domingo, 11 de março de 2018

Santa Fina de San Gimignano, Virgem – 12 de março

Martirológio Romano: Na cidade de San Gimignano, na Toscana, Beata Fina, virgem, que desde tenra idade suportou com paciência heroica uma longa e grave doença confiando somente em Deus

     Santa Serafina, também conhecida por Santa Fina, foi uma vítima expiatória a Deus que, por cinco anos, se viu pregada ao leito com o corpo em corrupção e na mais extrema pobreza. À sua morte, muitos milagres ocorreram. O seu nome provém de Seraphim, que significa "ser ardente" em hebraico.
     Filha de Cambio e Imperia, nobres decaídos, nasceu em San Gimignano em 1238; teve uma vida curta, mas religiosamente muito intensa.
     Aos 10 anos foi acometida por uma doença grave que a prostrou no leito, talvez alguma forma de tuberculose ou osteomielite, e, de uma forma mística, longe de se desesperar, suportou com grande coragem e grande fé a enfermidade que a impedia de fazer qualquer movimento.
      Acresceu a tal sofrimento a perda da mãe. Com o corpo coberto de chagas dava aos que a visitavam um exemplo de paciência, ensinando-os o culto da Paixão do Senhor e a devoção a Rainha dos Mártires.
     No princípio do século XIV o dominicano João del Coppo escreveu uma biografia de Santa Fina, em que ele se mostra mais preocupado com a piedade do que com os dados históricos. Di Coppo assim relata:
     São Paulo nos ensina que o sofrimento fortalece o espírito. Por este motivo, Fina era a mais bela e formosa criatura aos olhos de Jesus Cristo, seu mestre, que lhe permitiu tantos sofrimentos. Ela ficou paralítica de seu pescoço para baixo, todo corpo paralisado. Ao final, já não podia mover-se, nem sequer um braço ou mão.
     Enquanto Deus permitia esta aflição, ela decidiu não repousar em uma cama confortável. Ao contrário, escolheu uma tábua de madeira para deitar-se. E como um lado de seu corpo ficou paralisado, afligido pela doença, ela decidiu deitar-se sobre o lado saudável. Por cinco anos esteve nesta posição. Não permitia a ninguém trocá-la de posição. Permaneceu por tantos anos assim que sua carne era uma grande ferida. E, no entanto, nunca gemeu ou reclamou; manteve-se dando graças a Deus até o final. 
     Santa Fina faleceu no dia 12 de março de 1253, festa de São Gregório Magno, de quem era devota e de quem recebera o anúncio da morte numa visão. No momento da sua morte os sinos de San Gimignano soaram em festa sem que mão alguma os tangesse. Este detalhe se encontra na biografia mencionada.
     O culto de Santa Fina foi muito vivo desde o início também pelos inúmeros milagres que ocorriam junto ao seu sepulcro. Com as doações deixadas sobre seu túmulo, um hospital foi construído em sua honra, com a missão de acolher os pobres e doentes. Bem administrado, logo tornou-se um dos mais importantes da região e permaneceu em uso por mais de 800 anos. Na capela do hospital estava a tábua na qual a Santa repousava. 
     Foi eleita patrona da cidade. Em 1457 o Conselho do Povo deliberou a construção da magnifica capela que ainda se pode admirar na colegiada.

Fontes:
www.santiebeati.it/

Casa de Santa Fina

     San Gimignano é um dos vilarejos medievais mais característicos e encantadores da Toscana, é uma cidadezinha que permaneceu quase intacta desde o fim do século XIV até hoje, como consta claramente nas pinturas da época (por exemplo, a tela de Taddeo Bartolo, no Museu Cívico da cidade).
     Sua extensão é de poucos quilômetros quadrados e os habitantes não passam de 7.000, mas é digna de competir até com um monumento de prestígio como a Torre de Pisa. O mérito é, por exemplo, das galerias, dos museus, que ficam sempre abertos, do teatro, que oferece apresentações musicais no verão além da temporada de inverno, da biblioteca, que abriga mais de 100.000 obras, dos corais, das escolas de dança, das bandas e escolas de música. Em outras palavras, a cultura tem um papel predominante. Portanto, não é por acaso que San Gimignano tenha sido eleita pela Universidade de Sena como sede para os cursos de mestrado, e todos os anos recebe muitas exposições de arte contemporânea.
     Das setenta casas-torre que existiam na época medieval, que são uma das características típicas desta vila, hoje só restam treze e graças a elas San Gimignano conservou toda a arquitetura fascinante de um período inspirador. No passado, as casas-torre não eram apenas um elemento de prestígio (a competição era para quem tinha a casa-torre mais alta), mas também tinham razões práticas, como a defesa.
     As casas-torre, ligadas entre si através de pontes, eram um sistema extremamente seguro de passar de uma casa-torre para outra sem ter de passar pela rua. Outro motivo da difusão das casas-torre teria sido em relação ao mundo da indústria têxtil. Nessa região eram usados corantes à base de açafrão. Para fixar bem a cor era preciso manter o tecido longe do pó e do so; não tendo espaço adequado para estender os tecidos, as pessoas sempre construíam casas mais altas.
     Suas principais atrações: a Catedral de San Gimignano e o Palácio Comunal, que fica bem ao lado, onde está a Pinacoteca de Arte Medieval. Sua fachada romântica do século XII é toda original e lá dentro estão reunidas várias obras-primas, entre elas uma cruz de madeira de 1200.
Aspectos da cidadezinha de San Gimignano

sexta-feira, 9 de março de 2018

Santa Francisca Romana, Viúva, Fundadora – 9 de março

Santa Francisca Romana (1384-1440), de nobre e rica família, casou-se muito jovem, teve três filhos, fundou as "Oblatas de Maria" e em março de 1433 também fundou o mosteiro em Tor de' Specchi, perto do Campidoglio (Roma). Quando seu marido morreu, em 1436, ela se mudou para esse mesmo mosteiro e se tornou a prioresa.

