quarta-feira, 11 de abril de 2018

Santa Gema Galgani: há 115 anos falecia esta vítima expiatória (11 de abril de 1903)

    
Santa Gema em êxtase
 Santa Gema Galgani em sua breve peregrinação por esta terra deixou-nos um exemplo de sua intensa vida espiritual se oferecendo a Deus como vítima de expiação pelos pecados dos homens. No participar da paixão ela deseja ajudar Jesus nas suas dores. Se cria assim um pacto de amor em modo tal que Jesus a possa oferecer ao Pai como vítima de amor por todos os pecadores.
     Foi assim favorecida por toda sorte de carismas, como os estigmas da Paixão, a coroa de espinhos, a flagelação e o suor de sangue. Teve frequentes êxtases, espírito de profecia, discernimento dos espíritos e visões de Nosso Senhor, de sua Mãe Santíssima, de São Gabriel e da Virgem Dolorosa, e uma incrível familiaridade com o Anjo da Guarda.
     Foi constantemente atacada pelo demônio, que lhe aparecia em forma humana ou de animais. Enfim, teve o matrimônio místico com Nosso Senhor Jesus Cristo e morreu como vítima expiatória pelos pecados do mundo.
*
     Não procuro nada, não quero nada, senão aquilo que Deus quer” – Santa Gema Galgani (Itália, 12/03/1878 – 11/04/1903)
     Que ninguém me faça mal, pois eu levo as marcas do Senhor Jesus no meu corpo”, essa é a frase que resume a vida da joia de Cristo – uma Santa bem próxima dos nossos tempos, que viveu profundamente a Paixão. Santa Gema Galgani nasceu em um vilarejo próximo de Lucca, na Itália, e desde a mais tenra idade deu seu testemunho de amor, devoção e entrega à Cruz, pela conversão dos pecadores.
     Gema perdeu sua mãe quando tinha apenas 7 anos e pediu à Nossa Senhora que a substituísse, chamando-a carinhosamente de “mamãe”. A pequena assumiu todos os afazeres da casa e quando completou 18 anos, sofreu mais uma perda: seu pai faleceu, deixando-a com seus 7 irmãos em profunda miséria. De saúde frágil, chegou a ser curada milagrosamente de uma meningite que lhe causava surdez e paralisia nos membros.
     Era constantemente consolada pela Virgem Maria, pelo Anjo Gabriel, pelo seu Anjo da Guarda e, também, por Jesus Cristo, suportando as afrontas do demônio que a atormentou até seus últimos minutos de vida. “Prepara-te, minha filha; por minha ordem o demônio vai declarar-te guerra e dar, por esta forma, o último retoque à obra que realizei em ti”, foram as palavras proferidas por Nosso Senhor à Santa.
     Quando em êxtase, fenômenos supranormais manifestavam-se nela, dentre os quais a mudança do som de sua voz e o falar em linguagem usada na época de Cristo (aramaico), da qual não poderia ter conhecimento.
     “… o Diário de Santa Gema Galgani […] ficou conhecido como o livro que o diabo queimou, temendo o grande bem que a obra faria às almas. Neste diário, Santa Gema Galgani dialoga com Deus e o diabo. De um lado, Deus, buscando salvar sua alma, imprimindo-lhe as dores de seu Filho Jesus; do outro, o diabo, tentando-a para que desistisse dos propósitos de Deus. Nesta árdua luta espiritual entre o bem e o mal, ela escreve esta obra de raro teor espiritual, mostrando quão preciosa é a fé em Deus e no seu Filho crucificado e ressuscitado…”. Pe. José Carlos Pereira, CP – Livro: Santa Gema Galgani – Diário (Galgani, Gema; Editora Paulus)
     A missão de Gema sempre esteve bem clara: salvar os pecadores com a própria vida. Por meio da graça mariana de participar da Paixão de Cristo, descobriu o significado místico da Virgem aos pés da Cruz e doou à Maria a sua própria alma. Da sua parte, Nossa Senhora preparou Gema para a graça da estigmatização: a coroa de espinhos, a flagelação e o suor de sangue.
*
     O Inimigo reforçava sua guerra contra Gema, pois ele sabia que o fim estava próximo. Ele esforçava-se para persuadi-la de que ela tinha sido totalmente abandonada por Deus. Usava suas diabólicas aparições e até mesmo violência física, batendo no frágil corpo de Gema.
     Uma testemunha ocular que cuidava de Gema disse: “Aquela besta abominável vai ser o fim da nossa querida Gema - golpes atordoantes, formas de animais ferozes etc. - eu a deixei com lágrimas nos olhos porque o demônio a está esgotando”.
     Gema clamava incessantemente os nomes Santos de Jesus e Maria, mas a batalha continuava. O seu Diretor Espiritual, o Venerável Germano, vendo o esforço final de Gema, disse: “A pobre sofredora passou dias, semanas e meses desse modo, dando-nos um exemplo de paciência heroica e razões para um medo saudável pelo que pode acontecer conosco, que não temos os méritos de Gema, na terrível hora da morte”.
     Ainda assim, mesmo passando por essas provações, Gema nunca se queixou, ela apenas rezava. Gema estava no fim. Ela era praticamente um esqueleto vivo, mas ainda linda, apesar da devastação da doença. Ela recebeu o “Viático”.
     Em suas últimas palavras, disse: “Eu não procuro mais nada; sacrifiquei tudo e todos a Deus; agora eu me preparo para morrer”. Ela falava com dificuldade. “Agora é mesmo verdade que não me resta mais nada, Jesus. Eu recomendo a minha pobre alma a Ti... Jesus!
     Gema então sorriu um sorriso celestial e deixando pender a cabeça para um lado, deixou de viver.
     Ela morreu aos 25 anos – em intensa doação e sofrimento – e seu corpo permanece incorrupto desde então. Santa Gema nos deixa a mensagem da perseverança na fé em momentos de intenso sofrimento e doenças, da necessidade de uma vida de oração e dedicação ao próximo.

