sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Epifania do Senhor - Dia dos Santos Reis - 6 de janeiro

   

     A festa da adoração dos Reis Magos ao Menino Jesus recebeu o nome de Epifania do Senhor. Epifania vem do grego: πιφάνεια que significa “aparição; fenômeno miraculoso; manifestação”. Este fato é narrado pelo evangelista São Mateus, no Capítulo 2, versículos 1-12. Trata-se de uma história impressionante, com vários símbolos importantes para a nossa vida. A festa se comemora no dia 6 de janeiro, ou seja, doze dias após o Natal, ou 2 domingos após o Natal, dependendo do calendário litúrgico usado.
     Andaram as gentes na tua luz e os reis no esplendor do teu nascimento”, profetizou Isaías (Is 60, 3). E São Tomás de Aquino explica: “Os Magos foram as primícias dos gentios que acreditaram em Cristo. E neles se manifestou, como um presságio, a fé e a devoção das gentes que vieram a Cristo das mais remotas regiões”.
     Santo Agostinho sublinha que eles procuraram com fé mais ardente Àquele que punham de manifesto o clarão da estrela e a autoridade das profecias.
     São João Crisóstomo completa dizendo: “Porque buscavam um Rei celeste, embora nada descobrissem nele denotador da excelência real, contudo, contentes com o só testemunho da estrela, adoraram-no”.
Eram reis?
     São Mateus chama-os apenas de “Magos”. Porém, esta palavra tinha vários significados. Designava a origem geográfica de pessoas da Pérsia. Por isso, deduzimos que os magos eram daquele país. Designava também pessoas da realeza. Por isso, acredita-se que eles eram reis. Por fim, “mago” significava também o que chamaríamos hoje de “cientistas”, pois eles conheciam profundamente a matemática, a medicina, a astronomia – tanto que detectaram o aparecimento de uma nova estrela – a química e outras ciências já conhecidas na época. Tudo isso concorda com a tradição científica dos persas.
Seguindo uma estrela
     O aparecimento de uma nova estrela no céu mudou a vida daqueles homens. O conhecimento científico permitiu que eles descobrissem o novo astro. Daí se deduz que eles eram conhecedores dos mapas celestes e bons viajantes. Naquele tempo, os viajantes do deserto viajavam à noite e guiavam-se pela posição das estrelas. Por isso, eles detectaram o aparecimento da nova estrela. Porém, não apenas detectaram: eles conheciam as profecias messiânicas e compreenderam que tal estrela anunciava o nascimento do Rei dos reis, o soberano das nações, o Salvador. Por isso se uniram para preparar e empreender viagem em busca do Rei Salvador.
     São Beda, uma das máximas autoridades dos primeiros tempos da Idade Média pelo fato de ter recolhido relatos transmitidos oralmente pelos Apóstolos aos seus sucessores, e destes aos seguintes, no tratado “Excerpta et Colletanea”, assim recolhe as tradições que chegaram até ele:
     “Melquior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio. E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz”.
     É, pois, São Beda quem por primeira vez escreveu o nome dos três. Nomes com significados precisos que nos ajudam a compreender suas personalidades.
     Gaspar significa “aquele que vai inspecionar”; Melquior quer dizer: “Meu Rei é Luz”; e Baltasar se traduz por “Deus manifesta o Rei”.
     Para São Beda – como para os demais Doutores da Igreja que falaram deles – os três representavam as três raças humanas existentes, em idades diferentes.
Surpresa em Israel
     Seguindo a estrela, aqueles sábios viajantes chegaram a Israel. Como procuravam por um rei, soberano das nações recém-nascido, dirigiram-se à capital Jerusalém, pensando que o Menino Deus seria descendente do então rei de Israel. A chegada desses homens na capital foi motivo de alarde e espanto, segundo o relato de São Mateus, pois o povo não sabia do nascimento do Messias, embora desejasse ardentemente este acontecimento. São Mateus diz que Jerusalém entrou em polvorosa com a chegada dos magos.
     Tal foi a importância da visita dos magos a Jerusalém, que foram recebidos pelo rei Herodes. Este, provavelmente, recebeu-os como chefes de Estado, com todas as honras. Ao saber, porém, o real motivo da visita, Herodes sente-se ameaçado. O Rei Salvador recém-nascido poderia roubar seu trono, pensou. Por isso, fingindo interesse, procurou saber sobre as profecias ouvindo os escribas e enviou os magos a Belém. E disse a eles que, depois de encontrarem o menino, voltassem para indicar o local onde ele estava, para que também Herodes pudesse ir adora-lo. Herodes, na verdade, sanguinário que era, queria matar o menino. Herodes, com efeito, já tinha cometido vários assassinatos, inclusive de dois filhos seus, por causa de seu medo de perder o poder. Embora tenha construído grandes obras em Jerusalém, Herodes, que não era judeu, mas sim nabateu e odiado pelos judeus, era um homem doente pelo poder, capaz de qualquer coisa para se manter na realeza.
O encontro com o Menino Jesus
     São Mateus diz que, tão logo os magos saíram de Jerusalém, avistaram novamente a estrela e encheram-se de alegria. Seguiram-na e ela os levou ao local onde Jesus estava. Chegando, depararam-se com a maior das surpresas: o Rei, soberano das nações, o Filho de Deus, nascera numa família pobre, simples. Não nasceu em berço de ouro, mas numa manjedoura! Sua mãe, uma jovem simples e seu pai, adotivo, um carpinteiro. Mesmo assim, os reis reconheceram naquele menino o soberano das nações, o Príncipe da Paz. Os magos, reconhecendo naquele Menino o Rei dos reis, ofereceram-lhe presentes. Também seus presentes têm um significado simbólico.
     Melquior deu ao Menino Jesus ouro, o que na Antiguidade queria dizer reconhecimento da realeza, pois era presente reservado aos reis.
     Gaspar ofereceu-Lhe incenso (ou olíbano), em reconhecimento da divindade. Este presente era reservado aos sacerdotes.
     Por fim, Baltasar fez um tributo de mirra, em reconhecimento da humanidade. Mas como a mirra é símbolo de sofrimento, veem-se nela preanunciadas as dores da Paixão redentora. A mirra era presente para um profeta. Era usada para embalsamar corpos e representava simbolicamente a imortalidade.
     Desta maneira, temos o Menino Jesus reconhecido como Rei, Deus e Profeta pelas figuras que encarnavam toda a humanidade.
A ciência se ajoelha diante de Deus
     A adoração dos Magos ao Menino Jesus tem um significado profundo. Sendo cientistas, eles representam a ciência que procura a Deus, encontra-o, reconhece-o e se ajoelha diante dele num gesto de humildade e adoração. Os Magos nos ensinam que a ciência e o conhecimento nos levam ao reconhecimento de Deus. Num mundo onde alguns cientistas procuram negar a Deus, outros, em grande número, seguem o exemplo dos Magos, reconhecem a Deus na criação e em tudo o que existe e o adoram como Deus, Pai e soberano do universo.
Fugindo de Herodes
     Depois da visita, os magos foram avisados em sonhos para não voltarem a Herodes. Reconhecendo nisso uma mensagem divina, eles obedeceram e voltaram por outro caminho. Ao descobrir que tinha sido enganado, Herodes, furioso, manda matar todos os meninos com menos de dois anos, nascidos em Belém. Ele queria ter certeza de que o Messias, visto por ele como rival, fosse morto.
Fuga para o Egito 
    José foi avisado também em sonho e partiu para o Egito, fugindo com a Sagrada Família da ira de Herodes. Assim, os meninos de Belém com menos de dois anos deram suas vidas para que Jesus sobrevivesse. Eles passaram a ser conhecidos como Santo Inocentes, o que, de fato, são.
     A Sagrada Família permaneceu no Egito até a morte de Herodes. Então, voltaram para Israel e foram viver em Nazaré, longe da capital Jerusalém.
Veneração
     A tradição cristã conservou a veneração aos três os reis magos. Até 474 os cristãos guardavam seus restos mortais em Constantinopla. Depois, foram levados para a grande catedral de Milão, Itália. Mais tarde, em 1164, foram trasladados para a bela cidade de Colônia, Alemanha. Lá, foi construída a esplendorosa Catedral dos Reis Magos, que guarda os restos mortais dos três reis santos até os dias de hoje.
Oração aos reis magos
     “Ó amabilíssimos Santos Reis, Baltazar, Melquior e Gaspar! Fostes vós avisados pelos Anjos do Senhor sobre a vinda ao mundo de Jesus, o Salvador, e guiados até o presépio de Belém de Judá, pela Divina Estrela do Céu. Ó amáveis Santos Reis, fostes vós os primeiros a terem a ventura de adorar, amar e beijar a Jesus Menino, e oferecer-lhe a vossa devoção e fé, incenso, ouro e mirra. Queremos, em nossa fraqueza, imitar-vos, seguindo a Estrela da Verdade. E descobrindo a Menino Jesus, para adorá-lo. Não podemos oferecer-lhe ouro, incenso e mirra, como fizestes. Mas queremos oferecer-lhe o nosso coração contrito e cheio de fé católica. Queremos oferecer-lhe a nossa vida, buscando vivermos unidos à sua Igreja. Esperamos alcançar de vós a intercessão para receber de Deus a graça que tanto necessitamos.
     (Em silêncio fazer o pedido)
     Esperamos, igualmente, alcançarmos a graça de sermos verdadeiros cristãos. Ó bondosos Santos Reis, ajudai-nos, amparai-nos, protegei-nos e iluminai-nos! Derramai vossas bênçãos sobre nossas humildes famílias colocando-nos debaixo de vossa proteção, da Virgem Maria, a Senhora da Glória, e São José. Nosso Senhor Jesus Cristo, o Menino do Presépio, seja sempre adorado e seguido por todos. Amém!”


