segunda-feira, 18 de maio de 2020

19 de maio de 1853: A aparição da Virgem das Dores

     Era a tarde do dia 19 de maio de 1853.
    Veronica, como sempre, está nos campos com a intenção de pastar suas ovelhas. O céu lentamente se torna coberto de nuvens e se torna escuro. Raios e trovões criam uma atmosfera de medo. A menina, na companhia de seu irmão Tista (o irmão mais novo João Batista), empurra as ovelhas em direção a uma cabana onde ela pretende se abrigar. De repente, uma senhora vestida de branco aparece diante de Veronica...
     Na colina, a uma curta distância da Casetta (*), a chuva cai. Tista já reunira as ovelhas e corria com elas para o refúgio, enquanto sua irmã está parada. É estranho que ali, ao lado daquela senhora, não chovia. Por quê? O que é tudo isto?
     Ouçamos a narração do evento sensacional da própria boca da garota:
     “Eu estava no lugar chamado La Casetta, cuidando das ovelhas, eram mais de trinta, e comigo estava meu irmão João Batista de 7 - 8 anos, a quem eu dissera que se abrigasse, como ele fez, em uma cabana próxima, quando começou a cair a chuva, e eu estava direcionando as ovelhas para a cabana acima mencionada, para me refugiar junto com meu irmão e, enquanto isso, para não ficar molhada, cobri minha cabeça com minha própria túnica, dobrando-a. Ao me preparar para ir à cabana, vi uma senhora na minha frente, o topo da minha cabeça chegava na altura do coração dela. A senhora estava virada de costas. Quando me chamou, ela me fez ajoelhar um pouco para trás do lado direito, à uma distância que nos separava, de modo que onde terminava o ombro direito da senhora começa o meu lado esquerdo e via sua bochecha direita e parte do olho: aquela pequena parte do rosto era muito bonita.
     “Ela usava um vestido com um fundo branco polvilhado de florezinhas vermelhas com um pouco menos de um centímetro de espessura, circundado por uma faixa preta cintilante com cerca de dois dedos de largura; ela tinha na cabeça um manto de cor celeste, o qual descia dos rins até a dobra dos joelhos; a testa e uma pequena parte da bochecha estavam descobertas; depois descia sobre os braços e cobria as mãos, que ela havia esticado em uma direção oblíqua, apresentando as palmas das mãos como as senhoras fazem em um ato suplicante. Havia manchas vermelhas de forma circular em sua capa e ela tinha uma coroa de ouro brilhante sobre a cabeça, e no meio uma cruz com cerca de oito dedos de altura. A postura da senhora foi sempre a mesma e ela apenas inclinou o rosto levemente, enquanto me chamava, e ergueu a mão apenas para acenar-me para chegar mais perto. De repente, a senhora apareceu genuflexa e, como me viu, me chamou dizendo:
     - “Verônica, venha aqui perto de mim para não ficar encharcada, se ajoelhe” - apontando com a mão o lugar onde eu deveria ficar; e como ela estava virada em direção à igreja paroquial de Nossa Senhora d’Aquila, eu também me virei naquela direção; então ela acrescentou: - “digamos cinco Credos ao meu Filho” - e juntas recitamos o Credo; então ela continuou – “digamos o protesto” - e juntos recitamos. Até então, eu não havia aprendido bem o tal protesto, que é uma oração que nossa mãe nos fazia rezar: a partir daquele dia eu aprendi bem, e nunca mais a esqueci. A senhora continuou a dizer: - “Ajude-me a chorar” - e, na verdade, vi que as lágrimas corriam do seu olho direito, depois perguntei: por que a senhora está chorando? “Eu choro”, ela respondeu, “por tantos pecadores! Você vê o quanto chove? Os pecados são mais do que as gotas de água que caem. Meu Filho tem as mãos e os pés atados, e tem cinco chagas abertas: se os pecadores não são lamentados, meu Filho quer enviar o fim do mundo. E você está feliz por viver três ou quatro meses a mais, ou por se reduzir ao fim do mundo? - respondi: quero morrer.
     A senhora, sem responder ao pedido de Veronica de querer morrer, continuou assim: “Diga todos os dias sete Pater, Ave Maria e Glória ao sangue derramado (Veronica declarou não saber o que era sangue derramado), cinco Pater, Ave Maria, Glória, às cinco chagas...” E Veronica disse ter visto as 5 chagas em um crucifixo de gesso conservado em sua casa: “e sete Pater, Ave e Gloria para mim, que meu nome é Maria das Dores. Agora, (a senhora concluiu), vá para a cabana, caso contrário você se molhará” - e antes de nos separar, ela me ordenou relatar tudo à minha mãe com as seguintes palavras: - “Você se lembra do que eu lhe disse? Vá para sua casa, conte para sua mãe e diga para todos com quem ela se encontrar que me chamo Maria das Dores” - então eu saí dali, deixando a senhora genuflexa, e fui para a cabana onde estava meu irmãozinho João Batista e pouco depois parou de chover”.

