quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Beata Bernardina Maria Jablonska, Cofundadora - 23 de setembro

     
     A Irmã Bernardina Maria Jablonska nasceu no dia 5 de agosto de 1878, na pequena aldeia de Pizuny em Narol, na Diocese de hoje de Zamoœæ Lubaczów. A beleza de sua paisagem nativa teve uma grande influência em sua mente sensível e ajudou a formar uma personalidade gentil e propensa à graça de Deus.
     Viva, inteligente, cheia de alegria, cresceu cercada pelo amor dos pais, permanecendo por um longo tempo única filha. Seus pais eram pequenos proprietários respeitados e estimados pelos seus vizinhos. Como a escola ficava distante de sua casa, os pais confiaram-na a professores particulares.
     Aos 15 anos, sua infância feliz foi subitamente interrompida pela morte de sua mãe. A menina mudou completamente, ela se sentiu sozinha e perdida, evitava a companhia de seus parentes, se apartava buscando a solidão.
     A mãe, profundamente religiosa, teve uma grande influência sobre a filha, transmitindo-lhe de um modo especial a veneração do Santíssimo Sacramento e a afeição filial à Mãe de Deus.
     Morta a mãe terrena, com todo o ardor do seu coração jovem agarrou-se à Mãe celeste. Uma capela pequena na borda da floresta, com uma imagem da Imaculada, onde a menina sempre levava buquês de flores silvestres, tornou-se o local favorito de suas meditações. Lá, ela confiou a Maria os problemas de sua jovem vida. Além disso, ela dedicava muito tempo à adoração do Santíssimo Sacramento na igreja de Lipsk, onde ela tinha sido batizada.
     Ela lia muito, especialmente a vida dos santos. Mais e mais ela se aproximava de Deus, cuja chamada ela sentia no fundo de sua alma, e facilmente O encontrado na beleza da natureza, na solidão, em seu coração. Ela desejava uma vida dedicada totalmente a Deus no silêncio do convento, então ela começou a praticar várias mortificações aprendidas nos livros.
     O momento decisivo foi seu encontro com o Irmão Alberto Chmielowski (canonizado em 1989) no festival Horyniec, em 13 de junho de 1896. Ela decidiu entrar na sua Congregação fundada há pouco, pensando que era uma ordem monástica. O pai se opôs à decisão da filha. Bernardina, uma vez adulta, secretamente deixou a casa e foi para Brusno, onde ficava a ermida das Irmãs Albertinas. Quando o Irmão Alberto perguntou sobre a razão para sua decisão, ela disse pertencer a Jesus Cristo e por amá-Lo tanto.
     Ela precisava dar uma demonstração desse amor, tão jovem foi enviada para o primeiro teste no hospital para os sem-teto em Cracóvia. Ela encontrou-se em um ambiente completamente desconhecido para ela. Até então os pobres eram para ela um velho vagabundo a quem ela oferecia uma refeição quente e uma boa palavra em troca de suas histórias de um mundo distante. Ela não sabia nada da miséria física e moral da cidade grande. Ela queria silêncio e oração e ela encontrou-se de repente em uma casa cheia de gemidos de doentes, gritos dos doentes mentais, insultos vulgares de pessoas marginalizadas que insistentemente pediam ajuda. Ela estava tão perturbada que imediatamente quis desistir de tudo.
