quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Beata Lúcia Brocadelli, ou de Narni, religiosa dominicana – 15 de novembro

Martirológio Romano: Em Ferrara, de Emilia, a Beata Lúcia Brocadelli, religiosa, que tanto no matrimônio como no mosteiro da Ordem Terceira Dominicana suportou com paciência muitas dores e humilhações.
 
     Nicolás Brocadelli, tesoureiro em Narni de Úmbria na segunda metade do século XV, se casou com Gentilina Cassio. Deus lhes concedeu onze filhos, dos quais a maior foi Lúcia, que nasceu em Narni, em 13 de novembro de 1476.
     Desde muito pequena Lúcia decidiu consagrar-se a Deus. Aos quatro anos, sua maior alegria era se entreter com uma graciosa imagem do Menino Jesus que ela chamava de “Seu Pequeno Cristo”. Com doze anos fez voto de perpétua virgindade. Mas seu pai faleceu e os tutores da jovem, que viam as coisas de outro modo, trataram de casá-la a força aos 14 anos. Lúcia lançou ao solo o anel de compromisso, esbofeteou o pretendente e saiu correndo da sala. No ano seguinte, foi apresentado outro pretendente, um tal Conde Pedro de Alessio. Lúcia a princípio resistiu, mas uma aparição da Ssma. Virgem e os conselhos de seu confessor a convenceram de que devia ceder.
     A Sagrada Congregação de Ritos determinou em 1729 que no dia da festa da beata se rezasse a missa e o ofício das virgens, o que prova que aceitou a tradição de que Pedro e Lúcia viveram como irmão e irmã. Após três anos de casamento, Pedro deixou sua esposa em liberdade para fazer o que quisesse.
     A beata voltou para a casa de sua mãe, tomou o hábito da ordem terceira de São Domingos e ingressou em uma comunidade de terceiras regulares em Roma. Em 1494 entrou na Ordem Terceira Dominicana de Narni. Foi a Roma e depois a Viterbo.
     Deus lhe concedeu ali, em 25 de fevereiro de 1496, a graça dos estigmas e uma participação sensível na Paixão de Cristo. Durante os três anos que esteve em Viterbo, suas feridas sangravam todas as quartas e sextas-feiras, e, portanto, não podia ocultar este fato. O inquisidor do lugar, o mestre do sacro palácio, um bispo franciscano e o médico do papa Alexandre IV, examinaram os estigmas e ficaram convencidos de que se tratava de um fenômeno sobrenatural. O Conde Pedro foi vê-los e ficou tão convencido que, segundo é relatado, ingressou na Ordem de São Francisco.
     A fama da Beata Lúcia chegou aos ouvidos do Duque de Ferrara, Hércules I, que recordava com veneração Santa Catariana de Siena e era muito amigo das Beatas Estefânia Quinzani, Colomba de Rieti e Osana de Mântua. Com a permissão do papa e o consentimento de Lúcia, o duque construiu um convento para esta em Ferrara.
     Como o povo se opunha a que a beata saísse de Viterbo, ela teve que ser tirada ocultamente em um cesto de roupa no lombo de uma mula. Lúcia, que tinha apenas 23 anos, não tinha aptidão para dirigir uma comunidade. De outro lado, Hercules d’Este, que era um homem que tinha planos amplos e havia gastado somas enormes na construção e decoração do convento, queria que nada menos de cem religiosas ocupassem o convento. Pediu a Lucrécia Borgia (que acabava de converter-se em sua nora) que o ajudasse a reunir as religiosas. Como vinham monjas de diferentes conventos e nem todas eram muito virtuosas, cada vez se tornou mais difícil para Lúcia exercer a função de governo, até que finalmente foi deposta do cargo.
     A Beata foi sucedida por Maria de Parma, que não era terceira, mas dominicana de uma ordem segunda a que toda a comunidade queria se filiar. Em 1505 o protetor de Lúcia faleceu e a beata deixou de ser a “mística da moda” protegida pelo duque de Ferrara e caiu numa obscuridade total que durou 39 anos.
     Além disso, a nova superiora a tratou com uma severidade que se assemelhava à perseguição: não a deixava ir ao parlatório, proibiu-a de falar com alguém a não ser o confessor que lhe havia designado e mandou que uma das religiosas a vigiasse constantemente. Foi nesses anos que a Beata Lúcia, desprezada pelas religiosas do convento que com tanto trabalho havia vindo fundar em Viterbo, se santificou verdadeiramente. Jamais se ouviu uma palavra sua de impaciência, nem sequer quando estava doente e abandonada.
     A beata havia caído em um tal esquecimento, que quando morreu, no dia 15 de novembro de 1544, o povo de Ferrara ficou atônito ao tomar conhecimento de que ela havia vivido até então, pois acreditavam que estivesse morta há muito tempo...
     O culto a Beata logo se tornou popular. Suas relíquias foram transladadas a um local mais público e lhe foram atribuídos muitos milagres. O culto foi confirmado em 1º de março de 1710 por Clemente XI.
     Existem muitos documentos sobre os primeiros anos da vida mística de Lúcia. Edmundo Gardner, em sua obra Dukes and Poets in Ferrara (1904), refere graficamente os principais incidentes relacionados com a beata (pp. 366-381; 401-404 y 465-467). Este relato se baseia na obra de L. A. Gandini, Sulla venuta in Ferrara della beata Lucia da Narni (1901), e a Vita della beata Lucia di Narni de Domenico Ponsi (1711).
     Em 1740 um curioso suplemento desta obra foi publicado, sob o título Aggiunta al libro della Vita della B. Lucia. Há nele uma biografia dos primeiros escritos sobre Lúcia, mas o livro se refere à pretensão dos franciscanos de Maiorca de suprimir uma imagem em que se representava a beata com os estigmas. Os franciscanos alegavam que Sixto IV (que também era franciscano) havia proibido sob pena de excomunhão que se representasse os santos com os estigmas, exceto São Francisco.
     A causa foi levada a Roma em 1740, prevalecendo a causa dos dominicanos. O duque Hercules de Ferrara havia investigado pessoalmente muito a fundo a questão dos estigmas de Lúcia; a carta que escreveu sobre isto pode ser vista no folheto “Spiritualium personarum facta admiratione digna” (1501). Se trata de um documento muito interessante. Ha outra carta do duque em Narratione della nascita, etc., della b. Lucia di Narni (1616) de G. Marcianese.
 
Fonte: «Vidas de los santos de A. Butler», Herbert Thurston, SI
http://www.eltestigofiel.orgindex.php?idu=sn_4180
Beata Lucia Broccadelli (santiebeati.it)

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Beata Edvige Carboni, a mística que lutou pelas almas do Purgatório