(*) La Casetta era e é uma pequena construção rural, localizada um pouco à esquerda da estrada que sobe da avenida da igreja até o casario de Cerreto. Era a primeira casa da família Nucci, quando deixaram Siena e chegaram a estabelecer-se em Cerreto, para cuidar dos bens grão-ducais.
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Santuário de Cerreto
     Veronica Nucci era uma jovem pastora, nascida em 1841 na vila de Cerreto, nos arredores de Sorano, então parte do Grão-Ducado da Toscana. Esta garota, que morreu algumas semanas antes dos vinte anos, em 19 de maio de 1853 testemunhou uma aparição mariana. Dois anos após a morte da jovem, em 1864, o santuário foi aberto para culto em memória do evento; desde então tornou-se destino de inúmeras peregrinações.
     Alessandro Basetta reconstrói a história terrena de Verônica: para a menina Nossa Senhora parecia curvada em sua dor, ajoelhada, vestida com um manto azul com manchas vermelhas redondas, como se destacasse as feridas subjacentes "e tivesse acima de sua cabeça uma coroa brilhante de cor como ouro e no meio uma cruz de cerca de oito dedos de altura".
     Nossa Senhora pediu a Verônica para rezarem junto, e então ela fez um pedido estranho: "Ajude-me a chorar". "Por que você está chorando?" Eu choro por tantos pecadores! Vê quanto está chovendo? São mais pecados do que gotas de água que caem. Meu Filho tem as mãos e os pés atados e mantém cinco feridas abertas: se os pecadores não são estremecidos, meu Filho quer enviar o fim do mundo". Então o convite para orar fervorosamente: "Diga 7 Pater Noster, Ave Maria e Glória todos os dias para o sangue derramado, 5 Pater Noster, Ave Maria e Glória para as cinco chagas e 7 Pater Noster, Ave e Glória para mim, que meu nome é Maria das Dores". Veronica seguiu o conselho.
     Em 15 de maio de 1859, após o fim do noviciado, ela tornou-se Irmã Verônica de Maria das Dores. Ela morreu em odor de santidade (o lírio que ela segurava em suas mãos em seu leito de morte depois de mais de um mês ainda estava fresco e intacto); ela tem intercedido e obtido alguns milagres, incluindo a cura de uma doença grave da mãe Maria Stella, que segurou com devoção um punhado de terra tomada no lugar da Aparição.
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     Cerreto é uma vila da Toscana, no centro da Itália, administrativamente uma fração da comuna de Sorano, província de Grosseto, no sul de Maremma. Na época do censo de 2001, sua população era de 19 habitantes. Cerreto está a 467 metros acima do nível do mar.
     A pequena vila rural localizada a três km de Sorano é lembrada pelo aparecimento de Nossa Senhora a Verônica Nucci de apenas 12 anos, em 19 de maio de 1853. No local da aparição hoje está o Santuário das Dores de Cerreto destino de muitos peregrinos. Este lugar de veneração vem sendo administrado pelas carmelitas clausuradas por alguns anos.
    

sábado, 16 de maio de 2020

Beata Berta de Bingen, Mãe de São Ruperto e penitente - 15 de maio

     
     Entre as inúmeras figuras de mães de Santos, elas também veneradas pela Santa Igreja como Santas ou Beatas, aparece a figura da Beata Berta, mãe de São Ruperto de Bingen.

     A comovente história de Berta e Ruperto teria se perdido ao longo dos séculos se não tivesse sido escrita pela grande mística, escritora e musicista, Santa Ildegarda de Bingen, que viveu na mesma região séculos depois. Esta Santa tinha grande veneração pelo Santo e o mosteiro do qual era abadessa guardava as relíquias de ambos.
     Berta viveu nos séculos VIII-IX, era filha do Duque da Lorena, e foi casada com o príncipe pagão Robolau (ou Roboldo), no tempo de Carlos Magno (742-814), tendo recebido como dote um vasto território ao longo da região do Rio Reno, hoje conhecida como Rupertsberg (Renânia, Alemanha).
     Sendo católica praticante, procurou converter o marido, mas sem sucesso. Este morreu ainda jovem, combatendo, pouco tempo depois do nascimento de seu filho. Berta enfrentou com coragem a viuvez e dedicou-se ao serviço de Deus e a educação do filho, Ruperto, de três anos, e a proteger sua propriedade de Bingen das pretensões dos familiares de seu marido.
     Ruperto cresceu fiel aos ensinamentos maternos e com a assessoria do seu mentor, São Vigberto, sacerdote e diretor espiritual de Berta, que os incentivou nas práticas de devoção e obras de caridade. Iniciou-se assim uma relação de profunda convivência espiritual entre mãe e filho.
     Ruperto mostrou um precoce entendimento dos ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando Berta disse a ele que planejava financiar a construção de uma igreja, Ruperto retrucou: "Mas primeiro precisamos obedecer a Deus e dar pão aos famintos e roupas aos nus". Tocada pela compaixão de Ruperto, Berta associou seu filho, então com 12 anos, a fundação de um mosteiro em Bingen, usando também seus bens para construir hospitais para os pobres e doentes.
     Anos depois, Berta e Ruperto fizeram uma peregrinação ao túmulo dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, em Roma. Como sua fé se aprofundava, Berta decidiu transferir-se, com Ruperto, para Bingen a fim de levarem uma vida de solidão e contemplação. Esta frutífera colaboração entre mãe e filho somente foi truncada com a morte de São Ruperto, aos 21 anos, após uma grave enfermidade.
     A grande dor que Berta provou foi mitigada pela consolação ao ver a veneração por seu filho que logo a população expressou. Berta adotou uma vida de oração e penitência e doou seus bens para o sustento dos monges do mosteiro em que São Ruperto fora sepultado.
     Berta sobreviveu a seu filho uns 25 anos, falecendo em meados do século IX, e foi enterrada próximo de seu filho, cujo túmulo já era destino de numerosas peregrinações, a ponto de toda aquela região ser chamada Rupertsberg (a Montanha de Ruperto). Durante as invasões normandas do século X os dois túmulos foram profanados. Na Guerra dos 30 Anos, seus restos foram transladados para Eibingen.
     Seu culto se conserva ainda hoje. Berta foi considerada beata desde os primeiros tempos e sua festa, junto com a de seu filho, é celebrada em 15 de maio.