     Os dados que damos a seguir constam da obra de Ernest Hello “Physionomies de saints”.
     A vida de Francisca reside nas visões. Suas visões mais singulares, mais estupendas, mais características, são as visões do inferno. Inúmeros suplícios, variados como os crimes, lhe foram mostrados no conjunto e nas minúcias.
     Santa Francisca Romana viu o ouro e a prata derretidos, acumulados pelos demônios nas gargantas dos avarentos.
     Viu as hierarquias de demônios, suas funções, seus suplícios e os crimes a que eles presidem.
     Viu Lúcifer, consagrado ao orgulho, chefe geral dos orgulhosos, rei de todos os demônios e de todos os condenados. Esse rei é muito mais desgraçado do que todos os seus súditos.
     O inferno é dividido em três partes: o inferno superior, o inferno médio e o inferno inferior. Lúcifer está no fundo do inferno inferior. Sob Lúcifer, chefe universal, acham-se subordinados três chefes a ele e prepostos aos demais: Asmodeu, que preside os pecados da carne, era um querubim; Mamon, que preside aos pecados de avareza, era um trono; Belzebu preside aos pecados da idolatria.
     Belzebu é particular e especialmente o príncipe das trevas. É torturado pelas trevas e é por meio das trevas que tortura suas vítimas.
     Uma parte dos demônios fica no inferno; outra reside no ar e outra reside entre os homens, buscando a quem devorar.
     Os que ficam no inferno dão as suas ordens e enviam seus deputados; os que residem no ar agem fisicamente sobre as perturbações atmosféricas e telúricas, lançam por toda parte influências más, empestam o ar física e moralmente.
     O seu escopo é principalmente debilitar a alma. Quando os demônios encarregados na terra veem uma alma debilitada pela influência dos demônios do ar, atacam-na no seu esmorecimento para vencê-la mais facilmente.
     Atacam-na no momento em que ela desconfia da Providência.
(Daí recomendarmos a leitura do “Livro da Confiança” do Abbé Thomas de Saint Laurent, porque quando se desconfia da Providência é a hora em que todas as tentações vêm. Enquanto a pessoa é confiante, a tentação pode vir, mas tem um âmbito restrito.)
     Esta desconfiança de que os demônios do ar são especialmente inspiradores preparam a alma para a queda que os demônios da terra dela vão solicitar.
     A partir do momento em que ela esteja enfraquecida pela desconfiança, inspira-lhe o orgulho, em que ela tanto mais facilmente cai, quanto mais débil se encontre.
     Quando o orgulho lhe tenha aumentado a fraqueza, chegam os demônios da carne que lhe insuflam seu espírito; quando os demônios da carne a enfraqueceram ainda mais, chegam os demônios incumbidos dos crimes de dinheiro.
     E quando este (demônio do dinheiro) tenha nela diminuído mais ainda os recursos da resistência, chegam os demônios da idolatria que completam ou rematam o que os outros começaram. E assim é uma crise espiritual completa.
      Todos se combinam para o mal e aqui se tem a lei da queda: todo pecado no qual se detém ("tout péché que l'on garde..."), arrasta a outro pecado. Assim, a idolatria, a magia e o espiritismo aguardam no fundo do abismo aqueles que de precipício em precipício lhe escorregam nas cercanias.
     Todas as coisas da hierarquia celeste são parodiadas na hierarquia infernal. Nenhum demônio pode tentar uma alma sem licença de Lúcifer. Os demônios que estão no ar ou na terra não sofrem atualmente a pena de fogo, mas aturam outros suplícios terríveis e particularmente à vista do bem que fazem os santos.

Tomando o aspecto de Santo Onofre (sec. IV), que Santa Francisca Romana venerava, o demônio convidou-a para que fosse à sua ermida para afastá-la de sua vocação de fundar a Congregação das Oblatas (afresco no Mosteiro de Tor de'Specchi, de autor desconhecido - 1485)

     Quando Santa Francisca era tentada, sabia - pela natureza e pela violência da tentação - de que altura caíra o anjo tentador e a que hierarquia pertencera, porém, quando uma alma é salva, também o demônio tentador é escarnecido pelos outros demônios. É conduzido perante Lúcifer que lhe inflige um castigo especial, distinto das suas outras torturas.
     Este demônio entra às vezes, em consequência, no corpo de animais ou de homens e então faz-se passar pela alma de um morto. Quando o demônio conseguiu perder uma alma, após a condenação dessa alma, torna-se o tentador de outro homem, porém é mais hábil do que na primeira vez. Aproveita a experiência que lhe deu vitória, é mais hábil e forte para perder.

