quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Santa Ivete de Huy, Viúva, Reclusa - 13 de janeiro

   
     Os séculos XII e XIII foram marcados em Liége por uma rica energia espiritual, pelo envolvimento das religiosas que se dedicavam a Deus em reclusões ou em beguinatos. Entre elas, Ivete (ou Juette) de Huy, Juliana de Liège ou Eva de São Martinho.
     A vida de Santa Ivete chegou até nós através de seu confessor e biógrafo, um cônego chamado Hugo de Floreffe (Floreffe era uma abadia norbertina, na Diocese de Namur), que escreveu a vida de Santa Ivete por volta de 1230 em latim medieval. Ele também escreveu a vida de Santa Ida de Nivelles e de Santa Ida de Leuwe, religiosa da Ordem de Cister no Brabante.
     Ivete nasceu em 1158, em Huy, Bélgica, em uma família de classe média alta, seu pai era administrador dos bens do bispo de Liège, na região de Huy.
     A partir da idade de 12 anos Ivete manifestou o desejo de consagrar-se a Deus. Apesar disso e, de acordo com um costume muito difundido na época, com a idade de 13, incapaz de opor-se, foi dada em casamento a Henry Stenay, filho de um grande cidadão de Huy. Nada preparada para o casamento, Ivete abominava a vida conjugal e odiava o marido. Levou tempo para superar essa crise e voltar a sentimentos mais equilibrados. Ela aceitou a legitimidade das demandas de seu marido, e ainda conseguiu amá-lo. Ivete teve três filhos, dos quais um morreu pouco tempo depois de batizado.
     Após cinco anos, seu marido morreu deixando-a, aos 18 anos, viúva com dois filhos. Era ainda jovem e bonita e seu pai tenta casá-la novamente. Mas desta vez Ivete, adulta, estava bem determinada a seguir o caminho da consagração a Deus. Ela não cedeu. Seu pai, um parente do bispo de Liège, Raoul Zähringen, leva-lhe a viúva teimosa. Ivete, intimidada perante o tribunal do bispo, fica silenciosa. Raoul, em seguida, ouviu-a em uma audiência particular. Ivete pede-lhe apoio a sua causa e seu desejo de ser totalmente entregue a Deus; o bispo lhe dá razão. Seu pai teve que ceder.
     Em seguida, dedicou-se à educação de seu filho e da prática da caridade. Sua generosidade é bem conhecida: pobres, peregrinos e viajantes eram abrigados por ela. Ela anunciou que em breve deixaria o mundo. Ela faz arranjos para garantir o futuro de seus filhos e se retirou para um leprosário malconservado. Na idade de 24, continuando seu caminho espiritual, Ivete se coloca ao serviço dos leprosos em uma colônia de leprosos em Statte, nas colinas da cidade de Huy.
    Durante dez anos ela se dedicou de corpo e alma ao cuidado destes excluídos sem descurar qualquer esforço. Aspirando a ser unida a Cristo, negligencia todas as precauções; ela estava mesmo disposta a ser atingida pela lepra, para uma melhor identificação com Cristo.
     Uma vida tão prodigiosa causa admiração. As pessoas vêm pedir-lhe conselhos, pedindo sua intercessão. Um grupo de fieis e discípulos se reúne em torno dela.
     Por volta de 1191, ela ainda aumentaria mais a penitência: aos 34 anos, Ivete foi fechada em uma cela, em Statte, da qual ela não sairia jamais. Do alto da colina, ela era como um anjo da guarda de Huy. Na véspera da sua entrada no isolamento, ela recebeu uma grande graça: a conversão de seu pai, que até então fizera de tudo para desviá-la de sua extraordinária vocação. Ele foi tocado pela graça e se converteu. Como ele era viúvo, ingressou na abadia cisterciense de Villers-en-Brabant. Ele é recordado como Beato Otto de Villers.
     Os discípulos aumentam e as esmolas também. Ivete não se esqueceu de seus filhos. O primeiro entrou na Abadia de Orval, da qual seria abade. O segundo levava uma vida desregrada. Muitas vezes Ivete o chama para ralhar e fazê-lo voltar aos trilhos. Ele promete se emendar, promessa não cumprida. Ivete finalmente ordenou-lhe deixar a região, porque era motivo de grande escândalo. Ele se converteu mais tarde e também se tornou monge cisterciense na Abadia Trois-Fontaines.
     De acordo com seu biógrafo, Ivete recebeu dons místicos, especialmente o de ler as consciências. O número de seus seguidores foi aumentando, mas também fez com que a suas previsões causassem descontentamentos, porque ela dizia em voz alta o que queriam esconder.

     Com a esmola recebida, a reclusa de Huy construiu um hospital para leprosos com uma grande igreja. Ela dirigia a construção a partir de sua cela. Várias jovens se agruparam em torno dela e se tornaram suas discípulas.
     Ivete morreu em sua cela no dia 13 de janeiro de 1228 aos 70 anos de idade. Imediatamente grande veneração e um culto a ela se desenvolveu. Devido à grande veneração por ela, muitos fiéis exigiram o reconhecimento da santidade do “anjo da guarda de Huy”. Embora uma aprovação formal nunca tenha existido, ela é venerada ainda hoje como santa.
     Ela é emblemática de um movimento místico feminino que floresceu na Idade Média, que já contava com Maria de Oignies, Hildegarda de Bingen, ou Ida de Nivelles.