     
     Edvige Carboni nasceu em Sássari na noite de 2 de maio de 1880, a segunda de seis filhos de João Batista Carboni (m. 1937) e Maria Domenica Pinna (m. 1910). Recebeu o batismo dois dias depois e a confirmação em 1884, de Mons. Eliseu Giordano; fez voto de castidade em 1885. Ela ingressou na escola em 1886 e terminou três séries de educação.
     A mãe recordava que no nascimento de Edvige tinha visto uma hóstia luminosa na custódia e dizia à filha: "Se eu morrer, deves receber a Sagrada Comunhão todos os dias e deves ser muito boa, porque Jesus, alguns momentos depois de você nascer, mostrou-me uma custódia, como já lhe disse”. Outro fenômeno estranho que ocorreu após seu nascimento foi uma marca sobrenatural da Cruz em seu peito, formada de sua própria carne.
     Sua mãe a ensinou a bordar quando criança e ela trabalhava com seu pai no ramo de bordados. Também passou uma temporada no convento das Irmãs de São Vicente em Alghero, onde as freiras ministravam um curso de bordado. A saúde frágil de sua mãe fez com que ela cuidasse de seus irmãos mais novos, bem como executasse outras tarefas domésticas.
     Na casa da avó havia uma réplica do quadro de Rafael da Virgem Maria com o Menino Jesus; ela subia numa cadeira para alcançar a imagem e dizia à Mãe Santíssima: "Minha mãe, eu te amo. Dê-me teu filho para que eu possa brincar com Ele". Ela foi obrigada a fazer as compras devido aos problemas de saúde de sua mãe, apesar de ter medo de fazê-las à noite. Mas seu Anjo da Guarda apareceu para ela e disse-lhe: "Não tenhas medo. Estou contigo e te mantenho em boa companhia".
     Edvige fez sua primeira comunhão em 1891. Aos 15 anos ela queria se tornar freira, mas sua mãe desaprovou e ela interpretou essa desaprovação como um sinal da vontade de Deus. Em 1895 nasceu sua irmã Paulina; naquele ponto ela tinha irmãos e nenhuma irmã. A partir de 1896, suas visões de Jesus e Maria tornaram-se cada vez mais frequentes.
     Tornou-se professa da Ordem Terceira de São Francisco em 1906 e pertencia a uma associação conhecida como Amigos de Santa Teresinha do Menino Jesus; ela começou a registrar seus pensamentos em um diário espiritual. Sua mãe morreu em 1910 e suas responsabilidades triplicaram.
     Em 1911, aos 31 anos, Cristo lhe teria dito: "Edviges, quero que você seja a efígie da minha paixão". Assim, ela recebeu os estigmas da Paixão do Senhor em seu corpo. Este fenômeno místico não pôde permanecer oculto, causando desconfiança e calúnias das pessoas.
     Ela anotou em seu diário espiritual de 16 de novembro de 1938 como recebeu os estigmas - pois queria sofrer pela glória de Deus - enquanto registrava em seu diário em 12 de junho de 1941 seu primeiro encontro com São João Bosco. O Santo chegou a convidá-la a se inscrever como salesiana em 25 de setembro de 1941. Edvige também recebeu a transverberação e registrou um caso de encontro demoníaco em dezembro de 1941. Suas experiências com o demônio tornaram-se mais agressivas com o passar do tempo. Em uma ocasião, ela foi chutada nas pernas e em outra suas obturações de ouro foram roubadas. Certa vez, ela ficou confinada à cama por um tempo depois que um martelo a atingiu nos joelhos.
     A Beata teve uma série de visões de santos: Santa Rita de Cássia - durante uma peregrinação ao santuário da santa; Santa Teresinha do Menino Jesus, Santa Gema Galgani - a quem ela admirava; ela também participou de sua canonização em 1940; São Paulo, Santa Catarina de Siena - em uma peregrinação de 9 de abril de 1950 ao seu santuário; São Francisco de Assis, e outros.     
     Edvige também teve visitas de São Padre Pio de Pietrelcina em suas visões, apesar de o sacerdote estar vivo. Padre Pio conhecia Edvige e se referia a ela como uma "santa". Ela também conheceu São Luís Orione.
     Ela começou a experimentar a bilocação em 1925 e isso se tornou maior durante a 2ª. Guerra Mundial.
      Em 1929, sua irmã Paulina encontrou um emprego como professora em Marcellina Scalo - uma pequena cidade entre Roma e Tivoli. Seu pai não queria que Paulina fosse embora sozinha, então toda a família se mudou da Sardenha para o continente. Em 1934 ela se mudou para Albano Laziale até a morte de seu pai em 1937, e finalmente se estabeleceu em Roma em 1938. A partir de 1941 passou a fazer parte da Confraria da Paixão de Scala Santa em Roma. Em 11 de agosto de 1941, ela escreveu sobre Jesus permitindo-lhe uma visão do céu. 
   
