quinta-feira, 30 de julho de 2026

As relíquias de Sant’Ana festa 26 de julho

   

Relicário
   
Segundo documentos eclesiásticos e uma tradição carolíngia, os restos mortais de Sant’Ana foram trazidos para a Gália por discípulos de Jesus. Nos albores do cristianismo, seguidores do Nazareno foram expulsos da antiga Palestina por causa de sua fé. Levaram o corpo de Sant’ Ana para Apta Julia (Apt), no sul da França.
     Quando da perseguição aos cristãos, no Ocidente, urgia igualmente proteger as relíquias dos santos. Por isso, os restos mortais da avó do Salvador foram inumados na cripta de uma igreja. É o que atesta “O Martirológio de Apt”. Trata-se da fonte mais antiga, mencionando o fato. Outra versão narra que os cruzados trasladaram da Terra Santa os restos mortais da genitora de Maria Santíssima, evitando que fossem violados pelos pagãos.
     Santo Auspicio, bispo de Apta Julia, teve o cuidado de salvaguardar esse tesouro sagrado, colocando-o em segurança no jazigo subterrâneo de uma igreja. Graças a previdência de Santo Auspicio as relíquias foram preservadas das terríveis destruições dos sarracenos, dos alanos, suevos, vândalos e outros bárbaros.
      Os ataques bélicos e o desgaste dos anos arruinaram as paredes do templo. Com isso, o lugar do túmulo foi ficando esquecido.
     No final do século VIII, após a vitória de Carlos Magno sobre os sarracenos, a paz voltou a reinar na Gália. Carlos Magno se hospedou em Apt por volta da Páscoa. O primeiro ato de Carlos Magno ao chegar em Apt foi ordenar que a igreja que fora profanada pelos cultos ímpios fosse reconsagrada.
     Construiu-se em Apt uma nova igreja sobre os escombros da primitiva. As escavações depararam-se com estruturas fortalecidas. Conta-se que no domingo de Páscoa de 792, na cerimônia de dedicação do novo templo, as relíquias da Mãe da Virgem de Nazaré foram descobertas,
     Um milagre impressionante e uma graça inesperada permitiu que o tesouro desconhecido das relíquias de Sant’Ana fosse revelado. Um jovem cego de 14 anos surdo e mudo de nascença, filho do Barão de Caseneuve, estava presente no santuário. Durante a solenidade, o jovem apontava insistentemente para o lugar da tumba na cripta, como se estivesse vendo algo.
       Terminada a missa, Carlos Magno ordenou a escavação no local indicado pelo jovem. Removeram-se as escadarias atrás do altar, aparecendo uma porta lacrada com enormes pedras. Era a entrada da cripta, onde Santo Auspicio costumava celebrar a Santa Missa. “O corpo de Sant’Ana, a mãe de Maria, está descansando ali”, palavras do jovem, que começou a falar, quando avistaram a sepultura. Diante desse acontecimento considerado miraculoso, a multidão presente na Igreja prostrou-se de joelhos. No ataúde havia uma inscrição: “Aqui jaz o corpo da Beata Ana, a mãe da Virgem Maria”. 
     O cofre foi aberto e uma doce fragrância se espalhou pelas criptas confirmando o milagre. O arcebispo Turpin, após tomar o cofre, colocou-o nos braços de Carlos Magno para que fosse beijado em sinal de alegria e consolo.
     Carlos Magno ordenou que o relato de todos os acontecimentos fosse registrado por escrito e submetido ao Papa, que o aprovou emitindo um diploma.
     Tal relato consta dos documentos atribuídos ao Papa Leão III, aos quais se anexou um relatório eventualmente escrito pelo próprio Imperador, o qual fora coroado por aquele Pontífice. Conserva-se ainda cópia dessa documentação. 
     As autoridades das principais cidades gaulesas e de outras nações apressaram-se em pedir à Igreja partes do corpo santificado. Fragmentos foram destinados a várias localidades (como Düren, na Alemanha), sendo doados por soberanos e prelados.
     Grande parte do corpo sagrado de Sant’Ana repousa em Apt, numa capela-túmulo construída por Ana da Áustria, Rainha da França. Clemente VII concedia indulgências aos peregrinos que ali acorriam.
     Partículas dos ossos espalhadas por vários países contribuíram para disseminar a devoção à mãe de Nossa Senhora. Hanna é muito estimada pelos judeus. Descendia do sacerdote Aarão, desposada por Joaquim, oriundo da família real de Davi. Dessa nobreza nasceu a Mãe do Salvador.
     As famílias reais portuguesa e imperial brasileira dedicavam devoção especial à genitora de Nossa Senhora, a ponto de ser designada protetora da Casa da Moeda do Brasil. Sant’Ana é co-patrona do Rio de Janeiro e de São Paulo, padroeira de Goiás, de centenas de paróquias e do Seridó potiguar (onde viveram flamengos judeus e católicos lusitanos), bem como titular da sé episcopal de Caicó.

Catedral de Sant'Ana em Apt, França


Excertos de 'Les Petits Bollandistes' vol. IX pp
 

sábado, 25 de julho de 2026

Santa Olimpia, Nobre, Viúva, fiel nas perseguições – 25 de julho

   
   