ORAÇÃO (Composta por Santa Gema Galgani)
     Eis-me aqui, Senhor, de joelhos, aos Vossos pés, para Vos manifestar o meu reconhecimento e gratidão pelas contínuas graças que me concedeis. Sempre que Vos invoco, me atendeis. Cada vez que a Vós recorro, me consolais.
     Como Vos exprimir, Senhor, toda a emoção que me vai à alma? Por tudo Vos dou graças, mas, se for do Vosso agrado, Vos peço ainda que me concedais esta particular graça [pede-se a graça que deseja obter].
     Dirijo-Vos esta súplica, Senhor, porque sois Todo-Poderoso. Tende piedade de mim! Que em tudo se faça a Vossa Santíssima Vontade. Amém.
(Pai Nosso, Ave Maria, Glória)

Fontes:
www.obradoespiritosanto.com

terça-feira, 10 de abril de 2018

Santa Teresa de Jesus dos Andes, Carmelita Descalça - 12 de abril

Padroeira da Juventude da América Latina
Alma delicada sem fraqueza e forte sem brutalidade, considerada a Santa Teresinha da América Latina

     Em março de 1993, João Paulo II elevou à honra dos altares a carmelita descalça mais jovem a receber da Igreja o reconhecimento de sua santidade e aquela que viveu menos tempo na vida carmelitana: morreu onze meses depois de ter entrado no Convento do Espírito Santo das Carmelitas Descalças, em Rinconada de Los Andes, Chile.  
Juanita aos 18 meses
    Juanita Fernandez Solar, ou Juana Enriqueta Josefina dos Sagrados Corações (seu nome de Batismo), nasceu a 13 de julho de 1900 em Santiago do Chile.
     Seus pais, Miguel Fernández e Lucia Solar, três irmãos e duas irmãs, avô materno, tios, tias e primos: no seio desta família passou sua infância. A família gozava de muito boa posição econômica e conservava fielmente a fé cristã, vivendo-a com sinceridade e constância.
     Desde cedo, sempre gostou de ouvir falar de Deus e sua terna devoção à Santíssima Virgem levou-a, aos sete anos de idade, a fazer a promessa de rezar diariamente e durante toda a vida o Santo Rosário: promessa fielmente cumprida até o dia de sua morte (12 de abril de 1920)!
     Até 1918, recebeu esmerada formação no Colégio do Sagrado Coração, quer como externa, quer posteriormente como interna.
     Juanita era notável por sua preocupação pelos anciãos e necessitados chegando certa ocasião a rifar seu relógio para socorrer um menino pobre. Suas empregadas, quer na cidade, quer na fazenda da família no interior do Chile, eram tratadas com carinho, delas cuidava pessoalmente quando enfermas.
     No dia 8 de dezembro de 1915, com 15 anos de idade, fez voto de castidade que depois irá renovando periodicamente. Promete "não admitir outro esposo senão a Jesus Cristo". Em abril do ano seguinte, revela à sua irmã Rebeca: "Serei carmelita. Em 8 de dezembro eu me comprometi".
     Como interna no Colégio das Mestras do Sagrado Coração, recebeu em 27 de junho de 1917 o prêmio como melhor aluna de História daquele estabelecimento de ensino. 
     Corria o ano de 1918. A jovem Juanita apresenta três composições literárias que lhe valerão obter o primeiro prêmio da Academia patrocinadora de um concurso. “Sombra e Luz na Idade Moderna - Demolidores e Criadores”, foi o expressivo título da primeira dessas composições.
     Seu conteúdo revela traços admiráveis e pouco conhecidos do pensamento e da personalidade da primeira Santa chilena. Sua visão de conjunto sobre os decisivos acontecimentos históricos dos últimos séculos demonstra até que ponto Santa Teresa dos Andes estava compenetrada da crise que em nossos dias vem destruindo a Civilização Cristã.
     Com 18 anos de idade, a Santa previa o rumo que os acontecimentos atuais iriam tomar e compreendia ao mesmo tempo que a condição de católico fiel supõe grandes batalhas.
     Embora seja verdade que a Santa soube pregar o amor com palavras e exemplos de admirável doçura, é verdade também, entretanto, que soube pregar com magnífica e não menos admirável firmeza o dever da vigilância, da argúcia, da luta aberta e intransigente contra os inimigos da Santa Igreja (*).
Demolidores e Criadores"
     "Há um poder sempre reinante, uma dinastia que não conhece ocaso, uma luz que nunca se extingue, e este poder tem sido sempre combatido, esta dinastia sempre perseguida, esta luz tem estado continuamente circundada de trevas.
     "Eis a eterna história do poder da Igreja; dinastia do Papado; da luz, da verdade. Enquanto tudo passa e fenece a seus pés, a Igreja mantém-se erguida, porque está sustentada pelo poder do alto. Descortinemos o cenário dos povos modernos e veremos que, em cada século, os filhos da Igreja têm que levar em seus lábios o clarim guerreiro.
     "Essa luta não terminará porque é eterno o antagonismo entre a sombra e a luz. Enquanto os filhos da sombra demolem, os filhos da luz regeneram. Daí o título que adotei: Demolidores e Criadores.
Lutero brada contra a autoridade da Igreja
     "Que sucede no século XVI? Os países da Europa se abrasam no fogo de uma guerra fratricida. Na Alemanha, um astro sinistro se interpõe entre as almas e o sol da verdade. Lutero e seus sequazes dão o brado de guerra, o alvo de seus ataques é a autoridade da Igreja... Qual o fruto dessa rebelião? A destruição da comunhão de ideias. As nações se afogam no sangue, as almas se veem envolvidas nas trevas do erro, e a heresia, como rio que transborda, arrasta as massas populares, a nobreza, os tronos e até os ministros do altar. Portanto, os canais através dos quais Deus derrama as graças sobre as almas estão envenenados!
Santo Inácio se levanta como um guerreiro
