quinta-feira, 18 de junho de 2026

Beata Hosana Andreasi de Mântua, Mística - 18 de junho

      A Beata Hosana Andreasi nasceu no magnífico palácio de uma nobilíssima família italiana (sua mãe era uma Gonzaga). Aos cinco anos, enquanto caminhava nas margens do Pó, ouviu distintamente uma voz clara e firme que lhe diz: "A vida e a morte consistem em amar a Deus". A criança entra em êxtase e sente-se levada até o Céu por um esplêndido anjo. Este lhe mostra a hierarquia do Céu e diz: "Para entrar no Céu é necessário que a Deus muito se ame. Vê, todas as coisas cantam-lhe a glória e proclamam aos homens: ama-O, ama-O, Ele a tudo criou para que O amem!"
     A partir dessa experiência, nasce nela um grande desejo de estudar teologia. O pai se opõe como algo que não é adequado para uma criança. Mas Hosana reza. Em resposta às suas orações a Nossa Senhora, esta começa a aparecer em pessoa e dá-lhe aulas. Então Hosana aprende latim e adquire um grande conhecimento das Escrituras Sagradas. Cita de memória até mesmo os comentários dos Padres da Igreja.
     Por fim, seu pai se convenceu. Permite que ela dedique sua vida à teologia, não se case aos quinze anos e use o hábito de terciária dominicana. Mas Hosana também assume responsabilidades políticas, incluindo a regência provisória do Ducado de Mântua
     Quando Hosana tinha 28 anos de idade, recebeu estigmas na sua cabeça, no lado e nos pés, embora fossem visíveis para terceiros apenas em certos dias da semana especialmente às sextas-feiras e durante a Semana Santa. Hosana relatou a sua vida espiritual e experiências místicas ao seu biógrafo e orientador espiritual, o beneditino Jerônimo de Monte Oliveto.
     Ajudava os pobres e serviu como diretora espiritual de muitas pessoas, gastando grande parte da fortuna da sua família para auxiliar os mais necessitados. Manifestava frequentemente a sua repulsa pela decadência e criticava a aristocracia pela ausência de moralidade. Foi amiga da Beata Columba de Rieti e recebeu apoio espiritual da Beata Estefânia Quinzani.
     A sua casa era um autêntico centro de ação social e caritativa em benefício dos mais necessitados, bem como um local habitual de reunião e discussão sobre temas espirituais e vida da Igreja. Uma das principais causas de sofrimento de Hosana no seu tempo foi a degradação da Igreja sob o pontificado do Papa Alexandre VI.
Palácio dos Andreasi
em Mântua
     Hosana passou os últimos 37 anos da vida na corte de Mântua. Em 1478, os soberanos de então, o Duque Francisco II e sua mulher, Isabel d’Este, fizeram dela superintendente da sua Casa. Depressa compreenderam que era um anjo que tinham debaixo do teto. Quando ela estava para morrer, ajoelhados junto do leito, pediram-lhe a bênção; ela respondeu que pertencia ao sacerdote presente abençoá-los. Foi preciso que este tomasse a mão dela para Ihes traçar na testa o sinal da cruz. Francisco II isentou de contribuições, por vinte anos, todos os membros da família dela. E a duquesa Isabel ergueu-lhe um belo mausoléu, que ainda agora se vê na Catedral de Mântua.
     Dotada de dons proféticos, com suas orações protegeu o Duque Francisco na batalha de Fornovo de 1495, predisse a derrota de César Bórgia e, em 1500, o tão suspirado nascimento do primeiro filho de Isabel d’Este, Frederico II, “filhinho da oração”. Falou também de um flagelo que cairia sobre a Itália corrupta, profetizando o saque de Roma, obra dos Lanzichenecchi, em 1527.
     A ''Vida da Beata Hosana'' foi escrita em 1507, pouco depois da sua morte. Fr. Jerônimo juntou traduções em latim das 24 cartas recebidas de Hosana, acompanhadas de documentos certificando a sua autenticidade. A biografia tem um caráter de relatório detalhado das suas conversas com Hosana.
     Uma outra biografia, publicada em 1505 é da autoria de Fr. Francisco Silvestre de Ferrara, um dos mais relevantes teólogos tomistas e que veio a ser Mestre Geral da Ordem dos Pregadores.
     Hosana faleceu a 18 de junho de 1505. O seu corpo incorrupto encontra-se em exposição sob o altar de Nossa Senhora do Rosário na Catedral de Mântua, Itália.
Corpo incorrupto da Beata Hosana
Hosana de Mântua – Wikipédia, a enciclopédia livre
https://hagiopedia.blogspot.com/
 
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     Gostaria de meditar sobre o fato maravilhoso - referido por seu confessor e biógrafo - que aconteceu quando ela tinha cinco anos de idade. Sabemos que o estudo da teologia - e da filosofia, que necessariamente a acompanha - é muito profundo e requer uma aplicação vigorosa da razão. São estudos normalmente adequados a pessoas maduras: quanto mais madura é a pessoa, mais adequado é o estudo deste tipo. Esta é a regra: a vida da Beata Hosana é a exceção.
     Olhemos uma menininha de cinco anos que caminha ao lado de um rio muito bonito, o Pó. Eu mesmo tive a oportunidade de apreciar a beleza do Pó em uma viagem de Milão a Veneza. A menina está admirando o rio quando um anjo aparece. Um anjo magnífico que fala do amor a Deus e como toda a criação canta e proclama a Sua glória. A essência desta mensagem é que Deus criou todas as coisas para ser amado por meio delas.
     Por que um anjo apareceu para esta menina? E como é que o anjo faz para abrir a alma de uma criança para a contemplação de Deus na Criação? A menina provavelmente já estava preparada pela sua natureza a considerar com admiração a paisagem à sua frente. É comum entre as crianças que conservam sua inocência original colocar-se numa posição de admiração diante das belezas da natureza. Mas aqui aparece um anjo e se torna a coisa mais bela que ela já tinha visto. Percebemos isto pelo relato de seu confessor e biógrafo, que o deve ter contado muitas vezes.
     O anjo, movendo-se em uma espécie de auge da beleza, a ergue desta Terra e mostra a ela a hierarquia celeste, ou seja, a hierarquia angélica no Paraíso, onde os tronos dos anjos caídos permanecem vazios e são gradualmente ocupados por homens e mulheres santos. Assim é mostrada a Hosana a mais bela realidade que existe, todo o Reino Celeste. Depois de ter mostrado toda esta beleza, o anjo lhe diz para observar como todas as coisas criadas por Deus são intrinsecamente boas e dignas de serem amadas. É a conclusão natural: ame as criaturas e ame o Seu Criador, a fim de tornar-se santa e ir para o Céu para ocupar o lugar preparado para você.
Relicário da Beata no
palácio dos Andreasi
     Deus, por meio de seu anjo, convida uma menina a compreender o esplendor da criação e a magnificência do Criador, algo que vai muito além da capacidade de percepção natural dos sentidos. Deus a convida a elevar-se acima das limitações humanas e a concentrar a sua alma sobre as realidades espirituais que são imperceptíveis aos nossos sentidos, mas que são mais reais do que a realidade material. Mostra-lhe também um anjo e a hierarquia angélica composta por seres puramente espirituais. No vértice da hierarquia está Nossa Senhora e, acima dEla, o Rei dos reis, Nosso Senhor Jesus Cristo.
     Com este convite único Deus está formando uma pessoa cuja vida inteira será dedicada à reflexão. Enquanto o anjo mostra para Osana todas estas coisas, está implicitamente dizendo a ela para fazer um esforço de inteligência para conhecer Deus. O anjo indica, já aos seus cinco anos, a estrada que lhe é destinada para se santificar: se estas coisas são tão belas, como Deus deve ser mais belo. E ela começa a meditar sobre estas coisas. [...]
 