Fonte: https://fr.wikipedia.org/wiki/Ivette_de_Huy

* * *
     
      A lepra foi particularmente temida. Surtos da doença tinham aparecido na Gália, no século IV, transmitida por contatos com o Oriente. Os pacientes viviam separados e inspiravam terror. Eles tinham que sinalar sua passagem por meio de um guizo para que as pessoas se afastassem deles. Eles viviam em leprosários, criados a partir do século VIII, quando a doença se tornou endêmica. Localizados fora das cidades, cabanas ou barracas eram colocadas perto de um rio, porque os banhos eram considerados saudáveis, serviam de habitação para os leprosos que trabalhavam como fazedores de corda, escorchavam animais ou eram coveiros.
    Somente indivíduos com forte inspiração religiosa encontravam nela recursos para tratar daquelas pessoas consideradas afetadas por castigo divino. Assim São Martinho não hesitou em tocá-los, bem como reis como Roberto, o Piedoso e São Luís IX.
     A doença afetou todos os estratos sociais; o leproso era considerado o infeliz por excelência. Por vezes, outras doenças da pele eram assimiladas à lepra.
     São Julião o Hospitaleiro criando leprosários era o exemplo do santo que vinha em auxílio de seu próximo do qual todo mundo se afasta. Cavaleiros afetados pela doença, não hesitam em entrar nas Ordens Hospitaleiras para cuidar dos outros leprosos. Muitas vezes os leprosários (ou lazaretos) eram administrados pelos próprios leprosos. Chamados Irmãos Donatos, porque dados a Deus, eles deviam em princípio viver sujeitos à regra da Ordem. Se ele era casado, o Irmão tinha que deixar o leprosário, e perdia os lucros decorrentes da gestão da propriedade comum.
     A endemia foi particularmente forte no Ocidente nos séculos XI e XII (regresso das Cruzadas), por vezes atingindo dois por mil habitantes. Foi neste momento que a exclusão dos leprosos foi a mais viva e que a hostilidade popular foi mais violenta. A grande peste no século XIII diminuiu a lembrança, no século XIV a lepra diminuiu. Os últimos leprosários desapareceram no final do século XV e na virada do século XVI.

     Santa Alpais, contemporânea de Santa Ivete, cuja vida também foi ligada à lepra pode ser vista em: http://ut-pupillam-oculi.over-blog.com/article-13537351.html

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Beata Alix (Alice) Le Clercq, Cofundadora - 9 de janeiro

     
     Uma das grandes obras da Contrarreforma foi ter começado a preocupar-se com a educação das meninas. Em 1535, Santa Ângela de Merici fundou a Congregação das Ursulinas com este fim. Santa Joana de Lestonnac fundou, em 1606, a Congregação das Religiosas de Nossa Senhora. Por sua vez, São Pedro Fourier fundou as Canonisas Regulares de Santo Agostinho da Congregação de Nossa Senhora, obra na qual Alix Le Clercq cooperou como cofundadora.
     Alix nasceu em Remiremont, ducado de Lorena, em 1576. Sua família ocupava uma posição de destaque, mas pouco se sabe da vida de Alix até os dezessete anos. Era então uma jovem alta e bela, loura, de constituição delicada, atraente e inteligente. Outro relato, escrito por ela mesma, nos informa que se distinguia na música e na dança, que era muito popular e que tinha muitos admiradores. Alix deixa entender que se envaidecia com isto, o que é provável. Entretanto, lembremo-nos que os santos tendem a exagerar seus defeitos.  Por outro lado, Alix demonstra que não deixava de ter seriedade: “Em meio a tudo isto, meu coração estava triste”. Pouco a pouco a frivolidade de sua vida se lhe tornou insuportável.
     Aos dezenove anos um primeiro sonho veio mudar sua vida. Ele se viu em uma igreja, próximo do altar, a seu lado se encontrava Nossa Senhora vestida com um hábito religioso desconhecido, que lhe fala: "Vem, minha filha, que eu mesma vou te dar as boas-vindas".
     Pouco tempo depois, a família Le Clercq foi morar em Hymont. Ali a jovem encontrou São Pedro Fourier, que era vigário de uma paroquia de Mattaincourt, nas redondezas. Um dia em que assistia à Missa nessa paroquia, Alix ouviu um ruído de tambor e viu o demônio que fazia os jovens dançar “ébrios de alegria". Nesse instante se deu a conversão de Alix, que nos disse: "Ali mesmo resolvi não me misturar com semelhante companhia".
     Alix trocou seus vestidos finos pelas roupas das camponesas, e pouco saía de sua casa. Sob a prudente direção de São Pedro Fourier, procurou descobrir qual a vontade de Deus a seu respeito, o que lhe causou grandes sofrimentos espirituais. Tanto seu pai como São Pedro Fourier aconselharam que ela entrasse em um convento. Ao que ela não concordou, pois em um sonho lhe fora revelado que não existia nenhuma forma de vida religiosa adaptável à sua vocação.
     Alix confiou a São Pedro Fourier que estava obcecada pela ideia de fundar uma congregação ativa. Este se mostrou cético, mas a aconselhou procurar outras jovens que compartilhassem de suas ideias, coisa muito difícil em um povoado afastado. Alix, porém conseguiu encontrar companheiras.
     Na Missa de Natal de 1597, Alix Le Clercq, Ganthe André, Isabel e Joana de Louvroir se consagraram publicamente a Deus. Quatro semanas depois, São Pedro Fourier convenceu-se de que elas eram chamadas a fundar uma comunidade sob sua direção. Alix recebeu o nome de Irmã Maria Teresa de Jesus Le Clercq.
     Uma solução inesperada: a quatro quilômetros de Mattaincourt havia uma abadia de canonisas seculares. Era uma comunidade de ricas e aristocráticas damas que levavam uma vida conventual. Uma dessas senhoras, Judith d'Apremont, decidiu proteger Alix e suas três companheiras dando-lhes para morar uma casinha em suas propriedades. As jovens se instalaram ali na véspera de Corpus Christi de 1598. Ao terminar um retiro, declararam unanimemente a São Pedro Fourier que se sentiam chamadas a fundar uma nova congregação, já que esta era a vontade de Deus para elas. A finalidade do novo instituto era "ensinar as meninas a ler, a escrever e a costurar, mas sobretudo a amar e servir a Deus". A esta santa ocupação elas deviam se dedicar, sem distinguir entre pobres e ricos, e sem cobrar nem um centavo, "porque isto agrada mais a Deus".
     Em 1601, São Pedro Fourier e a Beata Alix fundaram uma segunda casa em Mihiel, seguida pelas de Nancy, Pont-à-Mousson, Saint-Nicolas du Port, Verdún e Chalons. Esta última, estabelecida em 1613, foi a primeira fundação fora da Lorena.
     Alix e uma das companheiras foram enviadas por São Pedro a um convento das Ursulinas de Paris para que se documentassem sobre a vida monástica e os métodos de ensino.
     Em 1616, duas bulas da Santa Sé concederam afinal a desejada aprovação da congregação. Com base nisto, o Bispo de Toul aprovou as Constituições. Pela primeira vez treze religiosas vestiram o hábito que a Virgem revelara na visão a Alix, e iniciaram o ano de noviciado.
     Como as bulas papais somente mencionassem o convento de Nancy, a Beata Alix teve que renunciar ao cargo de superiora da Congregação a favor da Madre Ganthe André, “sem a qual, explica São Pedro Fourier, nossa congregação não teria podido ser fundada”, apesar de Madre André e de Alix não estarem de acordo sobre a organização.
     Além desta provação, a beata atravessava um período de crise espiritual conhecido por “noite escura da alma”. Atualmente lhe é reconhecido o título de cofundadora das Canonisas de Nossa Senhora, mas isto não acontecia durante sua vida e São Pedro Fourier era o primeiro a negar a ela este título, “para mantê-la em seu lugar”.
     Em 1621, a Beata obteve permissão para renunciar ao cargo de superiora local de Nancy, pois estava doente já há algum tempo. Os médicos a declaram incurável, diagnóstico que desconsolou toda Nancy, desde o duque e a duquesa da Lorena até as alunas e os mendigos.
     São Pedro Fourier foi para Nancy e a ouviu em confissão e a preparou para a morte. Alix se despediu solenemente da comunidade no dia da Epifania, exortando suas religiosas ao amor e a união. O desfecho chegou no dia 9 de janeiro de 1622, depois de uma longa agonia. A Beata não havia feito 46 anos de idade.
     Logo todos a aclamaram como santa e imediatamente se começou a recolher testemunhos para introdução de sua causa, mas a guerra impediu que o processo fosse adiante e ela somente foi beatificada em 1947.
     Em 1666, o convento de Nancy publicou uma vida da Beata Alix Le Clercq, que é na realidade uma coleção de documentos valiosos sobre a beata. O bispo de Saint-Dié introduziu, em 1885, a causa de beatificação, baseando-se em um exemplar dessa biografia que havia caído em mãos do Conde Gandélet. A primeira biografia propriamente dita foi publicada em Nancy em 1773; existe o manuscrito de outra, escrita em 1766; em 1858 veio à luz outra biografia, e a partir de então se multiplicaram os livros sobre a Beata.
     Há ainda a mencionar as vidas de São Pedro Fourier, escritas por Bedel (1645), Dom Vuillemin (1897), e o Pe. Rogie. O autor do prefácio da biografia inglesa da Beata Alix, fala dos excelentes métodos de educação empregados pelas canonisas. São Pedro Fourier ensinava pedagogia a suas religiosas.