     "Mas, será possível que o mundo pereça? Não. Um novo astro surge no horizonte: é o ferido de Pamplona, Inácio de Loiola, que cai como soldado de um rei terreno e se levanta como guerreiro do Rei do Céu. Vede-o alistar uma companhia que não manejará o canhão, nem empunhará a espada. Quereis conhecer suas armas? O crucifixo! Sua divisa? A maior glória divina! Seus soldados se espalharão por toda parte e, portadores da luz da verdade, deixarão após si um rastro luminoso; luz espargem eles na Europa, na controvérsia, na pregação, no ensino, luz espargem nas Índias com Francisco Xavier que regenera nas águas do Batismo milhões de almas; luz espargem os soldados da nova milícia em todos os lugares onde passam.
Jansênio lança gelo e sombra
     "Passemos a página do século XVI e veremos no século seguinte o mesmo espetáculo de sombra e luz de demolidores e criadores.
     "No século XVII vemos desta­car-se entre as sombras uma figura de aspecto rígido e severo: Jansênio que lança o gelo e a sombra por onde passa. a chama do amor vacila e acaba por se extinguir com seu brado ímpio: 'Cristo não morreu por todos!' Já não apresenta o Crucifixo com os braços abertos para receber a todos sem exceção, mas sim com os braços entreabertos para receber a uns quantos e rechaçar aos demais...
     "Fugi! Fugi!... clamam os demolidores do século XVII e as almas aterradas fogem... regelam-se e se perdem!
Um sol esplendoroso e vivificante se levanta
     "Deus estava ferido no mais delicado de seu amor... o Verbo pronuncia uma vez mais a palavra criadora que fará brilhar a luz no meio das trevas: em Paray-Le-Monial se levanta um sol esplendoroso e vivificante. Jesus Cristo mostra a uma humilde visitandina seu Coração aberto, abrasado em chamas de amor, queixa-se do esquecimento dos homens e os chama a todos com insistência.
     "A legião jansenista brada: Fugi! Fugi!... A voz de Paray-Le-Monial clama: Vinde! Vinde!... A bandeira negra do terror cederá diante do formoso estandarte do amor. Será tudo? Não. Ali está o grande apóstolo da caridade, São Vicente de Paula que, a imitação do Mestre divino, chama o pobre, o doente, o menino. Para todos há guarida em seu coração. Sua bela legião de Filhas da Caridade arranca do inferno milhares de almas no instante supremo. O amor desterrado reanima as almas, a luz tira os espíritos das sombras. O Coração divino de Jesus e o coração deificado de São Vicente de Paula, falam do amor, do amor infinito um e da compaixão até o heroísmo outro.
Os iluministas, novos demolidores
     "A luta não terminou: o inimigo acossa sempre a Igreja. A tempestade é mais terrível que nunca no século XVIII. Os corifeus da maldade, Voltaire e Rous­seau se mostram, o primeiro com o sorriso burlesco nos lábios e a blasfêmia na pena, o segundo com o sofisma e a confusão nas ideias, e ambos com a corrupção no coração. Os pretensos filósofos querem explicar tudo racionalmente e proclamam diante do mundo que não há Deus, arrancam Cristo do coração de nobres e plebeus, e ainda se atrevem a arrancá-lo do coração do menino. Detende-vos, infames! Está cheia vossa medida, esse santuário de inocência não pode ser transpassado, esses meninos pertencem a Jesus Cristo! Um apóstolo se levanta em nome do Deus da infância: João Batista La Salle, funda as Escolas Cristãs, colocando no coração dos meninos desvalidos a chama da Fé que se extingue por todos os lados.
A Revolução Francesa: obra de ímpia demolição
     "Guerra ao Papa! É o brado da falange mortífera, e em seu frenético entusiasmo diz que já não haverá quem suceda ao mártir da impiedade, a Pio VI. Mas, não bradeis tão alto, Deus disse que as portas do inferno não prevalecerão, e se rirá de vossos desígnios. Vede sentado e estabelecido no trono um novo Papa...
As sombras cobrem novamente o mundo
     "Ó Igreja, teu poder jamais será destruído! As trevas cobriram a face do universo na aurora do Tempo e ao Fiat Lux fogem vencidas. Mais tarde, as sombras da idolatria cobriram o mundo antigo, veio o Verbo e dissipou as trevas, porque o Verbo era a Luz.
     Hoje as sombras cobrem novamente o orbe cristão; mas ali está a palavra de Cristo, Verdade Eterna: 'Aquele que Me segue e cumpre minha palavra não anda nas trevas'.
     "Ó palavra de vida! A Ti amor eterno, a Ti eterna fidelidade!"
*     
Sua vida monástica, de 7 de maio de 1919 até sua morte, foi o último degrau de sua ascensão ao cume da santidade: onze meses foram suficientes para consumar sua vida totalmente transformada em Cristo.
     Na Sexta-feira Santa de 1920, após o Ofício que relembra a morte do Divino Salvador, a Superiora percebeu que Irmã Teresa estava pálida e com dificuldade de seguir as cerimônias. Quando lhe apalpou a fronte, viu que estava ardendo em febre, e mandou-a recolher-se ao leito. Dele não se levantaria mais. Nesse período, fez a profissão religiosa e recebeu os últimos sacramentos.
     Ao entardecer de 12 de abril de 1920, contando vinte anos incompletos e apenas 11 meses no Carmelo, fechou os olhos para esta vida, indo encontrar Aquele que pouco antes ela chamara “Meu Esposo”. Longe dali, em Santiago, nesta mesma hora, a Irmã Mercedes do Coração de Maria teve uma visão: “Subitamente (…) me encontrei na cela de uma carmelita moribunda; vi que era bem jovem e, apesar da palidez de seu rosto, tudo nela refletia uma luz suavíssima e celestial. Ao lado esquerdo da sua cama havia um anjo com um dardo que lhe trespassava o coração, e logo ouvi: morre de amor”.
     Foi canonizada no dia 21 de março de 1993. Nos processos de beatificação e canonização, três dos seus principais confessores sustentaram sob juramento que ela jamais cometera pecado mortal nem venial deliberado.
     Os seus restos são venerados no Santuário de Auco-Rinconada dos Andes por milhares de peregrinos que buscam e encontram nela a consolação, a luz, e o caminho reto para Deus.
     Santa Teresa de Jesus nos Andes é a primeira Santa chilena, a primeira Santa carmelita descalça de além-fronteiras da Europa e a quarta Santa Teresa do Carmelo, após Santa Teresa d’ Ávila, Santa Teresa de Florença e Santa Teresa de Lisieux.
     Festa litúrgica: 13 de julho. 