     Frei Alberto olhava, explicava e, acima de tudo, ensinava pelo exemplo que essas pessoas não apenas precisavam serem servidas, mas acima de tudo serem amadas como Cristo sofredor e desprezado. Isto era muito difícil, mas o amor fascinante previa o cume da santidade. Só o Senhor sabe o quanto ela teve de sofrer, as suas batalhas internas, como muitos sacrifícios ela tivera que enfrentar. O momento crítico chegou no Sábado Santo, em 1899, quando ela pensou que já não podia sequer levantar-se por um momento.
     Então Frei Alberto escreveu para ela o ato heroico de confiança em Deus, que Bernardina assinou depois de rezar por um longo tempo.
     “Dou a Jesus Cristo a minha alma, a minha mente e tudo o que possuo. Ofereço a minha pessoa com todas as dificuldades interiores, os tormentos e os sofrimentos espirituais, todas as humilhações e desprezos, a todas as dores do corpo e as doenças. Em troca não desejo nada nem agora nem depois de minha morte, porque faço tudo isto por amor de Jesus Cristo”.
     A partir desse momento, pararam as dúvidas e soube manter a sua palavra e o Senhor magnanimamente levou-a através do misticismo às alturas da contemplação.
     Frei Alberto, apreciando seus grandes dons, em 1902 a nomeou, com apenas 24 anos, a primeira superiora geral da Congregação das Irmãs Albertinas. Ela desempenhou esta função até sua morte, aclamada sempre nos capítulos gerais. Foi uma verdadeira mãe para as Irmãs e para os pobres.
     Depois de uma longa vida cheia de sofrimento morreu em 23 de setembro de 1940 e foi enterrada no cemitério de Rakowicki em Cracóvia.
A Beata com suas coirmãs
     Em seu testamento, ela escreveu para as Irmãs: “Façam o bem a todos”. Seu culto começou a se espalhar desde o início, aqueles que a conheceram recorriam a ela também depois de sua morte, com a profunda convicção de que ela poderia fazer muito com a sua intercessão junto a Nosso Senhor. As graças recebidas ampliaram o círculo de seus admiradores.
     Em 23 de maio de 1984, a Congregação das Irmãs Albertinas apresentou a Cúria Arquidiocesana de Cracóvia, nas mãos do Cardeal Franciszek Macharski, um pedido para iniciar o processo de informação sobre a Irmã Bernardina Jablonska.
     Ao mesmo tempo, seus restos mortais foram transferidos do cemitério para a Igreja de Ecce Homo de Cracóvia, que também abriga as relíquias de Santo Alberto. Em 25 de abril de 1986, a documentação foi enviada à Roma e já no dia 3 de maio de 1986 o processo de canonização foi aberto formalmente na Congregação para as Causas dos Santos, em Roma. A segunda etapa do processo foi o anúncio do decreto sobre o heroísmo de vida e das virtudes da Serva de Deus Irmã Bernardina, em 17 de dezembro de 1996.
     No dia 6 de junho de 1997, João Paulo II a proclamou Beata em Zakopane durante sua viagem apostólica à Polônia.
A espiritualidade e a santidade de Irmã Bernardina
     Irmã Bernardina tinha herdado de seus pais duas qualidades de caráter muito importantes que desenvolveu ao longo de toda a vida e alcançou uma dimensão rara.
     De sua mãe herdou uma bondade delicada e do pai uma vontade forte e determinada. Quando Deus predestina alguém para uma missão extraordinária geralmente concede a capacidade inata que predispõe maravilhosamente para a tarefa. A vida dos santos é expressa em duas direções: a vida interior e a atividade exterior, as proporções são mantidas.