São Ruperto



Postado neste blog em 14 de maio de 2012

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Beata Joana de Aveiro, Princesa e Dominicana - 12 de maio

     Esta princesa faleceu quando as cortes europeias eram grandes responsáveis pela expansão dos costumes renascentistas, enquanto dando prestígios aos intelectuais que lançavam as ideias da Renascença, aos juristas que plasmavam o Estado absolutista, e levando uma vida esplêndida, luxuosa, no meio das delícias, esquecidos do fim último de sua vocação de ser exemplo para as classes inferiores.
     Durante muito tempo esta princesa praticou a virtude da mortificação na própria corte, a ponto de tomar como emblema a coroa de espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sua atitude entrava em choque com todas as tendências da época e repercutiu, nesse período já adiantado da Renascença, como uma espécie de reminiscência da Idade Média.
     Também dentro do convento o modo como ela praticava as virtudes religiosas era um agir contra, pois as religiosas viviam de um modo muito relaxado naquele tempo. Era uma época de grande decadência das ordens religiosas.
     Décadas depois, a grande Santa Teresa de Jesus contava como viviam as carmelitas no tempo dela: recebiam visitas o dia inteiro; tinham guitarras, alaúdes e cantavam no claustro canções muitas das quais eram cantigas profanas; por qualquer motivo eram autorizadas a passar temporadas enormes na casa da família etc. Os conventos eram verdadeiros receptáculos de mundanismo.
     Esta Santa admirável é exemplo para todos os tempos de como devemos combater: de frente, com vigor e sem respeito humano.
* * *
     Após súplicas e orações prementes, pois ainda não havia herdeiro para o trono, nasceu Joana, a filha primogênita do rei D. Afonso V, décimo segundo rei de Portugal, e de sua esposa, Da. Isabel, no dia 6 de fevereiro de 1452, e foi jurada princesa herdeira do trono. Trocou esse título pelo de Infanta depois do nascimento de seu irmão, que foi o rei D. João II. A augusta menina cresceu como flores de altar, educada com grande esmero pela Princesa Dona Beatriz de Meneses.
     Sua mãe faleceu quando a princesa tinha 14 anos. Seu pai, D. Afonso, conhecendo o grande talento da filha, ordenou que nada se alterasse no governo da casa real, ficando a princesa substituindo sua falecida mãe. A beata soube aproveitar a nova situação para se entregar com mais liberdade à prática da penitência. Usava por debaixo das vestes reais uma túnica de tecido áspero juntamente com um cilício. Jejuava muitos dias a pão e água, particularmente às sextas-feiras, empregando vários meios para dissimular sua abstinência.
     De personalidade marcante, chegou a exercer temporariamente a regência do Reino. Enquanto viveu na corte, praticou as mais altas virtudes cristãs. Profundamente compassiva, procurava o quanto podia amenizar as misérias de seu próximo. Encarregara uma pessoa virtuosa de distribuir suas esmolas. Anotara num livro os nomes dos necessitados, o grau de pobreza de cada um e o dia em que a esmola lhes devia ser dada. Na Quinta-feira Santa, lavava os pés de doze mulheres pobres; despedia-as depois de lhes dar roupas novas e dinheiro.
A Beata antes de se tornar
religiosa
     Era tão formosa que, segundo afirma Frei Luís de Sousa, vieram pintores de outras nações para retratá-la. Joana recusou várias propostas de casamento, inclusive de Carlos VIII da França. Em 1485 recebeu também uma proposta de casamento do recém-viúvo Ricardo III, da Inglaterra, que era apenas oito meses mais novo que ela. Esta boda deveria ser parte de uma aliança que supunha ao mesmo tempo o da sobrinha daquele rei, Isabel de Iorque, com seu primo, o futuro D. Manuel I. No entanto, a morte de Ricardo em combate, do qual Joana teve um sonho profético, suspendeu esses planos.
     Joana aspirava ardentemente entrar para uma ordem religiosa, mas as dificuldades eram muitas. Teve que lutar contra as resistências de seu pai e de seu irmão, que preferiam que ela fizesse um casamento vantajoso.
     Em 1471, D. Afonso V tomou Arzila e ocupou Tanger, abandonada pelos mouros. A princesa Joana exerceu a regência enquanto seu pai ia à frente de uma esquadra conquistar aquelas cidades na África.
     Quando de seu retorno ao Reino, Joana, aproveitando o clima de euforia, disse-lhe que os monarcas da antiguidade costumavam oferecer sacrifícios aos deuses quando alcançavam qualquer vitória, que ele oferecesse também a Deus o sacrifício de sua única filha. D. Afonso não pode negar o que ela lhe pedia, consentindo que entrasse para um convento, apesar de os príncipes e as damas da corte acharem isto inconveniente.
     Depois de estar algum tempo no mosteiro de Oldivelas, partiu para o convento dominicano, em Aveiro, em 1475. Encerrou-se no Mosteiro de Jesus, da Ordem de São Domingos, em Aveiro, onde recebeu o hábito de noviça. Sua humildade e obediência foram tão grandes, que ninguém podia dizer que ali estava uma filha de rei.  Levou sua humildade até o ponto de lavar roupa, amassar pão, varrer o convento. Aprendeu a fiar e a tecer. Do linho preparado por ela se faziam os corporais para a igreja.
     Caindo gravemente enferma, o rei mandou que tirasse o hábito. Consultado o vigário geral dos Dominicanos em Portugal e vários teólogos, estes foram de parecer que ela não devia professar, por causa de seus poucos anos. Estando reunida a comunidade, a beata declarou à Priora que, por obediência, desistia da profissão. Tirou o hábito e o colocou sobre o altar. Algumas horas depois tornou a vesti-lo, dizendo que, dali para a frente, o traria por devoção. E que, embora não estivesse obrigada à Regra, cumpri-la-ia com todo o esmero.
     Em 1479, a peste assolou o país. Joana, obedecendo ao pai, rumou para o Alentejo, aonde a peste não chegara. Passados onze meses Joana voltou a Aveiro.
     Em 1481, faleceu D. Afonso, seu querido pai, a quem sucedeu seu irmão D. João II. Todos esses infortúnios a aproximavam cada vez mais de Deus; não havendo nada neste mundo que a prendesse, suspirava pelo céu.
     Trabalhou ainda esta princesa denodadamente pela conversão das almas, pois a preocupava muito a sorte dos pecadores. A sua obra predileta foi a redenção dos cativos da África. Sua breve vida foi um holocausto de amor e de sacrifício.
     Sua saúde começou a declinar em 1489, e em princípios de maio de 1490 reconheceu que sua morte estava próxima. Na madrugada do dia 12 de maio, a comunidade reuniu-se em torno de seu leito e rezou o Ofício da Agonia. À invocação Omnes Sancti Innocentes, orate pro ea, Joana abriu os olhos e ergueu-os para o Céu por um breve espaço de tempo; depois, expirou suavemente. Sua alma voou em companhia dos santos inocentes.
     Em seu túmulo ocorreram inúmeros milagres obtidos por sua intercessão; a memória de Joana foi sempre guardada em Aveiro.
     O Papa Inocêncio XII a beatificou, confirmando o seu culto, em 1693. D. Pedro II mandou construir um túmulo luxuoso depois da beatificação, para onde foram trasladados os seus santos despojos e onde ainda hoje se conservam.
     A 5 de janeiro de 1963, Paulo VI a declarou especial protetora da cidade de Aveiro. 