Devemos pedir a Santa Francisca Romana que ela nos dê discernimento que nos faça compreender como o católico precisa estar preparado para lutar contra essa pluralidade de influências. E nos previna contra uma doutrina errada - e infelizmente tão frequente - de que a tentação do demônio só é aquela que nos leva diretamente para o pecado e que quando não leva para o pecado diretamente, isso não é tentação do demônio. O que prepara o ambiente para o pecado já é tentação do demônio. Então, as perturbações, as cóleras, as agitações, as fermentações da imaginação, facilmente podem ser tentações do demônio e precisamos nos precaver contra elas.
Igreja onde se encontram as relíquias de Sta. Francisca Romana

NOTA: Para maiores detalhes da vida de Santa Francisca Romana, vide neste blog dia 9 de março de 2012.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Lady Day vs Dia Internacional da Mulher – 8 de março


Neste Dia Internacional da Mulher, este blog tem a alegria de reproduzir um texto do site Return to Order, dos EUA, em que o autor contrapõe ao tema feminista o Lady Day, que existe naquele país. 

A verdadeira maternidade entrará em choque com o tema feminista em 8 de março
Por John Horvat II  
   O Dia Internacional da Mulher (8 de março) está entre nós mais uma vez. As feministas aproveitarão a ocasião para promover sua agenda radical.
      O slogan feminista deste ano é Push for Progress, que defende a "paridade do gênero", outra maneira de destruir a distinção natural e a complementaridade dos dois sexos. Em contraste, o Lady Day também é comemorado no dia 8 de março.
      O Lady Day deste ano vai honrar o chamado sublime e sacrificial da maternidade, tanto física como espiritual; a vocação mais nobre da mulher na vida.
      Realizar-se-á sob o nobre patrocínio de Sua Alteza a Duquesa Pilar Oldenburg Méndez de Vigo e Löwenstein.
      As participantes são incentivadas a celebrar este aspecto puro e sacrificial da maternidade, visitando um santuário de nossa Mãe Santíssima e se unindo a outras senhoras para o chá em casa ou em uma casa de chá.
     Iniciado pelo movimento socialista em 1911, os encontros do Dia Internacional da Mulher revelam um ódio diabólico a Deus, na medida em que buscam esmagar o papel essencial das mulheres na civilização cristã.
     Essa rebelião egocêntrica comemora vulgaridade, imodéstia e rejeita todas as coisas tradicionalmente vistas como femininas. Esse feminismo leva ao aborto e à supressão da maternidade. As mulheres são encorajadas a dar as costas à vida familiar a favor das promessas vazias de carreiras mundanas, imoralidade e controle da natalidade.
      A celebração da pureza, elevação e sacrifício da maternidade é uma resposta adequada para aqueles que aplaudem a completa falta de restrições sexuais e morais que, tragicamente, faz parte de nossa cultura popular.
      O grande anticomunista húngaro Cardeal Joseph Mindszenty escreveu o seguinte sobre a importância da mãe:
     "A pessoa mais importante na terra é a mãe. Ela não pode reivindicar a honra de ter construído a Catedral de Notre Dame. Ela não precisa. Ela construiu algo mais magnífico do que qualquer catedral: uma habitação para uma alma imortal, a pequena perfeição do corpo de seu bebê. Os Anjos não foram abençoados com tal graça. Eles não podem compartilhar o milagre criativo de Deus para levar novos santos ao céu. Apenas uma mãe humana pode. As mães estão mais perto de Deus o Criador do que qualquer outra criatura. Deus une forças com as mães na realização deste ato de criação. O que na boa terra de Deus é mais glorioso do que isto: ser mãe?"
         O Lady Day 2018 estará sob o nobre patrocínio de Sua Alteza a Duquesa Pilar Oldenburg Méndez de Vigo e Löwenstein. Ela é casada com Sua Alteza o Duque Paul de Oldenburg. Eles têm cinco filhos.
      Veja novidades e fotos do Lady Day 2017 aqui. Para mais informações sobre o Lady Day 2018, ligue para 888-317-5571.