Edvige passou os últimos quatorze anos de sua vida morando com sua irmã Paulina em Roma. Seu último diretor espiritual foi o padre passionista Inácio Parmeggiani. Seu tempo em Roma a viu ensinar catecismo enquanto cuidava dos pobres e enfermos. Por sua piedade, recebeu elogios do Servo de Deus João Batista Manzella e de padres como Ernesto Maria Piovella e Felice Cappello.
     Ao longo da vida, Edvige precisou cuidar da mãe, da tia, da avó, do pai e, por fim, da irmã Paulina. Sempre o fez com amor e paciência. Ela particularmente amou os pobres. Se algum pobre batesse à sua porta enquanto ela comia, ela daria a ele sua comida. Edvige costumava dizer: "Os pobres são meus amigos mais queridos. Eu daria tudo por eles, brincos, anéis... Eu os amo porque Jesus os ama. No Céu veremos todo o bem que fizemos aos pobres. Eles nos abrirão as portas do Céu".
     Em 17 de fevereiro de 1952, ela se levantou de manhã para assistir à Missa e voltou para casa para uma refeição antes de voltar à igreja para ouvir o padre Lombardi pregar um sermão. Ela e a irmã chegaram em casa de trem às 20h30, quando ela reclamou que não estava se sentindo bem. Sua irmã chamou um médico e dois padres de sua paróquia, que lhe ministraram os últimos sacramentos. Edvige morreu de angina de peito às 22h30 e foi sepultada em Albano Laziale, onde já estavam enterrados seu irmão Galdino e sua esposa.
     Seus restos mortais em um caixão branco foram exumados em outubro de 2015 para inspeção canônica como parte da causa de canonização. Seus restos mortais foram realocados como resultado disso.
Alma vítima para a conversão dos comunistas
     Jesus tinha escolhido Edvige para ser uma alma vítima e ela se ofereceu generosamente para a salvação de outros. Jesus pediu-lhe muitas orações e sacrifícios porque muitas almas corriam o risco de condenação eterna.
     Ela escreveu: "Depois da Santa Comunhão, vi três cruzes. Jesus estava no meio, as outras duas estavam vazias. Então Dom Bosco veio até mim e disse: "Filha, Jesus me deu a tarefa de encontrar almas vítimas para reparar por muitas ofensas que Ele recebe constantemente, especialmente por causa da imodéstia e para que haja paz entre as nações.   Filha, depois de procurar um tanto, eu encontrei você e Gracia. Essas duas cruzes serão uma para você e uma para ela" (diário, 12 de junho de 1941). Gracia era uma das amigas próximas de Edvige, que aos 33 anos consagrou-se a Jesus e ofereceu-se como alma vítima a fim de obter a paz durante a 2ª. Guerra Mundial.
     Jesus pediu a Edvige que se oferecesse como vítima especialmente pelos comunistas. Ela escreveu: "Sonhei com a Virgem Maria que me disse: 'Minha filha, promete-me sofrer toda tribulação, rejeição, desprezo e sofrimento pela conversão dos comunistas".
     Um dia Irmã Gabriela Sagheddu (beatificada em 25|1|1983) uma freira trapista que se ofereceu como vítima para que a Igreja Anglicana se reunisse com a católica, apareceu a Edvige e disse-lhe: "Oferecei-vos como vítima para que os comunistas possam voltar a Igreja".
     Em junho de 1941, Edvige escreveu em seu diário: "Enquanto rezava, entrei em êxtase e São João Bosco apareceu e me disse: 'Minha filhinha, lembre-se que você se ofereceu como vítima pela libertação dos pobres russos do bolchevismo; reze para que logo o Crucificado possa entrar na Rússia".
     "Ontem à noite sonhei comigo mesmo na Rússia. Vi Stalin sentado, com uma pequena mesa à sua frente, onde escreveu em letras grandes estas palavras: ‘Eu sou o forte e terrível inimigo de Deus’, com um rosto feio, o que me assustou ao olhá-lo com atenção. Stalin enviou tropas de soldados para matar as tropas de soldados católicos e eu gritei: "Avante!" e disse aos nossos bons soldados: "Vamos, coragem!" Então gritando, acordei. Stalin é realmente feio, um seguidor do diabo. Devemos também orar por ele, porque Jesus sofreu na cruz e derramou seu precioso sangue por Stalin também". (9 de agosto de 1941)
     Em uma carta que Edvige escreveu ao Pe. Inácio Parmeggiani, ela diz: "Pai, Jesus me disse ontem à tarde: "Minha filha, ore pela salvação dos chineses comunistas. Eles são tão ruins. Até agora prenderam dez bispos. Como eu disse outro dia, um deles é Mons. Guthberth O'Gara, bispo passionista de Nanquim. Jesus me fez ver onde esse passionista estava. Ele estava em uma cela escura. Os guardas o ameaçavam, mas permaneceu em silêncio olhando para o céu. Eu estava gritando e disse a esses homens: 'Vocês são ruins'. Eles me ameaçaram, mas eu estava lá em cima e disseram: 'Ela é a bruxa do Papa. Ela é uma bruxa!' Eu disse a eles: 'Lembrem-se que um dia vocês serão julgados pelo bom Jesus. Se vocês não fizerem penitência, vocês vão para o Inferno'. Eles ficavam repetindo: 'Bruxa! Bruxa!' Pai, rezai pela conversão daqueles irmãos perdidos".
     Paulina lembra que Edvige foi levada duas vezes para visitar o Cardeal Mindszenty na cadeia e que ela falou com ele e com Jesus. (Cardeal Mindszenty também recebeu visitas do Padre Pio e da Irmã Cristina Montella em bilocação durante sua prisão.)
Visões do Céu, Inferno e Purgatório
     Edvige tinha visões de pessoas que tinham ido para o inferno, de almas que estavam no purgatório e pediam sua ajuda, e das almas que entraram no céu.
     Vitalia afirma: "Havia um jovem que morava no prédio de Edvige. Ele nunca ouviu seus conselhos para se arrepender. Ele era um incrédulo e morreu repentinamente de um choque elétrico em seu local de trabalho. Eles tiveram tempo suficiente para levá-lo ao hospital, mas quando ele estava lá, rejeitou o sacerdote e os sacramentos.
     Um dia Edvige o viu cercado de chamas, condenado. Ele a xingava e a recriminava por não ter rezado mais por ele. Jesus consolou Edvige, dizendo-lhe que tinha tido misericórdia para com este homem enviando-lhe um sacerdote, mas que ele o havia rejeitado".
     Jesus também deixou Edvige saber de um dentista na Sardenha que tinha sido condenado: "Minha filha, aquele dentista que morreu há alguns meses não queria me reconhecer como seu pai, e eu não o reconheci como filho".
     Um caso bem conhecido foi a de um padre que durante a 2ª. Guerra Mundial dava conferências negando a presença real de Jesus na Eucaristia em uma Universidade de Roma. Após sua morte, ele apareceu a Edvige que costumava rezar por ele. Disse-lhe que tinha sido condenado por causa dos livros que escrevera contra a fé e por causa do escândalo que ele causou. Para provar a Edvige que não era imaginação, o padre pegou um livro em seu quarto e, ao tocá-lo, ficou completamente queimado.
     Quanto ao purgatório, Edvige escreveu em seu diário em outubro de 1943: "Alguém apareceu e tocou meu pulso e me queimou. Eu não o conhecia. Ele estava vestido de funcionário. e disse: "Eu morri durante a guerra. Gostaria de algumas missas celebradas por Mons. Vitali. Você e sua irmã devem oferecer a Santa Comunhão por mim".
     Depois de ter as missas celebradas e as comunhões oferecidas por suas intenções, ele apareceu-lhe novamente cercado de luz e disse: 'Vou para o céu, onde vou rezar por vocês duas (Edvige e Paulina), e especialmente por Mons. Sou russo, meu nome é Paulo Vischin. Minha mãe havia me educado no Fé, mas quando cresci deixei-me levar por más influências. No momento da morte me arrependi e lembrei do que minha mãe me ensinou quando criança’".
     Em outra ocasião Edvige escreveu: "Sonhei com uma professora que tinha morrido há um mês por causa de um bombardeio. Vi que ela estava em uma luz brilhante, mas seus braços estavam um pouco queimados. O resto de seu corpo era saudável e bonito. Ela disse: 'Olhe para mim agora. Tudo que preciso é de mais uma missa e serei libertada. Por favor, mande Mons. rezar uma para mim'".
     A Virgem Maria disse a Edvige que sua tia estava no purgatório porque muitas vezes ela tinha faltado à missa nos dias santos de obrigação. Seu irmão, Giorgino, também apareceu para Edvige e disse-lhe que ele estava no purgatório e tinha que permanecer lá por oito anos. Ele pediu orações e pegou em sua mão quando se despediu, deixando-lhe uma cicatriz da queimadura que durou até sua morte.
Sinal da Estigma
     No Dia de Finados Edvige se enchia de alegria ao contemplar longas filas de almas que vinham agradecê-la por suas orações ao entrarem no Céu.
     Em 1923, sua amiga Mercedes Farci morreu aos 28 anos de tuberculose. Poucos dias após sua morte, Mercedes apareceu para Edvige vestida de branco e disse que estava gozando da presença de Deus e das alegrias do Céu.
     Jesus permitiu-lhe ter uma visão do Céu. Em agosto de 1941, ela escreveu: "Jesus me disse: 'Vinde e vais ver coisas lindas'. Fui caminhando até um lindo portão que tinha dois anjos, um de cada lado, guardando-o. O portão tinha uma placa que dizia: "Aqueles que são desonestos e imodestos não podem entrar". Os anjos me fizeram entrar. Fico feliz. Entro. Era um pedaço do Céu. Que lindo! Plantas e flores que eu nunca tinha visto antes. O chão estava coberto de pérolas e flores preciosas. Depois, sinalizaram-me para não ir mais longe. Vi um padre salesiano aproximar-se com uma chave na mão e abrir a porta onde estava escrito: "Jardim Salesiano". Lá dentro havia padres e leigos de todas as idades. Era um lindo jardim com plantas e flores que eu nunca tinha visto e todo mundo cantava feliz".
Seu amor por Maria e a importância do Rosário
     Ela escreveu em seu diário em março de 1942: "A Virgem Maria apareceu-me com lágrimas nos olhos. Eu me aproximei dela e disse: 'Por que estais chorando?'
"Estou chorando porque não posso apaziguar a ira do Meu Filho contra a raça humana. Se os homens não fazem penitência, a guerra não acabará e muito sangue será derramado. Minha filha, modas imodestas e desonestidade enfureceram a Deus. Rezai e fazei penitência. Rezai o Rosário frequentemente. É a única arma poderosa para atrair as bênçãos de Céu
"Estou chorando porque não posso apaziguar a ira do Meu Filho contra a raça humana. Se os homens não fazem penitência, a guerra não acabará e muito sangue será derramado. Minha filha, modas imodestas e desonestidade enfureceram a Deus. Rezai e fazei penitência. Rezai o Rosário frequentemente. É a única arma poderosa para atrair as bênçãos de Céu
     Em outra ocasião ela escreveu: "Depois da Santa Comunhão, vi um anjo que tinha belas íris e rosas. Ele me disse: 'Se você rezar o terço todos os dias com fé e atenção, formará rosas a partir das Ave-Marias e íris a partir do Pai Nosso. Eu as reunirei para fazer uma bela coroa que eu lhe darei Céu. Por isso, neste mês de maio, reze o terço com frequência".
     Ela também teve a seguinte visão: "Um dia, depois da Santa Comunhão, encontrei-me numa pradaria, e num trono vi Maria Auxiliadora coberta de um grande manto. Na planície havia uma terrível tempestade de vento e fogo. De repente, São João Bosco apareceu. Ele estava correndo através da tempestade chamando homens e mulheres para se salvarem eles mesmos se escondendo sob o manto de Maria. Milhares se esconderam sob o manto de Maria, mas outros milhares não quiseram entrar e riram daqueles que o fizeram. Dom Bosco, no meio da tempestade, subiu em cima de uma mesa e começou a pregar, dizendo: 'Você vai morrer por causa de sua própria culpa, venha sob a proteção de nossa Mãe Celestial'".
     "Mas eles, tendo coração duro e sendo indiferentes às suas palavras, ficaram surdos à exortação do santo. Eu vi o fogo cercá-los enquanto tentavam escapar. Isso não parecia uma visão para mim, pois sentia que estava acordada com todos os meus sentidos. Ainda hoje, quando me lembro, estremeço ao ver aquelas almas endurecidas que preferiam ser queimadas em vez de obedecer à voz de Dom Bosco. Mas aqueles que estavam sob o manto de Maria estavam seguros".
Beatificação
     O processo de beatificação de Edvige Carboni teve início na Diocese de Roma em um processo diocesano, em dezembro de 1968, e foi concluído algum tempo depois, após ter levado todos os documentos disponíveis e interrogatórios - isso também incluiu seu diário espiritual.
     A Congregação para a Causa dos Santos aprovou sua causa em 2 de maio de 2017; sua virtude heroica foi confirmada em 4 de maio de 2017 e recebeu o título de Venerável.
     O milagre necessário para sua beatificação foi investigado no local de origem e recebeu a validação da Congregação para a Causa dos Santos em 6 de outubro de 2000. Um decreto de 7 de novembro de 2018 permitiu a beatificação de Edvige Carboni; foi realizado em sua Sardenha natal, em 15 de junho de 2019.