Autor: Plinio Corrêa de Oliveira

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Santa Benilde de Córdoba, viúva e mártir e Beata Albertina Berkenbrock, Virgem e mártir da castidade - 15 de junho

Santa Benilde de Córdoba, viúva e mártir - 15 de junho
 
Martirológio Romano: Em Córdoba, na Andaluzia, Espanha, Santa Benilde, mártir, morta em idade bem avançada durante a perseguição dos mouros. 
 
     Corria o ano de 853 quando se desencadeou uma perseguição dos mouros contra os cristãos. Há tempos os muçulmanos haviam invadido a Espanha e de tempos em tempos faziam leis para combater o aumento do catolicismo no país.
     Santo Eulógio conta que no dia seguinte ao martírio dos Santos Anastásio, Feliz e Digna, Benilde se apresentou aos juízes.
     Apesar de sua idade avançada, a viúva Benilde encheu-se de coragem evangélica, ergueu sua voz contra a tirania. Compareceu diante do juiz muçulmano na mesquita de Córdoba e proclamou que preferia a fé à vida e ao silêncio cúmplice com aquela tirania. Seu gesto claro, generoso e valente lhe custou a vida. Foi decapitada e suas cinzas foram dispersas, como as daqueles três mártires citados. Entretanto, antes de lançar seus restos mortais no Guadalquivir, seu corpo sem cabeça fora empalado e exposto a toda a cidade.
     Como os mouros conheciam bem os costumes cristãos, depois das execuções queimavam os corpos dos mártires e suas cinzas eram lançadas no Rio Guadalquivir para evitar a criação de santuários nos túmulos dos mártires.
     Dizem os entendidos que desde então as águas do Guadalquivir baixam “contaminadas” pelo único barro que, em lugar de sujar, fecundam a Igreja andaluza.
     Introduzida no Martirológio Romano por Barônio, a festa de Benilde é celebrada no dia 15 de junho. Ela é uma entre os Mártires de Córdoba.
 
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Beata Albertina Berkenbrock, Virgem e mártir da castidade - 15 de junho
     
