segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Beata Elvira Moragas Cantarero, Farmacêutica, Carmelita, Mártir da Rev. de 1936 – 16 de agosto

     
Também conhecida como Irmã Maria do Sacrário de São Luís Gonzaga
     Elvira Moragas Cantarero nasceu em Lillo (Toledo), em 8 de janeiro de 1881. Sua família mudou-se para Madri quando ela tinha 4 anos porque seu pai era o fornecedor farmacêutico da Casa Real. Elvira, filha e neta de farmacêuticos, estudou primeiro no Instituto Cardenal Cisneros e depois estudou Farmácia na Universidade Central de Madrid.
     Elvira foi pioneira na universidade. Ela foi a primeira mulher na Espanha a se formar em Farmácia. Isto foi em 1905. Ela se tornou a 29ª mulher espanhola que realizou estudos universitários. Ela trabalhou na farmácia de seu pai por vários anos.
     Ela também foi a primeira mulher espanhola a se matricular em Cursos de Doutorado em Farmácia, estudando microbiologia, entre outras disciplinas. Os cursos de doutoramento proporcionaram formação científica que foi enriquecida com os chamados "cursos de doutoramento concluídos", que, quando aplicados a um projeto de investigação, permitiam o acesso ao título de doutor.
     Em 1915, aos 34 anos, Elvira entrou no Carmelo. Tomo o nome de Maria do Sacrário de São Luís de Gonzaga. Tomou o hábito em 21 de dezembro, fez a primeira profissão em 24 de dezembro de 1916 e a profissão perpétua em 6 de janeiro de 1920. No convento desempenhou várias tarefas, de enfermeira a torneira. Mais tarde foi mestra das noviças e priora do convento de 1927 a 1930.
     Em 1º de julho de 1936, foi eleita priora pela segunda vez. Foram tempos ruins. Nesse mesmo mês, em 18 de julho, quando a Guerra Civil Espanhola estava apenas começando, as janelas da igreja conventual foram apedrejadas. Madre Maria do Sacrário disse às freiras que se quisessem ir com a família, podiam fazê-lo livremente, mas que ela ficaria no convento. A maioria ficou com ela. Ela rezou dizendo: "Tenho que cuidar de todos os meus pequeninos".
A Beata na juventude
     Em 14 de agosto, enquanto rezava a Liturgia das Horas, membros da Frente Popular a prenderam no convento e a levaram para a “checa” socialista da rua Marquês de Riscal, 1, em Madri, que era o palácio dos condes da Casa Valência. Esta “checa” atuou entre julho de 1936 e maio de 1937. Era administrado por milícias do Círculo Socialista do Sul e dependia organicamente da Inspeção Geral das Milícias Populares, que, por sua vez, dependia diretamente do então socialista e Ministro do Interior, Anjo Galarza Gago.
     Uma das prioridades desta “checa” era conseguir objetos de valor. Questionaram a prioresa sobre "os tesouros do convento". Ela respondeu escrevendo em um pedaço de papel: "Viva Cristo Rei!" Dali a levaram, insultando-a e agredindo-a verbal e fisicamente, até a campina de San Isidro, onde a fuzilaram à noite, véspera da Assunção. Isso aumentou o número de cientistas mortos pela Frente Popular (leia aqui "A Frente Popular matou mais cientistas em três anos do que a Inquisição em três séculos").
     Uma testemunha ocular, Irmã Natividade, que estava com ela nas últimas horas que passou na “checa”, declarou: “Sempre vi minha mãe como uma santa; sempre a vi recolhida, com um ar de paz e serenidade”.
     Em 10 de maio de 1998, o Papa João Paulo II beatificou a ex-farmacêutica como mártir, juntamente com a Madre Maravilhas de Jesus.
     O Papa disse naquele dia: “O livro do Apocalipse nos presenteou com a visão de Jerusalém, “arranjada como uma noiva que se enfeita para seu marido” (Ap 21, 2). Embora estas palavras se refiram à Igreja, podemos aplicá-las também às duas carmelitas descalças que foram proclamadas beatas nesta celebração, tendo alcançado o mesmo ideal por diferentes caminhos: Madre Sacrário de São Luís Gonzaga e Madre Maravilhas de Jesus. Ambos, com o adorno das virtudes cristãs, suas qualidades humanas e sua dedicação ao Senhor no Carmelo Teresiano, aparecem hoje aos olhos do povo cristão, como Esposas de Cristo.
     A Madre Maria do Sacrário, farmacêutica na juventude e modelo para os que exercem esta nobre profissão, abandonou tudo para viver somente para Deus em Cristo Jesus no mosteiro das Carmelitas Descalças de Santa Ana e São José em Madrid. Ali amadureceu sua dedicação ao Senhor e aprendeu com Ele a servir e se sacrificar por seus irmãos. Por isso, nos turbulentos acontecimentos de julho de 1936, ela teve a coragem de não trair sacerdotes e amigos da comunidade, enfrentando a morte com integridade por sua condição de carmelita e por salvar outras pessoas”.
     Sua vida foi estudada por José Carlos Areses Gándara em seu livro “A vida da Beata Maria Sacrário: farmacêutica, carmelita e mártir”.
 
Fontes:
https://www.religionenlibertad.com/
“Blessed Elvira Moragas Cantarero”. CatholicSaints.Info. 24 July 2020. Web. 6 July 2022.
https://catholicsaints.info/tag/name-elvira/