 
Fontes:
https://www.mysticsofthechurch.com/2014/02/edvige-carboni.html?m=1
https://www.caffestoria.it/
Edvige Carboni – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)
Italiana Edviges Carboni beatificada na Sardenha - Vatican News
 

domingo, 12 de novembro de 2023

Santa Ana Schäffer e as Almas do Purgatório


Continuação do post anterior
 
Chamada para a dor
     Em junho de 1898, Ana teve uma visão em que Jesus lhe apareceu como o Bom Pastor anunciando um longo e árduo sofrimento: Jesus tinha um terço na mão, ela deveria rezá-lo, e Ele também lhe explicou “que ela teria que sofrer muito, muito...”. No dia seguinte, em pânico, Ana fugiu de Landshut e ninguém conseguiu convencê-la a voltar ao seu trabalho.
     Em seu próximo trabalho, ela era responsável pela limpeza de toalhas de mesa e lençóis. Em 4 de fevereiro de 1901, Ana e outra empregada estavam lavando roupas em um caldeirão com água fervente e água sanitária. Em determinado momento, o tubo da caldeira se soltou e Ana subiu em cima dele para posicioná-lo corretamente. Nesse momento, escorregou e caiu no caldeirão, queimando as pernas até os joelhos. Ela foi levada para o hospital de Kösching imediatamente, mas todas as tentativas de tratamento falharam. Contra todas as probabilidades, no entanto, sua saúde se estabilizou.
     Diante da impossibilidade de fazer algo por ela, após três meses recebeu alta com dores das queimaduras que não pararam, as feridas nos pés não cicatrizaram e as feridas ainda estavam abertas. O atendimento médico em dois hospitais universitários não foi bem-sucedido, e os tratamentos aplicados foram particularmente dolorosos.
     O fato é que em maio de 1902 ela foi definitivamente dispensada como inválida, recebendo apenas uma pensão de 9 marcos. As pessoas que ela conhecia estavam próximas; seu pároco, que trazia sua comunhão quase todos os dias, e algumas outras pessoas apoiavam materialmente ela e sua mãe.
Vítima Expiatória
     Ficou claro para Ana que sua hora havia chegado. Assim, fiel à sua consagração ao amor de Cristo, decidiu que seu sofrimento não seria em vão, por isso ofereceu sua vida e sua dor ao Senhor como expiação pelos pecados e reparação a Jesus. Sua vida era oração, penitência e expiação.
     Anos mais tarde, em 4 de outubro de 1910, ela teve novas visões que chamou de "sonhos", nas quais Jesus confirmou seu plano: “Eu te aceitei para a expiação do meu Santíssimo Sacramento”. Na manhã daquele dia, quando recebia a Santa Comunhão das mãos de seu pároco, cinco raios de fogo, como um raio, atingiram suas mãos, pés e coração: “Imediatamente começou uma dor imensa nessas partes do corpo. Desde outubro de 1910 que sofro essa dor sem interrupção”.
     Com isso, o Senhor enobreceu o sofrimento de Ana, unindo-o ao seu. Ela mesma O imitava, não em rebeldia ou questionamento, mas em doação de si mesma, no espírito de sacrifício, no amor, como Cristo na cruz: “No sofrimento aprendi a amar-te!”, escreveu na época.
     Alguns anos depois, no dia de São Marcos, em 1923, entrou em êxtase e sofreu os sofrimentos da Sexta-Feira Santa. Sua saúde se deteriorou rapidamente: paralisia espástica das pernas, cãibras severas de uma doença da medula espinhal e câncer nos intestinos. Muitos se perguntam como Ana poderia suportar tanto sofrimento. Mas fica ainda pior: ela cai e sofre lesões cerebrais, o que afeta severamente sua capacidade de falar. A partir desse momento, ela também carregou os estigmas de Cristo escondidos.
“Não quero trocar meu leito de sofrimento por outro”
     Tirou forças da Eucaristia quase diária: “Não há caneta com a qual eu possa escrever o quanto estou feliz depois de cada comunhão... Neste momento estou tão feliz que não quero trocar a minha cama de sofrimento por outra qualquer”. É claro que o Senhor não só colocou pesadas cruzes sobre ela, mas também lhe deu conforto celestial.
     Ana crescia cada vez mais em seu amor por Jesus Cristo, o que lhe permitia dedicar-se às necessidades e intenções dos outros. De fato, sua vida era bem conhecida e sua reputação ultrapassa até mesmo as fronteiras da Alemanha, recebendo inúmeras cartas de apoio e pedidos de intercessão da Áustria, Suíça e outros países mais distantes. De sua cama, ela também escreveu cartas de incentivo, recebeu inúmeras visitas e rezou por aqueles que lhe pediram.
     No dia 5 de outubro recebeu o Viático e faleceu dizendo num sussurro: “Jesus, eu vivo em ti!” Sepultada inicialmente no cemitério local, o corpo foi posteriormente transladado para a igreja paroquial de Mindelstetten.
     Considerava o seu sofrimento, a sua correspondência e a sua capacidade de costurar roupas para os amigos as três chaves pelas quais entraria no Paraíso. Ana falava desta maneira sobre as três chaves que Deus lhe havia concedido: “A maior é de ferro e muito pesada, são meus sofrimentos. A segunda é a agulha, e a terceira, a pena. Com todas estas chaves quero trabalhar dia após dia para poder abrir a porta do céu”.
     Porém, tanto em suas cartas como em seus trabalhos manuais, a razão de sua vida é o Coração de Jesus, símbolo do amor divino. Ana representava as chamas do Coração de Jesus não como línguas de fogo, mas como espigas de trigo. A Eucaristia, que ela recebia diariamente de seu pároco é sem dúvida seu ponto de referência. Por isso essa representação do Coração de Jesus é característica desta Santa.
     Ana Schäffer foi beatificada em 17 de março de 1999 por João Paulo II e canonizada por Bento XVI em 21 de outubro de 2012. A sua festa litúrgica é celebrada no dia 5 de outubro.
     O Papa Bento XVI disse que apesar de Ana Schäffer não ter conseguido entrar em uma congregação religiosa, “o quarto da doente foi transformado em uma cela conventual, e os sofrimentos no serviço missionário”. E continuou: “Fortalecida pela comunhão diária, tornou-se uma intercessora incansável na oração e um espelho do amor de Deus para muitas pessoas que procuram conselhos. O seu apostolado de oração e sofrimento, de oferenda e expiação seja um exemplo luminoso para os fiéis da sua terra. Que a sua intercessão intensifique a pastoral dos doentes em cuidados paliativos, no seu trabalho benéfico”.
*
     “Nas horas de sofrimento e durante as muitas noites sem dormir, tenho uma oportunidade imbatível de me colocar em espírito diante do tabernáculo e oferecer expiação e reparação ao Sagrado Coração de Jesus. Ah, como o tempo passa rápido comigo então! Sagrado Coração de Jesus que está escondido no Santíssimo Sacramento, agradeço-vos a minha cruz e os meus sofrimentos, em união com a ação de graças de Maria, Nossa Senhora das Dores”.
     “Oh, quanta felicidade e amor estão escondidos na cruz e no sofrimento... Não passa um quarto de hora sem sofrimento, e há muito tempo não sei o que é viver sem dor. Muitas vezes, sofro tanto que mal consigo falar, e nesses momentos penso que meu Pai que está no Céu deve me amar especialmente”.
     Santa Anna Schäffer
 