     Madre Maria Teresa de Jesus Le Clercq foi beatificada em 1947 por Pio XII.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Solenidade da Epifania, segundo o Evangelho de São Mateus

   
     Neste dia da Epifania, celebramos a manifestação de Cristo aos três reis magos.
    Guiados por “uma luz humilde, como faz parte do estilo do Deus verdadeiro”, o pequeno grupo bate à porta de Belém, avistando “o menino com Maria, sua mãe”. Diz a leitura que “ajoelharam-se diante d’Ele, e O adoraram”.
     A cena nos revela a face missionária de Deus. Mas, neste caso, trata-se de uma missão às avessas, uma vez que já não é o missionário quem leva Cristo ao homem, mas é o homem que, através da estrela, vai até Cristo para adorá-Lo na carne, em Sua humanidade.
     Aqui, então, se apresenta aquela famosa citação d’As Confissões de Santo Agostinho: “Tu mesmo que incitas ao deleite no teu louvor, porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso”.
     Deus nos chama. Todos nós, por mais pecadores que sejamos – cristãos e não-cristãos -, estamos naturalmente inclinados para o Criador. Desejamos a salvação eterna, mesmo que, muitas vezes, a procuremos no lugar errado.
    O fato de serem pagãos, com efeito, não impede aqueles magos de reconhecerem no pequeno menino envolto em faixas o rei que lhes havia de nascer.
     Pelo contrário, prostram-se para adorá-Lo, dando-Lhe como presente “ouro, incenso e mirra”. Eles adoram o Verbo Encarnado, o Deus que se fez homem para nos redimir de toda falta e toda culpa.
     A Solenidade da Epifania recorda-nos, por sua vez, que o único lugar onde, de fato, podemos encontrar Deus nesta Terra é na humanidade de Jesus.
     É algo de grande importância para a nossa fé, sobre o qual devemos insistir e meditar repetidas vezes – mormente nestes tempos em que a separação entre o Cristo histórico e o Jesus da fé é promovida a olhos vistos, mesmo dentro da Igreja.
     A troco de uma suposta paz duradoura, em que se haja um único governo mundial e, obviamente, uma única super-religião, não são poucos os que se propõem a jogar fora a verdade de nossa fé.
     À revelia do depósito Sagrado da Doutrina Cristã, esses novos patronos da razão esclarecida jogam toda sorte de dúvida sobre a natureza humana e divina de Cristo, ressuscitando nos dias de hoje o antigo fantasma da heresia gnóstica.
     Durante séculos, a Igreja precisou se manifestar contra essa tentação perniciosa em que se concebe uma fé cristã desencarnada, sem necessidade da Igreja e dos sacramentos e alimentada por supostas experiências místicas e “encontros pessoais”.
     Nesta seara, lutou bravamente Santa Teresa de Jesus. Conforme relatos de seu Livro da Vida, a santa de Ávila teve de lidar com certos “entendidos e letrados” que, absurdamente advogavam a devoção à humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo como coisa de iniciantes.
     Para estes, a espiritualidade das almas “evoluídas” deveria ir para Deus, a frequência aos sacramentos era posta de lado, julgava-se coisa obsoleta.
     Não obstante, contrariando aqueles ideais, Santa Teresa diz às claras que a devoção à humanidade de Jesus consiste em algo fundamental para qualquer cristão, de qualquer época e em qualquer lugar.
     E foi assim que ela introduziu entre os carmelitas a fé no Verbo Encarnado. É famoso o episódio em que, subindo as escadarias de seu Carmelo, a santa encontra um menino e ele lhe pergunta: “Quem é você?” Ao que ela responde: – “Eu sou Teresa de Jesus, e você?” “Eu sou Jesus de Teresa”.
     No capítulo 26 de Caminho de perfeição, procurando explicitar através das imagens a necessidade dessa fé no Cristo encarnado, Santa Teresa D’Ávila diz:
     […] Assim, irmãs, não vos julgueis para tão grandes trabalhos, se não sois para coisas tão poucas, exercitando-vos nestas, podereis chegar a outras maiores.
     O que podeis fazer para ajuda disto é procurar trazer uma imagem ou retrato deste Senhor que seja a vosso gosto, não para trazê-lo no seio e nunca para ele olhar, mas para falar com Ele muitas vezes, que Ele mesmo vos ensinará o que Lhes haveis de dizer.
     Assim como falais com outras pessoas, por que hão de faltar-vos mais as palavras para falardes com Deus?
     De igual modo, nesta Solenidade da Epifania, em que Jesus apresenta-se como o Deus feito homem, outra Teresa vem nos ensinar como adorar o pequeno grande Menino Deus.
     Imitando a ação dos três reis magos de dar presentes a Jesus, Teresa de Liseux, nos escritos de História de uma alma, apresenta-se também como presente ao Menino, mas não como “ouro” ou “mirra”, como um brinquedo sobre o qual Jesus possa ter total domínio e autonomia.
     Nesta simplicidade, Santa Teresinha do Menino Jesus vem nos recordar que devemos nos entregar a Deus sem reservas e sem qualquer receio, como verdadeiros filhos que se submetem à vontade dos pais.
     Rezemos a Deus para que, percorrendo os passos dessas duas grandes santas, possamos fazer-nos simples “brinquedos” em Suas mãos de pequeno e frágil menino.

