terça-feira, 13 de março de 2018

Santa Matilde da Alemanha, Rainha, Viúva – 14 de março

Rainha, mãe de imperador, de reis e de santo, ilustrou o trono com suas singulares virtudes
                                                                        

    Nosso Divino Redentor afirmou que é muito difícil um rico entrar no reino dos Céus (Mt 19, 23). Mas não disse que é impossível. A dificuldade está em que, na prosperidade e na abundância, encontra-se mais dificuldade para desprender-se das coisas da Terra a fim de pensar nas do Céu. Entretanto, um rico pode e deve santificar-se, utilizando adequadamente os bens que a Providência põe em suas mãos.
     Nas vidas dos santos encontramos muitos exemplos disso. Com efeito, entre os santos canonizados figuram imperadores, reis, príncipes e muitos leigos de projeção, que utilizaram suas riquezas para cumprir os preceitos evangélicos. Um exemplo é Santa Matilde, rainha da Alemanha, notável por seu amor a Deus, que a levava a amar também os pobres e os necessitados. Sua festa se comemora no dia 14. 
Educação esmerada e matrimônio modelar
     Santa Matilde nasceu em Engern, na Westphalia, por volta do ano 895. Era filha do conde Dietrich, da Saxônia, e da condessa Reinhilde, da Dinamarca.
     Ainda pequena, foi entregue para ser educada por uma das avós, que tinha o mesmo nome e que depois de enviuvar-se entrara para o mosteiro de Erfurt, do qual se tornara abadessa.
     Destinada ao trono ducal, Matilde casou-se em 909 com Henrique, o Passarinheiro, filho do Duque da Saxônia. O casal teve cinco filhos: Oton I, que foi Imperador da Alemanha; Henrique, duque da Baviera; Bruno, o Grande, arcebispo de Colônia e duque da Lorena, também santo; Gerberga, que desposou o duque Giselberto da Lorena e, morto este, Luís IV, da França; e Edwiges, que se casou com Hugo, o Grande, conde de Paris, e foi mãe de Hugo Capeto, rei francês fundador da dinastia dos Capetos.
     Os biógrafos de Santa Matilde ressaltam a harmonia perfeita e a identidade de cogitações existentes entre ela e seu esposo: “Os dois foram afortunados e mereceram os louvores dos povos. Em ambos reinava o mesmo amor a Cristo, uma mesma união para o bem, uma vontade igual para a virtude, a mesma compaixão para com os súditos, e o mesmo afeto entranhável para com os desgraçados”. (1)
     Ambos se dedicavam a toda sorte de obras de misericórdia, à construção de hospitais e mosteiros, e à propagação do Evangelho pelos reinos vizinhos ainda pagãos. Zelavam para que as leis antigas que julgavam boas fossem observadas no ducado e depois no reino, e procuravam fazer outras novas que favorecessem seus súditos.
     Em 912, sendo Henrique, o Passarinheiro, o mais velho dos filhos vivos, sucedeu ao pai Oton I como Duque da Saxônia, com o nome de Henrique I; e, em 918, a Conrado I como rei da Alemanha. Alguns hagiógrafos dão a Conrado o título de Imperador; portanto, Henrique também o seria. Por isso atribuem a Santa Matilde, sua esposa, o título de Imperatriz. Entretanto, isso historicamente não é correto.
     Como rainha, Santa Matilde fez-se a mãe de todos, especialmente dos pobres e desfavorecidos. Interessava-se muito pelos prisioneiros, e àqueles que o eram por dívidas, pagava seus débitos, obtendo assim sua liberdade. Todos os pobres, peregrinos e necessitados de toda ordem encontravam nela sua protetora. A rainha santa exercia com mais largueza sua caridade aos sábados, por ser o dia dedicado à Mãe de Deus.
Viúva segundo São Paulo e desapego de uma santa
     Após frutuoso reinado de mais de 17 anos, Henrique I faleceu no ano de 936. No leito de morte, diante de toda a corte reunida, o piedoso monarca fez o elogio da rainha, como testemunha que fora de sua eminente virtude.
     Santa Matilde mandou celebrar inúmeras missas pela alma de seu defunto esposo, não só por ocasião de sua morte, mas enquanto viveu.
     Entregou-se então inteiramente aos exercícios de piedade que São Paulo recomenda a uma verdadeira viúva. “Ela era muito sóbria em suas refeições, pacífica e tranquila na conversação, pronta somente a fazer o bem a todo mundo, e a cumprir tudo o que era de seu dever; não empreendia nada senão depois de procurar conselho e ter consultado a Deus na oração”. (2)
     Santa Matilde tinha preferência pelo segundo filho, Henrique, que apesar de não ser o primogênito, ela queria que sucedesse ao pai no trono. Alegava que Oton, o mais velho, havia nascido antes de o marido ser rei. E que, portanto, Henrique, tendo nascido filho de rei, deveria ser o escolhido. Como o monarca era eleito, ela convenceu alguns nobres a votarem em Henrique. Apesar disso, o eleito foi Oton. Ela então obteve deste o Ducado da Baviera para Henrique.
     Santa Matilde era conhecida principalmente pelas suas muitas esmolas para os necessitados, conventos e igrejas. Ora, Oton e Henrique — este se mostrando assim ingrato para com sua mãe — consideravam exorbitante a sua prodigalidade, alegando que ela estava empobrecendo a coroa. Para satisfazê-los, a santa renunciou em favor deles a todas suas propriedades, mesmo as que herdara do marido, e retirou-se para uma casa campestre em Engern.
Ingratidão, castigo de Deus e reparação
