domingo, 8 de fevereiro de 2026

Santa Josefina Bakhita, religiosa – 8 de fevereiro

     
     O nome Bakhit, que significa "afortunada" ou "bem-aventurada", não lhe foi dado ao nascer, mas lhe foi atribuído pelos raptores, pois ela ficara tão abalada ao ser capturada, que esqueceu seu verdadeiro nome.
     Segundo consta de sua autobiografia, ela era originária da aldeia de Olgossa (a pronúncia é “algoz” e em árabe significa “dunas de areia”), em Darfur, Sudão, país africano de predominância islâmica, e que 1869 deve ter sido o ano de seu nascimento. Crescera junto a seus pais, três irmãos e duas irmãs, uma delas gêmea sua. Seu pai possuía terras, plantações e gado, era irmão do chefe da aldeia. Era uma família muito unida.
     Não devemos nos esquecer de que, apesar de possuírem terras, gado, etc., viviam numa aldeia onde as cabanas eram de barro com telhado de palha. Todos nas aldeias estavam sujeitos ao grande perigo que eram os bandos negreiros que raptavam homens, mulheres e crianças para negociar no mercado de escravos.
     No ano de 1874 sua irmã mais velha foi raptada. A dor dilacerou o coração daquela família tão unida e feliz. Em sua biografia ela escreveu: “Lembro-me quanto chorou mamãe e quanto choramos todos”.
     No ano de 1876, com mais ou menos 7 anos de idade, foi raptada e arrancada do seio de sua família. A pequena, tomada de pavor, foi levada brutalmente por dois árabes e foram eles que lhe impuseram o nome de “Bakhita”.
     A pequena escrava, depois de um mês de prisão, foi vendida a um mercador de escravos. Na ânsia de voltar para casa, Bakhita se armou de coragem e tentou fugir. Porém, foi capturada por um pastor e revendida a outro árabe, homem feroz e cruel, que, por sua vez, revendeu-a a outro mercador de escravos. Foi vendida e comprada várias vezes nos mercados de El Obeid e de Cartum. Foi vendida a um general turco, cuja esposa era mulher terrivelmente má; desejou marcar suas escravas e Bakhita estava entre elas. Chamou então uma tatuadora. Eis como a Santa narra o fato:
     "Uma mulher habilidosa nesta arte cruel (tatuagem) veio à casa principal... nossa patroa colocou-se atrás de nós, com o chicote nas mãos. A mulher trazia uma vasilha com farinha branca, uma vasilha com sal e uma navalha. Quando terminou de desenhar com a farinha, a mulher pegou da navalha e começou a fazer cortes seguindo o padrão desenhado. O sal foi aplicado em cada ferida... Meu rosto foi poupado, mas 6 desenhos foram feitos em meus seios, e mais 60 em minha barriga e braços. Pensei que fosse morrer, principalmente quando o sal era aplicado nas feridas... foi por milagre de Deus que não morri. Ele havia me destinado para coisas melhores".
      Em 1882 Bakhita foi finalmente comprada pelo cônsul da Itália no Sudão, Calixto Legnani, que logo lhe deu carta de liberdade.
     No período de escravidão, Bakhita havia sofrido as humilhações, os sofrimentos físicos, psicológicos e morais dos escravos negros. Na casa do cônsul Legnani, Bakhita trabalhava como pessoa livre e isto lhe deu momentos de serenidade. "Desta vez fui realmente afortunada - escreve Bakhita - porque o novo patrão era um homem bom e gostava de mim. Não fui maltratada nem humilhada, algo que me parecia completamente irreal, pude inclusive sentir-me em paz e na tranquilidade”.
     Em 1884 Legnani teve que deixar Cartum, devido a chegada de tropas Mahdis, e retornar à Itália. Bakhita pediu para acompanhá-lo e foi atendida. Com eles partiu também um amigo do Consul, o Sr. Augusto Michieli.
    Chegados a Gênova, o Sr. Legnani, pressionado pelos pedidos da esposa do Sr. Michieli, concordou que Bakhita fosse morar com eles. Assim, ela foi para Zianino de Mirano, Vêneto, onde seria babá da filhinha dos Michieli, Mimina, de quem se tornou amiga.
     Apesar de serem pessoas boas e honestas, os Michieli não eram católicos praticantes. Como sempre, Deus tem seus desígnios e acabou colocando no caminho de Bakhita, o administrador dos Michieli, o Sr. Illuminato Chechini. Illuminato era um homem muito piedoso e logo se preocupou com a formação religiosa de Bakhita e, ao dar um crucifixo a ela, disse em seu coração: “Jesus, eu a confio a Ti”.
     A compra de um hotel em Suakin, no Mar Vermelho, obrigou a esposa do Sr. Michieli, a Sra. Maria Turina, a transferir-se para lá, a fim de ajudar o marido na sua administração. Bakhita e a pequena Mimina foram confiadas às Irmãs Canossianas de Veneza, graças aos conselhos do Sr. Illuminato, que agia novamente, sob a inspiração da graça, a favor da jovem. A Santa diria mais tarde que ela considerava o Sr. Illuminato como seu segundo pai.
     Com as Irmãs Canossianas Bakhita aprendeu a doutrina e conheceu o Deus dos cristãos que desde pequena “sentia no coração, sem saber quem Ele era” e que havia dado a ela forças para suportar a escravidão.
     Ainda na África, a pequena escrava costumava olhar para o céu e, ao avistar a lua e as estrelas, indagava-se: “Quem será o ‘patrão’ de todas essas coisas? E sentia uma vontade imensa de vê-Lo e prestar-lhe homenagem”. Depois de ‘patrões’ tão terríveis que a tiveram como sua propriedade, Bakhita acabou por conhecer um ‘patrão’ totalmente diferente – no dialeto veneziano que agora tinha aprendido, chamava ‘paron’ a Nosso Senhor Jesus Cristo. Até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Este ‘Paron’ morrera por amor a ela e a protegia.
     Ao final de nove meses, a Sra. Maria Turina voltou à Itália para buscar sua filhinha Mimina e aquela que considerava sua escrava, pois retornariam à África. Bakhita já prestes a receber os sacramentos, recusou-se a voltar para a África, apesar do afeto que nutria pela família Michieli e principalmente pela pequena. Sentia em seu coração um desejo inexplicável de abraçar a fé e vivê-la para sempre.
     Apesar dos apelos e até ameaças da Sra. Michieli, a jovem africana não cedeu em sua resolução. Bakhita estava livre, na Itália não havia escravidão. Sua patroa retornou à África com sua filha e Bakhita prosseguiu com sua catequese, feliz, mesmo sabendo que seria a última chance de rever seus familiares na África.
     Em 9 de janeiro de 1890, foi batizada, fez a 1ª Comunhão e foi crismada pelas mãos do Patriarca de Veneza, Cardeal Agostini, recebendo o nome cristão de Josefina Margarida Bakhita. Ela mesma conta em sua biografia que estando no Instituto conheceu cada dia mais a Deus “que me trouxe até aqui desta forma estranha”. Ela descreveria este dia como o mais feliz de sua vida: sentir-se filha de Deus era-lhe uma emoção inigualável, assim como receber Jesus na Eucaristia era o Céu na Terra. Daquele dia em diante era fácil vê-la beijar a pia batismal e dizer: “Aqui me tornei filha de Deus!
     Bakhita nutria em seu coração o sublime desejo de se tornar religiosa, uma Irmã Canossiana. Em 8 de dezembro de 1896, aos 38 anos de idade, tomou o hábito e ingressou na Congregação das Filhas da Caridade Canossianas, com o nome religioso de Irmã Josefina.
     Ela sonhava com a conversão do povo africano e no dia de sua profissão religiosa rezou: “Ó Senhor, se eu pudesse voar para lá longe, entre a minha gente e proclamar a todos em voz alta a Tua bondade; ó quantas almas eu poderia conquistar para Ti! Entre os primeiros a minha mãe, o meu pai, os meus irmãos, a minha irmã ainda escrava... e todos, todos os pobres negros da África. Faze, ó Jesus, que também eles Te conheçam e Te amem!
 Por mais de 50 anos, esta humilde Filha da Caridade dedicou-se à diversas ocupações na Congregação. Transferida para a cidade de Schio, lá permaneceu por 45 anos: foi cozinheira, responsável do guarda-roupas, bordadeira, sacristã e porteira. Nesta última função, as suas mãos pousavam docemente sobre a cabecinha das crianças que frequentavam a escola do Instituto. A sua voz amável chegava prazerosa aos pequeninos, reconfortava os pobres e os doentes e encorajava a todos que vinham bater à porta do Instituto.
      A vida exemplar de Irmã Bakhita, a sua humildade, a sua simplicidade e o seu constante sorriso, suas palavras de conforto e atitudes carinhosas cativavam e conquistaram o coração de todos os habitantes de Schio (hoje a cidade tem cerca de 39 mil habitantes) que passou a ser conhecida com o apelido em dialeto vêneto de "Madre Morèta" (Mãe Moreninha).
     As Irmãs a estimavam pela sua inalterável afabilidade, pela fineza da sua bondade e pelo seu profundo desejo de tornar Jesus conhecido. “Sede bons, amai a Deus, rezai por aqueles que não O conhecem. Se soubésseis que grande graça é conhecer a Deus!,,,”
     Algo custou a ela muito trabalho: foi escrever a sua autobiografia em 1910, que foi publicada em 1930. Em 1929 as superioras mandaram-na a Veneza para contar a história de sua vida. Após a publicação de suas memórias, se tornou famosa, viajando por toda a Itália dando conferências e coletando donativos para a Congregação.    
     A saúde de Irmã Josefina foi se debilitando; em seus últimos anos teve que se utilizar de uma cadeira de rodas, o que não a impediu de continuar viajando, apesar de todos os incômodos. A quem a visitava e lhe perguntava como se sentia, respondia sorridente: “Como o Patrão quer!”    
     Quando já estava bem doente, dizia: “Vou-me devagarinho para a eternidade... Vou com duas malas: uma contém os meus pecados; a outra, bem mais pesada, contém os méritos infinitos de Jesus Cristo. Quando eu comparecer diante do Tribunal de Deus, cobrirei a minha mala feia com os méritos de Nossa Senhora. Depois abrirei a outra e apresentarei os méritos de Jesus Cristo. Direi ao Pai: ‘Agora julgai o que vedes’. Estou segura de que não serei rejeitada! Então me voltarei para São Pedro e lhe direi: ‘Pode fechar a porta porque eu fico!
     Na agonia, delirando, reviveu os terríveis anos de sua escravidão e vária vezes suplicava à enfermeira que a assistia: “Por favor, solta-me as correntes, pesam muito!” Às 20 horas do dia 8 de fevereiro de 1947, em Schio, ela entregava sua alma a Deus aos 78 anos de idade, rodeada pela comunidade em pranto e em oração. Suas últimas palavras foram: “Nossa Senhora! Nossa Senhora!” E seu último sorriso testemunhava o encontro com a Mãe de Jesus.
     Uma grande multidão foi dar o último adeus à Madre Morena. Foi velada por três dias, durante os quais, contam as pessoas, suas articulações ainda permaneciam quentes e as mães tomavam sua mão para colocá-la sobre a cabeça de seus filhos.
     Foi enterrada inicialmente na capela de uma família de Schio, os Gasparella, provavelmente na espera de um sepultamento definitivo na Igreja da Sagrada Família. E assim foi em 1969, quando o corpo incorrupto de Bakhita foi sepultado sob o altar da Igreja do mesmo convento.
     A fama de sua santidade se espalhou rapidamente e todos iam ao seu túmulo pedir sua intercessão. O processo para a causa de canonização iniciou-se doze anos após a sua morte. Em 17 de maio de 1992 foi beatificada e em 1º de outubro de 2000, foi elevada à honra dos altares pelo Papa João Paulo II, sendo que o milagre que a levou a ser reconhecida como Santa, aconteceu em Santos, São Paulo, Brasil.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Santa Adelaide, Abadessa de Vilich – 5 de fevereiro