Santa Ana Schäffer e o maligno
     Entre as dores que afligiram a vida de Santa Ana Schäffer, não podemos esquecer os duríssimos e prolongados ataques do diabo.
     Como disse o Santo Cura d’Ars: "Os amigos de Deus estão sempre em duro combate com o diabo e especialmente aqueles que, com amor e fidelidade, intervêm para a salvação das almas".
     Grande é o mistério da iniquidade e do ódio de Satanás. Os tormentos que Santa Ana Schäffer teve que suportar nas mãos do diabo foram provações permitidas por Deus. Seu diretor espiritual, ciente de tudo, testifica o seguinte: “Embora imersa nas trevas, atormentada, espancada por Satanás, a pobre Santa Ana Schäffer nunca se recusou a aceitar a vontade de Deus. Dizia sempre o seu ‘sim’ e, assim, manifestava o seu total abandono e a sua insondável confiança na ajuda da graça de Deus. Quando sua alma foi mergulhada na angústia mortal, voltou-se com ilimitada confiança para o Sagrado Coração de Jesus, dizendo-lhe: ‘Sagrado Coração de Jesus, confio em Ti!’ Essa jaculatória era tão querida por ela e lhe dava muita força”.
     Muitas vezes e por muito tempo recebeu duros golpes do maligno. De fato, de seus escritos lemos:
     A noite de 13 para 14 de outubro de 1918 foi muito dolorosa e sofri muito sofrimento. Passava das duas horas da manhã quando ouvi uma carruagem galopando de Hiendorf e passando pela igreja.
     Entendi logo que essa carruagem tinha vindo buscar o padre para levar o Santo Viático a uma jovem daquele país que estava muito doente. Depois de alguns minutos, a carruagem partiu rapidamente em direção a Hiendorf. Acompanhei espiritualmente o Salvador ao longo desse caminho, orando fervorosamente para que aquela pobre menina O recebesse na Eucaristia para que pudesse fazer, unida a Ele, o grande caminho para a eternidade.
     Rezei pela jovem até as quatro e meia, depois caí em um sono muito leve, mas apenas por alguns minutos. Esse pouco tempo, no entanto, foi suficiente para que eu tivesse um sonho muito ruim. Pareceu-me que o maligno estava ali ao meu lado e me batendo com tanta força e por tanto tempo, que quase me tirou o fôlego. O diabo me disse que estava me batendo porque eu tinha rezado muito por aquela jovem. Ele disse: “Você não precisa se preocupar com isso!” Ainda no sonho, comecei a gritar com todas as minhas poucas forças. Entretanto, ouvi pessoas debaixo da janela do meu quarto e reconheci a voz do pároco que disse: “Ana, deves ir imediatamente a Hiendorf; A filha do prefeito morreu!”, mas eu não conseguia me mexer porque continuava levando pancadas. Ouvi minha mãe dizer: “Acorde e não grite tão alto. Eles te ouvem até na rua e já alguns vizinhos vieram bater!” Eu queria responder: “Sim, mãe, mas a filha do prefeito morreu”. Queria responder, mas não conseguia pronunciar uma única sílaba.
     Entretanto, continuei a invocar o Santíssimo Nome de Jesus de todo o meu coração, e depois de alguns instantes acordei completamente. Eram quase cinco horas da manhã. Depois desse sonho ruim, me senti tão fraca que não conseguia falar. Eu fiquei tão enfraquecida e quebrada o dia todo, que era como se todos os meus membros tivessem sido quebrados em dois.
     Eu já tive sonhos terríveis muitas vezes antes, e quase sempre eu saía tão quebrada que eu nem conseguia falar. A filha do prefeito estava realmente morta.
 
Santa Ana Schäffer e São José
     Uma vez tive um sonho com São José. Ele estava em frente à minha cama com um rosto sorridente e disse: “Acorde e prepare-se para a Santa Comunhão”. Acordei imediatamente: eram quatro horas da manhã. Eu sabia que naquele dia não poderia receber a Santa Comunhão. Já dormindo eu tinha sofrido muito por causa dessa impossibilidade. Eu me preparei espiritualmente em frente ao tabernáculo para acolher Jesus na Eucaristia. Duas horas depois, às seis horas, recebi a notícia de que em meia hora eu poderia receber a Santa Comunhão. Quem poderia estar mais feliz do que eu? Talvez São José havia implorado aquela graça e aquela alegria para mim?
 
 
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Do Livro: (Ana Schaffer o misterioso caderno dos sonhos)
Santa Anna Schaffer [PDF] | Documents Community Sharing (zdocs.tips)
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quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Santa Ana Schäffer e as Almas do Purgatório

 
Santa Ana com sua mãe

   
Em seus sonhos sobre o Purgatório, Ana vê as pobres almas sofrendo terrivelmente porque compreendem plenamente quanto mal fizeram a si mesmas por não amarem o Senhor plenamente. A separação do Bem Infinito por culpa própria é a maior das dores dessas pobres almas. Sofrem um fogo dilacerante de saudade do Amor eterno.
     No purgatório também há almas "esquecidas", porque se pensa que elas já estão no Céu e ninguém mais reza por elas. Infelizmente, muitos acreditam que o Purgatório é uma passagem simples, quase indolor, mas a nostalgia daquele Deus vislumbrado no momento do julgamento não pode deixar de queimar. Deus é santíssimo, e somente se a alma for santíssima pode estar diante Dele. E como Deus também é o mais justo, toda dívida deve ser paga “... até ao último cêntimo” (Mt 18, 34), como diz Jesus numa parábola.
     Nota 15 - Deve-se lembrar que a existência do Purgatório é uma verdade de fé, não acreditando na qual se exclui da comunidade cristã.
     É tão importante rezar por estas pobres almas, que a Igreja recorda ao Senhor todas elas em cada Santa Missa que é celebrada. É bom, portanto, que também nos lembremos delas em nossas orações pessoais. Um dia outros se lembrarão de nós em suas orações.
 