     Eclodiram então distúrbios e calamidades no reino. E não só o povinho miúdo, mas também a nobreza, começou a clamar que os mesmos se deviam à injustiça feita à rainha. E aconteceu um fato bem característico da Idade Média: “Com efeito, os males aumentaram a um tal ponto, que os grandes e os ministros de Estado foram forçados a solicitar à rainha Edite, esposa de Oton, que pedisse o retorno da rainha-mãe [...] Esse príncipe abriu os olhos, reconheceu suas faltas e, imediatamente, nomeou senhores da mais alta estirpe para irem apresentar a essa ilustre princesa a dor na qual ele estava mergulhado por causa da conduta que havia tido a seu respeito, e o desejo ardente que tinha de revê-la na corte”.(3)
     Houve a partir de então a mais perfeita harmonia entre a mãe santa e os dois filhos ingratos. O bom povinho de Deus comentou depois que a eleição de Oton como Imperador deveu-se em grande parte a essa justiça rendida à sua mãe.
     Pois “o Império teve em seu berço o hálito santo desta mulher forte. Matilde formou o coração de Oton, o homem da Providência, e pôs nele as sementes de fé, de fortaleza, de piedade e de amor à Igreja de Cristo. [...] Oton foi digno filho de tal mãe. Fez justiça aos seus vassalos, venceu seus inimigos, amparou a Igreja, protegeu os sábios, e sujeitou novos povos à civilização do Evangelho. (4)
“Grande prudência unida à humildade”
     Com seu filho Oton, Santa Matilde fundou um mosteiro que se tornou célebre, no qual três mil monges cantavam ininterruptamente os louvores divinos. Fundou também um mosteiro feminino de cônegas nobres em Quedlimburg, com o objetivo de que estas oferecessem dia e noite suas preces e penitências a Deus para agradecer as bênçãos que Ele derramava sobre o Império, e atrair novas bênçãos sobre a família real.
     Muito tempo depois, no século XVI, sua abadessa tinha precedência sobre as princesas do Império. Mas... tristeza deste Vale de Lágrimas: em 1539 esse mosteiro, que tanto brilho tivera na “doce primavera da fé”, aderiu à pseudo-reforma de Lutero sob a influência da condessa Ana de Stolberg. (5)
     Diz de Santa Matilde um historiador alemão quase seu contemporâneo: “De tal sorte sua grande prudência unia a humildade ao decoro régio, que quem mais a admirava humilde, devota e recolhida — sempre em oração, assistida por pobres, peregrinos e enfermos —, mais a venerava como grande princesa, rainha excelsa e imperatriz soberana” (Witchindo, História saxônica, livro III). (6)
Morte da “mais virtuosa princesa de seu século”
     Sentindo que seus dias chegavam ao fim, a rainha-mãe pediu licença ao filho Imperador para retirar-se a Nordhausen, o predileto dos mosteiros que havia fundado, a fim de preparar-se para o encontro com Deus. Vivendo santamente e cumprindo de modo exímio todas as normas da casa, precisou, no entanto, deixar seu retiro para atender a problemas urgentes no mosteiro dos Santos Gervásio e Dionísio, em Quedlimburg, onde sua neta era abadessa.
     Estando lá, contraiu uma febre lenta e incômoda, que se agravava gradualmente e que a atormentou durante vários meses, ameaçando sua vida. Matilde pediu então os últimos Sacramentos. Estes lhe foram ministrados por seu neto Guilherme, que era arcebispo de Mainz. Contam seus primeiros biógrafos que ela quis então dar-lhe um testemunho de seu agradecimento e estima pelo grande favor que lhe tinha feito. Porém, como não tinha mais nada para dar, uma vez que já havia se despojado de tudo, pediu então que dessem a ele os panos mortuários que lhe estavam destinados, dizendo que o neto precisaria dos mesmos antes dela. E, com efeito, saindo do mosteiro, o arcebispo sentiu-se mal, falecendo no caminho de sua diocese.
     Santa Matilde faleceu no dia 14 de março do ano de 968, sobre uma mortalha posta na terra. De tal maneira fora unida ao seu marido, falecido 32 anos antes, que quis ser enterrada ao lado dele. Pela sua fama de santidade, começou a ser venerada logo depois da morte.
     "Foi assim que terminou sua vida aquela que era a mãe dos pobres, a protetora dos povos, a advogada dos prisioneiros e dos cativos, a alegria do Império, a fundadora de tantas igrejas, hospitais e mosteiros, em uma palavra, a mais completa, a mais cristã e a mais virtuosa princesa de seu século”. (7)
      A vida de Santa Matilde foi escrita alguns anos depois de sua morte, por ordem do Imperador Santo Henrique, seu neto. (8)
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Notas:
1.        Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., Santa Matilde, Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo I, p. 502.
2.        Mgr Paul Guérin, Sainte Mathilde, Impératrice, in Vies des Saints, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo III, p. 417.
3.        Id. Ib. p. 418.
4.        Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., op. cit. p. 503.
5.        Cfr. Mgr Paul Guérin, op. cit., p. 421, nota 1.
Pe. Pedro de Ribadeneira, Santa Matildis ó Matilde, Emperatriz, Reina e Matrona, Flos Sanctorum, apud. Dr. Eduardo Maria Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González y Compañia – Editores, Barcelona, 1896, p. 594.
7.        Paul Guérin, op. cit. p. 421.
     Outras obras consultadas: Michael T. Ott, St. Matilda, The Catholic Encyclopedia, CD Rom edition. Pe. José Leite, Santa Matilde, Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1993, tomo I. Edelvives,Santa Matilde, Emperatriz de Alemania, in El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1947, tomo II.