      
     Adelaide também conhecida como Adelheid, foi abadessa de Vilich e também de Santa Maria im Kapitol em Colônia. Ela era considerada uma santa por alguns; milagres são atribuídos a ela. Ela descendia do rei alemão Henrique, o Pássaro. Seus pais fundaram o convento em Vilich, do qual ela se tornou abadessa.
Vida
     Adelaide nasceu por volta de 970, a filha mais nova de Megingoz, Conde de Geldern, e de sua esposa Gerberga de Metzgau, uma neta de Carlos o Simples, rei dos Francos. Quando criança, foi entregue ao convento de Nossa Senhora de Capitol, fundado por seus pais em Colônia, que seguia a Regra de São Jerônimo., provavelmente antes de 977, onde foi educada e se dedicou a estudos filosóficos, segundo sua Vita.
     Quando seu irmão mais velho, Godofredo, morreu em batalha em 977, seus pais começaram a financiar a construção de uma igreja em sua homenagem em Vilich (hoje parte de Bonn-Beuel), localizado na confluência dos rios Reno e Sieg, e trabalharam para estabelecer uma comunidade monástica feminina seguindo a regra das observâncias das cônegas. Como parte desse processo, eles resgataram sua filha de Santa Úrsula com um dom de terras e a estabeleceram como abadessa da recém-fundada comunidade em Vilich.
     Para determinar a posição legal de Vilich no império, seus pais apelaram ao imperador Otão III em 987 para obter uma carta que concedesse a Vilich o mesmo status legal dos conventos imperiais de Gandershein, Quedtinburg e Essen. Essa carta foi confirmada por uma bula papal do Papa Gregório VI, datada de 24 de maio de 996.
     Devido à morte de sua mãe Gerberga por volta de 995, Adelaide foi forçada a liderar o convento sozinha. Ela usou essa posição de poder para mudar a regra seguida em Vilich para a Regra de São Bento; algumas cônegas deixaram Vilich como resultado. Três anos após a morte de Gerberga, o pai de Adelaide também faleceu. Foi sepultado ao lado de sua esposa em Vilich. Adelaide herdou grande parte da riqueza da família.
     Por volta de 1000, a irmã de Adelaide, Bertrada, abadessa de Santa Maria no Capitólio, morreu. O arcebispo Heriberto de Colônia expressou o desejo de que Adelaide assumisse a responsabilidade pela abadia. Adelaide foi posteriormente chamada à corte e confirmada como abadessa de Santa Maria.
     A instituição de caridade de Adelaide tornou-se bem conhecida em Colônia. Sua reputação favorável aumentou após colheitas ruins nos anos seguintes, durante os quais Adelaide cuidou do povo de Colônia. Enquanto seu relacionamento com o arcebispo Heriberto é descrito pela Vita como de caritas, as irmãs em Vilich são retratadas como se sentindo negligenciadas devido ao tempo que Adelaide passava em Colônia.
     Em 5 de fevereiro de um ano desconhecido, Adelaide morreu de dor de garganta. Suas irmãs de Vilich não acreditaram em uma mensagem descrevendo a doença de Adelaide e chegaram depois que ela havia morrido. O arcebispo Heriberto desejava que Adelaide fosse enterrada em Colônia, mas as irmãs o convenceram a fazê-la ser enterrada em Vilich.