Fonte: padrepauloricardo.org

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Reis Magos, santos esquecidos dentro das tradições do Natal

                        Armando Gimenez (*)

     Das figuras bíblicas mais intimamente ligadas à tradição religiosa do povo destacam-se os Reis Magos, ou melhor, os Santos Reis, uma vez que a hagiologia romana considera-os bem-aventurados.
   O simbolismo dos Reis Magos é amplo e emprestam-lhes os exegetas as mais diversas interpretações. Estão ligados intimamente às festas do Natal e deles nasceu, praticamente, a tradição do Papai Noel, pois os presentes dados nessa ocasião reproduzem que os magos do Oriente, depois de cumprida a rota que lhes indicava a estrela de Belém, prestaram a Jesus na gruta onde ele nascera.
     As referências bíblicas são vagas e o episódio quase passa despercebido dos evangelistas, mas as contribuições da tradição patriática são muitas e, como elas têm força de fé e verdade, nelas devemos buscar grande parte das coisas que se contam dos santos Belchior, Gaspar e Baltazar já referidos pelos profetas do Velho Testamento, que vaticinavam a homenagem dos Reis ao humilde filho de Davi que deveria nascer em Belém.
     De onde vieram e o que buscavam pouca gente sabe. Vinham do Oriente e Baltazar, o mago negro talvez viesse de Sabá (terra misteriosa que seria o sul da Península Arábica ou, como querem os etíopes, a Abissínia). Simbolizam também as três únicas raças bíblicas, isso é, os semitas, jafetitas e camitas. Uma homenagem, pois, de todos os homens da Terra ao Rei dos Reis.
     Eram magos, isto é, astrólogos e não feiticeiros. Naquele tempo a palavra mago tinha esse sentido, confundindo-se também com os termos sábio e filósofo. Eles perscrutavam o firmamento e sentiram-se perplexos com a presença de um novo astro e, cada um deles, deixando suas terras depois de consultar seus pergaminhos e papiros cheios de palavras e fórmulas secretas, teve a revelação de que havia nascido o novo Rei de Judá e, que ele, como soberano, deveria, também, prestar seu preito ao menino que seria o monarca de todos os povos, embora o seu Reino não fosse deste mundo.
O simbolismo dos presentes
     Conta ainda a tradição que, ao chegar a Jerusalém, indagaram os Magos onde havia nascido o novo Rei de Judá. Essa pergunta preocupou Herodes, que hoje seria considerado um quisling a serviço dos romanos, e que reinava na Judéia.
     Os representantes do Império preocupavam-se com o aparecimento de um novo líder do povo de Israel. A revolta dos Macabeus ainda não fora esquecida e o povo oprimido esperava, ansioso, pela vinda do Messias que iria libertar o Povo de Deus e cumprir a palavra do salmista: "Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita até que ponho os teus amigos como escabelo aos teus pés".
     Os magos procuram – conforme conselho de Herodes – o novo Rei para render-lhe homenagem e para informar o representante romano do lugar onde nascera o Messias a fim de, com falso preito, sequestrá-lo.
     No presépio encontramos apenas os animais e os pastores e, inspirados pelo Espírito Santo, curvaram-se diante do filho do carpinteiro de Nazaré e depositaram, ao pé da manjedoura que lhe servia de berço, os presentes: ouro, incenso e mirra, isto é prendas que simbolizavam a realeza, a divindade e a imortalidade do novo Rei, e grão de areia que cresceria e derrubaria o ídolo de pés de barro (símbolo das grandes potências que se sucederam no domínio do mundo), do sonho de Nabucodonosor decifrado pelo profeta Daniel.
Símbolos da humildade
     Na tradição cristã os três Reis Magos simbolizavam os poderosos que deveriam curvar-se diante dos humildes na repetição real do canto da Virgem Maria à sua prima Isabel, o "Magnificat", pois sua alma rejubilava-se no Senhor, que exaltaria os pequenos de Israel e humilharia os poderosos.
     A igreja cultua os Reis Magos dentro desse simbolismo. Representam os tronos, os potentados, os senhores da Terra que se curvaram diante de Cristo, reconhecendo-lhe a divina realeza. É a busca dos poderosos que veem em Belchior, Gaspar e Baltazar o exemplo de submissão aos desígnios de Deus e que devem, como os magos, despojar-se de seus bens e depositá-los aos pés dos demais seres humanos, partilhando sua fortuna como dignos despenseiros de Deus.
     Os presentes de Natal também têm esse sentido. São as ofertas dos adultos à criança que com a sua pureza representa Jesus. Alguns, dão a essas festas um sentido mitológico pagão, buscando nas cerimônias dos druidas, dos germânicos ou saturnais romanas a pompa das festas natalinas que culminam com a Epifania.
A Bifana
    A palavra epifania, usada também como nome de mulher, deu origem a uma corruptela dialetal do sul da Itália, levada depois a Portugal e Espanha, a Bifana. A Bifana, segundo a lenda, era uma velha que, no dia de Reis, saía pelas ruas das cidades a entregar presentes aos meninos que tivessem sido bons durante o ano que findara. Estava intimamente ligada às tradições dos povos mediterrâneos e mais próxima do significado litúrgico das festas natalícias. Os presentes eram somente dados no dia 6 de janeiro e nunca antes. Tanto assim é, que nós mesmos, no Brasil, na nossa infância, recebíamos os presentes nesse dia. Depois, com a influência francesa e inglesa em nossas tradições a Epifania ou Bifana foi substituída pelo Papai Noel, a quem muitos estudiosos atribuem uma origem pagã e outros, para disfarçar o sentido comercial da sua presença no dia de Natal, confundem com São Nicolau.
     Hoje, os Santos Reis já não são lembrados. O presépio praticamente não existe e só neles é que podemos ver os Magos de Oriente apresentados. A árvore de Natal, pinheiro que os druidas enfeitavam para agradar o terrível deus do inverno Hell, substituiria a representação do nascimento de Jesus, introduzida no costume dos povos por São Francisco de Assis. A festa da Epifania, dia de guarda no calendário litúrgico, já não mais é respeitada e com ela desaparecerem outras tradições da nossa gente, trazidas da Península Ibérica pelos nossos antepassados, como a folia de Reis, Reisados e tantos outros autos folclóricos, cultuados em poucas regiões do país.

