quinta-feira, 14 de junho de 2018

Beata Francisca de Paula de Jesus (Nhá Chica), Leiga - 14 de junho

 
   Nascida em 1808, em São João del Rei (MG), ainda menina mudou-se com sua mãe para Baependi. Ali, numa modestíssima casa que ainda se conserva, no cimo de um morro onde se ergue hoje a igreja de Nossa Senhora da Conceição, por ela construída, viveu virtuosamente e morreu em odor de santidade no dia 14 de junho de 1895.
     Sua certidão de Batismo fala-nos claramente de sua origem: “Aos vinte e seis de abril de mil oitocentos e dez, na Capela de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, filial desta Matriz de São João del Rei, de licença, o Reverendo Joaquim José Alves batizou e pôs os santos óleos a FRANCISCA, filha natural de Isabel Maria. Foram padrinhos, Ângelo Alves e Francisco Maria Rodrigues. O coadjutor Manuel Antônio de Castro”.
     Com efeito, por uma pintura, na qual ela é retratada e que se conserva na capelinha de sua casa, percebem-se claramente os traços de mestiça, tão frequentes em nosso Brasil real. Como afirmou o Conde Affonso Celso, os negros que vieram para o Brasil mostraram-se dignos de consideração por seus sentimentos afetivos, por sua resignação, coragem e laboriosidade. São dignos, pois, de nossa gratidão.
     Segundo sua biógrafa, Nhá Chica era portadora de nobre missão: “Para todos tinha uma palavra de conforto e a promessa de uma oração”. Sua companhia diuturna era uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, em tosco oratório, ainda hoje venerada na igreja, conhecida na cidade como igreja da Nhá Chica. Diante da bela imagem esculpida por hábeis mãos de artista em cuja alma vicejava a fé, pude rezar a oração predileta de Nhá Chica, aliás, umas das mais belas preces compostas nos dois mil anos de cristianismo: a Salve Rainha.
     Um fato narrado por Helena Ferreira Pena descreve o perfil espiritual dessa alma de eleição. Certo dia, Nhá Chica recebeu manifestação da Mãe de Deus mediante a qual pedia que Lhe fizesse uma capela. Como isso requeria muito dinheiro, saiu Nhá Chica pelas vizinhanças em busca de auxílio, que não lhe faltou.
     Providenciou logo os adobes (tijolo cru). Quando havia certa quantidade pronta desse material de construção, recebeu Nhá Chica ordem de Nossa Senhora para dar início à edificação. Contratou então um oficial de pedreiro que pôs mãos à obra. Encontrando-se os serviços já em certo estágio, o oficial notou que iria faltar material e disse-lhe: - “Nhá Chica, os adobes não vão chegar!” Respondeu ela: “Nossa Senhora é quem sabe”. O pedreiro continuou o serviço e, ao terminar, não faltou e nem sobrou um só pedaço de adobe.
     Fatos como esse deram-se ao longo de toda construção até o seu término. Mas Nossa Senhora queria mais alguma coisa. Manifestou a sua serva seu desejo: “Queria um órgão para a igreja”. Nhá Chica, porém, na sua incultura, não sabia o que era aquilo. Foi consultar o vigário local, Mons. Marcos Pereira Gomes Nogueira, sobre o que era o órgão que Nossa Senhora desejava para a capela.
     Segundo vai narrando sua biógrafa, Mons. Marcos lhe disse: “Órgão é um instrumento até muito bonito que toca nas igrejas, mas para isso precisa muito dinheiro!”... - “Mas Nossa Senhora queria. Na Rua São José, casa 73, no Rio de Janeiro, chegou um assim”, disse ela.
     Mal Nhá Chica manifestara o desejo de Nossa Senhora, as esmolas começaram a afluir abundantes às suas mãos. Foi encarregado da compra o Sr. Francisco Raposa, competente maestro, que partiu para o Rio de Janeiro. O órgão foi despachado até Barra do Piraí (RJ) por via férrea. De lá até Baependi foi levado em carro de boi.
     Marcada sua inauguração numa quinta-feira às 15 h, ela fez tocar o sino, convidando o povo. Começam a chegar os devotos e a capela ficou lotada. O maestro subiu ao coro e, deslizando suas mãos sobre o teclado, qual não foi a sua surpresa: não se ouviu uma nota sequer! O que teria acontecido?
     Com certeza estragou-se com a viagem em carro de bois, diziam uns”. – “Qual! Com certeza venderam coisa velha estragada”, diziam outros.
     Nhá Chica chorava... De repente, acalma-se e diz: “Esperem um pouco”. E foi prostrar-se aos pés da Virgem, sua Sinhá.
     O povo esperava ansioso. Ela voltou serena e sentenciou: - “Podeis voltar para suas casas, porque o órgão não tocará hoje, mas amanhã às 15 h (sexta-feira)”, dia da devoção de Nhá Chica. - “Nossa Senhora quer que entoem a ladainha”.
     E assim se fez. No dia seguinte, novamente o sino soava conclamando os fiéis, que, desta vez, foram em número maior, movidos pela curiosidade. E às 3 horas da tarde em ponto, o maestro fez ecoar pela primeira vez por toda a igreja, ao som do órgão, a linda melodia da ladainha de Nossa Senhora! As lágrimas desciam dos olhos de Nhá Chica, mas desta vez lágrimas de alegria e felicidade.
     A Beata morreu no dia 14 de junho de 1895, com 87 anos de idade, mas foi sepultada somente no dia 18, no interior da Capela por ela construída. As pessoas que ali estiveram sentiram exalar-se de seu corpo um misterioso perfume de rosas durante os quatro dias de seu velório. Tal perfume foi novamente sentido no dia 18 de junho de 1998, 103 anos depois, por Autoridades Eclesiásticas e por membros do Tribunal Eclesiástico pela Causa de Beatificação de Nhá Chica e, também, pelos pedreiros, por ocasião da exumação do seu corpo. Os seus restos mortais se encontram hoje no mesmo lugar, no interior do Santuário Nossa Senhora da Conceição em Baependi, protegidos por uma urna de acrílico colocada no interior de uma outra de granito, onde são venerados pelos fiéis.
     Nhá Chica foi beatificada no dia 4 de maio de 2013 em Baependi MG durante a celebração presidida por Sua Eminência o Cardeal  Angelo Amato, Prefeito da Congregação das Causas dos Santos.
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Fontes de referência:
Por que me ufano do meu país, Affonso Celso, Coleção Páginas Amarelas, Editora Expressão e Cultura, 1997.
Biografia de Francisca Paula de Jesus, “Nhá Chica”, Helena Ferreira Pena, Editora O Lutador, Juiz de Fora, 14a. edição.
Francisca de Paula Jesus Isabel, Nhá Chica, Mons. José do Patrocínio Lefort – Editora O Lutador, Juiz de Fora, 4a. edição.
Fonte: Paulo Henrique Chaves, Catolicismo de janeiro de 1999 (excertos)

Adendo
O dom profético de Nhá Chica.
     Certa vez, a Beata Nhá Chica recebeu em sua pequenina casa o nobre conselheiro do Império, João Pedreira do Couto Ferraz. Era o ano de 1873. Ele, casado com Elisa Amália de Bulhões Pedreira, fazia-se acompanhar, entre outras pessoas, de sua filha primogênita que na ocasião contava 15 anos de idade e alimentava o desejo de consagrar-se ao Senhor. Era a jovem Zélia, nascida a 5 de abril de 1857.
     A família encontrava-se no vizinho povoado de Caxambu para desfrutar das suas ricas águas minerais. A boa fama de sábia conselheira da beata Nhá Chica, que naquele tempo já trespassara os limites da pequena vila Baependi, atraia muitos à sua procura. Aquela ditosa família acorreu ao encontro da piedosa serva de Deus para recomendar às suas orações a jovem menina desejosa de Deus.
     Nhá Chica recebeu-os em sua modesta casa e logo depois de “um dedo de prosa” já conhecia as aflições daquela família. Recolheu-se então ao seu quartinho e à intimidade da oração à sua “Sinhá”, modo carinhoso como se referia à pequenina imagem da Senhora da Conceição que herdara de sua mãe. Os hóspedes esperavam na sala. Pouco tempo depois, voltou a velha senhora e, sem transparecer sombra alguma de dúvida, pronunciou o oráculo profético:
     - “Ela vai se casar! Terá muitos filhos e no fim da sua vida será toda de Nosso Senhor”.
     Regressaram a Caxambu, mas não se esqueceram das palavras proféticas de Nhá Chica.
     O ingresso na vida religiosa feminina não era algo fácil, pois naquela altura não eram muitas as casas religiosas femininas no Brasil e o noviciado era normalmente feito na Europa. Por esses ou outros motivos, o certo é que Zélia não ingressou então na vida religiosa e cerca de três anos depois, em 27 de julho de 1876, casou-se com o Dr. Jerônimo de Castro Abreu Magalhães, engenheiro civil e homem de particular espírito religioso.
     Desse feliz matrimônio nasceram treze filhos, dos quais quatro faleceram em tenra idade. Os demais, três homens e seis mulheres abraçaram a vida religiosa em diferentes Ordens e Congregações: um lazarista, um jesuíta e um franciscano; quatro doroteias e duas irmãs do Bom Pastor.
     Sabe-se que também o casal sempre desejou consagrar-se ao Senhor, mas Jerônimo não pode, morreu em 1909, deixando viúva sua amada esposa que, quatro anos mais tarde em 1913, depois de cuidar do seu pai até a morte, entrou com uma permissão especial, para o Convento das Servas do Santíssimo Sacramento, estabelecido em 1912 no Largo do Machado, no Rio de Janeiro. Contudo, uma de suas filhas gravemente enferma e seu jovem filho, Fernando, jesuíta, não tendo ainda os votos perpétuos, fizeram com que Zélia esperasse ainda mais um pouco para concretizar sua plena consagração a Cristo.
     Somente em 1918, após vender todos os seus bens e doá-los aos pobres e à Igreja, cumprindo assim a ordem do Evangelho (Mt 19,21) de vender tudo e dar aos pobres para depois seguir a Jesus Cristo mais de perto, Zélia pode concretizar a sua consagração há tantos anos predita profeticamente por Nhá Chica: “… no fim da sua vida, ela será toda de Nosso Senhor”.
      Por sua inegável dedicação à caridade, Zélia e Jerônimo podem se tornar o primeiro casal brasileiro a ser beatificado. No dia 20 de janeiro de 2014, o Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta inaugurou oficialmente o processo de beatificação do casal Jerônimo e Zélia que poderá ser o primeiro casal brasileiro a receber o título de beatos da Igreja.
     As relíquias de ambos foram transladadas para a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Gávea, onde estão expostas para veneração pública.
O casal Zélia e Jerônimo


Este blog publicou um resumo sobre a Beata em 13 de junho de 2016.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Beata Castora Gabrielli, Esposa e terciária franciscana – 14 de junho

    
   Não sabemos quando a Beata Castora (ou Castorina) Gabrielli nasceu. Sabemos apenas que ela era filha do Conde Pietruccio Gabrielli de Gubbio, Conde de Corbara, e de Helena de Pietruccio Del Monte, e que viveu no século XIV.
     No volume de Ludovico Iacobilli "Vidas dos santos e beatos da Úmbria e daqueles cujos corpos descansam nessa província", publicado em Foligno, em 1647, ele relata que "A família dos Gabrielli de Gubbio, que teve muitas figuras ilustres em dignidade eclesiástica e militar, com o domínio de vários castelos, gerou a Beata Castora. Ela era irmã de Paulo Gabrielli, bispo de Lucca. Ela era belíssima, de uma estatura adequada, muito modesta e retraída; desprezava toda vaidade e coisa mundana, devotíssima do Pai São Francisco de Assis e toda dedicada ao serviço de Deus e a assistência do próximo. E somente se casou para obedecer a seus pais".
     Castora Gabrielli se casou muitíssimo jovem com o jurista Santuccio (ou Gualtiero) Sansoneri, Conde de S. Martino e Bassinario, no território de Sant’Angelo in Vado (PS). Foi um casamento difícil, porque o marido a tratava asperamente.
     "Empregava na oração - continua Iacobilli - o tempo que lhe sobrava das tarefas domésticas, particularmente na igreja de São Francisco, chamada da Terra, e quando voltava para casa seu marido, de natureza severa e rígida, a maltratava com palavras e atos: ela, no entanto, suportava tudo com admirável paciência por amor de Deus”.
     Castora foi uma mulher de rara piedade e profunda caridade; criou seu filho com piedade. À morte de seu marido, com o consentimento de seu filho Odão, ela distribuiu seus bens aos pobres e vestiu o hábito da Ordem Terceira Franciscana, passando o resto de sua vida em penitência e oração.
     "E com o hábito da Ordem Terceira de São Francisco - continua relatando Iacobilli - viveu o resto de sua vida em orações, penitências e outras obras santas; e, acima de tudo, na observância exata da regra que ela professava; e célebre pelos muitos milagres que o Senhor Deus operou por seu intermédio".
     Ela morreu em 14 de junho de 1391 em Macerata. Após sua morte, o filho quis transladar o corpo da Beata Castora para a igreja de São Francisco em Sant’ Angelo in Vado.
     E a este respeito, sempre segundo Iacobilli, nos é relatado que "seu corpo está todo preservado até o presente na sacristia da referida igreja de São Francisco em Sant'Angelo in Vado, onde foi enterrado com o hábito de terceira franciscana".
     O Padre Gregório de Urbino, que em 1675 estava vivendo naquele convento, e que havia consultado uma antiga "Chronica Custodiae Feretranae", testemunhou que o corpo da Beata foi exposto à veneração dos fiéis no dia da Ascensão daquele ano.
     Ainda hoje, na igreja franciscana de Santo Ângelo, a Beata é venerada e invocada como padroeira dos casamentos difíceis.
     É comemorada no dia da sua morte, 14 de junho.

Corpo da Beata em Sant'Angelo in Vado
http://www.santiebeati.it/dettaglio/97593

Etimologia: Castor, de origem grega, Kástor, derivado do radical kas: “distinguir-se” -  
“o que se destaca”. Feminino de Castor, Castorina (ou Castora).

domingo, 10 de junho de 2018

Beata Iolanda da Polônia, Duquesa e Abadessa - 11 de junho

   
   Iolanda, ou Helena, como foi chamada depois pelos súditos poloneses, nasceu no ano de 1235, na cidade de Esztergom, filha de Bela IV, rei da Hungria, que era terciário franciscano, e de sua esposa Maria Laskarina, da casa imperial grega. As suas duas irmãs, mais famosas, foram Santa Margarida da Hungria, canonizada em 1943 por Pio XII; e Santa Kinga (Cunegundes) canonizada por João Paulo II em 1999. Santa Isabel da Hungria, terciária franciscana, era sua tia. Nas raízes da santidade de sua família estava Santa Edviges e os santos soberanos húngaros, Santos Estevão e Ladislau. Por ramos colaterais, descendia de Santa Margarida, Rainha da Escócia.
     Iolanda foi educada desde muito pequena pela irmã Cunegundes, que se casara com um dos reis mais virtuosos da Polônia, Boleslau o Casto. Por tradição familiar e social da época, Iolanda deveria também se casar com alguém da terra e, em 1256, foi entregue como esposa a outro Boleslau, o Duque de Kalisz, conhecido como "o Piedoso". O casamento foi celebrado em Cracóvia. Foi uma época de muita alegria para o povo polonês que viu nas duas estrangeiras pessoas profundamente bondosas, cristãs, justas e caridosas.
     Iolanda também se tornou terceira franciscana e uniu aos deveres de esposa e mãe o exercício da caridade, concretizando-o na assistência aos pobres e aos doentes. Entretanto, o reino verdadeiramente exemplar de Boleslau o Casto, de sua esposa Santa Kinga, e dos cunhados Beata Iolanda e Boleslau o Piedoso, não teve longa duração, pois alguns anos depois o quarteto foi desmanchado pela fatalidade.
     Primeiro morreu o rei, deixando Kinga viúva. Em 1279 o esposo de Iolanda faleceu; ela então dividiu os seus bens entre a Igreja e seus parentes, dando parte a sua irmã viúva. Iolanda tinha então três filhas; ela arranjou que duas delas se casassem e uma terceira, que apresentava vocação religiosa, se retirasse para o convento das Clarissas de Sandeck, onde já se encontrava a tia, Kinga. As duas logo seriam seguidas por Iolanda.
     Muitos anos se passaram e as três damas cristãs continuavam naquele lugar, fazendo do silêncio do claustro o terreno para um fecundo período de meditação e oração. Quando Cunegundes faleceu, em 1292, para escapar das incursões bárbaras, Iolanda deixou esse mosteiro e abrigou-se mais a oeste, no convento das Clarissas de Gniezno. O convento havia sido fundado por seu marido Boleslau, o Piedoso, sem que ele certamente imaginasse que entre aquelas filhas de Santa Clara um dia sua esposa também haveria de se esconder sob o hábito franciscano.
     Iolanda foi eleita abadessa, mas agia como se fosse inferior a todas: praticava intensamente as virtudes cristãs e religiosas, especialmente a humildade, a oração e a meditação da Paixão de Cristo. Também é dito que ela teve revelações e aparições do Jesus Crucificado. Ela conduziu suas coirmãs no caminho das virtudes mais heroicas, precedendo-as na prática da penitência e contemplação com generosidade constante que foi nutrida pela meditação diária da Paixão de Cristo. A solidão não a impedia de ocupar-se dos pobres aos quais dava alimento e generosas dádivas.
     Em 1298 ela ficou gravemente doente e previu a hora de sua morte. Enquanto as coirmãs choravam em volta do seu leito de dor, ela as instou a serem fiéis à observância da regra e à perseverança no desprezo às coisas terrenas. E falou ainda sobre a magnífica recompensa que as esperava no céu. Fortificada com os últimos sacramentos, ela adormeceu docemente no Senhor. Era 11 de junho de 1298. Tinha 63 anos. Foi enterrada na capela do claustro.
     Amada pela população, seu culto ganhou força entre os fiéis do Leste europeu e difundiu-se por todo o mundo católico ao longo dos tempos. Seu túmulo tornou-se meta de romeiros pelos milagres e graças atribuídos à sua intercessão.
     Em 1631 foi iniciado o processo para sua beatificação; em 26 de setembro de 1827 Leão XII autorizou o seu culto e permitiu à Ordem dos Frades Menores Conventuais e às Clarissas celebrarem em sua honra o Ofício e a Missa. Leão XIII estendeu sua festa a todas as outras dioceses da Polônia.
     As filhas de Iolanda e Boleslau, que permaneceram no mundo, são: Edviges de Kalisz (1266-1339), esposa do Rei Vladislau I da Polônia; Isabel de Kalisz (1263-1304), esposa do Duque Henrique V de Legnica.



Fonte: www.santiebeati.it  Don Luca Roveda

Etimologia: o seu nome, de origem grega, significa “Violeta”.

Em 14 de junho de 2014 este blog publicou um relato sobre esta Beata.


quinta-feira, 7 de junho de 2018

Festa do Sagrado Coração de Jesus - 8 de junho


Vi cientistas ateus empalidecerem ao constatar que há coisas que não se pode compreender sem uma perspectiva que está acima da razão natural”.



     O Dr. Ricardo Castañón Gomez, boliviano, é conhecido como doutor em Psicologia Clínica, mas sobretudo pelo contato direto com algumas manifestações eucarísticas que estão além do conhecimento humano.
     Ao semanário da Arquidiocese do México, ele conta alguns fatos de sua vida. Em 1999, sendo um não crente, formado academicamente sobre as bases do existencialismo ateu de Jean Paul Sartre, à pedido do então Arcebispo de Buenos Aires, Mons. Jorge Mario Bergoglio, “realizou a primeira análise científica de uma Hóstia consagrada, da qual manava uma substância avermelhada; concluiu a investigação no ano 2006, comprovando que a substância era sangue humano, que a mesma continha glóbulos brancos intatos, e músculo de coração ‘vivo’, miocárdio ventrículo esquerdo. Cabe assinalar que o caso ainda não foi declarado milagre, mas sinal, e a Hóstia permanece exposta no altar da paróquia de Santa Maria de Buenos Aires”.
     Entretanto, ele menciona que há um “milagre”, assim declarado pela autoridade diocesana. O fato ocorreu em Tixtla, Chilpancingo, quando uma Hóstia consagrada começou a sangrar em 2013: “Aqui confirmamos que o tipo de sangue é AB, o mesmo encontrado no Santo Sudário de Turim e no Milagre Eucarístico de Lanciano. Encontramos tecido vivo, bem como um glóbulo branco ativo, enquanto se constata uma lesão presente no tecido, aspecto que se parece, por exemplo, com um coração infartado”.
     Desde 1999, Castañón se dedica a estudar 15 casos de “milagres eucarísticos”. “Cada série de minhas investigações são repetidas em três laboratórios de nações diferentes, e as variáveis são muitas: sangue, ADN, glóbulos brancos e vermelhos, tecido humano, hemoglobina e outras; posso dizer que do ponto de vista científico minhas informações finais são cem por cento confiáveis”.
     Os fatos que ele atesta são verdadeiramente surpreendentes: “Como se poderia obter sangue sem osso e medula óssea? Como se poderia obter músculo de um coração vivo e glóbulos brancos em um pedacinho de pão? Como se poderia obter hemoglobina, uma substância sujeita a mecanismos bioquímicos complexos e a um programa genético inicial? Vi cientistas ateus empalidecerem ao constatar que há coisas que não se pode compreender sem uma perspectiva que está acima da razão natural”.
     Atualmente ele estuda um caso ocorrido no final do ano passado, que parece ser sangue em Vinho consagrado. Quando ele tiver resultados conclusivos, nos comunicará.
     Só desejo dizer que ao comprovar que as efusões que estas Hóstias consagradas apresentam se identifica sangue fresco e tecido vivo, isto me impacta, me fascina, toca o mais íntimo do ser. Em cada Comunhão vem a minha memória a frase de Jesus: “O pão que eu darei é minha carne”. Recebo a Eucaristia todo dia e quando comungo meu pensamento é: “Vou receber Cristo, o mesmo que esteve nos braços de Maria, Aquele que caminhou com seus Apóstolos, o Filho vivo do Deus vivo, que morreu e ressuscitou e está à direita do Padre”.

Declaração do Prof. Frederico Stigbe da Columbia University em Nova York. 
     Em 26 de março de 2005, cinco anos e meio desde o início da investigação, ele informa: “Se trata de tecido do coração, tem mudanças degenerativas do miocárdio e estas mudanças degenerativas são devidas a que células estão inflamadas e se trata do ventrículo esquerdo do coração. As amostras que possuo são de músculo do coração, quero dizer que o resultado desta amostra é carne e sangue, o músculo é do miocárdio, o centro que faz pulsar o coração do ventrículo esquerdo onde o sangue é purificado e limpo”.
     O Dr. Stigbe disse ao Dr. Castañón que o paciente de onde provêm estas amostras sofreu muito -  Dr. Castañón esclarece novamente que o especialista não sabia que estas amostras vinham de uma Hóstia – e este paciente sofreu muito porque foi golpeado na altura do peito e lhe provocaram um infarto!
     É importante notar que foi mencionada a existência de glóbulos brancos: se se extrai sangue de uma pessoa, 15 minutos depois os glóbulos brancos se desintegram; então, como é possível que até o ano de 2005 tínhamos glóbulos brancos na amostra que foi extraída em 1996? A conclusão é que o coração tinha ativa dinâmica viva no instante em que se tirou as amostras!


Reflexão:
     É impressionante que a ciência nos proporciona argumentos para nos confirmar na Fé e na devoção ao Sagrado Coração de Jesus, num mundo que cada vez menos crê nos milagres. Pessoas “modernas” e “instruídas” tendem a descartar o milagroso, preferindo crer que a ciência finalmente dará uma explicação natural ao inexplicável; que somente ignorantes ou crédulos fazem peregrinações desesperadas em busca de cura ou de sinais milagrosos. E quando finalmente têm diante dos olhos a comprovação do sobrenatural, se surpreendem, se calam, alguns se convertem, outros continuam sua vida vazia e sem sentido.
     Se trata de tecido do Coração” e “este paciente sofreu muito porque foi golpeado na altura do peito e lhe provocaram um infarto”.
     Adoremos o Sagrado Coração de Jesus que, como Ele mesmo disse à Santa Margarida Maria Alacoque: “Eis o Coração que tanto amou os homens!”
     Coração de Jesus, atravessado pela lança, tende piedade de nós!

Beata Maria do Divino Coração – 8 de junho

   
     Maria Anna Johanna Franziska Theresia Antonia Huberta Droste zu Vischering nasceu, com o seu irmão gêmeo Max, no dia 8 de setembro de 1863, solenidade da Natividade de Nossa Senhora, no Palácio Erbdrostenhof, em Münster, cidade situada na região da Vestfália, na Alemanha, sendo filha de uma das mais nobres famílias que se distinguiu pela sua fidelidade à Igreja Católica durante a perseguição do Kulturkampf – os seus pais eram Clemente, o Conde Droste zu Vischering, e Helena, a Condessa de Galen.
      De saúde frágil, Maria Droste zu Vischering foi batizada de imediato. Anos mais tarde, sua mãe revelou-lhe que no dia do nascimento das duas crianças ela experimentou uma tal consolação e uma alegria sobrenatural tão grande, como nunca sentira em toda a sua vida. Na verdade, pode dizer-se que isso era já um sinal da graça divina manifestando o quanto os dois, e sobretudo Maria, trilhariam o caminho da perfeição e do amor de Deus.
Castelo de Darfeld
     Maria Droste zu Vischering passou a sua infância com a família no Castelo de Darfeld, um dos mais belos da região, e foi uma criança cheia de vida: corria pelos corredores intermináveis do castelo, atirava-se para cima das moitas e da relva molhada do jardim, montava a cavalo, patinava no gelo e lutava para ser a primeira em qualquer jogo com os irmãos. Desde a mais tenra idade que a sua alma inocente fora atraída pelo Sagrado Coração de Jesus. Para Maria Droste zu Vischering, a devoção ao Coração de Cristo sempre se fundiu por inteiro com a devoção ao Santíssimo Sacramento, conforme ela própria declarou: "Nunca pude separar a devoção ao Coração de Jesus da devoção ao Santíssimo Sacramento; e nunca serei capaz de explicar como e quanto o Sagrado Coração de Jesus se dignou favorecer-me no Santíssimo Sacramento da Eucaristia".
     No dia 25 de abril de 1875, Maria fez, com o seu irmão gêmeo Max, a sua 1ª. Comunhão: "Esperei nesse dia a graça da vocação religiosa, mas em vão...". Essa graça recebeu-a apenas no dia 8 de julho do mesmo ano, mas só após a recepção do Crisma.
     Em 1878, contudo, Maria escutou uma pregação sobre a passagem bíblica que diz “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma” e reagiu da seguinte forma: “Nesse preciso momento pensei: tens que te tornar Religiosa! Teria preferido que os meus ouvidos não tivessem escutado, mas é impossível resistir à voz de Deus”.
     Durante a primavera de 1879, num dos trilhos da sua particular devoção ao Coração de Cristo, e após uma primeira experiência de vida religiosa realizada no Pensionato das Irmãs do Sagrado Coração em Riedenburg, Maria Droste zu Vischering chegou a uma importante conclusão: "[…] comecei a compreender que sem espírito de sacrifício o amor ao Coração de Jesus não passa de uma ilusão".
Vida religiosa
     No ano de 1883, na capela do Castelo de Darfeld, Maria escutou uma locução interior de Jesus que lhe disse: “Tu serás a esposa do Meu Coração”. No dia 5 de agosto desse mesmo ano, data do Jubileu de Prata do casamento de seus pais, Maria manifestou-lhes o desejo definitivo de se tornar religiosa e não tardou para que isso se tornasse realidade.
     Em 1888, visitou com sua mãe o Hospital de Darfeld e lá encontrou uma jovem que tinha dado escândalo. Maria, vencendo a sua repugnância e timidez face à mãe, estendeu a mão à infeliz. Pode dizer-se que foi o primeiro contato com o carisma das Irmãs do Bom Pastor. Na Igreja Paroquial, pouco tempo depois, tornou a ouvir a voz de Jesus que lhe disse: “Tens de entrar no Convento do Bom Pastor”. Maria decidiu-se, então, a entrar no noviciado do Convento do Bom Pastor de Münster. 
     Depois de ter recebido o hábito branco da Congregação – no mesmo dia e na mesma hora que, na França, no Carmelo de Lisieux, Teresa Martin recebia o hábito castanho (e, anos mais tarde, tornou-se na conhecida Santa Teresinha do Menino Jesus) –, Maria recebeu ainda o nome que se tornou para ela um programa de vida: Irmã Maria do Divino Coração.
     A Irmã Maria passou apenas cinco anos em Münster, pois a obediência chamou-a a uma missão especial em Portugal, para onde foi enviada inicialmente como Assistente da Superiora do Convento de Lisboa. De fevereiro a maio de 1894 permaneceu na capital portuguesa, mas em pouco tempo foi nomeada para o seu cargo definitivo de Madre Superiora do Convento das Irmãs do Bom Pastor do Porto.
     Ali se dedicou, de alma e coração, ao serviço de largas dezenas de jovens, entregues aos cuidados da sua Congregação, em tempos de grandes dificuldades materiais, perfeitamente integrada na sua nova pátria: “Sinto‑me tão portuguesa, que não me importo com tanto desconforto, tanto frio e tanta umidade”.
     Restauradora da disciplina religiosa e exigente na formação das suas filhas, a Irmã Maria foi alvo de inúmeras incompreensões por parte da comunidade que estava habituada a viver entregue só a si mesma. A principal atenção da Madre Superiora, contudo, foi sempre para as jovens internas, preferindo as mais pobres e as mais infelizes.
Morte e incorruptibilidade
     A Irmã Maria morreu no dia 8 de junho de 1899. O seu corpo, encontrado incorrupto quando da sua primeira exumação, encontra-se atualmente exposto para veneração pública na Igreja do Sagrado Coração, em Ermesinde, ereta pelas suas filhas, junto ao Convento do Bom Pastor dessa mesma localidade. Existem relíquias extraídas do seu corpo que se encontram expostas para veneração no Convento das Irmãs do Bom Pastor do Porto e na Capela dos Confidentes de Jesus situada no Santuário Nacional de Cristo Rei, em Almada.
     Na primeira sexta-feira de julho (ou agosto) de 1897, recebeu ela ordem do Senhor: “Deves erigir-Me aqui um lugar de reparação, e Eu erigirei nele um lugar de graças. Depois disse-me que queria que esta igreja fosse sobretudo um lugar de reparação pelos sacrilégios, e para atrair graças e bênçãos sobre o clero”.
      A construção deste templo foi uma das suas últimas preocupações. Ela mesma, no seu leito de dor, mal podendo segurar um lápis entre os dedos, traçou as linhas arquitetônicas. Não quis o Senhor dar-lhe em vida a alegria de ver realizado o seu sonho. Realizaram-no as suas filhas em Ermesinde. Diante da Hóstia consagrada em constante exposição, almas rezam em adoração reparadora.
Consagração do Mundo ao Sagrado Coração de Jesus
     A Consagração do Mundo ao Sagrado Coração de Jesus foi feita pelo Papa Leão XIII em 11 de junho de 1899, atendendo aos pedidos, em nome do próprio Jesus Cristo, que lhe foram dirigidos a partir de Portugal pela Beata Irmã Maria do Divino Coração Droste zu Vischering. Tal fato veio a ocorrer logo após a publicação da Encíclica Annum Sacrum.
     Num encontro que teve com os pais da Irmã Maria do Divino Coração, em Roma, Leão XIII anunciou que devido aos pedidos de sua filha que vivia no Porto ia realizar “o ato mais grandioso de todo o meu Pontificado”: a Consagração do gênero humano ao Coração de Jesus Cristo. A Irmã Maria foi o instrumento providencial de Deus para levar o Papa Leão XIII a realizar este ato solene.
     Em 1964, a Irmã Maria do Divino Coração, Condessa Droste zu Vischering, recebeu oficialmente o título de Venerável pela Congregação para as Causas dos Santos. No dia 1º de novembro de 1975, solenidade de Todos os Santos, foi beatificada pelo Papa Paulo VI. Atualmente, o Doutor Waldery Hilgeman foi nomeado postulador da causa de canonização que se encontra em curso.
Promessas do Sagrado Coração de Jesus
Convento do Bom Pastor do Porto
     Nas Suas revelações à Irmã Maria do Divino Coração Droste zu Vischering, Jesus apresentou-lhe duas grandes e prodigiosas promessas:
- Promessa de graças por intercessão da Irmã Maria do Divino Coração
     Fica sabendo, Minha filha, que da caridade do Meu Coração, quero fazer descer torrentes de graças através do teu coração para dentro do coração dos outros. É esta a razão porque hão-de dirigir-se com confiança a ti; não são as tuas qualidades, mas sou Eu mesmo a causa disso. Nunca ninguém que se encontrar contigo se afastará sem que a sua alma seja de qualquer maneira consolada, aliviada ou santificada, ou sem haver recebido alguma graça, nem até o mais endurecido pecador… dele depende aproveitar-se desta graça”. (1)
- Promessa de graças a conceder na Igreja do Sagrado Coração de Jesus
     Há muito tempo, como sabe, desejo construir no terreno do Bom Pastor uma igreja. Indecisa sobre a invocação da mesma, rezei e consultei muitas pessoas sem chegar a qualquer conclusão. Na primeira sexta-feira deste mês, pedi a Nosso Senhor que me iluminasse. Depois da Sagrada Comunhão, Ele disse-me: ‘Quero que a Igreja seja consagrada ao Meu Coração. Deves erigir aqui um lugar de reparação; por Minha parte, será um lugar de graças. Distribuirei copiosamente graças a todos os habitantes desta casa [o Convento], aos que nela vivem, aos que nela viverão, e até às pessoas das suas relações’. Depois disse-me que queria esta igreja, sobretudo, como lugar de reparação pelos sacrilégios e para obter graças para o clero”. (2)
 Corpo incorrupto da Beata Maria do Divino Coração
Notas:
1. Carta da Irmã Maria do Divino Coração datada de 23 de junho de 1897 in Autobiografia da Beata Maria do Divino Coração, Religiosa do Bom Pastor. Lisboa: Edição da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, 1993
2. Carta da Irmã Maria do Divino Coração datada de 13 de agosto de 1897 in Autobiografia da Beata Maria do Divino Coração, Religiosa do Bom Pastor. Lisboa: Edição da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, 1993

Fontes:
- Padre Luis Chasle; Irmã Maria do Divino Coração: chamada no século Droste de Vischering – religiosa do Bom Pastor (1863-1899). Porto: Typ. Catholica de Fonseca & Filho, 1907.
- Graças obtidas por intercessão da Condessa Droste de Vischering, Irmã Maria do Divino Coração. Porto: Tipografia da Casa Nun'Alvares, 1940.
- Joaquim Abranches; Beata Maria do Divino Coração. Braga: Mensageiro do Coração de Jesus, 1976.
- Autobiografia da Beata Maria do Divino Coração, Religiosa do Bom Pastor. Lisboa: Edição da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, 1993.


Em 8 de junho de 2011 este blog postou um resumo biográfico desta Beata.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Madre Maria Angélica da Eucaristia, carmelita brasileira exemplar

     
    Uma pessoa amiga nos falou sobre o falecimento repentino da Madre Maria Angélica da Eucaristia, fundadora do Carmelo Maria Mãe da Igreja, de Montes Claros, no sábado 2 de junho. Ao velório, no domingo, afluíram centenas de pessoas de todas as classes sociais para demonstrar seu apreço por esta religiosa; cada um dos presentes tinha algo a recordar e agradecer a ela.
     Para exemplificar sua ação benfazeja, contou-nos nossa amiga que uma das carmelitas daquele convento era funcionária de um banco em São Paulo e, certo dia, vendo uma religiosa carmelita na Av. Paulista, ficou tão tocada que resolveu ingressar no Carmelo. Anos depois foi transferida para Montes Claro e foi grande sua surpresa ao conhecer a Madre Superiora: era a religiosa que vira em São Paulo! Naquela ocasião Madre Angélica viajara para SP para um tratamento médico.
     Este blog presta uma homenagem a esta religiosa pequena e franzina de corpo, mas gigante na alma; com grande cultura, traduziu várias obras religiosas do francês para o português.
*
     Há 87 anos nascia em Grão Mogol-MG (a 600 k de Belo Horizonte) Madre Maria Angélica da Eucaristia, cujo nome de batismo é Sophia Maria Esteves de Melo. Depois de estudar em Belo Horizonte, ingressou no Carmelo daquela cidade, sendo posteriormente transferida para Montes Claros, onde fundou o Carmelo montes-clarense.
Igreja de Sto. Antônio, Grão Mogol MG
     Reproduzimos aqui excertos de uma homenagem prestada à Madre em 2010, por ocasião de seu 60º ano de profissão religiosa.

Madre Maria Angélica da Eucaristia e suas Esmeraldas
     No dia 21 de novembro, festa da apresentação de Nossa Senhora, as carmelitas renovam a profissão de seus votos. Enquanto Elisabete pronuncia de novo com as companheiras a fórmula dos votos, sente um impulso de graça irresistível que a transporta à Santíssima Trindade.
     Ao voltar à cela, escreve num só lance e sem hesitação, como um grito emanado do coração, uma das mais belas declarações de elevação e amor aos seus Três: “Ó meu Deus, Trindade que adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente de mim mesma para fixar-me em Vós, imóvel e pacífica, como se minha alma já estivesse na eternidade... Ó meu Cristo amado, crucificado por amor, quisera ser uma esposa para vosso Coração, quisera cobrir-vos de glória, amar-vos.... Ó fogo devorador, Espírito de amor, vinde a mim para que se opere em minha alma como que uma encarnação do Verbo... Ó meu Três, meu Tudo, minha Beatitude, Solidão infinita, Imensidade onde me perco, entrego-me a vós como uma presa. Sepultai-vos em mim para que eu me sepulte em vós, até que vá contemplar em vossa luz o abismo de vossas grandezas”.
     E assim, no Carmelo de Dijon, no ano de 1904, a jovem Elisabete da Trindade encerra este tratado de diálogo com a Trindade.
     Ao querer ser toda dEle, as vocações surgem e se concretizam. Assim, diversas filhas e filhos da Santa de Ávila vêm percorrendo os caminhos da chama viva de Amor, anunciada pelo seu discípulo, companheiro e amigo, São João da Cruz.
     E há exatamente 6 décadas uma destas criaturas chamada às fileiras do Carmelo, pode adentrar uma das casas de oração, onde, como dito pela própria Teresa de Jesus, “encerradas aqui, pelejaremos por Ele”. Trata-se da nossa querida Irmã Maria Angélica da Eucarística, conhecida como Madre Angélica e para suas filhas: “nossa Mãe”.
     Mas como recordar e percorrer aquele distante e próximo dia 12 de dezembro do ano de 1950? Vamos deixar a própria Madre Angélica, nos contar, como o fez no ano de 1957, ao definir o seu ideal como amor:
     “Ó Mestre amado, é teu o meu segredo:
     Amar-te muito, louvar-te em meu degredo,
     Passar a vida inteira, ó celestial enlevo,
     Dizendo sempre: “Sim” ao divinal apelo.
     Viver silenciosa, oculta em meu Carmelo,
     Sofrer, morrer de amor, é este o meu anelo
     Travar o bom combate sobre a terra.
     Maria, doce Mãe sem igual na terra.
     E Cristo, meu Esposo, que triunfador impera!
     E entrega ao Pai a nova Humanidade
     Num hino de louvor e glória à Trindade!

     O Louvor de Glória se fez e faz presente em sua caminhada. Se fez presente na decisão de deixar os seus entes queridos e adentrar o Carmelo Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Belo Horizonte. Se fez novamente vivo e presente quando da decisão de deixar a capital do Estado de Minas Gerais, rumo à cidade do Norte do Estado, Montes Claros e fundar com suas companheiras no dia 8 de setembro de 1977 a primeira casa contemplativa na região Norte do Estado. Assim, nasceu o Carmelo Maria Mãe da Igreja e Paulo VI e mais uma vez Madre Angélica como a pequena Teresa do Menino Jesus concretizava o Evangelho: “ser missionária e pregar o Evangelho”.
     Da década de 70 para cá participou ativamente da família carmelitana e, como sua Santa Madre, não se limitou a ficar somente em Montes Claros, levou o perfume carmelitano para duas Fundações, sendo o Carmelo da Ressureição e Beata Edith Stein, em Senhor do Bonfim, BA e o Carmelo Santíssima Trindade e Beata Elisabeth da Trindade, em Coronel Fabriciano, MG.
     Como a missão não pode ficar “escondida” participou e acolheu com carinho a fundação do Grupo Beata Elisabete da Trindade (OCDS) e atualmente elevado à categoria de Comunidade. Fez-se e continua se fazendo Mãe de inúmeras filhas espirituais, e nesta relação de Mãe-Filhas, basta recordar (para se entender melhor) a mesma relação estabelecida entre uma jovem chilena, de nome Juanita e posteriormente elevada a honra dos altares com o nome de Santa Teresa de Jesus de Los Andes, e sua Madre, coincidentemente denominada Irmã Angélica. [...]
     “Asseguro-lhe, Madre, que sinto uma confiança enorme na senhora, e é porque encontro em seu coração de mãe a ternura de N. Senhor para com minha alma”. No mês de setembro, ainda de 1918, escreve a Irmã Angélica narrando sua imensa alegria, ao receber da mesma uma correspondência dizendo que havia um cantinho no “pombalzinho” dos Andes para ela. Pede que as orações da Priora levem a ela as três virtudes, da pureza, humildade e caridade.
     Em sua primeira visita ao Carmelo de Los Andes, Juanita dirá que o conventinho é uma casa velha e feia, mas tal pobreza falou e comoveu seu coração. Ainda dirá que teve momentos de choro quando ouviu pela primeira vez a voz da Madrezinha. “Não fazia um segundo que estava ali, e minha alma gozava de uma paz inalterável. Só Deus que via meu coração poderia compreender minha felicidade”. A Priora disse a Juanita: “suas dúvidas quanto à vocação são infundadas, pois já nasceste carmelita”.
     Assim, podemos plagiar a Priora de Juanita, dizendo para nossa Madre Angélica: já nasceste carmelita. E nestas suas Bodas de Esmeralda, temos certeza que suas virtudes e dedicação se confundem com a gema rara, esverdeada, livres de inclusões e com lapidação perfeita.
     Os estudiosos dizem: “cuidem de suas esmeraldas” pela raridade e beleza. Às Irmãs nós dizemos: “cuidem de sua Priora”.
     Receba, Madre Angélica, nestes 60 anos de caminhada no “pombalzinho” do Carmelo, os mais caros sentimentos de vossas atuais filhas em Montes Claros. [...]
     E que a Eucaristia, símbolo de vosso nome e de vossa caminhada, continue expressando o que nos ensinou o Apóstolo da Eucaristia, São Pedro Julião Eymar: “A Eucaristia é também a vida da alma e da sociedade humana, como o sol é a vida dos corpos e da face da terra. Sem o sol, a terra é estéril; ele alegra-a, adorna-a e enriquece-a; ele dá aos corpos a eficácia, a força e a beleza".

Comunidade Beata Elisabete da Trindade – OCDS – Montes Claros, Minas Gerais.

*
      Em março de 2006, Madre Maria Angélica da Eucaristia foi escolhida pelo vereador Ruy Muniz para ser homenageada no Dia Internacional da Mulher. 

Mensagem da Homenageada (excertos)
[...]
     Deus criando a mulher quis transbordar sobre ela um pouco da sua ternura e bondade, dotando-a de um coração que sabe amar e doar-se sem limites. Sempre ao longo da história a presença da mulher é normalmente unida a gestos heroicos de amor, de caridade, de doação, de altruísmo. Ao homem estão unidas as grandes conquistas, guerras, sacrifícios, aventuras. A missão da mulher é mais de construir a humanidade e educar corações para que não se embruteçam e se esterilizem pela grandeza e pelo poder.
     Uma monja ser escolhida para representar a mulher montes-clarense pode parecer estranho. As monjas de clausura, as carmelitas descalças?! Além de sua presença orante e acolhedora na cidade, elas não construíram nenhuma creche, hospital ou alguma obra grandiosa, mas esse gesto pode ter e tem um sentido muito grande se o considerarmos à luz da fé e da palavra do Evangelho. O Camelo com suas monjas é um sinal vivo que nos interpela e nos questiona para que possamos compreender que a nossa vida não pode ser reduzida só a coisas. Há algo de bem mais profundo, há valores que buscam com ânsia e que aos olhos cegados pelo brilho falso da riqueza e do poder nos impedem de ver.
     A história pode ser contemplada a partir de várias janelas: política, científica, social, mas também religiosa. O que neste momento eu gostaria de relembrar é que só a mulher com sua vida e feminilidade pode influenciar o ritmo da história não a partir da obra, mas sim do amor oblativo da oração. E hoje, nesta homenagem, tenho também presentes todas as minhas co-irmãs que no silêncio, no escondimento, no anonimato, oferecem suas vidas e toda a energia de seu ser integral: corpo, espírito, inteligência, para que o mundo seja mais humano, mais fraterno.
     Neste momento, saúdo com respeitoso cumprimento a Santíssima Virgem, a grande Consagrada, a todas as religiosas consagradas da nossa Arquidiocese, a todas as mulheres, mães, esposas, filhas da nossa sociedade montes-clarense que se consagram ao bem comum, quer no santuário familiar; quer nas atividades assistenciais e profissionais; quer na oração silenciosa, e se desvelam pelo próximo mais próximo com solicitude e amor.
     Aqui expresso o meu agradecimento ao Sr. Prefeito Dr. Athos Avelino, ao Presidente da Câmara Municipal Sr. Sebastião Ildeu Maia, ao Vereador Professor Ruy Muniz, que teve a delicadeza de fazer a indicação do meu nome, e a toda a Câmara dos Vereadores, que houve por bem apoiar a referida indicação de uma simples monja de clausura.
     Este gesto de toda esta Casa vem mostrar bem alto que o valor da pessoa não está na beleza, na riqueza, ou no seu status social. A mulher tem o valor em si mesma e não no que lhe é exterior, e por isso é merecedora de amor, respeito e consideração da sociedade.
     A todos o meu muito obrigada!
Irmã Maria Angélica da Eucaristia