Postado neste blog 12 de maio de 2011


Beata Imelda Lambertini, Virgem, Padroeira da Primeira Comunhão e dos Primeiros Comungantes – 12 de maio


   Imelda Lambertini pertencia a uma nobre família da Bolonha, Itália. Nasceu provavelmente no ano de 1320. Era filha do Conde Egano Lambertini e de sua segunda esposa, Castora Galluzzi; no batismo a menina recebeu o nome de Maria Madalena.
     Seus pais eram muito piedosos e amavam sua filha mais do que tudo no mundo. Eles percebiam que embora a menina lhes devotasse também um grande afeto, não era feita para este mundo. Frequentemente sua mãe a encontrava ajoelhada em algum canto do palácio em profunda oração. Toda vez que as pessoas falavam de Deus seus olhos brilhavam. E seus pais notaram que várias vezes, quando se mencionava Jesus no Santíssimo Sacramento, sua face se tornava quase transparente. Ela desejava ardentemente fazer a Primeira Comunhão, mas ela não tinha ainda a idade exigida na época.
     Apesar de sua pouca idade, após insistência contínua dela junto à Madre superiora do convento próximo, esta chamou seus pais e lhes pediu permissão para que Imelda fosse admitida, pelo menos a título de experiência, já que o desejo ardente de ingressar no convento era já notório também para seus pais. Apesar de entristecidos, percebiam que Deus reservara algo de extraordinário para a pequena filha.
     Ela, então, ingressou no mosteiro das dominicanas de Santa Maria Madalena do Val di Pietra, onde hoje existe o convento dos capuchinhos, e deram-lhe o nome de Imelda. A comunidade era composta das Cônegas Regulares de Santo Agostinho, que no fim do século passaram para a Regra Dominicana.
     No convento, a pequena Imelda era como um peixe dentro d’água. Ela amava o silêncio, os longos corredores de pedra com seus belos arcos, os hábitos branco e preto das monjas, os cânticos, as orações, o trabalho. Mais do que tudo, ela amava o tabernáculo. Finalmente ela estava sob o mesmo teto com o seu Jesus. Sempre que os horários do mosteiro o permitiam, lá estava ela de joelhos no coro observando do alto a capela do convento, seus olhos fixos no tabernáculo.
     Na vida comunitária ela era como um raio de sol no meio de tantas irmãs adultas. Devido a sua tenra idade, a Reverenda Madre também não queria que Imelda participasse de todos os atos da comunidade.
     Dois anos se passaram.  Somente uma coisa a entristecia na sua vida no convento: ela ainda não tinha conseguido receber a Primeira Comunhão. Naquela época, as crianças não podiam receber a Primeira Comunhão com idade inferior a 12 anos. Quando ela via as irmãs comungando sua alma ardia de desejo de estar entre elas. Às vezes ela não conseguia conter suas lágrimas. Então, ela suplicava aos céus para terem misericórdia dela e encontrar uma maneira de fazê-la comungar.
     Na Vigília da Ascensão, dia 12 de maio de 1333, Imelda assistiu a Santa Missa na capela, junto com outras educandas e as Irmãs. Ao chegar a hora da Comunhão, ajoelhada, Imelda rezava com fervor desejando receber Jesus.
     No fim da Missa, quando as monjas saíram do coro em fila, a última virou-se para olhar a pequena figura branca ainda de joelhos em oração. Imelda normalmente permanecia mais tempo lá, sem se mexer e absorvida na oração. A comunidade, acostumada com este seu hábito, deixava-a ficar.
     Foi quase que automaticamente que uma irmã olhou para trás para dar uma olhada e para se encantar com aquela pequena maravilha de piedade Eucarística. A respeitosa irmã parou espantada, e ficou como que pregada ao solo. Lá estava a menina ajoelhada, com a cabeça baixa, como sempre, mas pairando sobre ela havia uma Hóstia branca, brilhando no meio de uma suave luminosidade.
     Avisada pela irmã, a comunidade toda se apressou em voltar para o coro e caiu de joelhos diante do incrível sinal. A Madre Superiora entendeu. Não havia dúvida que Nosso Senhor queria que aquela menina O recebesse. Ela chamou o capelão que rapidamente se aproximou com uma patena de ouro. Assim que ele chegou perto da menina ajoelhada, a Hóstia desceu sobre a patena.
     Neste momento, Imelda, que o tempo todo tinha permanecido com a cabeça baixa e os olhos fechados, vagarosamente levantou sua face radiante e abriu seus lábios. Tomando a Hóstia, o padre capelão deu-lhe a Comunhão. Ela abaixou a cabeça uma vez mais e permaneceu imóvel.
     Após um longo tempo, a Madre Superiora se aproximou dela. Tomando gentilmente Imelda pelos ombros, a boa monja tentou fazê-la erguer-se, mas Imelda caiu em seus braços. Sua face tinha uma expressão de inexprimível beleza.
     Imelda tinha dito certa vez, "Eu não sei como se pode receber Nosso Senhor e não morrer!" Agora, ela O tinha recebido e o seu primeiro encontro com Jesus Eucarístico fora demais para seu pequeno coração ardente. Ela se fora com Ele.
    Em 1582, as dominicanas se transferiram para o interior dos muros de Bolonha, obtendo da Cúria a transladação das relíquias da Beata, que hoje se encontram na igreja de São Segismundo. Desde então o seu nome foi inserido no catálogo dos Santos e Beatos da Igreja da Bolonha.
     Sob o pontificado de Bento XIV (1740-1758), que a recordou em uma obra sobre canonizações dos Servos de Deus, o culto da beata foi confirmado. Porém, a beatificação somente foi concretizada com o Papa Leão XII em 20 de dezembro de 1826. A canonização foi retomada em 1921 prosseguindo até 1942, quando foi paralisada por dificuldades de caráter histórico.
     As relíquias de Imelda repousam num belo relicário na Igreja de São Segismundo, em Bolonha. Na imagem que a representa, sua bela face é iluminada pelas luzes de um êxtase e parece dizer: "Meu Jesus, Ele é minha recompensa imensamente grande!"
     A pequena Imelda Lambertini é festejada no dia 12 de maio. Em 1908, São Pio X declarou-a patrona das crianças que fazem sua Primeira Comunhão. Naquele mesmo ano ele decretara que as crianças menores de 12 anos podiam ser recebidas à Primeira Comunhão.
     O culto à pequena Imelda se difundiu com a crescente devoção eucarística no mundo todo. É a patrona venerada dos Pequenos Devotos do Rosário e Benjamins da Ação Católica.
     Na França, o mosteiro de Prouilles fundou em sua honra uma Confraria, aprovada pelo Sumo Pontífice, e colocada sob a direção da Ordem Dominicana.
     Finalmente, o Servo de Deus Padre Joaquim Pio Lorgna (1870-1928), dominicano, colocou sob sua proteção a Congregação que fundou, as Irmãs Dominicanas da Beata Imelda, hoje presente na Itália, Brasil, Albânia, Filipinas, Camarões, Bolívia. 