Feministas de 1914

Feministas de hoje

Santas Perpétua e Felicidade, mártires – 7 de março

    
     O texto da Passio desta Santa é escrito no latim do século III, que dará origem ao latim cristão e a seu primeiro cultor, Tertuliano, que poderia ser o redator final da Passio de Perpétua e seus companheiros mártires. Aceita ou não esta hipótese, o certo é que o martírio de Perpétua aparece nos grandes escritos cristãos provenientes daquela província africana: o próprio Tertuliano (De anima 55, 4), natural de Cartago e contemporâneo dos quatro mártires (240 d. C.), Santo Agostinho, natural de Tagaste e Bispo de Hipona (430 d.C.), que escreveu diversos sermões sobre seu martírio (Sermões 280; 281-282). O martírio de Perpétua e companheiros também está testemunhado por uma inscrição em mármore descoberta em uma basílica cristã nos arredores de Cartago, no bairro de Mçidfa, que provavelmente se identifica com a Basílica Maiorum, onde a memória dos mártires era venerada.
     O texto da Passio de Perpétua oferece um elemento singular: a integração, pelo redator final, dos relatos autobiográficos de Perpetua e Sáturo, escritos de sua própria mão, relativos aos acontecimentos e visões que precederam seu martírio (respectivamente, §§ iii-x y xi-xiii).
     Assim, não se pode negar a autenticidade dos fatos narrados na Passio dos mártires de Cartago, encabeçados e liderados por Vibia Perpétua, mulher bela e culta, de família rica e conhecida em Cartago, mãe de uma criança de peito. No outro extremo da classe social, encontramos Felicidade e Revocato, que são irmãos e escravos.
     A Passio relata a prisão dos futuros mártires em Thuburbo Minus, uma cidade a 50 km ao sul de Cartago. A prisão era uma consequência do edito do imperador Septimio Severo, também originário da África, que proibia as conversões ao Cristianismo e ao Judaísmo. O fato de um catequista (Sáturo) e quatro catecúmenos serem detidos longe de Cartago, sua provável cidade natal (pelo menos a de Perpétua), revela que eles estavam tentando se esquivar da proibição, instruindo-se fora da capital da província da África.
     Quatro dos detidos, Perpétua, Felicidade, Revocato e Saturnino, todos eles catecúmenos, recebem o Batismo no quartel de Thuburbo Minus – não se trata de um cárcere – conjuntamente com Segundo, outro catecúmeno que morrerá no cárcere decapitado (sendo cidadão romano, o dispensaram do tormento das feras). Eles tinham sido conduzidos àquele quartel pelos oficiais e guardas do Estado romano, que os tinham detido.
     Os futuros mártires se preparam espiritualmente para eventuais “sofrimentos da carne”. Perpétua deve resistir às exortações de seu pai, que quer fazê-la desistir de seu compromisso.
     Depois, nos §§ iii-vi da Passio há o relato da transferência dos prisioneiros para Cartago, onde são colocados no cárcere proconsular da cidade, inóspita e insalubre, situada provavelmente na colina de Byrsa.
     Perpétua assim a descreve em seu diário: "Nos lançaram no cárcere e eu fiquei consternada, porque nunca havia estado em um lugar tão escuro. O calor era insuportável e estávamos em muitas pessoas em um subterrâneo muito estreito. Me parecia morrer de calor e de asfixia, e sofria por não poder ter junto de mim meu filhinho, que era tão pequeno e que necessitava muito de mim. O que mais eu pedia a Deus era que nos concedesse uma coragem muito grande para sermos capazes de sofrer e lutar por nossa Santa Religião".
     Dois diáconos conseguiram que os prisioneiros fossem tirados temporariamente das masmorras e pudessem receber a visita de seus familiares. Perpétua pode amamentar seu filho, até que o pai dela, contrário à sua conversão, não mais lhe levasse a criança. Ela diz em seu diário: "Desde que tive meu pequenino junto de mim aquilo não me parecia um cárcere, mas um palácio, e eu me sentia cheia de alegria. E o menino também recuperou a sua alegria e o seu vigor". As tias e a avó se encarregaram depois da criança e de sua educação.
     Ali também Perpétua teve a visão da escada de bronze, em que lhe foi dito que teriam que subir por uma escada cheia de sofrimentos, mas que no final de dolorosa escalada o Paraíso Eterno os estaria esperando. Ela narrou a visão que tivera a seus companheiros, e todos se entusiasmaram e fizeram o propósito de permanecerem firmes na Fé até o fim.
     “Poucos dias depois”, os futuros mártires foram conduzidos ao foro da cidade, onde foram interrogados diante da multidão pelo procurador Hilariano, que atua como governador exercendo o “direito de espada”, ditando as penas capitais. Diante da negativa de oferecerem sacrifícios “pela saúde dos imperadores”, os condenou a morrer atirados “às feras”. Perpétua, diante da pergunta de Hilariano: “Sois cristã?”, responde: “Sim, eu sou!”.
     Finalmente os prisioneiros, já condenados à morte, são transladados para outro lugar, a prisão militar, situada no interior do castrum, ou instalação castrense, onde ficavam aquarteladas as tropas romanas a serviço do governador.