(*) Gimenez, Armando. "Reis Magos, santos esquecidos dentro das tradições do Natal". Diário de São Paulo, São Paulo, 5 de janeiro 1958
Especial de Natal - Ano VI - Edição 61 - Dezembro 2003


Oração 
     Senhor Jesus, peço-vos dar-me olhos sensíveis aos sinais que falam de vossa presença Redentora, para que, como os Santos Reis Magos, possa adorar-vos sempre pelo mistério de vossa Encarnação gloriosa. Amém.

Jaculatória: Menino Jesus, nascido em Belém, rogai por nós.



quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Santa Amada da Tebaida, Virgem e Abadessa - 5 de janeiro

     Paládio (*) (falecido por volta de 420) narra ter visto em Antioquia, no Egito, doze mosteiros femininos e de neles ter encontrado religiosas de virtudes excepcionais.
     Entre elas, ele se recorda de Amada ou Amma Talida (Madre Talida), abadessa de um daqueles mosteiros, que já estava com 80 anos de idade, circundada do afeto e da veneração de sessenta monjas, que a obedeciam com um espírito verdadeiramente filial. Elas a chamavam de bem-amada Mãe.
     De Santa Amada Paládio põe em relevo em particular a castidade excepcional conservada ilibadíssima por tão longos anos e tornada nela uma como que segunda natureza, a ponto de permitir-se tratar com serena familiaridade pessoas de outro sexo. (cf. Palladius, Lamiaca. AA.SS. Whitford, English Mart.)
     Nos catálogos de De Natalibus, de Canisio e de Ferrari, como nas Actas Sanctorum, ela é recordada como santa no dia 5 de janeiro, mas a sua memória não foi incluída no Martirológio Romano.

  (*)   Paládio da Galácia foi Bispo de Helenópolis, na Bitínia, e um devotado discípulo de São João Crisóstomo. Ele é lembrado por sua obra, História Lausíaca. Além disso, ele é quase certamente o autor do "Diálogo sobre a vida de Crisóstomo".
     Paládio nasceu na Galácia em 363 ou 364 e se dedicou à vida monástica em 386 ou pouco depois. Ele viajou ao Egito para se encontrar com os monges cristãos, os chamados padres do deserto. Em 388 ele chegou em Alexandria e, por volta de 390, entrou na Nitria. No ano seguinte ele estava num distrito do deserto conhecido como Célia - pela quantidade de celas -, onde passaria os próximos nove anos, primeiro com Macário de Alexandria e depois com Evágrio do Ponto. No final deste período, já com a saúde debilitada, ele se mudou para a Palestina, em busca de temperaturas mais amenas. Em 400, ele foi sagrado Bispo de Helenópolis e logo se envolveu em toda a controvérsia à volta de São João Crisóstomo.
     Em 405, ele estava em Roma, para defender a causa de São João Crisóstomo. Por conta de sua fidelidade a ele, foi exilado no ano seguinte para Siene (atual Assuã) e para a Tebaida, onde ele pôde conhecer em primeira mão outra parte do Egito. Em 412-413 ele foi reconduzido ao cargo após um período junto aos monges do Monte das Oliveiras. Sua grande obra foi escrita entre 419-420 e foi batizada de História Lausíaca por ter sido composta para Lauso, mordomo na corte de Teodósio II. Ele morreu em algum momento na década de 420.

