segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Beata Lúcia Brocadelli, religiosa – 15 de novembro


Martirológio Romano: Em Ferrara, de Emilia, a Beata Lúcia Brocadelli, religiosa, que tanto no matrimônio como no mosteiro da Ordem Terceira Dominicana suportou com paciência muitas dores e humilhações.

     Nicolás Brocadelli, tesoureiro em Narni de Úmbria na segunda metade do século XV, se casou com Gentilina Cassio. Deus lhes concedeu onze filhos, dos quais a maior foi Lúcia, que nasceu em Narni, em 13 de novembro de 1476.
     Desde muito pequena Lúcia decidiu consagrar-se a Deus. Aos quatro anos, sua maior alegria era se entreter com uma graciosa imagem do Menino Jesus que ela chamava de “Seu Pequeno Cristo”. Com doze anos fez voto de perpétua virgindade.
     Mas seu pai faleceu e os tutores da jovem, que viam as coisas de outro modo, trataram de casá-la a força aos 14 anos. Lúcia lançou ao solo o anel de compromisso, esbofeteou o pretendente e saiu correndo da sala. No ano seguinte, foi apresentado outro pretendente, um tal Conde Pedro de Alessio. Lúcia a princípio resistiu, mas uma aparição da Ssma. Virgem e os conselhos de seu confessor a convenceram de que devia ceder.
     A Sagrada Congregação de Ritos determinou em 1729 que no dia da festa da beata se rezasse a missa e o ofício das virgens, o que prova que aceitou a tradição de que Pedro e Lúcia viveram como irmão e irmã. Após três anos de casamento, Pedro deixou sua esposa em liberdade para fazer o que quisesse.
     A beata voltou para a casa de sua mãe, tomou o hábito da ordem terceira de São Domingos e ingressou em uma comunidade de terceiras regulares em Roma. Em 1494 entrou na Ordem Terceira Dominicana de Narni. Foi a Roma e depois a Viterbo.
     Deus lhe concedeu ali, em 25 de fevereiro de 1496, a graça dos estigmas e uma participação sensível na Paixão de Cristo. Durante os três anos que esteve em Viterbo, suas feridas sangravam todas as quartas e sextas-feiras, e, portanto, não podia ocultar este fato. O inquisidor do lugar, o mestre do sacro palácio, um bispo franciscano e o médico do papa Alexandre IV, examinaram os estigmas e ficaram convencidos de que se tratava de um fenômeno sobrenatural. O Conde Pedro foi vê-los e ficou tão convencido que, segundo é relatado, ingressou na Ordem de São Francisco.
     A fama da Beata Lúcia chegou aos ouvidos do Duque de Ferrara, Hércules I, que recordava com veneração Santa Catariana de Siena e era muito amigo das Beatas Estefânia Quinzani, Colomba de Rieti e Osana de Mântua. Com a permissão do papa e o consentimento de Lúcia, o duque construiu um convento para esta em Ferrara.
     Como o povo se opunha a que a beata saísse de Viterbo, ela teve que ser tirada ocultamente em um cesto de roupa no lombo de uma mula. Lúcia, que tinha apenas 23 anos, não tinha aptidão para dirigir uma comunidade. De outro lado, Hercules d’Este, que era um homem que tinha planos amplos e havia gastado somas enormes na construção e decoração do convento, queria que nada menos de cem religiosas ocupassem o convento. Pediu a Lucrécia Borgia (que acabava de converter-se em sua nora) que o ajudasse a reunir as religiosas. Como vinham monjas de diferentes conventos e nem todas eram muito virtuosas, cada vez se tornou mais difícil para Lúcia exercer a função de governo, até que finalmente foi deposta do cargo.
     A Beata foi sucedida por Maria de Parma, que não era terceira, mas dominicana de uma ordem segunda a que toda a comunidade queria se filiar. Em 1505 o protetor de Lúcia faleceu e a beata deixou de ser a “mística da moda” protegida pelo duque de Ferrara e caiu numa obscuridade total que durou 39 anos.
     Além disso, a nova superiora a tratou com uma severidade que se assemelhava à perseguição: não a deixava ir ao parlatório, proibiu-a de falar com alguém a não ser o confessor que lhe havia designado e mandou que uma das religiosas a vigiasse constantemente. Foi nesses anos que a Beata Lúcia, desprezada pelas religiosas do convento que com tanto trabalho havia vindo fundar em Viterbo, se santificou verdadeiramente. Jamais se ouviu uma palavra sua de impaciência, nem sequer quando estava doente e abandonada.
     A beata havia caído em um tal esquecimento, que quando morreu, no dia 15 de novembro de 1544, o povo de Ferrara ficou atônito ao tomar conhecimento de que ela havia vivido até então, pois acreditavam que estivesse morta há muito tempo...
     O culto a Beata logo se tornou popular. Suas relíquias foram transladadas a um local mais público e lhe foram atribuídos muitos milagres. O culto foi confirmado em 1º de março de 1710 por Clemente XI.
     Existem muitos documentos sobre os primeiros anos da vida mística de Lúcia. Edmundo Gardner, em sua obra Dukes and Poets in Ferrara (1904), refere graficamente os principais incidentes relacionados com a beata (pp. 366-381; 401-404 y 465-467). Este relato se baseia na obra de L. A. Gandini, Sulla venuta in Ferrara della beata Lucia da Narni (1901), e a Vita della beata Lucia di Narni de Domenico Ponsi (1711).
     Em 1740 um curioso suplemento desta obra foi publicado, sob o título Aggiunta al libro della Vita della B. Lucia. Há nele uma biografia dos primeiros escritos sobre Lúcia, mas o livro se refere à pretensão dos franciscanos de Mayorca de suprimir uma imagem em que se representava a beata com os estigmas. Os franciscanos alegavam que Sixto IV (que também era franciscano) havia proibido sob pena de excomunhão que se representasse os santos com os estigmas, exceto São Francisco.
     A causa foi levada a Roma em 1740, prevalecendo a causa dos dominicanos. O duque Hercules de Ferrara havia investigado pessoalmente muito a fundo a questão dos estigmas de Lúcia; a carta que escreveu sobre isto pode ser vista no folheto “Spiritualium personarum facta admiratione digna” (1501). Se trata de um documento muito interessante. Ha outra carta do duque em Narratione della nascita, etc., della b. Lucia di Narni (1616) de G. Marcianese.

