domingo, 16 de novembro de 2014

Santa Isabel da Hungria, Duquesa, 3ª. Franciscana - 17 de novembro


     Isabel foi prometida em casamento a Luís, Duque hereditário da Turíngia, pouco depois de nascer em Presburgo, Bratislava, no ano de 1207. Seus pais, André II, rei da Hungria, e Gertrudes de Meran, levaram-na num berço de prata, quando tinha apenas quatro anos, para o castelo de Wartburg, em Marburgo, onde a esperava o noivo de onze.
     Antes do casamento Isabel já sofreu muito: devido ao falecimento do sogro, a viúva e o irmão do defunto, tentaram recambiá-la para a Hungria. O amor que já unia os noivos impediu isto, mas tudo fizeram para persegui-la.
     Conta-se que sempre que Luís passava por uma cidade comprava um presente para sua prometida: uma bolsa, ou luvas, ou um rosário de coral. "Quando chegava o momento da chegada de Luís, Isabel saía ao seu encontro; o jovem lhe dava o braço amorosamente e lhe entregava o presente que havia trazido".
     O casamento aconteceu em 1221, quando Luís tinha 21 anos e Isabel 14. Antes do casamento, a viúva do sogro de Isabel e o irmão do falecido aconselharam Luís a enviá-la de volta para a Hungria, mas ele declarou que estava disposto a perder uma montanha de ouro antes que a mão de Isabel.
     Segundo os cronistas, Isabel era "muito formosa, elegante, morena, séria, modesta, bondosa em suas palavras, fervorosa na oração, muito generosa com os pobres, cheia sempre de bondade e de amor divino". Diz-se também que era "modesta como uma donzela", prudente, paciente e leal; seu povo a amava.
     Foi um matrimônio feliz. Luís IV era muito piedoso. Isabel dizia à sua fiel dama de honra Isentrude: "Se eu amo tanto uma criatura mortal, quanto mais devo amar o Senhor, imortal e Criador de todos!". Isentrude insistia sobre o afeto recíproco entre os esposos, para argumentar que a piedade divina não reprime nem suprime o afeto humano. Ela escreveu: "Eles se amavam de um amor maravilhoso e se encorajavam mutuamente no louvor e no serviço de Deus". Porém a vida matrimonial da Santa só iria durar seis anos.
     A Duquesa era desprezada na corte por causa de sua simplicidade no vestir e modéstia no modo de viver. No castelo de Wartburg, quase não era distinguida das servas. Sua devoção era considerada excessiva por muitos. Era seu costume levantar-se à noite para rezar ajoelhada no seu leito conjugal. Além disso, a jovem Duquesa tinha pouco tempo para as distrações mundanas, pois aos 15 anos tivera o seu primeiro filho, Hermano, aos 17 uma filha, Sofia (depois Duquesa do Brabante), e aos 20 uma segunda filha, Gertrudes (que seria beatificada após viver como monja premonstratense). Esta última nascida já órfã de pai.
     No verão de 1227, Luís IV partiu para a 6ª Cruzada na Terra Santa, quando Isabel esperava o terceiro filho. Luís se empenhara em organizar essa Cruzada porque o Papa Honório III havia prometido liberá-lo da intromissão do Arcebispo de Mogúncia. Ele partiu sob o comando do Imperador Frederico II. Mas, não veria a Palestina: ele contraiu uma doença contagiosa em Otranto, Itália. Três meses depois de sua partida, um mensageiro trazia a notícia: o Duque morrera na Itália, onde aguardava para embarcar com Frederico II.
     Segundo Isentrude, "ainda quando o marido vivia, ela era como uma religiosa humilde e caridosa, toda dedicada à oração. Cumpria todas as obras de caridade na maior alegria e sem alterar sua fisionomia".
     Viúva aos 20 anos com três filhos pequenos, Isabel tinha direito a um dote. O confessor sugeriu a ela que contraísse novas núpcias, ou entrasse em um mosteiro, como outras rainhas fizeram. Mas, ela já ouvira os franciscanos que pregavam na Turíngia, e sabia onde encontrar "a perfeita alegria". Com seu dote tinha planos de construir um hospital (e o faria realmente).