A cultura das Ammas (Madres ou Mães) do Egito 
     Apesar de se ter São Pacômio como o fundador da vida comunitária, na realidade, quando Pacômio organizou a vida cenobítica na Tebaida, no ano 320, as monjas do mosteiro de Panápolis, já eram mais de quatrocentas. Amma Maria (irmã de Pacômio) foi a fundadora destes cenóbios femininos. 
     Mais que a ascese corporal, essas monjas se fixavam na pureza do coração. Elas aprendiam a ler e a escrever. A biblioteca era um elemento importante em seus mosteiros. Assim, entre as monjas havia copistas de pergaminhos.
     Tanto Amma Maria, como seu irmão, São Pacômio, impunham a limpeza do corpo, coisa inovadora, pois os monges e monjas costumavam viver sujos considerando isto como uma fonte de ascese.
     Os mosteiros pareciam pequenos povoados, e as monjas viviam em celas independentes, porém formando uma só aldeia. A Capela tinha edifícios diferentes agrupando ao redor de 30 a 40 monjas. Elas tinham o costume de dormir em cadeiras baixas, com o encosto muito inclinado, não em camas. O trabalho, as refeições e as orações eram feitas em comum. O silêncio era rigoroso, com a finalidade de manter a oração interna o dia todo, em que se repetia frases da Escritura.  Às 2 da madruga elas levantavam para rezar.
     As refeições consistiam de pão, queijos, hortaliças, frutas e leite. Faziam duas refeições por dia. A cada monja era designada uma letra do alfabeto para se identificarem. A letra “y” era dada as mais humildes. Segundo sua capacidade, fiavam, costuravam, faziam cestos ou sandálias. O trabalho era feito dentro do cercado do mosteiro, mas algumas vezes elas saiam para passar o dia rezando na solidão do deserto.
     A Missa só era celebrada aos domingos; por outro lado, rezavam o Ofício todos os dias pela manhã, ao meio dia e ao entardecer, e à noite faziam a grande sinaxis (assembleia) das vigílias. Recitavam os 150 Salmos em um só dia.
     São Dionísio Areopagita fala de três símbolos da vida monástica feminina: a renúncia ao mundo, o corte do cabelo e a “vestição”, com uma roupa mais ordinária e pobre, constituída por um capucho (kukol) que escondia a cabeça raspada, uma túnica (kalovi) e em cima uma capa (mafori).
     No século V o monaquismo feminino egípcio aumentou muito (fala-se de umas 20 mil mulheres). A cidade de Alexandria ficou rodeada de mosteiros com milhares de monges e monjas.

     É triste saber que todo esse apogeu do Cristianismo iria ser demolido pouco tempo depois por heresias, pelas invasões bárbaras e pelos seguidores de Maomé. Todo o Norte da África foi invadido e as pujantes cidades cristã devastadas... Roguemos a essas santas almas, que tanto rezaram e sofreram no inicio da Civilização Cristã, que elas alcancem uma restauração do Catolicismo em todo o mundo.
     Que Nossa Senhora atue e alcance o triunfo de seu Imaculado Coração!


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Santa Genoveva, Virgem, Patrona de Paris - 3 de janeiro