Vários documentos históricos importantes e contemporâneos citam ou descrevem esta santa da hagiografia grega. Além disso, existem 17 cartas que São João Crisóstomo enviou a ela do exilio.
   Olímpia nasceu por volta de 361 em uma família abastada de Constantinopla. Era filha de Seleuco e Alexandra, neta de Ablávio e tia de Seleuco; seu avô gozava da estima do imperador Constantino e fora prefeito do Oriente por quatro vezes; seu pai era nobre do palácio.
     Ficando órfã bem jovem, foi confiada a Teodosia, mulher de grande cultura e sentimentos cristãos, irmã do Bispo de Icônio, Santo Anfiloco. Era muito estimada por São Basílio e São Gregório Nazianzeno, Doutores da Igreja. São Gregório de Nissa lhe dedicou um comentário do “Cântico dos Cânticos”.
     Assim, desde muito cedo Olímpia foi instruída sobre as Sagradas Escrituras. Imitando Santa Melânia, a Jovem, se dedicou à mortificação; e embora sendo rica, instruída e nobre pudesse aspirar a uma brilhante posição na corte, dela se afastou.
     No ano de 384-85, casou-se com Nebridio, que foi prefeito de Constantinopla em 386. Santo Gregório de Nazianzo, que havia deixado Constantinopla em 381, foi convidado para o casamento, mas escreveu uma carta desculpando-se pela ausência (Ep. cxciii, em P.G., XXXVI, 315) e enviou à noiva um poema (P.G., loc. cit., 1542 sqq.). Vinte meses depois seu esposo morreu. O imperador Teodósio o Grande desejava que ela se casasse novamente e tinha um pretendente: seu primo. Olímpia recusou-se a contrair novo matrimônio e Teodósio, para vencer sua resistência, sequestrou todos os seus bens.
     O imperador fez uma longa viagem e ao voltar, três anos depois, ficou tão impressionado com as informações sobre sua vida santa e repleta de humildade e caridade, que restituiu os bens a ela.
     Sua fortuna incluía propriedades na Trácia, Galácia e Bitínia, bem como casas e vilas em e no entorno de Constantinopla. Tal como Melânia, a Jovem, é descrita dando sua fortuna a pobres e necessitados.
     Foi então que Olímpia pode fundar algumas obras de caridade, entre elas um grande recolhimento para acolher eclesiásticos de passagem e viajantes pobres. O Bispo Netário (381-397), contrariando o costume da época, nomeou-a diaconisa aos 30 anos, dignidade que então se dava somente às viúvas de 60 anos, e recorria aos seus conselhos cheios de sabedoria e ciência.
     Ela forneceu ajuda aos hierarcas constantinopolitanos, incluindo Anfilóquio de Icônio, Onésimo do Ponto, Gregório de Nazianzo, Pedro de Sebaste, Epitânio de Chipre. Mantinha boa relação com eles, mas era especialmente próxima de São João Crisóstomo (r. 398–404) de quem recebeu várias cartas.
     Olímpia fundou, sob o pórtico sul de Santa Sofia, um mosteiro cujas religiosas pertenciam às melhores famílias de Constantinopla, entre elas suas três irmãs: Elisância, Martiria e Paládia, e uma sobrinha também de nome Olímpia. No início eram cerca de 50 religiosas, que logo se tornaram 250.
     Quando no início do ano 398 São João Crisóstomo chegou à cidade como arcebispo de Constantinopla, encontrou o fervor enfraquecido tanto nos fiéis como nos religiosos, inclusive a corte se tornara mundana com a presença de Eudoxia, mulher do imperador do Oriente, Arcádio. Mas se consolou vendo o mosteiro de Olímpia, formado de almas bem-dispostas e que serviam de modelo.
     Entre o arcebispo e Olímpia se estabeleceu uma profunda amizade; ela tornou-se uma colaboradora valiosa na renovação espiritual por ele iniciada; grande foi sua generosidade doando a São João Crisóstomo ouro e prata para a sua igreja de Santa Sofia. Ela se esforçava para ajudá-lo em tudo, desde o alimento até o vestuário.
     Mas tudo isto atraiu também sobre ela o rancor daqueles que pretendia atrapalhar a obra reformadora do arcebispo. Dois bispos dissidentes obtiveram de Arcádio um decreto de exílio contra São João Crisóstomo, que em meio ao tumulto dos fiéis e das religiosas, teve que deixar Santa Sofia, e foi conduzido por soldados a Cucusa, entre os montes da Armênia.
     No mesmo dia de sua partida, 30 de junho de 404, um incêndio destruiu o episcopado e grande parte da igreja e do senado. Os fiéis do arcebispo foram acusados e inclusive Olímpia foi levada diante do prefeito da cidade, Optato. Acusada do incêndio, ela se defendeu dizendo que havia doado valores consideráveis para a construção da igreja e não tinha nenhuma razão para queimá-la.
     Optato ofereceu deixá-la, bem como as suas religiosas, em paz, se reconhecesse o novo bispo Arsacio, o que Olímpia recusou. Quando São João Crisóstomo foi exilado, Olímpia o apoiou de todas as maneiras possíveis e permaneceu uma fiel discípula, recusando-se a entrar em comunhão com seu sucessor nomeado ilegalmente. Foi condenada a pagar uma grande quantia como multa e depois, no ano de 405, se retirou voluntariamente em Cizico.
     A perseguição contra os seguidores de São João Crisóstomo continuou e Olímpia foi novamente processada pelo prefeito e exilada na Nicomédia.
     Naqueles anos manteve uma correspondência com o bispo exilado na Armênia, interessando-se por sua saúde, enviando-lhe dinheiro para os pobres da região e para o resgate de pessoas cativas. Por sua vez, São João Crisóstomo a exortava a banir a tristeza e a fazer nascer a alegria espiritual que despreza as coisas do mundo e eleva a alma, recomendando-lhe sustentar os seus amigos, que sofriam a perseguição por causa dele.
     Olímpia faleceu por volta de 408, em uma data não documentada. Segundo o escritor Paládio, “os habitantes de Constantinopla a colocam entre os confessores da fé, porque ela morreu e retornou ao Senhor entre as batalhas suportadas por Deus”; antigamente os confessores eram os mártires.
     Uma biografia datada da segunda metade do século V, que fornece detalhes sobre ela a partir da “História Lausiaca” de Paládio e do “Dialogus de vita Joh. Chrysostomi”, comprova a grande veneração que ela desfrutava.
     As religiosas de seu mosteiro foram dispersas em 404, quando foram mandadas para o exílio; se reuniram somente em 416, sob a direção de Honorina, parente de Olímpia, quando os seguidores de São João Crisóstomo se reconciliaram com os seus sucessores.
     Durante o tumulto de Constantinopla em 532, o convento de Santa Olímpia e a igreja adjacente foram destruídos pelo incêndio de Santa Sofia. As religiosas so retornaram quando o imperador Justiniano o reconstruiu.
     As relíquias de Santa Olímpia, que tinham sido levadas da Nicomédia para a igreja de São Tomás, no Bósforo, se perderam durante o incêndio da igreja quando das incursões dos persas (616-626). A superiora Sérgia teve a graça de reencontrá-las entre os escombros e transportou-as para o interior do mosteiro. Depois disto, não se teve mais notícias delas.
     No Oriente Santa Olímpia é celebrada nos dias 24, 25 e 29 de julho; no Martirológio Romano, no dia 17 de dezembro; ela está entre os 140 santos nas colunas que adornam a Praça de São Pedro, no Vaticano.
 
Etimologia: Olímpia = que habita no Olimpo, sede dos deuses
 
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki
17/12 - Santa Olímpia, Viúva - Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Santa Brígida da Suécia, Esposa, Viúva, Mística e Fundadora - 23 de julho