     Seu infortúnio haveria de começar com a morte do esposo. A sogra sempre hostilizara a jovem Duquesa. Certa feita, na festa da Assunção em que acompanhara a futura sogra, Isabel tirara a coroa e prostrara-se durante muito tempo diante do Crucifixo. Aborrecida, a mulher começara a ridicularizá-la dizendo: "Quando é que encerras esta cena de te deitares por terra como mula velha cansada? Pesa-te muito a coroa? Dessa maneira pareces uma provinciana dobrada em duas!" Erguendo-se, Isabel apenas disse que não pudera usar uma coroa de pérolas diante de Cristo crucificado e coroado de espinhos.
     Ao saberem do falecimento de Luís IV, Isabel foi alvo da ambição do tio do falecido e dos cunhados que não queriam suportá-la mais. Isabel foi expulsa do castelo de Wartburg; saiu à noite, com a filha recém-nascida nos braços e os outros dois agarrados à saia. Foi preciso se abrigar com as crianças num curral de porcos até ser socorrida como uma pobre pelos franciscanos de Eisenach. Com receio de desagradar o regente, ninguém mais se atrevia a ajudá-la. Por fim, seu tio, Bispo de Bamberg, lhe deu asilo.
     Esteve por uns tempos no Castelo de Pottenstein e finalmente fixou moradia em uma casa modesta de Marburgo, onde mandou construir um hospital com seus últimos recursos, ficando reduzida à miséria. No espírito e à exemplo de São Francisco, que morrera há apenas um ano, vestiu o burel de Terceira Franciscana em 1227, e se dedicou a todas as obras de misericórdia. Ela socorria os doentes e cuidava dos leprosos, colocando-se sob a direção espiritual de um religioso muito exigente. Viveu como pobre, renunciando retornar à Hungria, como desejavam seus pais, o rei e a rainha da Hungria.
     Entrementes os companheiros de armas de seu esposo voltam da Cruzada. Luís IV incumbira-os de proteger sua esposa e eles já se preparavam para atender ao pedido do moribundo, quando o usurpador mudou de atitude para com Isabel. Os direitos de seus filhos foram reconhecidos, mas, em virtude de sua escolha pela pobreza, foram tirados de seu convívio.
     Durante quatro anos viveu praticando extrema penitência e intensa caridade, não comendo, não dormindo, dando tudo aos pobres, sempre pressurosa no atendimento aos doentes. A sua dedicação era disfarçada sob uma normalidade que incluía pequenos gestos exteriores inspirados não numa simples benevolência, mas por um verdadeiro respeito pelos inferiores. Não se excedia nas penitências pessoais que pudessem impedi-la de praticar as obras de caridade.
     No dia 19 de novembro de 1231, com apenas 24 anos, Santa Isabel faleceu em Marburgo, Alemanha.
     Em tão breve tempo de vida foi esposa e mãe dedicada e afetuosa, Terceira Franciscana penitente e caridosa. Após sua morte, o confessor revelou que ainda quando seu esposo estava vivo, ela já se dedicava aos enfermos, até aos mais repugnantes. "Alimentava alguns, a outros procurava leito, levou outros sobre os próprios ombros, dedicando-se sempre, sem todavia entrar em discordância com o marido".
     A fama de sua santidade levou o Papa Gregório IX a ordenar um inquérito sobre os prodígios que lhe eram atribuídos. Foi um trabalho difícil e cheio de complicações, inclusive trágicas, pois o confessor de Isabel, o Arcebispo de Mogúncia, morreu assassinado. Roma retomou as investigações e chegou à canonização em 1235, ainda sob o Papa Gregório IX.
     Os seus despojos foram retirados de Marburgo durante os conflitos no tempo da Pseudo-reforma protestante, e parte deles estão em Viena. É patrona dos enfermeiros, das associações de caridade e da Ordem Terceira Franciscana.
 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Beata Maria da Paixão, Fundadora - 15 de novembro