  
     No ano 400 de nossa era o Império Romano do Ocidente vivia seus últimos dias. Na província romana da Gália (atual França), em meio aos pagãos que ainda faziam sacrifícios humanos ao deus Thor, o Cristianismo começava a lançar suas raízes quando, vinda de além Reno, uma horda de bárbaros devastou a região quase sem encontrar resistência. “Por que os gauleses, outrora tão bravos, não se defenderam? Porque os romanos, com seu luxo, tinham-lhes dado sua moleza e seus vícios”. (1) Com o tempo, a vida recomeçou com os novos bárbaros sendo assimilados pela população do país.
     Nasceu nesse período, em 422, na pequena cidade de Nannetodorum (hoje Nanterre), nos arredores de Paris, numa família cristã, Genoveva, filha única de Severo, provavelmente um franco romanizado, e de Gerôncia, de origem grega. A vida da Genoveva é narrada na Vita Genovefae, escrita cerca de vinte anos depois de sua morte. Embora este documento não tenha sido escrito por um historiador e contenha aspectos legendários, é considerado confiável.
     Sendo católicos fervorosos, seus pais procuraram formar a filha nos mesmos princípios religiosos. Dócil e sempre aberta à ação da graça, Genoveva crescia de modo análogo ao do Menino Jesus: “em graça e santidade diante de Deus e dos homens”.
     Como filha única, ela herdou o cargo de membro do conselho municipal (“cúria”) ocupado por seu pai, que ela exerceu de início em Nanterre, depois em Paris, após sua instalação naquela cidade.
     Em 430, enviados pelo Papa São Celestino I, São Germano de Auxerre e São Lupus de Troyes atravessaram a Gália para ir combater a heresia de Pelágio na Grã-Bretanha. Durante o trajeto pararam em Nanterre. A população se reuniu para dar-lhes as boas vindas e São Germano pregou para a multidão.
     Uma piedosa criança chamou sua atenção, Genoveva. Após o sermão ele pediu que a criança fosse trazida até ele. Quando estes se apresentaram com a filha, São Germano, pondo a mão na cabeça da menina, disse: “Bendito dia aquele em que o Senhor vos concedeu tal filha; os anjos a saudaram sem dúvida no seu nascimento, e Deus Nosso Senhor a destina a ser instrumento de grandes maravilhas”. (2) Ele conversou com ela com interesse, encorajando-a a perseverar no caminho da virtude
     Na manhã seguinte, antes de partir, o Santo viu-a novamente e a abençoou, dando a ela uma medalha tendo a cruz gravada, dizendo para recordar-se sempre de sua dedicação a Cristo. Disse a ela também para usar a medalha em substituição às suas pérolas e seus enfeites de ouro. Segundo alguns autores, é este o primeiro exemplo que se conhece do uso de medalhas ao pescoço.
     Como não havia conventos próximos de sua cidade, Genoveva permaneceu em sua casa levando uma vida piedosa e inocente. Quando a jovem chegava a uma idade conveniente (que era habitualmente os 25 anos), apresentava-se ao Bispo que, depois das preces e cerimônias apropriadas, lhe concedia o véu. Como a virtude de Genoveva e sua piedade eram já eminentes, o Prelado  admitiu-a com a idade de 15 anos. A partir de então, como faziam as virgens consagradas, a adolescente passou a alimentar-se apenas de legumes, a beber somente água, e cobriu-se com um cilício, passando longas horas em oração.
     Não se tem certeza de quando ela fez seus votos definitivos. Alguns escritores afirmam que foi por ocasião do retorno de São Germano de sua missão na Grã-Bretanha; outros dizem ter ela recebido o véu das mãos do Bispo de Paris, aos dezesseis anos, junto com duas companheiras.
     Por ocasião da morte de seus pais, Genoveva foi para Paris viver com sua madrinha. Ela se dedicava às obras de caridade e praticava austeridades como, por exemplo, jejuando e se alimentando apenas duas vezes na semana; não saindo de seu quarto desde a tarde da Epifania até a Quinta-feira Santa. Estas mortificações ela praticou por 30 anos, até que seus superiores a obrigaram a diminuir suas penitências.
     Muitos vizinhos, cheios de inveja, acusavam Genoveva de ser uma impostora e uma hipócrita. Como Santa Joana d’Arc, ela tinha muitas visões e profecias, que eram tratadas como fraudes. Seus inimigos conspiraram para afogá-la, mas graças à intervenção de São Germano de Auxerre, tais animosidades foram superadas. O bispo da cidade nomeou-a guardiã das virgens dedicadas a Deus, e por sua orientação e pelo seu exemplo Genoveva encaminhou-as a um alto grau de santidade; algumas delas, como Santa Aude, chegaram a santidade eminente. Ela também era favorecida por graças extraordinárias lendo as consciências e curando os corpos em nome de Cristo por meio da unção de óleos.
     Em 451, Atila, “o flagelo de Deus”, como era conhecido, e seus Hunos devastavam a Gália e os habitantes de Paris se prepararam para fugir. Genoveva, que tinha então apenas 28 anos, convenceu os habitantes de Paris a não abandonar a cidade aos Hunos. Ela encorajou-os a resistir à invasão com as célebres palavras: “Que os homens fujam, se eles assim o querem, se eles não são capazes de combater. Nós, as mulheres, rezaremos tanto e tanto a Deus, que Ele ouvirá as nossas suplicas”. “Eu vos predigo que, pela proteção de Cristo, Paris será poupada, enquanto os lugares onde vos quereis refugiar tombarão sob o poder do inimigo, não restando lá pedra sobre pedra”. (3) Muitos foram os parisienses dóceis aos seus conselhos que se revezavam na igreja, numa contínua prece ao Céu. Mas nem todos estavam de acordo com Genoveva, ela se arriscou a ser linchada.
     A profecia da Santa cumpriu-se à risca, pois Átila não avançou até Paris. Finalmente, foi derrotado por uma coligação de romanos, francos e visigodos, na estupenda vitória de Chalons-sur-Marne, em 451.
     Mais tarde, quando os Francos cercaram Paris, Genoveva salvou novamente a cidade, desta vez da fome. Durante esse prolongado cerco, que reduziu Paris à mais extrema penúria, “Genoveva, compadecida de tanta fome, juntou grande quantidade de trigo. Conduziu-o a Paris através de inúmeras dificuldades, salvando assim a vida daquele povo aflito”. (4) Ela organizou uma expedição engenhosa por meio de barcos que pelo Sena iam buscar o abastecimento até na região de Champagne. “Essa magnânima caridade, acompanhada de muitos milagres, deu novo lustro às suas virtudes, fazendo-a ser venerada mesmo pelos pagãos. Childerico, pai de Clóvis, estimava tanto a nossa santa que nunca se atreveu a negar-lhe coisa alguma que pedisse”. (5)
     A Santa mandou construir a primeira Basílica de Saint-Denis (São Dionísio) sobre o túmulo daquele santo, primeiro bispo de Paris. Ela visita as obras à noite com suas companheiras; quando o vento apaga a vela que ilumina o caminho do pequeno grupo, Genoveva pega a vela que acende de novo e cuja chama resiste a todas as borrascas.
     Muitos consideram que ela contribuiu poderosamente para a conversão de Clóvis. A seu pedido, este primeiro rei cristão da França libertou prisioneiros, deu grandes esmolas ao Clero e aos pobres, e edificou várias igrejas. Genoveva aproveitou-se dessa posição para obter o perdão para numerosos prisioneiros políticos. Clovis e Clotilde, sua esposa, lhe devotavam uma grande veneração. A rainha Santa Clotilde, esposa de Clóvis, tinha Genoveva em alta consideração, e sempre que possível ia entreter-se com ela.
     A fama dessa Santa chegou tão longe, que o famoso São Simão Estilita, do alto de sua coluna na Ásia Menor, pediu a peregrinos franceses que o recomendassem às orações dela.
     Ela convenceu Clóvis a erigir uma igreja dedicada aos Santos Apóstolos Pedro e Paulo sobre o ''mons Lucotitius'' (que tem hoje o nome de montanha de Santa Genoveva, e fica no coração do famoso Quartier Latin). A construção foi iniciada por Clovis pouco antes de sua morte em 511.
     Cheia de anos e de virtudes, Santa Genoveva entregou sua puríssima alma a Deus em 512, aos 89 anos, numa ermida de Paris. Toda Paris chorou. Quando a igreja ficou pronta, seu corpo foi enterrado nela. Ao seu lado, na mesma igreja, foram sepultados Clovis e a Rainha Santa Clotilde (465-545), seus mais célebres discípulos. Devido aos numerosos milagres que ocorriam no seu túmulo, o nome de Santa Genoveva foi dado àquela igreja. Reis, príncipes e o povo enriqueceram-na com seus presentes.
     No ano 887, do Céu, novamente salvou ela sua cidade de Paris, sitiada pelos terríveis normandos. Pela primeira vez sua urna, cinzelada pelo famoso Santo Elói, foi levada pelo Clero e Magistrados, o que fez levantar milagrosamente o cerco, no momento em que o inimigo se preparava para o assalto final.
     As relíquias de Santa Genoveva foram preservadas em sua igreja, com grande devoção, por séculos, e Paris recebeu provas da eficácia de sua intercessão. Ela salvou a cidade de uma inundação em 834. Em 1129, uma praga violenta, conhecida como o “mal dos ardentes”, fez cerca de 14 mil vítimas, mas cessou imediatamente durante uma procissão em sua honra.
     Inocêncio II, que fora a Paris implorar o auxílio do rei contra o antipapa Anacleto, em 1130, examinou pessoalmente o milagre e ficou convencido de sua autenticidade ordenando uma festa anual, no dia 26 de novembro, para honrar o acontecimento. Uma pequena igreja, chamada de Santa Genoveva dos Ardentes, comemorava o milagre até 1747, quando foi demolida para dar lugar a um hospital.
     As santas relíquias de Santa Genoveva eram levadas em procissão anualmente até a catedral, e Mme. de Sévigné deixou uma descrição do evento em uma de suas cartas.
    Os revolucionários de 1793 destruíram muitas das relíquias preservadas na igreja de Santa Genoveva, e as restantes foram lançadas ao vento pela ralé em 1871. Felizmente uma grande relíquia foi mantida em Verneuil, Oise, e ainda existe.
     Santa Genoveva é patrona da cidade de Paris, da diocese de Nanterre, e é festejada no dia 3 de janeiro. A Corporação dos Gendarmes (que zelam pela ordem e segurança pública na França) a têm como patrona e a festejam no dia 26 de novembro, data do “milagre do mal dos ardentes”.
      Há uma Santa Genoveva de Loqueffret, uma santa bretã, que também é festejada no dia 3 de janeiro como sua ilustre homônima.
Urna contendo a relíquia de Santa Genoveva