Reis Magos e pastores: a santa harmonia social aos pés do Menino Deus
      Os medievais tinham uma devoção encantada pelos Reis Magos. Essa devoção tem seu fundamento nos Evangelhos, mas eles a desenvolveram com uma força que chega até nossos dias.
     Quis a Providência que o Menino Jesus recebesse a visita de três sábios — que segundo uma venerável tradição eram também reis — e alguns pastores.
     Precisamente os dois extremos da escala humana dos valores. Pois o rei está de direito no ápice do prestígio social, da autoridade política e do poder econômico, e o sábio é a mais alta expressão da capacidade intelectual.
     Na escala dos valores o pastor se encontra, em matéria de prestígio, poder e ciência, no grau mínimo, no rés-do-chão.
     Ora, a graça divina, que chamou ao presépio os Reis Magos do fundo de seus longínquos países, chamou também os pastores do fundo de sua ignorância.
     A graça nada faz de errado ou incompleto. Se ela os chamou e lhes mostrou como ir, há de lhes ter ensinado também como apresentar-se ante o Filho de Deus.
     E como se apresentaram eles? Bem caracteristicamente como eram.
     Os pastores lá foram levando seu gado, sem passar antes por Belém para uma “toilette” que disfarçasse sua condição humilde.
     Os Magos se apresentaram com seus tesouros — ouro, incenso e mirra — sem procurar ocultar sua grandeza que destoava do ambiente supremamente humilde em que se encontrava o Divino Infante.
     A piedade cristã, expressa numa iconografia abundantíssima, entendeu durante séculos, e ainda entende, que os Reis Magos se dirigiram para a gruta com todas as suas insígnias.
     Quer isto dizer que ao pé do presépio cada qual se deve apresentar tal qual é, sem disfarces nem atenuações, pois há lugar para todos, grandes e pequenos, fortes e fracos, sábios e ignorantes.
     É questão apenas, para cada qual, de conhecer-se, para saber onde se pôr junto de Jesus.