Obras de Referência:
1. Um lírio del Carmelo: Sor Teresa de Jésus -Juanita Fernandez S. -1900-1920, Imprenta de San José, Santiago do Chile, 1929.
2. Santa Teresa de Los Andes, Deus, alegria infinita, Edições Loyola, São Paulo, 1993.
3. Santa Teresinha da América Latina - Pensamentos, Edições Loyola, São Paulo, 1993.

(*) Os intertítulos nos excertos da composi­ção da Santa são nossos.




sexta-feira, 6 de abril de 2018

Domingo da Divina Misericórdia - 8 de abril


     No segundo Domingo da Páscoa, a Igreja celebra a Divina Misericórdia. E todos nós, católicos, precisamos conhecer esta iluminadora e alentadora celebração da nossa fé em Deus Misericordioso.
     No ano 2000, o Papa João Paulo II canonizou Santa Faustina e, durante a celebração, declarou: “É importante, então, que acolhamos inteiramente a mensagem que nos vem da palavra de Deus neste segundo Domingo de Páscoa, que de agora em diante na Igreja inteira tomará o nome de ‘Domingo da Divina Misericórdia’” (Homilia, 30 de abril de 2000).
     Esta celebração acontece no segundo Domingo da Páscoa. Baseia-se nas revelações privadas a Santa Faustina Kowalska, religiosa polonesa que recebeu as mensagens de Jesus sobre sua Divina Misericórdia no povoado de Plock, na Polônia.
     Entre outras coisas, esse domingo especialíssimo oferece a possibilidade da indulgência plenária: “Para fazer com que os fiéis vivam com piedade intensa esta celebração, o mesmo Sumo Pontífice (João Paulo II) estabeleceu que o citado domingo seja enriquecido com a Indulgência Plenária”, “para que os fiéis possam receber mais amplamente o dom do conforto do Espírito Santo e desta forma alimentar uma caridade crescente para com Deus e o próximo e, obtendo eles mesmos o perdão de Deus, sejam por sua vez induzidos a perdoar imediatamente aos irmãos” (Decreto da Penitenciaria Apostólica de 2002).
     Esta imagem foi revelada a Santa Faustina em 1931 e o próprio Jesus lhe pediu que a pintasse. Em seguida, explicou-lhe seu significado e o que os fiéis alcançarão com ela. Na maioria das versões, Jesus se mostra levantando sua mão direita em sinal de bênção e apontando com sua mão esquerda o peito do qual fluem dois raios: um vermelho e outro branco.
     “O raio pálido significa a Água que justifica as almas; o raio vermelho significa o Sangue que é a vida das almas (…) Feliz aquele que viver à sua sombra, porque não será atingido pelo braço da justiça de Deus” (Diário, 299).
     Toda a imagem é um símbolo da caridade, do perdão e do amor de Deus, conhecida como a “Fonte da Misericórdia”.
     O Terço da Divina Misericórdia é um conjunto de orações usadas como parte da devoção à Divina Misericórdia. Costuma-se rezá-lo às 15h, momento da morte de Jesus, usando as contas do terço, mas com um conjunto diferente de orações:
  • Primeiramente, reza-se o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Credo.
  • Depois, nas contas do Pai-Nosso, diz-se: “Eterno Pai, eu Vos ofereço o Corpo e Sangue, Alma e Divindade de Vosso diletíssimo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, em expiação dos nossos pecados e do mundo inteiro”.
  • Nas contas da Ave-Maria, reza-se: “Pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro”.

  • Ao final, reza-se três vezes: “Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro”.
     A imagem da Divina Misericórdia representa Jesus no momento em que aparece aos discípulos no Cenáculo – após a ressurreição –, quando lhes dá o poder de perdoar ou reter os pecados. Este momento está registrado em João 20,19-31, que é a leitura do Evangelho deste domingo.
     A leitura é colocada neste dia porque inclui a aparição ao apóstolo Tomé (quando Jesus o convida a tocar suas chagas). Isto ocorreu no oitavo dia depois da Ressurreição (João 20,26) e, por isso, é utilizado na liturgia oito dias depois da Páscoa.
     Em João 20, 21-23, afirma-se: “Novamente, Jesus disse: ‘A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio’. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos’”.
     Jesus capacitou os apóstolos (e seus sucessores no ministério) com o Espírito Santo para perdoar ou reter (não perdoar) os pecados. Como estão facultados com o Espírito de Deus para fazer isso, sua administração do perdão é eficaz: realmente elimina o pecado em vez de ser um símbolo de perdão.
     Jesus promete regressar em glória para julgar o mundo no amor, como claramente diz em seu discurso do Reino nos capítulos 13 e 25 de São Mateus. Somente no contexto de uma revelação pública como é ensinado pelo Magistério da Igreja se pode situar as palavras da revelação privada dada a Irmã Faustina.
     “Prepararás o mundo para a minha última vinda” (Diário, 429).
     “Fala ao mundo da Minha misericórdia, que toda a humanidade conheça a Minha insondável misericórdia. Este é o sinal para os últimos tempos; depois dele virá o dia da justiça. Enquanto é tempo, recorram à fonte da Minha misericórdia” (Diário, 848).
     “Fala às almas desta Minha grade misericórdia, porque está perto o dia terrível, o dia da Minha justiça” (Diário, 965).
     “Prolongo-lhes o tempo da Misericórdia, mas ai deles, se não reconhecerem o tempo da Minha visita” (Diário, 1160).
     “Antes do Dia da justiça envio o dia da misericórdia” (Diário, 1588).
     “Quem não queira passar pela porta de Minha misericórdia, tem que passar pela porta de Minha justiça” (Diário, 1146).

Fonte: Redação da Aleteia | Abr 04, 2018 - A partir de matéria da agência ACI Digital

Nota: Para conhecer Santa Faustina, vide um pequeno resumo neste blog no dia 5 de outubro de 2011.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Beata Pierina Morosini, Mártir da Pureza - 6 de abril

    
     Há os mártires da fé e os há da pureza. O martírio não ficou no passado, nos primórdios da História da Igreja, quando os imperadores romanos perseguiam os cristãos. Valorosos mártires católicos sucumbiram, e continuam a perecer nos dias de hoje, principalmente em tantas nações que não aceitam Nosso Senhor Jesus Cristo e a Sua Igreja.
     Lembremo-nos de contemporâneas nossas que foram autênticas mártires da pureza, tais como Santa Maria Goretti e a Beata Pierina Morosini, entre outras.

     Pierina Morosini era a mais velha dos nove filhos do casal Roque e Sara Morosini, humildes camponeses de Fiobbio di Albino, Diocese de Bérgamo, ao norte da Itália. Nasceu no dia 7 de janeiro de 1931. À medida que foi crescendo, a sua boa mãe ensinou-lhe as principais verdades da Fé e incutiu-lhe o santo temor de Deus.
     Como a mãe recitasse com os filhos as orações da manhã e da noite, e os fizesse repetir os elementos do Catecismo, aos 4 anos Pierina já sabia de memória muitas orações, os Atos de Fé, Esperança, Caridade e Contrição, além dos Mandamentos e das Obras de Misericórdia.
     Assim preparada, foi Crismada em 10 de janeiro de 1937 e recebeu a 1ª. Comunhão em 5 de junho de 1938. Desde cedo mostrou aptidões para a vida religiosa, desejando ser missionária franciscana. Aos 16 anos, com licença do confessor, fez voto de castidade e depois acrescentou os votos particulares de pobreza e obediência. Participava com alegria e entusiasmo nas atividades apostólicas da paróquia. Fez parte também da pia associação das Filhas de Maria e da Ordem Terceira Franciscana.
     Modesta, prudente, simples e, principalmente, muito pura, Pierina obteve sempre o primeiro prêmio, com distinção, em todas as provas do curso primário que frequentou nas Irmãs Filhas do Sagrado Coração de Jesus, de Albino. Renunciou, no entanto, prosseguir os estudos, para auxiliar o pai no sustento da numerosa família. A renúncia mais dolorosa, porém, consistiu em retardar a entrada para o convento, pois a invalidez do pai devida a um acidente obrigou-a a tornar-se o arrimo da família.
     Aprendeu corte e costura aos 11 anos e aos 13 costurava com perfeição roupas para toda família. Aos 15 anos empregou-se numa fábrica de tecelagem - o Cotonifício Honegger - como ajudante de tecelão. Era muito estimada pelos superiores e respeitada pelos outros operários.
     Embora fosse muito inteligente - ou justamente por isto! - Pierina se considerava a última de todos. Era sempre amável no trabalho, sem, contudo, ceder nada em matéria de moral e de costumes.  De tal modo era venerada na empresa onde trabalhava, que logo ao terem conhecimento de sua morte suas companheiras dividiram entre si o avental de Pierina, a fim de guardar dela uma relíquia.
     Tendo que caminhar cerca de três horas diariamente para ir ao trabalho, Pierina preenchia este tempo rezando o Rosário. Uma parte do trajeto rezava-o com as companheiras de trabalho e o restante, sozinha. Ela incentivava as companheiras a rezarem, embora algumas tivessem respeito humano. "Aqui, no meio de todos dá vergonha!", dizia uma. Mas ela: "Eu rezo aqui e não penso mais nisso". "Riem de você, Pierina!". Era inútil, ela continuava firme.
     Além de trabalhar oito horas no Cotonifício, Pierina tinha um outro "turno" em casa. Chegando do trabalho ela costurava ou remendava as roupas dos familiares em sua máquina de costura, cozinhava, limpava, enfim, fazia o que podia para aliviar a pesada carga de sua mãe, que além de cuidar de uma família de 11 pessoas, atendia a algumas crianças cujos pais tinham que trabalhar e ficavam aos seus cuidados. "O tempo é mais precioso do que o ouro!", repetia frequentemente Pierina.
     O espírito apostólico nela era inato. Enquanto trabalhava rodeada dos irmãozinhos e das outras crianças, contava para eles episódios do Evangelho e da vida dos Santos, ou fazia com que rezassem em voz alta. Uma religiosa contava que "Pierina tinha uma tática particular para ensinar as crianças não só o Catecismo, mas também o espírito de oração, de obediência e de sacrifício. De vez em quando premiava algumas meninas com uma coroinha, ou uma medalha, dizendo sempre: 'Toma e seja boa!'. Quantas jovens foram instruídas por ela no Catecismo! Tinha um jeito especial para convencê-las a fazer o bem. Algumas vezes levava com ela os álbuns ilustrados de Dom Bosco e Domingos Sávio - que havia comprado para ensinar seus irmãos - e os lia, explicava, mostrava as belas ilustrações a cores".
     À noite, quando todos já dormiam, Pierina lia à luz de uma vela (a eletricidade só chegaria a sua aldeia em 1955) os seus livros comprados com grande sacrifício. Entre suas leituras estão: Santa Gema Galgani, Santo Cura d'Ars (que leu várias vezes), Padre Damião Samarate, o apóstolo dos leprosos no Brasil, São João Bosco, São Domingos de Sávio... Além destes, o "A jovem piedosa", que continha orações e meditações adaptadas às jovens, e "A grande promessa" sobre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus.