     Na base da vida interior da Irmã Bernardina, bem como de suas atividades, encontramos amor e sofrimento. Nosso Senhor a provava, mas ela manteve suas promessas. Em troca deste imenso sacrifício Ele lhe deu a capacidade de amar com amor misericordioso toda miséria humana na medida do Seu Coração Divino.
     Ela rezava intensamente, especialmente à noite, porque durante o dia estava envolvida nas atividades da Congregação e com os pobres. Ela passava muitas horas diante do SSmo. Sacramento da Eucaristia, que era o objeto de seu amor constante de quem obtinha a sua força.
     Ela estimulava as Irmãs a fazer visitas frequentes à capela dizendo que “o Prisioneiro Divino não pode ficar sozinho”. Em seus diários ela escreveu assim: “Jesus - Hóstia Santíssima: Que felicidade para mim! Oh! Se eu pudesse ficar aos Seus pés séculos inteiros. Gostaria de ficar com o Senhor aqui, neste vale de lágrimas, até o dia do julgamento – permanecer aos pés do altar, amá-Lo, não deixá-Lo sozinho, e compensá-Lo e viver a sua vida. Lamento que Ele vai ficar aqui sozinho quando eu não mais estarei aqui”.
     Nosso Senhor tinha dado a ela uma alma muito sensível às belezas da natureza, nas quais ela facilmente se encontrava Seus traços, por isso ela gostava tanto de ficar na ermida de Zakopane. Ali derramava no papel suas meditações revelando os segredos de sua alma. Ela escreveu, entre outras coisas: “Me impressionou muitíssimo a beleza de Deus que chamava a minha alma para mundos desconhecidos... Deus e Deus, somente Deus, para sempre! Amo a oração; as noites silenciosas sob o céu aberto são a minha felicidade. Amo a natureza que eleva a minha mente e o meu coração a Deus. Te adoro, Senhor, nas rajadas do vento, nas névoas brumosas da manhã e no crepúsculo que avança. Te adorarei até o fim de nossos dias, que também são teus. Oh, como é belo o nosso Senhor em um dia ensolarado, como é belo no azul do céu, como é maravilhoso no turbilhão de vento, como é poderoso no murmúrio do riacho, quão grande é Deus em suas obras!
A fundadora e a vocação da Congregação
     Foram tempos difíceis, a Congregação foi empobrecida por causa das guerras, havia muitas pessoas desabrigadas, muitos deficientes e órfãos. O Irmão Alberto havia falecido deixando a obra sem estabilidade jurídica, sem constituições escritas, sem a aprovação formal das autoridades da Igreja. Após sua morte, em 1916, a difícil tarefa passou para a Irmã Bernardina, que começou a trabalhar com empenho para alcançar estes objetivos.
     As constituições que ela escreveu de joelhos refletem fielmente o ideal de Frei Alberto. Elas foram aprovadas pelas autoridades da Igreja sem alterar a seção sobre a pobreza. Isso aconteceu em 1926, 10 anos após a morte de Santo Alberto Chmielowski e após um longo período de oração e diversas atividades intensas de Irmã Bernardina, que fielmente guardava este legado precioso.
     A estabilidade jurídica do Instituto obtida pela Irmã Bernardina, as Constituições e seu desenvolvimento dinâmico, tudo isso levou a considerá-la como fundadora da Congregação das Irmãs Albertinas.
 
