, amá-Lo, não deixá-Lo sozinho, e compensá-Lo e viver a sua vida. Lamento que Ele vai ficar aqui sozinho quando eu não mais estarei aqui".
     Nosso Senhor tinha dado a ela uma alma muito sensível às belezas da natureza, nas quais ela facilmente se encontrava Seus traços, por isso ela gostava tanto de ficar na ermida de Zakopane. Ali derramava no papel suas meditações revelando os segredos de sua alma. Ela escreveu, entre outras coisas: "Me impressionou muitíssimo a beleza de Deus que chamava a minha alma para mundos desconhecidos... Deus e Deus, somente Deus, para sempre! Amo a oração; as noites silenciosas sob o céu aberto são a minha felicidade. Amo a natureza que eleva a minha mente e o meu coração a Deus. Te adoro, Senhor, nas rajadas do vento, nas névoas brumosas da manhã e no crepúsculo que avança. Te adorarei até o fim de nossos dias, que também são teus. Oh, como é belo o nosso Senhor em um dia ensolarado, como é belo no azul do céu, como é maravilhoso no turbilhão de vento, como é poderoso no murmúrio do riacho, quão grande é Deus em suas obras!
A fundadora e a vocação da Congregação
     Foram tempos difíceis, a Congregação foi empobrecida por causa das guerras, havia muitas pessoas desabrigadas, muitos deficientes e órfãos. O Irmão Alberto havia falecido deixando a obra sem estabilidade jurídica, sem constituições escritas, sem a aprovação formal das autoridades da Igreja. Após sua morte, em 1916, a difícil tarefa passou para a Irmã Bernardina, que começou a trabalhar com empenho para alcançar estes objetivos.
     As constituições que ela escreveu de joelhos refletem fielmente o ideal de Frei Alberto. Elas foram aprovadas pelas autoridades da Igreja sem alterar a seção sobre a pobreza. Isso aconteceu em 1926, 10 anos após a morte do Irmão Alberto e após um longo período de oração e diversas atividades intensas de Irmã Bernardina, que fielmente guardava este legado precioso.
     A estabilidade jurídica do Instituto obtida pela Irmã Bernardina, as Constituições e seu desenvolvimento dinâmico, tudo isso levou a considerá-la como fundadora da Congregação das Irmãs Albertinas.