Fonte: www.catolicismo.com.br – Autor: Plinio Maria Solimeo

domingo, 11 de março de 2018

Santa Fina de San Gimignano, Virgem – 12 de março

Martirológio Romano: Na cidade de San Gimignano, na Toscana, Beata Fina, virgem, que desde tenra idade suportou com paciência heroica uma longa e grave doença confiando somente em Deus

     Santa Serafina, também conhecida por Santa Fina, foi uma vítima expiatória a Deus que, por cinco anos, se viu pregada ao leito com o corpo em corrupção e na mais extrema pobreza. À sua morte, muitos milagres ocorreram. O seu nome provém de Seraphim, que significa "ser ardente" em hebraico.
     Filha de Cambio e Imperia, nobres decaídos, nasceu em San Gimignano em 1238; teve uma vida curta, mas religiosamente muito intensa.
     Aos 10 anos foi acometida por uma doença grave que a prostrou no leito, talvez alguma forma de tuberculose ou osteomielite, e, de uma forma mística, longe de se desesperar, suportou com grande coragem e grande fé a enfermidade que a impedia de fazer qualquer movimento.
      Acresceu a tal sofrimento a perda da mãe. Com o corpo coberto de chagas dava aos que a visitavam um exemplo de paciência, ensinando-os o culto da Paixão do Senhor e a devoção a Rainha dos Mártires.
     No princípio do século XIV o dominicano João del Coppo escreveu uma biografia de Santa Fina, em que ele se mostra mais preocupado com a piedade do que com os dados históricos. Di Coppo assim relata:
     São Paulo nos ensina que o sofrimento fortalece o espírito. Por este motivo, Fina era a mais bela e formosa criatura aos olhos de Jesus Cristo, seu mestre, que lhe permitiu tantos sofrimentos. Ela ficou paralítica de seu pescoço para baixo, todo corpo paralisado. Ao final, já não podia mover-se, nem sequer um braço ou mão.
     Enquanto Deus permitia esta aflição, ela decidiu não repousar em uma cama confortável. Ao contrário, escolheu uma tábua de madeira para deitar-se. E como um lado de seu corpo ficou paralisado, afligido pela doença, ela decidiu deitar-se sobre o lado saudável. Por cinco anos esteve nesta posição. Não permitia a ninguém trocá-la de posição. Permaneceu por tantos anos assim que sua carne era uma grande ferida. E, no entanto, nunca gemeu ou reclamou; manteve-se dando graças a Deus até o final. 
     Santa Fina faleceu no dia 12 de março de 1253, festa de São Gregório Magno, de quem era devota e de quem recebera o anúncio da morte numa visão. No momento da sua morte os sinos de San Gimignano soaram em festa sem que mão alguma os tangesse. Este detalhe se encontra na biografia mencionada.
     O culto de Santa Fina foi muito vivo desde o início também pelos inúmeros milagres que ocorriam junto ao seu sepulcro. Com as doações deixadas sobre seu túmulo, um hospital foi construído em sua honra, com a missão de acolher os pobres e doentes. Bem administrado, logo tornou-se um dos mais importantes da região e permaneceu em uso por mais de 800 anos. Na capela do hospital estava a tábua na qual a Santa repousava. 
     Foi eleita patrona da cidade. Em 1457 o Conselho do Povo deliberou a construção da magnifica capela que ainda se pode admirar na colegiada.

Fontes:
www.santiebeati.it/

Casa de Santa Fina

     San Gimignano é um dos vilarejos medievais mais característicos e encantadores da Toscana, é uma cidadezinha que permaneceu quase intacta desde o fim do século XIV até hoje, como consta claramente nas pinturas da época (por exemplo, a tela de Taddeo Bartolo, no Museu Cívico da cidade).
     Sua extensão é de poucos quilômetros quadrados e os habitantes não passam de 7.000, mas é digna de competir até com um monumento de prestígio como a Torre de Pisa. O mérito é, por exemplo, das galerias, dos museus, que ficam sempre abertos, do teatro, que oferece apresentações musicais no verão além da temporada de inverno, da biblioteca, que abriga mais de 100.000 obras, dos corais, das escolas de dança, das bandas e escolas de música. Em outras palavras, a cultura tem um papel predominante. Portanto, não é por acaso que San Gimignano tenha sido eleita pela Universidade de Sena como sede para os cursos de mestrado, e todos os anos recebe muitas exposições de arte contemporânea.
     Das setenta casas-torre que existiam na época medieval, que são uma das características típicas desta vila, hoje só restam treze e graças a elas San Gimignano conservou toda a arquitetura fascinante de um período inspirador. No passado, as casas-torre não eram apenas um elemento de prestígio (a competição era para quem tinha a casa-torre mais alta), mas também tinham razões práticas, como a defesa.
     As casas-torre, ligadas entre si através de pontes, eram um sistema extremamente seguro de passar de uma casa-torre para outra sem ter de passar pela rua. Outro motivo da difusão das casas-torre teria sido em relação ao mundo da indústria têxtil. Nessa região eram usados corantes à base de açafrão. Para fixar bem a cor era preciso manter o tecido longe do pó e do so; não tendo espaço adequado para estender os tecidos, as pessoas sempre construíam casas mais altas.
     Suas principais atrações: a Catedral de San Gimignano e o Palácio Comunal, que fica bem ao lado, onde está a Pinacoteca de Arte Medieval. Sua fachada romântica do século XII é toda original e lá dentro estão reunidas várias obras-primas, entre elas uma cruz de madeira de 1200.
Aspectos da cidadezinha de San Gimignano

sexta-feira, 9 de março de 2018

Santa Francisca Romana, Viúva, Fundadora – 9 de março

Santa Francisca Romana (1384-1440), de nobre e rica família, casou-se muito jovem, teve três filhos, fundou as "Oblatas de Maria" e em março de 1433 também fundou o mosteiro em Tor de' Specchi, perto do Campidoglio (Roma). Quando seu marido morreu, em 1436, ela se mudou para esse mesmo mosteiro e se tornou a prioresa.