     Perpétua tivera uma visão de Dinócrates, seu irmão mais novo, que falecera criança ainda, era pagão e sofria no outro mundo. Na prisão militar tem nova visão de Dinócrates, vendo que este finalmente foi libertado de “seu tormento” graças às orações de sua irmã, que está a caminho do martírio e que por esta razão tem um poder de intercessão junto de Deus.
     Os condenados são amarrados ao cepo, pelo menos na primeira noite, à espera de sua execução, que terá lugar entre uns jogos castrenses convocados “por motivo do aniversário do césar Geta”, filho mais novo do imperador Septimio Severo, no dia 7 de março de 203, os quais seriam provavelmente celebrados no anfiteatro da cidade.
     Os prisioneiros contam agora com a boa vontade do suboficial Pudente (que Sáturo, o catequista, vinha tentando converter à Fé cristã), encarregado das visitas, que facilita a ida de muitas pessoas para vê-los, entre elas o pai de Perpétua.
     Então chegou seu pai (o único da família que não era cristão) e de joelhos lhe rogava e suplicava que não persistisse em se chamar cristã, que aceitasse a religião do imperador, que o fizesse por amor a seu pai e a seu filhinho. Ela se comoveu intensamente, porém terminou dizendo-lhe: - "Pai, como se chama essa vasilha que há aí em frente?" "Uma bandeja", respondeu-lhe o pai. - "Pois bem, essa vasilha deve ser chamada de bandeja, e não de xícara, ou de colher, porque é uma bandeja. E eu, que sou cristã, não posso ser chamada nem de pagã, nem de nenhuma outra religião, porque sou cristã e quero ser para sempre". E acrescenta o diário escrito por Perpétua: "Meu pai era o único de minha família que não se alegrava porque nós íamos ser mártires por Cristo".
     Um dia antes da execução, Perpétua tem uma terceira visão: o egípcio derrotado, símbolo do demônio vencido pela perseverança dos mártires sustentados por Nosso Senhor Jesus Cristo. Sáturo também tem uma visão, neste caso a do Paraiso, um jardim cheio de flores com uma casa de luz onde se encontra o trono de Deus, que acolhe os mártires.
     A Providência divina se encarrega de que Segundo tenha uma morte “doce” no cárcere: o decapitam e não passa pelo tormento das feras. Por sua vez, Felicidade recebe uma graça ao contrário: dá à luz uma menina e assim pode ser colocada na lista dos que morreriam (segundo o direito romano, uma grávida não podia ser executada, já que se condenava um inocente a morrer, o nascituro).
     Todos estão prontos para a grande prova. Era permitido aos condenados à morte fazer uma ceia de despedida. Os condenados convertem a “ceia livre” da vigília da execução em uma ágape, uma cerimônia Eucarística: todos recebem a Comunhão, se despedem e se preparam para a morte.
     No dia da execução, antes de levá-los à arena para seu segundo batismo – o de sangue –, os soldados queriam que os homens entrassem vestidos de sacerdotes de Saturno e as mulheres vestidas de sacerdotisas de Ceres, deuses dos pagãos. Perpétua, porém se opôs corajosamente e ninguém quis colocar roupas de religiões falsas, usam túnicas simples.
     Já na arena, quando passam diante de Hilariano, que preside os jogos fazendo as vezes de procônsul, com gestos lembram-lhe o juízo de Deus que cairá sobre ele. A resposta é imediata: os cinco mártires devem ser fustigados ao passar entre duas filas de uns gladiadores presentes ao espetáculo. Estes eram reciarios, gladiadores de nível mais baixo que vão apetrechados de tridentes e redes, encarregados de combater contra as feras.
     Revocato e Saturnino são atacados por diversas feras (um leopardo, um javali e um urso, o animal mais temido), e Sáturo fica ileso por duas vezes. Ele, que havia conseguido converter o suboficial Pudente, lhe dissera: "Para que vejas que Cristo sim é Deus, te anuncio que me lançarão a um urso feroz, e essa fera não me fará nenhum mal". E assim aconteceu: amarraram-no e aproximaram-no da jaula de um urso muito agressivo. O feroz animal não lhe quis fazer nenhum mal, mas, pelo contrário, deu uma tremenda mordida no domador que tratava de fazê-lo se lançar contra o santo diácono. Soltaram então um leopardo, que destroçou Sáturo.
     Quanto a Perpétua e Felicidade, senhora e serva, queriam que elas saíssem nuas e envoltas nas redes dos reciarios, mas o público não aceita e elas saem para a arena vestidas com uma simples túnica. As duas mulheres são atacadas por uma vaca selvagem que as fere gravemente. Perpétua viu sua amiga ser atingida pelo animal e ainda conseguiu amparar sua irmã de fé em seus braços e recompor sua roupa estraçalhada, numa demonstração de respeito, dignidade e amor.
     Os pagãos que assistiam ao “espetáculo” se emocionaram por um curto espaço de tempo, o público se dá por satisfeito com este tormento e ambas são conduzidas à porta Sanavivaria, a dos salvos.  Porém, logo começaram a gritar pedindo a morte de Perpétua. Elas retornam e devem ser decapitadas. O verdugo que devia matar Perpétua estava muito nervoso e errou o golpe de espada. Ela deu um grito de dor, estendeu a cabeça sobre o cepo e indicou com a mão o local preciso onde o verdugo devia dar-lhe o golpe. Esta mulher valorosa demonstrou com este gesto que morria mártir por sua própria vontade e com toda generosidade.
     