Soror Josefa Menéndez e as Mensagens do Coração de Jesus

    
     Nasceu em Madrid, em 4 de fevereiro de 1890. Ainda muito jovem entrou para a Sociedade do Sagrado Coração, na França, onde muito cedo foi objeto das revelações do Divino Mestre. Teve uma vida breve, faleceu em 1923, aos 33 anos de idade. E em 30 de novembro de 1948, foi iniciado seu processo de beatificação. 
      Dez anos antes de se instaurar o processo, o Cardeal Eugenio Pacelli, futuro Papa Pio XII, deu a conhecer ao mundo um livro escrito pela Irmã Josefa, intitulado “Apelo ao Amor”, que relatava as experiências místicas da religiosa durante sua breve vida.
     Nas revelações, encontramos em palavras pungentes a manifestação do amor infinito e aparentemente incompreensível de Deus que se entregou por nós. 
Belíssimas Colocações de Nosso Senhor Jesus Cristo…
     “Ah! Se as almas soubessem como as espero cheio de misericórdia! Sou o Amor dos amores! E não posso descansar senão perdoando!”
     “Enquanto tiver o homem um sopro de vida, poderá ainda recorrer à misericórdia e implorar perdão. Vosso Deus não consentirá que vossa alma seja presa do inferno”.
     “Estou sempre esperando com amor que as almas venham a Mim! Não desanimem! Venham! Atirem-se nos meus braços! Não tenham medo! Sou seu Pai!”. 
     Além das mensagens do Sagrado Coração, Josefa Menéndez teve também revelações sobre o Inferno, que Deus permitiu para nosso conhecimento e reflexão. É tão terrível a experiência desta alma privilegiada, mas ela sofreu para a salvação das almas, segundo vontade do Divino Redentor. 
Soror Josefa Menéndez e o juízo particular da alma religiosa
     A meditação desse dia, dia 22 de setembro de 1922, era sobre o Juízo Particular da alma religiosa.
     Minha alma não podia afastar esse pensamento, apesar da opressão que sentia. 
     De repente senti-me atada e acabrunhada com tal peso, que num instante percebi com mais claridade do que nunca o que é a santidade de Deus e como lhe aborrece o pecado.
     Vi como num relâmpago toda a minha vida diante de mim, desde a minha primeira confissão até o dia de hoje.
     Tudo estava presente: os meus pecados, as graças que recebi no dia de minha entrada em religião, minha tomada de hábito, meus votos, as leituras, os exercícios, os conselhos, as palavras, todos os socorros da vida religiosa, da vida de uma freira, os conselhos que me foram dados, as palavras que eu ouvi, todos os socorros para amar verdadeiramente a Igreja, a Nossa Senhora e a Deus, tudo esteve presente diante de mim em um só momento.
     Não há expressão que possa dizer a confusão terrível que a alma sente nessa hora: “agora é inútil, estou perdida para sempre”.
     Instantaneamente achei-me no Inferno, mas sem ter sido arrastada como das outras vezes. A alma lá se precipita por si mesma, como se desejasse desaparecer da vista de Deus para poder odiá-lo e amaldiçoá-lo.
     A minha alma deixou-se cair num abismo cujo fundo não se pode ver, pois é imenso. Imediatamente ouvi outras almas se regozijarem vendo-me nos meus tormentos.
     Ouvir aqueles horríveis gritos já é um martírio, mas creio que nada é comparável em dor à sede de maldição que se apodera da alma; e quanto mais maldiz, mais aumenta a sede.
     Nunca tinha experimentado aquilo; outrora a minha alma ficava cheia de dor diante daquelas horríveis blasfêmias, embora não pudesse produzir nenhum ato de amor. Mas hoje dava-se o contrário. Vi o Inferno como sempre: longos corredores, cavidades, fogo; ouvi as mesmas almas a gritar e a blasfemar.
     Pois como já escrevi, embora não se vejam as formas corporais, mantêm-se os tormentos como se os corpos estivessem presentes e as almas se reconhecessem. Gritavam: Olá, aqui estás como nós; éramos livres de fazer ou não fazer aqueles votos. Agora, agora... E maldiziam os seus próprios votos.
     Fui empurrada para aquele lixo inflamado e esmagada como que entre duas tábuas ardentes, e era como se pontas de ferro em brasa se me enfiassem no corpo.
     Senti como se quisesse, sem conseguir, arrancar minha língua, tormento que me reduzia a extremos de dor.
     Os olhos pareciam sair-me das órbitas. Creio que por causa do fogo que tanto os queimava.
     Não havia uma só unha que não sofresse horrivelmente. Não se pode nem mover o dedo para buscar alívio.
     Não se pode nem mover um dedo para buscar alívio, nem mudar de posição, o corpo fica como que achatado e dobrado pelo meio.
     Os ouvidos ficam acabrunhados com os tais gritos de confusão que não cessam um instante. Um cheiro nauseabundo e repugnante asfixia e invade tudo. É como se carne em putrefação estivesse queimando com piche e enxofre, mistura que não se pode comparar a coisa alguma no mundo dos vivos.
     Tudo senti como das outras vezes. E embora fossem horríveis esses tormentos, nada seriam se a alma não sofresse.  Mas sofre de maneira que não se pode descrever. Não posso explicar o que foi esse sofrimento, muito diferente dos que experimentei das outras vezes, pois se o tormento de uma alma no mundo é terrível, nada é em comparação com o de uma alma religiosa.
     Essa necessidade de odiar é uma sede que consome. Nem uma recordação que lhe possa dar o mais pequeno alívio.
     Um dos maiores tormentos, acrescenta Josefa, é a vergonha que a envolve. Parece que todas as almas danadas que a cercam lhe gritam sem cessar: "Que nós nos tenhamos perdido, nós que não tínhamos os mesmos socorros que tu, que há de extraordinário? Mas tu, que te faltava? Tu comias à mesa dos eleitos.
     Tudo o que estou escrevendo, conclui ela, não é senão uma sombra ao lado do que a alma sofre, pois não há palavras que possam exprimir tormento semelhante.
 