sábado, 13 de agosto de 2022

Beata Isabel Renzi, Virgem e Fundadora – 14 de agosto

 
     Maria Isabel, filha de João Batista Renzi e de Vitória Boni, veio ao mundo em Saludecio (Itália), a 19 de novembro de 1786, no seio de uma rica família. Sua mãe vem de uma família nobre de Urbino e seu pai é um avaliador especializado e administrador de propriedades; foi aliás para melhor exercer a profissão que a família mudou-se para Mondaino em 1791.
     Isabel foi educada pelos pais e, segundo o costume da época, por volta dos nove anos, tornou-se interna no mosteiro das Clarissas de Mondaino para receber os primeiros estudos.
     Em 25 de setembro de 1807, aos 21 anos, desejando doar-se completamente a Deus e aos irmãos, decidiu fazer uma experiência no Mosteiro Agostiniano de Pietrarubbia.
     No borrascoso período da invasão francesa, que seguiu à revolução, em 1810, Isabel foi quase arrancada do escondimento do mosteiro das Monjas Agostinianas, pois um decreto napoleônico suprimiu os mosteiros. Mas, reinserida no mundo, pôde conhecer melhor as urgentes necessidades da Igreja do seu tempo e dar-se conta de que um novo chamamento do Senhor lhe dizia respeito.
     Em 1813, sua única irmã, Dorotéia, morreu aos vinte anos. Passam-se quatorze anos de pesquisa, de trabalho interior. Deus mesmo a tinha, por assim dizer, transplantado junto aos problemas da juventude feminina da sua terra. Compreendeu assim que era preciso preparar as jovens do povo para enfrentarem as novas condições de vida que as esperavam numa sociedade secularizada, em contato com as novas estruturas políticas e administrativas, não raro adversas à fé. Isabel deu-se conta, com intuito profético, de que estava a surgir uma época em que a mulher haveria de assumir novas responsabilidades sociais.
     Aconselhada por seu diretor espiritual, Pe. Vital Corbucci, que assegurara que sua missão era a de educadora, mudou-se para Coriano em 29 de abril de 1824, para atuar na escola para moças e senhoras pobres conhecida como “Conservatório”. Poucos meses após a chegada de Isabel, em 16 de julho de 1824, começa a construção da igreja, que é consagrada em 31 de maio de 1825 e dedicada à Nossa Senhora das Dores.
     Devido à situação econômica incerta, as professoras decidiram unir-se às Filhas da Caridade que Santa Madalena de Canossa fundara em Verona. A santa saudou a proposta com algum interesse. Vai duas vezes a Coriano para ter uma ideia exata da situação. Visitando a pequena comunidade de Coriano conheceu pessoalmente Isabel Renzi e aconselhou-a a tomar a direção do Conservatório. Isabel aceitou a decisão do Bispo de Rimini, Mons. Otávio Zollio, que a nomeou Superiora da comunidade.
     Em 1828 Isabel delineou algumas regras de vida espiritual e comunitária com o Regulamento das "Pobres mulheres do Crucificado": ela insiste no desapego do mundo para viver o espírito da cruz, indispensável para "ter a mais amorosa conversa com o divino Noivo e sentindo o amor sua voz na solidão e na concentração de espírito”.
     Após a morte de Santa Madalena de Canossa, em 1835, Isabel percebeu que a fusão não havia ocorrido. De acordo com Mons. Francisco Gentilini, Bispo de Rimini, lança as bases das Mestras Pias da Dolorosa. Em 29 de agosto de 1839, na igreja paroquial de Coriano, Isabel Renzi e dez companheiras ofereceram a vida a Deus e aos irmãos, e receberam o hábito das Mestras Pias da Dolorosa.
     Depois de Coriano Madre Isabel fundou a comunidade de Sogliano, Roncofreddo, Faenza, Cotignola, Savignano de Romanha, Mondaino.
     Poder-se-ia dizer que Isabel Renzi se tomou fundadora não tanto por uma opção quanto porque uma série de circunstâncias a levaram e quase a constrangeram a realizar uma obra orgânica e estável em benefício das jovens na sua terra Romanha. Mas teve que enfrentar para isto enormes dificuldades e lutou com discernimento iluminado para vencer obstáculos que a tentação, com frequência, lhe apresentava como insuperáveis. A sua regra de vida foi precisamente a de abandonar-se a Deus, a fim de que Ele dispusesse os passos e os tempos para o desenvolvimento da obra como lhe agradava. (...)
     Como uma semente lançada à terra, Isabel suportou as suas provações com ativa esperança. Escreveu: “Quando tudo se complicava, quando o presente me era tão doloroso e o futuro me parecia ainda mais escuro, fechava os olhos e abandonava-me como uma criancinha nos braços do Pai que está nos céus”.
     Aos 72 anos Madre Isabel suportava uma dor de garganta insuportável, que logo provou ser uma forma de tuberculose. Seu sofrimento foi imenso, mas até o final manteve sua clareza e energia, o que permitiu a ela, ao expirar, dizer o seu famoso "eu vejo, eu vejo, eu vejo!", que lindamente complementava o significado do inicial "Eu trago Aquele que me traz!" “Peço perdão a todas as minhas falhas e defeitos, rezem por mim. Adeus filhas diletíssimas! Eu vejo... eu vejo... eu vejo!”
     Faleceu santamente em Coriano a 14 de agosto de 1859. Seus restos mortais são venerados na Capela da Casa-mãe em Coriano, na Província e Diocese de Rimini. 
     Isabel Renzi foi reconhecida como venerável em 8 de fevereiro de 1988, e foi beatificada em 18 de junho de 1989. As Pias Mestras estão presentes hoje na Europa, América, África e Ásia.
 
Panorama de Coriano
Fontes:
L'OSS. ROM. 25.6.1989; DIP 7,1687-9; 5, 824-6.
Pe José Leite, S.J., Santos de Cada Dia, Ed. A.O. – Braga;
http://www.santiebeati.it/dettaglio/91602
 
Postado neste blog em 13 de agosto de 2012

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Santa Susana de Roma, Mártir – 11 de agosto

     A história de Santa Susana foi-nos transmitida pela Passio do seu martírio, que remonta ao século VI, enriquecida com contos lendários. Não se sabe a data do seu nascimento; provavelmente, era natural da Dalmácia, mas viveu em Roma no século III.
     De família nobre, aparentada com o imperador Diocleciano, Susana era filha do presbítero Gabino (na época, os presbíteros eram os anciãos, que cuidavam da comunidade cristã), irmão do Bispo Caio, que depois se tornou Papa (283-296), e de Cláudio e Máximo, funcionários imperiais.
     Quando ascendeu ao trono em 284, Diocleciano estabeleceu a tetrarquia e passou a reinar no Oriente enquanto Maximiano reinava no Ocidente. Ambos nomearam césares como sucessores e co-imperadores juniores: Maximiano indicou Constâncio Cloro (o pai de Constantino, o Grande) e Diocleciano, Gaio Galério Valério Maximiano. Em 293, para garantir sua sucessão, Diocleciano desejava casar seu jovem sucessor rapidamente, mas sua filha, Valéria, já estava casada e a única jovem solteira da família seria Susana, sua prima. O anúncio do casamento traria a desgraça para ela e a família.
     Susana, jovem culta e de rara beleza, consagrou-se a Deus, oferecendo-lhe a sua virgindade. Por isso, recusou a proposta de Diocleciano de casar-se com seu filho adotivo, Gaio Galério Valério Maximiano.
O exemplo de Susana converteu seus tios Cláudio e Máximo
     Seu tio Cláudio, que havia sido encarregado de fazer-lhe a proposta de casamento, ficou tão impressionado com a determinação da jovem. A ponto de querer saber mais sobre a sua crença. Por isso, converteu-se - e, com ele, sua esposa, os filhos e os servos - e distribuiu seus bens aos pobres.
     Não tendo recebido nenhuma resposta, o imperador pediu notícias ao irmão de Cláudio, Máximo. Assim, ele ficou sabendo sobre a decisão de Susana de renunciar ao casamento. Depois, junto com Cláudio, decidiu envolver na questão também Caio e Gabino. Todos os quatro concordaram em não obrigar a jovem a casar-se. Ao conhecer melhor a sobrinha, também Máximo abraçou o cristianismo.
Decapitada em casa
     Ao ser informado sobre a decisão de Susana e sobre a conversão de seus dois oficiais, Diocleciano, furioso, prendeu a jovem e seus familiares.
     Submetidos a um interrogatório, nenhum deles abjurou à fé cristã. Assim sendo, o imperador mandou condená-los à morte. Cláudio e Máximo foram queimados vivos; a esposa de Cláudio, Prepedigna e os filhos do casal, foram todos mortos; Gabino foi torturado e morreu de fome na prisão.
     O cônsul Macedônio ordenou que Susana realizasse um sacrifício ao deus romano Júpiter para provar sua fé. Quando ela se recusou, ficou evidente que ela era de fato cristã, mas neste ponto os relatos divergem. Segundo uma fonte, o próprio Macedônio ordenou que ela fosse morta. Já em outra, Susana teria sido libertada por ser da família do imperador Diocleciano.
     De qualquer forma, considera-se que Susana foi decapitada em sua casa, em 11 de agosto de 294. A esposa do imperador Diocleciano, que também era cristã, organizou o enterro e conservou seu sangue como relíquia.
     O Papa Caio, que morava perto da casa de Gabino, na manhã do dia seguinte, celebrou Missa no lugar do martírio de Susana e estabeleceu que a santa fosse recordada e venerada em sua própria casa.
     Desta forma, começando a aumentar o culto a Santa Susana, no ano de 330 uma basílica foi construída sobre a casa da Santa e dedicada primeiro a São Caio, em homenagem ao papa tio dela. No século VI, o Papa Gregório, tornou a dedicá-la em sua homenagem e ela é conhecida desde então como Sancta Susanna ad duas domos.
     Os restos mortais de Santa Susana, que foram sepultados no cemitério de Santo Alexandre, na Via Nomentana, foram trasladados, depois, para a igreja a ela dedicada e, várias vezes modificada, hoje denominada igreja de Santa Susana nas Termas de Diocleciano.
     Ali, segundo fontes de 1500, foi encontrada uma lápide, atribuída ao século V – que depois foi perdida, – com a escrita: "Olim presbyteri Gabini Filia Felix / Hic Susana Iacet In Pace Patri Sociata" (“Filha feliz do presbítero Gabinio / aqui jaz Susana, na paz do Senhor).
 
https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/08/11/s--susana--romana--na-igreja-homonima.html
http://www.santiebeati.it/dettaglio/65850

Adendo
     O Papa Caio foi o 28º papa da história da Igreja Católica.
     Nascido na Dalmácia, região que hoje é pertencente à Croácia, em data desconhecida, Caio, por sinal, é um dos papas mais desconhecidos. Sabe-se muito pouco sobre sua vida pessoal e mesmo religiosa antes de se tornar Sumo Pontífice. Era descendente de um imperador cujo prenome era também Caio. Por isso, Caio viveu seus primeiros anos no luxo, no seio de uma família nobre e abastada. Não se sabe como ele veio a se tornar cristão. O fato, porém, é que Caio passou a ser um cristão fervoroso e grande conhecedor da fé e da doutrina cristã. Sabe-se que era descendente da família imperial de Diocleciano, que era seu tio. Era irmão do presbítero Gabino e tio de Suzana, ambos canonizados.
     Com o falecimento do Papa Eutiquiano, Caio foi eleito para ser sucessor no dia 17 de dezembro de 283. Antes de sua eleição, o Papa Caio, junto com seu irmão, Gabino, transformou sua casa em igreja. Lá, ouviam os aflitos, os pecadores; auxiliavam os pobres e doentes; celebravam as missas, distribuíam a eucaristia e ministravam os sacramentos do batismo e do casamento.
     O grande contratempo enfrentado pelo Papa Caio se deu no âmbito interno do próprio clero, devido a crescente multiplicação de heresias, criando uma grande confusão entre os devotos cristãos. A última, pela ordem cronológica, na época, foi a de “Mitra”. Esta heresia era do tipo maniqueísta, de origem asiática, pela qual Deus assumia em si a contraposição celeste da luz e da treva. Tal heresia e outras ele baniu por completo.
     Era uma época de muitas dificuldades para os cristãos, mas o Papa Caio conseguiu os oferecer um período de relativa paz, construir igrejas por toda Roma e encontrou as catacumbas de cristãos que foram martirizados antes de seu papado. Habilidoso no trato com as autoridades romanas, o Papa Caio conseguiu converter o prefeito Cromâncio.
     Entre suas ações como papa, Caio decretou que todo bispo só poderia assumir a posição após desempenhar as funções de hostiário, leitor, exorcista, acólito, subdiácono, diácono e padre. Reformando a administração da Igreja, dividiu os bairros de Roma entre os diáconos e conteve agitadores que desejavam se vingar da morte imposta a outros pontífices.
     O Papa Caio também pode ser considerado o primeiro Papa que reuniu fiéis e emissários imperiais durante uma forte discussão a respeito da legitimidade das cobranças de tributos sobre os cristãos. Assim, conseguiu bastante confiança dos governantes Romanos. Conseguiu conter inúmeros agitadores que desejavam vingança pela morte de outros papas usando de atos de vandalismo.
     Entretanto, durante o seu governo, muitos foram martirizados por não abjurarem a Fé Católica. Ao que tudo indica, o Papa São Caio esteve sempre presente nos esconderijos das catacumbas, para assim atender às necessidades dos cristãos. Como Papa, chegou a aconselhar alguns cristãos refugiados na casa de campo do então convertido prefeito Cromâncio, de Roma, para que fugissem da cidade antes de serem presos, pois sabia que muitos destes cristãos poderiam fraquejar diante das torturas e do martírio. Conta-se que este mesmo conselho foi dado a São Sebastião, mas este preferiu ficar em Roma, para animar e defender os irmãos da Igreja. Inclusive este santo, por permanecer na arena de luta defendendo a Igreja de Cristo, foi severamente martirizado.
     Embora tenha conseguido ampliar a presença da Igreja Católica em Roma física e administrativamente, o Papa Caio conviveu com uma época em que as medidas contra os cristãos estavam em crescimento. Nós sabemos, pelos escritos da Igreja, que apesar do seu parentesco com o imperador, o Papa se recusou a ajudar Diocleciano, que pretendia receber a sobrinha dele como sua futura nora. A ira do soberano mandou matar os cristãos, começando pelo seu parente, Caio. Não é certo que o Papa Caio tenha sido martirizado no final de seu papado de doze anos, mas a tradição diz que o Sumo Pontífice foi decapitado no dia 22 de abril de 296, data que marca o fim do seu papado.
     Caio foi sepultado na Catacumba de Calisto. Sua tumba, ainda com o epitáfio original, foi encontrada na Catacumba de São Calisto, junto com o anel usado por ele para selar cartas. Seus restos mortais estão hoje na capela da família Barberini.
     Venerado mais tarde como santo, o Papa Caio foi sucedido pelo Papa Marcelino.
     O nome Caio vem do Latim “Caius” e significa feliz, alegre, contente.
 
Fontes:
DUFFY, Eamon. Santos e Pecadores: história dos Papas. São Paulo: Cosac & Naify, 1998.
FISCHER-WOLLPERT, Rudolf. Os Papas e o Papado. Petrópolis: Editora Vozes.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Santa Bonifácia Rodriguez Castro, Fundadora – 8 de agosto

Martirológio Romano: Na cidade de Zamora, na Espanha, Santa Bonifácia Rodríguez Castro, virgem, que fundou a Congregação das Servas de São José, para promover cristã e socialmente as mulheres através da oração e do trabalho, a exemplo da Sagrada Família (1905).
 
     Nasceu em Salamanca (Espanha) em 6 de junho de 1837 no seio de uma família de artesãos. Seus pais, Juan e Maria Natalia, eram profundamente cristãos, tendo como principal preocupação a educação religiosa de seus seis filhos, dos quais Bonifácia era a mais velha. Sua primeira escola foi a casa dos pais, onde Juan, alfaiate, instalou sua oficina de costura, então a primeira coisa que Bonifácia vê ao nascer é uma oficina.
     Terminado o primário, aprende o ofício de cordoeira, com o qual começa a ganhar a vida como empregada aos quinze anos, após a morte do pai, para ajudar a mãe a sustentar a família. A necessidade de trabalhar para viver moldou sua forte personalidade desde muito cedo, experimentando em primeira mão as duras condições das mulheres trabalhadoras da época: horas exaustivas e salários escassos.
     Após as primeiras dificuldades econômicas, montou a sua própria oficina de rendas, guarnições e outros trabalhos, onde trabalhou com o maior recolhimento possível e imitou a vida oculta da Família de Nazaré. Ela tinha grande devoção a Maria Imaculada e a São José, devoções que foram extremamente atuais após a proclamação do dogma da Imaculada Conceição em 1854 e a declaração de São José como padroeiro da Igreja universal em 1870.
     A partir de 1865, data do casamento de Agustina, a única de seus irmãos a atingir a idade adulta, Bonifácia e sua mãe, que havia sido deixada sozinha, entregaram-se a uma vida de intensa piedade, indo todos os dias à vizinha Clerecía, igreja administrada pela Companhia de Jesus.
     Um grupo de moças de Salamanca, amigas dela, atraídas por seu testemunho de vida, começam a ir à sua casa-oficina nos domingos e nas tardes de feriados para se livrar das perigosas diversões da época. Procuravam uma amiga em Bonifácia para ajudá-las. Juntas, elas decidem formar a Associação da Imaculada e São José, mais tarde chamada de Associação Josefina. Assim, a oficina de Bonifácia adquire uma clara projeção apostólica e social de prevenção para as mulheres trabalhadoras.
     Bonifácia sente-se chamada à vida religiosa. Sua grande devoção a Maria faz seu coração acariciar o projeto de se tornar dominicana no convento de Santa Maria de Dueñas, em Salamanca.  Mas um acontecimento de importância transcendental iria mudar o curso de sua vida: o encontro com o jesuíta catalão Francisco Javier Butinyà i Hospital, natural de Bañolas-Girona (1834-1899), que chegou a Salamanca em outubro de 1870 com grande preocupação missionária para o mundo dos trabalhadores manuais.
     Era para eles que escrevia La luz del Menestral, ou seja, uma coletânea da vida de fiéis que se santificaram em profissões humildes. Atraída por sua mensagem evangelizadora em torno da santificação do trabalho, Bonifácia colocou-se sob sua direção espiritual. Através dela, Butinyà entrou em contato com as meninas que frequentavam sua oficina, a maioria também trabalhadoras manuais. E o Espírito Santo sugere a fundação de uma nova congregação feminina, orientada para a prevenção de mulheres trabalhadoras.
     Bonifácia confidencia sua decisão de se tornar dominicana, mas Butinyà propõe a ela fundar com ele a Congregação das Servas de São José, a que Bonifácia concorda humildemente. Juntamente com outras seis jovens da Associação Josefina, incluindo sua mãe, iniciou a vida comunitária em Salamanca, em sua própria oficina, em 10 de janeiro de 1874, um momento muito conflituoso na vida política do país.
     Três dias antes, em 7 de janeiro, o bispo de Salamanca, D. Joaquín Lluch i Garriga, havia assinado o decreto que instituiu o Instituto. Catalão como Butinyà, natural de Manresa-Barcelona (1816-1882), desde o primeiro momento apoiou a nova fundação com o maior entusiasmo.
     Foi um projeto inédito de vida religiosa feminina, inserido no mundo do trabalho à luz da contemplação da Sagrada Família, recriando a Oficina de Nazaré nas casas da Congregação. Nesta oficina as Servas de São José ofereciam trabalho a mulheres pobres que não o tinham, evitando assim os perigos que naqueles dias que representavam para elas sair para trabalhar fora de casa naquele momento.
     Era um modo de vida religioso muito arriscado para não ter oposição. A ela se opõe imediatamente o clero diocesano de Salamanca, que não compreende a profundidade evangélica deste modo de vida tão próximo do mundo do trabalho.
     Três meses após a fundação, Francisco Butinyà foi exilado da Espanha com seus companheiros jesuítas e em janeiro de 1875 o bispo Lluch i Garriga foi transferido para Barcelona como bispo. Bonifácia se vê sozinha à frente do Instituto apenas um ano após seu nascimento.
     Os novos diretores da comunidade, nomeados pelo bispo dentre os padres seculares, semeiam de forma imprudente a desunião entre as irmãs, algumas das quais, apoiadas por eles, começam a se opor à oficina como modo de vida e ao acolhimento das mulheres trabalhadoras. Bonifácia Rodríguez, fundadora, que incorporou perfeitamente o projeto que deu origem às Servas de São José, não aceitou mudanças no carisma definido por Pe. Butinyà nas Constituições.
     Porém o diretor da Congregação, aproveitando uma viagem de Bonifácia a Girona em 1882, feita para estabelecer a união com outras casas das Servas de São José que Francisco Butinyà havia fundado na Cataluña, quando de sua volta do desterro, promoveu sua destituição como superiora e orientadora do Instituto.
     Humilhação, rejeição, desprezo e calúnia recaem sobre ela para fazê-la sair de Salamanca. A única resposta de Bonifácia é o silêncio, a humildade e o perdão. Sem uma palavra de reivindicação ou protesto, ela permite que as feições de Jesus sejam impressas nela, silenciosa diante daqueles que a acusam (Mt 26, 59-63).
     Como solução para o conflito, Bonifácia propôs ao bispo de Salamanca, D. Narciso Martínez Izquierdo, a fundação de uma nova comunidade em Zamora. Juridicamente aceita por ele e pelo bispo de Zamora, D. Tomás Belestá y Cambeses, Bonifácia partiu acompanhada de sua mãe a caminho desta cidade em 25 de julho de 1883, levando no coração a Oficina de Nazaré, seu tesouro. E em Zamora ela fielmente dá vida a ela, enquanto em Salamanca começam as retificações de um projeto incompreendido.
     Bonifácia, na sua oficina de Zamora, lado a lado com outras trabalhadoras, jovens e adultas, "tece a dignidade da mulher pobre sem trabalho, preservando-a do perigo de se perder" (Decreto de Ereção de do Instituto. 7 de janeiro de 1874), "tece a santificação do trabalho unindo-o à oração no estilo de Nazaré: assim a oração não será um obstáculo ao seu trabalho, nem o trabalho tirará sua lembrança da oração" (Francisco Butinyà, carta de Poyanne, 4 de junho, 1874), “tece relações humanas de fraternidade e respeito no trabalho: “devemos ser todos para todos, seguindo Jesus” (Bonifácia Rodríguez, primeiro discurso, Salamanca, 1876).
     A casa mãe de Salamanca desconsiderou totalmente Bonifácia e a fundação de Zamora, deixando-a só e marginalizada, e, sob a orientação dos superiores eclesiásticos, realizou modificações nas Constituições de Butinyà para mudar os objetivos do Instituto.
     Em 1º de julho de 1901, o Papa Leão XIII concedeu a aprovação pontifícia às Servas de São José, solicitada pela casa mãe, excluindo a casa de Zamora. É o momento culminante da humilhação e espoliação de Bonifácia, bem como de sua grandeza de coração. Não recebendo resposta do Bispo de Salamanca, D. Tomás Cámara y Castro, dirigiu-se a Salamanca para falar pessoalmente com aquelas irmãs. Mas quando chegou à Casa de Santa Teresa disseram-lhe: “temos ordens para não a receber”, e regressou a Zamora com o coração partido. Ela apenas desabafa mansamente com estas palavras: "Não voltarei à terra onde nasci nem a esta querida Casa de Santa Teresa". E novamente o silêncio sela seus lábios, para que a comunidade de Zamora só saiba depois de sua morte o que aconteceu.
     Nem mesmo esta nova rejeição a separa de suas filhas em Salamanca e, cheia de confiança em Deus, começa a dizer às irmãs de Zamora: “quando eu morrer”, certa de que a união aconteceria quando ela se fosse. Com esta esperança, rodeada do afeto da sua comunidade e do povo de Zamora que a venerava como santa, morreu nesta cidade a 8 de agosto de 1905.
     Em 23 de janeiro de 1907, a casa de Zamora foi incorporada ao restante da Congregação.
     Quando sua vida se esvai, escondida e fecunda como um grão de trigo jogado no sulco, Bonifácia Rodríguez deixa como legado a Igreja inteira: “o testemunho de seu fiel seguimento de Jesus no mistério de sua vida oculta em Nazaré”, uma vida transparentemente evangélica, "e um caminho de espiritualidade, centrado na santificação do trabalho conjugado com a oração na simplicidade da vida quotidiana".
      Foi beatificada por João Paulo II em 9 de novembro de 2003. Data da canonização: 23 de outubro de 2011 pelo Papa Bento XVI.
 
Fontes:
https://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20031109_castro_po.html
http://www.santiebeati.it/dettaglio/91832
http://es.catholic.net/op/articulos/36249/cat/214/bonifacia-rodriguez-castro-santa.html#modal
 

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Santa Margarida de Cesolo, a “descalça”, Viúva - 5 de agosto

     
Santa Margarida nasceu em Cesolo, uma fração de San Severino, Marche (Itália), em 1325, e é chamada de "pés descalços". Seus pais, pessoas de origem humilde e dedicadas à agricultura, deram-lhe uma profunda educação cristã.
     Na idade de 15 anos, enquanto estava cuidando das ovelhas, Jesus apareceu-lhe sob o disfarce de um peregrino pobre e pediu-lhe algum alimento, e a jovem ofereceu-lhe o único pão que ela tinha. Tendo voltado para casa com fome, perguntou à mãe se ela tinha algo para alimentá-la. A mãe disse que nada tinha para lhe dar. Margarida pediu para ela olhar no armário, a mãe atendeu seu pedido e com assombro descobriu que o armário estava tão cheio de pães, que daria para satisfazer as necessidades da família e dos pobres da vizinhança.
     Para não contradizer a vontade dos pais, concordou em se casar com um jovem da cidade. Ela teve uma filha que educou segundo os princípios cristãos. O marido a maltratava; por anos ela tudo suportou com paciência. Após a morte de seu marido decidiu dedicar sua vida a servir os pobres, unindo a caridade à oração e à penitência.
     Com a finalidade de mais se assemelhar à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, Margarida se infligia terríveis castigos: caminhava descalça pelas ruas da cidade (daí o nome de Margarida "descalça"), usava cilício, dormia numa cama de varas e descansava a cabeça em uma pedra.
     Enfrentou uma longa e dolorosa doença com muita fé e resignação. Em 5 agosto de 1395, aproximando-se da morte, atendendo ao pedido da filha para que ela deixasse uma recordação, a pele dos pés saiu em forma de sapatos com a marca de todos os cinco dedos. Depois disso ela expirou. Seu corpo está sepultado na igreja paroquial de Cesolo. 
 
A urna contendo relíquia de Santa Margarida

Celebrações em louvor de Santa Margarida em Cesolo
     Desde o dia 28 de agosto, a urna que contém as relíquias de Santa Margarida é exposta na Igreja de São Domingo, no coração da cidade.
     A urna foi transferida da aldeia de Cesolo para permitir que a cidade recebesse uma de suas filhas mais devotas, uma das figuras mais queridas da região. A iniciativa está ligada às comemorações do primeiro centenário da transferência da santa da Igreja de São Domingos para a igreja paroquial de Cesolo: uma transferência que ocorreu em 1920 e que, apesar da pandemia, também foi lembrada no ano passado com uma cerimônia especial.
      Agora, durante os 101 anos da Festa de Santa Margarida não haverá eventos civis, por causa das limitações anti-Covid; no entanto, a comissão de organizou, de comum acordo com a freguesia e a autarquia, uma solene celebração religiosa.
 
Martirológio Romano: Em San Severino, Marche, na região de Piceno, Santa Margarida, viúva. (+ 1395)
Paisagem de Cesolo

Fontes: www.santiebeati.it
http://es.catholic.net/op/articulos/36240/margarita-de-cesolo-santa.html#modal
 
Postado neste blog em 5 de agosto de 2012

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Beata Joana de Aza, mãe de S. Domingos de Gusmão – 2 de agosto

     
     Não se tem muita informação sobre Joana de Aza - que alguns chamam de santa e outros de beata.  O que se sabe principalmente é que foi mãe do grande São Domingos de Gusmão e que era uma mulher virtuosa, muito compassiva.
     Seu pai era D. Garcia Garcés, senhor do condado de Aza, marechal-mor de Castela e tutor do rei Afonso VIII, e sua mãe Da. Sancha Bermúdez de Trastamara. Joana nasceu, portanto, no seio de uma família nobre, várias vezes entrelaçada com a casa real de Castela. Seu ano de nascimento deve ter sido 1140.
     Aos vinte anos Joana de Aza se casou com D. Félix Ruiz de Gusmão, senhor de Caleruega. Dante saudou este nobre consórcio no seu Paraíso. Os seus nomes estavam cheios de simbolismos: Félix, "feliz", Joana, "o senhor é a sua graça".
     O casal vivia em Calaruega e ali nasceram seus filhos. O mais velho, Antônio (venerável), foi sacerdote e consagrou a vida aos peregrinos e aos enfermos que iam ao sepulcro de São Domingos de Silos, próximo de Caleruega. O segundo, Manes, ou Mamerto (beato). seguiu o irmão mais novo e se fez dominicano. São Domingos foi o terceiro dos irmãos e recebeu este nome (que significa homem do Senhor) por causa de um sonho que sua mãe teve nos meses que precederam o seu nascimento.
     É muito conhecido o fato: Joana sonhou que levava em seu seio um cachorrinho (alguns dizem que ele era branco e preto) portando uma tocha acesa em sua goela, e que ele saia incendiando o mundo. Joana se assustou e foi rezar a São Domingos de Silos, morto cem anos antes, na abadia beneditina que conserva o túmulo do fundador. Fez uma novena e parece que prometeu que o filho haveria de ter o mesmo nome do Santo.
     Esta santa mãe não podia prever que seu filho haveria de eclipsar o bom São Domingos de Silos, sob cuja proteção nasceria. Mas, no céu os Santos não se preocupam com as glórias terrenas. O certo é que a criança foi protegida por São Domingos de Silos: a mãe foi consolada, o menino nasceu e iluminou o mundo com sua santidade.
     O costume das mulheres que preveem partos difíceis se dirigirem aos monges de Silos pedindo fitas que tenham sido tocadas nas relíquias do Santo continua até os dias de hoje. Elas as conservam até o momento de darem à luz e muitas vezes sua confiança é recompensada.
     O nascimento de Domingos deu-se no dia 24 de junho, dia de São João Batista, o precursor. Domingos também haveria de ser uma voz que endireitava caminhos: fundaria a Ordem dos Irmãos Pregadores, ou Dominicanos.
     Várias circunstâncias milagrosas cercaram o batizado do Santo. No dia de seu batizado, ocorrido em Caleruega, o celebrante que rezava a Missa de ação de graças equivocou-se: por três vezes, ao dirigir-se ao povo, ao invés de dizer Dominus vobiscum, dizia Ecce reformator Ecclesiae. Isto é, em vez de anunciar aos fiéis que o Senhor estava com eles, dizia que ali estava o reformador da Igreja. A madrinha viu uma estrela sobre a cabeça do menino.
     Joana foi com o marido a Silos para agradecer ao Santo tal nascimento, e Deus abençoou ainda mais tarde essa união: dois sobrinhos de São Domingos também se tornariam dominicanos.
     Joana criou Domingos com o próprio leite, formou-o com o seu coração e a sua inteligência; levava com frequência o pequeno a Ucclés, ao túmulo do seu tio-avô, o Beato Pedro. A tradição popular conservou naquele local um eremitério da Beata Joana e uma fonte de São Domingos.
     Mas, o menino não viveria muitos anos com seus pais. Aos sete anos, Joana o confiou a um irmão seu, pároco de Gumiel de Izán. Este se encarregou da educação do pequeno Domingos. Não havia então escolas nos povoados e era preciso que ele se armasse da palavra para combater as heresias.
     De sua mãe deve ter aprendido, quando pequenino, a virtude da compaixão. Aos catorze anos, Domingos viu um dia que, devido à grande seca, o povo sofria de uma fome terrível. Vendeu todos os seus livros, todos os seus pergaminhos, pois dizia "Não quero peles mortas quando vejo perecer as vivas".
     Mais do que ter dado à luz São Domingos de Gusmão, Joana, com seu exemplo, foi a luz que iluminou sua infância. Ela era uma grande mestra da caridade alegre e compassiva. Com grande confiança se aproximavam de Joana os pobres, os débeis, os doentes. Sabiam por experiência própria que aquela mulher dominava a arte de dar. Com um sorriso nos lábios, com simplicidade ela dava o que possuía.
     Uma história na qual a Beata Joana assume o papel principal, é-nos narrada por Rodrigo de Cerrato, que esteve em Caleruega por volta de 1272 para obter informações sobre a infância de São Domingos.
     O esposo de Joana, D. Félix, senhor de Caleruega, possuía uma farta adega, pois o vinho era reconfortador após um dia de fadigas. E ele apreciava o bom vinho.
     D. Félix estava ausente e, quando os pobres procuraram por Joana, ela lhes deu o vinho do esposo, além de outras coisas costumeiras.  Os historiadores relatam que além das esmolas, repartiu o vinho; além dos socorros, a alegria do bom vinho. O vinho que consolava o coração de D. Félix consolaria também os corações dos que não tinham vinho.
     Aconteceu de chegar D. Félix com sua comitiva e, na presença de todos, pediu à esposa que lhe trouxesse um pouco daquele vinho que tinha na adega. Talvez ele soubesse da generosa distribuição que a esposa fizera... O fato é que a pobre Joana desceu até a adega - e em que estado pode-se imaginar - e pediu a ajuda de Deus Nosso Senhor. Ele seria menos generoso do que Joana? Ela encontrou vinho no barril e D. Félix pôde alegrar seu coração com o bom vinho! Dizem as crônicas que todos reconheceram a santidade de Joana de Aza e deram graças por tudo.
     À semelhança dos outros dados biográficos também se desconhece a data da morte da Beata Joana. Apenas se sabe que quando o filho Manés regressa a Caleruega em 1234, já depois da canonização do irmão São Domingos, encontra a sepultura da mãe junto da igreja paroquial. É possível que tenha sido por essa data, e face ao projeto de construir uma igreja em honra do novo santo, que os restos mortais da Beata Joana tenham sido trasladados para o Mosteiro de São Pedro de Gumiel de Izan, no qual repousavam os demais membros da família no panteão que ali tinham instituído.
     Será deste panteão familiar que em meados do século XIV, o Infante Dom João Manuel, os trasladará para a igreja do convento de São Paulo de Peñafiel, fundado por ele nessa vila para os frades dominicanos. Ali repousaram numa bela capela dentro da igreja durante seis séculos, regressando em 1970 a Caleruega e ao Mosteiro das Monjas Dominicanas, onde hoje se encontram.
     No dia 1 de outubro de 1828, o Papa Leão XII, a pedido da Ordem Dominicana e dos grandes de Espanha, incluído o rei Fernando VII, aprovou o culto da Beata Joana, um culto que era já bastante popular na zona de Caleruega e povoados vizinhos, em grande medida devido à proteção alcançada de Dona Joana, mãe de São Domingos, por ocasião de graves pestes e fomes ocorridas ao longo dos séculos.
     Mesmo depois de morta não cessaram de pedir-lhe coisas: os lavradores invocavam-na pedindo a fertilidade das terras; quando faltava a chuva, lembravam-se de recorrer a Joana; quando os gafanhotos apareciam, procuravam por ela... E a Beata Joana de Aza, como uma boa mãe de família, atendia aos pedidos de seus filhos, e continua até hoje a atendê-los!
 
Fontes:
http://vitaefratrumordinispraedicatorum.blogspot.com/2011/08/beata-joana-de-aza-mae-de-sao-domingos.html
https://www.wikiwand.com/es/Juana_de_Aza
 
Postado neste blog em 2 de agosto de 2011

domingo, 31 de julho de 2022

Madre Vitória da Encarnação, Clarissa baiana do séc. XVII

     
1a. pintura da
Madre. mandada
executar por
D Sebastião
     Há 307 anos, no dia 19 de julho de 1715, aos 54 anos, esta filha de Santa Clara de Assis faleceu em uma das celas do Convento Santa Clara do Desterro, em Salvador, o Convento feminino mais antigo do Brasil (fundado em 1677).
     Madre Vitória da Encarnação nasceu na cidade do Salvador, então capital do Brasil colonial, em 6 de março de 1661, sendo batizada no mesmo ano na antiga Sé da Bahia. Era filha do capitão de Infantaria, Bartolomeu Nabo Correia e de Luísa Bixarxe. Teve um irmão e três irmãs. Conforme escreveu Dom Sebastião Monteiro da Vide (1720), a casa desta família era um exemplo de lar cristão.
     Em 1675, quando Vitória estava com 14 anos, seu pai desejou enviá-la, juntamente com sua irmã mais velha, Maria da Conceição, para um convento nos Açores, em Portugal, porém a menina se recusou, dizendo que preferia que lhe cortassem a cabeça a ser enviada para um convento.
     Em 1677, quando foi fundado o primeiro mosteiro feminino no Brasil, o Mosteiro de Santa Clara do Desterro da Bahia, Vitória, então com 16 anos de idade, ainda dava mostras de aversão à vida religiosa, preocupando seus pais com seu comportamento.
     Vivia em Salvador, naquela época, um jesuíta de muita piedade a quem o povo venerava como santo já em vida e tinha fama de ser um profeta, o Padre João de Paiva. Foi a ele que o pai de Vitória recorreu aflito para queixar-se do comportamento de sua filha em relação à religião, pedindo ao padre que rezasse por ela. O Padre João o acalmou dizendo que a menina seria, no futuro, uma grande religiosa.
     Passaram-se alguns anos e Vitória começou a ter frequentes sonhos com a Mãe de Deus e seu Divino Filho. Neles, a Virgem lhe apresentava o Menino e chamava-a para a vida consagrada. Em outros momentos, via o Divino Menino a colher flores no caminho para o convento e a chamava para lá. Tais sonhos se repetiram inúmeras vezes, porém, Vitória não quis seguir o que a Virgem e o Menino pediam.
     Numa terrível noite do ano de 1686, quando Vitória estava com 25 anos de idade, teve um sonho horrendo, no qual se via nos porões sujos e cheios de lodo de uma grande embarcação que navegava em alto mar. Viu neste sonho que estava acompanhada de pessoas impiedosas que caminhavam para a perdição, enquanto na parte de cima da embarcação havia muitos religiosos contentes, pois caminhavam para a salvação. Seu Anjo da Guarda então lhe explicava que os navegantes da parte superior eram os que faziam a vontade de Deus e estavam salvos, enquanto os que estavam nos porões, assim como ela, eram os que caminhavam para a perdição.
     Ao acordar daquele sonho aterrador, Vitória pensou em sua vida, arrependeu-se de sua recusa à religião e tomou a firme decisão de consagrar-se totalmente a Deus e passar o resto da vida fazendo Sua santa vontade. Ajoelhou-se aos pés de seu pai para pedir-lhe a bênção e implorou-lhe para fazer o que fosse preciso para que ela entrasse para o convento.
     Naquele mesmo ano, num domingo pela manhã, em 29 de setembro, dia de São Miguel Arcanjo, Vitória foi acolhida no noviciado das monjas Clarissas do Mosteiro do Desterro da Bahia e, juntamente com ela, foi acolhida também a sua irmã, Maria da Conceição. Recebeu neste dia o nome religioso de Vitória da Encarnação. No ano seguinte (1687), conforme seu desejo, fez profissão solene em 21 de outubro, dia em que se celebrava na cidade de Salvador a festa das Onze Mil Virgens.
     Mostrou-se grande em suas virtudes. Desapegada de tudo o que é mundano, quis fazer-se a menor de todas e aquela que servia a todas. Dotada de imensa caridade para com os mais desvalidos, desejou viver como uma escrava a adotou para si o estilo de vida das escravas que viviam no mosteiro servindo as religiosas. Fazia suas refeições sentada no chão, como era costume entre os escravos da época, corria para fazer os trabalhos que ninguém queria, e por querer ser a menor de todas, foi diversas vezes ridicularizada e até mesmo agredida. Suportou diversas humilhações calada e com paciência, pois considerava-se digna de todas aquelas ofensas.
     Viveu inteiramente dedicada aos pobres, doentes e desamparados que procuravam o mosteiro em busca de socorro. Pela sua grande caridade recebeu dos pobres o apelido de “Madre Esmoler”. Quando exercia o cargo de porteira, grande quantidade de pessoas dirigia-se à portaria para pedir-lhe algum auxílio. Atendia a todos quantos podia, e de dentro da clausura recomendava aos seus familiares que cuidassem daqueles pobres e doentes que ela não poderia socorrer, mas que estavam necessitados.
     Doou em vida tudo o que possuía aos pobres, inclusive a cama na qual dormia, passando então a dormir no chão sobre uma esteira de palha. Por esse motivo, não morreu em sua própria cela. Quando estava prestes a falecer foi levada para a cela de outra clarissa, pois suas irmãs não quiseram deixá-la morrer no chão.
     Dotada de dons místicos, se transfigurava quando fazia a Via Sacra, todas as sextas-feiras do ano. Um desses eventos foi testemunhado pelas outras religiosas quando participava de uma procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos no corredor da clausura, e foi narrado por Dom Sebastião em seu livro, onde escreveu, “brotavam nas faces duas rosas, com cuja púrpura avivando-se o desmaiado e penitente do rosto, arrebatava as atenções das que a viam, não podendo reprimir as lágrimas da devoção que lhes causava esta devota penitente”.
     Tinha tanto desejo de imitar ao Divino Esposo em seus sofrimentos, que se castigava com cilícios e disciplinas duríssimas, chegando a converter os pecadores que passavam pela via próxima ao convento e que ouviam o barulho daquelas chibatadas. Fazia rigorosos jejuns e quando comia algo que lhe agradava o paladar, misturava cinzas à comida para estragar o sabor.