Testemunhos sobre o Purgatório
O Amor de Jesus pelas pobres almas
     Das quatro às seis horas da sexta-feira, 19 de abril de 1918, sonhei que estava na igreja. Ajoelhada diante do altar-mor, em adoração a Jesus Eucarístico, rezei por muito tempo. De repente, tudo se tornou luminoso e vi aquele Coração que tanto amava os homens envolto num esplendor indescritível: dele saíram raios de fogo. Continuei rezando para recomendar muitas almas a Jesus. Toda vez que eu orava por uma alma (conhecida ou desconhecida), um raio saía do Sagrado Coração que atingia essa mesma alma, que eu também podia ver naquele momento. No sonho, rezei, dizendo: “Meu Jesus, tende misericórdia!” De repente me vi cercada por tantas almas; todas pareciam abandonadas e me disseram: 'Por mim também!' e foram muitas, tantas que não pude vê-las todas e senti grande angústia e continuei repetindo: ‘Meu Jesus, misericórdia!’ Cada vez uma torrente de luz saía do tabernáculo que parecia iluminar toda a terra; Aí eu acordei.
“Sagrado Coração de Jesus, Rei e centro de todos os corações, tende piedade de nós”.
     No dia 22 de julho de 1918, tive esse sonho com as pobres almas. Parecia-me que ia ver uma mulher muito doente; ela me disse que do quarto dela eu tinha que passar por mais seis e depois ficar muito tempo no sétimo. Fiz o que ela me disse: passei por seis salas e, quando cheguei à sétima, me vi diante de uma porta de vidro pela qual vi que havia muita gente além.
     Uma grande angústia tomou conta de mim e pensei: “Certamente são pobres almas”. No entanto, sem hesitar, abri a porta e gritei: “Meu Jesus, tende misericórdia de todos vocês!” e todas me agradeceram com muita gratidão.
     De todas essas pessoas, uma menina muito jovem começou a falar comigo. Em sua cabeça e bochechas havia um brilho vívido e claro, que eu não percebia nos outros, que, pelo contrário, pareciam muito doloridos. Essa menina cheia de luz me disse que quando estava viva, pertencia à nobreza e que ainda estava expiando seus pecados, particularmente os da linguagem e da vaidade (ela se orgulhava de sua beleza). Então ela pegou minha mão direita e a segurou na frente de sua boca para me fazer sentir o calor que ela tinha que suportar por esses pecados: tal calor vinha de seus dentes que, no sonho, pensei que os ossos de minha mão também tinham sido queimados. Eu estava com medo, então continuei a recitar jaculatórias. Perguntei-lhe então se orações como ‘Meu Jesus, misericórdia’ poderiam trazer-lhes algum alívio. Ela respondeu que no exato momento em que as jaculatórias estavam sendo recitadas para elas por um coração arrependido, elas sentiam grande conforto e alívio.
     Então orei assim por muito tempo, e todas aquelas almas começaram a chorar, exceto a brilhante. Então ela me pegou pela mão, me levou até a janela e disse: “Veja, há o mundo ali fora, e o mundo, cego, não pensa o quanto tudo terá que ser expiado”. Olhando para fora, vi muita gente passando. A alma, toda brilhante, sentou-se junto a uma pequena mesa; os demais, no entanto, não saíram de seus postos. Vendo-a triste, pedi-lhe que me dissesse se ainda havia algo que não estava certo para ela, para que eu pudesse orar mais diligentemente. Também lhe disse: “Se preferires escrever, escreve o que lhe falta”, e entreguei-lhe um pedaço de papel com um lápis. Começou a escrever; na primeira linha estava escrito: “Preciso de uma missa”. Infelizmente, não consegui ler o resto nem mesmo o nome dela... Mas tudo estava muito bem escrito, com caligrafia muito bonita.
     Quando as outras [almas] viram isso, começaram a perguntar se poderiam fazer a mesma coisa, então eu disse a elas: “Anote tudo o que lhe falta”, e dei a elas um lápis e um papel. Infelizmente, não consegui ler nada do que tinham escrito, porque os papéis estavam todos cinzentos. Enquanto essas pobres almas escreviam muitas coisas, continuei a recitar ejaculações para elas e disse: “Por cada um de vocês que estão aqui, ofereço a Santa Comunhão”, e ao mesmo tempo elas começaram a agradecer e chorar. Em seguida, disseram que a Santa Comunhão, a Santa Missa e o precioso Sangue de Jesus eram um conforto e alívio infinitos para eles. Então, no sonho, pensei que tinha ficado nesse lugar o tempo suficiente e que era hora de sair.
Um rapaz de dezoito anos
     Quando olhei ao redor, vi, sentado em um canto, um rapaz de cerca de dezoito anos. Ela segurava um terço na mão e chorava amargamente. Fui até ele e disse: "Não te esquecerei, e farei por você tanto quanto farei pelos outros". Ele ficou muito feliz e me agradeceu.
     Então a alma brilhante me pegou pela mão e me disse: “Agora são doze horas”, e eu repeti: “Que o Senhor Jesus tenha misericórdia de todos vocês; eu não vou esquecer de vocês!” e assim eu saí. Mas não eram doze, mas cinco horas da manhã. “Meu Jesus, misericórdia para com todas as pobres almas do purgatório”.
O menino de doze anos
     Em 21 de outubro de 1918, sonhei com um menino de doze anos que havia morrido pouco tempo antes; mesmo sendo tão jovem, ele também estava no purgatório.
Ele me disse que estava sofrendo muito de sede e me pediu para orar por ele, porque ele estava terrivelmente quente.
     No dia 12 de janeiro de 1919, sonhei que uma menina, entre quatorze e dezesseis anos, chegava ao meu quarto. Quando ela pegou minha mão para se despedir, eu a senti completamente gelada, e então perguntei a ela: “Você é tão fria porque você é um espírito?” e ela respondeu: “Sim, e é por isso que eu vim até você, para lhe dizer: 'Ore por mim'. ninguém faz isso há muito tempo, porque todos agora acreditam na minha visão beatífica de Deus, enquanto eu ainda estou sofrendo no purgatório”. Então perguntei de onde ela era, e ela disse que era de Oberdolling. Por isso, aconselhei-a a voltar aos seus familiares: “Pode ser que eles também voltem a rezar por você”.
     Aquela pobre menina foi, como eu lhe havia dito, [procurar] por seus parentes, mas depois de uma hora ela bateu novamente à minha porta e me disse chorando: “Meus parentes não rezaram por mim” e continuou: “Quando eu morri, tive a Santíssima Virgem como minha poderosa advogada, mas também a padroeira cujo nome levei e outra santa veio em meu auxílio”. Ela também me disse os nomes de seus protetores, mas quando acordei, não consegui me lembrar deles. Eu respondi: “Fique tranquila, vou orar muito por você”, e ela acrescentou: “Minha padroeira já havia me predito tudo isso, pois graças a ela sei de antemão os confortos que receberei”.
     No dia 1º de março de 1919, sonhei com o purgatório três vezes, e cada vez reconheci conhecidos entre aquelas almas.
     No sábado, 29 de novembro de 1919, sonhei que estava no purgatório e vi almas sofrendo indizivelmente. Simplesmente não é possível descrever todo o sofrimento dessas pobres almas! Vi também conhecidos entre elas, que estavam mortos há vários anos e que sofriam muito.
     Em 25 de julho de 1920, sonhei com uma mulher que eu conhecia e que estava morta há muitos anos. Ela ainda estava no purgatório e sofria indizivelmente. Vendo-a assim, disse-lhe: “Embora eu tenha sofrido muito até agora, meu sofrimento não é nada comparado ao seu: é como orvalho fresco!” Aquela mulher me pediu muito: “Reze por mim”. (*)
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     Santa Ana Schäffer (1882-1925) foi uma mulher, de corpo e alma, chamada a oferecer-se em expiação pelos pecados do mundo. Mística, com visões e estigmas, sua vida cheia de dores é um verdadeiro desafio para o mundo de hoje, mais preocupado com o culto ao corpo e à saúde do que com seu bem espiritual. Quando foi canonizada pelo Papa Bento XVI, centenas e centenas de milagres já lhe tinham sido atribuídos, e o próprio Papa pediu “que a sua intercessão intensifique a pastoral dos doentes em cuidados paliativos”.
     Ana nasceu em Mindelstetten, Baviera, Alemanha, em 18 de fevereiro de 1882. Ela era a terceira de seis filhos. Seu pai era carpinteiro e morreu relativamente jovem. Sua infância foi feliz, ela era uma boa aluna e era descrita como “tranquila, modesta e dedicada”. Ana recebeu a instrução elementar na escola de Mindelstetten.
Uma experiência transformadora em sua primeira comunhão 
Santa Ana aos 16 anos
    
Aos 11 anos recebeu a Primeira Comunhão e nesse mesmo dia Ana teve uma profunda experiência de Deus. Só anos depois deu alguns vislumbres do que deve ter vivido e o que descreve como o dia mais bonito de sua vida. Nesse mesmo dia, ela também escreveu uma carta a Jesus, na qual fez algumas promessas importantes: “Meu Jesus, fazei-me holocausto por todas as desonras e ofensas que são cometidas contra ti”.
     Ana imaginou sua entrega a Cristo como missionária religiosa, não como as coisas aconteceriam mais tarde. Dada a pobreza econômica de sua família, ela teve que trabalhar para conseguir o dinheiro do dote para entrar em uma instituição religiosa. Assim, aos 13 anos, ela começou a trabalhar como empregada doméstica e agrícola em Regensburg e, mais tarde, em Sandersdorf e Landshut.
     Três anos depois, aos 16 anos, Ana consagrou-se a Nossa Senhora com uma fórmula que dizia: “Eu te escolho hoje como minha advogada e intercessora, e me comprometo a nunca abandoná-la”. E assim foi, porque durante toda a sua vida a sua relação com Maria foi íntima e ajudou-a a perseverar na sua cruz e até lhe apareceu em sonhos.
 
(*)
Do Livro: (Ana Schaffer o misterioso caderno dos sonhos)
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Continua

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Um santuário para as almas no purgatório - Nossa Senhora de Montligeon

  
   
O lugar deslumbra. Imagine você passeando pelos campos da Normandia, na França. E, ao fazer uma curva na estrada, você se depara com uma basílica imponente. Assim é o Santuário onde todos os dias, desde o século XIX, reza-se pelos fiéis defuntos. E onde as pessoas podem ouvir uma palavra de conforto pela perda de um ente querido.
     O nascimento do Santuário está ligado à história de um padre, o Padre Paul-Joseph Buguet. Dois anos antes de ser nomeado pároco da pequena cidade de La Chapelle, o Padre Buguet, ainda jovem sacerdote, estava profundamente aflito por três falecimentos que tinham ocorrido em sua família.
     No dia 1 de novembro de 1876, seu irmão Augusto foi esmagado pela queda de um sino da Igreja de Nossa Senhora de Mortagne. “E sua alma?” pensava então o jovem padre. Esse acidente trágico foi seguido pela morte de duas sobrinhas, de 12 e 16 anos. “A necessidade de aliviar as almas do purgatório... É preciso que eu trabalhe por libertar essas almas”, anotou ele em seu diário.
     A ideia de criar uma ordem para esse fim germina então em seu espírito. E ela vai se tornar realidade em La Chapelle-Montligeon. Uma das preocupações do Padre era a de rezar e fazer rezar por todos os defuntos, sobretudo por aqueles que não têm quem reza por eles.
     Depois de várias providências, obteve a aprovação do Bispo de sua diocese para os estatutos de sua associação. Tornou-se, como ele mesmo dizia, o emissário das almas do purgatório, indo de diocese em diocese para construir sua obra.
     Em 1887, ele se lança a uma nova aventura: “Procuro conciliar essa dupla finalidade: propagar a oração pelas almas do purgatório e, por outro lado, obter por meio delas um meio de fazer viver os operários”. Com efeito, tendo chegado a Montligeon, ele ficou tocado pela pobreza material e humana dos habitantes da cidade. Ele fundou então uma gráfica para publicar boletins da obra e dar empregos dessa forma.
     A Obra Nossa Senhora de Montligeon, reconhecida pela Santa Sé em 1892, é dedicada à oração pelas almas dos falecidos e, em particular, – como disse a breve oração do Rosário – para os mais necessitados da misericórdia divina.
     Nas próprias palavras do Padre Buguet – retiradas de seus diários –, trata-se de rezar “para o que ninguém reza”, em grupos de oração que hoje já se espalharam por todo o mundo. O Padre Buguet havia fundado anteriormente a “Obra Expiatória para a Libertação das Almas do Purgatório” e foi encorajado pelo Papa Leão XIII que lhe concedeu o título de Protonotário Apostólico.
     Em 1887, após a primeira peregrinação organizada ao local, o fluxo de peregrinos começou a crescer de toda a Franca e do exterior. O renome de Nossa Senhora de Montligeon estendeu-se pouco a pouco pelo mundo.
     Dia 4 de junho de 1896, a primeira pedra da futura basílica foi benta.
     Em maio de 1905, o coro e a nave principal foram terminados.
     A primeira missa foi celebrada em 1 de junho de 1911.
     A 14 de junho de 1918 faleceu o Pe. Buguet. Ele está enterrado no prédio, tendo passado a vida viajando pela Europa para arrecadar fundos e construir a igreja que se tornou uma basílica em 1928.
 