Fontes
     Uma das principais fontes da vida de Adelaide é a Vita Adelheidis virginis. Foi escrita por volta de 1057 por Berta com a ajuda de testemunhas contemporâneas. Parece que Berta escreveu a Vita antes de entrar no convento de Vilich. Na Vita do irmão de Berta, Wolfhelm, está documentado que Berta escreveu a Vita Adelheidis junto com outras vitae.
     Muitas informações da Vita são apoiadas por diferentes cartas, principalmente por uma carta de 944, na qual Otão restaura a propriedade de Megingoz, e por uma carta de 987 pela qual Otão III. concede à Abadia de Vilich o status de Reichsstift (convento imperial).
Veneração
     Durante seu mandato, a região ao redor de Colônia foi afetada por fomes. Por isso, ela rezou pelos mais pobres e, como resultado, surgiu uma fonte de água no distrito de Pützchen, na atual Bonn. A nascente foi transformada em um poço e tornou-se um importante destino de peregrinação para o culto a Adelaide. Essa fonte está preservada até hoje; todo ano, em setembro, há uma peregrinação em veneração à Adelaide.
     Em 1641, seu túmulo na Vilicher Stiftskirche foi aberto e estava vazio. Após essa descoberta, o número de peregrinos caiu drasticamente, mas a cada ano algumas relíquias eram e ainda são mostradas ao público.
     Além desse poço, alguns outros milagres foram registrados, que ocorreram em seu túmulo. Adelaide foi declarada Serva de Deus em 22 de novembro de 1922, e canonizada pelo Papa Paulo VI em 27 de janeiro de 1966. Seu dia de morte, 5 de fevereiro, foi confirmado como o dia oficial de sua lembrança e festa.
     Até hoje, várias igrejas e mosteiros em Bonn e Colônia, assim como várias escolas, levam seu nome. Em 8 de setembro de 2008, Adelaide foi proclamada a terceira padroeira da cidade de Bonn.
 
Fontes:
RANBECK, Calendário Beneditino (London, 1896); LECHNER, Martirológio das Ordens Beneditinas (Augsburg, 1855); STADLER, Heiligen-Lexikon (Augsburg, 1858); MOOSMUELLER, Die Legende, VII, 448. MICHAEL OTT (Enciclopédia Católica).
http://www.paulinas.org.br/
Adelaide, abadessa de Vilich - Wikipédia
 

A Maravilhosa Relíquia do Véu de Nossa Senhora em Chartres - 3 de fevereiro

 

   
Depois de Notre Dame em Paris, a Catedral de Chartres é, sem dúvida, a catedral medieval mais famosa da França. Seus arcos góticos, contrafortes voadores, magníficas estátuas e aproximadamente 170 vitrais medievais atraem milhões de peregrinos de todo o mundo. É uma obra-prima do estilo gótico medieval e o testemunho da outrora forte fé católica do povo francês. A catedral e sua relíquia mais preciosa — o véu de Nossa Senhora — são maravilhosamente contadas em um livro de 2024, Chartres: arche d'Alliance et reliquaire du Voile de Marie, do especialista em Chartres Guy Barrey.
     Chartres também é o santuário mariano mais antigo da França e um dos mais antigos da Europa. Segundo a tradição oral católica, na era pré-cristã a cidade era importante para os gauleses pagãos. Eles adoravam uma deusa a quem chamavam de Virgini pariturae, ou "a virgem que vai dar à luz". Mesmo na escuridão do paganismo, os povos celtas da França foram preparados pela Divina Providência para aceitar a luz da Fé Católica e o mistério da Divina Maternidade de Maria.
     Chartres também tem um forte vínculo com Clóvis, rei dos francos, cuja conversão ao catolicismo marcou o início da França católica. Ele foi batizado em Reims no dia de Natal de 496, pelo bispo de Reims, São Remigio. Presentes no batismo estavam outros dois santos bispos, São Vedast, bispo de Arras, e São Solenis, bispo de Chartres. Após o batismo de Clóvis, São Solenis ajudou São Remígio a instruir o rei franco na fé católica.
     Desde o século IX, a relíquia mais preciosa da catedral — e principal atrativo para os peregrinos — é a relíquia da Sancta Camisa, ou Véu de Nossa Senhora. Essa relíquia é, na verdade, uma relíquia "dupla" porque tocou o corpo puríssimo da Bem-Aventurada Virgem Maria, assim como o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, que sem dúvida a tocou quando criança nos braços de sua mãe. No início do século IX, a imperatriz bizantina Irene presenteou a relíquia ao imperador Carlos Magno. Em 876, Carlos, o Calvo, neto de Carlos Magno e rei da França Ocidental (a maior parte do que hoje é a França), doou a preciosa relíquia a Chartres, onde permanece até hoje.
     Na Idade Média, nobres, reis e camponeses vinham em grande número para venerar essa relíquia, incluindo pelo menos dezesseis reis da França. O rei São Luís IX esteve presente quando a catedral foi consagrada em 1260, e também fez uma peregrinação a pé a Chartres a partir de Nogent-le-Roi, a uma distância de 28 quilômetros. São Luis e sua mãe, a rainha Branca de Castela, pagaram pessoalmente por uma das três grandes rosetas da catedral. Até mesmo o grande rei Luís XIV, o "Rei Sol", foi com sua corte prestar homenagem a Nossa Senhora em Chartres.
     Uma peregrina notável foi a piedosa Madame Elizabeth, irmã do infeliz rei Luís XVI. Durante a Revolução Francesa, ela fez uma peregrinação a Chartres para pedir a Nossa Senhora que intercedesse por seu irmão e pela França. Em 29 de setembro de 1790, festa dos três arcanjos, ela doou dois corações de ouro como oferenda a Nossa Senhora, representando o Imaculado Coração de Maria e o Sagrado Coração de Jesus. Os corações dourados traziam a inscrição "Para a preservação da religião na França”. Madame Elizabeth, que foi tragicamente guilhotinada assim como seu irmão, o rei, e a rainha Maria Antonieta, passa por um processo de canonização.
Peregrinos veneram o véu
     O véu em si é um tecido de seda em duas peças, a maior de 212 cm por 40 cm e a menor de 25 cm por 24 cm. Em 1712, o bispo de Chartres abriu o relicário e escreveu uma declaração oficial: "Este tecido era perfeitamente simples, sem qualquer decoração colorida. Evidentemente, era a relíquia venerada por séculos. Quando o tecido foi totalmente desdobrado, descobriu-se que era uma espécie de véu sem costura, desfiado em ambas as extremidades, cuja largura o relatório oficial não especifica, mas que estima ter cerca de quatro elos e meio de comprimento". Em 1927, especialistas do Museu de Têxteis de Lyon estudaram o tecido e determinaram que ele é feito de seda com uma trama que corresponde ao encontrado na Judeia do século I. Também é de altíssima qualidade, revelando o elevado status social de Nossa Senhora.
     Ao longo dos séculos, pequenos pedaços foram cortados e distribuídos como relíquias para indivíduos e outras igrejas na França. Durante a Revolução Francesa, a relíquia foi escondida e depois cortada em vários pedaços numa tentativa de salvá-la da destruição pelos jacobinos. Após a Revolução, essas peças foram recuperadas e a relíquia restaurada para veneração pública em uma das capelas laterais da catedral.
     O véu de Nossa Senhora realizou muitos milagres ao longo dos séculos. Um dos primeiros milagres registrados foi no início do século X. Durante a chamada segunda invasão bárbara, os pagãos nórdicos partiram da Escandinávia e desceram por toda a Europa, da Inglaterra à Sicília, onde queimavam vilarejos, massacravam os habitantes, roubariam tudo de valor e retornavam para casa.
     Um desses nórdicos era um chefe chamado Rollo. Em 20 de julho de 911, após saquear outras cidades na França, avançou sobre Chartres, sem dúvida para roubar seu rico tesouro doado por peregrinos piedosos. Os defensores de Chartres eram pouco páreo para o exército mais poderoso de Rollo e temiam uma repetição do cerco anterior de Chartres pelos vikings em 12 de junho de 858, quando os pagãos assassinaram o bispo e massacraram muitos clérigos e civis. Mas em 911, os defensores confiaram na Providência Divina. Durante o cerco, o bispo de Chartres fez uma procissão com o véu de Nossa Senhora nas muralhas da cidade, implorando a intercessão de Nossa Senhora para salvá-la. Ao ver a relíquia, o exército cristão se reuniu e lançou um ataque feroz, enquanto os pagãos inexplicavelmente perderam a coragem e fugiram em pânico.
     Esse milagre foi seguido por mais dois. Mais tarde naquele mesmo ano, Rollo concordou em se tornar vassalo do rei Carlos III, "O Simples", e aceitar o Batismo, pondo fim às incursões vikings contra aquela parte da França. Para selar a nova aliança, Rollo concordou em se casar com a filha do rei, Gisela, e o rei Carlos concedeu-lhe como feudo o território que hoje é a Normandia. Rollo foi para a Normandia o que Clóvis foi para a França, tudo graças a um milagre realizado através do véu sagrado.
Fachada da
Catedral de Chartres
     