Relicário que se encontra na Igreja de S. Sigismundo

Igreja de São Sigismundo, Bolonha, Itália
Etimologia: Imelda = do alemão antigo, Himilhilde: “guerreira (hilde) do céu (himil)” ou “guerreira celeste”.

Postado neste blog em 11 de maio de 2016

domingo, 10 de maio de 2020

Santa Estela (Eustella), Mártir – 11 de maio

     
     Esta Santa de origem francesa, chamada na França Estelle ou Eustelle, é venerada em Saintes (região histórica da França ocidental ao norte da Gironda, hoje compreendida no departamento de Charente-Maritime). Eustelle, ou Estela em português, foi por muito tempo a patrona das jovens cristãs.
     Eustelle é um nome de origem grega e significa "bem adornada (de virtudes)" (do grego "eu" = belo, bem, e "stello"= adornar, ornar, enfeitar); este nome era muito popular na região de Charentes, mas o poeta Frederico Mistral tomou a santa como patrona de seu movimento literário e latinizou seu nome para Estelle, que significa "estrela".
     Esta Santa somente vai aparecer na literatura cristã na Idade Média, em particular no Guia do peregrino de Santiago de Compostela, no trecho que fala sobre a vida de Santo Eutrópio, primeiro bispo de Saintes (venerado em 30 de abril). Na vida do mártir Santo Eutrópio, escrita em 1612 por um jesuíta anônimo, ela é apresentada como uma mártir.
     Estela viveu no século III; era filha do governador da região de Saintes, seu pai era um romano ilustre de nascimento; sua mãe era descendente de uma antiga e poderosa família de druidas. A curiosidade de seu espírito cultivado a colocou no caminho de Santo Eutrópio e foi por ele convertida ao Cristianismo. Depois de ouvir seus ensinamentos, ela pediu o batismo; foi batizada por ele e consagrada a Deus.  Quando o santo bispo sofreu o martírio mediante decapitação, Estela recolheu o seu corpo e o sepultou. Era uma obra piedosa que muitos cristãos praticavam para com seus mártires mesmo com o risco de serem aprisionados e mortos.
     Como a hagiografia áurea dos santos mártires narra de várias jovens e rapazes mártires dos primeiros séculos, também para Estela foi o pai, pagão, quem a fez morrer pouco tempo depois, ao que parece ela também decapitada. Seu corpo foi enterrado no túmulo de São Eutrópio. No local do seu martírio surgiu uma nascente d’água.                                      
Estela recebendo a bênção
 de Sto. Eutrópio
     Eis um extrato da obra de 1612: "Para aqueles que amam a virtude, não deixa de ser uma grande perda não ter as memórias das ações particulares de Santa Estela. Nós aí reconheceríamos sem dúvida o modelo de uma perfeita santidade, mesmo sem saber quanto tempo ela viveu e de que forma ela morreu. O antigo Breviário de Saintes dá a ela o título de Virgem e Mártir e coloca sua festa no dia 24 de maio; entretanto ele não diz nada além de sua morte, que se deu devido ao desprezo aos prazeres e às glórias do mundo; ela sofreu uma morte muito gloriosa e foi sepultada junto ao túmulo de Santo Eutrópio. Pode ser que seu pai, vendo que nem seus rogos nem suas ameaças podiam afastar a filha da Religião Cristã, e diante da promessa que ela havia feito a Deus de guardar inteira e sem desonra a flor de sua virgindade, ele ficou tão irritado, que se esquecendo de toda afeição natural, ensopou suas mãos no sangue inocente de sua santa filha, como fez Dióscoro, pai de Santa Bárbara, que cortou a cabeça de sua filha porque esta não quis seguir sua impiedade e renunciar a Jesus Cristo".
     Em 1655, ela foi declarada mártir nos documentos do priorado de Santo Eutrópio. Isto foi autenticado por Mons. Tomas, Bispo de Saintes, somente no século XIX.
     A sua festa se celebra em 11 de maio.
     Estela significa "luminosa como um astro" e, além da França, este nome é muito usado em toda Itália, especialmente na Sicília. Também são usadas as suas variantes femininas Estelita, Maristela, Estela Maria. Este nome afetivo em uso desde a Idade Média reflete sobretudo a devoção a Maria Santíssima, invocada como Maris Stella (Estela do Mar). No latim litúrgico há um belíssimo canto "Ave maris stella", onde Nossa Senhora, guia e fonte de salvação, é comparada à Estrela Polar, guia e referência para os navegantes.
 