     Albertina Berkenbrock nasceu a 11 de abril de 1919, em São Luís, paróquia São Sebastião de Vargem do Cedro, município de Imaruí, Estado de Santa Catarina, numa família de origem alemã, simples e profundamente cristã. Era filha do casal de agricultores, Henrique e Josefina Berkenbrock, e teve mais oito irmãos e irmãs. Foi batizada no dia 25 de maio de 1919, crismou-se a 9 de março de 1925 e fez a primeira comunhão no dia 16 de agosto de 1928.
     Quando chegou o tempo da catequese preparatória para os sacramentos da confissão e comunhão, Albertina chamou a atenção pela forma como se preparou: com muita diligência e grandeza de coração. A “primeira confissão” tornou-se porta aberta para se confessar frequentemente. A primeira comunhão foi uma experiência única, a tal ponto que ela própria afirmou: - “Foi o dia mais belo de minha vida!”
     Albertina cultivou uma devoção muito filial a Nossa Senhora, venerando-a com carinho, tanto em casa como na capela da comunidade. Participou, com intensidade, da oração do rosário junto com os familiares. Na simplicidade de coração, recomendou, seguidamente, a Maria - Mãe de Jesus e Mãe da Igreja - a sua alma e a sua salvação eterna.
     Ela deixou crescer dentro de si uma afinidade muito grande com o padroeiro da comunidade, São Luís. Uma coincidência providencial esta devoção ao Santo, que é modelo de pureza espiritual e corporal. Certamente, preparando-a também para um dia defender com sua vida este grande valor.
     Há uma singular concordância entre os relatos dados nos vários processos canônicos por parte das testemunhas que a tinham conhecido e convivido com ela, ao descrevê-la como uma menina bondosa no mais amplo sentido do termo. A natural mansidão e bondade de Albertina conjugavam-se bem com uma vida cristã compreendida e vivida completamente. Da prática cristã derivava a sua inclinação à bondade, às práticas religiosas e às virtudes, na medida em que uma criança da sua idade podia entendê-las e vivê-las.
Familiares da Beata
     Sabia ajudar os pais no trabalho dos campos e especialmente em casa. Sempre dócil, obediente, incansável, com espírito de sacrifício, paciente, até quando os irmãos a mortificavam ou lhe batiam ela sofria em silêncio, unindo-se aos sofrimentos de Jesus, que amava sinceramente.
     A frequência aos sacramentos e a profunda compenetração que mostrava ter na participação da mesa eucarística é um índice de maturidade espiritual que a menina tinha alcançado; distinguia-se pela piedade e recolhimento.
     O cenário no qual foi consumado o delito é terrivelmente simples, quanto atroz e violenta foi a morte de Albertina. No dia 15 de junho de 1931, estava ela apascentando os animais de propriedade da família quando o pai lhe disse para ir procurar um bovino que se tinha distanciado. Ela obedeceu. Num campo vizinho encontrou Idanlício e perguntou-lhe se tinha visto o animal passar por ali.
     Idanlício Cipriano Martins, conhecido com o nome de Manuel Martins da Silva, era chamado pelo apelido de Maneco. Tinha 33 anos, vivia com a mulher próximo da casa de Albertina e trabalhava para um tio dela. Embora já tivesse matado uma pessoa, era considerado por todos um homem reto e um trabalhador honesto. Albertina muitas vezes levava-lhe comida e brincava com os seus filhos; portanto, era uma pessoa do seu conhecimento.
     Quando Albertina lhe perguntou se tinha visto o boi, Maneco responde que sim, acrescentando que o tinha visto ir para o bosque próximo dali e ofereceu-se para acompanhá-la e ajudar na busca. Mas, ao chegarem perto do bosque, fez-lhe proposta libidinosa, e a seguira com intenção de lhe fazer mal. Albertina não consentiu e Maneco então a pegou pelos cabelos, jogou-a ao chão e, visto que não conseguia obter o que queria porque ela reagia, pegou um canivete e cortou o seu pescoço. A jovem morreu imediatamente. Dos testemunhos dos companheiros de prisão de Maneco foi revelado que a menina não aceitou o convite dizendo que aquele ato era pecado. A intenção de Maneco era clara, a posição de Albertina também: não queria pecar.
     Durante o velório, Maneco controlava a situação fingindo velar a vítima e ficando por perto da casa e acusou João Cândido de ter cometido o crime. Porém, antes que descobrissem quem era o assassino, algumas pessoas notaram um fenômeno: todas as vezes que ele se aproximava do cadáver de Albertina a grande ferida do pescoço começava a sangrar.
     João Cândido ou João Candinho, o presumido assassino foi arrastado para junto do corpo da menina morta. Ele jura: - Nunca vi essa menina! Protesta sua inocência. Em vão. Dois dias depois chegou o prefeito de Imaruí. Acalmou a população e mandou soltar João Candinho. Foi à capela, tomou um crucifixo e, acompanhado por Candinho e outras pessoas, foi à casa do pai de Albertina, o colocou sobre o peito da menina morta. Mandou que João Candinho se ajoelhasse e, mãos sobre o crucifixo, jurasse que era inocente. Dizem que naquele momento o sangue da ferida parou de sangrar.
     Enquanto isto Maneco fugia... Depois de muitas andanças foi preso em Aratingaúba a caminho de Imaruí. Preso, confessou o crime. Correu o processo, foi condenado. Na prisão comportou-se bem. Confessou ter matado Albertina porque ela recusara ceder às suas intenções libidinosas.
     No funeral de Albertina participou um elevado número de pessoas e todos diziam já que era uma "pequena mártir", pois dado o seu temperamento, a sua piedade e delicadeza, estavam convencidos de que tinha preferido a morte ao pecado. Albertina sacrificou a vida somente pela virtude.
     Por causa da fama de martírio de Albertina e de favores especiais obtidos por sua invocação, muitíssimas pessoas, individualmente ou em grupos, deram início a romarias ao lugar de sua morte e a seu túmulo no cemitério de São Luís. Pode-se afirmar que essa interminável peregrinação nunca foi interrompida, mesmo após 90 anos da sua morte.
     Em 1952, na mesma capela onde Albertina recebeu a primeira comunhão, o Tribunal Eclesiástico da Arquidiocese de Florianópolis reuniu-se para dar início ao processo de sua beatificação e canonização; de fato, a essa arquidiocese pertencia então a paróquia de Vargem do Cedro. Posteriormente, com a divisão da arquidiocese e a criação da Diocese de Tubarão, é o primeiro bispo de Tubarão, Dom Anselmo Pietrulla, OFM, que leva adiante a causa. Obedecendo às determinações das leis da Igreja, em 1956 é feito um processo complementar. Infelizmente, por uma série de circunstâncias, de 1959 em diante o processo de Albertina ficou interrompido até o ano 2000.
Cerimônia de beatificação
     Em maio de 2000, o terceiro bispo de Tubarão, Dom Hilário Moser, SDB, retomou o processo. Nomeou postulador da causa de beatificação e canonização de Albertina, Fr. Paolo Lombardo, OFM, de Roma. O postulador veio a Tubarão em maio do mesmo ano, quando foi possível dar os primeiros passos concretos no sentido de retomar o processo.
     Atendidas as exigências das leis da Igreja nesses casos, finalmente no dia 12 de fevereiro de 2001, presente o postulador geral da causa de beatificação, procedeu-se à exumação dos restos mortais de Albertina.
     Nesse interim, o Tribunal Eclesiástico nomeado para o caso fez um terceiro processo complementar sobre a fama de martírio e santidade da Serva de Deus Albertina. Encerrado com pleno êxito, no dia 18 de fevereiro de 2001 pôde-se inumar seus restos mortais dentro da igreja de São Luís num elegante sarcófago de granito.
     Com o decreto de beatificação assinado por Bento XVI, no dia 16 de dezembro de 2006, Albertina Berkenbrock foi beatificada em 20 de outubro de 2007 em Solene Missa em frente à Catedral Diocesana de Tubarão. Presidiu a Cerimônia o Cardeal Saraiva - prefeito para a causa dos Santos.
 
Fonte:
http://www.santosebeatoscatolicos.com/
 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Santa Godeberta, Fundadora - 11 de junho

      
     Godeberta nasceu por volta do ano 640, em Boves, a algumas léguas de Amiens, na França; morreu por volta do início do século VIII, em Noyon (Oise), a Noviomagus antiga. Ela foi cuidadosamente educada; seus pais eram da nobreza e participavam da corte do Rei Clóvis II.
     Quando a questão de seu casamento estava sendo discutida na presença do rei, o santo bispo de Noyon, Eligius (ou Elói), como que por inspiração, presenteou-a com um anel de ouro e expressou a esperança de que ela poderia dedicar a sua vida ao serviço de Deus.
     Godeberta, movida pelo Espírito Santo e
 sentindo o coração de repente cheio de amor divino, afastou-se das brilhantes perspectivas que poderia advir para ela de suas qualidades e de seu nascimento, e recusou as ofertas vantajosas feitas por seus nobres pretendentes. Ela declarou desejar ser esposa de Cristo e pediu ao santo prelado que lhe concedesse o véu de consagração, o que ocorreu em 657.
     Em pouco tempo toda a oposição à sua vontade desapareceu e ela entrou em sua nova vida sob a orientação de Santo Elói. Clotário II, rei dos Francos, ficou impressionado com sua conduta e seu zelo e presenteou-a com um pequeno palácio que ele tinha em Noyon, juntamente com uma pequena capela dedicada a São Jorge.
     O exemplo de Godeberta inspirou muitas jovens donzelas a seguir o mesmo caminho; ela fundou em sua nova casa um convento, sob a Regra de Santo Elói, do qual ela se tornou a superiora.  Ali ela passou o resto de sua vida em oração e solidão, salvo quando a caridade ou a religião obrigavam-na a sair e visitar pessoas, muitas das quais ainda estavam afundadas nos vícios do paganismo.
     Ela foi notável em particular pelas penitências e jejuns constantes a que ela se submetia. Ela possuía uma fé maravilhosa na eficácia dessa antiga prática dos primeiros cristãos: o Sinal da Cruz. Está registrado que em 676, durante o episcopado de São Momelino, quando a cidade estava ameaçada de destruição total pelo fogo ela fez o Sinal da Cruz sobre as chamas e o incêndio foi imediatamente extinto.
Sto Eloi dá o anel a
Sta Godeberta
     Durante uma epidemia de peste ela suplicou ao clérigo que ordenasse um jejum de três dias. No início reticente ao seu pedido, ele acabou por ceder... e os habitantes se salvaram: a peste debandou.
     Com o Sinal da Cruz ela dava visão aos cegos e curava os doentes.
     O ano exato de sua morte é desconhecido, mas tradicionalmente é considerado que ocorreu em 11 de junho, dia em que a sua festa é marcada no Proprium de Beauvais. Em Noyon, no entanto, em virtude de um indulto de 2 de abril de 1857, ela é celebrada no quinto domingo depois da Páscoa. O corpo da santa foi enterrado na Igreja de São Jorge, que mais tarde recebeu o seu nome.
     Seu convento se tornou mais tarde a sede de uma paróquia de Noyon.
     Em 1168, Dom Baudoin presidiu o solene traslado do corpo de Godeberta da igreja em ruínas, onde ele tinha descansado por mais de 450 anos, para a Catedral de Noyon. Providencialmente suas relíquias escaparam à devastação do tempo e do fogo, e da malícia dos irreligiosos.
     No período da nefasta Revolução Francesa um cidadão piedoso enterrou secretamente suas relíquias perto da catedral. Quando a tempestade havia passado, elas foram recuperadas de seu esconderijo e sua autenticidade foi reconhecida canonicamente, e foram reintroduzidos na igreja.
     Um sino que a tradição afirma ter sido o efetivamente utilizado por Santa Godeberta em seu convento ainda é preservado. É certamente muito antigo e não parece haver nenhuma boa razão, em particular do ponto de vista arqueológico, para duvidar da confiabilidade da legenda. No tesouro da catedral também pode ser visto um anel de ouro que se diz ter sido apresentado por Santo Elói a ela. Menção desta relíquia é feita em um registro do ano 1167, estando atualmente na Igreja de Noyon.
     Infelizmente os documentos mais antigos que temos oferecendo detalhes da vida de Godeberta datam do século XI, como a “Vita” mais antiga, que na verdade é mais um panegírico para sua festa do que uma biografia. Acredita-se ter sido composta por Radbodus, que se tornou bispo de Noyon em 1067.
     Naquele tempo o objetivo desses escritores era a edificação em vez da instrução dos fiéis, de modo que encontramos nesta vida as maravilhas habituais relatadas em tais obras pias desse período, mas com poucos fatos históricos.
     É certo, porém, que Santa Godeberta foi venerada como protetora no tempo de pragas e de catástrofes, e temos todas as razões para considerar que essa prática era justificada pelos resultados que se seguiram à sua invocação solene.
     Em 1866, um surto violento de febre tifoide ocorreu em Noyon, dizimando a cidade. Em 23 de maio desse ano, um dos principais cidadãos, cujo filho acabara de ser contagiado, aproximou-se do pároco da igreja e recordando os favores que haviam sido concedidos em eras passadas aos devotos da santa, pediu encarecidamente que o relicário contendo suas relíquias fosse exposto e uma novena de intercessão se iniciasse.
     Isto foi feito no dia seguinte, e logo o flagelo cessou; foi oficialmente certificado que não ocorreu mais nenhum caso de febre tifoide. Em ação de graças uma procissão solene teve lugar algumas semanas mais tarde sob a orientação do bispo, Dom Gignoux, sendo as relíquias de Santa Godeberta levadas triunfalmente pela cidade.
     Uma bela imagem da santa, na Catedral de Noyon, que foi abençoada pelo bispo em 25 de fevereiro de 1867, perpetuou a memória deste evento maravilhoso.
 
Relicário contendo as relíquias de Santa Godeberta
na Catedral de Noyon

Padroeira de Noyon, invocada contra a seca, epidemia e pestes
 
Fonte: A. A. MacErlean (Catholic Encyclopedia)

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Santa Mariana de Jesus de Paredes, o Lírio de Quito – 26 de maio

     
Como resultado do zelo apostólico dos primeiros colonizadores de nosso continente, a Divina Providência suscitou em várias regiões almas ardentes que consagraram suas vidas à salvação das almas entre os indígenas que deixaram as trevas do paganismo e da barbárie para entrar nas hostes benditas da Santa Igreja, ou nos ambientes sociais que iam sendo criados nas colônias da Espanha e de Portugal.
     O apostolado na incipiente sociedade dos primeiros séculos não foi menos árduo do que aquele levado a efeito entre os nativos. Nesse apostolado brilhou a alma extraordinária de Santa Mariana de Jesus de Paredes y Flores.
     Muitos brasileiros conhecem Santa Rosa de Lima, a Padroeira da América Latina, santa peruana que também viveu na época da colonização espanhola, mas Santa Mariana de Jesus é quase desconhecida entre nossos compatriotas.
     Que as ações virtuosas praticadas por esta Santa sirvam de estímulo e exemplo a ser imitado, de acordo com as sábias adaptações que cada qual deve fazer, seguindo sempre a Santa Vontade de Deus.
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     Nasceu em Quito, Equador, em 31 de outubro de 1618; morreu em Quito, em 26 de maio de 1645. Ela pertencia a uma ilustre linhagem de antepassados: era filha do capitão espanhol Jerônimo de Paredes y Flores e da nobre Mariana Jaramillo.
     Seu nascimento foi acompanhado por fenômenos mais incomuns nos céus, claramente ligados à criança e juridicamente atestados no momento do processo de beatificação. Quase desde a infância ela deu sinais de uma atração extraordinária pela oração e mortificação, ao amor de Deus e à devoção à Virgem Santíssima; e além de ter manifestações notáveis de favor divino, foi inúmeras vezes milagrosamente preservada da morte.
     Antes dos sete anos ficou órfã e uma de suas sete irmãs, Jeronima, esposa do capitão Cosme de Miranda, passou a encarregar-se de sua educação.
     Aprendeu o catecismo tão bem, que aos oito anos de idade foi admitida a Primeira Comunhão (o que era uma exceção naquela época). O sacerdote que fez o exame de religião ficou admirado com a compreensão das verdades do catecismo que ela demonstrava ter.
     Ao ouvir um sermão sobre a grande quantidade de gente que ainda não recebera a mensagem da religião de Nosso Senhor Jesus Cristo, se dispôs a ir com um grupo de companheirinhas evangelizar os pagãos. No caminho, encontraram pessoas que as levaram de volta para casa; as crianças não tinham se dado conta dos perigos que poderiam enfrentar.
     Em outra ocasião resolveu ir com outras meninas a uma montanha para viver como anacoretas dedicadas ao jejum e a oração. Felizmente um touro muito bravo as fez voltar correndo para a cidade. Mariana convidava suas sobrinhas, que eram quase da mesma idade, para rezar o Rosário e fazer a Via Sacra.
     Seu cunhado então se deu conta dos grandes desejos de santidade e oração desta menina e procurou que uma comunidade religiosa a recebesse. Porém, as duas vezes que tentou entrar em convento contrariedades imprevistas a impediram de fazê-lo. Ela então se deu conta de que Deus a queria santificar permanecendo no mundo.
     Sob a direção do jesuíta Juan Camacho fez voto de virgindade perpétua. E sem ingressar em nenhuma Ordem religiosa se consagrou à oração e à penitência na sua própria casa. Ela se propôs cumprir aquele mandato de Jesus: "Quem deseja seguir-me, que negue a si mesmo".
     Em 6 de novembro de 1639 ingressou na Ordem Terceira de Penitência de São Francisco de Assis, a que mais se adequava ao seu espírito de renúncia.
     O jejum que ela mantinha era tão rigoroso, que ela comia um pedaço de pão seco a cada oito ou dez dias. A comida que milagrosamente sustentava sua vida, como no caso de Santa Catarina e de Santa Rosa de Lima, era, de acordo com o testemunho sob juramento de muitos depoentes, o Pão Eucarístico que ela recebia todas as manhãs na Santa Comunhão.
     Mariana recebeu de Deus o dom do conselho e os conselhos que ela dava às pessoas lhes faziam um bem imenso. Ela também anunciava acontecimentos futuros, inclusive a data de sua morte. Era possuidora de um dom especial para paziguar contendores e para conseguir que as pessoas deixassem de pecar.
     Ela possuía um dom extático de oração, previu o futuro, via eventos distantes como se estivessem passando diante dela, lia os segredos dos corações, curou doenças com o sinal da Cruz, ou aspergindo o sofredor com água benta, e pelo menos uma vez ela ressuscitou uma pessoa morta.
     Ela é chamada de “o Lírio de Quito” porque durante uma enfermidade lhe fizeram uma sangria e a jovem de serviço jogou o sangue que tinham tirado de Mariana em um vaso e nele nasceu um lírio.
    Em 1645, um grande terremoto abalou a cidade de Quito e causou muitas mortes por uma epidemia terrível que se lhe seguiu. Um padre jesuíta num sermão disse: "Deus meu, eu Vos ofereço minha vida para que acabem os terremotos". Porém Mariana exclamou: "Não, Senhor, a vida deste sacerdote é necessária para salvar muitas almas. Eu, entretanto, não sou necessária. Eu Vos ofereço minha vida para que cessem esses terremotos".
     Naquela manhã mesmo ela começou a sentir-se mal e morreu no dia 26 de maio. Deus aceitou o seu oferecimento: os terremotos cessaram e as pessoas não mais morreram. Por isso, em 1946 o Congresso do Equador deu a ela o título de "Heroína da Pátria".
     Os primeiros passos preliminares para a beatificação foram dados pelo Monsenhor Alfonso della Pegna, que instituiu o processo de investigação e coleta de provas para a santidade de sua vida, suas virtudes e seus milagres; mas a cópia autenticada do exame das testemunhas não foi encaminhada para Roma até 1754.
     A Congregação Sagrada dos Ritos, tendo discutido e aprovado esse processo, decidiu a favor da introdução formal da causa, e Bento XIV assinou a comissão para a introdução da causa em 17 de dezembro de 1757.
     O processo apostólico relativo às virtudes da Venerável Mariana de Paredes foi elaborado e examinado da forma devida pelas duas Congregações Preparatórias e pela Congregação Geral dos Ritos, e as ordens foram dadas por Pio VI para a publicação do decreto atestando o caráter heroico de suas virtudes.
     O processo relativo aos dois milagres feitos pela intercessão da Serva de Deus foi posteriormente preparado e, a pedido do próprio Reverendo João Roothaan, Geral da Sociedade de Jesus, foi examinado e aceito pelas três congregações, e foi formalmente aprovado em 11 de janeiro de 1817, por Pio IX.
     Santa Mariana de Jesus foi beatificada pelo Beato Pio IX em 20 de novembro de 1853 e canonizada por Pio XII em 4 de junho de 1950.
     Muitos milagres foram a recompensa daqueles que invocaram sua intercessão, especialmente na América, da qual ela parece ter o prazer de mostrar a si mesma a padroeira especial.
 
 
BOERO, Beata Maria Ana de Jesus; O Breviário Romano.
J. H. Fisher (Encylopedia Católica)
https://nobility.org/2018/05/24/may-28-lily-of-quito/
 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Santa Antonina de Niceia, Mártir - 4 de maio

     Esta Santa era mencionada três vezes no Martirológio Romano: 1º de março, 4 de maio e 12 de junho, e de forma diferente em cada uma destas datas, como fossem três pessoas diferentes.
     No século XVI, o cardeal e bibliotecário do Vaticano, César Barônio, unificou os calendários litúrgicos da Igreja, a pedido do papa Clemente VIII, com os santos comemorados em datas diferentes no mundo cristão. A Igreja dos primeiros séculos foi exclusivamente evangelizadora. Para consolidar-se, adaptava a liturgia e os cultos dos santos aos novos povos convertidos. Muitas vezes, as tradições se confundiam com os fatos devido aos diferentes idiomas, mas assim mesmo os cultos se mantiveram.
 
    
O trabalho de Barônio foi chamado de Martirológio Romano, uma espécie de dicionário dos santos da Santa Igreja Catolica de todos os tempos. Porém ele, ao lidar com os calendários egípcio, grego e siríaco, que comemoravam Santa Antonina em datas diferentes, não se deu conta de que as celebrações homenageavam sempre a mesma pessoa. Isso porque o nome era comum mas os martírios eram descritos de maneira diversa entre si.
     O calendário grego dizia que ela fora decapitada; o egípcio, que fora queimada viva; e o siríaco, que tinha morrido afogada. Mais tarde, o que deu luz aos fatos foi um Código Jeronimiano do século V, confirmando que apenas uma mártir com este nome tinha morrido em Nicéia no dia 4 de maio, como aparece no Martirológio Siríaco do século IV.
     As informações do Martirológio Romano, dependentes dos sinassários e do Martirológio Jeronimiano, se baseiam numa antiga Passio perdida. Segundo eles, Antonina era uma cristã de Niceia, na Bitinia, atual Turquia, que durante a perseguição do sanguinário imperador Diocleciano foi aprisionada por ordem do prefeito Prisciliano.
     Ela foi denunciada como cristã, presa e condenada à morte. Mas antes a torturaram de muitas maneiras: ela foi golpeada com varas, suspensa no cavalete, teve seu flanco ferido e por fim foi queimada viva. Voltando ao tribunal, não renegou sua fé. Foi, então, fechada dentro de um saco e jogada no fundo de um lago pantanoso na periferia de Nicéia. Era o dia 4 de maio de 306, data que foi mantida para a veneração de Santa Antonina, a mártir de Nicéia.
      Segundo o Martirológio Siríaco e muitos códices do Martirológio Jeronimiano, o martírio teria ocorrido em Nicomédia, enquanto outros códices colocam o martírio em Niceia, Bitinia, e esta menção, segundo Delehaye, é a de se preferir.
     O nome Antonina é o feminino do antigo nome latino Antonius, derivado, provavelmente, do grego Antionos, que significa “nascido antes”. É um dos nomes mais difundidos entre os povos latinos, que ganhou muitos adeptos entre os cristãos. Mas, antes de Cristo, era muito comum também.
 
Fontes:
santiebeati/.it
04 de Maio de 2026 » Padre Alexandre Fernandes

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Sta. Catarina de Siena, Doutora da Igreja, exemplo de amor pela igreja e pelo Papado - 29 de abril

 
     Em 25 de março de 1347, Lapa Benincasa deu à luz duas gêmeas em seu vigésimo quarto parto. Uma delas não sobreviveu após o Batismo. A outra, Catarina, tornar-se-ia a glória de sua família, de sua pátria, da Igreja e do gênero humano.
     Giacomo di Benincasa, seu pai, era um tintureiro bem estabelecido, "homem simples, leal, temeroso de Deus, e cuja alma não estava contaminada por nenhum vício"; piedoso e trabalhador, criava sua enorme família de 25 filhos no amor e no temor de Deus. Catarina, a penúltima da família e caçula das filhas, teve a predileção de todos e cresceu num ambiente moral puro e religioso.
     Aos 7 anos de idade Catarina consagrou a sua virgindade a Cristo; aos 16, cortou sua longa cabeleira para evitar um casamento; e aos 18, recebeu o hábito das Irmãs da Penitência de São Domingos.
     Catarina encarou a sua clausura com seriedade e vivia encerrada no seu próprio quarto, onde, por intermédio da oração e diálogo afirmava que estava sempre com e em Cristo. Abandonou a sua cela somente em 1374, quando a peste se alastrou por toda a Europa e ela decidiu cuidar dos enfermos e abandonados, tendo praticado grandes atos de caridade.
    Nesse mesmo ano (1374), teve uma visão e ficou estigmatizada. Na visão Cristo lhe disse que ela trabalharia pela paz, e mostraria a todos que uma mulher fraca pode envergonhar o orgulho dos fortesAnalfabeta, aprendeu milagrosamente a ler e escrever, para poder cumprir a missão pública que Deus lhe destinava.
Sua Missão
     No fim da Idade Média — quando a gloriosa Civilização Cristã já decaía a olhos vistos — a Itália era um aglomerado de reinos e repúblicas que viviam em guerra entre si, ou, em uma mesma cidade, guerra entre facções contrárias. Catarina foi várias vezes chamada a ser o seu anjo pacificador. Assim, viajou ela de Siena para Florença, Luca, Pisa e Roma como pacificadora.
     Em 1375, toda a Itália estava envolvida em graves disputas políticas relativas à volta do papado; organizavam-se milícias nas cidades de Perusa, Florença, Pisa e em toda a Toscana, em revolta contra o poder político do Papa Gregório XI.
     Catarina, mediadora entre o Papa e os conjurados, inicia uma correspondência incessante com o Papa Gregório XI, cheia de piedade e amor filial, cada vez mais premente, em favor dos súditos dos Estados Pontifícios que se tinham rebelado contra ele: "Santíssimo e dulcíssimo Pai em Nosso Senhor Jesus Cristo [...] Ó governador nosso, eu vos digo que há muito tempo desejo ver-vos um homem viril e sem temor algum. [...] Não olheis para a nossa miséria, ingratidão e ignorância, nem para a perseguição de vossos filhos rebeldes. Ai! que a vossa benignidade e paciência vençam a malícia e a soberba deles. Tende misericórdia de tantas almas e corpos que morrem".
     Censurou o rei da França por guerrear contra cristãos e não empenhar-se na cruzada: "Eu peço-vos que sejais mais diligente para impedir tanto mal e para ativar tanto bem, como é a recuperação da Terra Santa e daquelas almas infelizes que não participam do Sangue do Filho de Deus. Desta coisa vos deveríeis envergonhar, vós e os outros senhores cristãos; porque é uma grande confusão diante dos homens, e abominação diante de Deus, fazer a guerra contra os irmãos e deixar os inimigos; e querer tirar o que é dos outros e não reconquistar o que é seu. Eu vos digo, da parte de Jesus Crucificado, que não demoreis mais a fazer esta paz. Fazei a paz e fazei toda a guerra contra os infiéis".
     Catarina, devorada de zelo e amor pela Igreja, ansiava pela pacificação da Cristandade para que, unidos, os cristãos se dispusessem a seguir em uma Cruzada para libertar os Santos Lugares.
     Ela decidiu seguir até Avinhão, cidade onde os papas viviam desde há mais de 70 anos, e apresentar-se diante de Gregório XI para convencê-lo a regressar a Roma, pois isto seria fundamental para a unidade da Igreja e a pacificação da Itália.
     Em Avinhão, diante dos cardeais, Catarina ousou proclamar os vícios da corte pontifícia e pedir, em nome de Cristo Jesus, a reforma dos abusos. Gregório XI a chamara para dar sua opinião em pleno Consistório dos Cardeais. Ela o convenceu a voltar a Roma.
     Em 17 de janeiro de 1377, Gregório XI deixa Avinhão, apesar da oposição do Rei francês e de quase todo o Sacro Colégio. Ele ainda hesita no caminho, e ela o conjura a ir até o fim.
     Mas a paz na Igreja não seria longa. Outra vez a república de Florença revoltou-se contra o Papa, que apelou para Catarina. Rejeitada por aquela cidade, a Santa quase foi martirizada. Gregório XI, gasto, envelhecido, sofrido, não resistiu e entregou sua alma a Deus.
     Os cardeais elegem Urbano VI. Conhecendo Catarina, e vendo nela o espírito de Deus, o novo Pontífice a chama a Roma para estar a seu lado. Não sem razão, pois cardeais franceses, desgostosos com o novo Papa, voltam para Avinhão, anulam sua eleição e elegem o antipapa Clemente VIII. A Cristandade mergulha em nova divisão: o Grande Cisma do Ocidente.
     Catarina tentou inutilmente trazer de volta ao verdadeiro redil os três cardeais, autores principais do cisma. Escreveu a reis e governantes da Europa para trazê-los ao verdadeiro Papa. Catarina escreveu 150 cartas a cardeais, bispos e prelados; e a reis, príncipes e governantes, 39.
     "As angústias que lhe causavam as revelações sobre o futuro da Igreja foram para essa Santa [Catarina de Siena] como uma paixão dolorosa. Ela clamava ao Senhor e pedia graça para essa Igreja, Esposa de seu Divino Filho: `Tomai, ó meu Criador, este corpo que eu recebi de vossas mãos. Não perdoeis nem a carne nem o sangue; rompei-o, lançai-o nas brasas ardentes; quebrai meus ossos, contanto que vos praza de me ouvir em favor de vosso Vigário'".
Doutora da Igreja
     Ela foi agraciada com o "casamento místico"; recebeu estigmas semelhantes aos de Nosso Senhor e teve uma "morte mística", durante a qual foi levada em espírito ao Inferno, ao Purgatório e ao Paraíso; teve também uma "troca mística de coração" com Nosso Senhor.
     Entre seus inúmeros discípulos, os caterinati, havia membros do clero, da nobreza e do povo mais miúdo. Um deles, São Raimundo de Cápua, seu confessor, foi também seu primeiro biógrafo e quem nos forneceu pormenores de sua impressionante vida.
     "Todos os seus contemporâneos dão testemunho de seu extraordinário charme, que prevalecia ainda em meio da contínua perseguição à qual ela foi sujeita, mesmo da parte dos frades de sua própria Ordem e de suas irmãs em religião".
     Uma das suas obras ditadas, Diálogo sobre a Divina Providência, é ainda hoje considerada um dos maiores testemunhos do misticismo cristão e uma exposição clara de suas ideias teológicas e de sua mística. Este livro compila as revelações - umas sublimes e outras terríveis - feitas por Deus à Santa durante seus êxtases. Seus secretários anotavam suas palavras durante os êxtases a seu pedido.
     Santa Catarina faleceu no dia 29 de abril de 1380, aos 33 anos. Em 1970, Paulo VI declarou-a Doutora da Igreja, sendo a única leiga a obter esta distinção. João Paulo II declarou-a co-padroeira da Europa, juntamente com Santa Brígida da Suécia e Santa Teresa Benedita da Cruz. É Padroeira da Itália. Sua festa comemora-se no dia 29 de abril.
 
Fonte:  Grandes Santos que Iluminaram o Mundo, Plinio Ma. Solimeo
 
Conselho de Santa Catarina de Sena sobre a Santa Paciência
     “Deveremos afirmar, então, que nenhum sofrimento é grande? De modo algum. E se a sensualidade se revoltar, lembremos-lhe: 'Atenção, pois o fruto da impaciência é o castigo eterno, que receberás no dia do juízo. É melhor para ti querer o que Deus quer, amar o que Ele ama, ao invés de querer o que preferes e amar o que agrada à sensualidade. Quero que suportes virilmente a dor, já que os sofrimentos desta vida não têm comparação com a glória futura, preparada por Deus aos que o temem (Rom. VIII, 18; ICor. II, 9) e cumprem sua vontade”.
 
(Santa Catarina de Sena. Carta 5, para Francisco de Montalcino)


Nosso Senhor a Santa Catarina de Sena, sobre o homossexualismo
     “Esses infelizes ... caem no vício contra a natureza. São cegos e estúpidos, cuja inteligência obnubilada não percebe a baixeza em que vivem. Desagrada-me esse último pecado, pois sou a pureza eterna. Ele me é tão abominável que somente por sua causa fiz desaparecer cinco cidades (cfr. Sab. 10, 6). Minha justiça não mais consegue suportá-lo”.
     “Esse pecado, aliás, não desagrada somente a mim. É insuportável aos próprios demônios, que são tidos como patrões por aqueles infelizes ministros. Os demônios não toleram esse pecado. Não porque desejam a virtude; por sua origem angélica, recusam-se a ver tão hediondo vício. Eles (os demônios) atiram as flechas envenenadas de concupiscência, mas se voltam quando o pecado é cometido”.
 
(Fonte: “O Diálogo”: Edições Paulinas, 1984, pp. 259-260)

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Irmã Maria Antônia (Cecy Cony) e o Anjo da Guarda – 24 de abril

      
     Esta religiosa e mística brasileira, Irmã Maria Antônia, é pouco conhecida. Entretanto, o venerável Servo de Deus padre jesuíta João Batista Reus, cuja beatificação está em andamento no Vaticano, também ele misticamente agraciado, falecido em odor de santidade em 1947, confirmou a vida mística e santa da Irmã Maria Antônia. Assim a descreve na apresentação do livro 
Devo Narrar Minha Vida:
     Obrigada pela obediência, escreveu ela as reminiscências da sua vida, sem reflexão, com certa repugnância e pedindo auxílios especiais a Nosso Senhor. Mal terminava algum dos seis cadernos de que se compõe o manuscrito, entregava-o logo às Superioras e não perguntava mais por ele. Morreu antes de concluir a sua autobiografia, que só abrange seus primeiros 21 anos de vida, e pôde apresentar-se na presença do Senhor com a beleza deslumbrante da inocência batismal.
     Cecy era inteligente e de formação esmerada. Os atestados do colégio davam-lhe quase sempre o 1º ou o 2º lugar. No magistério foi professora habilíssima, como atestam suas superioras. Humilde, extremamente sincera e inocente, nunca na sua vida proferiu uma mentira nem ofendeu a Nosso Senhor “por querer”. Esta declaração dá-nos a chave para julgarmos com justiça de certas fragilidades exteriores que lhe notaram algumas pessoas. Era incapaz de inventar fatos místicos. Nem por leitura nem por qualquer outro meio ordinário pôde conhecer os fenômenos dessa natureza que descreve com tanta nitidez.
     Ao saber, quase no fim de seus dias, que havia almas que nunca experimentavam a presença sensível de Nosso Senhor por ocasião da Sagrada Comunhão, perguntou assustada: “Nem na primeira Santa Comunhão?” A resposta negativa fê-la chorar amargamente. E exclamou: “Estas almas, nesta vida, nunca chegaram a conhecer Nosso Senhor”.
São Leopoldo, Colégio Cristo Rei, 8 de dezembro de 1946.
Pe. J. Batista Reus, S.J.
* * *
    
Cecy Cony menina
     Cecy Cony nasceu no dia 4 de abril de 1900, em Santa Vitória do Palmar, RS. Era filha do 
Cap. João Ludgero de Aguiar Cony e de Antônia Soares Cony.
     Profundamente religiosa desde tenra infância, como ela mesma relata, “desde esse dia de fevereiro ou março de 1905, o “Novo Amigo” acompanhou-me sempre, sempre, por toda a parte, e comigo fazia guarda a Papai do Céu, ao pé da grande cômoda. ... aos 6 anos soube que Ele era o Santo Anjo da Guarda. Compreendia-o perfeitamente; falava-me, mas eu jamais ouvia sua santa voz”. Cecy conviveu com o seu Anjo da Guarda por cerca de 30 anos.
     Em fins de 1905 ou meados de 1906, o Capitão Cony foi transferido para a guarnição de Jaguarão e a família mudou-se para aquela cidade, onde Cecy passou a frequentar o Colégio Imaculada Conceição.
     Em 17 de outubro de 1906, em sua 1ª Comunhão, fez o juramento de fidelidade: “Bom e querido Jesus, eu juro para o Senhor que não quero nunca fazer um só peca­do”. A partir daquela ocasião, sempre sentia a presença sensível de Jesus na Alma ao comungar.
     Sua devoção a Maria Santíssima também foi precoce: “Depois da Ave-Maria, a segunda oraçãozinha que aprendi com Madre Rafaela, foi: Lembrai-Vos que Vos pertenço, terna Mãe, Senhora Nossa! Ah! Guardai-me e defendei-me como propriedade Vossa. Sempre rezei esta oraçãozinha de manhã e de noite, até entrar para o convento. Aprendera também a fazer sacrificiozinhos a Nossa Senhora. E alegria imensa senti quando Madre Rafaela nos ensinou a rezar o Santo Rosário”.
     O caso do Divino Espírito Santo - Jaguarão, município próximo à fronteira Brasil/Uruguai, tinha uma secular devoção ao Divino Espírito Santo. Todos os anos a Bandeira do Divino saia a angariar donativos para a grande solenidade. A família de Cecy não deixava de colaborar e ela mesma dava sua pequenina contribuição.
     Por volta de 1911, uma chocante notícia pôs em polvorosa todos os habitantes de Jaguarão. No quartel do Exército, localizado no centro da cidade, o coronel comandante mandou um sargento avisar que a procissão devia seguir adiante, pois lá não entraria o estandarte do Espírito Santo. Esse fato causou uma forte impressão em Cecy. "Como esse coronel pode ser tão ruim assim? Os pobres soldados ficaram privados da oportunidade de receber a bênção do Espírito Santo e dar uma modesta contribuição para a festa. Mas, muito pior do que isso, foi o insulto a Deus!" Acabrunhada com tais pensamentos, e não conseguindo adormecer à noite, ela ficou imaginando um meio de reparar tão grave ofensa.
     Inspirada por seu Anjo da Guarda, no dia seguinte saiu às ruas pedindo aos soldados e demais militares moedas e falando da sua tristeza pelo fato do coronel não ter permitido que o estandarte do Espírito Santo entrasse no quartel. Cecy também colabora com o dinheiro que tinha para comprar um sapato novo. Na cidade, ninguém soube desta participação de Cecy.
     Em 8 de dezembro de 1914, Cecy tornou-se Filha de Ma­ria. Em 1920, começaram suas decisões e indecisões sobre o estado a tomar. Foi só em 1925 que Cecy conheceu claramente a Ssma. vontade de Deus a respeito de sua vocação. Com a energia de sua inquebrantável vontade, embora sangrando o coração, despediu-se dos pais e seguiu o chamado do Esposo divino: em junho de 1926, entrou como postulante na Congregação das Irmãs Franciscanas em São Leopoldo, onde se esforçou por adaptar-se ao espírito de São Francisco, o que não lhe custou, porém mais difícil era viver uma vida tão diferente da que levara até ali no seio da família.
     A morte do pai, tão amado, em 18 de janeiro de 1927, foi um duro golpe que abateu suas forças físicas; Cecy teve de deixar seu querido convento.
     De volta ao convento, em 17 de fevereiro de 1928 recebeu o véu branco de noviça. No dia 14 de fevereiro de 1930, Irmã Antônia proferiu os votos temporários, ocasião em que Nosso Senhor novamente aludiu a sofrimentos futuros.
     Irmã Antônia consagrou-se irrevogavelmente ao Divino Esposo pelos votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência no dia 24 de fevereiro de 1933. Com inteira dedicação e espírito de sacrifício, retomou sua atividade como professora no Colégio São José, em São Leopoldo. Compreendia admiravelmente as suas alunas, e estas, por sua vez, cercavam de carinhosa veneração a bondosa educadora.
     Sofrimentos místicos, indizivelmente dolorosos, no corpo e na alma, assediaram-na impiedosamente. Um dos mais dolorosos padecimentos era o peso de todos os pecados do mundo, sentindo ela estes pecados na sua alma como se os tivesse cometido ela mesma. O inferno a incitava a dizer: “não quero mais sofrer!” Mas a jaculatória: “Meu Jesus, eu Vos amo ainda!” foi sua prece eficaz em favor das almas periclitantes, seu grito de vitória contra os assaltos infernais.
     Os sofrimentos de Irmã Antônia valiam ora como reparação pelas perseguições feitas à Santa Igreja, ora como expiação pelos ultrajes que Jesus Eucarístico sofre perenemente; contribuíram para a salvação das crianças e dos soldados, para a santificação do clero e dos religiosos.
     Na noite do dia 24 de abril de 1939, Irmã Antônia morreu serenamente, mas envolta em grande padecimento. No dia seguinte foi sepultada no cemitério conventual das franciscanas de São Leopoldo. Alunas atiram flores sobre o sarcófago; suas carinhosas cartas com pedidos e recomendações foram colocadas junto ao seu corpo. 
     Finalmente, a palavra do filósofo e conhecido conferencista Frei Pacífico, O.F.M. Cap., que leu a autobiografia: “É pela boca dos 'inocentes, das crianças' que Jesus revela aos homens os tesouros de seu infinito amor. Eu gostei imenso das páginas da feliz criança, encheram minha alma do desejo de recorrer mais seguido ao meu Anjo da Guarda” (excerto). 
 
Fonte: “Devo Narrar Minha Vida”, Memórias da infância de uma religiosa Franciscana da Penitência e da Caridade Cristã da Casa-Mãe de São Leopoldo, RS, editadas pelo P. J. Batista Reus, S.J., antigo professor de Ascética e Mística.
Imprimatur: Por comissão especial do Exmo. e Revmo. Sr. D. Pedro da Cunha, antigo bispo de Petrópolis, com a data de 15/4/1953.