Fonte: «Vidas de los santos de A. Butler», Herbert Thurston, SI

http://www.eltestigofiel.orgindex.php?idu=sn_4180

sábado, 12 de novembro de 2016

Santa Maxelenda, Virgem e mártir – 13 de novembro

Martirológio Romano: No território de Cambrai na França, Santa Maxelenda, virgem e mártir, que, tendo escolhido Cristo como esposo, recusou seguir o homem a quem fora prometida por seus pais e, assim, morreu transpassada pela espada.

     Santa Maxelenda, segundo um relato do século X, nasceu em Caudry, próximo à Cambrai; seus pais, Huinlino e Ameltrudes eram nobres.  Santo Alberto era então Bispo de Cambrai. Seu pai era conhecido tanto por suas qualidades pessoais como por sua grande riqueza.
     Maxelenda desde pequena demonstrava grande piedade. Ela costumava isolar-se para rezar. Atingindo a idade de 20 anos, não faltaram pretendentes, mas os pais haviam escolhido para ela Harduin d’Armeval, futuro senhor de Solesmes, que era pagão.
     Quando a jovem levou ao conhecimento dos pais que seus projetos eram outros, estes tentaram persuadi-la a servir a Deus como esposa e mãe, como não poucas santas da história haviam feito. Maxelenda pediu um tempo para pensar, mas um anjo lhe aparece para confirmar a sua escolha e então ela informou ao pai que desejava tornar-se monja.
     Entretanto, os pais também se mostraram decididos e iniciaram os preparativos para o casamento, mesmo contra a sua vontade. Para evitar a cerimônia, Maxelenda foi obrigada a se refugiar com sua ama perto de Cateau-Cambresis, mas Harduin e seus amigos descobriram seu esconderijo e tentaram raptá-la. A jovem felizmente conseguir fugir e já estava escapando quando o esposo prometido a golpeou furiosamente com a espada, matando-a. Imediatamente Harduin ficou cego.
     Maxelenda foi sepultada na igreja de Saint-Sulpice de Pommereul, mas em virtude dos numerosos milagres verificados junto a sua sepultura, em 673 o Bispo de Cambrai e de Arras, Vindiciano, fez transladar suas relíquias para a igreja de Saint-Vaast de Caudry.
     Harduin, que havia pedido para participar da procissão, caiu de joelhos quando da passagem de suas relíquias. Arrependendo-se de seu crime e pedindo perdão a Deus, recuperou no mesmo instante a visão.
     Ainda hoje Santa Maxelenda é festejada na Diocese de Cambrai no dia 13 de novembro.