Santa Estela no Vitral da Basílica de Santo Eutrópio, Saintes, França
Fontes: ww.santiebeati.it e Les Jeunes Saintes, par l'Abbé J. Knell, 1896
- Os Jovens Santos, do Padre J. Knell, 1896 / Aviso sobre St. Eustelle, Virgem e Mártir da Igreja dos Santos, pelo Padre Briand, 1837 / O Mistério de São Eustelle, drama em três atos, pelo cânone honorário L.-M. Dubois, imprimatur de 1922

Publicado neste blog em 10 de maio de 2014

sábado, 9 de maio de 2020

A terrível pandemia que Santa Teresinha enfrentou no Carmelo


     “A morte reinava em toda parte”: assim Santa Teresinha do Menino Jesus descreveu o terrível inverno de 1891 a 1892 no Carmelo de Lisieux, no curso do qual a comunidade não foi poupada pela epidemia de gripe russa, que fez mais de um milhão de vítimas por todo o mundo entre 1889 e 1895. A jovem carmelita se doou sem nada em troca perto de suas irmãs acamadas. A comunhão cotidiana, excepcional para a época, dava-lhe um grande apoio.
     No dia 2 de janeiro de 1892, Teresa festejou, com muita tristeza seus 19 anos. Admitida no Carmelo em 9 de abril de 1888, é agora religiosa professa, e é para ela um período de maturação de sua vocação. Em outubro de 1891, um retiro pregado pelo Abade Alexis Prou, que insiste sobre a misericórdia, a confiança e o abandono entre as mãos de Deus, a confirma dentro de suas intuições espirituais: “Ele me lança a pleno voo sobre as ondas da confiança e do amor que me atraíram tão forte, sobre as quais eu não ousava avançar”.
A gripe russa e a jovem carmelita
     A prova da pandemia veio, sem dúvidas, aprofundar o encaminhamento interior da Santa. A gripe dita russa, que uma primeira onda teria feito em torno de 70.000 mortos na França, em 1889-1890, chegou ao Carmelo de Lisieux em janeiro de 1892, um mês depois do falecimento de sua fundadora, Madre Geneviève de Sainte-Thérése. Ao fim de semanas, todas as irmãs foram atingidas, à exceção de três, entre elas, Teresa. Quatro religiosas morrem, o primeiro falecimento sobrevindo... no dia do aniversário de Teresa.
     A jovem carmelita permanece corajosa e devotada para com suas irmãs doentes. Ela prodigaliza os cuidados, participa na organização da vida comunitária, faz prova de coragem e de força de alma dentro da adversidade. A comunidade, que a julgava algumas vezes pouco útil e desajeitada, a descobre, dali em diante, de outra forma como chamaram atenção mais tarde os especialistas da Santa de Lisieux.
     Teresa recebeu igualmente a Santa Comunhão todos os dias: um fato excepcional para a época, pois a Igreja só se pronuncia de forma definitiva em favor da comunhão cotidiana em 1905, sob o Pontificado do Santo Pio X, ele mesmo, tocado pelos escritos da futura santa, nesse aspecto. É em Jesus Eucarístico que a jovem carmelita haure, provavelmente, suas forças para servir suas irmãs e superar suas apreensões, ainda que ela insista sobre ausência de “consolações” sensíveis durante a ação de graças que se segue à comunhão.
Deixemos Teresa contar, ela mesma, este inverno doloroso:
     “Um mês após a partida da nossa Santa Madre, a gripe se manifesta dentro da comunidade, eu estava só, de pé com duas outras irmãs, jamais poderei dizer tudo que vi, o que me pareceu a vida e tudo que se passou. O dia de meus 19 anos foi festejado por uma morte, logo seguida de duas outras. Nesta época eu estava só na Sacristia, a irmã primeira responsável pelo trabalho, estando muito doente, era eu que devia preparar os enterros, abrir as grades do coro para a missa etc.
     O Bom Deus me deu, de boa vontade, forças para esse momento, eu me pergunto agora como eu pude fazer sem medo tudo o que fiz; a morte reinava por toda parte, as mais doentes eram cuidadas por aquelas que mal se arrastavam, logo que uma irmã dava o último suspiro nós éramos obrigados a deixá-la só.
     Uma manhã, quando me levanto, tive o pressentimento de que irmã Madeleine estava morta; o dormitório estava escuro, ninguém tinha saído das celas, enfim me decidi a entrar na cela de minha irmã Madeleine, da qual a porta estava aberta; eu a vi, com efeito, vestida e deitada sobre sua rústica cama, eu não tive o mínimo medo. Vendo que ela não tinha mais vela, fui procurar uma para ela, assim como uma coroa de rosas.
     Na noite da morte da Madre Superiora, eu estava só com a enfermeira; é impossível se supor o triste estado da comunidade neste momento, aquelas que estavam de pé podem, sozinhas, dela fazer uma ideia, mas no meio deste abandono, eu sentia que o Bom Deus velava sobre nós.
     Era sem esforço que os agonizantes passavam para uma vida melhor, logo depois de suas mortes uma expressão de alegria e de paz se derramava sobre seus traços, nós diríamos um doce sono; isto era bem verdadeiro, porque depois que a aparência deste mundo tiver passado, elas acordarão para gozar eternamente das delícias reservadas aos eleitos.
     Todo o tempo que a comunidade foi desta forma provada, eu pude ter a inefável consolação de fazer todos os dias a Santa Comunhão…. Ah! como era doce! Jesus me mimou muito tempo, muito mais tempo que suas fiéis esposas, pois ele permitiu que me dessem-No sem que os outros tivessem a felicidade de recebe-Lo.
     Eu estava também feliz de tocar os vasos sagrados, de preparar as pequenas faixas destinadas a receber Jesus, eu sentia que devia ser bem fervorosa e me lembrava frequentemente desta palavra endereçada a um Santo Diácono: “Sejais Santo, vós que tocais os vasos do Senhor”.
     Eu não posso dizer que tenha frequentemente recebido consolações durante minhas ações de graças, é talvez o momento que eu as tive menos. Eu achei natural, uma vez que eu me ofereci a Jesus não como uma pessoa que deseja receber sua visita para sua própria consolação, mas ao contrário, para o prazer Dele que se doa a mim”.
(Manuscrito A, 79r-79v)


