domingo, 7 de junho de 2020

Venerável Ana de Xainctonge, fundadora – 8 de junho



"... as Irmãs não carregarão grandes tochas que lançam um dia brilhante na Igreja, mas elas carregarão pequenas lâmpadas ... " (Ana de Xainctonge, a fundadora das Ursulinas)

     Fundadora da Sociedade das Irmãs de Santa Úrsula da Virgem Maria, nascida em Dijon, em 21 de novembro de 1567; faleceu em Dôle, em 8 de junho de 1621.
     Era filha de João de Xainctonge, advogado e conselheiro do Parlamento de Dijon, e de Margarida Collard, de nascimento nobre e vida virtuosa. Seu pai cuidou para que ela tivesse uma boa educação. Sua educação também foi muito prática. Ela e sua meia-irmã Nicole foram encarregadas dos cuidados do pátio de aves, da adega e do pomar.
     Aos dezessete anos, Ana apareceu na alta sociedade com toda a pompa de sua posição. Ela é descrita como vivaz e espirituosa. Quando um pretendente aceitável se apresentou, ela recusou a proposta e seus pais, relutantemente, deixaram que ela fizesse o que queria. A lição de catecismo de um jesuíta deu-lhe a ideia de ajudar na instrução. Ela reuniu os alunos com mais dificuldade e ajudou a prepará-los para a aula regular. Ela também visitava hospitais para cuidar e instruir os doentes.
     Perto de sua casa, havia uma escola jesuíta para meninos. Na missa em sua igreja ficava edificada ao ver os noviços recebendo a Comunhão. Vendo o bom trabalho realizado pelos Padres, teve a ideia de seu futuro trabalho: educar meninas. Ela considerou tal ocupação adequada para mulheres religiosas, que poderiam assim unir a vida ativa à vida contemplativa. Fundar uma ordem de mulheres não enclausuradas, abrir escolas gratuita para meninas, “onde a educação deveria ser dada, não vendida”, eram então novas ideias para as quais os preconceitos da época, bem como o amor cego de seus pais, eram profundamente opostos e Ana encontrou muita resistência.
     A educação das mulheres estava praticamente nas mãos das religiosas enclausuradas, enquanto ela pensava em um grupo de professoras que, enquanto professando os conselhos evangélicos, não estavam ligadas a nenhum voto religioso, muito menos à clausura, algo semelhante ao que Santa Ângela de Merici tinha feito na Itália.
     Em 1596, ela deixou Dijon para Dôle, uma cidade universitária sob influência espanhola. Lá, ela encontrou outras jovens interessadas em ensinar mulheres e meninas. Com a ajuda do céu, muitas vezes milagrosa, sob a orientação dos padres jesuítas de Villars e Gentil, ela superou todos os obstáculos e conseguiu realizar seu projeto.                                              
     Roma havia reafirmado recentemente que o claustro era a única forma aprovada de vida religiosa para as mulheres. No entanto, em 16 de junho de 1606, Ana com Claudine de Boisset e outra companheira, abriu o primeiro convento em Dôle, no Franche-Comté (então território espanhol), que mais tarde se tornaria a Sociedade das Irmãs de Santa Úrsula da Virgem Maria, em uma casa que anteriormente era um restaurante.
     A congregação foi fundada com “Nossa Senhora como general, Santa Úrsula como tenente” e a Regra de Santo Inácio como base da perfeição. Em lugar de um hábito religioso, ela e suas companheiras adotaram o vestido preto simples das viúvas espanholas em todos os lugares visíveis na região de Dôle, de modo a torná-las discretas nas ruas nas raras ocasiões em que precisavam sair de casa.
     Por quinze anos, Ana foi um modelo vivo de todas as virtudes religiosas, em relações frequentes e visíveis com seu anjo da guarda, fundando novas casas à medida que sua instituição se espalhava rapidamente no leste da França e na Suíça.
     Além da escola original, outras sete foram estabelecidas por Madre Ana de Xainctonge durante sua vida. Em 1619, uma comunidade foi estabelecida em Porrentruy, Suíça. São Francisco de Sales escreveu para ela expressando o desejo de que ela se estabelecesse em sua diocese, mas ela morreu em Dôle aos 53 anos, antes que isso acontecesse.
Veneração
     Após sua morte, sua reputação de santidade heroica e as graças obtidas por sua intercessão levaram a um processo de beatificação, mas as muitas guerras do período, seguidas de perto pela Revolução Francesa, destruíram todos os documentos. Algumas fontes acrescentam que a própria Madre de Xainctonge pediu que seus escritos pessoais fossem queimados após sua morte. Após a causa ser restabelecida, em 14 de maio de 1991 João Paulo II declarou as virtudes heroicas da Venerável Ana de Xainctonge.

Pintura mostrando Ana de Xainctonge c. 1687

BINET, La Vie . . . d’Anne de Xainctonge (1635); ORSET, La vie de la Vénérable et dévote A. de X.; (1691); ARNOULX, Vie de la Vén. A. De X. (1755); MOREY, La Vén. A. de X. (1892).
MOTHER HÉLÈNE MARIE (Catholic Encyclopedia)


sábado, 6 de junho de 2020

Irmã Josefa Menendez e as Mensagens do Coração de Jesus

  
   Irmã Josefa Menendez (1890-1923) recebeu mensagens de Jesus no convento da Sociedade do Sagrado Coração de Jesús en Les Feuillants, em Poitiers, França, entre 1920 e 1923. O então Cardeal Eugênio Pacelli, depois Papa Pio XII, aprovou a sua divulgação.

25/8/1920: “Abandone-se em minhas Mãos. Não me importa sua pequenez ou sua fraqueza. Eu peço é que me ame e ofereça tudo para consolar meu Coração. Quero que saiba o quanto te amo e que tesouros meu amor te reserva. Quero que descanse sem medo em meu Coração. Olhe-o e verá que esse fogo é capaz de consumir tudo o que você tem de imperfeito. Abandone-se ao meu Coração e não pense mais do que em me dar gosto. Quero que me ofereça tudo, até a mais pequena dor, para compensar a dor que me causam as ofensas das almas”.

19/11/1920: “Um só ato de amor, quando você se sente desamparada, repara muitas ingratidões de outras almas. Meu Coração as conta e as recolhe como bálsamo precioso”.
     “Creiam na minha misericórdia; esperem tudo da minha bondade e não duvidem do meu perdão. Sou Deus, mas Deus de amor! Sou Pai, mas Pai que ama com ternura e não com severidade”.

     Não há como ler estas palavras e não sentir-se comovido, não é mesmo? Esta são apenas algumas frases das longas revelações de Jesus Cristo à Irmã Josefa Menendez, uma religiosa espanhola que viveu no início do século passado e teve sua vida dedicada à divulgação das mensagens de amor do Sagrado Coração de Jesus ao mundo.
     Josefa Menendez nasceu em Madrid, em 4 de fevereiro de 1890. Ainda muito jovem entrou para a Sociedade do Sagrado Coração, na França, onde muito cedo foi objeto das revelações do Divino Mestre. Teve uma vida breve, faleceu em 1923, aos 33 anos de idade. E em 30 de novembro de 1948, foi iniciado seu processo de beatificação.
     Dez anos antes de se instaurar o processo, o Cardeal Eugênio Pacelli, futuro Papa Pio XII, deu a conhecer ao mundo um livro escrito pela Irmã Josefa, intitulado “Apelo ao Amor”, que relatava as experiências místicas da religiosa durante sua breve vida.
     Nas revelações, encontramos em palavras pungentes a manifestação do amor infinito e aparentemente incompreensível de Deus que se entregou por nós.
     Além das mensagens do Sagrado Coração, Josefa Menendez teve também revelações sobre o Inferno, que Deus permitiu para nosso conhecimento e reflexão. É tão terrível a experiência desta alma privilegiada, mas ela sofreu para a salvação das almas, segundo vontade do Divino Redentor. 
     Lembremo-nos que Nossa Senhora em Fátima insistia sempre com as três crianças – Jacinta, Francisco e Lúcia – para que rezassem pelos pecadores. E a pequena Jacinta fazia muitos sacrifícios, extraordinários para sua idade, pelos pecadores. Mas é preciso que eles se convertam... Senão as orações destas almas santas serão inúteis!
     É bom lembra que, assim como Deus atormenta no Inferno os precitos, Ele acaricia no Céu e inebria de carícias os seus eleitos; Ele fala aos seus eleitos e lhes diz coisas, e mostra de Si coisas que os deixariam ébrios de alegria, se no Céu pudesse haver ebriedade. É o afago contínuo, é a palavra de bem-aventurança, de afeto, a carícia incessante, sempre igual e sempre diversa, e que nunca termina. Ele disse de Si mesmo: "Eu serei eu mesmo a vossa recompensa demasiadamente grande".
Nossa Senhora vem consolar Irmã Josefa
    Quando a tristeza e a angústia tinham tomado conta de seu coração, Josefa teve um encontro único com ninguém menos que Nossa Senhora...
     A festa da Assunção de Nossa Senhora, quarta-feira, 15 de agosto de 1923, abre parênteses luminosos no meio das lutas cotidianas. É nesga (faixa) de Céu azul, no meio das nuvens que tentam encobri-lo. 
     Na tarde daquele dia glorioso, Maria Santíssima aparece à filha no esplendor da sua beleza. Escuta maternalmente tudo o que ela lhe confia a respeito das atribulações presentes, das apreensões sobre o futuro e, principalmente, da sua fraqueza e da sua miséria.
     “Filha – diz-lhe imediatamente – tua fraqueza não te deve desanimar, confessa-a humildemente, mas não percas a confiança, pois não podes mais duvidar que foi por causa de tua miséria e da tua indignidade que Jesus fitou em ti o Olhar. Muita humildade, mas muita confiança”. 
     E aludindo às perseguições redobradas do demônio: “Não receies, ele só pode multiplicar ocasiões de grande merecimento para tua alma. Eu te defendo e Jesus nunca te abandona”.
     Então, afastando de si mesma o pensamento, Josefa não pensa senão na alegria da Mãe Imaculada, cuja entrada no Céu o mundo inteiro celebra.
     Maria parece estremecer diante da evocação da ventura que, para Ela, é um eterno presente. Inclina-se sobre a filha e, abrindo-lhe o Coração, traça diante de Josefa o itinerário que a conduziu, das sombras e dores da terra à claridade do Dia sem fim.     

Via Sacra - Irmã Josefa Menéndez
Ensinada pelo Divino Mestre à Irmã Josefa Menendez

I ESTAÇÃO   [Jesus é condenado à morte]
     Almas, que procurais imitar Minha conduta, aprendei a guardar o silêncio e a serenidade diante do que vos mortifica e contraria.
     E beijando o chão: Sangue divino do meu Redentor, adoro-vos com grande respeito e grande amor para reparar os ultrajes que recebestes das almas.

II ESTAÇÃO [Jesus leva a Cruz às costas]
     Almas que amais, comparai o vosso sofrimento e amor que me tendes e não deixeis que o desânimo apague a chama deste amor.
     E beijando o chão: Sangue divino do meu Redentor, adoro-vos com grande respeito e grande amor para reparar os ultrajes que recebestes das almas.

III ESTAÇÃO [Jesus cai pela primeira vez]
     Almas que chamei para partilhar o peso da minha cruz, vede se vosso zelo pelas almas vos dá nova vida para prosseguir no caminho da abnegação e da renúncia, ou se vosso amor próprio, excessivo, abate vossas forças e não vos deixa suportar o peso da cruz.
     E beijando o chão: Sangue divino do meu Redentor, adoro-vos com grande respeito e grande amor para reparar os ultrajes que recebestes das almas.

IV ESTAÇÃO [Encontro de Jesus com sua Mãe]
     Almas que caminhais pela mesma senda e tendes o mesmo ideal, que a vista de Nossos mútuos sofrimentos vos anime e vos fortaleça para que o amor triunfe. Que a união na dor vos sustente e vos faça abraçar generosamente os espinhos do caminho.
     E beijando o chão: Sangue divino do meu Redentor, adoro-vos com grande respeito e grande amor para reparar os ultrajes que recebestes das almas.

V ESTAÇÃO [Jesus ajudado pelo Cirineu a levar a Cruz]
     Olhai como Cirineu aceita essa carga penosa e cruel. Olhai também como Meu corpo vai perdendo as forças...
     E beijando o chão: Sangue divino do meu Redentor, adoro-vos com grande respeito e grande amor para reparar os ultrajes que recebestes das almas.

V ESTAÇÃO [A Verônica enxuga o rosto de Jesus]
     Ah! vós que haveis abandonado o mundo e o que mais amáveis, não deixeis que agora um ligeiro temor de perder a reputação ou a fama, vos impeça de enxugar meu rosto com atos de generosidade e de amor. Vede como o Sangue o cobre!
     E beijando o chão: Sangue divino do meu Redentor, adoro-vos com grande respeito e grande amor para reparar os ultrajes que recebestes das almas.

VI ESTAÇÃO [Jesus cai pela segunda vez]
     Não desanimeis, almas que caminhais após Mim, se em vossa vida sem consolo humano e cheia de aridez vos virdes abandonadas de todo consolo espiritual, reanimai-vos à vista de vosso Modelo no caminho do Calvário. Vede que é pela segunda vez que cai, porém se levanta e segue seu caminho até o fim. Se quiserdes tomar um pouco de força, vinde e beijai-Lhe os pés.
     E beijando o chão: Sangue divino do meu Redentor, adoro-vos com grande respeito e grande amor para reparar os ultrajes que recebestes das almas.

VIII ESTAÇÃO [Jesus consola as filhas de Jerusalém]
     As mulheres de Jerusalém choram ao ver-Me em tal estado de ignomínia. O mundo chora diante do sofrimento, porém Eu vos digo, almas que Me seguis pelo caminho estreito, que mais tarde o mundo vos verá andar por vastos prados floridos, ao passo que ele e os seus caminharão sobre o fogo que eles mesmos prepararam para si com os seus gozos.
     E beijando o chão: Sangue divino do meu Redentor, adoro-vos com grande respeito e grande amor para reparar os ultrajes que recebestes das almas.

IX ESTAÇÃO [Jesus cai pela terceira vez]
     Almas que desejais imitar-me, não recuseis nunca um ato que vos custe, ainda que vos produza novas feridas! Que importa! Esse sangue dará vida a uma alma... Imitai o vosso Modelo que se adianta até o Calvário.
     E beijando o chão: Sangue divino do meu Redentor, adoro-vos com grande respeito e grande amor para reparar os ultrajes que recebestes das almas.

X ESTAÇÃO [Jesus despojado de suas vestes]
     Deixai-vos despojar de tudo que possuis, seja de vossos bens ou de vossa vontade própria. Em troca, Eu vos cobrirei com a túnica da pureza e com os tesouros do meu próprio coração.
     E beijando o chão: Sangue divino do meu Redentor, adoro-vos com grande respeito e grande amor para reparar os ultrajes que recebestes das almas.

XI ESTAÇÃO [Jesus pregado na Cruz]
     Vós que estais pregados na cruz da vida religiosa e presos a ela pelos vossos votos, que são os pregos do amor, não vos queixeis, não murmureis quando estes cravos benditos vos rasgarem as mãos e os pés. Vinde e beijai os meus! Aqui encontrareis força.
     E beijando o chão: Sangue divino do meu Redentor, adoro-vos com grande respeito e grande amor para reparar os ultrajes que recebestes das almas.
XII ESTAÇÃO [Jesus morre na Cruz]
     Almas que tivestes a cruz por companheira inseparável durante a vossa vida, ficai certas de que em seus braços exalareis vosso último suspiro, e ficai certas também de que ela será o por onde entrareis na vida. Abraçai-a com ternura e amai-a como maior de vossos tesouros.
     E beijando o chão: Sangue divino do meu Redentor, adoro-vos com grande respeito e grande amor para reparar os ultrajes que recebestes das almas.

XIII ESTAÇÃO [Jesus descido da Cruz]
     Almas escolhidas e chamadas para serem esposas e vítimas, vinde! Tomai meu corpo e embalsamai-o com o aroma de vossas virtudes! Adorai suas chagas! Beijai-as e deixai que as lágrimas caiam sobre meu rosto... Depois colocai-me no sepulcro de vossos corações!
     Eterno Pai, recebei o Sangue divino, que Jesus Cristo, Vosso Filho, derramou na Sua Paixão. Por suas chagas, por sua cabeça transpassada pelos espinhos, por seu Coração, por seus méritos divinos, perdoai as alma e salvai-as.

XIV ESTAÇÃO [Jesus posto no sepulcro]
     Olhai com que delicadeza me põem no sepulcro. É novo e, portanto, limpo da mais ligeira mancha.
     Eterno Pai, recebei o Sangue divino, que Jesus Cristo, Vosso Filho, derramou na Sua Paixão. Por suas chagas, por sua cabeça transpassada pelos espinhos, por seu Coração, por seus méritos divinos, perdoai as almas e salvai-as.
     Agora, Josefa, adora minhas chagas, beija-as e reza o “Miserere”.

Fontes: Apelo ao Amor de Josefa Menendez

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Santa Blandina e companheiros, Mártires de Lyon - 2 de junho

     

     O Martirológio Romano recorda no dia 2 de junho um grupo de 48 mártires mortos mais ou menos ao mesmo tempo em ódio à fé cristã, seja em Lyon ou em Vienne, mas que são chamados normalmente de Mártires de Lyon.
     Seu glorioso martírio é narrado por testemunhas da época, absolutamente confiáveis; a história completa está contida em uma carta que a Igreja da Gália enviou, logo após os eventos, à Igreja de Smyrna, aos cristãos da Ásia e da Frígia, e que o historiador Eusébio de Cesareia incluiu integralmente em sua "História Eclesiástica", que chegou assim até nós.
     O referido grupo é liderado por São Potino, Bispo nonagenário, e o segundo nome é o de Blandina, que era uma escrava cristã que foi presa juntamente com sua senhora. Blandina era originária da Ásia Menor, mais especificamente a região central da atual Turquia. Apesar dos temores que os outros cristãos alimentavam com relação à sua fidelidade na fé, ela mostrou uma firmeza bastante extraordinária ao enfrentar o martírio, em que não lhe foi poupada a crueldade.
     O povo na região de Gaul nunca tinha visto tal coragem. O povo acompanhou de perto o grito vitorioso da jovem escrava mesmo no meio de sua dor e sofrimento: “Eu sou uma cristã e não há nada que me faça voltar atrás”. Mesmo que a multidão detestasse os cristãos, tiveram que admitir que nunca uma mulher resistiu a tanto sofrimento e torturas terríveis.
     Era o ano 177 em Lyon, Gaul (França). O cristianismo tinha vindo primeiramente a Lyon há 25 anos pelo apostolado de São Policarpo de Smyrna (Turquia) que tinha enviado Potino como missionário a Gaul. Potino tinha estabelecido diligentemente a Igreja de Cristo em Lyon e em Vienne. Enquanto a Igreja cresceu, a resistência espiritual começou a se manifestar, e a perseguição aos cristãos começou.
     Os cristãos foram excluídos dos negócios e de suas casas. Passaram por todos os tipos do humilhações e de ferimentos. O povo tinha autorização para bater, apedrejar e roubar os cristãos. Quando os fiéis eram presos e examinados pelas autoridades da cidade, confessavam corajosamente sua aliança com Cristo.
     Ansiosos demais para esperar a chegada do juiz à região, alguns dos moradores da região planejaram toda sorte de falsas acusações aos cristãos tais como canibalismo, incesto, e outras práticas demoníacas.
     Era um feriado para comemorar o dia da grandiosidade de Roma e do imperador; o juiz esperou mostrar seu patriotismo patrocinando o lazer para a cidade inteira. Era caro empregar gladiadores, lutadores e arqueiros. Seria muito mais barato torturar estes cristãos como parte do lazer do feriado!
     Os cristãos foram confinados na parte mais escura e mais terrível da prisão; muitos deles morreram sufocados. Alguns foram e acorrentados em uma grade sobre carvões ardentes. Um exemplo deste instrumento de tortura pode ser visto ainda hoje no museu de arqueologia em Lyon.
     Parecia impossível que alguém pudesse viver sendo torturado tão cruelmente, contudo o ungido do Senhor, Potino exortava e incentivava a fé dos prisioneiros. São Potino, após completar 92 anos em Lyon, morreu na prisão dois dias após sua tortura.
Anfiteatro Trois Gaules
     Sanctus, um diácono de Vienne esteve firme em sua fé, mesmo depois que as placas quentes foram prensadas às partes mais macias de seu corpo. Era “um exemplo para os outros, mostrando que nada é temível onde está o amor do Pai, e nada é doloroso onde há a Glória de Cristo”.
     Após ter resistido à tortura, alguns dos cristãos foram levados a um campo onde as bestas selvagens os devoravam para “lazer” da multidão. Entre o grupo estava a jovem escrava Blandina, que já tinha resistido a torturas e crueldades inimagináveis.
     Ela foi conduzida inicialmente ao anfiteatro Trois Gaules, que ainda existe na cidade de Lyon, França, e foi pendurada em um poste em forma de cruz; ela rezou em voz alta e as feras não a atacaram. Quando a olharam lembraram de Cristo que havia sido crucificado por eles e todos os que sofressem para a glória de Cristo. Nenhuma das bestas havia tocado em Blandina. Os cristãos acreditavam que Deus a tinha preservado para outras lutas, para que sua vitória sobre as forças espirituais do mal fosse ainda maior.
     No último dia das competições, Blandina foi trazida outra vez com Pontico, um menino de aproximadamente 15 anos. Eles eram trazidos para testemunhar os sofrimentos de outros, para impressionados negar sua fé e jurar por ídolos. Pontico morreu primeiro não negando sua fé, e Blandina permaneceu firme. Ela foi muito inspirada por uma visão que o viu ir antes dela a Jesus. Agora estava pronta.
     Ficando sozinha, caiu sobre ela a ferocidade pagã: desnuda e coberta com uma rede foi exposta às vaias dos espectadores e à fúria de um touro, que a golpeou com os chifres, jogou-a para o ar várias vezes e, finalmente, foi morta pela espada. Os pagãos mesmos declararam que jamais uma mulher sofrera tantos e tão duros tormentos. Ela enfrentou sua morte regozijando como se sendo chamada a uma festa das bestas selvagens.
     Depois que os corpos das vítimas foram expostos por seis dias, foram queimados e as cinzas jogadas no rio de Rhone. Os corpos daqueles que tinham sido sufocados na prisão foram jogados para os cães, e guardas foram enviados para impedir que os cristãos restantes os enterrassem; o que os pagãos não conseguiram foi matar a esperança da ressurreição para os cristãos.
     Santa Blandina, escrava na vida, mas mártir heroica e gloriosa na morte, é representada na arte, ao longo dos séculos, com os atributos de seu suplício: a rede, o touro, a grelha e o leão. Blandina é a santa padroeira da cidade de Lyon. É também, com Santa Marta, padroeira das empregadas. Ela é comemorada dia 2 de junho junto com os outros mártires de Lyon.
* * *
     Essa jovem escrava foi dos primeiros mártires de nosso belo país - no anfiteatro de Trois Gaules, em 177. A história do Cristianismo na Gália é muito mais antiga, mas esse martírio é o primeiro que a história reteve.
     Costumo pensar na desproporção entre a fragilidade dessa pequena escrava e os frutos que ela produziu: acho que essa jovem "que não era nada", foi uma entre aqueles que derrubaram o todo-poderoso império pagão de Roma. Sobre as ruínas deste grande império, nasceu a França, que se tornaria, alguns séculos depois, a primeira nação batizada na fé do Concílio de Nicéia. Se falo de Santa Blandina, não é apenas por piedade filial, mas também porque o martírio dela é uma grande lição "política".
     Estamos tão gangrenados pela mitologia democrática que faz com que tudo dependa (até a própria verdade!) do número, e facilmente tendemos a acreditar que a pequena minoria de católicos praticantes, que somos agora na França, não pode fazer nada. Olhemos para Santa Blandina e veremos que isso é perfeitamente falso. Sim, somos muito fracos. Mas, se Cristo realmente reina sobre nós, podemos derrubar o Moloch pós-moderno, como a pequena Santa de Lyon derrubou o Moloch antigo.
Guillaume de Thieulloy, directeur du Salon beige
Nossa Senhora de Fourvière, Lyon
 
Bairro Croix Rousse, Lyon
Etimologia: Blandina, diminutivo de Blanda, do latim Blandus = branda, suave, meiga.

Fontes:
Bibliografia: Acta SS., junho, I, 161 sqq.; ALLARD, Histoire des persécutions 
(Paris, 1892), I, 397 ss.
Fontes: Kirsch, Johann Peter. "St. Blandina". A Enciclopédia Católica. Vol. 2. Nova Iorque: Robert Appleton Company, 1907. 22 de dezembro. 2012


terça-feira, 2 de junho de 2020

Santas e seus colóquios com o Sagrado Coração de Jesus


     Santo Agostinho (+430), Padre e Doutor da Igreja, um dia escreveu que São João, que deitou a cabeça sobre o peito de Cristo durante a última ceia, bebeu os “segredos sublimes das profundidades mais íntimas do Coração de Nosso Senhor”.
     Este mês é fundamental para essa devoção, porque muitos eventos importantes aconteceram em um mês de junho.
    Estima-se que entre junho e julho de 1674, Nosso Senhor Jesus Cristo apareceu para Santa Margarida de Alacoque pedindo que ela promovesse a devoção, pedindo para instruir os fiéis sobre um amor de expiação por meio da comunhão frequente, especialmente a comunhão de toda primeira sexta-feira do mês, e a prática da Hora Santa.
     Na oitava de Corpus Christi de 1675, provavelmente em 16 de junho, Jesus disse a santa: "Olhe o Coração que tanto amou os homens. De muitos deles eu não recebo nada, mas ingratidão”.
     Ele também pediu a ela para realizar uma festa na sexta-feira após a oitava de Corpus Christi, com a permissão do superior. Desde então os jesuítas tomaram conta desta devoção e a espalharam pela França e Inglaterra.
     Foi o Papa Pio IX que depois de constatar a veracidade das aparições e a pedido de seus bispos, fez a festa ao Sagrado Coração de Jesus passar de uma celebração em Roma e na Polônia, para uma celebrada por toda a Igreja. Ele também consagrou toda a Igreja ao Sagrado Coração em 16 de junho de 1875.
     Em 11 de junho de 1899, por ordem do Papa Leão XIII, toda a humanidade foi solenemente consagrada ao Sagrado Coração. Este foi considerado como "o grande evento" de seu pontificado.
     No dia 22 deste mês de 1902 a Colômbia foi consagrada a Ele. Em junho de 1878 uma procissão em Sua honra foi realizada no Peru, que ainda é feita até hoje. Além disso, em junho de 1932 foi colocado no escudo nacional da Espanha.
     Santa Margarida Maria Alacoque recebeu as 12 famosas promessas do Sagrado Coração de Jesus, mas Ele também se manifestou a outras santas ao longo da História.

Santa Lutgarda da Bélgica (1182-1246)
     Pouco mais de 400 anos antes de Santa Margarida ter as visões, Santa Lutgarda teve um encontro sem precedentes com o Sagrado Coração de Jesus. Ele se apresentou e perguntou o que ela desejava: "Eu quero o vosso coração", ela respondeu. E ele disse: "Eu quero o seu coração". Naquele momento houve uma troca de corações entre a santa e o próprio Cristo.

Santa Gertrudes, o Grande (1256-1302) 
     Santa Gertrudes, a Grande foi uma das grandes difusoras da devoção ao Coração de Jesus. Ela teve uma visão do Sagrado Coração de Jesus 371 anos antes de Santa Margarida, enquanto a festa de São João Evangelista era celebrada.
     Nesta aparição, o mesmo amado discípulo a levou a Jesus e ela pode repousou sua cabeça sobre a chaga do lado do Senhor e escutou o Divino Coração palpitar. Depois, perguntou a São João por que ele não relatou em seu Evangelho como o Coração de Cristo é ouvido, e o Apóstolo lhe respondeu que esta revelação estava reservada para outros tempos, quando o mundo precise ser reavivado no amor.

Santa Ângela de Foligno (1249-1309)
     Jesus distinguiu-a com aparições e fê-la participar da cruz. Contam seus escritos que ela chegava a sentir todo o flagelo da Paixão de Cristo nos ossos e juntas do próprio corpo. Grandes eram os seus sofrimentos corporais e espirituais; de todos o maior era uma contínua perseguição diabólica.
     Esta Santa teve um evento místico quando ela estava contemplando a cruz. Ela sentiu uma queimadura muito forte em seu peito que a levou a amar o Sagrado Coração de Jesus. Ela sentiu como se o Salvador a abraçasse em sua alma e a colocasse em seu coração.
     "Não dormia. Ele chamou-me e disse-me que aplicasse os meus lábios sobre a ferida do seu lado. Pareceu-me que aplicava os meus lábios, e que bebia sangue, e neste sangue ainda quente eu compreendi que ficava lavada. Eu senti pela primeira vez uma grande consolação, misturada uma grande tristeza, porque tinha a Paixão diante dos meus olhos. E solicitei do Senhor a graça de derramar o meu sangue por Ele como Ele tinha derramado o seu para mim".
     Apesar de nunca ter feito estudos teológicos, Ângela foi homenageada como “mestra de teólogos”. A sua sabedoria não era fruto de estudos, mas apenas de inspiração divina.

Santa Catarina de Siena (1347-1380)                                                
     Santa Catarina confiou a seu confessor que, durante uma visão, Jesus lhe havia mostrado longamente a chaga do seu lado, “assim como a mãe apresenta o seio ao filho recém-nascido”. E como ardesse em desejo de beijá-la, ele tomou-a nos braços e aplicou seus lábios contra a santa chaga. “Penetrou minh’alma então naquele abrigo sagrado. Conheci tantas coisas concernentes à natureza divina, que não compreendo como posso continuar a viver, sem que meu coração se dissolva de amor”. E a jovem suspirava, como a Sulamita do Cântico dos Cânticos: “Senhor, feriste meu coração; Senhor, feriste meu coração!” 
     Pouco depois, no dia 20 de julho, “estando, depois da missa, na Cappella delle Volte”, conta-nos Frei Tomas, “viu, repentinamente, o Senhor diante dela, segurando entre as mãos um coração rubro e resplandecente que depôs no seu lado esquerdo, dizendo-lhe: “Filha muito amada, da mesma forma que noutro dia retirei teu coração, dou-te hoje o meu em troca”.
     Desde então, Catarina murmurava em suas preces: “Senhor, eu te recomendo teu coração”, em vez de eu te recomendo meu coração. Numerosas amigas puderam verificar a presença de uma cicatriz, no local exato donde fora ele retirado.

Santa Veronica Giuliani (1660-1727)
     Contemporânea de Santa Margarida, ele teve encontros místicos com Cristo.
     Esta santa nos ensina que a resignação nos padecimentos é um dos maiores meios de agradar e unir-se ao Coração de Jesus. Depois de haver padecido grandes angústias, ela recebeu a visita do Salvador, estava Ele todo coberto de chagas, mas ao mesmo tempo, todo resplandecente, porque de cada uma de suas chagas, especialmente das dos pés e das mãos, saiam raios de luz. Na de seu Lado Sagrado havia um diamante magnífico que Ele contemplava com grande complacência, e como ela desejava vivamente saber o que significava este ornamento, Jesus, compreendendo seu desejo, dizia-lhe: “Reconhecestes este precioso diamante?”
     Respondeu ela: “Não, Senhor, mas penso que alguma alma fiel Vos fez presente dele, sofrendo por vosso amor, porque não posso duvidar que esta joia tenha sido tirada do tesouro dos padecimentos”.
     Tornou então Jesus: “Sabe que é o fruto do contentamento que me fez experimentar tua resignação durante os dias de provação que te visitei; cada ato de aceitação, cada ato de abandono à minha vontade na hora do padecimento, vinha ornar e polir, sobre meu Coração, esta joia que considero agora com tanto prazer”.
     E dizendo isto, inflamou a santa com tão grande desejo de sofrer, que ela exclamou: “Ó meu Deus, sacrificai-me sobre o altar de vossa cruz, eu me ofereço a vos como vítima”.
     Uma união intima operou-se desde então entre seu coração e o Coração de Jesus, e ela não quis mais outro tesouro que os desprezos e humilhações. Ela dizia: “Ó pecadores, ó pecadores!... Todos e todos venham para o Coração de Jesus, venham lavar o seu coração em seu precioso sangue. Ele espera por vocês de braços abertos para abraçá-los!”

Venerável Maria Consolata Betrone (1903-1946)                                       
     A Venerável Consolata Betrone, religiosa capuchinha italiana, foi escolhida por Deus para confirmar ao mundo a doutrina do caminho de infância espiritual já ensinado por Santa Teresinha do Menino Jesus, dando-lhe agora uma forma concreta e fácil de ser praticada por todos.
     Ela passou a responder pelo nome de Consolata, em homenagem à Padroeira de sua cidade (Turin), Nossa Senhora da Consolação, cujo significado é consolar, ou seja, ela seria a Consoladora do Coração de Jesus.
     No decorrer de sua vida, em uma das aparições a ela, Nosso Senhor enaltece sua confiança: “Sabes o que Me atrai para a tua alma? É a confiança cega que tens em Mim”.
     “Não façais de Mim um Deus rigoroso, pois Eu não sou senão um Deus de amor!”, ensinou Ele para Consolata Betrone. Com essa frase repassada a ela, Nosso Senhor quer dizer que o coração do homem deve estar unido a Ele. Não ter uma vida de subordinação, mas de intimidade com Ele.

Soror Josefa Menendez (1890-1923)
     Cerca de 200 anos após as visões de Santa Margarida, esta Serva de Deus teve conversas com Cristo onde Ele lhe pediu para levar suas palavras e seu amor pelo mundo.
     "É por isso que Meu coração está ferido, pois eu acho a frieza em vez do amor. Eu sou todo amor e não desejo nada além de amor. Ah! Se as almas soubessem como as espero cheio de misericórdia! Sou o Amor dos amores! E não posso descansar senão perdoando!”
     “Enquanto tiver o homem um sopro de vida, poderá ainda recorrer à misericórdia e implorar perdão. Vosso Deus não consentirá que vossa alma seja presa do inferno”.
     “Estou sempre esperando com amor que as almas venham a Mim! Não desanimem! Venham! Atirem-se nos meus braços! Não tenham medo! Sou seu Pai!”. 
     Além das mensagens do Sagrado Coração, Josefa Menendez teve também revelações sobre o Inferno, que Deus permitiu para nosso conhecimento e reflexão. É tão terrível a experiência desta alma privilegiada, mas ela sofreu para a salvação das almas, segundo vontade do Divino Redentor. 

Sagrado Coração de Jesus, eu confio em você!