Fonte: www.santiebeati.it
 
Postado neste blog em 22 de setembro de 2016

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Santa Maura de Troyes, Virgem leiga - 21 de setembro

     
     Maura nasceu em Troyes, região de Champagne, França. Era filha do nobre Maurano e da rica Sedulia. Seu irmão, Eutrópio, sacerdote, foi um eminente prelado de Troyes.
     Existe uma Vita contemporânea de Santa Maura, breve, mas confiável, escrita por São Prudêncio de Troyes (celebrado a 6 de abril), que baseia o seu relato em conversas mantidas com a mãe da Santa. Ele narra que desde a mais tenra idade Maura, que nasceu em 827, levou uma vida de intensa oração, completamente focada em Deus. Existem também escritos sobre ela em Goujet e Mezangui, Vidas dos Santos.
     Como seu irmão renunciara à sua parte na herança, Maura dispunha de um grande dote que utilizou para promover instituições voltadas para a assistência aos pobres. Preferiu entregar-se ao Senhor e não a um homem. Dizia ter quatro noivos: os Santos Apóstolos Pedro e Paulo, São Gervásio e São Protásio. Rezava para eles com frequência e mantinha igrejas a eles dedicadas.
     Com a oração e o exemplo, se bem que fosse ainda menina, converteu o pai, Maurano, que levava uma vida dissipada. Graças às advertências da filha mudou de vida e se converteu em pai honrado e virtuoso.
     Com sua caridade e devoção havia impelido o irmão, Eutrópio, a se tornar sacerdote e posteriormente bispo de Troyes. Maura, entretanto, continuou a viver junto à família onde passava o tempo rezando, ajudando a mãe e assistindo aos pobres e aos necessitados.
     Sua vida era planejada com esmero para desempenhar qualquer atividade e pontuada por atos de penitência: ela jejuava todas as quartas-feiras e sextas-feiras, por exemplo, e às vezes caminhava descalça pelos três ou quatro quilômetros que a separavam da Abadia de Mantenay, onde se encontrava com o santo abade que era seu diretor espiritual.
     A Santa passava longas horas na igreja, adorando a Deus e meditando sobre a Vida e a Paixão de Nosso Senhor. Naqueles momentos de adoração era frequente que lágrimas corressem dos olhos de Maura, refletindo seu amor, sua alegria e o encanto de seu relacionamento com o Deus escondido no sacrário.
     Era grande o seu entusiasmo ao costurar vestimentas sagradas, ao aparar as mechas das velas na igreja e preparar a cera das velas para o altar. O Bispo Prudêncio de Troyes, um amigo pessoal, usava uma alba fiada e tecida por ela.
     Maura era muito humilde e procurava não atrair a atenção para os seus dons, embora fossem conhecidos vários milagres alcançados graças às suas orações.
     A Santa virgem faleceu em 21 de setembro de 850, com somente 23 anos de idade, após uma longa enfermidade. Ela recebeu a Extrema Unção e o Viático com extraordinárias demonstrações de alegria divina e de amor, recitando orações. Ela expirou quando eram ditas estas palavras: Venha a nós o vosso reino.
     Santa Maura foi sepultada em Château Nore de Troyes. Suas relíquias são veneradas em várias igrejas por toda a França.
     Após a morte de Santa Maura, São Prudêncio, Bispo de Troyes, fez um sermão muito longo, que era a memória que ele tinha desta jovem que conheceu até sua morte. Temos a sorte deste precioso documento ter sido preservado, o que nos permite traçar a vida exemplar desta santa: um santo fala de uma santa contemporânea!
Catedral de Sts. Pedro e
Paulo, Troyes
Milagres e santidade
     Pelo menos três milagres póstumos são atribuídos a Maura de Troyes. Após sua morte, seu corpo foi lavado com água, mas a água foi transformada em leite. Acredita-se que um jovem tenha sido curado de "uma febre ardente" depois de beber o leite. Uma jovem mulher, cujo marido não gostava de uma grande marca de nascença em seu rosto, também bebeu o leite e a marca de nascença desapareceu. Na mesma hora da morte desta virgem, o monge Verano, que há muito tempo havia perdido o olfato, estando no mosteiro de Leão, sentiu o mesmo cheiro doce que sentiram aqueles que estavam perto do corpo sagrado.
     Ela foi declarada santa pela comunidade, como era o processo normal antes da criação da Congregação para as Causas dos Santos.
     Em 1865, o túmulo da santa foi aberto, diante do Bispo Ravinet e do Príncipe e Princesa de Faucigny-Lusinge, donos do castelo de Sainte-Maure. A santa fora enterrada em um sarcófago galo-romano, reutilizado nos tempos carolíngios, e que nunca havia sido aberto. Mas havia um buraco aberto na tampa, e durante séculos peregrinos estavam usando relíquias mergulhando suas mãos dentro.
     A Imperatriz Eugenia, uma católica fervorosa, esposa de Napoleão III, foi convidada a restaurar a tumba. Em 1867, o velho sarcófago foi revestido com uma caixa de bronze dourada, e forrada de seda; uma representação de cera da jovem santa na época de sua morte foi colocada.
     Em 2002, o sarcófago foi danificado pela queda de um cofre, e foi restaurado em 2006. Há sua estátua na igreja de São Juliano e aparece em dois vitrais do triforium da catedral.
Troyes - Centro histórico

A cidade de Troyes em 1634

Etimologia: Mauro (a), do latim Maurus, do grego, Mauros: “nativo da Mauritânia”; ou “pardo como um mouro”.
 