     Hélène Marie Philippine de Chappotin de Neuville, em religião Maria da Paixão, nasceu em 21 de maio de 1839 em Nantes, França, numa família católica da pequena aristocracia da Bretanha. Desde a infância manifesta eminentes dons naturais e uma fé profunda.
     Em abril de 1856, em um exercício espiritual, teve uma primeira experiência de Deus que a chama para uma vida de consagração total.
     Após a morte súbita de sua mãe, que retardou a realização de sua vocação, em 1860, com o consentimento do Bispo de Nantes, aos 21 anos de idade, entrou como postulante num convento de Clarissas daquela cidade. Em 23 de janeiro de 1861, ainda postulante, Deus a convida a oferecer-se como vítima pela Igreja e pelo Papa. Esta experiência marcará toda sua vida. Embora profundamente influenciada pelo espírito franciscano, foi obrigada a regressar a casa devido a uma grave doença que a afetou.
     Após a recuperação da saúde preferiu optar por uma congregação de vida ativa, ingressando na Sociedade de Maria Reparadora, na qual a 15 de agosto de 1864, em Toulouse, começou o seu noviciado adotando então o nome religioso de Maria da Paixão.
     Em 1865, ainda noviça, foi enviada como missionária para a Índia, passando a trabalhar no Vicariato Apostólico de Maduré, onde as Reparadoras têm a tarefa principal de formar religiosas de uma congregação autóctone e outras atividades apostólicas. O vicariato era então confiado à direção da Companhia de Jesus. No dia 3 de maio de 1866, Maria da Paixão pronuncia os votos. Em 1867, com 28 anos de idade, por seus dons e virtudes foi eleita superiora local e em julho do mesmo ano provincial de três conventos das Reparadoras.
     Em 1874, com um grupo de irmãs, fundou uma casa em Ootacamund, no Vicariato Apostólico de Coimbatore, assistida pelos padres da Sociedade para as Missões Estrangeiras de Paris. Mas em Maduré as dissensões se agravam até o ponto de vinte religiosas, entre elas Irmã Maria da Paixão, se virem obrigadas, em 1876, a deixar a Sociedade de Maria Reparadora. As irmãs acabaram por se reunir em Ootacamund sob a jurisdição do Vigário Apostólico de Coimbatore, Mons. José Bardou, M.E.P.
     Em novembro de 1876, Irmã Maria da Paixão se dirige a Roma para regularizar a situação das vinte irmãs separadas. O Beato Pio IX regularizou a situação das religiosas, permitindo que a Irmã Maria da Paixão fundasse uma nova congregação especificamente destinada às missões, com a designação de Instituto das Franciscanas Missionárias de Maria. Para esta nova congregação, por sugestão da Congregação de Propaganda Fide, foi fundado um noviciado em Saint-Brieuc, na Bretanha, que rapidamente acolheu numerosas vocações.
     Em abril de 1880 e em junho de 1882, Irmã Maria da Paixão regressou a Roma para resolver as dificuldades que ameaçavam obstaculizar a estabilidade e o crescimento do jovem Instituto. A última viagem (junho de 1882) marca uma etapa importante em sua vida: ela foi autorizada a fundar uma casa em Roma, e por circunstâncias providenciais encontra a orientação franciscana indicada por Deus vinte e dois anos antes. Em 4 de outubro de 1882, na Igreja de Aracoeli, é recebida na Ordem Terceira de São Francisco e entra em contato com o Servo de Deus Padre Bernardino de Portogruaro, Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, que a apoia em suas provas com paternal solicitude.
     Em março de 1883, no meio de forte controvérsia interna, Madre Maria da Paixão foi destituída das suas funções de superiora do Instituto, mas, na sequência de um inquérito ordenado pelo papa Leão XIII, a sua inocência foi plenamente reconhecida e ela foi reeleita no capítulo de julho de 1884.
     O Instituto inicia seu rápido desenvolvimento: em 12 de agosto de 1885 emitem o Decreto laudatório e o de filiação à Ordem dos Irmãos Menores; as Constituições são aprovadas ad experimentum em 17 de julho de 1890 e definitivamente em 11 de maio de 1896. É o momento de envio de missionárias, inclusive aos pontos mais distantes e perigosos. O zelo missionário da fundadora não conhece limites para responder aos chamados dos pobres e abandonados. Também a promoção da mulher e a situação social lhe interessam particularmente; com inteligência e discrição oferece aos pioneiros que trabalham neste campo uma colaboração que eles muito apreciam.
     Sua intensa atividade e seu dinamismo brotam da contemplação dos grandes mistérios da Fé. Para Madre Maria da Paixão tudo conflui na Unidade-Trinidade de Deus Verdade-Amor, que se dá a nós através da Eucaristia. Unida a estes mistérios vive sua vocação missionária. Jesus Eucaristia é para ela “o Grande Missionário” e Maria, na disponibilidade de seu “Ecce”, traça o caminho da doação sem reserva à obra de Deus. Deste modo abre os horizontes da missão universal de seu Instituto no espírito evangélico de humildade, pobreza e caridade de São Francisco de Assis.
     Dotada de uma extraordinária capacidade de trabalho, encontra tempo para redigir numerosos escritos para formação de suas religiosas e para manter uma frequente correspondência com suas missionárias espalhadas pelo mundo, exortando-as com insistência a uma vida de santidade.
     Em 1900, o Instituto recebe o selo de sangue com o martírio de sete Franciscanas Missionárias de Maria na China, beatificadas em 1946 e canonizadas no transcurso do Grande Jubileu de 2000. Este martírio foi para Madre Maria da Paixão, junto com uma grande dor, uma imensa alegria, uma emoção intensa de ser a mãe espiritual destas missionárias que souberam viver o ideal de sua vocação até a efusão do sangue.
     Esgotada pelas fatigas de viagens incessantes e pelo trabalho cotidiano, Madre Maria da Paixão, após uma breve enfermidade, faleceu serenamente em San Remo, localidade para onde se tinha retirado após adoecer, em 15 de novembro de 1904, deixando 2.069 irmãs em 86 comunidades distribuídas por 24 países. Seus restos mortais repousam em um oratório privado da Casa Geral do Instituto em Roma.
     A causa da sua canonização foi aberta em San Remo em 1918. A 28 de junho de 1999 o papa João Paulo II promulgou o decreto reconhecendo as suas virtudes heroicas e declarando-a venerável. Foi beatificada a 20 de outubro de 2002, em cerimônia presidida por João Paulo II na Basílica de São Pedro de Roma. A sua festa litúrgica celebra-se a 15 de novembro, aniversário da sua morte.
 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Beata Branca de Aragão, Rainha - 12 de novembro