Basílica de Santa Maxelenda
     A construção desta imponente basílica, nos anos 1830, revela a importância da veneração dedicada à Santa em Caudry.
     O edifício, em estilo gótico, foi edificado segundo planos do arquiteto Luís Cordonnier, entre 1887 e 1890. Local de peregrinação dos cegos e daqueles que têm pouca visão, ela foi elevada a basílica menor por um breve pontifício de 3 de setembro de 1991. No interior, capelas dedicadas à Nossa Senhora do Rosário e à Santa Maxelenda, com o relicário da Santa.

Oração:
     Santa Maxelenda, virgem e mártir, tu que curaste teu assassino que ficara cego, guardai nosso precioso dom da visão, curai aqueles que dela estão privados, ou que estão em risco de perdê-la. Obtenha sobretudo a luz do espírito e do coração para que caminhemos sempre nas vias do Evangelho. Tu que desejavas te consagrar a Deus, instrui aqueles que buscam sua vocação nesta terra. Que com a ajuda de tua oração eles encontrem a paz e realizem sua vocação. Amém.

Etimololgia: Maxelenda, derivado do latim Maximus: “o maior”, “o máximo”, e talvez acrescido da abreviação “linda” de nomes como Ermelinda, Deolinda.


Fontes: www.santiebeati;it; Book of Saints, by the Monks of Ramsgate; Wikipedia

Basílica de Sta. Maxelenda, Caudry, França

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Beata Alice (Maria Jadwiga) Kotowska Virgem e mártir - 11 de novembro

           
Martirológio Romano: Na cidadezinha de Laski Piasnica, próximo de Wejherowo, na Polônia, Beata Alice Kotowska, virgem da Congregação das Irmãs da Ressurreição do Senhor e mártir, que durante a guerra morreu fuzilada por ter defendido a sua fé em Cristo.


     Maria Jadwiga Kotowska nasceu em Varsóvia, Polônia, no dia 20 de novembro de 1899 no seio de uma família católica de sete filhos.
     Fez inicialmente estudos de Medicina. Como estudante, ela participou da Cruz Vermelha, trabalhando entre os soldados feridos durante a 1ª Guerra Mundial, sendo premiada com a Cruz da Polônia Restituta.
     A vocação religiosa levou-a a se decidir por ingressar na Congregação das Irmãs da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Após o noviciado, professou no ano de 1924, adotando o nome de Irmã Alice.
     Após seu ingresso na vida religiosa, Irmã Alice mudou a direção de seus estudos. Seus superiores orientaram-na a se tornar professora. Foi então enviada como diretora do Instituto de Wejherovo (1934), tornando-se superiora da comunidade de Wejherowo.
     No começo da 2ª Guerra Mundial, durante a ocupação alemã, foi aprisionada em 24 de outubro de 1939. Junto com outros presos foi levada ao bosque de Laski Pianiska e ali fuzilada no dia 11 de novembro de 1939.
     Foi beatificada pelo papa João Paulo II em Varsóvia, junto com 107 mártires poloneses, em 13 de junho de 1999.
     Entre aqueles mártires estão 3 bispos, 52 padres diocesanos, 26 padres religiosos, 3 seminaristas, 7 religiosos, 8 religiosas e 9 leigos. Eles deram um heroico testemunho de fidelidade a Deus durante o tempo de perseguição contra a Fé levada a cabo pelos nazistas ateus, unindo o sacrifício de suas vidas ao sacrifício de nosso Salvador.