Fontes: www.santiebesti/ithttp://es.catholic.net/santoral/articulo.php?id=12715;
http://www.catholic.org/saints/saint.php?saint_id=742
 
Postado neste blog em 20 de setembro de 2013

domingo, 19 de setembro de 2021

Santa Emília Maria G. de Rodat, Fundadora da Congregação da Santa Família - 19 de setembro

     
     Maria Guilhermina Emília de Rodat nasceu no castelo de Druelle, situado a 8 k de Rodez, capital de Rouergue (*), no dia 6 de setembro de 1787; era a primogênita do casal João Luís Guilherme Amans de Rodat e Henriete de Pomairols. Além de Eleonora, modelo de virtude, Emília tinha mais três irmãos: Carlota, Luís Guilherme e Armando Henrique.
     Aos 11 anos recebeu sua primeira comunhão clandestinamente, na capela de Ginals, sem nenhuma festa. Seus avós aproveitaram a presença de um dominicano, José Delbès, refugiado no castelo, para realizar a cerimônia, marcando uma etapa de sua vida interior. Era a época da infame Revolução Francesa, na qual os religiosos foram expulsos dos conventos, as igrejas foram profanadas, as relíquias quebradas e os túmulos violados.
     Em 1803, Emília era uma encantadora jovem, viva e graciosa, um pouco altiva e autoritária - notava-se nela tendências para a vaidade e o orgulho. Apesar das crises próprias da adolescência, Emília conservou sempre vivo o atrativo pelos pobres. Em companhia de Maria Ana Gombert, uma humilde moça de Villefranche, visitava os pobres e doentes com frequência.
     Em 1804, na Festa do Corpo de Deus, as palavras de um missionário determinaram a sua total conversão. Começou a vestir-se com muita simplicidade desprezando as modas. Ia diariamente à Igreja de Ampiac, à meia hora de Druelle, onde assistia à Santa Missa. Ainda nesse ano, recebeu o sacramento da crisma com muito fervor.
     Deixou então Druelle a fim de voltar para Villefranche e foi morar na casa da Sra. Saint-Cyr, dona de um pensionato reservado às senhoritas da sociedade. O Pe. Antônio Marty era o confessor da casa e tornou-se seu diretor espiritual.
     Em 1806, a Sra. Saint-Cyr aproveitou a relativa instrução de Emília para lhe confiar aulas de Catecismo e de Geografia.
     Em 1809, aos 22 anos, Emília fez algumas tentativas de ingresso na vida religiosa, sem sucesso. Triste, mas não desanimada com esse fracasso, obteve de seu diretor a permissão para pronunciar os votos privados em 21 de novembro desse mesmo ano.
     Em maio de 1815, durante uma visita que fazia aos pobres, Emília ouviu várias mães de família lamentarem a ignorância de suas filhas, sobretudo quanto à instrução religiosa. Elas diziam que antes da Revolução Francesa as religiosas ursulinas ensinavam-nas gratuitamente, o que não tinham suas filhas.
     Este lamento transpassou como um dardo a alma de Emília, que lhes disse: “Enviem-me suas filhas, eu as instruirei”. Sentiu o apelo irrecusável de Deus para socorrê-las numa fundação, em Villefranche, destinada à instrução das meninas pobres.
     Querendo iniciar sem demora a execução do seu projeto, Emília obteve da Sra. Saint-Cyr a permissão para dar aulas às crianças no seu exíguo quarto, tendo chegado rapidamente ao número de quarenta meninas.
     Com algumas companheiras teve que enfrentar grandes dificuldades. Em um ambiente hostil e sem meios financeiros, era difícil achar um local para morar, mas a Providência veio enfim em auxílio delas: no início de 1816, uma antiga aluna da Sra. Saint-Cyr, a Srta. Vitória Alric, prometeu alugar a metade de um imóvel, embora insalubre e mal situado.
     No dia 30 de abril, com suas companheiras, começou a viver ali uma rigorosa vida religiosa e, no dia 1º de maio, vestiram um hábito muito simples. No dia 3 de maio, à sombra da cruz, abriram também uma classe denominada Santa Maria para as meninas de média condição. Três órfãs foram igualmente adotadas.
     Em junho de 1816, D. Grainville, Bispo de Cahors, que se encontrava em Villefranche, consentiu que as Irmãs tivessem uma capelinha com o Santíssimo Sacramento. A partir desse momento, as Irmãs julgaram-se ricas no meio de tanta pobreza. Na Páscoa de 1817, Emília fez seus primeiros votos temporários.
