quinta-feira, 20 de março de 2025

Santa Benedita Cambiagio Frassinello, Fundadora - 21 de março


 “Conformar-se a Cristo no abandono a amorosa Divina Providência"
 
     Em Benedita Cambiagio Frassinello (1791-1858) a Igreja nos mostra um exemplo de santa esposa, religiosa e fundadora. Ela deixou-se conduzir pelo Espírito Santo através das experiências do matrimônio, de educadora e de consagração religiosa, até fundar, junto com o marido, uma congregação que é o único caso na História da Igreja.
     Benedita Cambiagio nasceu no dia 2 de outubro de 1791, em Langasco, Gênova, última de sete filhos de José Cambiagio e Francisca Ghiglione. Ela foi batizada dois dias depois de seu nascimento. Seus pais eram camponeses e depois das revoluções napoleônicas a família vê os problemas econômicos se agravarem. Junto com outras famílias de Langasco, eles emigraram para Pavia quando Benedita tinha 13 anos.
     Ela recebeu uma educação católica rigorosa e se dedicou aos estudos, sobretudo como autodidata, privilegiando a leitura de biografias de Santos e o aprofundamento da doutrina católica. Em 1812, Maria, sua irmã mais velha, se casa. Aos 20 anos Benedita tinha uma forte inclinação para a oração e a vida contemplativa, pensando em talvez fazer-se religiosa, mas, na dúvida, prevaleceu o parecer da família mais propensa ao seu casamento. Dia 7 de fevereiro de 1816, aos vinte e cinco anos, casou-se na Basílica de São Miguel com João Batista Frassinello, camponês e carpinteiro, fervoroso católico de Ronco Scrivia.
     Dois anos depois, sem filhos, de comum acordo, Benedita e João Batista passaram a viver como irmão e irmã na mesma casa. De fato, o grande desejo de castidade de Benedita contagiou o cônjuge. Ela conta o episódio em suas Memórias: "Vivi por dois anos sujeita a ele, como o Senhor ordenara. Mas o meu desejo era de viver como irmão e irmã. Um dia, eu pedi a meu marido para secundar-me neste desejo que desde menina eu tinha; ele imediatamente atendeu-me, para infinita consolação de minha alma, pois outra coisa eu não desejava".
          Na época, sua irmã Maria, gravemente doente de câncer intestinal, se hospedava em sua casa, e o casal passou a cuidar dela com amor e dedicação até sua morte, em 1825. O cuidado da doente fez nascer neles a vocação de ajudar os necessitados sem reservas. Em consequência, João Batista entrou como irmão leigo na comunidade religiosa dos padres Somascos e Benedita na comunidade das Irmãs Ursulinas de Capriolo.
     Em 1826, Benedita retornou a Pavia devido a graves problemas de saúde. Teve então uma visão onde lhe apareceu São Jerônimo Emiliani, ficando curada por completo. 
     Benedita, inspirando-se naquele grande Santo, que tivera atenção especial pelo aspecto educativo das pessoas, começou a trabalhar na educação das jovens e das meninas abandonadas pelas famílias. Para esta obra ela pede e obtém a aprovação do bispo D. Luís Tosi, o qual chama de volta a Pavia seu marido, João Batista, para auxiliá-la nos trabalhos. Este atendeu logo, voltou para a esposa-irmã, renovando ambos o voto de castidade perfeita pelas mãos do bispo.
     Em 29 de setembro de 1826, Benedita aluga uma casa em Vicolo Porzi. Para conseguir os meios necessários para manter sua obra, vai de casa em casa pedindo ajuda. Sua intenção era lutar, por meio da educação, contra a solidão, a ignorância, a pobreza, que são a base dos maus costumes, agindo no universo totalmente feminino. Com a ajuda e o apoio de várias professoras, ensinava as jovens a ler, a escrever, a trabalhar, formando uma instituição escolar de excelente nível, cujo estatuto foi aprovado pelas autoridades eclesiásticas.
     Frassinello também uniu à formação em catequese habilidades domésticas como cozinhar e costurar, com o objetivo de transformar suas alunas em "modelos de vida cristã" e, assim, garantir a formação das famílias. Seu trabalho foi considerado pioneiro para a época.
     Na época, a instituição escolar era muito precária e Benedita fez um alerta às autoridades de Pavia, a primeira mulher da cidade e do Estado a advertir sobre essa necessidade. Pavia era então governada pelo Império Austro-húngaro, e o governo austríaco reconheceu seu trabalho e deu a ela o título de “Promotora da Educação Pública”.
     A dedicação constante de Benedita nasceu e cresceu do seu fervor a Cristo na Eucaristia e da contemplação de Jesus na Cruz. Tinha em Deus seu sustento e sua defesa. Não lhe faltaram na vida experiências espirituais que se repetiam especialmente durante as Missas. Porém, isso não interferia nos seus compromissos cotidianos.
     Seu primeiro biógrafo, Joaquim Semino, que a conheceu pessoalmente, nos dá este retrato dela: "E eu não devo silenciar como ela tinha um rosto entre o majestoso e o amável, de maneira que parecia ter sido feita para orientar as jovens. Ela tinha uma forma de dizer gentil e doce, um jeito de fazer franco e jeitoso, ao mesmo tempo enérgico e forte, que despertava o amor e a reverência de todos".
     Mas, nem tudo corria sem complicações. Como sua obra educadora recebesse doações, no dia 4 de fevereiro de 1837 o jornal ''La Gazzetta di Pavia'' promoveu uma subscrição com a finalidade de ajudá-la. Esta iniciativa fez emergir muitos de seus opositores que lhe fizeram pesadas acusações. Ela demonstrou sua transparência cedendo a direção da Instituição a uma colaboradora, Catarina Bonino, e entregando toda a sua obra ao bispo. Com cinco irmãs deixou Pavia indo para Ligúria.
     Sua biografia não diz claramente por que a um certo momento ela ficou sozinha e malvista. Podemos conjeturar que a presença de eclesiásticos de ideias jansenistas entre os conselheiros do Bispo Luís Tosti, ou a existência de funcionários maçons na administração pública da cidade, ou ambas as coisas, foram a causa dessa situação. Entretanto, o que parecia um fim, foi um outro começo.
     Na cidade de Ronco Scrivia, Benedita abriu uma escola para jovens com as cinco companheiras e a ajuda do esposo. Adquiriu algumas casas e finalmente fundou, no dia 28 de outubro de 1838, a Congregação das Irmãs Beneditinas da Providência, escrevendo ela mesma a Regra e a Constituição, e logo a colocou sob a autoridade do Bispo de Gênova.
     A Instituição se desenvolveu rapidamente, tanto que em 1847 uma nova casa foi inaugurada em Voghera.
     Em 1851, Benedita retorna a Pavia atendendo a um pedido do Conde João Dessi, preocupado com o aumento das condições de miséria depois da guerra de 1848. Incógnito, o conde comprara o antigo mosteiro de São Gregório. Ali Benedita abriu uma nova casa para meninas, enquanto continuava a dirigir a de Ronco Scrivia. Aqueles foram anos de muito empenho por parte dela e do esposo, enquanto seus críticos continuavam a denegri-la sem sucesso. Em 1857, abre uma outra escola em São Quirico, Valpolcevera.
     Em seu governo, ela enfatizou a educação das meninas e incutiu o espírito de confiança ilimitada e abandono à Providência Divina e ao amor de Deus por meio dos principais princípios beneditinos. Benedita foi capaz de guiar o desenvolvimento da instituição até sua morte. 
     No dia 21 de março de 1858, com 67 anos de idade, Benedita morre santamente em Ronco Scrivia, no dia e hora por ela previstos. Logo acorre um grande número de pessoas para uma última manifestação de estima e para chorar aquela que consideravam uma Santa. Foi sepultada no cemitério de Ronco Scrivia. Em 1944, durante a 2ª guerra mundial, um bombardeio destruiu o pequeno cemitério e as suas relíquias foram dispersas.
     Beatificada por João Paulo II em 10 de maio de 1987, o mesmo pontífice a canonizou em 19 de maio de 2002. Sua festa foi fixada em 21 de março, dia de seu falecimento.
     Benedita fundou as Irmãs Beneditinas da Providência em 28 de outubro de 1838 e recebeu a aprovação diocesana em 1858. Em 24 de junho de 1917, recebeu o decreto papal de louvor do Papa Bento XV e a aprovação papal do Papa Pio XI em 2 de março de 1937. 
     Benedita pode ser proposta como modelo e intercessora para as pessoas consagradas, os esposos, os jovens, os educadores e as famílias.
 