Excertos de artigo do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Catolicismo, dezembro/1955

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

ORIGEM DA DEVOÇÃO AO MENINO JESUS DE PRAGA

    

     Fernando II, imperador da Alemanha, para expressar sua gratidão a Nosso Senhor pela insigne vitória alcançada em uma batalha, construiu em 1620, na cidade de Praga, um convento de Padres Carmelitas.
     A Boêmia passava por momentos muito difíceis, assolada por guerras sangrentas. A cidade de Praga era vítima das mais indizíveis calamidades. Neste contexto, chegam estes excelentes religiosos, cujo mosteiro carecia até do indispensável para sua sobrevivência.
     Nessa época, vivia em Praga a piedosa princesa Polyxena Lobkowicz. Sofrendo na alma as prementes necessidades dos Carmelitas, presenteou-lhes com uma pequena imagem de cera, de 48 cm., que representava um formoso Menino Deus, de pé, com a mão direita erguida em atitude de bênção. A mão esquerda segurava um globo dourado. Seu rosto era muito amável e gracioso. A túnica e o manto tinham sido confeccionados pela própria princesa.
     Acredita-se que a imagem tenha sido esculpida no século XVI na Espanha, em um mosteiro entre Córdoba e Sevilha, como uma cópia de uma outra imagem do local. Ali foi adquirida por Doña Isabela Manriquez de Lara y Mendoza, que a deu como presente de casamento à sua filha Maria Manriquez de Lara, quando esta desposou o nobre checo Vratislav de Pernstein. Mais tarde a imagem foi transmitida à geração seguinte, também como dote de casamento, quando sua filha Polyxena casou-se em primeiras núpcias com Vilem de Rozumberk.
     A princesa Polyxena, ao dar a estátua aos religiosos carmelitas, disse-lhes: "Meus padres, entrego-lhes o maior tesouro que possuo neste mundo. Prestem muitas honras a este Menino Jesus e nada lhes faltará".  
    Os Carmelitas, muito agradecidos, receberam a imagem, colocaram-na no oratório interno do convento, passando a ser venerada por aqueles bons religiosos, especialmente pelo Padre Cirilo. Sem dúvida, este homem poderia receber o título de "Apóstolo do Divino Menino Jesus de Praga".
     A profecia da piedosa princesa cumpriu-se literalmente. Não tardaram a se manifestar os efeitos maravilhosos da proteção do Divino Menino. Muito rapidamente, e em várias ocasiões, verificaram-se inúmeros prodígios e as necessidades do mosteiro foram milagrosamente socorridas.
     Mais uma vez explode a guerra na Boêmia. Em 1631, o exército da Saxônia se apodera da cidade de Praga. Os Padres Carmelitas, prudentemente, acharam por bem transferir-se para Munique. Durante essa época tão desastrosa, especialmente para Praga, a devoção ao Menino Jesus caiu no esquecimento. Os hereges destruíram a Igreja, saquearam o mosteiro, entraram no oratório interno, zombaram da imagem do Menino Jesus e lhe quebraram as mãos, jogando-a com desprezo atrás do altar.
     No ano seguinte, com a retirada dos inimigos de Praga, os religiosos puderam retornar ao seu convento. Mas ninguém se lembrou da preciosa imagem. Por isto, sem dúvida, o mosteiro viu-se reduzido à miséria, como o resto da população. Os religiosos careciam de alimentos e dos recursos necessários para a restauração de sua casa.
     Em 1637, após sete anos de desolação, o Padre Cirilo retornou a Praga. A Boêmia, cercada de inimigos por todas os lados, corria o risco de sucumbir e, quem sabe, até de perder o dom inestimável da fé. Em meio a tais agruras, enquanto o Padre Guardião exortava aos religiosos para que insistissem junto a Deus para colocar fim a tantos males, o Padre Cirilo aproveita para falar-lhe da inesquecível imagem do Divino Menino. Obtém licença para buscá-la e a encontra, finalmente, entre os escombros detrás do altar. Limpou-a e a cobriu de beijos e lágrimas. Estando ainda intato o rosto da imagem, ele a expôs no coro para que os religiosos a venerassem. Estes, confiantes em sua proteção, se ajoelharam diante do Divino Infante, implorando para que fosse seu refúgio, fortaleza e amparo em todos os sentidos.
     A partir do momento em que a imagem foi colocada em seu lugar de honra, o inimigo bateu em retirada e o convento foi reabastecido de tudo que os religiosos necessitavam.
     Certo dia, o Padre Cirilo rezava diante da imagem, quando ouviu claramente estas palavras: "Tende piedade de mim e eu terei piedade de vós. Devolvei minhas mãos e eu vos devolverei a paz. Quanto mais me honrardes, tanto mais vos abençoarei". Realmente a imagem estava sem as mãos, detalhe para o qual o Padre Cirilo não atentara, de tão alegre que estava. Surpreso, o bom Padre correu imediatamente à cela do Padre Superior e lhe contou o fato, pedindo-lhe para mandar reparar a imagem. O Superior se negou a atendê-lo, alegando a extrema pobreza do convento.
     O humilde devoto de Jesus foi chamado a atender um moribundo, Benedito Maskoning, que lhe deu 100 florins de esmola. Padre Cirilo levou o dinheiro ao Superior, convicto de que poderia usá-lo para consertar a imagem. Mas o Superior achou melhor comprar outra imagem, ainda mais bela. E assim foi feito. O Senhor não demorou a manifestar seu desagrado. No mesmo dia da inauguração da nova efígie, um candelabro que estava bem fixo e seguro na parede se soltou e caiu sobre a imagem, despedaçando-a. O Padre Superior adoeceu e não pôde terminar seu mandato.