     Para entenderemos os tormentos do Inferno, basta esta afirmação de Santo Afonso de Ligório: “O fogo da terra – e ele entende não o fogo de uma vela, que é em si mesmo o elemento fogo como tal, mesmo no que ele tem de mais ígneo, de mais combustível – é como um fogo de pintura em comparação com o fogo do Inferno".  
Reflexão: Quando vemos as horríveis blasfêmias, os pecados que são cometidos impunimente nos dias de hoje – sacrilégios, aborto, eutanásia, etc. – quem de nós ousaria aproximar-se de Nossa Senhora, dizendo: "Minha Mãe, eu aprovei, ou fiquei indiferente a que pessoas próximas fizesse isto". A reação de Nossa Senhora, a repulsa dEla seria tal, que nós não ousaria olhá-la. Ora, por mais que Ela seja santa, Deus é infinito, e se a repulsa dEla é incomensurável, a de Deus é infinita.
     O mundo hoje é tão indiferente diante das ações a que nos referimos no parágrafo anterior, para não dizer complacente... Mas, segundo a Doutrina Católica, Deus odeia essas ações, Ele não é indiferente a elas. O olhar do homem indiferente pousa no pecado e não censura, mas o olhar de Deus pousa naquilo e execra e destina às chamas eternas do Inferno aquele que pecou, caso ele não se arrependa.
     Na economia comum da graça, salvo os casos excepcionais, à medida que os homens vão pecando, insistindo no caminho do pecado, a possibilidade da misericórdia vai minguando. E quando há uma torrente de pecados cometidos numa cidade, num país, no mundo, o normal é que haja uma torrente de almas que caem no Inferno. Não queremos dizer com isso que cada pecador vai para o Inferno, mas queremos dizer que o número de pecadores que vão para o Inferno aumenta enormemente por causa do número de pecados.
     Lembremo-nos que Nossa Senhora em Fátima insistia sempre com as três crianças – Jacinta, Francisco e Lúcia – para que rezassem pelos pecadores. E a pequena Jacinta fazia muitos sacrifícios, extraordinários para sua idade, pelos pecadores. Mas é preciso que eles se convertam... Senão as orações destas almas santas serão inúteis!
     É bom lembra que, assim como Deus atormenta no Inferno os precitos, Ele acaricia no Céu e inebria de carícias os seus eleitos; Ele fala aos seus eleitos e lhes diz coisas, e mostra de Si coisas que os deixariam ébrios de alegria, se no Céu pudesse haver ebriedade. É o afago contínuo, é a palavra de bem-aventurança, de afeto, a carícia incessante, sempre igual e sempre diversa, e que nunca termina. Ele disse de Si mesmo: "Eu serei eu mesmo a vossa recompensa demasiadamente grande".

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Santa Susana de Eleuterópolis, Monja e mártir - 20 de setembro


     A vida e o martírio de Santa Susana, que é mencionada em uma passio em língua grega, relatada na “Bibliotheca Hagiografica Graeca”, são colocados no século IV.
     Nativa da Palestina, Susana era a filha de um sacerdote pagão chamado Artêmis, a mãe Marta era judia; órfã de ambos, ela foi educada e convertida por um certo Padre Silvano e depois batizada. Mais tarde, ela doou todos os seus bens aos pobres e sob disfarce masculino, entrou em um mosteiro para levar uma vida ascética com o nome fictício de João.
     Em 'Vidas' de santas, especialmente naquele período histórico em que ainda não havia um monaquismo feminino, podemos encontrar santas que com este estratagema muitas vezes viveram até sua morte em mosteiros sem que ninguém percebesse, porque a vida em comum dos primeiros monges era reduzida, todos tinham uma cela ou uma ermida, e somente se reuniam para as cerimônias comuns.
     Este método foi usado por muitas santas, pela austeridade de vida que tinham escolhido. Damos os nomes de algumas, além de Santa Susana: Santa Marina/Marino do Líbano, Santa Anastásia, Santa Atanais, mulher de Andrônico, Santa Apolinária, Santa Eufrásia, Santa Eugênia, Santa Teodora de Alexandria, etc.
     Susana (João) continuou assim por um longo tempo levando uma vida de perfeita asceta, até que foi acusada por uma mulher de ter tido relações sexuais com ela quando, para provar a mentira, ela teve que revelar seu sexo verdadeiro.
     Susana então deixou o mosteiro, foi para Eleuterópolis (Grécia), onde se tornou diaconisa. A história relata que sendo então época de perseguição de cristãos (sec. IV?), Susana foi presa, devido ao seu zelo em proclamar Jesus Cristo, e levada ao governador Alexandre; sofreu vários tormentos, sendo depois aprisionada, onde morreu.
     Nos Sinassarios bizantinos ela é celebrada no dia 19 de setembro; Cesar Baronio, que compilou o primeiro Martirológio Romano no século XVI, a colocou no dia 20 de setembro.
 
Etimologia: Susana = do hebraico, lírio, a mulher pura
Nota: A gravura não representa Santa Susana, mas pode ter sido assim o seu martírio.