Fontes: www.vatican.va; www.santiebeati.it
Benedita Cambiagio Frassinello (1791-1858)
Santa Benedita Cambiagio Frassinelo
Benedetta Cambiagio Frassinello – Wikipédia, a enciclopédia livre

segunda-feira, 17 de março de 2025

Santa Gertrudes de Nivelles, Abadessa - 17 de março

     
     A época de Gertrudes é a Idade Média, momento em que a história na Europa havia tomado um rumo inesperado: com a queda do Império Romano, a sociedade medieval começa a se estruturar em torno dos grandes senhores feudais. De fato, Gertrudes era filha de um deste senhores: Pepino de Landen, grande senhor de terras e antepassado de Carlos Magno.
     Santa Gertrudes nasceu em 626. Era filha caçula de Pepino de Landen, nobre de grande poder no Brabante, prefeito do palácio nos reinados de Clotário II, Dagoberto e Sigeberto, e avoengo de Carlos Magno. A Beata Ida (ou Ita) d'Aquitânia era sua mãe. Sua irmã, Santa Begga, casou-se com o filho mais velho de Arnolfo de Metz, e tornou-se abadessa de Andenne após a morte do esposo.
     Desde cedo Gertrudes devotou-se à oração, afastava-se das festas e dedicava-se ao estudo, sendo muito culta. Quando tinha cerca de 10 anos de idade seu pai convidou o Rei Dagoberto e alguns nobres para um banquete. Naquela ocasião, ela foi pedida em casamento para o filho do Duque da Austrásia. Com decisão ela respondeu que não o desposaria, nem tão pouco qualquer outro homem, pois somente Jesus Cristo seria o seu Esposo.
     Com a morte de Pepino em 639, e seguindo o conselho de Santo Amando, Bispo de Maastrich, Ida transformou seu palácio de Nivelles em um mosteiro, onde ela e sua filha Gertrudes se consagraram a Deus. Gertrudes recebeu o véu de virgem consagrada das mãos do próprio Bispo de Maastrich. O mosteiro seguia a regra de São Columbano, o grande precursor dos monges evangelizadores irlandeses, e tornou-se famoso por sua hospitalidade aos peregrinos.
     Ida e Gertrudes tornaram-se grandes amigas de dois santos irlandeses, os irmãos São Follian e São Ultan, quando eles se hospedaram no mosteiro como peregrinos. Eles estavam indo de Roma a Peronne, onde o irmão deles, São Furseus, estava enterrado. Talvez esses monges as tenham influenciado a acolher uma comunidade masculina ao lado do mosteiro feminino, tornando-o assim um mosteiro duplo submetido à autoridade única da abadessa.
     Alguns autores mencionam que a Beata Ida foi abadessa até sua morte (652), sendo eleita Gertrudes, então com vinte anos, para substituí-la. Outros acreditam que Gertrudes foi a primeira abadessa, tendo sido assistida pela mãe, que preferira ser uma simples monja.
     O certo é que Gertrudes delegara a alguns monges virtuosos a administração do mosteiro, pois ela queria se dedicar à oração, às penitências e ao estudo das Sagradas Escrituras, que ela sabia quase de cor. Ela também reservara para si a tarefa de instruir monges e monjas, torná-los mais motivados na Fé e mais preparados para a difusão dos ensinamentos da Santa Igreja.
     Com a aprovação de Grimoaldo, irmão de Gertrudes, terras em Fosses, local não distante de Nivelles, foram doadas aos dois irlandeses para que fundassem um outro mosteiro. A direção do novo mosteiro foi dada a São Ultan. O Brabante foi evangelizado por aquela comunidade.
     Os dois mosteiros - Nivelles e Fosses - tinham uma ligação estreita. São Follian ia regularmente a Nivelles para ali celebrar o Ofício e instruir as duas comunidades. Em 31 de outubro de 655, retornando de uma dessas visitas, ele foi assassinado com seus companheiros. Gertrudes guardou relíquias dele antes que levassem seu corpo para Fosses, gesto que demonstrava seu interesse em promover o culto a São Follian em Nivelles.
     Gertrudes iniciara com vigor um grande processo de reformulação do mosteiro, chamando da Irlanda monges teólogos, os mais versados nas Sagradas Escrituras, e enviando pessoas a Roma para prover a comunidade de livros litúrgicos e culturais, ampliando muito a biblioteca da comunidade. Empregou toda a fortuna deixada pela mãe na construção de igrejas, mosteiros e hospitais. A missão de Gertrudes se tornara uma luta para a difusão da doutrina católica através da instrução. Isto significou um enorme esforço de sua parte, pois era uma época de ignorância e superstições, em que muitos ainda eram pagãos. Um eclipse da lua, por exemplo, era considerado um fenômeno sobrenatural e aterrorizava os camponeses, mesmo os já instruídos na fé cristã.
     Devota de Jesus Crucificado e de Maria Santíssima, ela fazia sacrifícios pelas almas do purgatório, que lhe apareciam durante as orações sob a forma de ratos negros que se tornavam dourados, simbolizando sua salvação pela Misericórdia de Deus. Ela comentava essas visões com as monjas, estimulando as preces por essas almas abandonadas.
     Por causa dessas visões, na arte sacra ela é sempre representada com ratos ao seu redor, como uma abadessa com camundongos a seus pés, como uma abadessa com camundongos correndo em seu manto, ou ainda, segurando o báculo e com um gato junto dela. Os devotos ainda hoje a invocam contra as invasões de ratos e o medo que eles provocam.
     Entretanto, o que mais a destacava era a sua profunda capacidade de compreender os anseios das almas. Gertrudes se revelou uma eficaz pacificadora: usando sua respeitabilidade, por nascimento e por sua crescente fama de santidade, atuava para acabar com as intermináveis guerras locais entre as famílias senhoriais. Suas palavras, dotadas de sabedoria e de autoridade, as persuadiam à conciliação. As guerras pacificadas representavam alívio para o povo exposto aos saques, incêndios, sequestro de reféns, tudo seguido de anos de miséria.
     Devido aos contínuos jejuns e penitências, aos 32 anos Gertrudes sentia-se tão fraca, que resolveu abdicar de seu cargo. Após consultar monges e monjas, ela indicou sua sobrinha, Santa Vilfetrudes, como sua sucessora, em dezembro de 658.
     Um dia antes de sua morte, ela enviou um dos monges à procura de São Ultan para perguntar se Deus lhe havia comunicado a hora de sua morte. O Santo respondeu que ela morreria no dia seguinte, durante a Santa Missa. A profecia se concretizou.
     Santa Gertrudes morreu em Nivelles, no dia 17 de março de 659, aos trinta e três anos. O seu corpo foi sepultado em uma capela. Ela, que já em vida era admirada por sua santidade, foi imediatamente venerada como Santa.
     Inês, a terceira Abadessa de Nivelles, mandou construir uma igreja em sua honra. Ela se tornaria depois basílica, sempre restaurada e reconstruída através dos séculos.
Igreja da Colegiada de 
Santa Gertrudes, Nivelles, Bélgica
     Alguns anos após a morte de Santa Gertrudes, um monge seu contemporâneo escreveu sua "Vida", cuja autenticidade é reconhecida por todos os historiadores. Há dois textos redigidos - um em 691 e outro após 783 - relatando os milagres que eram obtidos pelo contato de suas relíquias: curas, ressurreição de uma criança afogada, extinção de um incêndio... Santa Gertrudes é mencionada no Martirológio de São Beda.
     Já no século XIII havia uma procissão em que suas relíquias eram transportadas em uma caixa de prata feita em 1296, uma verdadeira joia da ourivesaria francesa. Esse precioso relicário do século XIII foi destruído em 1940, num bombardeio que atingiu a basílica que o guardava e muitas casas de Nivelles.
     As preciosas relíquias, que puderam ser recuperadas, desde 1982 repousam num relicário feito pelo artista Félix Roulin.
     Santa Gertrudes de Nivelles é protetora dos jardineiros e das almas que partiram recentemente. O seu culto é mais popular nos Países Baixos (Holanda, Bélgica e Suíça), na Inglaterra e na Escócia, principalmente no dia 17 de março, quando faz parte da tradição plantar rosas nesse dia em sua homenagem. 