     Foi eleito um novo Superior. Padre Cirilo volta a suplicar-lhe para consertar a imagem. Mais uma vez seu pedido foi rejeitado. Sem desanimar, o Padre Cirilo recorreu a Nossa Senhora. Mal terminara sua oração, chamam-no à igreja. Aproxima-se dele uma senhora de aspecto venerável, que lhe entrega uma vultosa esmola. Esta senhora desaparece sem que ninguém a tivesse visto entrar nem sair da igreja. Cheio de alegria, o padre foi contar ao Superior o que se passara, mas este só lhe deu meio florim (25 centavos). Sendo tal soma insuficiente para restaurar a imagem, tudo voltou à estaca zero.
     Novas calamidades recaíram sobre o convento. Os religiosos não podiam pagar as despesas de uma propriedade improdutiva que haviam arrendado. Os rebanhos morreram, a peste devastou a cidade. Muitos carmelitas, inclusive o Superior, foram açoitados. Todos recorreram ao Menino Jesus. O Superior se penitenciou e prometeu celebrar 10 missas diante da imagem e propagar seu culto. A situação melhorou consideravelmente, mas como a imagem continuava no mesmo estado, o Padre Cirilo não se cansava de se lamentar diante de seu generoso protetor, quando ouviu de seus divinos lábios estas palavras: "Coloca-me na entrada da sacristia e encontrarás quem se compadeça de mim".
     Com efeito, apareceu um desconhecido que, notando o belo Menino desprovido de mãos, ofereceu-se espontaneamente para colocá-las, não demorando a ser recompensado: em poucos dias ganhou uma causa quase perdida, com a qual salvou sua honra e sua fortuna.
     Os inúmeros benefícios alcançados por intermédio do milagroso Menino multiplicavam dia a dia o número de seus devotos. Por isto os carmelitas desejavam construir-lhe uma capela pública, considerando que o lugar onde deveriam levantá-la já fora indicado pela Santíssima Virgem ao Padre Cirilo. Porém, faltavam os recursos e, além do mais, tinham medo de iniciar esta nova construção num tempo em que os calvinistas estavam arrasando todas as igrejas. Contentaram-se em colocar a imagem na Capela exterior, sobre o altar-mor, até 1642, quando a princesa Lobkowicz mandou construir um novo santuário, inaugurado em 1644, no dia da festa do Santíssimo Nome de Jesus.
     Vinham pessoas de todas as partes para prostrar-se diante do milagroso Menino: pobres, ricos, enfermos, toda espécie de pessoas referia-se a Ele como remédio para todas as suas tribulações.
     Em 1655, o Conde Martinitz, Grão Marquês da Boêmia, brindou a imagem com uma preciosa coroa de ouro cravejada de pérolas e diamantes. O Reverendo D. José de Corte colocou-a no Menino em uma solene cerimônia de coroação.
     Graças e maravilhas incontáveis atribuídas ao "pequeno Grande" (assim chamam na Alemanha o Menino Jesus de Praga) divulgaram-se nas regiões mais longínquas, o que fez seu culto se espalhar até os nossos dias de uma maneira prodigiosa.
Igreja de Na. Sra. da Vitória
     A devoção ao Menino Jesus de Praga foi acolhida com amor em todas as nações. Mosteiros, colégios, escolas e famílias têm-lhe dedicado magníficos tronos. Numerosas paróquias possuem a imagem real e, em todos os lugares em que o honram, o Menino Jesus de Praga derrama inestimáveis favores sobre seus devotos. O Divino Menino deseja cumulá-los de graças. Veneremo-lo, tornemo-lo conhecido e amado, e ele nos abrirá os tesouros de sua bondade.
     As práticas de piedade estabelecidas em honra do Menino Jesus de Praga são inumeráveis, mas aquelas pelas quais ele tem revelado sua especial complacência são: a Ladainha do Nome de Jesus; a recitação de 5 Pai Nossos, Ave-Marias e Glórias, seguidos da jaculatória: "Bendito seja o Nome do Senhor agora e por todos os séculos dos séculos", que também deve ser repetida 5 vezes; a oração eficaz do Padre Cirilo; a oração do Rosário do Menino Jesus; e, finalmente, a celebração de sua festa, que é a festa de Seu Santíssimo Nome, no Segundo Domingo após a Epifania.
     A leitura da história do milagroso Menino Jesus de Praga leva-nos a perceber que frequentemente as graças solicitadas são concedidas após uma novena de súplicas e orações rezadas em sua honra. Também se nota que graças especiais são facilmente obtidas nas seguintes situações: quando se mandam celebrar missas, doam-se esmolas aos pobres em seu nome e quando os devotos se propõem a participar dos sacramentos e a publicar as graças recebidas.
     Por meio desta nova e simpática manifestação do amor divino Jesus deseja por fim a uma calamidade atual que se generalizou pelo mundo inteiro: a perdição da infância causada pela educação anticristã (*). Nosso Senhor Jesus Cristo, que sempre demonstrou um amor de predileção às crianças, manifesta claramente, através desta devoção, o seu grande desejo de ser honrado de forma especial como Rei e Salvador da infância, e quer, por isto, transmitir ao mundo inteiro, especialmente às crianças, os méritos das humilhações sofridas em sua divina infância.