     Pontualíssima em todos os exercícios obrigatórios, ia além das exigências da Regra. Acabava a comunidade a reza das Matinas e saíam as religiosas; ela ficava, e prostrava-se então, e chorava rezando, pedindo a Deus perdão para si, e para todas a vida eterna. Passava a maior parte da noite em vigília diante do Santíssimo Sacramento e por esse motivo foi chamada, pelo seu biógrafo, o arcebispo da Bahia, de “tocha acesa no Divino Amor”.
     Em uma noite viu o Senhor a andar pelo corredor do mosteiro com sua pesada cruz às costas. Ao encontrá-lo, Ele disse-lhe: “Esposa minha, vem e segue meus passos”. Desde então começou a carregar uma grande cruz às costas durante as madrugadas das sextas-feiras. Foi Madre Vitória a responsável pela difusão da devoção ao Senhor Bom Jesus dos Passos na cidade de Salvador e mandou construir dentro da clausura do mosteiro uma capela a Ele dedicada.
     Amou tanto as almas do purgatório que as sufragava diariamente com orações e oferecia-lhes todas as missas em seu favor. Conforme narrou seu biógrafo, muitas almas se mostraram a ela em seus sofrimentos no purgatório e também voltavam para agradecer-lhe pelas orações em seu favor, quando de lá saíam para o Céu, resplandecentes de luz.
     Tinha o dom da revelação e profecia. Era capaz de saber o local exato em que uma pessoa, tida por desaparecida, se encontrava, assim como de prever acontecimentos futuros. Chegou a descrever eventos que aconteceriam por ocasião e após sua morte. Tinha também a capacidade de encontrar objetos e animais desaparecidos. Inclusive algumas escravas recorriam à Madre quando perdiam alguns animais da sua criação. Com suas orações, fazia reaparecer o que estava perdido.
     Teve por companheiras mais próximas em seus exercícios penitenciais duas outras monjas, também biografadas por fama de santidade, a saber, Madre Maria da Soledade e Madre Margarida da Coluna. Era frequentemente tentada pelo demônio por meio de visões aterradoras e desses terríveis combates espirituais sempre saía vitoriosa.
     Depois da sua grande devoção aos sagrados mistérios da vida de Cristo e da Virgem Maria, nutria uma devoção especial a São Miguel Arcanjo, por ser ele o vencedor do demônio e aquele a quem é confiado o cuidado das almas do purgatório. Como tradição herdada de São Francisco de Assis e continuada pelos seus discípulos, fazia com muita dignidade a chamada Quaresma de São Miguel.
     Sentindo que se aproximava o dia de sua morte fez diversas recomendações às suas irmãs. Uma delas foi o pedido de ser levada à sepultura pelas mãos das escravas a quem ela tanto amava. Outro pedido feito foi o de não ser enterrada com o hábito que usava em vida, pois não queria levar para o túmulo nada que tivesse lhe pertencido neste mundo e pediu que cada uma das irmãs doasse a ela uma peça do hábito religioso com o qual ela seria enterrada.
     Após 29 anos de clausura e de total consagração de sua vida à Cristo e ao próximo, faleceu numa sexta-feira, às 15 horas, 19 de julho de 1715, acompanhada do padre e das irmãs que a assistiam. No momento de sua morte as religiosas disseram ter sentido uma maravilhosa fragrância de rosas a inundar as dependências do mosteiro. E durante o rito das exéquias um misterioso passarinho foi visto voando pelos corredores do mosteiro numa velocidade jamais vista para um pássaro comum. Os que ali se encontravam narraram este fato a que Dom Sebastião dissera ser “a alma da Madre Vitória voando para as mansões celestiais”.
     Ao se espalhar a notícia de sua morte, uma grande multidão se aglomerou diante do convento. Logo toda a cidade ficou sabendo, pois diziam ter morrido a “santa da Bahia”. Muitos levavam lenços, medalhas, terços e outros objetos e pediam que as religiosas os tocassem no corpo da “santa”. Esses objetos eram guardados por essas pessoas e eram tidos como verdadeiras relíquias.
     Seu corpo foi velado durante toda a noite na capela que ela mesma havia mandado construir em honra ao Senhor dos Passos, e foi enterrado no dia seguinte no cemitério conventual. Quando as irmãs tentaram levar o corpo para a sepultura, o esquife tornou-se tão pesado que não se movia do lugar. Ao se lembrarem do pedido da madre de que fosse levada à sepultura pelas mãos das escravas, chamaram-nas para que levassem o corpo. Quando estas levantaram o esquife, parecia não haver nele corpo algum, pois o mesmo estava leve como que quase sem peso algum.
     Inúmeros foram os milagres narrados pelos seus devotos logo após sua morte. Sendo crescente o número desses milagres, o então arcebispo da Bahia tratou de interrogar as religiosas do Desterro sobre a vida que teve a Madre Vitória. Em 1720, apenas cinco anos após a sua morte, Dom Sebastião Monteiro da Vide publicou em Roma a biografia da “santa da Bahia” com o título “História da Vida e Morte da Madre Soror Victória da Encarnação”.
     O zeloso arcebispo jesuíta pretendia solicitar a abertura da sua causa de beatificação e chegou a compará-la à Santa Rosa de Lima. Porém faleceu em 1722. Anos mais tarde, com a perseguição do Marquês de Pombal aos Jesuítas e a proibição de muitos dos seus escritos no Brasil, diversos livros se perderam. Isso dificultou a difusão da sua história. Mas a memória de Madre Vitória não se apagou dentro do convento em que viveu, nem nas mentes daqueles que pela tradição oral, ou pelos poucos escritos que restaram, vieram a saber da sua vida e fama de santidade. E muitos ainda esperam vê-la elevada à honra dos altares.
     Seus restos mortais encontram-se na igreja do Convento de Santa Clara do Desterro e estão depositados acima de uma das portas que ligam o coro de baixo à nave da igreja.
     Em 13 de junho de 2019, a Federação das Clarissas assumiu oficialmente a autoria da causa de beatificação. Em 29 de junho o Frei Jociel Gomes foi nomeado postulador da causa. Em 19 de novembro, Dom Murilo Krieger presidiu a cerimônia de abertura do Processo de Beatificação e Canonização da Madre Vitória da Encarnação, no Convento de Santa Clara do Desterro, seguida de Santa Missa Solene em memória de Todos os Santos da Ordem Seráfica de São Francisco.