Gertrudes de Nivelles – Wikipédia, a enciclopédia livre
totustuusmariae.com.br/p_carrega.php?cat=santodia&id=193
Santa Gertrudes de Nivelles

quinta-feira, 13 de março de 2025

Santa Cristina da Pérsia, Mártir – 13 de março

     
     Cristina (em siríaco: ܟܪܣܛܝܢܐ, Kresṭīnā),[1] nascida Yazdoi (fl. século VI), foi uma nobre persa sassânica e cristã venerada após sua morte como virgem mártir.
     Cristina era de Karka d’Beth Slokh, na região de Beth Garmai. [2][3] Seu pai, Yazdin, filho de Mihrzbiroi, era o governador de Nísibis. Ela se converteu do zoroastrismo para a Igreja Católica do Oriente. Ela foi morta por se recusar a consumar seu casamento com um nobre e foi venerada como uma virgem mártir. [2][4] De acordo com um martirológio grego, ela foi espancada até a morte com varas. [2] A data exata de sua morte é desconhecida, mas provavelmente foi durante o reinado de Cosroes (531-579). [3][5]
     Não muito depois de sua morte, Babai, o Grande (falecido em 628) escreveu sua biografia em siríaco. Hoje, apenas o prefácio sobrevive. Como Babai lista todas as obras hagiográficas que ele havia escrito até aquele momento em sua biografia de Jorge de Izla (martirizado em 615), ele deve ter escrito a biografia de Cristina após essa data. [4][3] 
     De acordo com Babai, ela era chamada de Yazdoi "quando era pagã", mas "em seu novo nascimento de adoção como um símbolo de vida, escolheu ser chamada de Cristina, um nome que não passará". [1]
     Cristina é comemorada em 13 de março na Igreja Católica. [2] O Martirológio Romano a descreve da seguinte forma: "Na Pérsia, Santa Cristina, mártir, que foi açoitada com varas e concluiu o testemunho do martírio sob o rei Chosroes I rei dos persas". [6] Na Igreja Ortodoxa da Geórgia, seu dia de festa era 15 de março no início do século 7. Algumas versões do calendário da igreja do século 10 de Joane-Zosime, no entanto, dão a ela como 14 de março. [7] 
* * *
     Segundo o historiador Abel Della Costa em “El Testigo Fiel”: “Tudo começa com uma inscrição em um Menológio grego, que, traduzido para o latim por Pedro Canisio no século XVI, coloca neste dia Santa Cristina da Pérsia com os seguintes termos: «Neste dia, Cristina, martirizada pela confissão de Cristo diante dos persas,  voou para o Senhor». O Martirológio Romano de Barônio, composto por volta desses mesmos anos, retoma a notícia nestes termos: «Na Pérsia, Santa Cristina, virgem e mártir». Já os Bolandistas observaram que não há nenhuma razão para catalogá-la como virgem, efetivamente, esse aspecto não aparece no Martirológio atual.
     Na Biblioteca Laurentina de Florença no século XVI foi encontrada uma ata martirológica em grego, que os Bolandistas consideraram escrita por um contemporâneo da santa, que fala de Santa Sira, uma jovem que morreu torturada com chicoteamentos antes de ser morta, sob o reinado de Cosroes I, quer dizer, entre os anos 531 e 579. Por várias razões internas, assinalam a ela o ano 559, e como a santa não aparece em nenhuma outra fonte, eles a inscreveram provisoriamente na data de 18 de maio.
     Entretanto, apesar do encontro dos Bolandistas, Santa Sira nunca foi inscrita no catálogo de santos, e o Martirológio Romano posteriormente adotou para nossa Santa Cristina os dados cronológicos de Santa Sira, fundindo as duas, o que resultou no elogio da mártir de hoje.  
* * *
     Em tempos antigos, quando o poderoso Império Persa era governado pelos reis sassânidas, a fé cristã florescia em segredo. O rei da época impunha severas perseguições aos cristãos, vendo-os como inimigos do império. Foi nesse cenário de medo e incerteza que surgiu a figura corajosa de Cristina, uma jovem de coração puro e fé inabalável.
     Cristina nasceu em uma família persa devota ao zoroastrismo, a religião oficial do império. Seu pai, um homem influente, acreditava nos ensinamentos de Zaratustra e oferecia sacrifícios aos deuses do fogo e da natureza. Desde pequena, ela aprendeu a seguir os costumes de seu povo, mas, no fundo do coração, sentia que faltava algo. 
     Certo dia, enquanto caminhava pelo mercado, Cristina ouviu um grupo de mercadores sussurrando sobre um Deus único, cheio de amor e misericórdia. Eles falavam sobre Jesus Cristo e sua promessa de salvação. Movida pela curiosidade, ela se aproximou e escutou atentamente. Cada palavra sobre esse Deus tocava sua alma de maneira inexplicável. 