Ao longo dos séculos, livros inteiros foram escritos para registrar os muitos milagres relatados. Milhares de peregrinos foram curados de suas doenças físicas visitando o véu. Na Idade Média, começou um costume piedoso pelo qual os peregrinos mandavam tocar uma camisa no véu. Essas "camisas abençoadas de Chartres", como eram chamadas, eram então usadas como proteção contra perigos. Cavaleiros que usavam essas camisas em combate relataram ter sido milagrosamente salvos do fogo inimigo. As mulheres os usavam durante o parto para garantir um parto seguro, incluindo a rainha Marie Leszczynska, esposa do rei Luís XV.
     Em março de 1568, a cidade foi milagrosamente preservada de um cerco pelo exército huguenote calvinista. Testemunhas relataram ter visto as balas de canhão do exército protestante se arquear em direção aos defensores, apenas para ricochetear e cair sobre os huguenotes. O milagre impressionante fez os protestantes desanimarem e eles encerraram o cerco, salvando os habitantes e sua amada relíquia.
     No século XXI, o véu de Nossa Senhora em Chartres continua atraindo muitos peregrinos. Mais de um milhão de pessoas visitam a catedral todos os anos. A peregrinação anual de Pentecostes dos católicos tradicionais atingiu quase 20.000 pessoas em 2025, todas atraídas pela beleza da catedral de Chartres e pela preciosa relíquia do véu. Por vinte séculos, católicos fiéis de todos os tempos e lugares sempre recorreram à Bem-Aventurada Virgem Maria, tanto nos bons quanto nos maus momentos.
     Se o mundo decadente do século XXI tiver alguma esperança de "restaurar todas as coisas em Cristo", como era o lema do Papa São Pio X, isso só acontecerá por meio de sua intercessão. Chartres é o relicário da maior relíquia mariana do mundo, e é mais do que razoável acreditar que Chartres terá um papel de destaque nessa grande obra de conversão profetizada por Nossa Senhora de Fátima e tantas outras aparições marianas. Como declarou o cardeal Louis-Édouard Pie, bispo de Poitier e um dos grandes cardeais ultramontanos do século XIX, em 1854: "Ouso prever que Chartres se tornará mais do que nunca o centro da devoção a Maria no Ocidente e que as pessoas irão para lá como em tempos passados vindas dos quatro cantos do mundo".
 
por James Bascom
https://www.tfp.org/

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Santa Joana de Lestonnac, Viúva e Fundadora - 2 de fevereiro

     
     Numa fria manhã de 1556, Ricardo de Lestonnac, nobre magistrado e conselheiro do rei, que preside seu lar em Bordéus (França), recebeu do céu uma bênção: a primogênita, Joana, que encherá a nobre morada com a luz de seus olhos azuis e de seu encanto especial. Joana Eyquen de Montaigne, a nobre castelã, recebeu em seus braços com alegria a pequenina, mas se opõe tenazmente que a filha receba o batismo católico. A vontade firme do pai triunfa e Joaninha começa sua vida no campo do combate familiar, o que colocará em grave perigo a pureza de sua fé.
     O veneno é inoculado por meio de carícias maternas: historietas maliciosas contra os sacerdotes e o Vigário de Cristo, ausência total da Virgem Santíssima. Desta forma a nova apóstata calvinista tentava trazer para si o terno coração da pequena, a quem o tio, o célebre filósofo Miguel de Montaigne, chamou sem titubear "bela princesa, albergada num magnífico palácio".
     Seus tios, os senhores de Beauregard, se unem à mãe herege neste trabalho. Mas Miguel de Montaigne velava pela guarda de sua fé. A menina triunfou na luta com a firme ajuda de seu pai e com a cooperação de seu irmão Guy, que repetia à noite o que aprendera no colégio que frequentava, dirigido pelos padres jesuítas. Era a nova Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio, que chegara a Bordéus.
     A devoção a Nossa Senhora se enraizou em sua alma, e seu desejo de sacrificar o porvir brilhante que o mundo lhe oferecia pela vida religiosa, cedeu somente diante da insistência paterna que teme os claustros e mosteiros invadidos pela heresia calvinista.
     Tendo Joana dezessete anos, o pai, atendendo aos insistentes pedidos de Gastão de Montferrant, Barão de Landiras e de la Mothe, concedeu-lhe a mão da filha. A vida matrimonial foi muito sólida e Joana foi mãe oito vezes. Os três primeiros morreram muito pequeninos. Os outros cinco - dois varões e três mulheres - foram crescendo sob o olhar atento da mãe.
     A baronesa, como a mulher forte do Evangelho, ensinava aos filhos os deveres da caridade católica: visitas aos pobres, aos colonos, atendimento abnegado aos pobres que lhes batem à porta. Não sem razão o mundo inteiro a chamaria um dia de "honra e glória da França e da Igreja".
     Em 1597, após 24 anos de matrimônio, Gastão de Montferrant faleceu. Seguiram-se grandes dores e tristezas: a morte do esposo, do filho mais velho, do pai e do tio. Joana ficou só e continuou com fortaleza a educação dos quatro filhos que lhe restaram.
     Seis anos mais tarde, tendo seu filho Francisco se casado e suas filhas Marta e Madalena se consagrado a Jesus nas Anunciadas de Bordéus, resolveu deixar a filha mais nova, Joaninha, sob os cuidados de Francisco e da esposa, e ingressar no convento.
     Na manhã de sua partida, saiu muito cedo do palácio para evitar as despedidas, porém, seu coração de mãe ainda enfrentou mais um sacrifício: é surpreendida com a súbita chegada da filha mais nova, que se lança em seus braços desfeita em prantos e pedindo para ela não deixar Bordéus.
     Aos 46 anos de idade, ela ingressou no Mosteiro Cisterciense de Toulouse. Mudou seu nome para Joana de São Bernardo. Este ramo feminino dos Cistercienses reformados nascera na Abadia de Feuillant, na Gasconha, para reagir à decadência da Ordem.
     Seis meses após ter vestido o santo hábito, sua palidez preocupava a comunidade e suas rigorosas penitências esgotaram suas forças por completo. A Madre Superiora a convenceu a voltar para o seu castelo.
     Naquela noite, esforçando-se para aceitar a vontade de Deus e mais esta prova, teve uma visão celestial que a faz ver o abismo do inferno. Nele caem muitas jovens em espantoso torvelinho e estendiam os braços implorando seu auxílio. Sobre este quadro espantoso apareceu magnífica e grandiosa a imagem de Maria. Ela compreendeu a vontade de Deus. A futura Companhia de Maria, em benefício da juventude feminina, começou a delinear-se naquela última vigília no convento cisterciense.
     Após deixar o mosteiro, Joana se retirou em La Mothe. Em 1605, encontrava-se em Bordéus e trabalhava como voluntária com outras senhoras e moças durante uma epidemia de peste, e aí descobriu sua vocação: o trabalho na sociedade, entre as jovens mais necessitadas de ajuda e instrução. Foi visitando e cuidando das pessoas nas regiões mais pobres da cidade, e em contato com as jovens que eram atraídas pelo chamado de Deus e por sua personalidade, que ela desejou realizar o trabalho apostólico que a atraia. Ela percebeu que a espiritualidade inaciana expressava sua própria espiritualidade.
     Ela manteve contatos com dois Jesuítas, Pe. de Bordes e Pe. Raimundo, que compartilhavam suas preocupações. O Papa Paulo V aprovou a fundação da Companhia de Nossa Senhora em 7 de abril de 1607.
     Em 11 de março de 1608, diante da generosa resposta de cinco primeiras companheiras, a cidade de Bordéus, engalanada, participou da tomada de hábito das religiosas que iniciaram o combate da Companhia de Maria.
     O Cardeal François d’Escoubleau de Sourdis, inicialmente protetor da obra, desejou mais tarde ligá-la às Ursulinas, e lhes negou a profissão em maio de 1610. Porém, a 7 de dezembro, em seu castelo de Lormont, recebeu uma graça particular da Santíssima Virgem que advogava em favor de suas filhas, e, na festividade da Imaculada, o mosteiro de Joana assistiu à profissão da fundadora e de suas primeiras companheiras, que já eram nove.
     Como todas as obras de Deus, forte vendaval de perseguição sacodiu a ainda frágil árvore. Por isso mesmo ela se enraizou mais fortemente e em breve as sementes lançadas germinarão: antes que a alma da fundadora voasse para o Céu, são quarenta as novas preciosas e florescentes ramagens. Joana enfrentou desde os desprezos de Lucia de Teula, fundadora frustrada de Toulouse, que não lhe poupou insultos e perseguições, até a traição de uma de suas filhas, única infiel no grupo de suas primeiras religiosas, que cedendo a uma tentação ambiciosa fez chegar ao prelado falsas acusações.
     "A parte que Jesus nos dá de sua Cruz nos faz conhecer quanto Ele nos ama", repetiria mais tarde a Santa fundadora.
     Em 1622, retiraram-lhe o cargo e ela deixou Bordéus. Entretanto, as outras casas continuam a dedicar-lhe a estima, o afeto e a confiança devidos à Fundadora da Ordem. Ela é considerada a Madre Geral, mesmo que o status lhe é recusado pela Igreja, e que ela não possa se comunicar com as outras casas naquele terrível período.
     A Fundadora, relativamente idosa, parte para fundar uma casa em Pau. Ela aí permaneceu até 1634, se ocupando da organização da vida da nova fundação e ensinando as meninas mais pobres. Num silêncio santo e exemplar, deixava admirados todos quantos tinham a dita de tratar com ela.
     No fim de seu mandato, em 1626, a superiora ingrata reconheceu seus erros e pediu publicamente perdão a Santa Joana de Lestonnac.
     A pedido dos superiores e por insistência do Cardeal de Sourdis, ela retornou a Bordéus para consagrar seus últimos anos à redação definitiva das Constituições que foram impressas em 1638. Todas as casas e a Ordem viverão sob estas Constituições em qualquer parte do mundo onde elas estiverem.
     No dia 2 de fevereiro de 1640, a religiosa que possuía uma grande devoção a Eucaristia, a Santíssima Virgem - a quem consagrou sua companhia -, que tributava um culto muito especial a seu anjo da guarda, a mãe caridosa e boa que distribuía aos mais necessitados os remédios adquiridos para a comunidade, após uma enfermidade rápida, rodeada de suas filhas e pronunciando com doçura celestial os nomes de Jesus, Maria e José, entregou sua alma a Deus, em meio a veneração e ao amor de filhas que viviam nas quarenta casas do Instituto.
     A ignominiosa Revolução Francesa profanou seus veneráveis despojos, enterrando-os junto à ossada de um cavalo. Ao fim da Revolução, o zelo e o amor da Madre Duterrail conseguiram, ao restaurar as casas da França após trabalhos imensos, encontrar os restos venerandos da Fundadora.
     Transcorridos trezentos anos de espera, Joana de Lestonnac foi beatificada pelo Papa Leão XIII em 1900, e, no dia 15 de maio de 1949, canonizada por Pio XII.
     O lema da Santa, "ou trabalhar ou morrer pela maior glória de Deus", ainda hoje ressoa como o ideal a ser vivido por suas filhas nas cento e cinquentas casas da Companhia de Nossa Senhora.
 
Fontes: www.santiebeati.it - Domenico Agasso; Ciclo Santoral, Maria Angeles Viguri, ODN

Santa Jacinta de Marescotti, Padroeira de Viterbo - 30 de janeiro

      
     Clarice de Marescotti era filha de Marcantonio Marescotti e Otávia Orsini, Condessa de Vignanello, localidade próxima de Viterbo, Itália, onde nasceu provavelmente no dia 16 de março de 1585.
     De seus pais recebeu profunda formação religiosa. Entretanto, atingindo a adolescência, Clarice, nobre, bela, tornou-se vaidosa e mundana, buscando apenas divertir-se. Sua preocupação passou a ser vestidos, adornos, entretenimentos e um casamento digno de sua classe social.
     Seu pai se preocupava muito com a salvação da filha. Resolveu mandá-la para o convento onde já estava sua irmã mais velha, que lá era um exemplo de virtude. Clarice foi de má vontade, mas como terceira franciscana, pois alimentava o desejo de sair dele o mais rápido possível para voltar à vida de antes. Tanto insistiu que o pai acabou cedendo.
     Mas fora ela não encontrou o que esperava: nenhum casamento apareceu e Clarice viu ainda sua irmã mais nova, Hortência, casar-se com o marquês romano Paulo Capizucci e ela ficar para trás.
     Por insistência da família ela retornou àquele mesmo convento das religiosas da Ordem Terceira Franciscana regular, desta vez como freira, tomando o nome de Jacinta.
     Mas, julgando ela que as celas das freiras eram muito pequenas e pobres, mandou construir uma especial para si, de acordo com sua posição social. Sua cela parecia um bazar pelos luxuosos adornos. Aquilo poderia ficar bem num palácio, destoava do ambiente do convento. Sua piedade é tíbia; a mortificação prescrita, um tédio; até recebe as admoestações com desprezo. Por dez anos levou no convento uma vida mundana.
     Quando completou 30 anos, chegou a hora de Deus e surgiu potente a nobre e católica linhagem que levava dentro de si. Uma grave doença a faz refletir sobre o fogo do Purgatório e do Inferno; tremeu de terror e clamou pelo confessor.
     O Pe. Antônio Biochetti, virtuoso sacerdote, foi atender a doente. Mas, entrando naquele quarto luxuoso recusou-se atender a confissão da freira, dizendo que o Paraíso não era feito para os soberbos. Chorando perguntou-lhe: "Então não há mais salvação para mim?". "Sim — respondeu o religioso — contanto que deixe esses vãos adornos, essas vestimentas suntuosas, e se torne humilde, piedosa, esqueça o mundo e pense só nas coisas do Céu".
     Na manhã seguinte, após ter trocado sua roupa de seda por um pobre hábito, Jacinta fez sua confissão geral com um verdadeiro arrependimento. Depois, no refeitório, aplicou-se forte disciplina diante das irmãs e pediu-lhes perdão pelos maus exemplos que havia dado.
     Nova enfermidade fez com que a ruptura com a vida antiga fosse total. Entregou tudo o que possuía para a superiora e revestiu-se com a mortalha de uma freira que acabava de morrer. Fez o propósito de romper com tudo aquilo que lhe lembrava a antiga vida. Desde então passou a ser chamada de Jacinta de Santa Maria e não mais de Marescotti.
     Trocou sua cama por um feixe de lenha, tendo uma pedra como travesseiro; mortificava-se dia e noite, tomando tão ásperas disciplinas, que o solo de sua cela ficava manchado de sangue. Às sextas-feiras, em memória da sede que Nosso Senhor sofreu na Paixão, colocava um punhado de sal na boca. Sua alimentação passou a ser pão e água. Durante a Quaresma e o Advento, vivia de verduras e raízes apenas cozidas na água.
     Considerando-se como a pior pecadora, escolheu para patronos santos que tinham ofendido a Deus antes de se converterem, como Santo Agostinho, Santa Maria Egipcíaca e Santa Margarida de Cortona. Era devota do Arcanjo São Miguel, amava a contemplação da Paixão de Jesus Cristo, a Missa a levava às lágrimas, as imagens da Virgem Santíssima eram seu refúgio.
     Procurava toda ocasião para se humilhar. Às vezes ia ao refeitório com uma corda ao pescoço, ajoelhava-se diante das freiras, beijava-lhes os pés pedindo perdão pelos maus exemplos passados.
     Ela escreveu a uma religiosa: "Há 14 anos que eu mudei de vida. Durante esse tempo eu rezei algumas vezes quarenta horas seguidas, assisti todos os dias a várias missas, e me encontro ainda longe da perfeição. Quando poderei servir meu Deus como Ele merece? Reze por mim, minha amiga, para que o Senhor me dê ao menos a esperança".
     Embora se considerasse a mulher mais pecadora, a nomeiam subpriora e mestra de noviças. E a fama de suas virtudes propaga-se por toda a região. Deus recompensou sua fiel serva com dons extraordinários como o de profecia, milagres, conhecer os corações, ser instrumento de conversões e frequentes êxtases.
     A conversão de Francisco Pacini, célebre por seus desmandos, tornou-se famosa. Ouvindo falar dele, a Santa fez jejuns e orações por sua conversão. Convencido por um amigo convertido por Jacinta, Pacini vai ao convento falar com ela. No parlatório, diante daquela pobre freira, começou a tremer e à medida que ela falava, ele foi se transformando, caiu de joelhos e prometeu confessar-se.
     No domingo seguinte, o da Paixão, com os pés descalços e uma corda no pescoço, Pacini, no meio da Igreja pediu perdão a todos por seus crimes e escândalos. Mais tarde revestiu o hábito de peregrino e consagrou sua vida a Deus.
     Jacinta reformou muitos conventos com cartas escritas às superioras relaxadas, admoestando-as dos castigos que as ameaçavam. Por sugestão sua a Duquesa de Farnese e de Savella fundou dois mosteiros de clarissas, um em Farnese, outro em Roma.
     Ela se preocupava com as almas que se extraviavam no pecado e para sua recuperação fundou duas confrarias: a Companhia dos Sacconi, para atendimento material dos enfermos e para ajudá-los a morrer bem; e a Congregação dos Oblatos de Maria para incentivar a piedade, fazer obras de caridade e fomentar o apostolado dos leigos.
     Como não tinha voto de clausura, Jacinta ia visitar os pobres, levando-lhes sempre o auxílio espiritual, além do material. Em seu grande apreço pela nobreza dava assistência especialmente aos nobres empobrecidos e envergonhados.
     Santa Jacinta de Marescotti entregou sua bela alma a Deus em 30 de janeiro de 1640. Foi canonizada em 1807 pelo Papa Pio VII. É festejada no dia de seu nascimento para o Céu.
 
Fontes: Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après le Père Giry, Paris, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, 1882, tomo II, pp. 348 a 356 ; Manuel de Castro, O.F.M., Santa Jacinta de Marescotti, in Santoral Franciscano.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

20 de janeiro Nossa Senhora do Milagre


Orações e milagres medievais: 

Nossa Senhora do Milagre: aparição e conversão do hebreu Ratisbonne

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O Pequeno Rei: O Menino Jesus de Praga – Festa em 14 de janeiro

Devoção ao Menino Jesus
     Pouco depois da fundação da Igreja, muitos santos, notadamente o Papa São Leão, o Grande, já haviam falado sobre o Menino Jesus e seu nascimento. Mas a devoção ao Menino Jesus realmente começou a florescer na Idade Média, graças ao ardor de vários santos.
     São Francisco de Assis ficou comovido ao meditar sobre o fato de que Deus se tornou uma criança e foi colocado em uma manjedoura. Foi ele quem montou o primeiro presépio da história para representar esse mistério divino.
     Santo Antônio de Pádua, seguindo o exemplo de seu fundador e mestre, também se maravilhava com o Deus Infante, e frequentemente recebia o privilégio de segurá-lo em seus braços, sendo assim que São Antônio geralmente é retratado.
     Outros santos também receberam esse favor inefável.
     Foi na Espanha, no século XVI, o "Século de Ouro", que o Menino Jesus começou a ser representado em pé, em vez de deitado em uma manjedora ou nos braços de Nossa Senhora.
     A grande Santa Teresa de Ávila introduziu essa devoção em seus conventos. A partir daí, ela se espalhou por toda a Espanha e pelo mundo. Seu discípulo e cofundador do ramo reformado da Ordem Carmelita, o grande São João da Cruz, nutria tanto entusiasmo pelo mistério do Deus feito homem que frequentemente carregava a imagem do Menino Jesus em procissão durante a temporada natalina e compunha poemas comoventes sobre a Natividade. Muitas invocações ao Menino Jesus começaram então a circular nas casas carmelitas, como "o Pequeno Peregrino", "o Fundador" e "o Salvador."
     A devoção ao Menino Jesus não se limitava ao claustro. Por exemplo, Fernando de Magalhães trouxe consigo uma imagem do Menino Jesus quando descobriu as Filipinas. Essa mesma estátua é venerada até hoje na ilha filipina de Cebu.
     No entanto, caberia a uma filha de Santa Teresa ser tanto uma propagadora da devoção ao Menino Jesus quanto sua confidente.
     A Venerável Margarida do Santíssimo Sacramento (1619-1648) foi carmelita no convento Rei da Glória em Beaune, França, tendo ingressado no convento como interna quando tinha onze anos. Ela desfrutava de grande familiaridade com os anjos e santos e do privilégio de participar dos grandes mistérios da vida de Nosso Salvador. Sua missão especial era venerar e propagar a devoção à infância de Cristo. Enquanto orava diante de Sua imagem em seu convento, o Deus Menino lhe falou: "Escolho honrá-la e tornar visível em você Minha infância e inocência enquanto jazia na manjedoura". Ela recebeu muitas graças extraordinárias pelas quais o Menino Jesus lhe deu uma compreensão mais profunda desse mistério.
     Entre seus outros trabalhos apostólicos, a Irmã Margarida fundou a "Família do Menino Jesus", convidando todos a celebrar fervorosamente o vigésimo quinto dia de cada mês em memória da Santa Natividade e a rezar a "Pequena Coroa do Menino Jesus" — três Nossos Padres e doze Ave Marias — em honra aos primeiros doze anos da vida do Senhor.
     Séculos depois, outra carmelita, Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, honrou o Menino Jesus de forma especial, não apenas escolhendo esse nome na religião, mas também iniciando o caminho da "Infância Espiritual". Foi, segundo ela, na noite de Natal de 1886 que recebeu a maior graça de sua vida, a graça de abandonar a imaturidade infantil e entrar no grande caminho dos santos. Ela se entregou ao Menino Jesus com toda docilidade, como uma bola nas mãos de uma criança. Quando recebeu a responsabilidade de vestir a pequena imagem do Menino Jesus do convento, fez isso com verdadeira devoção. Ela também desfrutava de longos colóquios com a imagem do Infante de Praga no coro do noviciado.
O Menino Jesus de Praga
     Praga é justamente considerada uma das capitais mais belas da Europa. Aqueles que a visitam nunca se cansam de passear por suas ruas, sempre descobrindo novas características e maravilhas inesperadas. Sua topografia contribui muito para sua beleza, e o rio Moldávia, que divide a cidade, é quase lendário. Seus vários períodos históricos se refletem em sua arquitetura, desde fundações românicas até belos exemplos de arquitetura gótica religiosa e cívica, edifícios do Renascimento, Barroco e Clássico, até um exemplo de "arte" moderna, uma concessão ao espírito da época.
     Entre os inúmeros edifícios dignos de interesse nesta cidade privilegiada está a igreja de Nossa Senhora da Vitória, o primeiro santuário barroco do local, construído entre 1613 e 1644. Pertencente aos Carmelitas Descalços, abriga a grande maravilha de Praga, a encantadora estátua do "Pequeno Rei", como é conhecido o Infante de Praga.
Como Começou a Devoção
     O venerável Irmão Dominic de Jesus Maria, prior-general dos Carmelitas Descalços, destacou-se ao exortar os exércitos católicos na vitória do imperador sobre o Eleitor Palatino, o calvinista Frederico V, na sangrenta Guerra dos Trinta Anos. Em 1624, como gesto de gratidão, o imperador Fernando II convocou os carmelitas a Praga e lhes deu uma igreja que foi renomeada Santa Maria da Vitória em reconhecimento à ajuda de Nossa Senhora durante a batalha.
     Em 1628, o Irmão João Luís da Assunção, prior dos Carmelitas da cidade, comunicou aos seus religiosos uma inspiração que sentia para que eles deveriam venerar o Menino Jesus de maneira especial. Ele assegurou que, se isso fosse feito, o Menino Jesus protegeria a comunidade e os noviços aprenderiam com Ele como ser "como crianças pequenas" para entrar no reino dos céus. 
    
Quase simultaneamente, a Providência inspirou a princesa Polyxena de Lobkovice, viúva que se retirava ao castelo de Roudnice, a doar ao mosteiro uma estátua do Menino Jesus coberta de cera. Ele foi representado em pé, vestido com trajes reais, segurando um globo na mão esquerda enquanto dava uma bênção com a direita. A estátua havia sido presente de casamento para sua mãe, Maria Manriques de Lara, quando ela se casou com Vratislav de Pernstyn, e ela, por sua vez, a doou à filha como presente de casamento.
     Ao apresentar a estátua ao prior, a princesa Polyxena lhe disse: "Eu te ofereço, querido pai, o que mais amo neste mundo. Honre este Menino Jesus e tenha certeza de que, enquanto o venerar, não lhe faltará nada".
     O Irmão João Luís agradeceu a ela por esse presente que milagrosamente havia vindo realizar seu desejo e ordenou que fosse colocado no altar do oratório dos noviços. Lá, os frades carmelitas se reuniam todos os dias para louvar o Divino Infante e recomendar suas necessidades a Ele.
    Com o tempo, após um período inicial de prosperidade em Praga, os frades foram quase reduzidos à miséria. O prior e seus súditos recorreram ao Menino Jesus, e sua oração logo foi atendida. O imperador Fernando II, rei da Boêmia e da Hungria, conhecendo as dificuldades da comunidade carmelita, concedeu-lhes uma anuidade de mil florins, além de assistência da renda imperial.
     Pouco depois, outro evento extraordinário ocorreu que oferece uma medida da assistência infalível do Infante de Praga àqueles que se voltam para Ele. Havia uma videira no jardim do convento que há muito estava árida. De repente, de maneira totalmente inesperada, começou a florescer e dar os frutos mais doces e esplêndidos que se poderia imaginar.
O Apóstolo do Menino Jesus
     Neste convento havia um jovem padre, Frei Cirilo da Mãe de Deus, que havia deixado o ramo relaxado da ordem carmelita para abraçar a reforma de Santa Teresa. Em vez de encontrar a paz que tanto esperava, porém, sentia-se um reprovado sofrendo as dores do Inferno. Nada o consolava ou apaziguava.
     O prior, vendo-o taciturno e deprimido, perguntou o que havia de errado. O Frei Cirilo abriu seu coração e lhe contou todas as suas dores. "Com a aproximação do Natal", sugeriu o prior, "por que não se ajoelhar aos pés do Santo Menino e confiar a Ele todos os seus sofrimentos? Você verá como Ele vai te ajudar".
     Obedecendo ao prior, Frei Cirilo foi até a imagem do Menino Jesus. "Querida Criança, contemple minhas lágrimas! Estou aos Teus pés; tenha pena de mim!" Naquele exato momento, ele sentiu como se um feixe de luz tivesse penetrado sua alma, dissipando toda sua angústia, dúvidas e sofrimentos. Comovido e extremamente grato, o Frei Cirilo decidiu tornar-se um verdadeiro apóstolo do Divino Infante.
Sitiados por Hereges
     Enquanto isso, os protestantes se reagruparam e, em novembro de 1631, sob o comando do Príncipe Eleitor da Saxônia, sitiaram Praga novamente. O pânico tomou conta das tropas imperiais, e muitos dos angustiados habitantes da cidade fugiram.
     O frade João Maria prudentemente enviou seus frades para Munique, permanecendo com apenas um frade para cuidar do convento.
     Praga se rendeu. Os soldados protestantes invadiram igrejas e conventos, profanando e destruindo os objetos de culto católico. Eles prenderam os dois carmelitas e começaram a saquear o convento. Ao ver a estátua do Menino Jesus no oratório do noviciado, começaram a ridicularizá-la. Um dos soldados, querendo impressionar os outros, cortou as mãozinhas da imagem com sua espada e então lançou a imagem entre os escombros aos quais o altar havia sido reduzido. Lá permaneceu o Menino Jesus, esquecido por muitos anos.
     Quando uma trégua foi assinada em 1634, os carmelitas puderam retornar ao convento. O Frei Cirilo não retornou nesse momento, e ninguém mais se lembrava da imagem do Menino Jesus. Quando o Frei Cirilo finalmente retornou três anos depois, rapidamente percebeu sua ausência. Ele procurou pela preciosa estátua, mas em vão.
     Infelizmente, a paz não durou. Os suíços, quebrando os acordos, novamente sitiaram Praga, queimando castelos e vilarejos à medida que chegavam. O prior aconselhou seus frades a rezar, vendo que somente a oração poderia salvá-los desta vez. O Frei Cirilo sugeriu que se recomendassem ao Pequeno Rei, e ele renovou sua busca pela imagem. Depois de muito esforço, encontrou-o, empoeirado e sujo, e alegremente o levou até o prior. Os frades rezaram fervorosamente diante da imagem sem mãos pela salvação da cidade. Suas orações foram ouvidas; os suíços levantaram o cerco.
     Quando a imagem foi recém-entronizada no oratório do noviciado, os benfeitores do convento, que haviam desaparecido nos anos em que a imagem estava desaparecida, retornaram e renovaram sua ajuda.
     Apesar de seu fervor, o Frei Cirilo não percebeu que as mãos do Menino Jesus estavam ausentes. Um dia, enquanto orava diante do Infante em nome da comunidade, a estátua lhe disse tristemente: "Tenha piedade de mim e eu terei piedade de você. Devolva minhas mãos que os hereges cortaram. Quanto mais você me honrar, mais eu te favorecerei".
     Frei Cirilo imediatamente correu até o prior para contar o que havia acontecido. O prior parecia não acreditar e, devido à privação que o convento sofria, disse que era necessário esperar dias melhores antes de fazer a restauração, pois havia necessidades mais urgentes.
     Circunstâncias favoráveis surgiram quando um novo prior foi eleito pouco depois. Frei Cirilo renovou seu pedido, ao que o prior respondeu: "Se a Criança primeiro nos der Sua bênção, mandarei reparar a estátua". Logo houve uma batida na porta, e uma senhora desconhecida entregou ao Frei Cirilo uma generosa doação. No entanto, o prior lhe concedeu apenas meio florim para a restauração, dizendo que isso deveria ser suficiente. Esse valor insignificante logo foi aumentado por uma generosa doação de Daniel Wolf, um funcionário da corte que havia recebido um favor do Menino Jesus.
     Finalmente, a pequena estátua foi restaurada. Ele foi então colocado em uma urna de cristal próxima à sacristia, atendendo assim ao desejo expresso de Nossa Senhora de que o Menino fosse exposto para veneração pública.
Uma Cura Milagrosa e o Crescimento da Devoção
     Outro evento inesperado influenciou profundamente a devoção ao Pequeno Rei. Um dia de 1639, o Frei Cirilo, já considerado santo por muitos, foi procurado por Henrique Liebsteinski, Conde de Kolowrat, cuja esposa estava gravemente doente. O conde pediu aos frades carmelitas que levassem a estátua ao leito da mulher doente, prima da princesa Polyxena, que havia dado a estátua ao convento. Como vários médicos já consideravam seu caso perdido, sua única esperança restante era a Criança Sagrada.
    O Frei Cirilo não pôde deixar de responder a um pedido tão justo. Quando chegou ao lado da cama da mulher moribunda, seu marido lhe disse: "Minha querida, abra os olhos. Veja, o Menino Jesus está aqui para te curar". Com muito esforço, a mulher doente abriu os olhos e seu rosto se iluminou. "Oh!" ela exclamou, "a Criança está aqui no meu quarto!" Ela levantou os braços em direção à estátua para beijá-la. Ao ver isso, seu marido exclamou jubiloso: "Um milagre! Um milagre! Minha esposa está curada!"
     Mal havia sido restaurada à saúde quando a condessa foi ao convento e ofereceu à Criança uma coroa de ouro e outros objetos preciosos em agradecimento. Este é um dos milagres mais celebrados atribuídos ao Pequeno Rei.
     O conhecimento desse prodígio logo se espalhou além da corte, alcançando o povo da cidade e da região ao redor. Um número cada vez maior de peregrinos de todos os lugares começou a vir para ver o Menino Jesus. Tal era sua fama que uma dama rica da corte, movida por zelo imprudente, fugiu com a estátua. Deus puniu esse sacrilégio, porém, e o Pequeno Rei foi devolvido aos carmelitas.
     Com os fiéis oferecendo muitas oferendas monetárias e outras em agradecimento pelas graças recebidas do Divino Infante, finalmente foi possível construir uma capela especificamente para a estátua milagrosa.
     O arcebispo de Praga, Ernst Cardeal Adalbert von Harrach, foi convidado para a solene consagração em 1648. Ele concedeu aos frades a generosa faculdade de celebrar a Missa na capela do Santo Menino.
     Essa solene confirmação episcopal transformou a capela do Pequeno Rei da Paz em um local oficial de devoção, e ela foi amplamente visitada.
     Em 1648, durante outra batalha da Guerra dos Trinta Anos, tropas protestantes suíças invadiram a cidade mais uma vez. Desta vez, transformaram o convento carmelita em um hospital de campanha, mas nenhum dos 160 soldados feridos tratados ali ousou ridicularizar o Santo Menino. Pelo contrário, durante uma inspeção, o comandante dos invasores, General Königsmark, prostrou-se diante da estátua milagrosa e disse: "Ó Menino Jesus! Não sou católico, mas também acredito na Tua infância, e fico impressionado ao ver a fé do povo e os milagres que Tu fazes em seu favor. Prometo que, na medida do possível, encerrarei o alojamento do convento". E ele deu aos frades uma doação de trinta ducados.
     Pouco depois, a ocupação suíça de Praga terminou, e todos atribuíram o retorno da paz ao Pequeno Rei.
     Com o retorno da normalidade, o Superior Geral dos Padres Carmelitas, Frei Francisco do Santíssimo Sacramento, chegou a Praga em 1651. Ele aprovou a devoção ao Menino Divino e recomendou que os frades a espalhassem para as casas carmelitas na Áustria e entre os fiéis. Em reconhecimento à legitimidade da devoção à sagrada estátua, mandou afixar uma carta na porta da capela do Menino Jesus.
     Em 1655, graças a uma contribuição do Barão de Tallembert, a imagem milagrosa foi colocada sobre um magnífico altar na igreja de Nossa Senhora da Vitória e solenemente coroada pelo arcebispo Joseph von Corti de Praga.
     Até hoje, um memorial solene dessa coroação é celebrado no Dia da Ascensão.
     A devoção ao Infante Divino continuou a se espalhar por todos os níveis sociais. Em 1743, a grande imperatriz Maria Teresa da Áustria aspirava fazer uma peça rica para o Pequeno Rei com suas próprias mãos.
     Em 1744, tropas protestantes, desta vez prussianas, cercaram novamente Praga.
     As autoridades da cidade correram até o convento carmelita para pedir ao prior que carregasse o Pequeno Rei em procissão solene por toda a cidade, a fim de libertá-la do ataque dos hereges.
     Uma rendição honrosa, sem batalhas, foi alcançada; alguns meses depois, os prussianos deixaram Praga, e os moradores da cidade correram até Nossa Senhora da Vitória para agradecer ao Menino Jesus por mais uma graça.
     Pouco tempo depois, outro perigo ainda maior ameaçava a devoção ao Infante Divino. Em 1784, o imperador José II, desdenhoso da vida monástica e especialmente da vida contemplativa, suprimiu o convento carmelita, como fez com muitos outros, e doou a igreja de Nossa Senhora da Vitória à Ordem de Malta.
     Sem a contínua dedicação dos carmelitas, a devoção ao Menino Jesus diminuiu.
     No século XX, durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas ocuparam Praga, após o que o flagelo do comunismo caiu sobre o país por quase 50 anos. Nem um nem outro inimigo da fé de Cristo, no entanto, tentou atacar a estátua milagrosa em si, que permaneceu em seu trono na igreja de Nossa Senhora da Vitória.
Os comunistas proíbem a devoção em Praga  
   
O regime comunista na capital da Tchecoslováquia proibiu o livre exercício da devoção, pois propagavam o ateísmo estatal. Na "Primavera de Praga" de 1968, uma tentativa do povo tchecoslovaco de se libertar do regime ímpio foi sufocante de forma sangrenta.
     A devoção ao Menino Jesus continuou restrita à igreja onde a estátua estava exposta. Os frades carmelitas, expulsos de Praga, continuaram seu apostolado fazendo gravuras do Santo Menino e enviando-as clandestinamente para outros conventos europeus.
     Finalmente, em 1989, com a queda do Muro de Berlim, a ditadura comunista na Tchecoslováquia caiu e o país foi dividido em Eslováquia e República Tcheca. As liberdades religiosas e civis foram restabelecidas na República Tcheca, e o novo arcebispo de Praga, que também havia sido vítima da repressão comunista, decidiu dar um novo impulso à devoção ao Menino Jesus. A seu convite, dois frades carmelitas foram a Praga para reabrir o convento e estimular a devoção ao Menino Jesus Divino.
     A devoção ao Menino Jesus já havia se estendido de Praga ao restante da Europa. De lá, espalhou-se para a América Latina, Índia e outros lugares. Nos Estados Unidos, a devoção deve muito àquela grande apóstola dos imigrantes, Santa Francisca Xavier Cabrini, que queria uma estátua do Pequeno Rei em cada casa do instituto que fundou.
     Padre Cirilo da Mãe de Deus morreu em odor de santidade em 1675.
 
Autor: Plinio Maria Solimeo
O autor deve à excelente obra El Pequeno Rey, de Sorella Giovann della Croce, C.S.C.