Nota: A festa do Menino Jesus de Praga se celebra no primeiro domingo do mês de junho.


(*) O que dizer da nefasta Ideologia de Gênero que está ameaçando nossas crianças e adolescentes nos dias atuais? Que o Santo Menino vele por nossas crianças!

Adendo

    O Menino Jesus é como um bispo no altar, troca as cores de sua roupa segundo o calendário da Igreja. Em geral costuma-se usar 4 cores básicas:
Branco: cor de glória, pureza e santidade – nas festas de Páscoa e Natividade
Vermelho: a cor do sangue e do fogo – para a Semana Santa, Pentecostes e a Festa da Santa Cruz
Violeta: a cor do arrependimento – para o período do Advento e da Quaresma
Verde: a cor da vida e da esperança – durante o entretempo litúrgico (é a cor mais comum)
     Segundo as fontes, a imagem do Menino Jesus tem sua origem na Espanha. É provável que tenha sido talhada na Espanha na segunda metade do século XVI ou antes. A legenda narra que o Menino Jesus apareceu milagrosamente a um monge, que criou a imagem a partir de sua visão. Outra legenda diz que a imagem pertencia a Santa Teresa de Jesus, que venerava enormemente a infância de Jesus e difundiu a veneração ao Menino Jesus na Espanha. Diz-se que ela deu a imagem a uma amiga cuja filha ia se casar em Praga.
Viagem a Praga
     Sabe-se com certeza que a imagem do Menino Jesus foi levada para Praga pela duquesa espanhola Maria Manriquez de Lara, que se casou com Vratislav de Pernstein em 1556. Mais tarde, ela deu a imagem à sua filha Polyxena de Lobkowicz como presente de casamento. Esta princesa venerava a imagem e obteve consolo e ajuda em numerosas ocasiões.
Ditaduras totalitárias
     Devido às ditaduras nazi e comunista, a veneração foi silenciada durante mais de 50 anos. Entretanto, ainda assim muitos peregrinos viajavam para ver o Menino Jesus, principalmente os fiéis de países de língua espanhola.
     Em 1991, os Carmelitas Descalços regressaram à Igreja de Nossa Senhora da Vitória. A veneração pelo Menino Jesus renasceu.
     O acontecimento mais importante sem dúvida foi a visita do Papa Bento XVI em 2009. Em seu discurso o Papa disse que o Menino Jesus de Praga demonstrava a proximidade e o amor de Deus através de sua ternura infantil. O Papa também rezou pelas famílias que sofrem rupturas e infidelidades; ofereceu uma coroa ao Menino Jesus como presente.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Santa Imbenia, Virgem e Mártir - 3 de janeiro

    
     Piedosa virgem da Sardenha, que sofreu o martírio pela fé em Cristo sob o imperador Diocleciano. Suas relíquias preciosas foram descobertas no ano de 1628 na igreja de São Lussório, na região "Su Tonodiu", e foram levadas para a Basílica da Insigne Colegiada de Santa Maria das Neves, em Cuglieri (diocese de Bosa), onde ainda estão preservadas.
     Celebrações em sua homenagem são realizadas em 3 de janeiro (martírio) e em 30 de abril (em memória da transladação das relíquias).
     No dia 29 de abril, a imagem da virgem é trazida em peregrinação da Basílica de Santa Maria das Neves para a "su Tonodiu", onde há uma pequena igreja com o nome dela. A procissão com o andor começa às 17h e chega à igreja, que dista cerca de 3 km de Cuglieri; o andor é acompanhado na procissão pela Irmandade de Nossa Senhora do Carmelo, das prioresas e da população. Quando o cortejo chega à “su Tonodiu”, o priorado oferece um refresco; a população então segue em direção à igreja para acompanhar a missa. No final da cerimônia, os peregrinos podem dar um passeio ao redor do terreno que circunda a pequena igreja.
     No dia 30 realiza-se a caminhada inversa; chegando à Basílica, os participantes da procissão assistem à Bênção Eucarística e cantam o hino em homenagem à Santa Imbenia.


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus – 1º de janeiro

    
     A Maternidade Divina, dogma solenemente proclamado pelo Concílio de Éfeso (431 d.C.), e tempos depois proclamado por outros Concílios universais, o de Calcedônia e os de Constantinopla, refere-se à Virgem Maria como a verdadeira Mãe de Deus (“Theotókos”), ou seja, Maria é Mãe de Jesus – O Verbo Divino em suas duas naturezas (humana e divina).
     A Carta encíclica Redemptoris Mater diz: “A MÃE DO REDENTOR tem um lugar bem preciso no plano da salvação, porque, “ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido duma mulher, nascido sob a Lei, a fim de resgatar os que estavam sujeitos à Lei e para que nós recebêssemos a adoção de filhos. E porque vós sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: ‘Abbá! Pai!’ (Gál 4, 4-6)”.
     A Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus (Theotókos) ocorre dentro das festividades de Natal, na oitava de Natal (oito dias depois da Natividade, primeiro dia do ano novo), para relembrarmos o nascimento de Jesus, o Filho de Deus. De acordo com a tradição católica, é a primeira Festa Mariana da Igreja Ocidental e começou a ser celebrada em Roma no século VI, possivelmente junto com a dedicação do templo, no dia 1º de janeiro, a “Santa Maria Antiga” no Foro Romano, uma das primeiras igrejas marianas de Roma. Desta forma, esta Festa Mariana encontra seu marco litúrgico no Natal e ao mesmo tempo em que todos os católicos começam o ano novo pedindo a proteção da Santíssima Virgem Maria.
     A seguir, temos mais alguns dados sobre esta importante Solenidade:
Conclui a Oitava de Natal
     Com esta Solenidade se conclui a Oitava de Natal, um conjunto de oito dias desde o dia 25 de dezembro nos quais a Igreja atualmente celebra o nascimento de Jesus.
     No Antigo Testamento (Gn 17,9-14), pode-se ler que há muitos séculos Deus fez uma aliança com Abraão e sua descendência, cujo sinal era a circuncisão ao oitavo dia depois do nascimento. Obedecendo a lei, o Filho de Deus submeteu-se ao prescrito e recebeu, naquele momento, o nome anunciado à Virgem Maria.
     “Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o Menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno” (Lc 2,21).
A Theotókos
     Os primeiros cristãos costumavam chamar a Virgem Maria de “Theotókos”, que em grego significa “Mãe de Deus”. Este título aparece nas catacumbas debaixo da cidade de Roma e em antigos monumentos do Oriente (Grécia, Turquia, Egito).
     Os Bispos reunidos no Concílio de Éfeso (431), cidade onde, segunda a tradição, a Virgem passou seus últimos anos antes de sua Assunção ao céu, declararam: “A Virgem Maria sim é Mãe de Deus, porque seu Filho, Cristo, é Deus”.
     “Sob seu amparo nos acolhemos, Santa Mãe de Deus”, diz uma das antigas orações marianas dos cristãos do Egito do século III. Cabe ressaltar que esse título de “Mãe de Deus” (“Theotókos”) não existia e que foi criado pelos cristãos para expressar sua fé.
Antiga festa mariana
     A “Maternidade de Maria” é uma das primeiras festas marianas na cristandade. Conta-se que, por volta do século V, em Bizâncio, havia uma “memória da Mãe de Deus”, que se celebrava no dia 26 de dezembro, o dia seguinte ao Natal.
     Aos poucos, foi se introduzindo na liturgia romana em um dia da Oitava de Natal e, já no século VIII, encontram-se para esta comemoração antífonas com o título de “Natale Sanctae Mariae”, assim como orações e responsórios com os quais se honrava a divina “Maternidade de Maria”.
     Com o tempo esta memória da Virgem foi transferida para comemorar a “Circuncisão do Senhor”, mas seria mantido o caráter mariano. Em 1931, o Papa Pio XI a restabeleceu para o dia 11 de outubro, por ocasião do XV centenário do Concílio de Éfeso e lhe deu uma categoria equivalente à Solenidade atual.
     Anos depois, nesta data, o Concílio Vaticano II (1962) foi inaugurado. Com a reforma litúrgica de 1969, a “Maternidade de Maria” passou a ser celebrada em 1º de janeiro, dia em que se inicia o “calendário civil”.
Fundamento de dogmas marianos
     O título “Mãe de Deus” é o principal e mais importante dogma sobre a Virgem Maria e todos os demais dogmas marianos encontram seu sentido nesta verdade de fé. Os outros dogmas marianos são: Maria Santíssima teve uma Imaculada Concepção, Perpétua Virgindade e que foi levada em corpo e alma para o céu (Assunção).
     Do mesmo modo, Nossa Senhora tem os seguintes títulos: Mãe dos homens, Mãe da Igreja, Advogada nossa, Corredentora, Medianeira de todas as graças, Rainha e Senhora de toda a criação e todo louvor contidos nas ladainhas do Santo Rosário.
Fontes:https://www.paulus.com.br/portal/santo/maria-santissima-mae-de-deus-solenidade#.WkavdLpFzIUhttp://www.acidigital.com/ 
     No dia em que temos a alegria de começar um novo ano de trabalhos e oração, a Santa Madre Igreja nos convida a celebrar o mais importante título com que a Cristandade, desde as suas origens, tem honrado a Virgem Maria e, por meio dela, Aquele que por Ela quis vir ao mundo. Referimo-nos à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus: dia de preceito, dia de mistério, dia de, com os olhos postos em nossa Mãe Dadivosa, renovarmos todo o conjunto de nossa santa fé católica. Antes, porém, de vermos quais propósitos a festa de hoje nos pode inspirar, olhemos de mais perto as doçuras e preciosidades que se escondem sob este tão grande e tão misterioso título com que a Virgem Santíssima é há séculos aclamada.
     Desde antes de dar seu Filho à luz, Maria foi chamada por Santa Isabel a "mãe de meu Senhor" (Lc 1, 43). E os evangelistas, por sua vez, não se envergonham de referir-nos o que a respeito de Cristo pensavam os nazarenos: afinal, não era Maria sua mãe? (cf. Mt 13, 55). Com efeito, a "mãe de Jesus" (cf. Jo 2, 1; 19, 25), como carinhosamente lhe chama o discípulo a cujos cuidados seria confiada (cf. Jo 19, 26s), é sempre mencionada por sua relação Àquele que "ela concebeu do Espírito Santo como homem e que se tornou verdadeiramente seu Filho segundo a carne" (CIC, § 495).
     Ora, quem é esse Filho, que é esse fruto bendito senão a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho eterno a quem o Pai, gerando-o desde sempre, transmite tudo o que é, tudo o que tem?
     Sob o olhar da fé podemos descobrir aqui a belíssima conveniência dessa maternidade divina, em razão da qual quis o próprio Deus cumular de graças e enriquecer com uma santidade singular Aquela que escolhera para dar à luz o Redentor. É esta, pois, uma verdade atestada já por São Paulo: "[...] quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, que nasceu de uma mulher" (Gl 4, 4): pois do mesmo modo como da substância de Adão Eva fora formada, ainda virgem e sem pecado, assim também o Cristo haveria de tomar parte na carne imaculada de Maria, toda pura e sempre intacta. Eis a justiça, eis a sabedoria com que Deus, servindo-se dos mesmos instrumentos pelos quais a serpente fê-lo ruir, reergue o gênero humano sobre a humildade da nova Eva!
     Indefectivelmente fiel à fé recebida dos Apóstolos, a Igreja nunca temeu confessar que Maria é, de fato, Mãe de Deus (Theotókos). Não porque o Verbo divino, ao fazer-se carne, tenha nela tido origem, mas porque dela recebeu o santo corpo pelo qual operou a obra da nossa salvação; não porque a Virgem Deípara tenha gerado a natureza divina, mas porque deu à luz Cristo, verdadeiro Deus. Mãe de Deus, mãe de Nosso Senhor, mãe da Cabeça da Igreja: devido a esta grande e amável dignidade, não pode a Virgem Maria deixar de ser também mãe dos membros de Cristo, Mãe nossa, à cuja proteção devemos recorrer. Mãe de Cristo Rei, rainha, portanto, dos homens e dos anjos. Mãe do Divino Mediador, mediadora, portanto, para todos os que desejam ir a Jesus e, por meio dEle, ao Pai Celeste.
     Consagremos o ano que hoje começa aos cuidados desta Mãe admirável. Que Ela, pondo-nos sob a proteção de seu manto maternal, nos preserve do pecado, nos ajude a vencer as tentações, nos dê força de vontade para querermos ser santos. Que Ela nos faça perseverar, firmes e constantes, no serviço ao Senhor até o dia de nossa morte, por mais duro e áspero que seja o caminho. Que ao longo deste novo ano possamos associar-nos às dores da Mãe de Deus, a fim de um dia participarmos, ao seu lado, das alegrias que a sua divina maternidade conquistou para todos os redimidos pelo sangue de Cristo!

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Santa Lutgarda e o Papa Inocêncio III

    
     O Papa Inocêncio III morreu no dia 16 de julho de 1216. No mesmo dia, ele apareceu a Santa Lutgarda, no monastério de Aywières, região central da Bélgica. Surpresa por ver um espectro envolto em chamas, ela perguntou de quem se tratava e o que queria.
     “Sou o Papa Inocêncio”, ele respondeu.
     “Mas seria possível que o senhor, nosso pai comum, se encontrasse em um estado assim?”, ela perguntou.
     “Sim, eu de fato me encontro neste lugar”, ele respondeu. “Estou expiando três faltas que teriam causado minha perdição eterna. Graças à bem-aventurada Virgem Maria, obtive o perdão delas, mas tenho de fazer reparação. Ai de mim! Aqui é terrível e isto durará por séculos, se tu não vieres em meu auxílio. Em nome de Maria, que obteve para mim o favor de recorrer a ti, ajuda-me”.
     Depois de dizer estas palavras, ele desapareceu.
     Lutgarda anunciou a morte do Papa a suas irmãs, e juntas elas se dedicaram à oração e a obras penitenciais em favor do augusto e venerável Pontífice, cujo falecimento lhes foi comunicado algumas semanas depois, vindo de outra fonte.
     Nos constrange pensar que um Papa, e ainda mais este Papa, tivesse se condenado a um Purgatório tão longo e terrível!
     O papa Inocêncio III, pontífice de 1198 até 1216, foi um dos papas mais influentes da história. Sabemos que ele foi um dos maiores Pontífices a se sentar no trono de S. Pedro. Ele convocou e presidiu em 1215 o célebre Concílio de Latrão, no qual foi definida dogmaticamente a doutrina da transubstanciação. Foi ele que concedeu a São Francisco de Assis e ao seu pequeno grupo de seguidores a permissão para fundar a Ordem dos Frades Menores.  Seu zelo e sua piedade levaram-no a realizar grandes feitos pela Igreja de Deus e pela santa disciplina. Ele fez grandes esforços para combater as heresias na Europa e repelir a invasão das hordas muçulmanas. Em parte, a sua grande energia se devia à incomum juventude com que foi eleito papa: 37 anos de idade.
     No entanto, após 18 anos como pontífice, ele morreu de repente.
     Como admitir, então, que um homem dessa estirpe fosse julgado com tamanha severidade pelo Tribunal Supremo? Como reconciliar essa revelação de Santa Lutgarda com a misericórdia divina?
     A veracidade dessa aparição é admitida pelos mais sérios autores, não sendo rejeitada por nenhum sequer. Ademais, o biógrafo dessa santa, Tomás de Cantimpré, é muito transparente ao escrever e, ao mesmo tempo, bastante reservado. “Devo explicar, leitor”, ele escreve ao fim de sua narrativa, “que foi da própria boca da piedosa Lutgarda que eu ouvi as faltas reveladas pelo defunto, as quais eu omito aqui por respeito a um tão grande Pontífice”.
     Os Papas aparecem diante do tribunal de Deus assim como o mais humilde dos fiéis. Judicium durissimum his, qui praesunt, fiet: “Será duríssimo o juízo dos que governam” (Sb 6, 6). É o Espírito Santo quem o declara. Pois bem, Inocêncio III reinou por dezoito anos e durante tempos muito turbulentos; além disso, acrescentam os Bolandistas, não está escrito que os julgamentos de Deus são inescrutáveis, e com frequência muito diferentes dos julgamentos dos homens? Judicia tua abyssus multa: “Teus juízos são como o grande abismo” (Sl 35, 7).
     A realidade dessa aparição não pode, portanto, ser razoavelmente posta em dúvida, dado que Deus não revela mistérios dessa natureza senão com o fim de que sejam conhecidos para a edificação de sua Igreja.

Referências: Extraído e levemente adaptado da obra "Purgatory Explained by the Lives and Legends of the Saints” (c. XXII), Londres: Burns & Oates, 1893, pp. 71-73.
(Pe. François Xavier Schouppe, via Pe. Paulo Ricardo)

Quem foi Santa Lutgarda?
    
     Santa Lutgarda, Mística Cisterciense de Aywières, Bélgica, é padroeira dos cegos e é festejada no dia 16 de junho.
     Ela nasceu em Tongres, Holanda, em 1182. Aos doze anos de idade foi recomendada às monjas beneditinas do Convento de Santa Catarina, próximo de Saint-Trond, não por piedade, mas porque o dinheiro para seu dote matrimonial havia sido perdido por seu pai. Era o costume da época.
      Lutgarda era bonita e gostava de divertir-se sadiamente e de vestir-se bem. Não aparentava ter vocação religiosa; vivia no convento como uma espécie de pensionista, livre para entrar e sair.
     Um dia, porém, enquanto conversava com umas pessoas amigas, teve uma visão de Nosso Senhor Jesus Cristo que lhe mostrava suas feridas e lhe pedia que amasse somente a Ele. Lutgarda naquele dia descobriu o amor de Jesus e o aceitou no mesmo instante como seu Prometido. Desde aquele momento sua vida mudou. Algumas monjas, que observaram a mudança em Lutgarda, vaticinaram que aquilo não duraria. Enganaram-se, pois seu amor por Jesus crescia. 
     Ao rezar, Lutgarda O via com seus olhos corporais, falava com Ele de forma familiar. Quando a chamavam para algum serviço ela dizia a Jesus: "Espere-me aqui, meu Senhor; voltarei logo que termine esta tarefa". Teve também visões de Santa Catarina, a padroeira de seu convento, e de São João Evangelista.  Às vezes durante seus êxtases erguia-se um palmo do solo ou sua cabeça irradiava luz.
     Participava misticamente dos sofrimentos de Jesus quando meditava sobre a Paixão. Nessas ocasiões apareciam em sua fronte e em seus cabelos minúsculas gotas de sangue. Seu amor se estendia a todos de maneira que sentia como próprias as dores e penúrias alheias.
     Depois de doze anos no Convento de Santa Catarina, sentiu-se inspirada a abraçar a regra cisterciense que é mais estrita. Seguindo o conselho de sua amiga Santa Cristina, que era do seu convento, ingressou no Convento Cisterciense de Aywières. Ali só se falava o francês, idioma que ela desconhecia, mas era para ela uma forma de maior desapego do mundo.
     Certa ocasião, quando rezava oferecendo veementemente sua vida ao Senhor, arrebentou-se uma veia que lhe causou uma forte hemorragia. Foi-lhe revelado que no Céu aquilo fora aceito como um martírio.
     Tinha o dom de cura de enfermos, de profetizar, de entender as Sagradas Escrituras, de consolar espiritualmente. Segundo a Beata Maria de Oignies, Lutgarda é uma intercessora sem igual para os pecadores e as almas do purgatório.
 
Visões do Sagrado Coração de Jesus

     Em uma ocasião, Nosso Senhor lhe perguntou que presente ela desejava. Ela respondeu: "Quero Teu Coração", ao que Jesus respondeu: "Eu quero teu coração". Aconteceu então algo sem precedentes conhecidos: Nosso Senhor misticamente trocou corações com Lutgarda.
     Onze anos antes de morrer Santa Lutgarda perdeu a visão, fato que recebeu com gozo, como uma graça para desprender-se mais de tudo. Mesmo cega jejuava severamente. O Senhor lhe apareceu para anunciar sua morte e as três coisas que devia fazer para preparar-se:
1 - dar graças a Deus sem cessar pelos bens recebidos;
2 - rezar com a mesma insistência pela conversão dos pecadores;
3 - em tudo confiar unicamente em Deus.
     Sua morte ocorreu na noite do sábado posterior à Festa da Santíssima Trindade, precisamente quando começava o oficio noturno do domingo. Era o dia 16 de junho de 1246.
     Foi beatificada e o seu túmulo, no coro de Aywières, foi objeto de grande devoção.
     No dia 4 de dezembro de 1796, para escapar às consequências da Revolução Francesa, a comunidade de refugiou em Ittre com as relíquias da Santa, exumada no século XVI.
     Em 1870 os preciosos despojos tornaram-se propriedade da igreja paroquial e, sete anos depois, passaram para Bas-Ittre.