     Seu amor à virtude da pureza levou-a a tomar como protetora Santa Maria Goretti. A única vez que a jovem saiu dos limites da região onde residia foi quando viajou a Roma a fim de assistir à canonização de sua protetora, que ocorreu no dia 27 de abril de 1947.
     Uma outra frase escrita à mão por Pierina em seu livro de orações, para ela poder lê-la e meditá-la, deixa transparecer a sua espiritualidade: "A virgindade é um profundo silêncio de todas as coisas da terra"
     Segundo o testemunho de seus conterrâneos, Pierina sempre foi muito recatada. Todos diziam que ela era uma moça diferente das demais. O seu avental de trabalho tinha mangas compridas e ela o mantinha fechado até o pescoço. Quando fazia calor lhe diziam: "Mas, abre um pouco!" Ela sorria, limitando-se a enxugar o suor com um lenço muito limpo. Ela estava sempre limpa e bem penteada. Suas companheiras de trabalho afirmaram que “Pierina possuía muita graça e elegância, de tal modo que não parecia uma pessoa do povo”.
     Pierina falava muito pouco, mas o que dizia vinha sempre muito a propósito, de maneira simples e sem rebuscamentos. Um sacerdote que a conheceu testemunhou: “Quando esta jovem fala, diz somente palavras de verdade”.
     Pierina conheceu o Padre Luciano em abril de 1946, quando sofreu um acidente na fábrica e precisou se recuperar no Hospital Honegger, de Albino, onde ele era Capelão. Ele era do Convento dos Capuchinhos de Albino e foi o único diretor espiritual de Pierina. Sobre uma página branca de seu livro de orações ela havia escrito uma frase que resume a sua conduta em relação ao diretor espiritual: "A minha vocação: me deixarei conduzir como uma menina de um dia".
     Entre os livros de Pierina foi encontrada uma folha datilografada contendo um "Pequeno regulamento diário" que se acredita ter sido dado a ela pelo Padre Luciano. O texto contém numerosas correções e na parte da folha que restou em branco, Pierina escreveu sete propósitos, no fim dos quais o mesmo Padre Luciano escreveu de próprio punho a palavra "Bom!".
     O "Pequeno regulamento" era uma verdadeira regra de vida. Embora no mundo, Pierina levava uma vida de verdadeira religiosa. Tendo conhecimento da espiritualidade de São Luís Maria Grignion de Montfort, consagrou-se como escrava a Nossa Senhora, segundo o método daquele grande santo, fazendo todas as ações do dia em união com a Virgem Imaculada.
     Os sete propósitos revelam bem sua espiritualidade simples e ardente:
"Sou toda Vossa e tudo quanto possuo Vos ofereço, amável Jesus, por meio de Maria Vossa Mãe Santíssima".
1. Me esforçarei para manter a paz na família; 2. Quando o cansaço me enfraquecer, me mostrarei sempre alegre; 3. Terei sumo respeito por mamãe; a obedecerei e não responderei grosseiramente; 4. Não comerei nenhuma guloseima; 5. Durante o dia procurarei permanecer na presença de Deus, farei comunhões espirituais e rezarei jaculatórias; 6. Não buscarei saber coisas dos outros; 7. Não direi nunca palavra em meu louvor e procurarei estar escondida aos olhos dos homens.
     Pierina comungava diariamente, mesmo nos dias mais rigorosos do inverno, levantando-se às quatro horas da madrugada para receber a Jesus Sacramentado.
     No dia 4 de abril de 1957, quinta-feira, Pierina saiu da fábrica onde trabalhava, em Cedrina, dirigindo-se a sua casa, em Fiobbio di Albino, distante uma boa hora de caminhada.
     Chegando a um trecho mais despovoado da estrada, foi abordada por um jovem que de há muito pretendera, em vão, manter conversa com ela. Pierina acelerou seus passos e rezou mais fervorosamente. O rapaz, no entanto, a alcançou, passando a fazer-lhe propostas indecorosas em tom de ameaça. Pierina procurou correr, mas o rapaz segurou-a. Ela, porém, lutou valentemente contra aquele jovem lúbrico. Desvairado, o rapaz apanhou uma grande pedra e por oito vezes atingiu violentamente o seu crânio. Pierina ainda caminhou vinte passos, mas depois caiu por terra desfalecida.
     Em sua casa todos a aguardavam com impaciência. Seu irmão, Santo, pressentindo alguma tragédia, deixou de lado os livros e saiu à procura da irmã. Depois de muito a procurar, encontrou-a caída sob algumas árvores do caminho, a cabeça mergulhada numa poça de sangue, o rosário junto às mãos. Conduzida agonizante a um hospital de Bérgamo, veio a falecer 40 horas depois do crime, no dia 6 de abril de 1957, primeiro sábado do mês.
     Em janeiro de 1976, D. Clemente Gaddi, bispo de Bérgamo, anunciou a abertura do processo de beatificação dessa nova mártir da pureza, morta aos vinte e cinco anos de idade. A fama do martírio, que correu por toda parte, foi finalmente confirmada pela Santa Sé a 16 de junho de 1987, depois de rigoroso processo. Pierina foi beatificada no domingo, 4 de outubro de 1987, e é comemorada pela Santa Igreja no dia 6 de abril.


   Aspecto do funeral de Pierina

terça-feira, 3 de abril de 2018

Beata Catarina de Maria, Viúva e Fundadora – 5 de abril

    
     São muitas as mães de família que alcançaram a santidade, desde as Santas Mártires Perpétua e Felicidade, até Santa Giana Beretta Mora, passando por Santa Mônica, Santa Francisca Romana, Santa Zélia Guerin e tantas outras. Mas, até nossos dias nenhuma mãe de família nascida na América Latina havia alcançado o reconhecimento dos altares.
     Josefa Saturnina Garcia Rodriguez de Zavalía, ou Madre Catarina de Maria, viúva e fundadora de ordem religiosa, nascida em terras latino-americanas, é a 1ª mulher nestas condições a ser beatificada, além de ter sido “mãe de coração” de duas crianças.
     Antes de fundar as Irmãs Escravas do Coração de Jesus, e de ela mesma se consagrar na vida religiosa, contraiu matrimônio e assumiu a maternidade dos filhos de seu esposo, que havia enviuvado de casamento anterior.
*
     Princípios do século XIX. Catarina viveu nesse tempo, nasceu em Córdoba, Argentina, no dia 27 de novembro de 1823, terceira filha de Hilário Rodriguez Orduña e Catarina Montenegro y Olmos. Sua família teve grande protagonismo político, social e religioso.  Foi batizada na Catedral de Córdoba no mesmo dia de seu nascimento. Pouco depois do nascimento da última filha, a Sra. Catarina morreu com apenas 23 anos.
     O pai, não desejando casar-se novamente, entregou as filhas a uma tia, Teresa Orduña, viúva Del Signo, de 66 anos. Esta senhora tinha acolhido em sua casa uma jovem, Eustaquia, a qual passou a cuidar das órfãs, que a chamavam “mãezinha”. Após a morte de Teresa, a sua família se juntou à de três outras irmãs suas: Inácia, Luísa e Catarina Orduña.
     Saturnina, como era chamada, cresceu em um ambiente profundamente religioso, marcado por devoções como o Natal e o Nome de Maria. Suas tias e a “mãezinha” Eustaquia, também se dedicavam a obra dos Exercícios Espirituais, que havia sofrido com a expulsão dos jesuítas do território sul-americano por ordem do Rei Carlos III da Espanha em 1767.
     Sua formação religiosa foi muito boa, mas a cultural não tanto. Segundo o uso da época, as filhas de famílias aristocráticas recebiam a educação rudimentar das mulheres da época: ler e escrever as primeiras letras e as destrezas na culinária e nos afazeres domésticos para ser uma boa dona-de-casa.
     Não sabemos quando ela recebeu a 1ª. Comunhão e a Crisma, mas o fato mais importante da sua vida de católica ocorreu em sua adolescência, graças ao retorno dos jesuítas à Córdoba em 1838. Sua vocação despertou quando aos 17 anos fez seus primeiros Exercícios Espirituais, pregados pelo Padre Fermin Moreno na casa mandada construir para esta finalidade na sua cidade. Para ela foi uma experiência perturbadora, se sentiu como Moises, maravilhada que Deus pudesse falar com ela e descobriu sua vocação de consagrar sua vida a Deus.
     Saturnina, porém não pode cumprir com sua vocação porque na Argentina de então, e seus arredores, só havia conventos de clausura, e não existia naquele momento a opção de vida religiosa apostólica para as mulheres. Ela se dedicou então a promover e sustentar a obra dos Exercícios Espirituais. Continuou a frequentar os jesuítas para receber direção espiritual, até que eles fossem novamente expulsos por causa de desentendimentos com o governador da província de Buenos Aires, Juan Manuel de Rosas.
     Aos 29 anos, após muita relutância e premida por seu confessor, Padre Tibúrcio Lopes, capelão da Igreja de Na. Sra. do Pilar, que procurou convencê-la a se casar, obedece, mas sente aquela opção contrária aos desejos de sua alma. O casamento com o Coronel Manuel Antonio de Zavalía, viúvo, pai de dois filhos, foi celebrado no dia 13 de agosto de 1852. Com o tempo ela aceitou a sua nova condição como parte da vontade de Deus. Chegou a engravidar, mas a menina morreu ao nascer. Acompanhava seu esposo durante seus périplos militares e políticos com amabilidade e carinho. Nos treze anos que durou seu casamento foi modelo de esposa e mãe. Depois do falecimento do Coronel Zavalía, em 1865, conservou com seus filhos do coração, Benito e Deidamia, uma relação afetuosa e próxima.
     Em 15 de setembro de 1865, quando ia rezar no Mosteiro das Dominicanas, ela teve uma intuição, reforçada por uma visão: deveria fundar uma comunidade feminina que com o mesmo espírito dos jesuítas se dedicasse a difusão dos exercícios espirituais e à educação das crianças, mas também das jovens. Aquele pensamento nunca mais a abandonou.
     Poucos meses após enviuvar, seu “sonho dourado” voltou ao seu pensamento. Sempre tivera um forte compromisso apostólico. Desde jovem estava convencida da importância dos exercícios espirituais, os promovia e auxiliava, e advogou o retorno dos jesuítas, após a sua expulsão de Córdoba em 1848, usando seus importantes vínculos familiares, pois era prima do presidente da Argentina, Santiago Derqui. Ela admirava os jesuítas e queria ser uma com eles, porém a Companhia de Jesus não tem ramo feminino.
     Seu sonho dourado não nasceu sem sofrimentos e tribulações. Finalmente, em 29 de setembro de 1872, o Pe. David Luque inaugurou a primeira sede da comunidade, em uma casa alugada. Era formada de Catarina e outras 4 companheiras. Em 17 de outubro ele distribuiu os encargos entre elas, Catarina foi nomeada sacristã. Em abril do ano seguinte a comunidade se mudou, já eram nove, e ela foi eleita superiora. Na ocasião, ela e as companheiras começaram a vestir um hábito sobre o qual era aplicada uma imagem do Coração de Jesus e o nome da comunidade: Escravas do Coração de Jesus. Assim, era fundada em Córdoba o Instituto das Irmãs Escravas do Sagrado Coração de Jesus (Escravas Argentinas), dedicado à educação e promoção da mulher e atenção às casas de exercícios espirituais. Foi a 1ª congregação feminina de vida apostólica da Argentina.