   
    
    Branca d’ Anjou, Rainha de Aragão, nasceu em data desconhecida e faleceu em Barcelona no dia 14 de outubro de 1310. Era filha de Carlos II de Nápoles (1254-1309) e de Maria da Hungria (1257-1323), filha do rei húngaro Estevão IV.
     Casou-se com Jaime II, Rei de Aragão, segundo o estipulado no Tratado de Anagni de 20 de junho de 1295 entre angevinos e aragoneses; o papa Bonifácio VIII havia idealizado este casamento como solução aos enfrentamentos entre ambos. Previamente este mesmo pontífice havia declarado nulo o matrimônio entre Jaime II e Isabel de Castela por causa de seu parentesco, pois Jaime II e o pai de Isabel, o Rei Sancho IV de Castela, eram primos.
     Assim, Branca chegou a Perpignan por Montpellier acompanhada de seu pai e do legado pontifício, o Cardeal de San Clemente, junto com uma comitiva de nobres napolitanos e provençais. Prosseguiu viagem com outros aristocratas aragoneses, e em Peralada (Gerona) se encontrou com seu futuro esposo. Em 29 de outubro desse mesmo ano se celebrou as bodas, em meio de grandes festejos, no mosteiro de Vilabertrán.
     De profunda religiosidade inspirada na doutrina do teólogo Arnaldo de Vilanova, costumava acompanhar seu esposo em suas viagens (assistiu, por exemplo, a entrevista de Tarazona de 1304 entre o Rei de Aragão e os de Castela e Portugal) e campanhas militares (como as de Almería e Sicília, entre outras). Teve certa influência em alguns assuntos de estado, como a política matrimonial aragonesa (e também na de sua família napolitana).
     Tinha chancelaria própria e residiu geralmente em Montblanch (Tarragona), Tortosa (Tarragona) e Santes Creus (Gerona). Neste último mosteiro foi enterrada segundo sua própria vontade (testamento de 1308), quando de sua morte em 1310 (foi trasladada para ali em 1316). A Beata Branca morreu ao dar à luz a infanta Violante.
     O cronista Ramón Muntaner escreveu sobre ela que era "fonte de graça e de todas as bondades”, enquanto outros eruditos aragoneses contemporâneos a chamavam “Doña Blanca de la Santa Paz” por ter contribuído para o fim dos enfrentamentos com os da Casa de Anjou da Itália.
     Jaime II contraiu mais tarde dois novos matrimônios: o primeiro com Maria de Lusignan ou de Chipre e o segundo com Elisenda de Moncada, porém somente com Branca teve dez filhos. Foram cinco meninos e cinco meninas:
            Jaime de Aragão e Anjou (1296-1334) (o mais velho, que renunciou ao trono);
            Afonso (1299-1336) (sucessor no trono aragonês como Afonso IV o Benigno);
            Maria de Aragão (1299-1347) (casada com o infante castelhano Pedro e, depois de enviuvar, monja no mosteiro de Sigena, Huesca);
            Constança de Aragão (1/1/1300-1327) (casada com João Manuel de Castela);
            Branca de Aragão (c. 1301-1348), priora no Mosteiro de Santa Maria de Sigena;
            Isabel de Aragão (1302-1330), (casada com o duque austríaco Frederico III da Áustria, filho de Alberto I da Germania);
            João de Aragão e Anjou (1304-1334) (Arcebispo de Toledo e Tarragona, Patriarca de Alexandria);
            Pedro IV de Ribagorza (1305-1381) (casado com Joana de Foix);
            Raimundo Berenguer de Aragão (1308-1364) (casado por duas vezes, a primeira com Branca de Anjou e a segunda com Maria de Aragão);
            Violante de Aragão (1310-1353) (casada por duas vezes, a primeira com Felipe d’Anjou, déspota da Romênia, e depois com Lope de Luna, Senhor de Segorbe).
     Quando Branca faleceu, Constança, filha natural de Frederico II da Sicília e viúva de João IV Ducas, imperador latino de Niceia, passou a cuidar de seus filhos.
     Jaime II consolidou a Coroa de Aragão ao declarar a união indissolúvel entre os reinos de Aragão, Catalunha e Valência (1319); obteve a vassalagem dos reis de Maiorca (membros da casa real aragonesa); recuperou o Vale de Arám; fundou em 1300 a Universidade de Lérida.
     Para Jaime II era vergonhoso que o culto a Maomé fosse prestado diante dos olhos dos reis da Espanha e se dedicou à luta pela Reconquista. Os aragoneses não viam para a guerra contra os muçulmanos invasores senão o motivo religioso, e acusavam os espanhóis de tíbios na fé e de lutar por interesses materiais com abandono dos espirituais.
     Obedecendo aos mandados pontifícios, Jaime II submeteu os Templários de seus reinos ao processo; eles foram declarados inocentes, mas apesar disto a Ordem foi dissolvida. Com parte de seus bens Jaime II criou a Ordem de Montesa, reforçando a defesa do flanco sul frente aos muçulmanos. A Ordem aprovada pelo papa João XXII em 1317, tinha como finalidade lutar contra a passagem de hostes inimigas da fé cristã pelos seus territórios e facilitar o combate aos mesmos no Mediterrâneo.
     Jaime II faleceu aos sessenta anos e foi sepultado junto ao seu pai, Pedro III, e a sua esposa, a Beata Branca, no Mosteiro de Santes Creus. Ainda hoje podemos admirar o túmulo mandado construir pelo rei para o pai e a esposa, e onde ele próprio foi sepultado. 
 