     O tempo passou, e Cristina não conseguia tirar aquelas palavras da mente. Discretamente, buscou mais conhecimento sobre essa fé proibida e encontrou-se com um sacerdote cristão. Ali, ouviu sobre a vida de Cristo, sobre seu sacrifício e sua ressurreição. Algo dentro dela dizia que aquele era o verdadeiro caminho. Então, em uma noite silenciosa, escondida dos olhares do mundo, Cristina recebeu o batismo. Ao emergir da água, sentiu uma paz profunda, como se sua alma finalmente tivesse encontrado o que tanto buscava. Mas, a partir daquele momento, sua vida jamais seria a mesma. 
     Por um tempo, Cristina conseguiu esconder sua fé, mas sua devoção crescia a cada dia. Logo, sua família percebeu que algo estava diferente. Ela já não participava mais dos rituais pagãos e evitava os templos de fogo. Até que, um dia, seu pai a levou para uma cerimônia e percebeu que ela se recusava a se curvar diante das divindades. Intrigado, perguntou por que não fazia sua oferenda. Com os olhos brilhando de convicção, Cristina respondeu que havia encontrado a verdade, que só existia um Deus verdadeiro e que jamais poderia adorar imagens feitas por mãos humanas. 
     O pai ficou furioso. Sentindo-se traído, decidiu entregá-la às autoridades, denunciando-a como seguidora da fé proibida. Cristina foi levada diante dos juízes do rei, que lhe deram uma última chance para renunciar ao cristianismo e oferecer sacrifícios aos deuses persas. Mas sua resposta foi firme: seu Senhor era Jesus Cristo, e nada a faria negar sua fé. Foi então que os juízes ordenaram que ela fosse castigada. Açoites, ferimentos, noites inteiras na prisão, mas nada a fazia desistir. Mesmo fraca e ferida, Cristina continuava firme, orando e confiando em Deus. 
     Dizem que, em uma das noites em que estava presa, uma luz suave iluminou sua cela, trazendo uma paz inexplicável. Mas os soldados não tiveram piedade. Nos dias seguintes, ela foi submetida a torturas ainda mais cruéis. Queimaram suas mãos e pés com brasas, mas ela não gritou. Os soldados, impressionados, começaram a se perguntar se realmente era apenas uma jovem ou se os deuses estavam com ela. Por fim, os juízes perceberam que nada a faria renunciar à sua fé. A sentença foi decretada: morte. Algumas versões dizem que foi decapitada, outras, que foi queimada viva. O que se sabe é que, no momento de seu martírio, seu rosto brilhou como o sol. E muitos que testemunharam sua coragem passaram a acreditar em Cristo. 
     Com o tempo, seu nome foi esquecido por muitos, mas a Igreja preservou sua memória como um exemplo de fé inabalável. A história de Santa Cristina de Pérsia atravessa os séculos, lembrando que, mesmo diante das piores provações, a fé verdadeira jamais se apaga. 
Oração a Santa Cristina da Pérsia: 
     Ó Santa Cristina, modelo de coragem e fidelidade, que escolheste a luz de Cristo em meio à escuridão da perseguição, intercede por nós, para que também sejamos firmes na fé. Tu que renunciaste à glória terrena para alcançar a glória eterna, ajuda-nos a seguir o caminho da verdade mesmo diante das provações. Fortalece-nos na esperança, ensina-nos a amar com pureza e a testemunhar o Evangelho com ousadia. Santa Cristina, mártir da fé, rogai por nós, agora e sempre. Amém.

Referências
^ Jump up to:um b Jeanne-Nicole Mellon Saint-Laurent et al., "Christine Yazdouy (texto) — ܟܪܣܛܝܢܐ ܝܙܕܘܝ" em Bibliotheca Hagiographica Syriaca Electronica (2015).
^ Jump up to:um b c d e Jean Maurice Fiey, Santos Sirianos (Darwin Press, 2004), pp. 59–60.
^ Jump up to:um b c Gerrit J. Reinink, "A Vida de George de Babai, o Grande, e a Propagação da Doutrina no Império Sassânida Tardio", Retratos de Autoridade Espiritual (Brill, 1999), p. 172n.
^ Jump up to:um b David Wilmshurst, A Igreja Mártir: Uma História da Igreja do Oriente (East and West Publishing, 2011), p. 87.
^ Wilmshurst (2011), p. 494, coloca sua morte em torno de 600, mas Fiey (2004) propõe que ela morreu muito antes (por volta de 363).
^ "Martyrologium Romanum" (Libreria Editrice Vaticana, 2001 ISBN 88-209-7210-7)
^ Christina-Yazdoi, mártir na Pérsia, O Culto dos Santos na Antiguidade Tardia (Universidade de Oxford, 2017).
Cristina da Pérsia – Wikipédia, a enciclopédia livre
HAGIOPEDIA: Santa CRISTINA DE PERSIA. M. 559.
 