Reflexão: Irmã Alice permaneceu em poder dos nazistas por 18 dias. Como as mártires da Igreja primitiva, ela deve ter sofrido pressões psicológicas e físicas para renunciar a sua Fé. Os relatos sucintos de seu martírio não nos falam desses últimos dias de sua vida, mas certamente foram terríveis, pois a crueldade dos opositores da Fé Católica é implacável. Peçamos a Beata Alice Kotowska a graça de permanecermos fieis aos dogmas e aos princípios ensinados pela Santa Igreja de sempre. Que não pactuemos com as novas teorias que são insufladas no seio sacrossanto da Igreja Católica! Elas não têm o “bom odor” de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas o “hálito da morte”, e da morte eterna!...


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Consagração da Basílica do Latrão – 9 de novembro

     

     Comemora-se hoje a consagração da Basílica do Latrão, que foi a primeira igreja construída em Roma e consagrada no dia 9 de novembro do ano 324. Ela foi dedicada ao Santíssimo Redentor, ao qual mais tarde foram associados como patronos João Batista e João Evangelista. Por isso chama-se também de Basílica de São João do Latrão.
     A data anual da consagração duma catedral é comemorada pela liturgia de forma solene por ser considerada como o batismo duma nova comunidade eclesial sob a presidência do bispo. Aliás, também os judeus ao tempo de Cristo costumavam celebrar a Dedicação do Templo de Jerusalém.
     A atenção da liturgia nesta memória dirige-se não tanto ao edifício de pedra, no qual Deus confere suas graças através de Cristo, mas à comunidade dos fiéis nela reunida. Por isso reza: “que santificando Deus sem cessar a Igreja, possa ela ser Mãe exultante de numerosos filhos”.
     Esta festa é um convite à unidade com a Cátedra de Pedro, por ser a Basílica do Latrão a “Mãe e Cabeça de todas as igrejas”.
     A Igreja tem como alicerce, como fundamento Jesus Cristo. São Paulo é enfático: “Ninguém pode colocar outro alicerce diferente do que está aí, já colocado: Jesus Cristo” (1 Cor 3,11). Esta Igreja fundada por Jesus Cristo tem como colunas os 12 Apóstolos e os seus sucessores, os bispos.
     Os primeiros cristãos, por causa da perseguição, se reuniam para rezar e para celebrar a fração do pão (Eucaristia) nas casas. Quando a perseguição cessou, surgiram oficialmente os primeiros templos.
     A basílica lateranense foi fundada pelo Papa Melquiades (313-314) nas propriedades doadas para este fim pelo imperador Constantino, ao lado do palácio lateranense, até então residência imperial e depois residência pontifícia. Surgia assim a Igreja do SS. Salvador, a igreja-mãe de todas as igrejas de Roma e do mundo inteiro, destruída e reconstruída muitas vezes. Foram celebradas nela cinco grandes Concílios nos anos de 1123 a 1512. Como lá morava o papa ela é chamada “Mãe e cabeça de todas as igrejas da Urbe (cidade de Roma) e do Orbe (mundo).
     A basílica do Latrão se tornou a primeira catedral do mundo porque lá estava a “cátedra = cadeira” dos sucessores de São Pedro. Igreja do Papa ela “preside a assembleia universal da caridade” (Santo Inácio de Antioquia, 35-107). Ao contrário do que muitos pensam, esta basílica, e não a basílica de São Pedro no Vaticano, é o templo mais antigo.
 