     Saturnina e as Irmãs começaram seu trabalho: no domingo ensinavam o catecismo às crianças, enquanto as pessoas assistiam à Missa em sua capela. Acolheram também alguns alunos internos gratuitamente devido sua pobreza. Quando o sacerdote Juan Martin Yaniz, depois 1º bispo de Santiago del Estero, ofereceu à comunidade a casa dos exercícios da qual se ocupava, ampliada e com os meios necessários para garantir sua subsistência, ocorreu um novo translado. Esta casa chegou a hospedar mais de 400 pessoas que faziam o curso. Saturnina, já considerada a fundadora da comunidade, era a primeira nos serviços mais humildes.
     Em março de 1875, as Irmãs de transferiram para a Casa Mãe. Em 8 de dezembro de 1875, o primeiro noviciado foi inaugurado e as primeiras dez Irmãs fizeram os votos religiosos. Foi então que ela passou a ser chamada Madre Catarina de Maria: o seu “sonho dourado” se tornava uma realidade.
     Em 1877, convidada pelo Pe. José Gabriel Brochero, o “Cura Brochero” (canonizado em 2016), se instalou em Villa del Tránsito (Córdoba), e ambos tiveram uma fecunda missão na Igreja em fins do século XIX, sobretudo na evangelização das serras cordobesas e na difusão dos exercícios espirituais.
     O Santo Cura Brochero chegou a expressar em diversas cartas a Madre Catarina quanto afeto lhe dedicava e quanta confiança depositava nas Escravas para o atendimento da Casa de Exercícios e do Colégio para meninas.
     Após a comunidade de Villa del Transito, floresceu a comunidade de Santiago del Estero. Depois vieram as de Rivadavia, San Juan, Tucumán. A alegria da abertura das nove casas foi acompanhada, porém, da tristeza pela morte de Pe. Luque, em 11 de agosto de 1892. No ano seguinte, voltando de uma peregrinação a Roma pelo 50º ano de ordenação episcopal de Leão XIII, Madre Catarina recebeu o convite do Mons. Federico Aneiros, Arcebispo de Buenos Aires, para fundar uma casa ali.  Houve muita oposição de homens e mulheres de uma posição elevada na sociedade, que não suportavam a chegada de uma congregação “provinciana”, mas finalmente a escola foi inaugurada.
     Madre Catarina sempre desejou que suas filhas espirituais adquirissem sólidas virtudes e procurassem corrigir os menores defeitos, como ela mesma havia sempre feito. A uma Irmã que sofria por causa de uma contrariedade, escrevia em 15 de janeiro de 1880: “Seria uma vergonha que uma esposa de Cristo se apegasse às coisas vis do mundo, depois de ser confiada e escravizada ao Sagrado Coração de Jesus. Nunca deixe isso acontecer conosco como com as virgens tolas, que não tinham óleo quando o noivo chegou”.
A morte
     Durante a Semana Santa de 1896 a saúde da Madre Catarina decaiu. Após as funções da Quinta-feira Santa, o Pe. Juan Cherta, superior dos jesuítas de Córdoba e diretor eclesiástico das Escravas do Coração de Jesus, veio até ela e ouviu sua confissão. A fundadora permaneceu lúcida e serena mesmo naqueles últimos momentos. Preocupava-se com os médicos que a serviam, fazendo servir café para eles e recompensando-os com escudos do Sagrado Coração (selados com a imagem do Coração de Jesus e a frase "Pare! O Coração de Jesus está comigo!").
     No dia 4 de abril, Sábado Santo, ela recebeu os últimos sacramentos e deixou seu testamento espiritual para as Irmãs: "Recomendo-vos a paz, a obediência e a santa caridade". Finalmente, no domingo de Páscoa, ela ordenou que o chocolate fosse distribuído para as Irmãs, pois elas tinham que estar felizes, já que era grande aquela solenidade. Ela então morreu às 8 da noite de 5 de abril de 1896. Seus restos mortais foram enterrados no coro da capela da Casa Mãe das Escravas do Coração de Jesus.
     A fama da santidade de Madre Catarina se espalhou por todos os lugares onde as Escravas do Coração de Jesus tinham escolas e comunidades. A partir de 1931 iniciou-se a causa de beatificação, com a organização de uma comissão especial.
     Madre Catarina foi declarada venerável em 17 de dezembro de 1997 pelo Papa João Paulo II e, em 4 de maio de 2017, Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto reconhecendo um milagre obtido de Deus pela intercessão de Madre Catarina. Em 25 de novembro de 2017 foi beatificada em Córdoba pelo Prefeito da Congregação da Causa dos Santos, o Cardeal Angelo Amato, como delegado do Santo Padre. O decreto de beatificação dispôs que sua festa seja o dia 27 de novembro de cada ano, coincidindo com a data de seu nascimento.
     As Irmãs Escravas do Coração de Jesus de Córdoba, também conhecidas como "Escravas Argentinas", obtiveram o primeiro reconhecimento pontifício com o Breve Laudatório de 31 de julho de 1892; cinco anos depois, em 1907, chegou a aprovação final.
     Quando Madre Catarina faleceu, cerca de 200 escravas haviam seguido seu caminho de consagração para a evangelização. Mais de cem anos depois, suas filhas estão presentes também no Chile, Espanha e Benin.
     Os promotores da causa da Madre Catarina recebem muitos testemunhos de mães que não podiam conceber e receberam graças que atribuem à intercessão da Beata.
     Para Irmã Silvia Samoré, das Escravas do Coração de Jesus, Madre Catarina “foi uma mulher que não fez coisas de homens, mas o que correspondia à mulher. Não competiu com os homens, buscou ser seu complemento. Por exemplo, o fato de ser como os jesuítas, mas em sua versão feminina, ou trabalhar ao lado do Santo Pe. Brochero. Creio que esta atitude fala muito. Como mulher levou ao homem proteção, sensibilidade, fortaleza e não notava quem a governava; ela caminhou atrás de seus sonhos e por eles quebrou paradigmas. Esteve longe de atuar movida por rebeldia; se deixou levar pela paixão ao Coração de Jesus e à humanidade”.
     “Assim, Madre Catarina decidiu formar uma comunidade de senhoras a serviço das mulheres mais vulneráveis para catequiza-las, ensiná-las a trabalhar e a viver com elas “como os jesuítas, porém no feminino”.

Fontes: www.santiebeati.it/; http://www.acidigital.com/noticias/fundadora-argentina-de-obra-educativa-e-missionaria-sera-beatificada-em-novembro-25046/; http://santosargentinos.blogspot.com.br/2011/07/madre-catalina-de-maria-rodriguez.html