     Os dados que damos a seguir constam da obra de Ernest Hello “Physionomies de saints”.
     A vida de Francisca reside nas visões. Suas visões mais singulares, mais estupendas, mais características, são as visões do inferno. Inúmeros suplícios, variados como os crimes, lhe foram mostrados no conjunto e nas minúcias.
     Santa Francisca Romana viu o ouro e a prata derretidos, acumulados pelos demônios nas gargantas dos avarentos.
     Viu as hierarquias de demônios, suas funções, seus suplícios e os crimes a que eles presidem.
     Viu Lúcifer, consagrado ao orgulho, chefe geral dos orgulhosos, rei de todos os demônios e de todos os condenados. Esse rei é muito mais desgraçado do que todos os seus súditos.
     O inferno é dividido em três partes: o inferno superior, o inferno médio e o inferno inferior. Lúcifer está no fundo do inferno inferior. Sob Lúcifer, chefe universal, acham-se subordinados três chefes a ele e prepostos aos demais: Asmodeu, que preside os pecados da carne, era um querubim; Mamon, que preside aos pecados de avareza, era um trono; Belzebu preside aos pecados da idolatria.
     Belzebu é particular e especialmente o príncipe das trevas. É torturado pelas trevas e é por meio das trevas que tortura suas vítimas.
     Uma parte dos demônios fica no inferno; outra reside no ar e outra reside entre os homens, buscando a quem devorar.
     Os que ficam no inferno dão as suas ordens e enviam seus deputados; os que residem no ar agem fisicamente sobre as perturbações atmosféricas e telúricas, lançam por toda parte influências más, empestam o ar física e moralmente.
     O seu escopo é principalmente debilitar a alma. Quando os demônios encarregados na terra veem uma alma debilitada pela influência dos demônios do ar, atacam-na no seu esmorecimento para vencê-la mais facilmente.
     Atacam-na no momento em que ela desconfia da Providência.
(Daí recomendarmos a leitura do “Livro da Confiança” do Abbé Thomas de Saint Laurent, porque quando se desconfia da Providência é a hora em que todas as tentações vêm. Enquanto a pessoa é confiante, a tentação pode vir, mas tem um âmbito restrito.)
     Esta desconfiança de que os demônios do ar são especialmente inspiradores preparam a alma para a queda que os demônios da terra dela vão solicitar.
     A partir do momento em que ela esteja enfraquecida pela desconfiança, inspira-lhe o orgulho, em que ela tanto mais facilmente cai, quanto mais débil se encontre.
     Quando o orgulho lhe tenha aumentado a fraqueza, chegam os demônios da carne que lhe insuflam seu espírito; quando os demônios da carne a enfraqueceram ainda mais, chegam os demônios incumbidos dos crimes de dinheiro.
     E quando este (demônio do dinheiro) tenha nela diminuído mais ainda os recursos da resistência, chegam os demônios da idolatria que completam ou rematam o que os outros começaram. E assim é uma crise espiritual completa.
      Todos se combinam para o mal e aqui se tem a lei da queda: todo pecado no qual se detém ("tout péché que l'on garde..."), arrasta a outro pecado. Assim, a idolatria, a magia e o espiritismo aguardam no fundo do abismo aqueles que de precipício em precipício lhe escorregam nas cercanias.
     Todas as coisas da hierarquia celeste são parodiadas na hierarquia infernal. Nenhum demônio pode tentar uma alma sem licença de Lúcifer. Os demônios que estão no ar ou na terra não sofrem atualmente a pena de fogo, mas aturam outros suplícios terríveis e particularmente à vista do bem que fazem os santos.

Tomando o aspecto de Santo Onofre (sec. IV), que Santa Francisca Romana venerava, o demônio convidou-a para que fosse à sua ermida para afastá-la de sua vocação de fundar a Congregação das Oblatas (afresco no Mosteiro de Tor de'Specchi, de autor desconhecido - 1485)

     Quando Santa Francisca era tentada, sabia - pela natureza e pela violência da tentação - de que altura caíra o anjo tentador e a que hierarquia pertencera, porém, quando uma alma é salva, também o demônio tentador é escarnecido pelos outros demônios. É conduzido perante Lúcifer que lhe inflige um castigo especial, distinto das suas outras torturas.
     Este demônio entra às vezes, em consequência, no corpo de animais ou de homens e então faz-se passar pela alma de um morto. Quando o demônio conseguiu perder uma alma, após a condenação dessa alma, torna-se o tentador de outro homem, porém é mais hábil do que na primeira vez. Aproveita a experiência que lhe deu vitória, é mais hábil e forte para perder.