Local do martírio
O martírio destas Santas ocorreu no dia 7 de março do ano 203. Pelo fato de terem sido martirizadas, ou seja, morreram por causa da fé em Jesus Cristo, as duas foram canonizadas e se tornaram exemplo de fé e coragem, fazendo aumentar bastante o número dos cristãos.
     Estas duas mulheres, uma rica e instruída e a outra humilde e simples serva, jovens esposas e mães, que na flor da vida preferiram renunciar às alegrias de um lar, para permanecerem fiéis à religião de Jesus Cristo, o que nos ensinam? Sacrificaram o que poderia restar-lhes de vida nesta terra e estão a mais de 17 séculos gozando eternamente no Paraíso.

Fontes: Pasión de las Santas Perpetua y Felicidad, traducción del latín de alejandra de Riquer - barcelona 2015 acantilado;

terça-feira, 6 de março de 2018

Santa Rosa de Viterbo, Virgem – 6 de março

    


     A época em que viveu Santa Rosa foi muito conturbada na Itália devido às guerras que o imperador Frederico II movia contra o Papado para apoderar-se dos Estados Pontifícios. Excomungado duas vezes, entretanto ele tomou parte na Sexta Cruzada. Mas Inocêncio IV o destituiu no Concílio de Lião e o papa Gregório IX chegou a chamá-lo de Anticristo.
    Além disso, havia os conflitos civis provocados por duas famílias que disputavam o governo da cidade de Viterbo. Era uma época de grandes confrontos. De um lado surgia São Francisco de Assis, o irmão menor de todos, do outro, o imperador Frederico II, o grande estadista que governava com mão de ferro. Em um extremo, o poder Espiritual, a Igreja, e de outro o mundo, o Imperador.
     Santa Rosa nasceu numa data incerta do ano de 1234, na cidade de Viterbo, então uma comuna contestada dos Estados Pontifícios. Os pais, João e Catarina, eram cristãos fervorosos. A família possuía uma boa propriedade na vizinha Santa Maria de Poggio, vivendo com conforto da agricultura.
     Envolta por antigas tradições e sem dados oficiais que comprovem os fatos narrados, a vida de Rosa foi breve e incomum. Como sua mãe trabalhava para as Irmãs Clarissas do mosteiro da cidade, Rosa recebeu a influência da espiritualidade franciscana ainda muito pequena. Ela era uma criança carismática, possuía dons especiais e um amor incondicional ao Senhor e a Virgem Maria.
     Ela passou sua curta vida como que reclusa na casa do pai e foi incansável no apoio do papado. Apesar de viver em isolamento, Rosa tornou-se conhecida por seus dons místicos de prever o futuro e pelos seus milagres. Um deles foi operado em favor de sua falecida tia materna, quando ela, com apenas três anos de idade, por suas orações obteve sua ressurreição.
     Aos sete anos a menina já se devotava à oração e penitência. No dia 23 de julho de 1247, foi atacada por uma forte febre. De repente, ajoelhou-se em sua cama e balbuciou o nome de Maria, ficou ali por um longo tempo. Então levantou-se e sorriu: estava sem febre. Contou então que a Virgem lhe apareceu e lhe confiara uma missão: visitar as igrejas de São João Batista, Santa Maria do Outeiro e São Francisco. E que depois da Missa fosse pedir sua admissão na Ordem da Penitência de São Francisco, hoje chamada de Ordem Franciscana Secular.
     Admitida na Ordem Terceira, passou a vestir seu hábito, composto de uma simples túnica com uma corda na cintura. Rosa também cumpriu o mandato recebido da Virgem, saindo pelas ruas da cidade alçando um crucifixo e conclamando o povo a pedir perdão por seus pecados e a fazer penitência.
     No ano de 1247 a cidade de Viterbo, fiel ao Papa, caiu nas mãos do imperador Frederico II, um herege, que negava a autoridade do Papa e o poder do Sacerdote de perdoar os pecados e consagrar. Rosa teve uma visão com Cristo que estava com o coração em chamas. Ela não se conteve, saiu pelas ruas pregando com um crucifixo nas mãos. A notícia correu toda cidade, muitos foram estimulados na fé, e vários hereges se converteram. Com suas palavras confundia até os mais preparados. Por isto, representava uma ameaça para as autoridades locais.
     Em janeiro de 1250, Viterbo tomou partido pelo Imperador e revoltou-se contra o Papa. Quando Rosa postou-se vigorosamente ao lado do Sumo Pontífice, ela e sua família foram exiladas, refugiando-se em Soriano Nel Cimino. Lá, no dia 5 de dezembro do mesmo ano, Rosa teve a visão de um anjo que lhe anunciava a morte do Imperador e o apaziguamento da cidade de Viterbo, profecia que se realizou no dia 13 de dezembro.
     Com a morte do imperador, ela podia voltar para Viterbo. Entretanto, passou antes por Vitorchiano, cujos habitantes tinham sido pervertidos por uma famosa bruxa. Consta então que Rosa, para converter esse povo infiel, ficou durante três horas nas chamas de uma fogueira, sem sofrer o menor dano. O milagre foi tão incontestável, que não só a população, mas também a feiticeira se converteu.
     Com a restauração do poder papal em Viterbo no ano seguinte (1251), ela e a família retornam à cidade natal.
     Rosa queria muito ingressar no convento de Santa Maria das Rosas, mas foi recusada, pois não tinha dinheiro para pagar o dote de admissão. Ela submeteu-se humildemente a esse insucesso, que via como vontade de Deus, mas predisse que seria admitida no mosteiro depois de sua morte.
     Os poucos anos de vida que lhe restavam ela os passou na cela que tinha na casa dos pais, onde morreu no dia 6 de março de 1252. No dia 25 de novembro de 1252, o Papa Inocêncio IV, por sua Bula Sic in Sanctis, mandou instaurar oficialmente o processo de canonização de Rosa, nunca terminado.
     No dia 4 de setembro de 1257, o Papa Alexandre IV mandou exumar o corpo de Rosa e, para a surpresa de todos, o corpo foi encontrado intacto, quase como se ela estivesse viva. Originariamente enterrada na igreja paroquial de Santa Maria in Poggio, Alexandre IV ordenou que fosse transladada para o convento das Irmãs Clarissas, a partir de então chamado Mosteiro de Santa Rosa.  Como ela havia predito, foi admitida ali após sua morte.
     No século XV, outro papa, Calixto III, também dá ordens de instaurar um novo processo. Este é iniciado, mas não chegará a terminar, pois o papa, nesse ínterim, faleceu. Curiosamente a canonização de Rosa nunca foi oficializada, mas também nunca foi negada pelos Papas e pela Igreja. O nome de Rosa aparece no Martirológio Romano já a partir de 1583.
     Sua festa antigamente era celebrada no dia 4 de setembro, dia da transladação de suas relíquias para o mosteiro que não a quisera receber. Nesse dia, quando ainda era viva a fé no bom povo de Deus, o corpo incorrupto dessa virgem singular era carregado em procissão desde o santuário dedicado a ela, pelas ruas de Viterbo pelos chamados Facchini di Santa Rosa, num espetáculo monumental. Uma torre de madeira e tecido renovada a cada ano, com uma estampa da Santa, era levada aos ombros por 62 homens.
     Em setembro de 1929, o Papa Pio XI, declarou Santa Rosa de Viterbo a padroeira da Juventude Feminina da Ação Católica Italiana. No Brasil ela é a Padroeira dos Jovens Franciscanos Seculares. Santa Rosa de Viterbo é festejada atualmente no dia de sua morte, mas também pode ser comemorada no dia 4 de setembro, dia do seu translado para o Mosteiro das Clarissas de Viterbo.
     A mensagem de Santa Rosa de Viterbo continua atual, plenamente válida e urgente: conversão, fidelidade ao Evangelho, à Santa Igreja e ao Papado.