Fonte: Autor: Bernardo Gómez Álvarez

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Santa Natalena ou Lena, mártir em Pamiers - 10 de novembro

     No século IV, a cidade de Pamiers (França) estava sob a dominação romana. O estabelecimento do Cristianismo em Pamiers aparece através da história de Natalena.
     Segundo a legenda, Natalena nasceu por volta do ano 360, em Frédélas (antigo nome de Pamiers) em uma nobre família romana. Seu pai, governador da cidade, ocupara o castelo Castella. Esperando um filho, após o nascimento de oito filhas, ele ficou desapontado com o nascimento desta criança e ordenou a uma serva que a afogasse. No momento em que ia realizar o afogamento, a mulher foi surpreendida por São Martinho que passava por ali. Ele acolheu Natalena, batizou-a e a confiou a uma família cristã.
     Natalena cresceu na religião cristã. Denunciada e levada perante o governador, ela confessou a sua origem, mas também a sua fé, o que a levou a ser condenada. Foi decapitada no fim do atual quarteirão Lestang. Quando o carrasco cortou sua garganta, uma fonte jorrou naquele local. Por muito tempo a água foi considerada milagrosa. As pessoas vinham até a fonte na esperança de uma cura.
     Venerada em Pamiers no tempo das Cruzadas, o culto à Santa Natalena naquela cidade desde o ano 1320 é confirmado pelo registro de Jacques Fournier: “igreja de São João e Santa Natalena” (Claeys 2001, p.65). O santuário onde ela era invocada foi destruído durante as guerras de religião (século XVI).
    Hoje em dia os devotos de Natalena recorrem à Fonte de Milliane, pois o local exato do martírio é desconhecido. A fonte se encontraria onde atualmente está localizada a Fonte de Santa Helena.
     Há uma antiga igreja em honra de Santa Natalena em Dordogne (França).
 