   
     Brígida Birgersdotter, escritora, teóloga, fundadora de Ordem religiosa, padroeira da Suécia e Co-padroeira da Europa, era filha do aristocrata Birger Persson de Finsta e de Ingeborg Bengtsdotter. Seu pai foi conselheiro real (riksråd) e homem de leis (legífero) de Tiundalândia na Uppland. Por intermédio de seus pais e de seu esposo, pertenceu aos círculos políticos mais influentes da Suécia medieval. 
     Santa Brígida nasceu por volta de 1303, segundo uma tradição antiga, em Norrtälje, na província de Uppland, não longe de Upsala, então a capital de todo o reino. Finsta era a residência da família Finsta, e pertenceu durante ce,rto tempo (porém não na época do nascimento de Brígida) a seu pai. Seu pai era juiz de Uppland, e seu avô paterno, seu avô materno e seu irmão também exerceram essa profissão. Seu esposo também viria a ser juiz, teve um filho que passaria a exercer a mesma atividade. Seu avô materno era primo de Magnus Ladulás, de modo que Brígida tinha parentesco com a família real sueca.  Sua família forneceu à Igreja muitos santos e se dedicava a construir mosteiros, igrejas e hospitais com a própria fortuna. 
     Birger, seu pai, era homem cheio de piedade e de virtude. Fundou grande número de igrejas e de mosteiros; fez peregrinações a Roma, a Jerusalém e a outros santos lugares, a exemplo de Pedro, seu pai e de seus antepassados. Jejuava, confessava-se e comungava todas as sextas-feiras, a fim de conseguir a graça de sofrer pacientemente as cruzes que Deus lhe mandava até a sexta-feira seguinte. Sua mãe, Ingeborg Bengtsdotter, filha de Ligride, não tinha menos piedade. O túmulo dos dois esposos existe ainda na catedral de Upsala.
     Até os seus 3 anos de idade a pequena Brígida não falava. Repentinamente, falou com impressionante facilidade e desenvoltura. Aos 7 anos teve sua primeira experiência mística conhecida: viu Nossa Senhora que lhe sorria e colocava sua majestosa coroa sobre sua cabeça. Depois, desapareceu.
     Aos 10 anos de idade Brígida experimentou a dor da separação: sua mãe adoeceu gravemente e faleceu. Era, portanto, o ano 1312. Seu pai, se considerando incapaz de prover educação compatível com a de uma menina de sua condição social, enviou-a para a casa da cunhada Catarina Bengtsdotter, em Aspanäs, próxima ao Lago Sommen, em Östergötland. 
     Desde a infância, Brígida tinha o dom das revelações divinas, todas anotadas por ela no seu idioma sueco. Em uma ocasião, viu diante dela Jesus Cristo torturado e morto na cruz. Alguns dias depois, teve uma outra visão, de Cristo pregado à Cruz, coberto de chagas, e o Salvador lhe disse estas palavras: “Olha em que estado me encontro, minha filha”. E ela perguntou: “Jesus, quem te fez isto?”, ao que Ele respondeu: “Aqueles que me ofendem e não querem o meu amor”. Tal visão deixou uma profunda e indelével marca em seu coração.
     Esses dois temas, a profunda devoção a Maria e as meditações sobre o sofrimento de Cristo, marcariam toda a vida de Santa Brígida. As descrições foram traduzidas para o latim e somaram oito grandes volumes, que ainda hoje são fonte de consulta para historiadores, teólogos e fiéis cristãos.
     A "gruta das orações" (construída no século XX), está sempre aberta a visitantes. Segundo a tradição, foi lá que Nosso Senhor apareceu pela primeira vez a Santa Brígida. Nas proximidades de Finsta, se encontra a igreja de Skederid (do século XIII), o templo onde Brígida passou a infância.
A Sta. recebendo as 
revelações
     Antes de completar 14 anos, e atendendo às ordens de seu pai e parentes, Brígida casa-se com Ulf Gudmarsson. Com este homem nobre em mais de um sentido, viveu um matrimônio feliz por 28 anos. Como frutos desse casamento, vieram ao mundo 8 filhos, sendo 4 meninos e 4 meninas.
     Era com rigor que eles cuidavam da educação religiosa e acadêmica dos filhos, sempre no caminho para a santificação em Cristo.  Carlos, o mais velho, veio a se tornar um homem de vida desregrada. Dois meninos morreram ainda crianças e o quarto chamava-se Gudmaro. As mulheres se casaram, porém, a terceira, ficando viúva, tornou-se religiosa e foi canonizada como Santa Catarina da Suécia. A quarta filha entrou para a Ordem de Cister, também como religiosa.
     Em 1355, Brígida foi chamada pela corte do rei Magno II para converter-se em dama de honra da rainha Branca de Namur. Esta incumbência exigia que ela frequentasse sempre as cortes luxuosas. Mas não se corrompeu neste ambiente de riquezas frívolas, ao contrário, manteve-se fiel aos ensinamentos cristãos, perseverando na dignidade e na caridade da fé.
     A devoção de Brígida também influenciou seu marido. Entre outras viagens, o casal realizou peregrinações a Nídaros (atual Trondheim) e a Santiago de Compostela. A caminho da Espanha, na cidade francesa de Arras, Ulf adoeceu. Quando se temia o pior, o santo francês São Dionísio apareceu ante Brígida e lhe prometeu que seu marido não morreria nessa ocasião. De fato, ele ficou curado, mas, de volta a Suécia, Ulf ingressou no mosteiro cisterciense de Alvastra, onde vivia um dos seus filhos, e lá morreu, em 1344.
     Após a morte de Ulf, Brígida repartiu seus bens entre os herdeiros e os pobres, passando a viver de maneira simples nas imediações do convento de Alvastra. Viúva, Brígida decidiu retirar-se definitivamente para a vida monástica para realizar um velho projeto, a fundação de um mosteiro duplo, de homens e mulheres, que deu origem à Ordem do Santo Salvador, sob as Regras de Santo Agostinho, passando, então, a viver nele.
     Suas visões e revelações se tornaram mais numerosas e frequentes. As revelações divinas não lhe vinham mais em sonhos, mas quando desperta e em oração, muitas vezes em êxtases. As cerca de 600 visões e revelações de Santa Brígida, vindas de Deus, se referiam aos assuntos mais polêmicos de sua época e muitos reconhecem que, graças a essas visões, alguns acordos de paz foram obtidos e relações políticas entre os Estados se concretizaram, dentre outras coisas. Essas visões - relatadas pela própria Brígida - foram vertidas por escrito em latim na obra Revelações de Santa Brígida redigida pelo prior do Mosteiro de Santa Maria, Pedro de Skänninge (Petrus av Skänninge ou Petrus Olavi), que era confessor e confidente de Santa Brígida, a quem confiava com exatidão suas visões divinas.
      Certa vez, em uma visão, Jesus lhe disse: "O que eu te falo não é somente para ti, (...) mas por meio de ti falarei ao mundo".
     Brígida viajou a Roma no ano de 1349 com o propósito de tomar parte na celebração do jubileu de 1350, e para obter permissão do Papa para fundar uma nova Ordem religiosa. Entretanto, na ocasião o Papa residia em Avignon e, além disso, a Igreja havia proibido o estabelecimento de mais ordens religiosas. A ausência do Papa desanimou Brígida, que havia tido uma visão na qual encontraria o Papa e o Imperador quando chegasse a Roma.
     Em Roma, residiu primeiramente próximo da Basílica de São Lourenço. Foi testemunha do decaimento espiritual da cidade após a partida do Papa. Durante sua estadia na cidade, escreveu cartas ao Papa, onde lhe suplicava que regressasse a Roma, e se dedicou a visitar as igrejas que continham túmulos de santos. Nas Igreja de São Lourenço de Panisperna, na colina de Viminal, pediu aos transeuntes esmolas para os necessitados. Também aproveitou para viajar em peregrinação aos santuários de Assis, à Nápoles e ao sul da Itália.
     Em 1368, o Papa Urbano V regressou a Roma e, em 21 de outubro recebeu o Imperador Carlos IV. Então Brígida pôde entregar as regras de sua ordem ao Papa, que se encarregaria de examiná-las. As regras foram aceitas com várias revisões e grandes mudanças com as quais Brígida provavelmente não concordava. Além disso, o Papa tomou a decisão de deixar novamente a Itália por motivos de segurança, situação com a qual Brígida também não estava de acordo. Ela profetizou que o Papa receberia um forte golpe de Deus e após dois meses do regresso a Avignon Urbano faleceu.
     Em 1371, quando tinha aproximadamente 68 anos, Brígida realizou uma viagem à Terra Santa, com um itinerário que passaria por Nápoles e Chipre. Em Nápoles, faleceu seu filho Carlos Ulvsson, o que lhe acarretou grandes preocupações. Brígida teve, então, outra aparição que lhe garantiu o perdão divino a seu filho, que agradeceu as orações e lágrimas de sua mãe.
     Quando voltou à Roma, no verão de 1373, uma enfermidade a debilitou e Brígida faleceu no que é hoje a Praça Farnese, no dia 23 de julho, aos setenta e um anos, em mãos de seu fiel confessor. De acordo com sua própria vontade, seus restos mortais foram transladados para a Suécia, especificamente para o convento de Vadstena, após haverem sido enterrados na igreja romana de São Lourenço em Panisperna.
     A Ordem fundada por ela passou a ser dirigida por sua filha, Catarina da Suécia, alcançando notoriedade pelos anos futuros.
     Em 1377, por ordem do Bispo Alfonso Pecha de Vadaterra, amigo e confessor de Brígida, saiu à luz a primeira edição de suas Aparições Celestiais. Em 1378, saiu outra aprovação sobre as regras da ordem religiosa de Brígida, e em 1384 o convento de Vadstena foi consagrado.
     O processo de canonização de Brígida começou em 1377 e terminou em 1391. Foi canonizada a 7 de outubro de 1391 por Bonifácio IX.  Em 1999, Santa Brígida foi elevada à categoria, junto com Santa Catarina de Siena e Santa Teresa Benedita da Cruz, de co-patrona da Europa.
     A ordem de Santa Brígida perdura até nossos dias, sob o nome de Ordem do Santo Salvador (Ordo Sancti Salvatoris), chamada comumente de Ordem Brigidina. Os restos de Santa Brígida se encontram na Abadia de Vadstena. O edifício onde a Santa viveu em Roma, a Casa de Santa Brígida, contém um templo, um convento e um albergue. 
     Santa Brígida da Suécia é autora de duas obras incluídas no Cânone Cultural da Suécia (Sveriges kulturkanon), uma lista oficial de obras e realizações particularmente importantes para a herança cultural do país: Abadia de Vadstena e Revelações de Santa Brígida.
     Ela é venerada como a padroeira da Suécia. Sua festa litúrgica é comemorada em 23 de julho.
 
Visões e revelações: O tempo presente e as profecias de Sta. Brígida
   
Sta. Brígida e sua filha
Sta. Catarina da Suécia

     As Revelações de Santa Brígida receberam um grau excepcionalmente alto de autenticidade, autoridade e importância desde o início. O Papa Gregório XI (1370-78) aprovou e confirmou-as e julgou-as favoravelmente, assim como Bonifácio IX (1389-1404), na Bula Ab Origine Mundi, par. 39 (7 de julho de 1391). Mais tarde, foram examinados no Concílio de Constança (1414-18) e no Concílio de Basileia (1431-49), ambos julgando-as em conformidade com a fé católica. As revelações também foram fortemente defendidas por inúmeros teólogos conceituados, incluindo Jean Gerson (1363-1429), Chanceler da Universidade de Paris, e Cardeal Juan de Torquemada (1388-1468).
     Consta dos escritos de Santa Brígida que Nosso Senhor, referindo-se aos últimos tempos, disse-lhe: “... 40 anos antes do ano 2000 (anos 60 do século 20, portanto), o demônio será deixado solto, por um tempo”.
     “Um sinal dos eventos que marcarão o fim dos tempos será este: os sacerdotes deixarão de usar o hábito santo e se vestirão como pessoas comuns; as mulheres se vestirão como os homens e os homens como as mulheres”.
     “… Esta é a hora de Satanás, que tem a infame intenção de destruir a minha Criação...”
     Encerramos com uma importante advertência: há muitas supostas profecias atribuídas a Santa Brígida que podem ser encontradas na internet. Porém, é preciso extremo cuidado e seriedade ao se analisar tais conteúdos, porque há muita falsidade e/ou material sem apresentação de fontes que não merecem crédito.
 
Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Br%C3%ADgida_da_Su%C3%A9cia
www.obradoespiritosanto.com
http://www.derradeirasgracas.com/3.%20Os%20Santos%20do%20Dia/Santos%20do%20Mês%20de%20Julho/23-07%20Santa%20Brígida%20%20%20.htm

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Santa Vitburga, Virgem Abadessa – 8 de julho

 
  
Segundo a tradição popular, Vitburga (também conhecida como Wihtburh, Withburga ou Withburge) era a filha mais nova de Anna, rei de East Angles.
     Anna foi morto em batalha contra Penda da Mércia, e após a morte de seu pai, Vitburga foi para Dereham, em Norfolk, onde reuniu algumas jovens e fundou um pequeno convento.
     Vitburga é tradicionalmente ligada a um relato em que duas corças forneceram leite para os construtores de seu convento em Dereham, Norfolk. Quando um funcionário local tentou caçar as corças, ele foi jogado do cavalo e morto.
     Vitburga morreu em 743 e foi sepultada em Dereham. Seu corpo permaneceu incorrupto quando seu túmulo foi aberto meio século após sua morte, e a igreja e o túmulo tornaram-se posteriormente um local de peregrinação. Quando suas relíquias foram roubadas por ordem do abade da Abadia de Ely, os restos mortais foram reenterrados em Ely, ao lado de suas irmãs Eteldreda e Sexburga. Em 1106, o corpo de Vitburga foi novamente examinado e encontrado intacto.
     O culto de Vitburga no leste da Inglaterra estava intimamente ligado ao de Eteltdeda, sua irmã. Como se sabe que Eteldreda era filha de Anna, rei de East Angles, Vitburga teria sido sua irmã, caso ela fosse realmente filha do rei Anna. Sua veneração foi suprimida durante a Reforma na década de 1540, e todas suas relíquias foram destruídas.
Família
     Vitburga provavelmente era uma das filhas de Anna, rei de East Angles, filho de Eni, membro da dinastia Wuffingas, e sobrinho de Redvaldo, rei dos Anglos Orientais de 600 a 625. 
     East Angles foi um reino anglo-saxão antigo e de longa duração que corresponde aos condados ingleses modernos de Norfolk e Suffolk. Devido à rivalidade pelo controle sobre o povo da Anglia Média, East Anglia e sua vizinha Mércia provavelmente se tornaram inimigas hereditárias, e o rei de Mércia, Panda, atacou repetidamente os Anglos Orientais de meados da década de 630 até 654.
     As fontes de informação sobre a família de Vitburga e a vida e reinado de Anna estão incluídos na História Eclesiástica do Povo Inglês, concluída na Northumbria pelo monge inglês Beda em 731, e a Crônica Anglo-saxônica, que data do século IX. O Liber Eliensis, escrito em Ely no século XII, também fornece informações sobre Anna e suas filhas.
     Vitburga não é mencionada por Beda, cujos escritos sobre suas irmãs indicam que ele estava bem-informado sobre a família. Referências a Vitburga aparecem pela primeira vez em registros dos séculos X e XI.
     
Uma história tradicional relata que, enquanto construía o convento, ela tinha apenas pão seco para dar aos trabalhadores. Ela rezou à Virgem Maria e foi orientada a enviar suas criadas a um poço local todas as manhãs. Lá encontraram duas corças selvagens que eram dóceis o suficiente para serem ordenhadas, e assim forneciam uma bebida nutritiva para os trabalhadores. Segundo a história, um funcionário local não aprovou o milagre e decidiu caçar as corças com seus cães e impedir que viessem para serem ordenhadas. Ele foi punido por essa crueldade quando foi jogado do cavalo e quebrou o pescoço.
     O fato é comemorado na placa da cidade no centro de Dereham. A placa original, feita em 1954 por Harry Carter e por meninos da Hamond’s Grammar School, foi substituída em 2004 por uma réplica de fibra de vidro.
Morte e veneração em Dereham
     Vitburga morreu em idade avançada, em 17 de março de 743, pouco depois da conclusão da igreja, e foi sepultado em Dereham. Vitburga é mencionada nos anais da Crônica Anglo-Saxônica de 799, em um acréscimo ao texto original escrito após a Conquista Normanda de 1066: 799 d.C. Este ano, o arcebispo Ethelbert e Cynbert, bispo de Wessex, foram a Roma. Enquanto isso, o bispo Alfun faleceu em Sudbury e foi sepultado em Dunwich. Após ele, Tidfrith foi eleito para a sé; e Siric, rei dos saxões orientais, foi para Roma. Nesse ano, o corpo de Vitburga foi encontrado inteiro e livre de decomposição em Dereham, após um intervalo de cinquenta e cinco anos desde o período de sua morte.
     A incorruptibilidade do corpo de Vitburga foi considerada um milagre e seus restos foram reenterrados na igreja que ela havia construído em Dereham. A igreja e o túmulo tornaram-se locais de peregrinação. A grande igreja de Dereham possui uma capela dedicada a Vitburga, e um plano que, segundo o historiador Tim Pestell, “possivelmente indica seu antigo status”.
Remoção para Ely
     Em 974, Brithnoth, abade de Ely, acompanhado de monges e homens armados, viajou para Dereham com a intenção de tomar o corpo de Vitburga à força. Eles organizaram um banquete para os moradores da cidade como tática de distração. Depois de esperar até que os homens de Dereham estivessem devidamente bêbados, Brithnoth roubou o corpo de Vitburga e partiu durante a noite para a Ilha de Ely. Após descobrirem o roubo, o povo de Dereham partiu atrás dos ladrões de túmulos, que foram atacados em Brandon pelos moradores da cidade. Usando seu conhecimento dos Fens para escapar dos perseguidores, Brithnoth e seus homens chegaram com sucesso a Ely, e os restos mortais de Vitburga foram reenterrados ali. Quando os homens de Dereham retornaram para casa, descobriram que uma nascente havia surgido no túmulo de Vitburga. Eles interpretaram isso como um sinal de consolação da santa para eles. Esta nascente nunca secou.
Tumulo de Sta. Vitburga
     
A história do roubo, que aparece no Liber Eliensis, foi retirada de uma Vida anterior da santa. A abadia tentou contar a história como um "sacrilégio sagrado apropriado", o que lhe dava honra, pois ela estava sendo sepultada próxima aos restos mortais de sua irmã mais velha, Eteldreda.
      No local do túmulo de Vitburga, fora da extremidade oeste da igreja paroquial da cidade, há os restos de um poço sagrado associado à santa que teria ressuscitado no local de seu túmulo após seu corpo ter sido roubado.
     O sepultamento de Vitburga em Ely é registrado pela primeira vez no Hyde Register, uma lista do século XI dos locais de sepultamento de santos ingleses. Uma frase do texto do registro, atualmente guardada na Biblioteca Britânica, diz que ela foi colocada perto de Eteldreda, Sexburga e Ermenilda, filha de Sexburga.
     Em 1106, quando seus restos mortais foram movidos para mais perto do altar-mor, os corpos de Vitburga e de suas irmãs foram exibidos publicamente diante de um grupo de bispos, abades e clérigos, incluindo Anselmo, arcebispo de Cantuária. Descobriu-se que o corpo de Eteldreda havia sido preservado e que Vitburga era tão conservada, seus membros eram flexíveis, suas bochechas rosadas e seus seios firmes, sinal da vitalidade, juventude e "produtividade crescente" de seu corpo. As relíquias das irmãs foram todas destruídas durante a Reforma de Henrique VIII; não resta nenhum vestígio dos túmulos reais, incluindo o de Vitburga.
Disseminação de sua história de vida
     O processo pelo qual a história de Vitburga foi divulgada não é conhecido com certeza. Entre 1325 e 1340, o cronista inglês John de Tynemouth incluiu a vitae dos santos de Ely, incluindo Vitburga, em seu Sanctilogium Angliae. A obra foi ampliada durante o século XV e uma edição revisada impressa em inglês em 1516.
     Vitburga está incluída como "Santa Withburge" em The Lives of Women Saints of our Contrie of England, além de Some Other Liues of Holie Women Written by Some of the Uncient Fathers, escritos durante a primeira metade da década de 1610.
     A história de Vitburga parece ter sido influente apenas em nível local; quatro imagens mostram Vitburga da igreja de Norfolk.
     Santa Vitburga é celebrada no dia 8 de julho, data em que peregrinos costumam realizar visitas e cerimônias na região.
 
Fontes: Wihtburh - Wikipedia

sábado, 4 de julho de 2026

Santa Isabel, Rainha de Portugal, Esposa, mãe, viúva, 3ª. franciscana - 4 de julho

     
     Isabel de Aragão nasceu no palácio de Aljaferia, na cidade de Zaragoza, onde reinava o seu avô paterno, D. Jaime I. Era a filha mais velha de D. Pedro III e de D. Constança de Hohenstaufen. Por via materna era descendente de Frederico II, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, pois seu avô era Manfredo de Hohenstaufen, rei da Sicília, filho de Frederico II.
     A princesa recebeu o nome de Isabel por desejo de sua mãe, em recordação de sua tia Santa Isabel da Hungria, Duquesa da Turíngia. O seu nascimento veio acabar com as discórdias na corte de Aragão, pelo que o seu avô a chamava “rosa da casa de Aragão”.
     As virtudes da sua tia-avó viriam a servir-lhe de modelo e desde muito nova começou a mostrar gosto pela meditação, oração e jejum, não a atraindo os divertimentos comuns das jovens de sua idade. Isabel não gostava de música, passeios, nem joias e enfeites, vestia-se sempre com simplicidade.
     A infanta D. Isabel tornara-se conhecida pela beleza, discrição e santidade. As suas virtudes levaram muitos príncipes a se apresentarem a D. Pedro como pretendentes à mão da sua admirável filha.
     D. Dinis I de Portugal tinha 19 anos quando subiu ao trono e, pensando em casamento, convinha-lhe Isabel de Aragão; assim, D. Dinis enviou uma embaixada a Pedro de Aragão em 1280. Quando os embaixadores lá chegaram, estavam ainda à espera de resposta enviados dos reis de França e de Inglaterra, cada um desejoso de casar Isabel com um dos seus filhos. Aragão preferiu entre os pretendentes aquele que já era rei.
     Isabel estava mais inclinada a encerrar-se num convento, no entanto, como era submissa, viu na resolução dos pais a vontade do céu.
     A 11 de fevereiro de 1282, com 12 anos, Isabel casou-se por procuração com D. Dinis, tendo celebrado a boda ao passar a fronteira da Beira, na Vila de Trancoso, em 26 de junho do mesmo ano. Por esse motivo, o rei acrescentou esta vila ao dote que habitualmente era entregue às rainhas (a chamada Casa das Rainhas, conjunto de senhorios a partir dos quais as consortes dos reis portugueses colhiam as prendas destinadas à manutenção da sua pessoa).
     Nos primeiros tempos de casada Da. Isabel acompanhava o marido nas suas deslocações pelo país e com a sua bondade conquistou a simpatia do povo. Dava dotes a jovens pobres e educava os filhos de cavaleiros sem fortuna.
Sta. Isabel
e Dom Dinis
     Da. Isabel deu ao rei dois filhos: Constança (3/1/1290 – 18/11/1313), que se casou em 1302 com o rei Fernando IV de Castela; e D. Afonso IV (8/2/1291 – 28/5/1357), sucessor do pai no trono de Portugal.
   As numerosas aventuras extraconjugais do marido humilhavam-na profundamente. Mas Da. Isabel mostrava-se magnânima no perdão, criando com os seus também os filhos ilegítimos de Dinis, aos quais reservava igual afeto.
    Entre seus familiares, constantemente em luta, desempenhou obra de pacificadora, merecendo justamente o apelido de "Anjo da paz". Desempenhou sempre o papel de medianeira entre o rei e o seu irmão D. Afonso, bem como entre o rei e o príncipe herdeiro. Por sua intervenção foi assinada a paz em 1322.
     A sua vida será marcada por quatro virtudes fundamentais: a piedade, a caridade, a humildade e a inquietude pela paz. Tornou-se uma mulher de grande piedade conservando em sua vida a prática da oração e a meditação da palavra de Deus. Buscou sempre a reconciliação e a paz entre as pessoas, as famílias e até entre Nações.
     Da. Isabel costumava dizer “Deus tornou-me rainha para me dar meios de fazer esmolas”. Sempre que saía do paço era seguida por pobres e andrajosos a quem sempre ajudava.
     D. Dinis morreu em 1325. Pouco depois da sua morte Da. Isabel peregrinou ao Santuário de Santiago de Compostela, fazendo-o montada num burro e a última etapa a pé, onde ofertou muitos dos seus bens pessoais. Há historiadores que defendem a ideia de que ela terá se deslocado ao local duas vezes.
     Após a morte de seu marido, entregou-se inteiramente às obras assistenciais que havia fundado. Recolheu-se por fim no então Mosteiro de Santa Clara-a-Velha em Coimbra, vestindo o hábito da Ordem das Clarissas, mas não fazendo votos, o que lhe permitia manter a sua fortuna usada para a caridade. Só voltaria a sair dele uma vez, pouco antes da morte, em 1336.
     Nessa altura, Afonso declarara guerra ao seu sobrinho, o rei D. Afonso XI de Castela, filho da infanta Constança de Portugal, e, portanto, neto materno de Isabel, pelos maus tratos que este infligia à sua mulher Da. Maria, filha do rei português. Não obstante a sua idade avançada e a sua doença, a rainha Santa Isabel dirigiu-se a Estremoz, cavalgando na sua mula por dias e dias, onde mais uma vez se colocou entre dois exércitos desavindos e evitou a guerra. No entanto, a paz chegaria somente com a intervenção da própria Maria de Portugal, por um tratado assinado em Sevilha em 1339. 
Sta. Isabel em peregrinação
    Da. Isabel mandou edificar o hospital de Coimbra, o de Santarém e o de Leiria para receber enjeitados. Viveu uma profunda caridade sendo sempre sensível às necessidades dos mais pobres; o resto da vida praticou a pobreza voluntária, dedicando-se aos exercícios de piedade e de mortificações.
     O povo criou à sua volta uma áurea de santidade, atribuindo-lhe diversos milagres, como a cura da sua dama de companhia e de diversos leprosos. Diz-se também que fez com que uma pobre criança cega começasse a ver e que curou numa só noite os graves ferimentos de um criado. No entanto o mais conhecido é o milagre das rosas.
     Reza a tradição que durante o cerco de Lisboa D. Isabel estava a distribuir moedas de prata para socorrer os necessitados da zona de Alvalade, quando o marido apareceu. O rei perguntou-lhe: “O que levais aí, Senhora?” Ao que ela, com receio de desgostar a D. Dinis, e, como que inspirada pelo céu respondeu: "Levo rosas senhor”, e, abrindo o manto, perante o olhar atônito do rei, não se viram moedas, mas sim rosas encarnadas e frescas.
     Da. Isabel faleceu, tocada pela peste, em Estremoz, a 4 de julho de 1336, tendo deixado expresso em seu testamento o desejo de ser sepultada no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Constavam também de seu testamento grandes legados a hospitais e conventos.
     Segundo uma história hagiográfica, sendo a viagem demorada, havia o receio de o cadáver entrar em decomposição acelerada pelo calor que fazia, e conta-se que a meio da viagem, debaixo de um calor abrasador, o ataúde começou a abrir fendas, pelas quais escorria um líquido, que todos supuseram provir da decomposição cadavérica. Qual não foi, porém a surpresa quando notaram que em vez do mau cheiro esperado, saía um aroma suavíssimo do ataúde.
Túmulo de Sta. Isabel
     Por ordem do bispo D. Afonso de Castelo Branco abriu-se o túmulo real, verificando-se que o corpo da saudosa Rainha estava incorrupto. Beatificada pelo Papa Leão X (breve de 15/4/1516), a canonização solene teve lugar em 1625, pelo Papa Urbano VIII. Quando esta notícia chegou à cidade realizaram-se grandes festejos que se prolongam até aos nossos dias. É reverenciada a 4 de julho, data do seu falecimento.
     O seu marido, D. Dinis, repousa no Mosteiro de São Dinis, em Odivelas.
 

Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, Coimbra, onde se encontra o sarcófago de Sta. Isabel
 
Fontes: http://www.cademeusanto.com.br/santa_isabel_portugal.htm;
http://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Isabel_de_Arag%C3%A3o,_Rainha_de_Portugal
https://bibliotecacatolica.com.br/
 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Beata Madre Assunta Marchetti, Missionária – 1°. de julho


Cofundadora da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo - Scalabrinianas
 
     Maria Assunta Caterina Marchetti nasceu em Lombrici di Camaiore, província de Lucca, na região da Toscana, Itália, em 15 de agosto de 1871, e foi batizada no dia seguinte na paróquia Santa Maria Assunta, que ficava ao lado da casa da família.
     De acordo com os documentos históricos, os pais Ângelo Marchetti e Carolina Ghilarducci eram moleiros. O trabalho da moagem garantia o sustento da família como também a moradia. Os pais sempre contaram com a ajuda de Assunta para cuidar dos outros 10 irmãos, pois sua mãe tinha saúde frágil.
     Desde jovem Maria Assunta anelava por uma vida de total dedicação e doação a Deus nas religiosas contemplativas. Mas as tarefas domésticas, a doença da mãe e a morte prematura do pai impediram-na de realizar imediatamente suas aspirações.
     No final do século XIX os italianos deixavam a Itália e rumavam para as Américas, especialmente para o Brasil. O irmão de Maria Assunta, José Marchetti, ingressou no Seminário de Lucca e se ordenou sacerdote em 1892. Tornou-se pároco em Compignano, diocese de Lucca, e via a maioria dos paroquianos deixarem a Itália em busca de sobrevivência. Então, de sacerdote diocesano passou a ser missionário de São Carlos Borromeu, congregação fundada em 1887 pelo Bispo de Piacenza, o Beato João Batista Scalabrini que, compadecido dos imigrantes italianos, organizou um grupo de missionários para acompanhar os imigrantes nas suas viagens nada fáceis.
     O Padre José passou a ser missionário de bordo e durante as viagens da Itália para o Brasil atendia os imigrantes ministrando os Sacramentos necessários, inclusive as exéquias para os que morriam e eram lançados ao mar.
     Em uma dessas viagens uma jovem mãe morreu a bordo do navio deixando órfã uma filha pequena e o marido desesperado. O pai deixou aos seus cuidados o bebê que ele assumiu a responsabilidade de cuidar. Ao desembarcar no Brasil, o padre imediatamente providenciou um orfanato onde colocou a criança. A partir deste fato, ele entendeu que sua missão não era a de ser missionário de bordo, mas de cuidar dos órfãos filhos de imigrantes italianos e africanos que viviam na cidade de São Paulo.
     Em 1895, o Padre José construiu dois orfanatos em São Paulo, um no alto do Ipiranga e outro na Vila Prudente. Com tantos órfãos para cuidar, voltou à Itália e convenceu Maria Assunta a vir com ele para ajudar no cuidado das crianças. Junto com a mãe e duas jovens, Maria Assunta foi apresentada a D. Scalabrini. 
    Em 25 de outubro de 1895, Maria Assunta, seu irmão e suas duas amigas emitiram os primeiros votos religiosos nas mãos do Beato João Batista Scalabrini, fundador da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo - Scalabrinianas, constituindo as "Servas dos Órfãos e Abandonados".
     Em 27 de outubro, partiram para o Brasil como missionários para os imigrantes e nunca mais retornaram à Itália, fazendo de sua pátria o Brasil. Padre José Marchetti morreu aos 27 anos, vítima da febre tifoide, muito comum entre os imigrantes naquele período.
O trabalho missionário em São Paulo
      Madre Assunta não só iria enfrentar o mundo, como também deveria socorrer as pessoas em um ambiente hostil, pois na época São Paulo era marcada por outras religiões como a maçonaria, por exemplo.
      Ao chegarem a São Paulo dedicaram-se ao cuidado dos órfãos e dos imigrantes italianos afetados pela cólera tifoide e pela difteria. O orfanato tinha como objetivo ser um ambiente familiar para os pequenos que haviam perdido os pais nos trajetos da imigração e no trabalho nas fazendas de café. Eram órfãos italianos, africanos, todos eram bem acolhidos. Assunta se dedicou ao próximo com heroísmo e não media esforços quando se tratava de atender ao mais necessitado.
     “O primeiro doente da Santa Casa de Monte Alto - SP foi um homem negro, mendigo. Madre Assunta se compadeceu dele porque estava sozinho na enfermaria, enquanto não havia ainda enfermeiros. Colocou uma cama no fundo do corredor, do lado oposto do doente e dormiu ali algumas noites para poder atendê-lo logo que chamasse. Via Cristo no irmão pobre, sofrido ou doente”, contou Irmã Afonsina Salvador que conviveu com Madre Assunta. “Tudo o que acontece é bom, porque vem de Deus”, sempre dizia Assunta, como que fazendo ecoar o mesmo pensamento de seu irmão José, que em todos os acontecimentos dizia: Deo gratias!
     Uma ferida grave na perna, provocada durante a visita a um doente, causou-lhe longos anos de sofrimento. Madre Assunta passou os últimos meses de sua vida em uma cadeira de rodas, mas sempre atenta em servir o próximo. Morreu em 1º de julho de 1948, em meio aos órfãos, no orfanato da Vila Prudente - SP, hoje, “Casa Madre Assunta Marchetti”, onde se encontram seus restos mortais.
 

Fontes:
Assunta Marchetti - Wikipedia
https://madreassunta.com.br
 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Beata Hosana Andreasi de Mântua, Mística - 18 de junho

      A Beata Hosana Andreasi nasceu no magnífico palácio de uma nobilíssima família italiana (sua mãe era uma Gonzaga). Aos cinco anos, enquanto caminhava nas margens do Pó, ouviu distintamente uma voz clara e firme que lhe diz: "A vida e a morte consistem em amar a Deus". A criança entra em êxtase e sente-se levada até o Céu por um esplêndido anjo. Este lhe mostra a hierarquia do Céu e diz: "Para entrar no Céu é necessário que a Deus muito se ame. Vê, todas as coisas cantam-lhe a glória e proclamam aos homens: ama-O, ama-O, Ele a tudo criou para que O amem!"
     A partir dessa experiência, nasce nela um grande desejo de estudar teologia. O pai se opõe como algo que não é adequado para uma criança. Mas Hosana reza. Em resposta às suas orações a Nossa Senhora, esta começa a aparecer em pessoa e dá-lhe aulas. Então Hosana aprende latim e adquire um grande conhecimento das Escrituras Sagradas. Cita de memória até mesmo os comentários dos Padres da Igreja.
     Por fim, seu pai se convenceu. Permite que ela dedique sua vida à teologia, não se case aos quinze anos e use o hábito de terciária dominicana. Mas Hosana também assume responsabilidades políticas, incluindo a regência provisória do Ducado de Mântua
     Quando Hosana tinha 28 anos de idade, recebeu estigmas na sua cabeça, no lado e nos pés, embora fossem visíveis para terceiros apenas em certos dias da semana especialmente às sextas-feiras e durante a Semana Santa. Hosana relatou a sua vida espiritual e experiências místicas ao seu biógrafo e orientador espiritual, o beneditino Jerônimo de Monte Oliveto.
     Ajudava os pobres e serviu como diretora espiritual de muitas pessoas, gastando grande parte da fortuna da sua família para auxiliar os mais necessitados. Manifestava frequentemente a sua repulsa pela decadência e criticava a aristocracia pela ausência de moralidade. Foi amiga da Beata Columba de Rieti e recebeu apoio espiritual da Beata Estefânia Quinzani.
     A sua casa era um autêntico centro de ação social e caritativa em benefício dos mais necessitados, bem como um local habitual de reunião e discussão sobre temas espirituais e vida da Igreja. Uma das principais causas de sofrimento de Hosana no seu tempo foi a degradação da Igreja sob o pontificado do Papa Alexandre VI.
Palácio dos Andreasi
em Mântua
     Hosana passou os últimos 37 anos da vida na corte de Mântua. Em 1478, os soberanos de então, o Duque Francisco II e sua mulher, Isabel d’Este, fizeram dela superintendente da sua Casa. Depressa compreenderam que era um anjo que tinham debaixo do teto. Quando ela estava para morrer, ajoelhados junto do leito, pediram-lhe a bênção; ela respondeu que pertencia ao sacerdote presente abençoá-los. Foi preciso que este tomasse a mão dela para Ihes traçar na testa o sinal da cruz. Francisco II isentou de contribuições, por vinte anos, todos os membros da família dela. E a duquesa Isabel ergueu-lhe um belo mausoléu, que ainda agora se vê na Catedral de Mântua.
     Dotada de dons proféticos, com suas orações protegeu o Duque Francisco na batalha de Fornovo de 1495, predisse a derrota de César Bórgia e, em 1500, o tão suspirado nascimento do primeiro filho de Isabel d’Este, Frederico II, “filhinho da oração”. Falou também de um flagelo que cairia sobre a Itália corrupta, profetizando o saque de Roma, obra dos Lanzichenecchi, em 1527.
     A ''Vida da Beata Hosana'' foi escrita em 1507, pouco depois da sua morte. Fr. Jerônimo juntou traduções em latim das 24 cartas recebidas de Hosana, acompanhadas de documentos certificando a sua autenticidade. A biografia tem um caráter de relatório detalhado das suas conversas com Hosana.
     Uma outra biografia, publicada em 1505 é da autoria de Fr. Francisco Silvestre de Ferrara, um dos mais relevantes teólogos tomistas e que veio a ser Mestre Geral da Ordem dos Pregadores.
     Hosana faleceu a 18 de junho de 1505. O seu corpo incorrupto encontra-se em exposição sob o altar de Nossa Senhora do Rosário na Catedral de Mântua, Itália.
Corpo incorrupto da Beata Hosana
Hosana de Mântua – Wikipédia, a enciclopédia livre
https://hagiopedia.blogspot.com/
 
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     Gostaria de meditar sobre o fato maravilhoso - referido por seu confessor e biógrafo - que aconteceu quando ela tinha cinco anos de idade. Sabemos que o estudo da teologia - e da filosofia, que necessariamente a acompanha - é muito profundo e requer uma aplicação vigorosa da razão. São estudos normalmente adequados a pessoas maduras: quanto mais madura é a pessoa, mais adequado é o estudo deste tipo. Esta é a regra: a vida da Beata Hosana é a exceção.
     Olhemos uma menininha de cinco anos que caminha ao lado de um rio muito bonito, o Pó. Eu mesmo tive a oportunidade de apreciar a beleza do Pó em uma viagem de Milão a Veneza. A menina está admirando o rio quando um anjo aparece. Um anjo magnífico que fala do amor a Deus e como toda a criação canta e proclama a Sua glória. A essência desta mensagem é que Deus criou todas as coisas para ser amado por meio delas.
     Por que um anjo apareceu para esta menina? E como é que o anjo faz para abrir a alma de uma criança para a contemplação de Deus na Criação? A menina provavelmente já estava preparada pela sua natureza a considerar com admiração a paisagem à sua frente. É comum entre as crianças que conservam sua inocência original colocar-se numa posição de admiração diante das belezas da natureza. Mas aqui aparece um anjo e se torna a coisa mais bela que ela já tinha visto. Percebemos isto pelo relato de seu confessor e biógrafo, que o deve ter contado muitas vezes.
     O anjo, movendo-se em uma espécie de auge da beleza, a ergue desta Terra e mostra a ela a hierarquia celeste, ou seja, a hierarquia angélica no Paraíso, onde os tronos dos anjos caídos permanecem vazios e são gradualmente ocupados por homens e mulheres santos. Assim é mostrada a Hosana a mais bela realidade que existe, todo o Reino Celeste. Depois de ter mostrado toda esta beleza, o anjo lhe diz para observar como todas as coisas criadas por Deus são intrinsecamente boas e dignas de serem amadas. É a conclusão natural: ame as criaturas e ame o Seu Criador, a fim de tornar-se santa e ir para o Céu para ocupar o lugar preparado para você.
Relicário da Beata no
palácio dos Andreasi
     Deus, por meio de seu anjo, convida uma menina a compreender o esplendor da criação e a magnificência do Criador, algo que vai muito além da capacidade de percepção natural dos sentidos. Deus a convida a elevar-se acima das limitações humanas e a concentrar a sua alma sobre as realidades espirituais que são imperceptíveis aos nossos sentidos, mas que são mais reais do que a realidade material. Mostra-lhe também um anjo e a hierarquia angélica composta por seres puramente espirituais. No vértice da hierarquia está Nossa Senhora e, acima dEla, o Rei dos reis, Nosso Senhor Jesus Cristo.
     Com este convite único Deus está formando uma pessoa cuja vida inteira será dedicada à reflexão. Enquanto o anjo mostra para Osana todas estas coisas, está implicitamente dizendo a ela para fazer um esforço de inteligência para conhecer Deus. O anjo indica, já aos seus cinco anos, a estrada que lhe é destinada para se santificar: se estas coisas são tão belas, como Deus deve ser mais belo. E ela começa a meditar sobre estas coisas. [...]
 
Autor: Plinio Corrêa de Oliveira