Fonte
Texto: Adélaïde Patrignani. Tradução: Inês Silvia Ramos, publicado em Comshalom

sexta-feira, 8 de maio de 2020

O MILAGRE DE POMPÉIA

SOB AS CINZAS DO VESÚVIO...

   Eram 11 horas da manhã do dia 24 de agosto do ano 79 d.C. Os 25 mil habitantes da cidade de Pompéia, ao sul de Nápoles, dedicavam-se aos seus afazeres quotidianos, ou a seus reprováveis vícios, quando se ouviu um estrondo aterrador. Do vulcão Vesúvio subia ao céu imensa coluna de fogo! Instantes depois sua cratera começou a expelir pedras incandescentes sobre a cidade. Uma chuva de cinzas, impregnada de vapores sulfúreos e de cloro, escureceu o céu. A população aterrorizada começou a esconder-se nas casas ou a fugir sem direção. Mas, era tarde demais: em pouco tempo Pompéia e mais quatro cidades, incluindo Herculano, ficaram sepultadas sob 10 metros de cinzas.
     Aos poucos se foi perdendo a memória da catástrofe e nos 1600 anos subsequentes ninguém ouviria falar da cidade. No início do século XVII, o arquiteto Fontana redescobriu Pompéia. Mas, só no final do século seguinte é que começariam os trabalhos arqueológicos sistemáticos - que continuam até hoje - para resgatá-la das cinzas. Foi possível reconstituir as casas, mobiliários e cenas da vida quotidiana da outrora brilhante cidade, bem como de alguns de seus abomináveis vícios.                                             

DE REVOLUCIONÁRIO À APÓSTOLO DO ROSÁRIO
     Nascido em 10 de fevereiro de 1841 em Latiano (Itália), Bartolo Longo, filho de um médico da província de Brindisi, recebera educação cristã no ginásio dos Padres Escolápios. Contudo, quando ingressou na Universidade de Nápoles para dedicar-se ao estudo do Direito, deixou-se contaminar pela mentalidade anticristã e anticlerical da época, ingressando aos 20 anos no movimento revolucionário de Garibaldi, Cavour e Vitor Emanuel, destinado a levar a cabo a unificação italiana, com a eliminação dos Estados Pontifícios e a supressão do poder temporal dos Papas.
  Envolveu-se fortemente com a prática do espiritualismo, satanismo e ocultismo, Bartolo fez tudo que esteve ao seu alcance para minar o Catolicismo. Isso o deixou com nada além de ansiedade e depressão, enviando-o para as profundezas escuras do desespero.
     No entanto, um respeitável professor de sua cidade natal, Vincenzo Pepe, viu nele a possibilidade de voltar a abraçar o catolicismo. Procurou então reconquistar sua amizade e, aos poucos, encaminhou-o ao frade dominicano, Padre Alberto Maria Radente, sob cuja influência Bartolo reencontrou a fé da infância, alcançando a conversão no dia do Sagrado Coração de Jesus de 1865. Entrou para a Ordem Terceira Dominicana e entregou-se a obras de caridade.
     Alguns anos depois conheceu a condessa de Fusco, Marianna Farnararo, viúva de muita fé, que o contratou como administrador de seu patrimônio, em particular dos terrenos no Vale de Pompéia, região que no século I teve sua população dizimada pela erupção do vulcão Vesúvio.
     Assim, em outubro de 1872, Bartolo dirigiu-se ao Vale de Pompéia, encontrando aí uma população afastada de qualquer experiência de fé. A miséria espiritual dos habitantes, quase todos trabalhando nas escavações, o impressionou. Deparou-se com uma realidade assustadora, muitos católicos haviam abandonado a fé, o prédio da igreja precisava de reparos urgentemente, a pobreza prevalecia e vários nativos pararam de ir à Missa aos domingos.
     Em uma das ocasiões em que recitava piedosamente o Rosário, Bartolo ouviu uma voz lhe dizendo: “Se queres te salvar, deves ocupar-te em difundir o culto do santo Rosário”. Ele não teve dúvida de que fora Nossa Senhora que lhe falara.
     E lembrou-se das palavras de Padre Alberto: “Se quiser se salvar propaga o rosário. É a promessa de Nossa Senhora”. A partir daí, tornou-se catequista e apóstolo daqueles operários, ensinando-lhes a rezar o Rosário.
 