segunda-feira, 10 de março de 2025

Santa Francisca de Roma – 9 de março

 Ela podia detectar tramas diabólicas

     
     Uma das maiores místicas do século XV; nascida em Roma, de família nobre, em 1383; morreu lá, em 9 de março de 1440.
     Francisca nasceu em Roma em 1383, filha de pais nobres, ricos e piedosos. Aos onze anos, ela pediu para se tornar religiosa, mas só encontrou uma recusa à queima-roupa. Um ano depois, a garota atraente e precoce foi prometida a Lorenzo Ponziano, um jovem de bom caráter, fortuna e posição. Francisca se submeteu à vontade do pai.
     No início, a vida de casada era difícil para a garota de treze anos. Um dia, Vannozza, sua cunhada, a encontrou chorando. Para surpresa de Francisca, Vannozza revelou que também preferia ter sido religiosa. Assim nasceu uma amizade para toda a vida.
     As duas amigas traçaram um programa para uma vida virtuosa em meio a seus deveres sociais; elas começaram a rezar juntas e a visitar os doentes em Roma. Seus maridos as apoiaram contra o barulho das línguas "sociais".
     Francisca e Lorenzo tiveram três filhos: João Batista, que carregava o nome da família, Evangelista, uma criança de grandes dons (falecido em 1411), e Agnes (falecida em 1413).
     Sendo partidários do verdadeiro papa contra o antipapa durante o grande Cisma, os ponzianos sofreram com a guerra, prisão e pilhagem de suas propriedades. O marido de Francisca ficou gravemente ferido, mas se recuperou sob seus cuidados, e seu filho Batista foi feito refém, mas foi milagrosamente libertado.
     Durante uma peste, o jovem Evangelista morreu e Francisca transformou parte da casa em um hospital. Deus recompensou seus trabalhos com o dom da cura. Em uma visão, ela viu Evangelista acompanhado por um Arcanjo. Ele revelou à sua mãe enlutada que Agnes também morreria em breve, mas como consolo ela teria um Arcanjo como seu companheiro visível por vinte e três anos. Na última parte de sua vida, ela teria um anjo de dignidade ainda maior.
Santa Francisca curando a perna gangrenosa de Janni, que estava doente há muito tempo. À direita, Janni agradece a Santa Francisca. Um de uma série de afrescos no Mosteiro de Tor de Specchi, em Roma, com histórias da vida de Santa Francisca de Roma pintadas por Antoniazzo Romano.

     A essa altura, a fama das virtudes e milagres da Francisca havia se espalhado por Roma e sua ajuda era solicitada de todos os quadrantes. Francisca era notável por sua caridade para com os pobres e seu zelo pelas almas. Ela conquistou muitas damas romanas de uma vida de frivolidade e as uniu em uma associação de oblatas ligadas ao mosteiro beneditino branco de Santa Maria Nuova; mais tarde, elas se tornaram a Congregação Beneditina Oblata de Tor di Specchi (25 de março de 1433), que foi aprovada por Eugênio IV (4 de julho de 1433). Seus membros levavam a vida de religiosos, mas sem o claustro estrito ou os votos formais, e se entregavam à oração e às boas obras.
     Com o consentimento do marido, Francisca praticou a continência e avançou em uma vida de contemplação. Suas visões muitas vezes assumiam a forma de drama encenado para ela por personagens celestiais. Ela tinha o dom de milagres e êxtase, bem como a visão corporal de seu Anjo da Guarda, teve revelações sobre o purgatório e o inferno e predisse o fim do Cisma do Ocidente. Ela podia ler os segredos das consciências e detectar tramas de origem diabólica. Ela era notável por sua humildade e desapego, sua obediência e paciência, exemplificadas por ocasião do banimento de seu marido, o cativeiro de Batista, a morte de seus filhos e a perda de todos os seus bens.
     Com a morte do marido (1436), ela se retirou entre suas Oblatas em Tor di Specchi, buscando admissão por caridade, e foi feita superiora. Por ocasião de uma visita ao filho, ela adoeceu e morreu no dia que havia predito: morreu na noite de 9 de março de 1440 dizendo: "O anjo terminou sua tarefa: ele me chama para segui-lo".
     Sua canonização foi precedida por três processos (1440, 1443, 1451) e Paulo V a declarou santa em 9 de maio de 1608, designando 9 de março como seu dia de festa. Muito antes disso, no entanto, os fiéis costumavam venerar seu corpo na igreja de Santa Maria Nuova no Fórum Romano, agora conhecida como igreja de Santa Francisca Romana.

 
FRANCESCO PAOLI (Enciclopédia Católica)
9 de março - Ela poderia detectar tramas diabólicas - nobreza e elites tradicionais análogas

quarta-feira, 5 de março de 2025

Beata Maria Luísa (Madre Saint-Louis), Esposa, Mãe, Viúva, Fundadora - 4 de março

      Maria Luísa Elisabeth de Lamoignon nasceu em Paris, França, no dia 3 de outubro de 1763. Seu pai era então Guarda dos Selos da França sob Luís XVI. Ela tinha três irmãs e quatro irmãos. Crescendo em uma família aristocrática, ela recebeu uma boa educação.
     O Padre Plácido Levé, jesuíta, que foi seu primeiro biografo, escrevia em 1857: “Muito jovem, aos prazeres brilhantes que atraiam suas irmãs, ela preferia uma vida retirada e estudiosa. A oração era o principal atrativo e o mais caro alimento de sua alma. O estudo era sua maior ocupação. Seu espírito vivo e penetrante se abria sem dificuldade a todo o conhecimento. Ela cultivava as artes com o mesmo sucesso e o mesmo gosto. Aluna de Rameau, este a admirava e ia à sua casa, dizia ele, não para aperfeiçoá-la na arte do cravo, mas para ouvi-la tocar e se exercitar com ela”.
     O Cardeal Amato se recorda da vocação especial desta nova Beata: “A Beata Madre Saint-Louis fez frutificar os seus dotes naturais e da graça, falando a língua da caridade evangélica, que convida concretamente a dar de comer aos famintos, de beber aos sedentos, a servir e a ajudar os pobres, instruir os ignorantes, educar os pequenos nas vias da virtude”. 
     Terna e sensível, mas ao mesmo tempo uma natureza “forte, generosa, capaz dos mais duros e dos maiores empreendimentos”, era dotada de um julgamento sólido e pleno de “sabedoria e bondade”. 
     Segundo o costume da época, casou-se muito jovem com o Conde Molé de Champlâtreux, Francisco Eduardo Molé de Champlâtreux. "Meus pais me uniram ao homem o mais virtuoso como também o melhor”, escreveu ela. Assumindo as obrigações de sua posição – a fortuna dos esposos Molé era imensa – ela fez, de acordo com seu marido, a escolha de uma simplicidade de vida e do serviço dos pobres.
     O casal teve cinco filhos, três deles falecidos em tenra idade. Ela teve que suportar uma das maiores dores: o esposo foi guilhotinado injustamente durante o Terror, o período mais terrível da Revolução Francesa. O casal fora aprisionado, mas ela foi liberada devido ao seu estado de saúde. O esposo foi guilhotinado no dia de Páscoa de 1794. No mesmo ano ela enfrentou a morte de sua filha de quatro anos. Além disso, seus bens foram confiscados pela Revolução. Ela enfrentou a miséria, a fome e as provações da alma.
     Após o choque brutal causado pela morte de Francisco Eduardo, a chaga de seu coração cicatrizou docemente, sem que Luísa Elisabeth, que se tornaria mais tarde Mère Saint-Louis, se esquecesse de seu esposo diante de Deus. “Todos os dias eu renovo a Deus o sacrifício inicial”, assegurava a seu filho, lhe indicando o retrato de seu pai. No testamento que escreveu em 1810, ela diz: “Ao me separar de vocês, meus queridos filhos, para me revestir de um retiro profundo, eu fiz a Deus o maior sacrifício”.
     Ficando sozinha, seu coração foi consolado pelo Senhor, que havia sacrificado o Seu Filho dileto, e perdoou os assassinos do marido. Foi assim que se aproximou ainda mais da Cruz, de quem se sentia filha, e, a exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, a amar “os seus que estavam no mundo, até o fim”. Isto ela pedia às suas Irmãs das Filhas da Caridade, congregação por ela fundada: formar-se segundo o modelo de Maria aos pés da Cruz.
     Em abril de 1803, Mme. Molé tendo chegado a Vannes, Mons. de Pancemont, Bispo de Vannes, condoído com a situação das meninas, convidou-a a dirigir uma obra de caridade e de educação, que ele chamara Casa do Pai Eterno.
     No dia 21 de novembro de 1803, Festa da Apresentação de Maria no Templo, Mme. Molé foi oficialmente nomeada superiora da Casa em presença de Mons. de Pancemont. A partir de então ela passou a ser conhecida como Madre São Luís (Mère Saint-Louis). As religiosas tomam a denominação de Irmãs da Caridade de São Luís.
Madre São Luis jovem
     Ela escolheu São Luís IX como protetor de sua fundação por ser ele o patrono da França. À sua Congregação, que deve trabalhar junto aos mais humildes, ela dá por guia o santo que oferece os mais belos exemplos de uma vida comprometida com o temporal: “Um místico que mantinha os pés na terra, brilhava das mais belas virtudes humanas: lealdade, coragem, senso de honra, equidade, franqueza e delicadeza. Um místico cuja fé intrépida se refletia nos atos os mais simples e no dever de cada dia”.
     Ela mandou instalar oficinas de tecelagem mecânicas para fiação de algodão, o trabalho da lã e a fabricação de rendas, porque tem gosto pelo progresso e sonhos de tornar essas oficinas modelos de sua espécie. É um sucesso! As pessoas se apressam para admirar o trabalho e especialmente para ver a transformação social das meninas. "As crianças mudam visivelmente". Falam do Pai Eterno por toda a região, e outras cidades também querem ter uma Casa de educação social segundo aquele modelo. 
     Em 1º de março de 1816, os estabelecimentos de educação gratuita e de caridade, legalmente fundados em Vannes e em Auray por Madre São Luís, são aprovados.
     Madre São Luís convidava suas Irmãs a "considerar Maria como o modelo no qual nos devemos formar", não A separando jamais de seu Filho, nem de sua missão. Sua piedade marial ia o mais das vezes a Nossa Senhora das Dores que, "malgrado a ternura de seu coração, consentiu no sacrifício e na morte de seu Filho”, Nossa Senhora da Compaixão, próxima de todos os calvários do mundo, “cheia de zelo pelos interesses de Deus e pela salvação dos homens”.
     Madre São Luís não para: em 1816 abre uma casa de caridade em Pléchâtel, e em 1818 uma casa de retiro espiritual em Auray, depois, em 1820, um noviciado em Saint Gildas de Rhuys. Como Santa Teresa d’Ávila ela funda sobre os alicerces da caridade e da confiança. Tudo é por Deus.
     No dia 3 de novembro de 1824, a fundadora adquiriu a Abadia de Rhuys, onde as Irmãs se instalaram em maio de 1825.
     Estreitando ao peito o crucifixo do qual não se separava jamais, Madre São Luís morreu em Vannes, no dia 4 de março de 1825, rodeada das filhas de sua alma. Ela morreu suavemente, como uma criança que adormece no regaço de sua mãe; apagou-se a lâmpada luminosa de caridade e bondade, capaz de indicar a todos o caminho a seguir, como só os Santos o sabem.
     A notícia correu por toda a cidade de Vannes. A multidão se comprimiu na capela do Padre Eterno para ver a santa, e foi na capela do Seminário Maior que teve lugar as exéquias. Ainda hoje ela repousa na capela do jardim do Padre Eterno de Vannes.
     Madre São Luís foi beatificada em Vannes pelo delegado do Papa Bento XVI, no dia 27 de maio de 2012.
     Quase dois séculos após o seu falecimento, a Congregação das Irmãs da Caridade de São Luís conta com 145 casas: França, Inglaterra, Canadá, Estados Unidos, Haiti, Madagascar etc.
     Embora tenha sido beatificada como religiosa fundadora, Madre São Luís se santificou em vários estados de vida: jovem de inteligência brilhante, esposa de coração generoso, mãe extremosa, religiosa exemplar, fundadora. 
 
“Tout est grand quand c'est l'amour qui le fait”. - Mère Saint-Louis

domingo, 2 de março de 2025

Nossa Senhora das Aparições - Dia da Festa 2 de março

     

     O Abade Orsini escreveu: "Nossa Senhora das Aparições, em Madri, assim chamada porque, no ano de 1449, a Santíssima Virgem apareceu durante oito dias seguintes a uma jovem chamada Yves, e ordenou-lhe que construísse uma igreja em sua honra, no local onde ela deveria encontrar uma cruz plantada para Nossa Senhora". 
     Cubas de la Sagra é um município da Espanha na província e comunidade autónoma de Madrid. As aparições aprovadas de Nossa Senhora em 1449 que ocorreram lá são agora quase inexplicavelmente desconhecidas, mal mencionadas de passagem, ou tratadas como uma lenda em alguns livros, se é que são reconhecidas como um ponto em algum mapa antigo. É verdade que as hostes de Napoleão saquearam e destruíram o santuário e o mosteiro ali construídos, e que a guerra de 1936 não deixou pedra sobre pedra, mas a memória do que aconteceu lá em 1449 não deve ser esquecida, pelo menos pelos católicos. 
     No ano de 1449, Cubas era apenas uma vila com uma igreja simples dedicada a Santo André. A população de Cubas, no entanto, vivia bastante esquecida de seus deveres para com Deus, e seus pecados eram tantos que parecia até mesmo para eles que a mão de Deus deveria estar pairando sobre a terra, pronta para puni-los. 
     As Crônicas falam então de uma jovem de 12 anos chamada Inês (às vezes Yves ou Agnes) que era apenas de origem humilde. Ainda assim, havia algo nela que a tornava diferente das outras garotas de sua idade. Ela jejuava, confessava regularmente e rezava diariamente os 15 mistérios do Rosário. Talvez sua profunda fé e religiosidade possam explicar o que aconteceu a seguir. 
     Na segunda-feira, 3 de março de 1449, Inês estava cuidando de porcos nos arredores da cidade em um lugar chamado Cecília, quando ao meio-dia apareceu uma mulher, uma senhora brilhante e bonita vestida com um tecido de ouro. Ela estava cercada de luz e perguntou a Inês o que ela estava fazendo lá. Inês afirmou que estava cuidando dos porcos. A Senhora então disse que as pessoas não estavam mais mantendo os jejuns e disse a Inês a necessidade de jejuar. A senhora disse que o povo de Cubas deve mudar seus caminhos, confessar e cessar sua devassidão e ofensas contra Deus, ou Ele logo os punirá. Haveria uma grande pestilência que viria sobre eles, da qual muitos morreriam. 
Igreja de Sto. André em Cubas
     Talvez conhecendo a dureza de coração do povo, Inês perguntou se ela também, ou sua mãe e seu pai, morreriam dessa pestilência. Foi-lhe dito apenas que seria como Deus desejava. A senhora então desapareceu. 
     A princípio, Inês não contou a ninguém sobre o incidente, pois achava que ninguém acreditaria no que havia acontecido. 
     Na terça-feira, 4 de março, Inês estava novamente cuidando dos porcos, desta vez perto do riacho de Torrejon. Mais ou menos na mesma hora do dia, ao meio-dia, assim como no dia anterior, a Senhora reapareceu. Ela perguntou a Inês se ela havia dito às pessoas o que lhe dissera para dizer, mas Inês respondeu que não ousava fazê-lo, pois suspeitava que não acreditariam nela. A Senhora então ordenou a Inês que avisasse o povo e que, se eles não acreditassem, ela lhes daria um sinal. Inês perguntou à Senhora quem ela era, mas ela disse que não contaria ainda, antes de desaparecer novamente. 
     Por fim, Inês decidiu contar ao pai, Alfonso Martinez, que não deu importância aos acontecimentos contados pela filha, mas achava que era uma história infantil, uma história inventada na imaginação de uma jovem. Ele disse a Inês para ficar quieta quando ela tentasse contar a alguém sobre o aviso. 
     Na sexta-feira, 7 de março, Inês estava mantendo os porcos em Novo Prado, quando a Senhora reapareceu novamente como antes. Ela perguntou a Inês se ela havia dito o que lhe fora ordenado a dizer. Inês respondeu que havia contado à mãe e ao pai e a muitos outros. A Senhora disse a Inês para publicar o que ela havia dito a todas as pessoas sem medo ou apreensão. 
     Quando Inês foi para casa no final do dia, ela contou aos pais o que havia acontecido. Seu pai disse que ela estava mentindo e para "calar a boca", mas sua mãe encorajou Inês, dizendo: "Bem, ainda assim, diga". 
     No domingo, 9 de março, a notícia se espalhou. Um padre, Juan Gonzalez, com alguns outros homens, foi à casa de Inês e conversou com seus pais. Depois, o padre foi rezar a missa. Inês saiu com os porcos, acompanhada por seu irmão João, para um lugar chamado A Ciroleda. O pai de Inês os deixou e foi à missa. A Ciroleda era um prado aquoso que os porcos gostavam. Inês deixou seu irmão depois de um tempo procurando por um dos porcos que haviam escapado, e logo perdeu de vista seu irmão. Sozinha, ela se ajoelhou na terra fofa, pedindo à senhora que voltasse, embora estivesse com medo. 
     A Senhora apareceu novamente como antes, dizendo a Inês para se levantar. "Senhora, quem sois?", Inês perguntou. "Eu sou a Virgem Maria", respondeu a senhora, e aproximando-se de Inês, pegou sua mão direita e apertou os dedos e o polegar, fazendo algum tipo de sinal. Ela então disse a Inês para ir à igreja e mostrar o sinal às pessoas quando saíssem da missa. Inês disse ao irmão para cuidar dos porcos e foi à igreja, chegando quando a missa estava terminando. Ela estava chorando e foi se ajoelhar diante do altar de Maria. Lá, ela contou a todos o que havia acontecido. 
     Não consigo decifrar o que era o sinal na mão de Inês, mas o que quer que fosse, as pessoas examinaram sua mão e muitos acreditaram. No dia seguinte, o padre conduziu os notáveis da cidade e os fiéis em procissão até o local das últimas aparições, carregando uma cruz de madeira. Quando chegaram, Inês caminhou sozinha com a cruz. A própria Virgem Maria tomou a cruz, dizendo a Inês para construir uma igreja em sua homenagem. 
Mosteiro de Sta. Maria da Cruz
     A cruz foi colocada permanentemente onde a Virgem, Nossa Senhora das Aparições, foi vista pela última vez, e muitos milagres ocorreram lá, incluindo 11 pessoas que foram trazidas de volta à vida. 
     Uma igreja foi iniciada logo após a aprovação das aparições da Virgem. Permaneceu por quase cinco séculos, quando foi destruído no incêndio de 1936, causado durante a Guerra Civil. Muitas das freiras foram martirizadas. Em 1949, a reconstrução foi concluída em parte pelas Regiones Devastadas, que colocaram a cruz atual no mesmo lugar onde a primeira estava. 
     Segundo a tradição, Inês terminou sua vida no mosteiro de Santa Maria de la Cruz depois de ter filhos e ficar viúva. Diz-se que quem vai visitar o local, com fé, recebe graças especiais, e que milagres ainda acontecem lá. 

Fonte:
Nossa Senhora das Aparições – A África do Sul precisa de Nossa Senhora

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Santa Ana Line, Viúva, mártir inglesa – 27 de fevereiro

 

Padroeira dos casais sem filhos, convertidos e viúvas
 
     Desde a instauração do anglicanismo pelo rei Henrique VIII, em 1531, os países da Comunidade Britânica viviam dias difíceis. Os católicos eram perseguidos, os sacerdotes ou eram expatriados ou condenados à morte. Muitos retornavam clandestinamente à Inglaterra para dar assistência religiosa aos leigos e corriam o risco de serem presos e condenados. Vários mosteiros e igrejas foram queimados. Foram anos de intensa perseguição e muitos foram os mártires da Fé católica, leigos e eclesiásticos. Tal situação perdurou ainda pelo século XVII.
     Ana viveu nesta época. Ela nasceu no ano de 1567 em Dunmow, no Condado de Essex, segunda filha de William Heigham e de Ana Alien. Ana havia se convertido ao catolicismo junto com seu irmão Guilherme. Depois de tentar sem sucesso fazê-la apostatar, o pai, um abastado e rigoroso calvinista, deserdou-a e ao irmão, e expulsou-os de casa.
     Pouco tempo depois, provavelmente em 1586, Ana desposou Roger Line, ele também um jovem católico convertido, deserdado pelo mesmo motivo. Mas Ana logo ficou sozinha e sem recursos, porque seu esposo e seu irmão foram presos quando assistiam à Missa, naquele tempo uma grave transgressão. Depois de pagarem uma multa, foram banidos do país. Roger foi para Flandres onde recebia uma pequena pensão do Rei da Espanha, Felipe II, parte da qual enviava para a esposa em Londres. Ana pode contar com aquele auxílio até 1594, ano da morte de Roger Line.
     Ana ficou viúva num momento em que sua saúde estava bastante afetada. Mais do que nunca teve que confiar na Divina Providência para o seu sustento.
Sta. Ana Line jovem
     Quando em 1595 o jesuíta Pe. João Gerard instituiu em Londres uma casa de refúgio para os sacerdotes que retornavam secretamente à cidade, ou que já exercitavam o ministério, Ana foi chamada para governá-la e administrá-la, encargo que ela desenvolveu dia a dia com o afeto de uma mãe e a devoção de uma criada. O sacerdote, cuja autobiografia descreve sua prisão, tortura e fuga posterior da Torre de Londres, que naquela época era uma prisão, confiou em Ana porque ela era "uma mulher de grande prudência e bom senso" e precisava se refugiar na casa, tanto quanto os sacerdotes que iam para lá.
     Em 1597, como esta casa se tornara insegura após a fuga do Pe. Gerard da prisão da Torre, um novo local foi escolhido e Ana nele continuou a desempenhar suas funções. 
     No dia 2 de fevereiro de 1601, Festa da Purificação, o altar e os paramentos para a Missa estavam prontos e o jesuíta Pe. Francis Page foi investido para iniciar a procissão e a bênção das velas, e para rezar a Missa das Candeias na casa administrada por Ana Line, quando guardas vieram prendê-lo. Um vizinho o havia delatado. O padre conseguiu esconder-se num local especialmente preparado por Ana para isto, tirou as vestes para não ser preso e evitar a morte, e depois fugiu. Mas, as autoridades viram o altar e prenderam Ana Line por suspeita de ajudar algum presbítero, já que era sua residência. Ana e dois leigos foram capturados e levados para a prisão de Newgate.
     No dia 26 de fevereiro de 1601 ela foi levada ao tribunal de Old Bailey. Ana estava tão fraca, que foi necessário conduzi-la sobre uma cadeira, tão grave eram suas condições de saúde. O juiz Popham a processava sob a alegação de ter dado refúgio e assistência aos padres missionários. As autoridades não tinham provas de que ela tivesse ajudado algum sacerdote, já que nenhum padre foi preso durante a invasão de domicílio.
     Ela disse à corte que longe de arrepender-se de haver ocultado um padre, ela somente se entristecia por “não poder receber mil”. Foi acusada segundo a ata 27 da Rainha Isabel, quer dizer, por dar albergue a um sacerdote, ainda quando isto não pudesse provar-se, e condenada pelo juiz John Popham a pena capital: seria enforcada no dia seguinte em Tyburn.
     No dia seguinte foi levada à forca e valentemente proclamando sua fé alcançou o martírio pelo que havia rogado. No mesmo dia foram executados dois sacerdotes, o Beato Mark Barkworth, O.S.B. e o Beato Roger Filcock, S.J. O Pe.  Roger Filcock havia sido por muito tempo amigo e frequente confessor da Sra. Line. Sendo mulher, foi poupada do esquartejamento que eles sofreram.
     No cadafalso, antes de colocar a cabeça no laço, declarou em voz alta dirigindo-se à multidão que assistia as execuções: “Fui condenada à morte por ter concedido refúgio a um padre católico; contudo estou tão longe de arrepender-me, que desejaria de todo coração ter hospedado mil em vez de um só”.
     O Pe. Filcock, ainda pendurado na forca proclamou: "Ó bendita Senhora Line, que agora recebeu sua recompensa, vai à nossa frente, mas nós te seguiremos rapidamente nas bem-aventuranças se for do agrado do Todo-Poderoso".
     Antes de morrer, o Pe. Filcock rezou com o Pe. Mark Barkworth, que depois foi enforcado e esquartejado. Por sua parte, Pe. Francis Page, que fugiu no dia da festa da Apresentação do Senhor, foi executado pelo crime de "ser sacerdote" em 20 de abril de 1602.
     Ana Line foi beatificada pelo Papa Pio XI em 15 de dezembro de 1929, e canonizada pelo Papa Paulo VI em 25 de outubro de 1970, junto com os 40 Mártires da Inglaterra e Gales.
     O Pe. Mark Barkworth e o Pe. Francis Page foram beatificados entre um grande grupo de mártires em 1929 pelo Papa Pio XI, já o Pe. Roger Filcock foi beatificado entre os 85 mártires de Inglaterra e País de Gales pelo Papa João Paulo II em 1987.
     A Santa é comemorada no dia 27 de fevereiro. Sua festa com os outros 39 Mártires é em 25 de outubro. Algumas dioceses católicas da Inglaterra, tal como a Diocese de Leeds, comemoram-na com as Santas mártires Margarida Clitherow e Margarida Ward no dia 30 de agosto.
     Graças a mulheres de seu calibre a fé foi preservada na Inglaterra e os riscos que ela enfrentou foram pequenos e grandes. Hoje, há duas igrejas em Essex sob a invocação de Santa Ana Line - modernas e muito feias -, mas com verdadeira devoção à Santa. Percebe-se que existe um verdadeiro culto local que reflete a gratidão pelo dom da fé católica que foi passado para os contemporâneos.
     Santa Ana Line é patrona dos casais sem filhos, dos convertidos, das viúvas.

Fontes:
MORRIS, Life of Fr. John Gerard; CHALLONER, Memoirs, I, 396; FOLEY, Records S.J. I, 405; VII, 254; Douay Diaries, p. 219, 280; Hist. MSS. Com. Rep. Rutland Coll. Belvoir Castle, I, 370; GILLOW, Bibl. Dict. Eng. Cath.
STANLEY J. QUINN (Catholic Encyclopedia)