Notas:
1- Sabine du Jeu, Sainte Geneviève, Les Éditions du Clocher, Toulouse, 1939, p. 4.
2- Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1946, p. 32.
3- Sabine du Jeu, op. cit. p. 26.
4 - Santos de cada dia, organização do Pe. José Leite, S.J., Editorial A.O., Braga, 1993, p. 19.
5- Abbé Croisset, Año Cristiano, Madrid, Saturnino Calleja, 1901, tomo I, p. 27.


Etimologia: o nome Genoveva é de étimo controverso. O 2º elemento (veva) parece que se prende ao alemão weben, “tecer” ou weib (mulher). Quanto ao 1º (geno) nada se sabe. Há quem o traduza por face (gen) branca ou bela (gwef) do céltico. Na forma latina é ‘Genovefa’.

Fontes: “Um santo para cada dia”, Paulinas, de Mário Sgarbossa e Luigi Giovannini;


domingo, 1 de janeiro de 2017

Menino Jesus de Praga – 2 de janeiro


Imagem do Menino Jesus de Praga dada pela Princesa Polyxena von Lobkowicz aos Carmelitas Descalços em 1628, na Igreja de Nossa Senhora das Vitórias em Praga
Foto de Jayarathina

     A história desta imagem nos remete à cidade de Praga, Rep Tcheca, do ano de 1628, quando a pequena imagem de cerca de 60 cm, de madeira revestida de cera, foi dada pela Princesa Polyxena von Lobkowicz (1566-1642) aos Carmelitas Descalços, aos quais ela era muito ligada.
     Em 1603 a princesa tinha recebido a imagem como um presente de casamento de sua mãe, Da. Maria Maximiliana Manrique de Lara y Mendoza, esposa de Vratislav de Pernstyn, Chanceler do Reino da Tchecoslováquia (1530-1582). Ela havia trazido a imagem de sua terra natal, a Espanha, para o Palácio de Lobkowicz, na Boêmia. Uma antiga legenda na família Lobkowicz insistia que Da. Maria tinha recebido a imagem de Santa Teresa de Jesus.


 Doña Maria Maximiliana Manrique de Lara y Mendoza

     Em 1628, a Princesa Polyxena von Lobkowicz presenteou os frades Carmelitas com a imagem. Conta-se que ao entregar a imagem, a piedosa Princesa Polyxena emitiu uma profética declaração aos religiosos:
     “Veneráveis Frades, eu vos trago o meu mais querido bem. Honrai esta imagem e vós nunca passareis necessidade”.
     A imagem foi colocada no oratório do mosteiro de Nossa Senhora das Vitórias, Praga, onde são oferecidas orações especiais ao Menino Jesus duas vezes ao dia. Quando o Imperador Ferdinando II, da Casa de Habsburg, tomou conhecimento da devoção dos Carmelitas e de suas necessidades, mandou 2 mil florins e estipulou uma quantia mensal para sua subsistência.

     A imagem continua sendo exposta na Igreja de Nossa Senhora das Vitórias em Praga, e atrai milhares de visitantes. Uma cópia do Menino Jesus de Praga está permanentemente em exposição no Museu do Palácio Lobkowicz

Princesa Polyxena von Lobkowicz

     O Menino foi sempre vestido com esplêndidas roupas de gala, decoradas com joias preciosas. A mais antiga vestimenta foi presenteada ao Menino Jesus pelo Imperador Ferdinando III. A coleção de roupas do Menino Jesus tem mais de uma centena de vestimentas preciosas e algumas delas podem ser vistas no museu da catedral.  O Menino Jesus é vestido com roupas reais com um manto de arminho somente durante cerimônias de coroação. 






A Princesa Polyxena von Lobkowicz entrega a Imagem aos Frades Carmelitas.


Algumas das roupas da imagem do Menino Jesus de Praga


Fonte: www.nobility.org