Fontes: “Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola;

sexta-feira, 2 de março de 2018

Santa Cunegundes - 3 de março

Santa Cunegundes, com cerca de 20 anos, esposou o Duque de Baviera, o qual em 1002 foi coroado Rei da Alemanha e em 1014 Imperador

     Pelos fins do século X, nascia Cunegundes, Condessa de Luxemburgo. Seu pai, o Conde Sigefredo, e sua mãe, a Condessa Edwiges, soberanos de Luxemburgo, favorecidos pela fortuna, muito se esmeraram na educação dessa princesa, cuja beleza e inteligência cresciam com a idade.
     Desde a sua infância, o traço característico de seu caráter foi uma constante inclinação às coisas santas. O desejo de servir a Deus e a Maria Santíssima em perfeita castidade, brotou espontâneo de seu coração. Deus satisfez milagrosamente esse seu santo desejo. Não podendo se furtar aos deveres de seu nascimento, aceitou como esposo a Henrique, Imperador da Alemanha, e com o seu esposo recebeu a coroa imperial das próprias mãos do Papa Benedito VIII, em Roma. Piedoso e de grandes virtudes, Henrique estimava a castidade tanto quanto a sua esposa, e no próprio dia do casamento fizeram de comum acordo o voto de castidade, afastando assim as consequências, para eles desastrosas, desse casamento político.
     Viviam eles na maior alegria, trabalhando imensamente pela maior glória de Deus e pela felicidade de seus súditos.
     Tão grande virtude, em tamanha altura, não podia deixar indiferente o inimigo de todo o bem. Por toda a corte imperial começou a murmurar-se que a Imperatriz facilmente se consolava das virtudes de seu esposo. No início sofreu Cunegundes com paciência a calúnia levantada contra a sua honra, e procurava sofrear a revolta de todo o seu ser contra tanta maldade.
     Mas quando não soube mais duvidar da insistência desses boatos, e portanto das consequências desastrosas que eles podiam acarretar, quando viu que até o próprio esposo já manifestara a sua apreensão, a Imperatriz fez uma declaração pública, desfazendo claramente as calúnias de seus detratores. E, em confirmação de suas palavras, andou descalça sobre umas grelhas em brasa, recorrendo ao testemunho do próprio Deus.
     Ninguém mais, à vista desse milagre, pôde duvidar de sua santidade e o próprio Imperador, prostrando-se a seus pés, pediu-lhe perdão pelos seus juízos temerários.
     Um ano depois da morte do Imperador, Cunegundes apresentou-se com toda a pompa imperial na igreja de um convento de sua fundação para assistir à sua solene sagração.
     Estavam presentes o clero e toda a corte. Logo depois da sagração, Cunegundes ofereceu à igreja uma partícula do Santo lenho. Após o Evangelho da Missa, que então se rezou, ela despiu todos os ornamentos imperiais e revestindo-se de um hábito tecido pelas suas próprias mãos, ordenou que lhe cortassem os cabelos, e depois, coberta com um véu, foi por um prelado entregue à comunidade. Desde esse dia, ela viveu constantemente sujeita à regra e à santa obediência, e dando a todas as irmãs exemplos das maiores virtudes.
     Percebendo nos seus últimos momentos que as irmãs traziam vestes preciosíssimas para a exposição do corpo daquela que fora Imperatriz da Alemanha, pediu, porque não podia mandar, que a deixassem com o hábito da Ordem e a enterrassem simplesmente ao lado de seu virtuoso esposo e senhor.
     Conta a tradição, que por ocasião de ser aberta a sepultura, ouviu-se uma voz dizer: “O Virgo virgini, locum tribue!” (Virgem, dê lugar à virgem). E o sarcófago de Henrique espontaneamente se movera para ceder lugar ao de sua esposa.
     O túmulo desses Príncipes foi glorificado por inúmeros milagres, e Cunegundes foi, em 1200, santificada pelo Papa Inocêncio III.
     Como a vida desses antigos Imperadores deve ser hoje por nós meditada, hoje em que os rapazes não são católicos por causa da castidade e em que a pureza afasta tantos da religião! Os que tem a graça inestimável de serem católicos, isto é, de crerem e praticarem integralmente a doutrina cristã, esmerem-se nessa virtude angélica, porque ela é hoje a verdadeira pedra de toque dos servos do Senhor. 

Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira - Legionário, 26 de fevereiro de 1939, N. 337, pag. 5

quinta-feira, 1 de março de 2018

Santa Eudóxia de Heliópolis, Mártir – 1° de março

     Segundo uma longa passio, Eudóxia era uma mulher samaritana que vivia em Heliópolis, na região do atual Líbano, no tempo de Trajano (98-117).
     Eudóxia nasceu por volta do ano 50 da era cristã na Samaria, região pagã. O Evangelho relata que uma aldeia samaritana se recusou a receber Jesus ao saber que ele era judeu e estava indo para Jerusalém. Foi também na Samaria que ocorreu o encontro de Jesus com a mulher samaritana que O recebeu e se converteu. Eudóxia talvez levasse em seu inconsciente este fato acontecido poucos anos antes de seu nascimento; provavelmente ela ouvira falar de Jesus Cristo.
     A família de Eudóxia mudou-se para a cidade de Heliópolis quando ela era ainda menina. Tornou-se uma jovem de extraordinária beleza e com seu comportamento libertino era procurada por inúmeros amantes amealhando imensa riqueza.
     Ao lado da casa de Eudóxia vivia um cristão. Certo dia o vizinho hospedou um monge já idoso, chamado Germano. O monge tinha o hábito de se levantar de madrugada para fazer suas orações e o fazia em voz alta. Sua bela voz ecoou e quando ele começou a entoar hinos de louvor ao Senhor, Eudóxia acordou e se pôs a prestar atenção. Quando o monge cantou um trecho do Evangelho que falava sobre a segunda vinda de Jesus Cristo e sobre o Juízo Final, as palavras impressionaram Eudóxia, pois elas descreviam sua vida no pecado e ela não conseguiu mais dormir.
     Ao amanhecer, Eudóxia foi até à casa de seu vizinho e perguntou pelo homem que rezara de madrugada. Ficou conhecendo o velho e sábio Germano. Este, notando com que avidez Eudóxia ouvia suas palavras, passou vários dias orientando-a, rezando com ela e instruindo-a na fé católica. Finalmente Eudóxia encontrara a verdade e o amor verdadeiro que tanto procurava, em sua busca incessante de prazeres.
     Uma visão do Arcanjo São Miguel, em que este dizia a ela palavras consoladoras e cheias de esperança, confirmou em Eudóxia o desejo de se tornar uma seguidora de Jesus Cristo. Ela manifestou ao monge Germano o desejo de mudar de vida: queria ser batizada, fazer penitência e doar seus bens aos pobres.
     Teodoto, Bispo de Heliópolis, por intermédio de Germano tomou conhecimento de toda a história da jovem; percebendo que havia ali uma graça real de conversão, ministrou o batismo a Eudóxia. Depois da recepção do Sacramento, ela deu a liberdade aos escravos que possuía, doou à Igreja todos os bens que tinha acumulado e ingressou num convento de monjas que ficava perto de Heliópolis.
     No convento Eudóxia vivia inteiramente consagrada ao Senhor, no jejum, nas orações e nos atos de amor e caridade. Ela rapidamente chegou a uma maturidade espiritual notável, que transparecia nos seus atos de amor para com o próximo e nos dons extraordinários que se manifestavam através dela. Doentes iam até o convento pedir orações e saíam de lá curados.
     A fama dos dons extraordinários e das curas operadas pela oração de Eudóxia se espalharam pela cidade.  Por isso, o prefeito de Heliópolis, um pagão chamado Aureliano, enviou soldados para prendê-la sob a acusação de bruxaria. Os soldados, porém, não conseguiram entrar no convento. A Santa afirmava que era por causa da proteção de São Miguel.
     Após três dias de tentativas frustradas, eles desistiram e, assustados, contaram os fatos ao prefeito. O prefeito, furioso, enviou outro grupo de soldados, desta vez sob a liderança de seu próprio filho. Quando este grupo chegou diante do convento, seus cavalos ficaram muito assustados e começaram a refugar com violência, provocando a queda do filho do prefeito, que morreu na hora.
     Profundamente abalado, Aureliano resolveu enviar um tribuno para desta vez pedir ajuda a Santa Eudóxia. A santa respondeu através de um bilhete pedindo autorização para se aproximar do corpo do filho do prefeito. Sem outra opção, ele permitiu e levou o filho morto até à porta do convento. Santa Eudóxia saiu, rezou pelo morto e este ressuscitou, para o espanto de todos. Ao ver milagre tão extraordinário, Aureliano converteu-se imediatamente, bem como toda a sua família e os membros de seu governo. Uma das filhas de Aureliano, Gelásia, entrou para o convento de Santa Eudóxia. O filho ressuscitado tornou-se diácono e, alguns anos mais tarde, foi sagrado bispo de Heliópolis.
     Santa Eudóxia, depois de alguns anos, foi eleita a superiora do mosteiro onde vivia. Como superiora, dedicou-se também à conversão dos pagãos; muitos se convertiam ao ouvirem seus ensinamentos sobre a fé em Jesus Cristo e vendo as curas que aconteciam por suas orações.
     Na época do imperador Trajano, ela foi denunciada pela disseminação da fé cristã. Acusada de bruxaria e fraude, sem julgamento, Eudóxia foi decapitada em 1o. de março de 114.
     O culto a Santa Eudóxia permanece até hoje e sua festa foi mantida no dia 1º de março, data de sua morte. Entretanto, ela não está incluída no atual Martirológio Romano.  Entre os Latinos esta Santa é pouco conhecida, mas nas igrejas orientais ela é objeto de muita veneração.

Fontes: