segunda-feira, 10 de junho de 2019

Santa Alice de La Chambre, Virgem – 10 de junho

     
     A vida desta santa pouco conhecida é de uma extraordinária e trágica beleza. Alma de escol, foi escolhida pelo Salvador do gênero humano para auxiliá-lo a carregar sua cruz como vítima reparadora pelos pecados do mundo. Em sua sede de expiar pelos pecadores ficou leprosa, e padeceu os sofrimentos do Purgatório e do Inferno.
     Nascida em Schaerbeek, perto de Bruxelas, no início do século XIII, Alice ou Adelaide, foi uma predestinada desde pequena. Segundo sua Vida, escrita pouco depois de sua morte, e da qual tiramos os dados que seguem, quando pequena ela era “amável e graciosa aos olhos de todos”. E desde cedo escolheu a Mãe de Deus como modelo.
     Aos 7 anos entrou como interna no mosteiro cisterciense “Câmara de Santa Maria”, conhecido apenas, em linguagem familiar, como “A Câmara” – ou, em francês, “La Chambre” –, que ficava a alguns quilômetros de Schaerbeek, hoje bairro de Bruxelas.
     De uma natureza sensível e bem-dotada em todos os domínios, por sua inteligência viva e memória indefectível Alice, “graças à luz da verdadeira sabedoria recebida do alto”, logo eclipsou as outras meninas que, como ela, eram internas no mosteiro, e mesmo às irmãs mais velhas. Pois a luz sobrenatural que deveria banhar a vida e a missão da Santa começava já a fazer seus dons naturais despertarem e desenvolverem ao máximo.
     Diz a Vida que, aos poucos, Alice começaria a englobar progressivamente o fardo da humana fragilidade pecadora, chegando a um conhecimento experimental de Deus, e a um crescimento na vida espiritual, na qual começava a respirar o aroma que emana dos frutos da Terra prometida. Enquanto isso, esforçava-se por experimentar, através do amor, o que ela concebera antes pela inteligência, no profundo conhecimento de si mesma. Para ela, o temor de Deus era a fonte da qual fluía o amor, e que era por causa desse amor que ela mortificava seus sentidos e castigava sua carne.
     Foi aí que Alice, ainda muito jovem e logo após a profissão religiosa, contraiu uma das doenças mais terríveis de todos os tempos: a lepra. Na Idade Média, na qual vivia, essa doença, por ser muito contagiosa e para a qual não havia cura, condenava os por ela atacados a uma verdadeira morte civil. Se Santa Alice estivesse fora do mosteiro, teria sido segregada e evitada por todos, até por seus parentes, e mandada para um leprosário. Contudo, como ela se encontrava numa casa religiosa, isso não ocorreu. Ela foi apenas isolada do resto da comunidade, enclausurada para sempre num pequeno quarto que era usado para depósito, para dele não mais sair, e que era destituído do mínimo conforto.
     Entretanto, nesse cubículo a Santa se sentia livre para entregar-se inteiramente a Deus. Ao nele entrar, Nosso Senhor lhe apareceu e, estendendo-lhe os braços, disse: “Sê bem-vinda, minha querida filha. É bom que venhas, tu que eu desejo há tanto tempo, nessa tenda que me convém”.
     Apesar de muito pequeno, o apartamentinho em que foi confinada Alice tinha um minúsculo oratório, no qual se celebrava o Santo Sacrifício para sua devoção. Ora, um dia uma mulher que estava próximo do quartinho para assistir à Missa do lado de fora, o viu completamente envolto em chamas, e a esposa de Cristo cercada por elas. Viu também a glória de Deus que permanecia no aposento, uma glória da qual o brilho ultrapassava incomparavelmente o esplendor de qualquer pedra preciosa.
     Até então a esfera da atividade de Alice se restringira à sua comunidade. Daí em diante ela se estenderia e englobaria outras pessoas. Em primeiro lugar, às que sofriam no Purgatório, e das quais ela participava das dores penitenciais. Mas logo em seguida, sua compaixão ia se estender e envolver o gênero humano em seu conjunto, tanto os vivos quanto os mortos.
     Além desses sofrimentos de caráter sobrenatural, como vítima expiatória ela devia conviver com a lepra, cujas terríveis dores eram consoladas por companhias celestes, e aliviadas por sua profunda devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que ela amou ternamente, muito antes que essa devoção fosse aprovada e adotada pela Igreja.
     Foi no dia 11 de junho de 1248 ou 1249, que ela recebeu os Últimos Sacramentos. Mas deveria viver ainda um ano, o mais fecundo de sua vida. Perdeu então a visão do olho direito, e ofereceu esse sofrimento em proveito de Guilherme II, conde da Holanda, rei da Alemanha (1228-1256), para que fosse iluminado em suas empresas. Este monarca precisava muito de suas orações, pois faleceria precocemente em combate aos 28 anos.
     Pouco depois Alice perdeu o uso do olho esquerdo, e ofereceu essa perda em favor do rei São Luís de França que estava em Damieta durante a Sétima Cruzada, “a fim de que o olhar de luz de Deus o ilumine”.  A perda da luz física, para Alice, significava a comunicação a outros da luz espiritual.
    Do dia 30 de março até o último dia de sua vida, ela foi atrozmente torturada três ou quatro vezes por dia, tendo que suportar os tormentos terríveis e horrivelmente dolorosos, tanto do inferno, quanto do purgatório. Entretanto, mesmo nesses momentos, ela permanecia sempre, de modo misterioso, nos braços de Jesus.
     Santa Alice morreu no dia 11 de junho de 1250, mas só foi canonizada no dia 24 de abril de 1907, pelo imortal São Pio X.

Extraído do livro:
Um santo para cada dia, de Mario Sgarbossa e Luigi Giovannini.
www.ipco.org.br

Etimologia: O nome “Alice”, segundo alguns linguistas, é de origem grega e significa “marinha”; assim são chamados também certos peixinhos. Na mitologia pagã chamou-se Alice uma das ninfas. Mas na hagiografia cristã, Alice é conhecida com o nome germânico de Adelaide.

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