Quadro Original
A PARTIR DO QUADRO, MULTIPLICAM-SE OS MILAGRES
     Bartolo e o Padre Radente, seu diretor espiritual, começaram a procurar uma imagem de Nossa Senhora do Rosário para a igreja paroquial. Certo dia uma religiosa apresentou uma pintura com a imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus no colo entregando o Rosário para São Domingos de Gusmão e Santa Rosa de Lima. Contudo, a imagem estava danificada. À falta de melhor, a estampa, enrolada num tecido ordinário, foi colocada sobre uma carroça carregada de lixo que se destinava a Pompéia.
     O bispo de Nola, Dom José Formisano, impressionado com a conversão do povo através do Rosário, incentivou a construção de uma nova igreja mais próxima do local. Com o dinheiro arrecadado para iniciar a obra mandaram restaurar e enquadrar a tela da Virgem, substituindo Santa Rosa de Lima por Santa Catarina de Sena, e expondo a imagem pela primeira vez no dia 13 de fevereiro de 1876. Desse dia até o dia 19 de março, oito milagres se realizaram diante da estampa, com repercussão em toda a Itália.
     Em 15 de Agosto de 1877 Bartolo lança o devocionário "I Quindici Sabati" (Os Quinze Sábados). A "devoção dos Quinze Sábados" consiste em prometer a Deus a oração por 15 sábados consecutivos, em memória dos 15 mistérios do Rosário, a fim de honrar a Santíssima Virgem e obter por sua mediação alguma graça especial.
     Tal como dois amigos, que se encontram constantemente, costumam configurar-se até mesmo nos hábitos, assim também nós, conversando familiarmente com Jesus e a Virgem, ao meditar os mistérios do Rosário, vivendo unidos uma mesma vida pela Comunhão, podemos vir a ser, por quanto possível à nossa pequenez, semelhantes a Eles, e aprender destes supremos modelos a vida humilde, pobre, escondida, paciente e perfeita.
Beato Bartolo Longo. Os Quinze Sábados do Santíssimo Rosário, 27.

     Ó Rosário bendito de Maria, doce cadeia que nos prende a Deus, vínculo de amor que nos une aos Anjos, torre de salvação contra os assaltos do inferno, porto seguro no naufrágio geral, não te deixaremos nunca mais. Serás o nosso conforto na hora da agonia. Seja para ti o último beijo da vida que se apaga. E a última palavra dos nossos lábios há de ser o vosso nome suave, ó Rainha do Rosário de Pompeia, ó nossa Mãe querida, ó Refúgio dos pecadores, ó Soberana consoladora dos tristes. Sede bendita em todo o lado, hoje e sempre, na terra e no céu. Amém.
Beato Bartolo Longo. Os Quinze Sábados do Santíssimo Rosário, 43.

     Desperta a tua confiança na Santíssima Virgem do Rosário... Deves ter a fé de Jó... Santa Mãe muito querida, eu deponho em Ti toda a minha aflição, toda a esperança e toda a confiança!
Beato Bartolo Longo. 11 de março de 1905.

     Bartolo viajou pela Europa pedindo donativos não só para a construção do novo santuário, mas para outras obras que planejava. Em 1884 fundou uma revista chamada "Il Rosario e la Nuova Pompei” (O Rosário e a Nova Pompéia), para o qual montou uma tipografia em que empregou meninos pobres da cidade. Visando prepará-los para a função, organizou uma escola de tipografia. Criou também um orfanato para os filhos e depois para as filhas dos encarcerados e para a formação destes, fundou a congregação das Filhas do Rosário de Pompéia da Ordem Terceira Dominicana.
     A devoção à Senhora do Rosário cresceu tanto que recebeu do Papa Leão XIII a honra da coroação solene. A nova igreja foi consagrada em 1891 e, em 1901, foi elevada à condição de Basílica. Hoje em dia é um dos santuários mais famosos da Itália.

APÓS A CRUZ DAS PERSEGUIÇÕES, O RECONHECIMENTO DO PAPA SANTO
O Beato aos 60 anos
     Como todos os verdadeiros servidores de Deus, Bartolo encontrou a ingratidão, o sofrimento e a perseguição. Acusaram-no perante o Papa Leão XIII de desviar os fundos obtidos para suas obras, e fizeram malévolas insinuações de suas relações com a condessa. O Pontífice os aconselhou a se casarem para fazer calar os maldizentes. Eles o fizeram, mas viveram como amigos durante toda a vida.
     Pouco mais tarde, o Papa São Pio X, mal informado, destituiu o casal da administração das obras de Pompeia, ao que ambos se submeteram humildemente. Numa visita a esse Pontífice, dois dias depois da destituição, o casal apresentou-lhe alguns meninos e meninas, filhos dos encarcerados, que eles educavam, dizendo que, daquele dia em diante eles seriam filhos do Papa. O Santo Pontífice percebeu que tinha sido vítima de falsas informações, e a partir de então não cessou de elogiar o desinteresse e a honestidade do casal.
     Bartolo resolveu retirar-se inteiramente do empreendimento para viver seus últimos anos no recolhimento e oração. A Condessa Marianna faleceu em 9 de fevereiro de 1924, aos 88 anos. Bartolo a seguiu pouco mais de dois depois, em 5 de outubro de 1926, aos 85 anos, em odor de santidade, venerado por todos. Bartolo Longo foi beatificado em 26 de outubro 1980, na Praça de São Pedro, em Roma.


                                                                         Condessa Marianna Farnararo