Devemos pedir a Santa Francisca Romana que ela nos dê discernimento que nos faça compreender como o católico precisa estar preparado para lutar contra essa pluralidade de influências. E nos previna contra uma doutrina errada - e infelizmente tão frequente - de que a tentação do demônio só é aquela que nos leva diretamente para o pecado e que quando não leva para o pecado diretamente, isso não é tentação do demônio. O que prepara o ambiente para o pecado já é tentação do demônio. Então, as perturbações, as cóleras, as agitações, as fermentações da imaginação, facilmente podem ser tentações do demônio e precisamos nos precaver contra elas.
Igreja onde se encontram as relíquias de Sta. Francisca Romana

NOTA: Para maiores detalhes da vida de Santa Francisca Romana, vide neste blog dia 9 de março de 2012.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Lady Day vs Dia Internacional da Mulher – 8 de março


Neste Dia Internacional da Mulher, este blog tem a alegria de reproduzir um texto do site Return to Order, dos EUA, em que o autor contrapõe ao tema feminista o Lady Day, que existe naquele país. 

A verdadeira maternidade entrará em choque com o tema feminista em 8 de março
Por John Horvat II  
   O Dia Internacional da Mulher (8 de março) está entre nós mais uma vez. As feministas aproveitarão a ocasião para promover sua agenda radical.
      O slogan feminista deste ano é Push for Progress, que defende a "paridade do gênero", outra maneira de destruir a distinção natural e a complementaridade dos dois sexos. Em contraste, o Lady Day também é comemorado no dia 8 de março.
      O Lady Day deste ano vai honrar o chamado sublime e sacrificial da maternidade, tanto física como espiritual; a vocação mais nobre da mulher na vida.
      Realizar-se-á sob o nobre patrocínio de Sua Alteza a Duquesa Pilar Oldenburg Méndez de Vigo e Löwenstein.
      As participantes são incentivadas a celebrar este aspecto puro e sacrificial da maternidade, visitando um santuário de nossa Mãe Santíssima e se unindo a outras senhoras para o chá em casa ou em uma casa de chá.
     Iniciado pelo movimento socialista em 1911, os encontros do Dia Internacional da Mulher revelam um ódio diabólico a Deus, na medida em que buscam esmagar o papel essencial das mulheres na civilização cristã.
     Essa rebelião egocêntrica comemora vulgaridade, imodéstia e rejeita todas as coisas tradicionalmente vistas como femininas. Esse feminismo leva ao aborto e à supressão da maternidade. As mulheres são encorajadas a dar as costas à vida familiar a favor das promessas vazias de carreiras mundanas, imoralidade e controle da natalidade.
      A celebração da pureza, elevação e sacrifício da maternidade é uma resposta adequada para aqueles que aplaudem a completa falta de restrições sexuais e morais que, tragicamente, faz parte de nossa cultura popular.
      O grande anticomunista húngaro Cardeal Joseph Mindszenty escreveu o seguinte sobre a importância da mãe:
     "A pessoa mais importante na terra é a mãe. Ela não pode reivindicar a honra de ter construído a Catedral de Notre Dame. Ela não precisa. Ela construiu algo mais magnífico do que qualquer catedral: uma habitação para uma alma imortal, a pequena perfeição do corpo de seu bebê. Os Anjos não foram abençoados com tal graça. Eles não podem compartilhar o milagre criativo de Deus para levar novos santos ao céu. Apenas uma mãe humana pode. As mães estão mais perto de Deus o Criador do que qualquer outra criatura. Deus une forças com as mães na realização deste ato de criação. O que na boa terra de Deus é mais glorioso do que isto: ser mãe?"
         O Lady Day 2018 estará sob o nobre patrocínio de Sua Alteza a Duquesa Pilar Oldenburg Méndez de Vigo e Löwenstein. Ela é casada com Sua Alteza o Duque Paul de Oldenburg. Eles têm cinco filhos.
      Veja novidades e fotos do Lady Day 2017 aqui. Para mais informações sobre o Lady Day 2018, ligue para 888-317-5571.






Feministas de 1914

Feministas de hoje

Santas Perpétua e Felicidade, mártires – 7 de março

    
     O texto da Passio desta Santa é escrito no latim do século III, que dará origem ao latim cristão e a seu primeiro cultor, Tertuliano, que poderia ser o redator final da Passio de Perpétua e seus companheiros mártires. Aceita ou não esta hipótese, o certo é que o martírio de Perpétua aparece nos grandes escritos cristãos provenientes daquela província africana: o próprio Tertuliano (De anima 55, 4), natural de Cartago e contemporâneo dos quatro mártires (240 d. C.), Santo Agostinho, natural de Tagaste e Bispo de Hipona (430 d.C.), que escreveu diversos sermões sobre seu martírio (Sermões 280; 281-282). O martírio de Perpétua e companheiros também está testemunhado por uma inscrição em mármore descoberta em uma basílica cristã nos arredores de Cartago, no bairro de Mçidfa, que provavelmente se identifica com a Basílica Maiorum, onde a memória dos mártires era venerada.
     O texto da Passio de Perpétua oferece um elemento singular: a integração, pelo redator final, dos relatos autobiográficos de Perpetua e Sáturo, escritos de sua própria mão, relativos aos acontecimentos e visões que precederam seu martírio (respectivamente, §§ iii-x y xi-xiii).
     Assim, não se pode negar a autenticidade dos fatos narrados na Passio dos mártires de Cartago, encabeçados e liderados por Vibia Perpétua, mulher bela e culta, de família rica e conhecida em Cartago, mãe de uma criança de peito. No outro extremo da classe social, encontramos Felicidade e Revocato, que são irmãos e escravos.
     A Passio relata a prisão dos futuros mártires em Thuburbo Minus, uma cidade a 50 km ao sul de Cartago. A prisão era uma consequência do edito do imperador Septimio Severo, também originário da África, que proibia as conversões ao Cristianismo e ao Judaísmo. O fato de um catequista (Sáturo) e quatro catecúmenos serem detidos longe de Cartago, sua provável cidade natal (pelo menos a de Perpétua), revela que eles estavam tentando se esquivar da proibição, instruindo-se fora da capital da província da África.
     Quatro dos detidos, Perpétua, Felicidade, Revocato e Saturnino, todos eles catecúmenos, recebem o Batismo no quartel de Thuburbo Minus – não se trata de um cárcere – conjuntamente com Segundo, outro catecúmeno que morrerá no cárcere decapitado (sendo cidadão romano, o dispensaram do tormento das feras). Eles tinham sido conduzidos àquele quartel pelos oficiais e guardas do Estado romano, que os tinham detido.
     Os futuros mártires se preparam espiritualmente para eventuais “sofrimentos da carne”. Perpétua deve resistir às exortações de seu pai, que quer fazê-la desistir de seu compromisso.
     Depois, nos §§ iii-vi da Passio há o relato da transferência dos prisioneiros para Cartago, onde são colocados no cárcere proconsular da cidade, inóspita e insalubre, situada provavelmente na colina de Byrsa.
     Perpétua assim a descreve em seu diário: "Nos lançaram no cárcere e eu fiquei consternada, porque nunca havia estado em um lugar tão escuro. O calor era insuportável e estávamos em muitas pessoas em um subterrâneo muito estreito. Me parecia morrer de calor e de asfixia, e sofria por não poder ter junto de mim meu filhinho, que era tão pequeno e que necessitava muito de mim. O que mais eu pedia a Deus era que nos concedesse uma coragem muito grande para sermos capazes de sofrer e lutar por nossa Santa Religião".
     Dois diáconos conseguiram que os prisioneiros fossem tirados temporariamente das masmorras e pudessem receber a visita de seus familiares. Perpétua pode amamentar seu filho, até que o pai dela, contrário à sua conversão, não mais lhe levasse a criança. Ela diz em seu diário: "Desde que tive meu pequenino junto de mim aquilo não me parecia um cárcere, mas um palácio, e eu me sentia cheia de alegria. E o menino também recuperou a sua alegria e o seu vigor". As tias e a avó se encarregaram depois da criança e de sua educação.
     Ali também Perpétua teve a visão da escada de bronze, em que lhe foi dito que teriam que subir por uma escada cheia de sofrimentos, mas que no final de dolorosa escalada o Paraíso Eterno os estaria esperando. Ela narrou a visão que tivera a seus companheiros, e todos se entusiasmaram e fizeram o propósito de permanecerem firmes na Fé até o fim.
     “Poucos dias depois”, os futuros mártires foram conduzidos ao foro da cidade, onde foram interrogados diante da multidão pelo procurador Hilariano, que atua como governador exercendo o “direito de espada”, ditando as penas capitais. Diante da negativa de oferecerem sacrifícios “pela saúde dos imperadores”, os condenou a morrer atirados “às feras”. Perpétua, diante da pergunta de Hilariano: “Sois cristã?”, responde: “Sim, eu sou!”.
     Finalmente os prisioneiros, já condenados à morte, são transladados para outro lugar, a prisão militar, situada no interior do castrum, ou instalação castrense, onde ficavam aquarteladas as tropas romanas a serviço do governador.