Interior da Basílica de Latrão


domingo, 6 de novembro de 2016

Santa Beatriz de Olive, Monja cisterciense - 6 de novembro

     
Hotel de Ville de Morlanwelz, Bélgica
O "Menológio cisterciense" da Antuérpia, de 1630, menciona esta santa legendária no dia 6 de novembro.
     Beatriz, monja cisterciense da Abadia de Olive (Morlanwelz, Bélgica), inicialmente muito devota da Virgem, tendo começado a questionar sua vocação religiosa, acabou deixando o mosteiro.
      Depois de uma longa peregrinação de quinze anos, arrependida, voltou para a Abadia de Olive após ter tomado conhecimento, durante uma visão milagrosa, que Nossa Senhora mesma a tinha substituído durante sua longa ausência, sustentando em seu lugar toda a Comunidade. Beatriz passou o resto de sua vida naquele mosteiro cisterciense, e ficou conhecida por sua piedade e devoção mariana.
      Dela não se sabe nada além disto, nem o período em que viveu. A Abadia Cisterciense de Olive foi fundada em 1233 e alguns documentos históricos como o “Menologium de Henriquez”, atestam a existência de um culto da Santa Beatriz de Olive no século XVII. Tomando estas duas datas como referência, podemos presumir que ela tenha vivido entre os séculos XIII e XIV.
     Ainda hoje suas relíquias podem ser veneradas na igreja paroquial de Morlanwelz.
*
     A Abadia de Nossa Senhora de Olive existia desde o século XIII. Era reservada às mulheres e pertencia a Ordem dos Cistercienses. As monjas desta Ordem deviam garantir sua subsistência por meio do trabalho de suas mãos, a cultura das terras e o cuidado dos rebanhos.
     No transcorrer dos séculos a abadia passou por muitas provações. No século XVIII era um estabelecimento tão pobre, que a imperatriz Maria Teresa fixou um máximo de 16 monjas e 4 conversas para a comunidade.
     Em 1794, quando da segunda conquista dos Países Baixos austríacos, as tropas revolucionarias francesas incendiaram o convento. O que o fogo não havia consumido foi saqueado. Em 1804, por exemplo, a comuna de Morlanwelz comprou, de um certo Joaquim Dusart, um sino da igreja.
     As religiosas tentaram restaurar seu mosteiro, mas em 1º de outubro de 1795 a convenção votou a anexação da Bélgica à França e aplicou os decretos da constituinte que, em 1790, havia nacionalizado os bens eclesiásticos.

     Em 26 de julho de 1798, a abadia de Olive e algumas dependências situadas nas comunas de Morlanwelz foram colocadas à venda, sendo adquiridos por dois compradores. Em 1835, os seus bens foram divididos. Assim os traços materiais da existência da abadia foram desaparecendo, ficando preservados apenas os documentos que relatam sua história.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Santa Bertila, Abadessa de Chelles - 5 de novembro

     
     Santa Bertila, nascida na região de Soissons, uma das dirigidas de Santo Ouen, bispo de Ruão, foi a primeira abadessa de Chelles.
     Bertila, nascida em 630, de pais nobres e piedosos, não sentia satisfação com a vida fútil só de folguedos e festas. Com o passar dos anos, aumentou essa insatisfação e a certeza de que não encontraria a felicidade nos prazeres que o mundo oferecia, nas aldeias e nos palácios. Dizia sempre que sua vida estava destinada à caridade e à humildade a serviço de Deus. E assim aconteceu.
     No início da adolescência, a seu pedido e com aprovação dos pais, ingressou no mosteiro beneditino de Jouarre, próximo de Paris. Assim, bem jovem, já vivia sob a regra de São Columbano, no mosteiro de Jouarre, perto de Meaux, que fora fundado entre 658 e 660. Sob a abadessa Teodequiles, Bertila foi uma das melhores monjas da fundação.
    Quando a Rainha Batilda, esposa do rei Clóvis II, decidiu organizar um mosteiro em Chelles, recorreu a Jouarre, e Bertila foi encarregada de presidir os trabalhos da nova casa. Ali, mais tarde, a própria soberana passou o resto da vida, submissa à doce abadessa. Santa Batilda faleceu em 680, e Bertila trinta e três anos depois, isto é, em 713.
     Um dia, quando Santa Bertila ainda vivia no mosteiro de Jouarre, conta-se que uma irmã, depois de lhe falar com ira, faleceu. A Santa tremeu. O que aconteceria àquela alma que assim se fora toda em cólera contra ela? Achegou-se, depois de muita mortificação, ao lado do cadáver, e pousou, delicadamente sobre o peito da morta, uma das mãos, e rogou a Nosso Senhor que não a deixasse ir antes dum perdão formal.
     No mesmo instante, a irmã abriu os olhos e fitou a companheira. Perguntou:
     - Por que me fizeste voltar do caminho tão brilhante que se me estendia pela frente? Que fizeste, irmã?
     Bertila, humildemente, rogou-lhe que não se fosse sem que a perdoasse; que se esquecesse do acontecido entre ambas.
     - Que Deus te dê indulgência, disse então a irmã. Não guardei qualquer rancor de ti. Pelo contrário, amo-te muito, e quero convidar-te que peças a Deus por mim. Agora, deixa-me partir em paz, não me retardes mais, porque o brilhante caminho está perto. Sem tua permissão, não o ganharei.
     Santa Bertila respondeu:
     - Vai, então. Vai na paz de Nosso Senhor e roga por mim, doce e amável irmã.
     A outra fechou os olhos e deixou de viver.
     O fervor que Bertila transmitia na piedade e caridade contagiou todas as religiosas. A fama de celeiro de santidades do mosteiro ganhou as cortes de toda Europa. E os pedidos para ingressar no Mosteiro de Chelles começaram a chegar de todos os lugares. Eram dezenas e mais dezenas de mulheres que queriam seguir o exemplo de humildade da abadessa Bertila, abandonando a nobreza para dedicar a vida à penitência, oração e caridade, aos pobres e doentes abandonados.
     Assim, no Mosteiro de Chelles ingressaram várias princesas e rainhas. Até mesmo a sua fundadora, Rainha Batilda, que, influenciada pela jovem abadessa, trocou a coroa pelo hábito beneditino.
     A incansável santa Bertila, como era chamada por todos ainda em vida, dirigiu a instituição por quarenta e seis anos, até morrer em 5 de novembro de 705. O seu corpo foi sepultado no cemitério do mosteiro, local que logo se tornou rota de peregrinação dos fiéis, desejosos de agradecer a intercessão da querida santa.
     Mais tarde, o culto e a festa de Santa Bertila foram confirmados pela Igreja; ela é festejada no dia de sua morte. As suas relíquias, hoje, estão guardadas na bela Catedral de Chelles.



Fontes: Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XIX, p. 205-206;

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Comemoração de Todos os Santos

   

Plinio Maria Solimeo

Origem da comemoração em honra de todos os santos
     Na perseguição de Diocleciano o número de mártires foi tão grande, que não se podia instituir para cada um deles uma festa particular. Mas, como a Igreja queria que todo mártir fosse venerado, apontou um dia comum para todos. O primeiro traço disso encontramos no ano 359, em Edessa, que celebrava no dia 13 de maio a “memória dos mártires de todo o mundo”. Vemos também uma menção dessa comemoração num sermão de Santo Efrém (373) e numa homilia de São João Crisóstomo (407). Em 411, o calendário siríaco já assinalava também uma “Comemoração dos Confessores”, no sexto dia da Semana da Páscoa.
     No Ocidente, embora os Sacramentários dos séculos V e VI tragam muitas missas em honra dos santos mártires, não havia dia fixo para sua celebração. Foi no dia 13 de maio de 610, no século seguinte, que o Papa Bonifácio IV, ao fazer exorcizar, purificar e benzer o antigo Panteão romano — que fora dedicado “a todos os deuses do Império” — dedicou-o a Nossa Senhora e a todos os mártires, pelo que passou a chamar-se Sancta Maria ad Martyres; e depois, Nossa Senhora da Rotonda, por causa de sua forma circular. Para lá mandou levar muitos ossos de mártires que havia nos vários cemitérios e catacumbas de Roma. A partir de então, todos os anos, no dia dessa dedicação, havia uma celebração em honra de todos os mártires que ali se veneravam.
     Por volta do ano 731, o Papa Gregório III consagrou, na igreja de São Pedro, uma capela em honra de todos os santos, e desde então celebrava-se na Cidade Eterna uma comemoração em seu louvor. O Papa Gregório IV, em 837, estendeu essa festa à França; e a partir de então, a toda a Igreja. Em 1480, o Papa Sixto IV concedeu uma oitava à festa, o que a tornou ainda mais célebre em todo o mundo, chegando a ser uma das principais da Cristandade.
A Igreja Militante homenageando a Triunfante
     Por que uma festa para todos os santos? A Santa Igreja quis, por essa festa, honrar também os santos que não têm uma comemoração particular durante o ano, seja porque são pouco conhecidos ou porque se faz menção de seus nomes apenas no dia de seu triunfo para o Céu. Seu número, incontável, impede que tenham um culto distinto e separado. “Certamente não era justo deixar sem honra esses admiráveis heróis do cristianismo que serviram fielmente a Deus durante sua vida mortal e empregam continuamente suas preces no Céu para nos obter perdão de nossos pecados, e graças poderosas para chegarmos à felicidade de que já gozam”. (1)
     Era, pois, necessária uma festa que fosse uma homenagem de toda a Igreja Militante a toda a Igreja Triunfante. Pelo que já dizia São Beda, o Venerável, no século VIII: “Hoje, diletíssimos, celebramos na alegria e em uma só festa a solenidade de Todos os Santos, cuja sociedade faz que o Céu estremeça de gozo, cujo patrocínio alegra a Terra, cujos triunfos são a coroa da Igreja”. (2)
     Outra razão, proveniente do Ordo Romano, é a de dar oportunidade a todos os fiéis, eclesiásticos ou leigos, de reparar por um novo fervor as negligências com que celebraram as festas particulares desses santos. Poder-se-ia ainda acrescentar que, louvando todos os santos numa só comemoração, visamos atrair para nós a proteção e a intercessão de todos eles e conseguir assim favores especiais que, pelos nossos muitos pecados, não alcançamos.
     Pode-se acrescentar também que a Igreja Militante quer, por uma festa reunindo todos os Santos, interessá-los em sua defesa e proteção, e como que incentivá-los a juntar sua intercessão para obter-lhe favores extraordinários. Era o que dizia na Coleta da missa desse dia: “Onipotente e sempre eterno Deus, que nos concedeste venerar os méritos de todos teus Santos em uma mesma festividade: nós te suplicamos que, multiplicados os intercessores, nos concedas a ansiada abundância de tua propiciação”. (3)
     Por fim, na instituição desta festa dedicada a todos os Santos num só dia, a Igreja propôs aos fiéis que desejassem a felicidade inestimável e a glória a que foram elevados, as riquezas e as delícias de que gozam na mansão dos bem-aventurados, como descreve admiravelmente São João no Apocalipse: “Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu de junto de Deus, adornada como uma esposa ataviada para o seu esposo. Ouvi uma grande voz, vinda do trono, que dizia: Eis o tabernáculo de Deus com os homens; habitará com eles, eles serão o seu povo e o mesmo Deus-com-eles será o seu Deus; enxugar-lhes-á todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem clamor, nem mais dor, porque tudo isto passou” (Ap 21, 2-4).
     E “a cidade [Jerusalém celeste] não tem necessidade de sol, nem de lua, que a iluminem, porque a claridade de Deus a ilumina, e a sua lâmpada é o Cordeiro. As nações caminharão à sua luz e os reis da Terra lhe trarão sua glória e a sua honra. As suas portas não se fecharão no fim de cada dia, porque ali não haverá noite. Levar-lhe-ão a glória e a honra das nações. Não entrará nela coisa alguma contaminada, nem quem cometa abominação ou mentira, mas somente aqueles que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” (Ap 21, 23-27).
Os santos e as bem-aventuranças
     Os santos de Deus são aqueles heróis de Jesus Cristo que, alcançando uma vitória sobre o demônio, o mundo e a carne, e praticando as virtudes em grau heróico, alcançaram a eterna bem-aventurança. Por isso o Evangelho da missa própria é o das bem-aventuranças, como para mostrar-nos qual é o caminho que devemos seguir para fazer-lhes companhia na eterna glória:
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino do Céu;
Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a Terra;
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados;
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados;
Bem-aventurados os que usam de misericórdia, porque alcançarão misericórdia;
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus;
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino do Céu.
     O que fazer para participar dessa felicíssima glória na Jerusalém Celeste? Temos os Mandamentos, a doutrina da Igreja e os exemplos dos santos. Uns, como Santa Maria Goretti, alcançaram a coroa eterna pelo seu amor e defesa da virgindade; e outros, como Santa Maria Madalena, pelo seu profundo arrependimento e penitência. Um grande número, como Santa Inês, alcançou a palma do martírio pelo seu abrasado amor de Deus; outros, como Santa Catarina de Siena, confessando o seu santo Nome diante dos homens. Nenhuma pessoa humana chegou à eterna felicidade senão pela via da Cruz, e praticando as virtudes do Divino Mestre, da humildade, da paciência, da combatividade, mansidão, castidade, abrasado amor de Deus e do próximo e ódio ao mal e ao pecado.
     Todos eles brilham no Céu, de uma luz participada da luz do próprio Deus. Mas no Céu os santos de Deus, apesar da uniformidade do amor que os abrasa, resplandecem com diferentes luzes, de acordo com a virtude com que mais brilharam na Terra.
     Assim as viu o Apóstolo Virgem também em seu profético livro do Apocalipse: As almas virgens “cantavam como que um cântico novo ... e ninguém podia cantar esse cântico senão [...] aqueles que não foram contaminados com mulheres, porque são virgens. Estes seguem o Cordeiro para onde quer que ele vá” (Ap. 14, 3-4).
     Por outro lado, os mártires “que estão revestidos de vestes brancas [...] são aqueles que vieram da grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro” (Ap. 7, 13-14).
     Já “aqueles que tiverem sido doutos resplandecerão como a luz do firmamento; e os que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça luzirão como as estrelas por toda a eternidade”, diz o profeta (Dan 12, 3), o que se aplica aos antigos Padres da Igreja e aos Doutores, e também a todos os que ensinam aos outros a verdadeira doutrina católica.
Concluindo: “O cântico novo das virgens, a branca estola dos mártires e o esplendor de firmamento dos doutores são, na límpida sinalização dos textos sagrados, os dados característicos que dignificam, de maneira singular, as três formas de eleitos e os individuam vivamente aos olhos admirados dos outros”. (4)

E-mail do autor: pmsolimeo@catolicismo.com.br
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Notas:
1. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo XIII, p. 94.
2. Apud Frei Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo IV, p. 247.
3. Dom Próspero Guéranger, El Año Liturgico, Editorial Aldecoa, Burgos, 1956, tomo V, p. 711.
4. Pe. Guglielmo Luigi Rossi, Paradiso, apud Gustavo Antônio Solimeo e Luiz Sérgio Solimeo, O Céu, Esperança de nossas Almas, Artpress, SP, 2004, p. 116.
Outras obras consultadas:
- Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo IV, La fiesta de Todos los Santos.
- Pe. José Leite, S.J., Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1987, tomo III, Todos os Santos.
- Pe. Pedro de Ribadaneira, La Fiesta de Todos los Santos, Flos Sanctorum, apud Dr. Eduardo M. Vilarrasa, La Leyenda de Oro, tomo IV, L. González y Compañia, Barcelona, 1897.


Fonte: (excertos) www.catolicismo.com.br