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Nossa Senhora de Montligeon, rogai por nós e pelas almas do Purgatório!
     O Santuário de Nossa Senhora de Montligeon está consagrado a Maria porque Ela é a melhor advogada dos homens junto de Deus e de Seu Filho Jesus Cristo. Por outro lado, se os cristãos a chamam Nossa Senhora Libertadora ou Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, é porque desde há muito conhecem o Seu poder intercessor.
     Em Montligeon invocamos a Virgem Maria por todos os defuntos; com efeito Maria exerce relativamente à vida sobrenatural de todo o homem, uma função comparável à que exerce uma mãe relativamente aos seus filhos durante a sua vida terrestre. Após a morte, Maria não abandona jamais os seus filhos, sobretudo aqueles que já não estão longe de se encontrar com Deus. Maria contribui então para a sua “purificação” tornando-os aptos a ser acolhidos na Cidade Celeste. Ela fá-lo tanto mais de bom grado quanto mais pedimos com confiança a Ela.
     Mantendo-se ao pé da Cruz e unindo-se ao sacrifício do Seu Filho, Maria adquiriu uma grande capacidade de intercessão para todos os homens de quem se tornou Mãe. Permanecendo junto do Coração de Cristo glorificado, Ela deseja ver o mais depressa possível introduzidos na intimidade de Deus as almas que ainda estão no Purgatório.
 
Oração à Nossa Senhora de Montligeon
     Nossa Senhora Libertadora tem piedade de todos os nossos irmãos defuntos especialmente daqueles que mais precisam da misericórdia do Senhor.
     Intercede por todos os que nos deixaram para que se complete neles a obra do Amor que purifica. Faz que a nossa oração, unida à da Igreja, contribua à sua salvação eterna e socorra neste mundo os nossos irmãos na provação ou no pecado.
     Mãe da Igreja, ajuda-nos a viver, aqui na terra, cada vez melhor A nossa passagem para a Ressurreição. Cura-nos de toda a mancha do corpo ou da alma, faz de nós testemunhas do invisível já voltados para os bens que os olhos não podem ver, Apóstolos da Esperança semelhantes às Sentinelas da Aurora.
     Refúgio dos pecadores e Rainha de todos os Santos, reúne-nos todos um dia para a Páscoa Eterna, na casa do Pai, Por Jesus Cristo Nosso Senhor.
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O Santuário de Nossa Senhora de Montligeon, na França, é um centro mundial de oração pelos mortos
     A Basílica de estilo neogótico de Notre-Dame de Montligeon, localizada na região de La Chapelle-Montligeon, na França, a poucos quilômetros da Abadia de La Trapa – onde nasceu a Ordem Cisterciense da Estrita Observância, os Trapistas –, é um centro mundial de oração pelos mortos.
     Consagrada a Nossa Senhora Libertadora das Almas do Purgatório, a basílica está dedicada exclusivamente à oração pelas almas dos mortos. Tanto que todos os vitrais – feitos com paciente dedicação, de 1917 a 1971 – estão dedicados aos temas da escatologia cristã, desde o juízo final até a comunhão dos santos.
     A basílica foi construída pelo arquiteto francês Maître Tessier entre 1894 e 1911, no auge do neogótico, em calcário do Poitou, com duas torres em sua fachada, de sessenta metros de altura cada uma. Está localizada no topo de uma esplanada, ao leste de Mortagne-Au-Perche.
     Todos os anos, milhares de peregrinos vêm aqui em busca de conforto e esperança e para confiar seus mortos a Nossa Senhora Libertadora.
     A origem deste trabalho é simplesmente a intuição espiritual do Padre Buguet. Em conexão com esta oração, o Santuário desenvolve um ministério de compaixão e consolação para todos aqueles que estão de luto.
 


Fontes:

O santuário de Notre-Dame de Montligeon - Sanctuaire de Montligeon

Um santuário para as almas no purgatório (aleteia.org)

Blog do Deiber: Nossa Senhora de Montligeon

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Maria Santíssima, Mãe e Consoladora do Purgatório



Maria pode socorrer as Almas
     Um dia, escreve Santa Brígida nas suas Revelações, disse-me a Virgem Santíssima:
     - “Eu sou a Rainha do céu, eu sou a Mãe de misericórdia, e o caminho por onde voltam os pecadores a Deus. Não há pena no purgatório que não se alivie e que por mim não se torne menor do que se o fora sem mim” (1)
     Outra vez a Santa ouviu Jesus dizer à sua Mãe:
     - “Tu és minha Mãe, és a Rainha do céu, és a Mãe de misericórdia, és o consolo dos que estão no purgatório e a esperança dos pecadores na terra” (2)
     A providência maternal de Nossa Senhora se estende sobre seus filhos na terra e no purgatório. Ela nos socorre e ajuda até depois da morte nas chamas expiadoras. É uma verdade de fé que as almas do purgatório podem ser não só aliviadas em seus padecimentos, mas até libertadas das chamas expiadoras pelas orações, satisfações e boas obras, e pelo Santo Sacrifício da Missa, enfim, pelos sufrágios dos vivos. Todavia, a Igreja nada definiu sobre o socorro que possam os Santos do céu dar às almas padecentes. Não houve necessidade de uma definição, porque o que os hereges contestaram desde Lutero principalmente, foi o sufrágio dos vivos e até a existência do purgatório. Quem, entretanto, pode negar que a Igreja Triunfante possa auxiliar a Igreja Padecente?
     Segundo Santo Tomás de Aquino, duas coisas concorrem para que o sufrágio dos vivos aproveite aos mortos: a caridade que une a todos, e a intenção que tem eles de socorrer os mortos. Quanto ao primeiro, nenhum meio existe maior de um vínculo de caridade que o Santo Sacrifício da Missa, o Sacramento que é o vínculo dos fiéis da Igreja. Quanto à outra, a oração, tem a vantagem de levar nossa intenção diretamente a Deus quando se invoca a Divina Misericórdia.
     Ora, quem pode negar que os Santos do céu já purificados, possuam a caridade em estado de perfeição na glória e a intenção reta de ajudar às benditas almas sofredoras? Quem melhor do que eles conhece o sofrimento daquelas almas? Não há dúvida, os Santos na glória podem e socorrem as almas do purgatório. Quanto mais a Rainha dos Santos!
     Contestaram alguns com subtilidades teológicas que Maria nada poderia fazer pelas almas entregues à Justiça Divina no purgatório.
     “Alguns autores, diz o piedoso Pe. Faber, pretendem que a Santíssima Virgem não pode ajudar as almas do purgatório senão de uma maneira indireta, porque não está mais em estado de satisfazer por elas. Não gosto de ouvir isto. Não gosto que falem de uma coisa que nossa terna Mãe não possa fazer” (3)
     Pois se Maria tem todo poder no céu e na terra, se é Mãe dos remidos, Mãe de Deus, não há de poder socorrer como e quando queira os seus filhos da Igreja Padecente?
     Sim, não há teólogo seguro que o conteste, e a tradição de tantos séculos confirma esta consoladora verdade: Maria socorre seus fiéis servos depois da morte. Estende até o purgatório seu manto protetor de Mãe e Refúgio dos pecadores.
Como socorre Maria as almas sofredoras?
     Há muitas maneiras do poder misericordioso de Maria socorrer as benditas almas padecentes. O primeiro meio e mais frequente, diz o Pe. Terrien, S. J. (4) é o pensamento e a vontade que inspira aos fiéis ainda vivos neste mundo, de orar, sofrer e trabalhar pela libertação das pobres almas. Quantos devotos de Nossa Senhora não sentem de repente uma inspiração, um desejo de sufragar os seus mortos queridos ou o desejo de trabalharem pelo sufrágio do purgatório! É a Mãe bendita quem inspira estes bons desejos e resoluções. Não tem Ela nas mãos os corações de seus filhos? Um dia um santo Irmão coadjutor da Companhia de Jesus orava fervorosamente diante de uma imagem da Virgem Imaculada. Enquanto rezava, veio-lhe um certo escrúpulo do pouco zelo que tinha em orar e sufragar as almas do purgatório. Uma voz misteriosa lhe disse, então:
     - “Meu filho, meu filho, lembra-te dos defuntos!
     - Sim, minha Mãe, o farei doravante, respondeu o piedoso Irmão. E desde aquele dia se entregou às boas obras e sacrifícios e orações pelas almas (5).
     Quantas vezes Nossa Senhora em tantas revelações particulares pediu orações pelos mortos! Ainda em Fátima recomenda aos Pastorinhos a jaculatória: Meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, aliviai as almas do purgatório, especialmente as mais abandonadas! Maria, pois, ajuda os fiéis do purgatório inspirando sufrágios aos seus filhos da terra e depois, oferecendo por estas almas cativas, não as satisfações atuais, pois no céu não há sofrimento nem expiação, mas o que Ela padeceu e mereceu neste mundo. Haverá maior tesouro depois dos méritos de Cristo que os méritos de Maria?
     Maria Santíssima, pois, por estes dois meios pode e realmente socorre as almas. A Igreja, na sua liturgia, confirma esta piedosa crença e esta verdade consoladora quando assim ora na Missa dos Defuntos:
     “Ó Deus, que perdoais aos pecadores e desejais a salvação dos homens, imploramos a vossa clemência por intercessão da Bem-aventurada Maria sempre Virgem, e de todos os Santos em favor de nossos irmãos, parentes e benfeitores que saíram deste mundo, a fim de que alcancem a bem-aventurança eterna”.
     Por terem as almas maior precisão de socorro, escreve Santo Afonso de Ligório, empenha-se a Mãe de Misericórdia com zelo ainda mais intenso em auxiliá-las. Elas muito padecem e nada podem fazer por si mesmas. Diz São Bernardino que Maria desce ao cárcere do purgatório onde tem certo domínio e poder para aliviar e libertar estas esposas de Jesus Cristo. Traz alívio às almas. Aplica-lhes o Santo esta palavra do Eclesiástico: ‘Caminho por sobre as ondas do mar’ (6). Compara as ondas às penas do purgatório, porque são transitórias, e por isso diferentes das do inferno, que nunca passam. Chama-as ondas do mar porque são penas muito amargas. Os devotos da Virgem, aflitos com estas penas, são por Ela visitados e socorridos frequentemente. Eis, pois como socorre Maria as almas do purgatório.
Nossa Senhora do Carmo, Mãe do Purgatório 
    
As aparições da Virgem Misericordiosa a São Simão Stock e ao Papa João XXII são muito conhecidas e hoje a piedade de toda Igreja tem na devoção à Virgem do Carmo um motivo para chamar a Nossa Senhora Mãe e Rainha do purgatório. Diz a Mãe de Deus a São Simão: “Recebe, meu querido filho, este escapulário de tua Ordem como sinal distintivo da minha confraria e prova de privilégio que obtive para ti e para os filhos do Carmo. Aquele que morrer revestido do escapulário será preservado das penas do outro mundo. É um sinal de salvação, uma defesa nos perigos, o penhor de paz e proteção especial até o fim dos séculos”.
     Promete a Virgem a proteção aos seus fiéis devotos do escapulário. Esta promessa foi confirmada setenta anos depois, após uma revelação feita por Maria ao Papa João XXII. Declarou este Pontífice numa Bula, que estando em oração, Maria lhe apareceu e disse: “João, Vigário de meu Filho, és devedor da alta dignidade a que chegaste a mim, que pedi por ti. Eu te livrei dos laços dos teus adversários; espero de ti uma confirmação da Ordem do Carmo, que me foi sempre especialmente dedicada. Se entre os religiosos ou confrades, quando morrerem, se acharem alguns cujos pecados tiverem merecido o purgatório, eu descerei como terna Mãe no meio deles, no purgatório, no sábado que seguir a sua morte. Livrarei aqueles que eu lá encontrar e os levarei à Montanha Santa, à feliz morada da vida eterna”.
     É Maria revelando-se Mãe carinhosa das almas do purgatório.
     A arte cristã sempre representa a Virgem do Carmo estendendo o seu escapulário sobre o purgatório onde as almas em meio das chamas expiadoras levantam os braços e olhos suplicantes implorando a misericórdia da boa Mãe e procurando no escapulário um meio de saírem das chamas.
     Como isto é significativo e simbólico! Não é esta a Missão da Virgem Santíssima, Consolo e alívio e libertação do purgatório e o que encontram com segurança os devotos verdadeiros de Maria Santíssima? Podemos crer no grande privilégio dos Carmelitas. A Sagrada Congregação das Indulgências em 1° de dezembro de 1886 decidiu: “Seja permitido aos Padres Carmelitas pregarem ao povo que se pode crer piedosamente na assistência que esperam os Irmãos e confrades da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, a saber: que esta Senhora ajudará com suas orações contínuas e sufrágios e méritos e com uma proteção especial depois da sua morte (principalmente ao sábado, dia que lhe está consagrado pela Igreja), aos Irmãos e confrades falecidos na caridade, com a condição de que tenham levado durante a vida o escapulário, guardado a castidade de seu estado, rezado o Ofício Parvo, ou se não puderam rezá-lo, que hajam observado os jejuns da Igreja e abstido de carne nas quartas e sábados”. 
    
Este decreto foi publicado em Roma em 15 de fevereiro de 1615 pelo Santo Ofício. Ora, não é a Igreja confirmando a consoladora doutrina da assistência e proteção de Maria sobre o purgatório? Invoquemos sempre a Mãe querida das pobres almas do purgatório. Sejamos devotos da Virgem do Carmo e do Santo Escapulário.
Exemplo: Maria liberta as santas almas nas suas festas
     Diz o Venerável Dionizio Cartuziano que cada ano, nas grandes festas, a Mãe de Deus desce ao purgatório e liberta muitas almas do sofrimento, levando-as para a glória, sobretudo nas festas da Páscoa, do Natal e da Assunção. São Pedro Damião conta a propósito um caso que diz ter ouvido de um sacerdote fidedigno. Vou traduzi-lo do latim tal como o deixou escrito São Pedro Damião:
     “Uma mulher em Roma entrou no dia da Assunção na basílica erigida em honra da Santíssima Virgem no Capitólio. Grande foi a sua surpresa ao ver ali uma das suas vizinhas, que um ano antes havia morrido. Não podendo chegar-se a ela pela multidão que enchia o templo, foi esperá-la ao sair da igreja numa das ruas estreitas da cidade, por onde havia de passar.
     - Não és Marozia, minha vizinha, lhe perguntou, que morreu há cerca de um ano?
     - Sim, sou eu mesma.
     - E como estás aqui?
     E Marozia confessou que havia sofrido muito no purgatório por umas faltas da meninice e acrescentou: ‘Hoje, porém a Rainha do mundo rogou por mim e tirou a mim e a muitas outras almas do lugar da expiação e é tão grande o número das almas libertadas, que sobrepuja aos habitantes de Roma. Eis porque visitamos, em ação de graças, os lugares consagrados à nossa gloriosa Rainha’.
     E como prova da verdade da aparição, anunciou que a sua amiga dentro de um ano morreria também. O que de fato aconteceu”.
     Santa Francisca Romana, favorecida com tantas visões, contemplou também, num dia da Assunção, o triunfo de Maria e uma multidão de almas libertadas do purgatório pela intercessão da Mãe de Misericórdia. — (S. Petr. Damian. Opusc. XXXIV — Disput. de variis apparition, et miraculis. C. 3. P L. CXLV — 586-587.).
 
Observações:
(1) Revel. Sanct. Birgitae — I, VI.
(2) Idem — Cap. X, I — Cap. XVI.
(3) Faber: “Tudo por Jesus” — C. IX — Purgatório, 5.
(4) Terrien, S. J. — La Mere de Dieu et La Mere de homes — Tom. II — Lib. X, cap. II.
(5) La Puente — Vida del P. Baltazar Alvares — C. 44.
(6) Eccl. XXXIV, 8 — “Glórias de Maria” — Santo Afonso — I. par. Cap. VIII.
 
(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 Meditações e Exemplos sobre o Purgatório e as Almas. 1948, p. 162-169)
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