     Perpétua tivera uma visão de Dinócrates, seu irmão mais novo, que falecera criança ainda, era pagão e sofria no outro mundo. Na prisão militar tem nova visão de Dinócrates, vendo que este finalmente foi libertado de “seu tormento” graças às orações de sua irmã, que está a caminho do martírio e que por esta razão tem um poder de intercessão junto de Deus.
     Os condenados são amarrados ao cepo, pelo menos na primeira noite, à espera de sua execução, que terá lugar entre uns jogos castrenses convocados “por motivo do aniversário do césar Geta”, filho mais novo do imperador Septimio Severo, no dia 7 de março de 203, os quais seriam provavelmente celebrados no anfiteatro da cidade.
     Os prisioneiros contam agora com a boa vontade do suboficial Pudente (que Sáturo, o catequista, vinha tentando converter à Fé cristã), encarregado das visitas, que facilita a ida de muitas pessoas para vê-los, entre elas o pai de Perpétua.
     Então chegou seu pai (o único da família que não era cristão) e de joelhos lhe rogava e suplicava que não persistisse em se chamar cristã, que aceitasse a religião do imperador, que o fizesse por amor a seu pai e a seu filhinho. Ela se comoveu intensamente, porém terminou dizendo-lhe: - "Pai, como se chama essa vasilha que há aí em frente?" "Uma bandeja", respondeu-lhe o pai. - "Pois bem, essa vasilha deve ser chamada de bandeja, e não de xícara, ou de colher, porque é uma bandeja. E eu, que sou cristã, não posso ser chamada nem de pagã, nem de nenhuma outra religião, porque sou cristã e quero ser para sempre". E acrescenta o diário escrito por Perpétua: "Meu pai era o único de minha família que não se alegrava porque nós íamos ser mártires por Cristo".
     Um dia antes da execução, Perpétua tem uma terceira visão: o egípcio derrotado, símbolo do demônio vencido pela perseverança dos mártires sustentados por Nosso Senhor Jesus Cristo. Sáturo também tem uma visão, neste caso a do Paraiso, um jardim cheio de flores com uma casa de luz onde se encontra o trono de Deus, que acolhe os mártires.
     A Providência divina se encarrega de que Segundo tenha uma morte “doce” no cárcere: o decapitam e não passa pelo tormento das feras. Por sua vez, Felicidade recebe uma graça ao contrário: dá à luz uma menina e assim pode ser colocada na lista dos que morreriam (segundo o direito romano, uma grávida não podia ser executada, já que se condenava um inocente a morrer, o nascituro).
     Todos estão prontos para a grande prova. Era permitido aos condenados à morte fazer uma ceia de despedida. Os condenados convertem a “ceia livre” da vigília da execução em uma ágape, uma cerimônia Eucarística: todos recebem a Comunhão, se despedem e se preparam para a morte.
     No dia da execução, antes de levá-los à arena para seu segundo batismo – o de sangue –, os soldados queriam que os homens entrassem vestidos de sacerdotes de Saturno e as mulheres vestidas de sacerdotisas de Ceres, deuses dos pagãos. Perpétua, porém se opôs corajosamente e ninguém quis colocar roupas de religiões falsas, usam túnicas simples.
     Já na arena, quando passam diante de Hilariano, que preside os jogos fazendo as vezes de procônsul, com gestos lembram-lhe o juízo de Deus que cairá sobre ele. A resposta é imediata: os cinco mártires devem ser fustigados ao passar entre duas filas de uns gladiadores presentes ao espetáculo. Estes eram reciarios, gladiadores de nível mais baixo que vão apetrechados de tridentes e redes, encarregados de combater contra as feras.
     Revocato e Saturnino são atacados por diversas feras (um leopardo, um javali e um urso, o animal mais temido), e Sáturo fica ileso por duas vezes. Ele, que havia conseguido converter o suboficial Pudente, lhe dissera: "Para que vejas que Cristo sim é Deus, te anuncio que me lançarão a um urso feroz, e essa fera não me fará nenhum mal". E assim aconteceu: amarraram-no e aproximaram-no da jaula de um urso muito agressivo. O feroz animal não lhe quis fazer nenhum mal, mas, pelo contrário, deu uma tremenda mordida no domador que tratava de fazê-lo se lançar contra o santo diácono. Soltaram então um leopardo, que destroçou Sáturo.
     Quanto a Perpétua e Felicidade, senhora e serva, queriam que elas saíssem nuas e envoltas nas redes dos reciarios, mas o público não aceita e elas saem para a arena vestidas com uma simples túnica. As duas mulheres são atacadas por uma vaca selvagem que as fere gravemente. Perpétua viu sua amiga ser atingida pelo animal e ainda conseguiu amparar sua irmã de fé em seus braços e recompor sua roupa estraçalhada, numa demonstração de respeito, dignidade e amor.
     Os pagãos que assistiam ao “espetáculo” se emocionaram por um curto espaço de tempo, o público se dá por satisfeito com este tormento e ambas são conduzidas à porta Sanavivaria, a dos salvos.  Porém, logo começaram a gritar pedindo a morte de Perpétua. Elas retornam e devem ser decapitadas. O verdugo que devia matar Perpétua estava muito nervoso e errou o golpe de espada. Ela deu um grito de dor, estendeu a cabeça sobre o cepo e indicou com a mão o local preciso onde o verdugo devia dar-lhe o golpe. Esta mulher valorosa demonstrou com este gesto que morria mártir por sua própria vontade e com toda generosidade.
     
Local do martírio
O martírio destas Santas ocorreu no dia 7 de março do ano 203. Pelo fato de terem sido martirizadas, ou seja, morreram por causa da fé em Jesus Cristo, as duas foram canonizadas e se tornaram exemplo de fé e coragem, fazendo aumentar bastante o número dos cristãos.
     Estas duas mulheres, uma rica e instruída e a outra humilde e simples serva, jovens esposas e mães, que na flor da vida preferiram renunciar às alegrias de um lar, para permanecerem fiéis à religião de Jesus Cristo, o que nos ensinam? Sacrificaram o que poderia restar-lhes de vida nesta terra e estão a mais de 17 séculos gozando eternamente no Paraíso.

Fontes: Pasión de las Santas Perpetua y Felicidad, traducción del latín de alejandra de Riquer - barcelona 2015 acantilado;

terça-feira, 6 de março de 2018

Santa Rosa de Viterbo, Virgem – 6 de março

    


     A época em que viveu Santa Rosa foi muito conturbada na Itália devido às guerras que o imperador Frederico II movia contra o Papado para apoderar-se dos Estados Pontifícios. Excomungado duas vezes, entretanto ele tomou parte na Sexta Cruzada. Mas Inocêncio IV o destituiu no Concílio de Lião e o papa Gregório IX chegou a chamá-lo de Anticristo.
    Além disso, havia os conflitos civis provocados por duas famílias que disputavam o governo da cidade de Viterbo. Era uma época de grandes confrontos. De um lado surgia São Francisco de Assis, o irmão menor de todos, do outro, o imperador Frederico II, o grande estadista que governava com mão de ferro. Em um extremo, o poder Espiritual, a Igreja, e de outro o mundo, o Imperador.
     Santa Rosa nasceu numa data incerta do ano de 1234, na cidade de Viterbo, então uma comuna contestada dos Estados Pontifícios. Os pais, João e Catarina, eram cristãos fervorosos. A família possuía uma boa propriedade na vizinha Santa Maria de Poggio, vivendo com conforto da agricultura.
     Envolta por antigas tradições e sem dados oficiais que comprovem os fatos narrados, a vida de Rosa foi breve e incomum. Como sua mãe trabalhava para as Irmãs Clarissas do mosteiro da cidade, Rosa recebeu a influência da espiritualidade franciscana ainda muito pequena. Ela era uma criança carismática, possuía dons especiais e um amor incondicional ao Senhor e a Virgem Maria.
     Ela passou sua curta vida como que reclusa na casa do pai e foi incansável no apoio do papado. Apesar de viver em isolamento, Rosa tornou-se conhecida por seus dons místicos de prever o futuro e pelos seus milagres. Um deles foi operado em favor de sua falecida tia materna, quando ela, com apenas três anos de idade, por suas orações obteve sua ressurreição.
     Aos sete anos a menina já se devotava à oração e penitência. No dia 23 de julho de 1247, foi atacada por uma forte febre. De repente, ajoelhou-se em sua cama e balbuciou o nome de Maria, ficou ali por um longo tempo. Então levantou-se e sorriu: estava sem febre. Contou então que a Virgem lhe apareceu e lhe confiara uma missão: visitar as igrejas de São João Batista, Santa Maria do Outeiro e São Francisco. E que depois da Missa fosse pedir sua admissão na Ordem da Penitência de São Francisco, hoje chamada de Ordem Franciscana Secular.
     Admitida na Ordem Terceira, passou a vestir seu hábito, composto de uma simples túnica com uma corda na cintura. Rosa também cumpriu o mandato recebido da Virgem, saindo pelas ruas da cidade alçando um crucifixo e conclamando o povo a pedir perdão por seus pecados e a fazer penitência.
     No ano de 1247 a cidade de Viterbo, fiel ao Papa, caiu nas mãos do imperador Frederico II, um herege, que negava a autoridade do Papa e o poder do Sacerdote de perdoar os pecados e consagrar. Rosa teve uma visão com Cristo que estava com o coração em chamas. Ela não se conteve, saiu pelas ruas pregando com um crucifixo nas mãos. A notícia correu toda cidade, muitos foram estimulados na fé, e vários hereges se converteram. Com suas palavras confundia até os mais preparados. Por isto, representava uma ameaça para as autoridades locais.
     Em janeiro de 1250, Viterbo tomou partido pelo Imperador e revoltou-se contra o Papa. Quando Rosa postou-se vigorosamente ao lado do Sumo Pontífice, ela e sua família foram exiladas, refugiando-se em Soriano Nel Cimino. Lá, no dia 5 de dezembro do mesmo ano, Rosa teve a visão de um anjo que lhe anunciava a morte do Imperador e o apaziguamento da cidade de Viterbo, profecia que se realizou no dia 13 de dezembro.
     Com a morte do imperador, ela podia voltar para Viterbo. Entretanto, passou antes por Vitorchiano, cujos habitantes tinham sido pervertidos por uma famosa bruxa. Consta então que Rosa, para converter esse povo infiel, ficou durante três horas nas chamas de uma fogueira, sem sofrer o menor dano. O milagre foi tão incontestável, que não só a população, mas também a feiticeira se converteu.
     Com a restauração do poder papal em Viterbo no ano seguinte (1251), ela e a família retornam à cidade natal.
     Rosa queria muito ingressar no convento de Santa Maria das Rosas, mas foi recusada, pois não tinha dinheiro para pagar o dote de admissão. Ela submeteu-se humildemente a esse insucesso, que via como vontade de Deus, mas predisse que seria admitida no mosteiro depois de sua morte.
     Os poucos anos de vida que lhe restavam ela os passou na cela que tinha na casa dos pais, onde morreu no dia 6 de março de 1252. No dia 25 de novembro de 1252, o Papa Inocêncio IV, por sua Bula Sic in Sanctis, mandou instaurar oficialmente o processo de canonização de Rosa, nunca terminado.
     No dia 4 de setembro de 1257, o Papa Alexandre IV mandou exumar o corpo de Rosa e, para a surpresa de todos, o corpo foi encontrado intacto, quase como se ela estivesse viva. Originariamente enterrada na igreja paroquial de Santa Maria in Poggio, Alexandre IV ordenou que fosse transladada para o convento das Irmãs Clarissas, a partir de então chamado Mosteiro de Santa Rosa.  Como ela havia predito, foi admitida ali após sua morte.
     No século XV, outro papa, Calixto III, também dá ordens de instaurar um novo processo. Este é iniciado, mas não chegará a terminar, pois o papa, nesse ínterim, faleceu. Curiosamente a canonização de Rosa nunca foi oficializada, mas também nunca foi negada pelos Papas e pela Igreja. O nome de Rosa aparece no Martirológio Romano já a partir de 1583.
     Sua festa antigamente era celebrada no dia 4 de setembro, dia da transladação de suas relíquias para o mosteiro que não a quisera receber. Nesse dia, quando ainda era viva a fé no bom povo de Deus, o corpo incorrupto dessa virgem singular era carregado em procissão desde o santuário dedicado a ela, pelas ruas de Viterbo pelos chamados Facchini di Santa Rosa, num espetáculo monumental. Uma torre de madeira e tecido renovada a cada ano, com uma estampa da Santa, era levada aos ombros por 62 homens.
     Em setembro de 1929, o Papa Pio XI, declarou Santa Rosa de Viterbo a padroeira da Juventude Feminina da Ação Católica Italiana. No Brasil ela é a Padroeira dos Jovens Franciscanos Seculares. Santa Rosa de Viterbo é festejada atualmente no dia de sua morte, mas também pode ser comemorada no dia 4 de setembro, dia do seu translado para o Mosteiro das Clarissas de Viterbo.
     A mensagem de Santa Rosa de Viterbo continua atual, plenamente válida e urgente: conversão, fidelidade ao Evangelho, à Santa Igreja e ao Papado.

Fontes: “Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola;