quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Baronesa Herbert de Lea: convertida à fé católica – 30 de outubro

     
     Maria Elizabeth Ashe à Court-Repington nasceu em Richmond, Surrey, em 21 de julho de 1822. Era a única filha do tenente-general Charles Ashe à Court-Repington, membro do Parlamento, e sobrinha de William à Court, 1º Barão Heytesbury, embaixador britânico na Corte Imperial Russa em São Petersburgo.
     Em agosto de 1846, aos 24 anos, casou-se com o Honorável Sidney Herbert, segundo filho do 11º Conde de Pembroke.
     Durante a Guerra da Crimeia (1853-1856), seu marido foi nomeado Secretário de Guerra e, em 1862, 1º Barão Herbert de Lea e um par do reino, mas morreu em poucos meses, deixando Lady Herbert viúva aos 39 anos de idade, com quatro filhos pequenos e três filhas ternas.
     Seu filho mais velho, Jorge, herdou o baronato e, no ano seguinte, sucedeu seu tio como 13º Conde de Pembroke e 10º Conde de Montgomery.
     Por muitos anos, Lady Herbert sentiu-se atraída pela Igreja Católica, mas hesitou muito em se converter, por medo de que seus filhos pequenos fossem tirados dela. Antes de sua própria conversão à fé católica em 1851, o futuro Cardeal Manning tinha sido um amigo íntimo e até mesmo diretor espiritual para ela e seu marido. Mas não querendo criar dificuldades políticas para seus nobres amigos, o douto convertido havia interrompido todo o contato.
     Um dia, Lady Herbert não resistiu mais e foi visitá-lo. Ajoelhada diante dele, ela pediu sua bênção, que ele deu em silêncio.
     Cada vez mais atraída pela fé, ela abriu o coração e revelou seus medos ao futuro cardeal. Perguntou-lhe se tinha ouvido falar de Santa Joana Francisca de Chantal. Quando esta santa disse aos filhos que estava decidida a entrar na vida religiosa, um filho deitou-se do outro lado da porta para impedir que ela saísse. Mas, destemida, a santa havia passado sobre ele. O exemplo ajudou Lady Herbert a encontrar a força moral para se converter. Abjurou o anglicanismo e entrou na Igreja Católica em 1866, cinco anos após a morte do marido.
      Tornou-se uma "ultramontana fervorosa", ou seja, uma forte defensora do Papado e de seus direitos, e seu grande amigo espiritual, agora arcebispo de Westminster, acabou sendo o grande campeão inglês para a proclamação do dogma da infalibilidade papal em 1870, durante o Concílio Vaticano I.
     Seus filhos foram tirados dela e feitos alas na Chancelaria, sendo criados na Igreja da Inglaterra. Apenas sua filha mais velha, Maria, a seguiu na fé católica.
     
Lady Herbert continuou a ter muita influência na alta sociedade britânica. Ela escreveu e traduziu extensivamente, trazendo para o inglês de seu original francês, o aclamado Garcia Moreno, do padre Agostinho Berthe. Após sua conversão ao catolicismo, ela viajou para Roma em peregrinação quase anual.
     A Baronesa Herbert de Lea morreu em Herbert House, em Londres, em 30 de outubro de 1911.
 
* Cf. Como entrei no rebanho por Lady Herbert de Lea
Contos sobre Honra, Cavalaria e o Mundo da Nobreza — nº 400
Baronesa Herbert de Lea: uma convertida à fé católica - Nobreza e elites tradicionais análogas (nobility.org)

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Beatas Maria Clotilde Ângela de São Francisco de Borgia Paillot e suas cinco companheiras, Virgens e Mártires da Revolução Francesa – 23 de outubro

   
    
No final do século XVIII, em 14 de julho de 1789, a França foi duramente golpeada pela Revolução. Foi um momento de importantes transformações para praticamente todas as sociedades ocidentais. Foi também um período conturbado, sangrento, em que profundas injustiças foram cometidas.
     No dia 30 de setembro de 1790, os comissários da municipalidade de Valenciennes, de acordo com o decreto da Constituinte, se apresentaram no convento das Ursulinas para inventariar os bens da comunidade e para questionar se as irmãs tinham a intenção de perseverar na sua vocação.
     Havia então 32 irmãs no convento e a superiora era Madre Clotilde Paillot (* 25/11/1739 - + 23/10/1794), que tinha sido eleita no dia 13 de fevereiro do mesmo ano. A resposta das irmãs foi unânime: pretendiam continuar Ursulinas, devotadas à educação das jovenzinhas da cidade.
     Em 13 de setembro de 1792, Valenciennes foi assediada pelas tropas inimigas e no dia 17, tendo sido solicitado seu convento para os defensores da cidade, as Ursulinas foram obrigadas a procurar hospedagem junto às coirmãs de Mons, Bélgica. No dia 6 de novembro as tropas francesas, tendo vencido a batalha de Jammapes, ocuparam Mons, o que obrigou as Ursulinas, algumas semanas depois, a se mudarem novamente.
     Mas a ocupação francesa em Mons durou pouco. Derrotadas na batalha de Neerwinden, as tropas francesas a evacuaram em 21 de março de 1793. As Ursulinas de Valenciennes podiam pensar em retornar à sua cidade, já que os austríacos, possuidores da cidade, encorajavam a reconstituição da comunidade.
     Quando as religiosas chegaram à sua casa, iniciaram logo os trabalhos de restauração, pois fora saqueada. As irmãs não tardaram em retomar com toda intensidade suas atividades, tanto que em 29 de abril de 1794 houve uma profissão e uma vestição em seu convento.
     Em 26 de julho as tropas francesas conseguiram uma grande vitória em Freurus e em 26 de agosto os austríacos se retiraram de Valenciennes. Algumas irmãs permaneceram no convento com Madre Clotilde e foram aprisionadas em 1º de setembro e mantidas encarceradas em suas próprias celas. As outras foram procuradas e aprisionadas com numerosos outros suspeitos.
     O representante da Convenção era então um certo João Batista Lacoste, um dos personagens mais repugnantes daquela época. A sua grande ânsia era poder dispor de uma guilhotina, o que se tornara para ele uma verdadeira obsessão. Ele recebeu uma somente no dia 13 de outubro.
     Naquela data, o golpe de Estado do 9 termidor (27 de julho de 1794) já ocorrera, mas ele não levou isto em conta e mandou instalar a máquina sinistra, e naquele mesmo dia cinco condenados foram guilhotinados.
     No dia 15 de outubro, às nove horas da noite, 116 suspeitos foram reunidos no município e colocados à disposição do tribunal constituído ilegalmente por Lacoste. Eram particularmente numerosos os padres e as religiosas. A razão para condená-los era ocultada sob a acusação de traição e emigração. Os prisioneiros se encontravam em condições higiênicas incríveis e em grande promiscuidade, mas muitas irmãs puderam aproveitar para confessar-se e comungar.
     As primeiras Ursulinas a comparecerem diante do tribunal no dia 17 de outubro, juntamente com os padres refratários, foram guilhotinadas naquele mesmo dia.
     O segundo grupo de religiosas foi martirizado no dia 23 de outubro de 1794: Madre Maria Clotilde de S. Francisco de Borja foi a primeira a ser guilhotinada; Irmã Maria Escolástica de S. Tiago (Margarida José Leroux), aprisionada no mesmo tempo que sua irmã Ana Josefa, chamada Josefina, professa nas Clarissas de Nuns, que fora obrigada a deixar a clausura por causa das leis emanadas durante a Revolução e se retirara entre as Ursulinas, junto à irmã; duas brigidinas: Maria Lívia Lacroix e Maria Agostinha Erraux; a última, uma conversa, Irmã Maria Cordola Josefa de S. Domingos (Joana Luísa Barré)
     É preciso salientar o aspecto do testemunho dado pelas 11 religiosas por ocasião do processo que as mandou para a morte. A priora, Madre Clotilde Paillot, deu aos juízes respostas dignas dos mártires da Igreja primitiva e manifestamente inspiradas pelo Espírito Santo.
     Condenadas, as irmãs cortaram, elas mesmas, seus cabelos e desguarnecerem seus hábitos em volta do pescoço para facilitar a obra da guilhotina. Ansiosas por dar a conhecer o perdão aos seus perseguidores, apressaram-se em beijar as mãos de seus algozes. Subiram o patíbulo recitando o "Te Deum" e as ladainhas da Virgem.
     As 11 religiosas guilhotinadas em Valenciennes foram beatificadas por Bento XV em 13 de junho de 1920, junto com 4 Filhas da Caridade de Arras.
     As religiosas guilhotinadas no dia 23 de outubro têm sua festa litúrgica neste dia.
 
Fonte:
Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus: Beatas Clotilde Paillot e companheiras, Mártires (assassinadas na Revolução Francesa).

domingo, 20 de outubro de 2024

Santa Adelina de Mortain, Abadessa - 20 de outubro


     
Adelina, ou Aline, foi a primeira abadessa da Abadia das “Damas Brancas” em Mortain, no departamento da Mancha, Normandia, Diocese de Coutances, França.
     Era irmã de São Vital, Abade de Savigny (*), como ele atraída pela vida monástica, e fundou um grupo de monjas em Neufbourg, próximo de Mortain. Logo que Vital mandou construir um convento em Mortain a comunidade ali se instalou adotando a regra e o hábito cisterciense. Chamavam-na “Abadia das Damas Brancas” e mais tarde “Abadia Branca”.
     Martirológio Romano: Em Savigny, na Normandia, por volta de 1125, Santa Adelina, primeira abadessa do mosteiro de Mortain, que ela havia construído com a ajuda de seu irmão São Vital.
 
 
(*) São Vital de Savigny (ca. 1060 - 16 de setembro de 1122) foi o fundador canonizado da Abadia de Savigny e da Congregação de Savigny (1112).
 
     Ele nasceu Vital de Mortain na Normandia em Tierceville perto de Bayeux por volta de 1060–5. Seus pais eram Rainfred le Vieux e Rohais. Não sabemos nada de seus primeiros anos; após a ordenação, ele se tornou capelão do irmão do duque Guilherme, o Conquistador, Roberto de Mortain (falecido em 1090). Vital ganhou o respeito e a confiança de Roberto, que lhe concedeu um canorário na igreja da abadia de Saint Evroul em Mortain, que ele fundou em 1082.
     Mas Vital sentia dentro de si o desejo de um estado de vida mais perfeito. Ele desistiu de seu canonismo em 1095, estabeleceu-se em Dompierre, 19 milhas a leste de Mortain, e se tornou um dos líderes da colônia eremita da floresta de Craon. Ali por dezessete anos ele viveu uma vida ascética e foi chamado Vital le Vieux ("Vital, o Velho"), derivado do nome de seu pai. Ao mesmo tempo, ele se preocupou, como seu mentor Roberto d’Arbrissel, com a salvação da população circundante, dando ajuda prática aos párias que se reuniam ao seu redor.
     Ele foi um grande pregador, notável pelo zelo, insensível ao cansaço e sem medo de falar; diz-se que ele tentou reconciliar Henrique I da Inglaterra com seu irmão, Roberto Curthose. Ele parece ter visitado a Inglaterra e uma parte considerável do oeste da França, mas a Normandia foi o cenário principal de seus trabalhos.
     Entre 1105 e 1120 ele fundou um mosteiro de freiras, Abbaye Blanche, em Mortain, com sua irmã Adelina - mais tarde canonizada – como abadessa. Ele morreu em Savigny, em 16 de setembro de 1122.

Santa Adelina de Mortain, Abadessa


 

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Beata Maria Ângela Truszkowska, Fundadora – 10 de outubro

   
     
Sofia Camila Truszkowska nasceu no dia 16 de maio de 1825 em uma família abastada de Kalisz (Polônia). Veio ao mundo prematuramente e com a saúde muito frágil, foi batizada só em 1° de janeiro de 1826.
    Recebeu em casa a primeira instrução, dada por uma senhora dotada de excelentes qualidades intelectuais e morais. A menina logo se tornou vivaz e de bom coração; desde pequena tinha um olhar especial para os pobres. A mãe, atenta e zelosa, dedicava a ela, que era a primogênita, e aos irmãos todo o seu dia.
    Quando Sofia Camila Truszkowska tinha doze anos de idade, sua família mudou-se para Varsóvia, onde seu pai assumiu o cargo de Secretário de Obras. Em Varsóvia, Sofia frequentou a prestigiosa Academia de Madame Guerin; seu professor foi o poeta Estanislau Jachowicz que infundiu nela sentimentos bons e altruístas.
    Ela foi obrigada a interromper os estudos quando, aos 16 anos, contraiu a tuberculose. Para curar-se, permaneceu um ano na Suíça. Nesse período, Sofia amadureceu a inclinação pela solidão e, contemplando o majestoso cenário dos Alpes, sentiu o desejo de consagrar-se ao Senhor. No futuro afirmaria que ali aprendeu a rezar. De volta para Varsóvia, iniciou uma atividade caridosa em favor dos pobres, enquanto enriquecia sua cultura graças à vasta biblioteca paterna, e frequentava assiduamente os Sacramentos. Pensou entrar no Mosteiro das Visitandinas, mas, seguindo a sugestão do confessor, dedicou-se no cuidado do pai doente.
    Uma noite, Sofia, cansada após um dia de trabalho, adormeceu durante suas longas orações diante do quadro de Nossa Senhora de Czestochowa. De algum modo a moldura do quadro e seu vestido pegaram fogo proveniente de uma vela. A Sra. Kotowicz foi a primeira a detectar a fumaça e o cheiro que vinha do quarto de Sofia. Vendo a jovem em chamas, a governanta lançou-se sobre ela com um grito que acordou o resto da família que dormia.
    Após o fogo ser debelado, a família descobriu surpresa que nem Sofia nem a imagem de Nossa Senhora tinham sofrido dano. O incidente foi visto por todos como algo muito incomum. Daquele dia em diante a imagem de Nossa Senhora foi cercada de uma ainda maior devoção.
    Retornando das termas de Salzbrunn (cidade termal no condado de Wałbrzych, Baixa Silésia, no sudoeste da Polônia) onde estivera acompanhando o pai, permaneceu em Colônia. Entre as ogivas silenciosas da Catedral de Colônia compreendeu que o Senhor a queria por esposa, embora não soubesse ainda como.
    Sofia tinha muita compaixão pelos pobres, os sem casa, e os negligenciados. Quando na primavera de 1854 a paróquia da Sagrada Cruz organizou a Sociedade de São Vicente de Paulo, Sofia foi uma das primeiras a se inscrever e a oferecer seus serviços, e começou a trabalhar entre os pobres. Com auxílio financeiro de seu pai, ela alugou um apartamento a fim de cuidar de várias meninas órfãs dos bairros pobres de Varsóvia, e de idosas sem casa.
    Sofia recebeu em seu trabalho a companhia de sua prima e amiga, Clotilde Ciechanowska. Esta obra ficou conhecida como Instituto da Senhorita Truszkowska. Sua habilidade e dedicação atraíram muitas voluntárias e devotos amigos influentes, de modo que a obra do Instituto floresceu.  Mais tarde naquele ano, elas se inscreveram na Ordem Terceira Franciscana, tendo Sofia tomando o nome de Ângela. Seu pai espiritual era o capuchinho Padre Honorato Kozminski (1829–1916), ele também declarado beato posteriormente. Ele tornou-se seu confessor até a sua morte.
    Após um período de contatos diários com os pobres, entretanto, ela se convenceu de que assistência irregular e esporádica, especialmente nos casos de órfãos, era de pouco benefício para eles. Ela então decidiu estabelecer um instituto onde os necessitados e os pobres pudessem receber cuidados permanentes e uma educação apropriada. Na ocasião Sofia era uma mulher de 29 anos.
    Na Festa da Apresentação da Bem-aventurada Virgem Maria, 21 de novembro de 1855, enquanto rezavam diante da imagem de Nossa Senhora de Czestochowa, ela e sua prima se dedicaram solenemente a fazer a vontade de Jesus Cristo em todas as coisas. Este foi registrado como o dia oficial da fundação da Congregação das Irmãs de São Félix de Cantalice.
    Muitas vezes ela levava os órfãos à igreja dos Capuchinhos de Cracóvia, dedicada a São Felix de Cantalice. Ali rezava diante do quadro que representava São Felix abraçando o Menino Jesus. No Divino Redentor feito homem meditava o amor misericordioso de Deus que chama para Si a humanidade. Como o santo capuchinho, ela também desejava abraçar e ajudar, em nome do Senhor, todos os pobres que encontrasse no caminho.
    As pessoas passaram a chamá-las de "Irmãs de São Felix", em referência ao santuário de São Félix de Cantalice. Elas ficaram popularmente conhecidas como as "Irmãs Felicianas," nome pelo qual a comunidade é ainda conhecida.
    O número de órfãos aumentou em pouco tempo e o Beato Honorato foi nomeado Diretor do Instituto. Em 10 de abril de 1857, com nove companheiras, Ângela vestiu o hábito religioso, tomando o nome de Irmã Maria Ângela. A comunidade agregou-se a Ordem Terceira Franciscana. Era um tempo difícil para a Polônia, que estava sob a ocupação russa. O Instituto foi reconhecido somente como uma obra de caridade, pois as Congregações religiosas estavam proibidas.
    Contudo, Madre Maria Ângela mantinha sua Congregação em segredo, e o desenvolvimento da obra foi grande: em apenas sete anos 34 casas foram abertas. Além disso, um ramo contemplativo nasceu para atrair todas aquelas que aspiravam pela clausura. Hoje este ramo tem o nome de Irmãs Capuchinhas de Santa Clara. A Madre, como era chamada, embora mantivesse o governo dos dois institutos, se retirou no ramo contemplativo. Foi eleita Superiora em 1860 e confirmada em 1864.
    Em 1863, o povo polonês se insurgira contra o invasor: as Irmãs Felicianas transformaram suas casas em hospital para tratar dos feridos, indistintamente poloneses e russos. Em 16 de dezembro de 1864, suspeitando que as Irmãs apoiavam os insurgentes, os russos suprimiram o Instituto. A Beata, com o ramo claustral, se retirou junto às Irmãs Bernardinas – as outras voltaram para suas casas.
    Um ano depois, quando a Polônia ficou sob o jugo da Áustria, o Imperador Francisco José concordou com a restauração da Congregação, mas, devido a uma enfermidade, Madre Maria Ângela só pode reunir-se às suas Irmãs na Cracóvia em 17 de maio de 1866. Dois anos depois, ela foi eleita Superiora Geral, professando publicamente os votos perpétuos.
    Em 1869 problemas de saúde, incluindo uma grave surdez, levaram-na a retirar-se da administração da Congregação. Ela passou os trinta anos seguintes de sua vida (de 1869 a 1899) em seu retiro. Naqueles anos, intensa foi a sua atividade epistolar. Passava os dias rezando, frequentemente com o Santo Rosário, preocupando-se com o decoro da igreja. Cuidava do jardim e da estufa, cuidando de flores para a capela, e na sala de costura das vestimentas litúrgicas bordando alfaias para o altar e casulas, dando um grande exemplo de virtude às Irmãs.
    Em 1872, foi atingida por um câncer do estomago. Os sofrimentos foram tais, que se pensou, a um certo ponto, que ela tivesse perdido as faculdades mentais. Ela, no silêncio, oferecia as suas provações ao Senhor para o bem da obra.
    Em 1874, o Instituto obteve do Beato Pio IX o “decretum laudis”. No mesmo ano, as primeiras missionárias partiram para as Américas, abençoadas pessoalmente pela Beata. Três meses antes de sua morte, em julho de 1899, as Constituições foram aprovadas definitivamente.
    O câncer havia devastado o seu corpo, golpeando também a coluna vertebral. À sua cabeceira estavam presentes muitas Irmãs, que abençoou impondo suas mãos. Madre Maria Ângela Truszkowska faleceu no dia 10 de outubro de 1899, na casa provincial em Cracóvia. Os seus despojos são hoje venerados na igreja da Casa Mãe de Cracóvia. Ela foi elevada às honras dos altares em 18 de abril de 1993.
    Em 2014, havia cerca de 1.800 professas das Irmãs Felicianas, com cerca de 700 províncias só na América do Norte. Elas usam a abreviatura / pós-nominal, CSSF (Congregação das Irmãs de São Félix).
    Como parte da Rede de Voluntários Católicos, a província da América do Norte tem o programa Voluntárias Felicianas em Missão (VIM) que oferece oportunidades de serviço a curto e a longo prazo para homens e mulheres leigos interessados em fazer parceria com as Irmãs Felicianas para servirem, com compaixão, misericórdia e alegria, os desfavorecidos.
 
Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Irm%C3%A3s_Felicianas
https://franciscanos.org.br/
http://www.santiebeati.it/dettaglio/92050

terça-feira, 17 de setembro de 2024

Santa Hildegarda von Bingen, Mística, Profetiza e Escritora – 17 de setembro

     
     Hildegarda von Bingen nasceu no Condado de Spanhein, Diocese de Maicus, no ano de 1098. Seus pais, Hildeberto e Matilde, provavelmente originários de Bermerschein, no Condado de Spanheim, pertenciam à nobreza do Palatinado.
     Conforme prática comum naquela época, com a idade de oito anos ela foi levada ao Mosteiro de Disibodensberg, ou do monte de Santo Disibode, onde foi colocada sob a direção de Jutta, filha do Conde de Spanheim, que tomou a si o encargo de cuidar dessa menina que dava sinais de grande vocação. Sua virtude sobressaiu de tal modo que, aos 39 anos, quando morre Jutta, as religiosas elegeram Hildegarda como Abadessa.
     Sabe-se que Hildegarda tinha uma saúde muito frágil e que sempre era favorecida por visões, além de ter intuições sobrenaturais de coisas por suceder. Todas essas manifestações sobrenaturais eram por ela narradas com simplicidade a sua tutora e a um dos monges do mosteiro de Santo Disibode, chamado Volmar, que posteriormente exercerá o ofício de seu secretário durante 30 anos.
     Como ela mesma conta em seus escritos: "Aos meus 40 anos, tive uma visão onde uma voz dizia: ‘Diga o que viste e entendeste, não à maneira de outro homem, mas segundo a vontade dAquele que sabe, vê e dispõe todas as coisas no segredo de seus mistérios’". 
A Santa menina sendo
entregue a Sta. Jutta
     Era uma ordem decisiva que indicava a vocação de Hildegarda, semelhante à dos profetas do Antigo Testamento, os quais eram as bocas de Deus. Sobre esta vocação, Hildegarda insistirá dizendo que "uma voz do Céu mandava-me tudo dizer e escrever, tal qual ouvia e era-me ensinado". Esta voz apresentou-se a ela como “a Luz viva que ilumina o que é obscuro”
     Durante muito tempo ela resistiu por humildade e desconfiança. Mais por temor do que por desobediência, continuava a recusar a escrever. Foi então que caiu doente. Confiou sua preocupação ao seu diretor espiritual. Depois de aconselhar-se com os religiosos mais sábios da comunidade e de interrogar Hildegarda, o Prior ordenou-lhe que escrevesse. Assim que ela começou a escrever, imediatamente se viu curada e levantou-se da cama.
     Ajudada pelo monge Volmar, escreveu, entre 1141 e 1151, a sua grande obra Scivias (Conhece as vias do Senhor), uma espécie de Apocalipse sobretudo dogmático e um pouco moral.
     Em 1147, o prior, desconfiando do seu próprio critério, apresentou os escritos de Hildegarda ao Arcebispo Henri, de Mainz, Diocese onde se localizava o Mosteiro de Disibodensberg. Aproveitando a presença do Papa Eugênio III em Trier, onde iria reunir-se um Sínodo preparatório do Concílio de Reims, o arcebispo consultou o Papa.
     Trier é a cidade do Imperador Constantino, que ali residiu com sua mãe Santa Helena até o ano 316. O Papa Eugênio III era um cisterciense formado por São Bernardo. Ele reuniu Cardeais, Bispos e Abades para um alto tema: confirmar mais uma vez as reformas empreendidas pelo Papa São Gregório VII.
     O Papa, desejoso de conhecer melhor o assunto, enviou o Bispo de Verdum, Alberon, ao Mosteiro de Hildegarda, que respondeu com simplicidade às perguntas que lhe foram feitas. Os escritos feitos até então por Hildegarda foram entregues a ele e lidos em voz alta na presença do Arcebispo, dos Cardeais e de todo o clero reunido. Entre os ouvintes estava a maior figura da Cristandade: São Bernardo de Claraval.
     A conclusão da assembleia é atribuída a São Bernardo: "É preciso impedir que se apague uma tão admirável luz animada pela inspiração divina". Este Santo conhecera Hildegarda e pediu que o Papa divulgasse tão grande graça concedida por Deus à Igreja no seu pontificado, e a confirmasse com sua autoridade.
     O Papa seguiu seu conselho, escreveu a Hildegarda: "Nós ficamos admirados, minha filha, que Deus mostre em nosso tempo novos milagres. Nós te felicitamos pela graça de Deus. Conserve e guarde esta graça" (*). Pediu ele ainda que ela relatasse com frequência tudo que lhe fosse revelado por intermédio do Espírito Santo.
     A santa relatou ao Papa Eugênio III, em carta bastante longa, tudo quanto ouvira da voz celeste relativamente ao pontífice. Anunciava uma época difícil, cujos primeiros sinais já se manifestavam:
     “As próprias montanhas, que são os prelados, em lugar de se elevarem continuamente a comunicações íntimas com Deus, a fim de cada vez mais se transformarem na luz do mundo, descuidam-se e obscurecem-se. Daí a sombra e a perturbação que reina nas ordens superiores. E porque vós, grande Pastor e Vigário de Cristo, deveis buscar luz para as montanhas e conter os vales, dai preceitos aos senhores e disciplinas aos súditos. O Soberano Juiz recomenda-vos que condenais e repilais de junto de vós os tiranos importunos e ímpios, no temor de que, para vossa grande confusão, eles se imiscuam na vossa sociedade, mas sede compassivo com as desgraças públicas e particulares, pois Deus não desdenha as chagas e as dores daqueles que O temem”.
     Começou assim uma nova vida para Hildegarda. Sua fama, não só devido a seus escritos, mas também aos milagres, difundiu-se além do Reno. Muitos vinham visitá-la. Ela penetrava nos pensamentos dos peregrinos e afasta-se dos que se aproximam com más intenções ou para provar sua virtude. Exortava à conversão à Fé verdadeira os judeus que vinham ouvi-la. Hildegarda livrou do demônio uma possessa de Colônia, que os sacerdotes da Abadia de Brauweisler não tinham conseguido expulsar. 
A Santa com
seu secretário
    Santa Hildegarda mantinha correspondência com Papas, Bispos e altas autoridades temporais, como, por exemplo, os Imperadores Conrado III e Frederico Barbaruiva, da Alemanha.
     Frederico Barbaruiva pediu que a Santa o visitasse em seu palácio de Ingelheim, perto de Mainz. Os detalhes desse encontro são conhecidos pelas cartas do Imperador e das respostas de Santa Hildegarda. Ela não se intimida diante de tão ilustre destinatário e o adverte em termos proféticos e pede que o Imperador "vele pelos costumes dos Prelados que caíram na abjeção", exortando-o a que "tome cuidado para que o Supremo Rei não te lance por terra por culpa da cegueira de teus olhos. Seja tal, que a graça de Deus não te falte".
     O Imperador lutou contra o Papado, destituiu o Arcebispo de Mainz, fiel a Roma, mandou suas tropas arrasarem Milão e nomeou nada menos do que quatro antipapas apenas durante o pontificado de Alexandre III.  Ficou surdo às exortações da Santa!
     Correspondia-se ela com São Bernardo de Claraval, que lhe escreveu em termos elogiosos e sobrenaturais: "Agradeço a graça de Deus que está em ti. Eu te suplico de lembrar-te de mim diante de Deus..."
     Ela recebera a vocação de aconselhar, segundo os caminhos de Deus, não só as mais altas autoridades da época, mas também pessoas simples que a ela recorriam pedindo um conselho. A todos Hildegarda respondia com o tom que caracterizava o seu estilo, isto é, com solenidade, humildade e severidade.
     Santa Hildegarda anunciou a eclosão de uma terrível heresia que ergueria o povo contra o Clero, porque este "tinha uma voz e não ousou levantá-la", o que permitiu ao inimigo "oferecer os seus próprios bens, enchendo os olhos, as orelhas e o ventre de todos os vícios!" Pouco tempo depois, explodiu a heresia dos cátaros, descrita por ela com detalhes que surpreendem os historiadores. Ela vai além, prevendo a vitória da Igreja sobre essa heresia.
     Santa Hildegarda é mística, profetiza, escritora, pregadora, conselheira, médica e compositora. Seus outros dois livros que compõem a trilogia hildegardina são: o Líber vitae meritorum ou Livro dos Méritos, onde são apresentados os grandes dados da moral do século II; e o Líber divinorum operum ou Livro das obras divinas, de caráter científico, contendo ilustrações de grande precisão e originalidade. Ela compôs ainda diversas obras de menor importância sobre assuntos variados, como o Tratado de Medicina. Compôs também 77 sinfonias em um estilo similar ao gregoriano.
     Santa Hildegarda viveu seus últimos anos no convento de Eibingen, o terceiro fundado por ela na outra margem do Reno. Foi o único que se salvou dos bárbaros e das guerras. Uma das religiosas narra a morte de Santa Hildegarda: "Nossa boa Mãe, depois de combater piedosamente pelo Senhor, tomada de desgosto da vida presente, desejava cada dia mais evadir-se desta Terra para unir-se com Cristo. Sofrendo de sua enfermidade, ela passa alegremente deste século para o Esposo celeste, no octogésimo ano de sua existência, no dia 17 de setembro de 1179".
     Em 1233 foi feito um inquérito sobre as suas virtudes e os seus milagres, ordenado pelo Papa Gregório IX, mas não chegou a bom termo.
     Ao longo do século XIII se desenvolveu um culto popular dirigido a ela, em 1324 o papa João XXII autorizou sua veneração pública, e suas relíquias foram autenticadas no encerramento do século XV. Finalmente seu nome foi inscrito como santa na primeira edição do Martirológio Romano, de 1584, aprovada pelo papa Gregório XIII, e sua inclusão foi ratificada na edição revista de 2001 publicada sob os auspícios do papa João Paulo II, que a descreveu como "uma santa extraordinária, uma luz para seu povo e sua época que nos dias de hoje brilha ainda mais intensamente".
     A partir da segunda metade do século XX o interesse pela sua figura histórica e seus escritos renasceu, especialmente através dos estudos monumentais de Marianna Schrader, Christel Meier e Aldegundis Führkötter, e com as traduções feitas dos originais latinos para o inglês por Otto Müller, tornando acessível seu trabalho para um público muito mais vasto, de modo que atualmente sua produção já é objeto de análises particularizadas por um bom número de acadêmicos da Europa e Estados Unidos, destacando-se Peter Dronke, Barbara Newman e Heinrich Schipperges, entre muitos outros.
     Para dirimir quaisquer dúvidas que ainda pairassem sobre o seu estatuto de santa, em 10 de maio de 2012 o papa Bento XVI proclamou publicamente sua santidade e determinou que seu culto fosse estendido à Igreja Universal na forma devida aos santos, ratificando definitivamente a inclusão do seu nome na lista dos santos católicos. Em 7 de outubro do mesmo ano, através de Carta Apostólica, foi honrada com o título de Doutora da Igreja, considerando a ortodoxia da sua doutrina, a sua reconhecida santidade, a importância dos seus tratados e sua influência sobre outros teólogos.
 
(*) A carta é uma das 390 que aparecem no livro recentemente publicado na Alemanha sob o patrocínio da Abadessa Walburga Storch OSB, da própria Abadia de Santa Hildegarda, em Rüdesheim-Eibingen.
 
    “Por que Deus quis que ela tivesse essas visões? Porque o verdadeiro católico tem que ter uma filosofia da História. Ele deve saber que sua época é um elo entre o passado e o futuro, e deve interpretar os acontecimentos de sua época não como acontecendo só hoje, mas como nascidos de mil fatores do passado e gerando mil coisas no futuro. É um processo, é uma coisa que gera outra, que gera outra, que gera outra, que gera outra. Para nós conhecermos este processo veio esta revelação”.
 
Fontes: Catolicismo setembro 1998; Pe. Rohbacher

sábado, 14 de setembro de 2024

Santa Catarina (Fieschi Adorno) de Gênova, Viúva, Mística – 15 de setembro


A Santa que escreveu um tratado sobre o Purgatório
 
     Santa Catarina nasceu no ano de 1447, na célebre família Fieschi de Gênova. Esta família deu à Igreja dois Papas, nove cardeais e dois arcebispos, além de magistrados e capitães. Seus pais eram fervorosos católicos e a educaram no santo temor de Deus. 
     Catarina foi objeto de copiosas bênçãos do Céu: aos oito anos, recebeu um dom particular de oração e união com Deus; aos 12, já procurava renunciar à sua vontade para só fazer a do Divino Redentor e meditava constantemente na Paixão de Nosso Senhor; aos 13 anos, quis consagrar-se a Deus em um convento, mas devido à pouca idade não foi admitida.
     Gênova então era palco de guerras sangrentas entre guelfos (partidários do poder temporal dos Papas) e gibelinos (defendiam o poder do Imperador). Aproveitando-se da situação caótica, o duque de Milão tomou a cidade.
     Logo a paz foi restabelecida e os desentendimentos entre as famílias rivais se acalmaram. Os Fieschi e os Adornos, que se reconciliaram a partir de então, decidiram promover o casamento de Catarina Fieschi com Julião Adorno. Catarina, então com 16 anos, em tudo via a mão de Deus e aceitou o matrimônio, algo tão contrário às suas aspirações.
     Mas, Julião, de temperamento colérico, volúvel e extravagante, tornou o casamento infeliz. Ele amava as pompas e as vaidades, o luxo, os prazeres, enquanto Catarina considerava tudo vaidade e aflição de espírito. Ele passou a desprezá-la e a ultrajá-la de muitos modos. Além disso, sendo um jogador contumaz, dilapidou sua fortuna, como também o dote de Catarina. Aos poucos o casal ia caindo na pobreza.
     Catarina, porém, procurava pela paciência e pela prática das virtudes conquistar a alma do esposo para Deus. Por cinco anos ela sofreu aquela situação, parecendo-lhe que Deus a deixara entregue à sua própria sorte. Vendo-a tão provada, os parentes a aconselharam a retomar a vida social; visitas a senhoras de sua categoria, diversões e festas de seu círculo, entretanto não preenchiam os anseios de seu coração. Outros cinco anos se passaram.
     Em 1473, no dia de São Bento, foi aconselhada por sua irmã religiosa a consultar o confessor do convento. Catarina, então com 26 anos, procurou o sacerdote. Mais tarde ela contaria que assim que se ajoelhou no confessionário, "foi objeto de uma das mais extraordinárias operações de Deus na alma humana, de que tenhamos notícia. O resultado foi um maravilhoso estado de alma que durou até sua morte. Nesse estado ela recebeu admiráveis revelações, às quais às vezes se referiu aos que a rodeavam, e que estão sobretudo incorporadas em suas duas celebradas obras – os Diálogos da Alma e do Corpo e o Tratado sobre o Purgatório". (1)
     "O Senhor dignou-se iluminar sua mente com um raio tão claro e penetrante de sua divina luz, e acender em seu coração uma chama tão ardente de seu divino amor, que ela viu em um momento, e conheceu com muita clareza, quão grande é a bondade de Deus, que merece infinito amor; além disso, viu quão grande é a malícia e perversidade do pecado e da ofensa a Deus, quaisquer que sejam, mesmo ligeiros e veniais".
     Catarina sentiu uma contrição muito viva por seus pecados e um amor tão grande a Deus, que fora de si exclamava: "Amor meu, nunca mais hei de ofender-te!". O resultado deste amor foi um desejo insaciável da Santa Comunhão. Obteve a graça de poder comungar diariamente, fato raríssimo naquele tempo. Era tão grande a força transmitida pelo Pão dos Anjos, que ela passava os 40 dias da Quaresma e os do Advento sem outro alimento além de um copo de água misturada com vinagre e sal.
     Catarina praticava severas austeridades: dormia sobre uma enxerga, tendo como travesseiro um pedaço de madeira; disciplinava-se, usava cilícios e proibiu a si própria de proferir palavras inúteis; rezava diariamente de joelhos durante sete a oito horas.
     Tendo Nosso Senhor lhe aparecido com sua cruz, cheio de sofrimento e irrisão, tão profunda foi sua dor ao contemplar aquela imagem sofredora, que ela chorava com frequência ao considerar a ingratidão dos homens depois dos benefícios da Redenção.
     Catarina conseguiu converter o marido após muitas orações, grande paciência e submissão. Combinaram viver como irmãos e praticar boas obras. Em 1482, eles se instalaram numa casa contígua a um hospital, onde cuidavam dos doentes. Julião entrou para a Ordem Terceira de São Francisco; enfrentou uma enfermidade que o levou à morte, em 1497, após receber os Sacramentos.
     Catarina entrou na Sociedade da Misericórdia, que fora constituída pelos mais distintos habitantes da cidade e por oito damas escolhidas entre as mais nobres e ricas de Gênova, tendo como objetivo o socorro os pobres.
     Ela foi encarregada da distribuição das esmolas angariadas pela associação; socorria de preferência os leprosos ou portadores de úlceras gangrenosas, procurava para eles moradia, cama, roupa e alimento. Conseguiu dominar a repugnância natural que essas pessoas provocavam e prestava a elas os mais humildes serviços, inclusive cuidar de suas chagas repugnantes.
     Admirados com sua dedicação, os administradores do Hospital Pammatone, de Gênova, entregaram a ela a sua administração, cargo que Catarina ocupou até a morte.
     A Santa sofreu, nos últimos nove anos de sua vida, uma doença que. segundo os melhores médicos da Itália, não tinha causa natural: sua origem era sobrenatural e não havia remédio para ela. Com frequência ela ficava às portas da morte.
     Obediente ao seu confessor, Catarina escreveu as duas mencionadas obras que contêm doutrina e são inteiramente de acordo com as verdades de Fé: os Diálogos da Alma e do Corpo e o Tratado sobre o Purgatório. No primeiro, Catarina descreve os efeitos do amor divino em uma alma, a alegria que os acompanham. Quanto ao segundo, tão grande era seu contato com as almas do Purgatório, que essa obra valeu a ela o título de Doutora do Purgatório.
     Santa Catarina faleceu em Gênova, aos 63 anos, no dia 15 de setembro de 1510, e foi sepultada na capela do Hospital. Seu corpo incorrupto foi removido para outros lugares nos anos 1551, 1593 e 1642. Em 1694, ainda incorrupto, foi colocado num relicário de prata e cristal, sob o altar-mor da igreja erigida em sua honra no bairro de Portoria, em Gênova. Ali a Santa é venerada por muito devotos.
     Em 1837 e em 1960, o corpo incorrupto de Santa Catarina foi cuidadosamente examinado por peritos. O médico chefe da última equipe declarou: "A conservação é verdadeiramente excepcional e surpreendente, e merece uma análise da causa. A surpresa dos fiéis é justificada quando atribuem a isso uma causa sobrenatural". (3)
     Catarina foi canonizada pelo Papa Clemente XII em 1737, e pelo Papa Pio XII, no ano de 1943, recebeu o título de Padroeira dos Hospitais Italianos.
 
 Notas:
1. F. M. Capes, Saint Catherine of Genoa, in The Catholic Encyclopedia, Online Edition Copyright © 2003 by Kevin Knight,
2. Edelvives, Santa Catalina de Genova, in El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1955, tomo V, p. 153.
3. Joan Carroll Cruz, Saint Catherine of Genoa, in The Incorruptibles, Tan Books and Publishers, Inc., Rockford, USA, 1977, p. 160.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Beata Maria Luísa Angélica Prósperi, Mística, Abadessa Beneditina - 12 de setembro


Em Trévi, cidade da Úmbria, região da Itália, Maria Luísa (Gertrudes Prósperi), abadessa da Ordem de São Bento, dotada de experiências espirituais extraordinárias e generosidade para com os necessitados.
 
     Sobre si mesma, Maria Luísa Prosperi escreveu: "Desde meus primeiros anos sempre desejei fazer grandes coisas por amor ao meu Deus". Ela viveu em uma época difícil para a Igreja, durante a era napoleônica, que durou de 1799 a 1815, quando a Igreja estava sendo vista como chegando ao fim de sua existência. Claro que isso não aconteceu, e o Império Napoleônico estava de fato chegando ao fim, mas os tempos eram difíceis, no entanto, para aqueles que aspiravam a viver sua fé católica ao máximo.
     O mosteiro onde Madre Maria Luísa Prósperi viveu foi fundado em Trévi em 1344. Florescendo por muitos séculos, foi fechado durante o tempo de Napoleão, que considerava inúteis as Ordens contemplativas enclausuradas. Somente depois de 1815 o mosteiro foi reaberto, apenas alguns anos antes de Gertrude Prosperi cruzar seu limiar, para se tornar uma beata e, esperançosamente, um dia declarada santa, da Igreja Católica.
     No dia 19 de agosto de 1799, em Fogliano, pouco distante de Cascia, Itália, nasceu Gertrudes, filha de Domenico e de Maria Diomedi. Mesmo pertencendo à nobreza local, sua família não possui grandes recursos financeiros. Gertrudes foi batizada no mesmo dia de seu nascimento, e a pia batismal onde recebeu este sacramento existe ainda hoje na igreja paroquial de Santo Hipólito. Sua família deu a ela uma educação profundamente católica.
     Quando tinha vinte anos, no dia 4 de maio de 1820, ingressou no mosteiro beneditino de Santa Lucia de Trevi. Irmã Maria Luísa, nome de religiosa que adotou, teve uma existência caracterizada por fatos e dons extraordinários. Praticava penitências muito rígidas, provou em sua própria carne a Agonia de Nosso Senhor, a Flagelação, a Coroação de espinhos, os golpes, os estigmas nas costas e nas mãos. O Senhor desejava que ela participasse de seus sofrimentos, enquanto o demônio a molestava até durante a noite e com pancadas.
     Durante seus primeiros anos como freira beneditina, Irmã Maria Luísa serviu sua comunidade como enfermeira, cuidando das irmãs doentes. Ela também era sacristã, encarregada da igreja do mosteiro, e serviu como mestra de noviças, sendo encarregada da formação de novas freiras. Todos esses trabalhos ela realizou por vários anos, cumprindo silenciosamente as tarefas que lhe haviam sido atribuídas. Não há dúvida sobre sua determinação em exercê-los efetivamente e impregnando-os com caridade porque senão ela não teria sido tão estimada por suas irmãs e por pessoas fora do mosteiro, como foi o caso.
     Em 1837 Irmã Maria Luísa foi eleita Abadessa. Foi nessa época que um de seus quatro diretores espirituais, o bispo Inácio Giovanni Cadolini, Bispo de Spoleto, a instruiu a colocar suas experiências místicas por escrito.
     Em uma das visões que teve, Cristo alertou-a sobre a procedência de seus sofrimentos. O Redentor carregava a cruz quando lhe disse: “É assim que eu te amo, você será a vergonha de todos. Você será oprimida, e apesar de ser assediada por demônios, você sofrerá por causa de confessores. Eles vão querer ajudá-la, mas eles não serão capazes de...”.
     Seu diretor espiritual, o Pe. Cadolini, Bispo de Spoleto, depois Arcebispo de Ferrara e Cardeal, por cinco anos a induziu a reconhecer a soberba e a obra do demônio nas suas visões. E num colóquio celestial ela recebeu grandes consolos: “Aqui, filha, é sua casa, aqui você descansará, pedirá o que quiser, colocará aqui todo o seu coração que eu aceitarei, aqueles dos justos por me amarem, os dos pecadores para convertê-los, os de incrédulos para que possam voltar à minha Igreja”.
     O jesuíta Pe. Paterniani, confessor e biógrafo dela, narrou a vida extraordinária desta mulher que, ainda doente desde 1847, estando em sua cama liderou a comunidade e teve a energia para incentivá-la na rigorosa observância do carisma que a reuniu.
     Ela fez reflorescer no mosteiro a observância da Regra, privilegiando a adoração ao Santíssimo Sacramento. Contemplava longamente o Crucifixo; a todos que pediam seus conselhos convidava a recorrerem com confiança amorosa na infinita Misericórdia de Jesus.
     Certo dia, Jesus Cristo lhe apareceu no parlatório principal com o semblante de um peregrino. Na semana santa de 1847, ela viveu a Paixão de Cristo, como narra seu biógrafo: "Ao redor da cabeça tinha como sinais na forma de uma coroa de espinhos, perto do coração tinha uma ferida aberta cheia de sangue vivo, um sinal apareceu no meio das mãos...". Depois de uma pequena melhora, quando a Páscoa chegou ela piorou novamente, embora continuasse a governar o mosteiro até sua morte.
     Madre Maria Luísa faleceu no dia 12 de setembro de 1847, aos quarenta e sete anos de idade apenas. Conservam-se muitas cartas suas originais, ou cópias feitas pelo seu confessor, o jesuíta Pe. Paterniani, que em 1870 escreveu a primeira biografia da Beata.  
Mosteiro de Sta. Lúcia, Trévi
   Em 1914 a causa de sua beatificação foi introduzida, ficando suspensa devido à deflagração da 1ª. Guerra Mundial. Foi considerada Venerável em 1º de julho de 2010; foi proclamada oficialmente Beata na Catedral de Spoleto em 12 de novembro de 2012. Desde 1232, quando a cidade se vestiu de gala para a canonização de Santo Antônio de Pádua, não havia ocorrido uma cerimônia de tal solenidade.
     Seus despojos repousam na igreja do Mosteiro de Santa Lúcia de Trévi., onde é venerada hoje. Seus restos mortais estão em um caixão de madeira colocado em um altar lateral na igreja. Ao lado do caixão, uma vela é sempre mantida acesa.
     “A fé firme, sólida, ilimitada, elevava-a às alturas dos mistérios de Deus. Parecia que ela via com os olhos quanto nós cremos por fé. Sempre grata ao Senhor por este dom, exortava continuamente as suas irmãs de hábito a apreciar a virtude da fé, como princípio e fundamento de salvação e de beatitude”. Cardeal Angelo Amato – Homilia de Beatificação – 10 de novembro de 2012
 
Fontes:
www.santiebeati.it
COISAS DE SANTOS: 12 de setembro - Beata Maria Luísa Prosperi
Impressões da Itália: Beata Maria Luísa Prosperi - Abadia Beneditina de Cristo no Deserto (christdesert.org)