(Fonte: Diocese de Pamiers)
Igreja de Santa Natalena em Dordogne (França)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Beata Margarida da Lorena, Viúva, Clarissa

 
 

     Margarida da Lorena, Duquesa de Alençon, nascida em 1463, filha de Ferri de Vaudimont e de Iolanda d’Anjou, foi educada na corte do seu piedoso avô, rei Renato d’Anjou.
     Os seus principais textos de estudo, a Legenda Áurea e as Vidas dos Santos, produziram nela tal impacto, que aos 10 anos de idade já sonhava em ser eremita, como demostra um episódio curioso: durante um passeio coletivo, Margarida e mais algumas companheiras separaram-se do grupo. Julgando-se que se teriam perdido na mata, organizou-se uma operação de busca. Quando à tardinha a encontraram, confessou que se tinha escondido de propósito para experimentar como seria a vida eremítica.
     Entretanto morreu-lhe o avô, o que a fez regressar à Lorena, onde a cunhada assumiu o encargo de continuar a sua educação na mesma linha de piedade. No ano seguinte casou-se com o Duque de Alençon. Mas a vida do casal não foi fácil, pois os desastres da guerra dos cem anos fizeram-se sentir no pequeno ducado. A situação da esposa tornou-se ainda pior quando lhe morreu o marido, deixando-a viúva aos 32 anos de idade, com três filhos de tenra idade para criar.
    A partir de então, como mulher forte, dedicou-se à educação dos órfãos, cuja tutela os parentes pretendiam assumir. Opondo-se a essa pretensão, Margarida esmerou-se na educação dos filhos, conseguindo que eles se tornassem jovens admiráveis que conseguiram ótimos casamentos.
     Margarida governou com sabedoria o Ducado de Alençon. Durante os 20 anos de regência do Ducado de Alençon arruinado pela Guerra dos Cem Anos, Margarida revelou que a gestão dos assuntos temporais não é incompatível com o ideal do Evangelho: ela sanou as finanças do Ducado, reformou os costumes, humanizou a vida social prestando assistência aos "pobres envergonhados" (aqueles que não se atreviam a pedir), refez a unidade da diocese de Séez dividida entre dois bispos, reformou as abadias de Almenèches e St. Martin de Séez e fundou mosteiros de Clarissas em Alençon, Mortagne, Château-Gontier, Mayenne e Argentan.
     Ela também restaurou e embelezou muitos monumentos civis e religiosos, incluindo igrejas de Mortagne, Argentan e Alençon. Assim, em 1505 concluiu a construção da Igreja de São Leonardo de Alençon.
     Finalmente, quando seu filho mais velho, Carlos, atingiu a maioridade, ela transferiu para ele o poder; Carlos se casaria com Margarida de Navarra, irmã do rei Francisco 1º.
     Viúva abastada, ela se consagrou plenamente a servir os doentes e os pobres, que ela chamava de "seus senhores". Visão sagrada da pobreza que tem suas raízes no Evangelho e na tradição franciscana. Livre do cuidado dos filhos e do ducado, dividiu seus bens em três partes: uma destinada aos pobres, outra a Igreja e a terceira ao seu próprio sustento; depois se retirou no Castelo de Essai, que se transformou num verdadeiro mosteiro, e permaneceu em estreito contado com as Clarissas de Alençon.
     O bispo da diocese chegou mesmo a recomendar à duquesa que moderasse as suas práticas ascéticas bastante exageradas, como passar noites inteiras em claro em oração, usar cilícios, fazer grandes temporadas de jejum, e flagelar-se com violência para “saborear um pouquinho da Paixão de Jesus”, como ela mesma costumava dizer.
     Antes de se tornar Clarissa em Argentan, Margarida enriqueceu igrejas e mosteiros com bordados de mérito incalculável, feitos por ela com todo o carinho: o famoso “ponto de Alençon”, uma arte das mais sutis, e que lhe dão direito a ser considerada legítima ascendente das nossas modernas rendeiras.
     O apadrinhamento histórico desta famosa renda cabe à Beata Margarida. Esta antepassada de Henrique IV, nora do “Gentil Duque”, que foi o companheiro de armas de Santa Joana d'Arc, não se limitou a administrar o ducado com tal sensatez e condescendência que lhe deram o nome de “mãe de toda a caridade”: ela praticou e incentivou esta arte que perdura até nossos dias, e da qual também foi uma engenhosa empreendedora a mãe de Santa Teresinha do Menino Jesus, a Beata Zélia Guerin.
     Por fim, Margarida ingressou no mosteiro das Clarissas de Argentan para partilhar a vida duríssima das filhas de Santa Clara. Foi, porém, uma experiência de pouca duração, pois ao fim de dois anos adoeceu gravemente, e preparou-se para a morte, que ocorreu no dia 2 de novembro de 1521, tendo ela 58 anos de idade. Só então se descobriu que ela trazia ao peito uma cruz de ferro com três pontas aguçadas que se lhe cravavam na carne.
     A memória de Margarida da Lorena foi preservada no Martirológio Franciscano e no Martirológio Gálico. Após um convite feito pelo Bispo de Séez, Jacques Camus de Pontcarri, Luís XIII rogou ao Papa Urbano VIII que ordenasse um processo canônico sobre as virtudes e os milagres da piedosa Duquesa d’Alençon. Seu culto entretanto somente foi aprovado por Bento XV no dia 20 de março de 1921.
     Ela é comemorada no dia 3 de novembro. A Igreja reconhece nela um "modelo para os que governam os povos".
 

Point d'Alençon oferecido a Leão XIII em seu jubileu.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Beata Maria do Carmo Viel Ferrando, Virgem e mártir de 1936

    
    
     Maria do Carmo Viel Ferrando nasceu no dia 27 de novembro de 1893 em Sueca (Valencia), foi batizada em 29 de novembro de 1893 e recebeu a 1ª Comunhão em 24 de abril de 1904 na igreja paroquial de São Pedro Apostolo.
     Sendo costureira, se dedicou ao apostolado social, fundando uma cooperativa e ajudando na fundação dos Interesses Sociais (associação laica inserida na pastoral social). Estudou sociologia para ajudar a juventude operaria.
     Em 1931, trouxe para sua região as Irmãs Salesianas para cuidar da formação da juventude. Era muito devota da Eucaristia e rezava o Rosário todos os dias. Membro da Ação Católica, durante a perseguição religiosa continuou o seu apostolado e ajudou diversos sacerdotes e religiosos perseguidos. Em 5 de novembro de 1936 sofreu o martírio em El Saler (Valência). A sua beatificação foi celebrada por João Paulo II em 11 de março de 2001.
     A Beata é celebrada no dia 5 de novembro. 
 
Martirológio Romano: Na localidade de El Saler próximo a Valência, sempre na Espanha, Beata Maria do Carmo Viel Ferrando, virgem e mártir, que durante a perseguição chegou a bom termo na gloriosa prova por Cristo.
 
 

sábado, 1 de novembro de 2014

Santa Vinifrida de Gales, Virgem e monja - 2 de novembro

Martirológio Romano: Perto da fonte na localidade Holywell em Gales, Santa Vinifrida, virgem, venerada como ilustre monja.
 
     Santa Vinifrida (Gwenfrewi, Winifred ou Winifrid) foi uma monja do século VII no País de Gales, Reino Unido. De acordo com a legenda, era a única filha de Thevith rico conselheiro do rei. Foi discípula de seu tio materno, São Beuno, o mais famoso dos santos de Gwynedd. Os pais de Vinifrida doaram um terreno para que São Beuno construísse uma igreja e um mosteiro. E ficaram muito satisfeitos quando souberam que a jovem desejava tornar-se monja.
     Um domingo, estando ela sozinha em sua casa, enquanto seus pais tinham ido à Missa, Caradoc, filho de um príncipe da vizinhança, tendo estado a caçar, parou ali em busca de água. Encontrando a jovem sozinha, tentou seduzi-la. Vinifrida fugiu para a igreja de seu tio perseguida pelo furioso Caradoc. Mas o príncipe alcançou-a perto da entrada da igreja e cortou sua cabeça. São Beuno, vindo da igreja, amaldiçoou o assassino Caradoc, que a terra engoliu. O Santo então rezou a Deus, tomou a cabeça, a benzeu e a menina ressuscitou. A jovem ficou para sempre com um sinal ao redor da garganta como a testemunhar o milagre que Deus operara.
     Vinifrida tornou-se monja e abadessa em Gwytherin, onde morreu. Sua sepultura foi local de peregrinação até suas relíquias serem transferidas para Shrewsbury em 1138.
     Após a sua ressurreição, Vinifrida sentou-se com São Beuno na pedra ainda hoje conhecida por seu nome. Foi ali que ele disse que qualquer um que procurasse ajuda com orações nesse ponto a encontraria. No local onde a cabeça de Vinifrida tombara surgiu uma nascente, mais tarde um poço foi construído ali.
     Desse dia em diante o povo visita o poço de Santa Vinifrida em peregrinação, pois eram – e ainda são – muitas as curas que obtidas de Deus pela intercessão de Santa Vinifrida.
      Santa Vinifrida é mais do que uma legenda. Sua “Vida” não foi escrita até o século X, mas na verdade a tradição sobreviveu e foi descoberta pelos autores medievais. Vinifrida foi relacionada com a família real de Powysian. Beuno era realmente seu tio e Santa Theonia, a quem sucedeu como abadessa em Gwytherin, era sua tia-avó. Estes relacionamentos familiares colocam Vinifrida firmemente dentro da tradição histórica de Gales. O fato de Vinifrida ter um irmão, Owain, que matou Caradoc por vingança, indica que qualquer que tenha sido a verdade exata de sua morte e ressurreição, ela tem base em fato histórico.
     Recentemente um relicário do século oitavo contendo um fragmento do caixão de Vinifrida foi encontrado, testemunhando ser ela reconhecida como santa logo depois de sua morte em 655, o que evidencia a fama de sua santidade em todo o País de Gales.
Holywell
     Holywell incorpora a história escrita em 1093. Em 1240, o príncipe Dafydd ap Llewelyn de Gales, uma vez mais no controle desta região, deu ao Poço de Santa Vinifrida uma igreja e uma abadia de nome Basingwerk, e os monges Cistercienses passaram a cuidar do Poço e de seus peregrinos até a Reforma Protestante.
     A fama de Vinifrida, e com ela a do Poço, continuou a se espalhar durante toda a Idade Média, mas pouco é registrado sobre a peregrinação. Por volta de 1415 sua festa tinha-se transformado em solenidade principal em todo o País de Gales e na Inglaterra. Os reis eram contados entre seus peregrinos. Henrique V lá esteve em 1416. Ricardo III manteve um sacerdote no Poço. Mas foi durante o reinado de Henrique VII, o Galês, que a devoção alcançou seu apogeu com a construção da capela sobre o Poço, a qual se deve ao patrocínio da mãe de Henrique, Margaret Beaufort.
     No século XIX, após a Emancipação Católica, foram os Jesuítas que passaram a dirigir o renascimento espetacular da peregrinação. Uma igreja construída na cidade nos anos 1840's era constantemente ampliada e enriquecida. Um hospital para peregrinos foi erigido pouco depois. E sob o Pe. Beauclerk a peregrinação sofreu uma revitalização de proporções medievais. Os peregrinos vinham literalmente aos milhares, necessitando a construção de uma linha de trem para a cidade.
     A imprensa popular noticiou cada cura relatada e eram em tal número, que Holywell veio a ser chamada a "Lourdes de Gales". Apesar das alterações dos padrões de peregrinação, causadas pela secularização crescente da vida nos séculos 20-21, e pelas mudanças devocionais dentro do Catolicismo, a herança dos Jesuítas continua: as pessoas ainda vêm em peregrinação a Holywell.
A Tradição de Cura de Holywell
     Há l.350 anos pessoas banham-se no Poço de Santa Vinifrida. E ainda o fazem hoje: os peregrinos passam três vezes pela pequena sala de banho interna, rezando um terço do Rosário; depois entram na piscina exterior, para terminar suas orações ajoelhando-se na pedra de São Beuno. Alguns rezam por uma cura, muitos oferecem o desconforto das águas geladas por amigos, ou simplesmente em honra de Santa Vinifrida, ou como um gesto de gratidão.
     Este ritual é tão velho quanto a própria peregrinação. “Maen Beuno”, a pedra de Beuno, conecta-nos diretamente com a época de Santa Vinifrida. As "Vidas" medievais relatam que São Beuno sentou-se nesta pedra quando disse a Vinifrida que qualquer um que viesse ao Poço e que pedisse algo em seu nome, “poderia receber uma resposta a seu pedido pelo menos na terceira vez”.
     Até os anos 1960s a cripta foi entulhada pelas muletas deixadas por peregrinos curados. Cartas seculares testemunham o poder de Deus e dos seus Santos neste lugar; registros de curas não só de católicos, mas de protestantes, e até daqueles sem nenhuma fé. Um testemunho, tocante em sua simplicidade, num pedaço de papel deixado no Poço há 100 anos, pode simbolizar todo o resto:
     Um pai protestante deseja agradecer a Deus que através do uso da água de Sta. Winifred sua filha única foi curada milagrosamente três anos atrás de uma séria doença que tinha resistido aos esforços de diversos doutores & amigos pelo período de três anos e meio.
Assinado, C.T. Longley
 
O Poço de Santa Vinifrida (Holyweel)
Etimologia: Winifred é um nome inglês, alemão e galês de origem celta e galês antigo. Segundo raízes celtas, seu significado é "reconciliação abençoada, amiga da paz". O nome deriva de Grenfrewi, no qual o elemento “gwen” significa branca, santa, abençoada e “frewi” é a modificação do inglês antigo Wynfrith, cujos elementos "wynn" and "frith" significam paz, proteção, segurança.