     O grande número de alunas tornou necessária a aquisição de um novo local. No dia 29 de junho de 1817, transferiram-se para a casa Saint-Cyr, abandonada pelos membros da frágil federação. O número das Irmãs dobrou, e o Pe. Marty, apesar de inúmeras ocupações, permaneceu como capelão oficial. A obra prosperava sempre.
     O Pe. Grimal, benfeitor do instituto e protetor das Irmãs, decidiu pela compra do antigo Convento dos Franciscanos, abandonado desde 1793, uma casa contínua e mais tarde, um jardim. Em 29 de junho de 1819, as Irmãs tomaram posse da moradia definitiva, atual Casa-Mãe das Religiosas da Sagrada Família, onde solenemente fizeram os primeiros votos.
     Em agosto de 1820, começaram para Madre Emília as terríveis tentações contra a fé, a esperança e a caridade, que duraram 32 anos, levando-a a um estado extraordinário de sofrimento interior. Além disso, as Irmãs, as postulantes e até mesmo as alunas foram atingidas por uma terrível epidemia. A maioria das meninas abandonou as classes, e as postulantes voltaram para suas famílias. Nenhuma candidata se apresentava por ter medo do contágio e da morte.
     No dia 29 de agosto de 1822, o Pe. Marty enviou Madre Emília a Aubin para consultar-se com um médico renomado. Ao mesmo tempo, a Sra. Constans, pensionista em Villefranche e originária da localidade, convidou Madre Emília para fundar um educandário para moças em Aubin. O Pe. Marty deu o seu consentimento.
     Chegando a Aubin, ela ocupou-se ativamente da nova fundação, primeira do instituto, que estava no seu sexto ano de existência. O projeto foi bem aceito pelas autoridades locais e pelos habitantes. Além do cuidado com as crianças, as Irmãs visitavam os doentes e os pobres. Em breve, várias jovens, atraídas pelos bons exemplos das Irmãs, pediram para serem admitidas na Sagrada Família.
     No dia 1º de agosto de 1832, Madre Emília, acompanhada de três Irmãs, viajou para Livinhac com a difícil missão de transformar uma pequena comunidade numa casa religiosa destinada à educação das jovens, como as de Villefranche e Aubin. A princípio, havia duas comunidades na mesma casa. Aos poucos, as Irmãs foram se adaptando ao novo estilo de vida, depositando em Madre Emília confiança e estima.
     Até 1834 a Congregação da Sagrada Família compunha-se exclusivamente de Irmãs clausuradas que se dedicavam ao ensino no interior do convento, e de Irmãs conversas que exerciam diversas funções fora do claustro, dedicando-se aos pobres e aos doentes. Foi naquele ano que ocorreu algo totalmente imprevisto: a fundação das casas não clausuradas. Em alguns meses, houve três fundações. A Providência aproveitou-se do fato para dar origem ao segundo ramo do instituto: as Irmãs das Escolas, que seguiam em tudo as mesmas diretrizes que as outras, com exceção da clausura.
     No dia 15 de novembro de 1834, o Pe. Marty faleceu aos 78 anos de idade. A madre, que o teve como diretor espiritual desde os 18 anos, sofreu profundamente com a perda. No dia 18 de novembro, o conselho escolheu o Pe. Blanc para substituí-lo no governo da congregação.
     A fundadora continuou abrindo escolas num ritmo bastante acelerado.
     Além das provações interiores e das doenças, Madre Emília carregou também com profunda humildade e paciência a cruz da incompreensão que teve de suportar da parte de várias Irmãs da comunidade. Acusavam-na de arruinar a congregação com sua caridade exagerada, foi submetida à vigilância de uma ecônoma. Abriam suas cartas, vigiavam-na para impedi-la de conversar com as Irmãs que sofriam com essas humilhações e que pareciam auxiliá-la.
     Apesar de tantas provações, a Madre vivia na mais inalterável paz. Na sua profunda humildade, dizia: “Peço a Deus que suscite alguém para reparar meus erros”.
     No início de julho, sentindo-se livre das tentações que há anos a martirizavam, pressentiu estar perto o seu fim. Na madrugada de 4 de setembro, sofreu um desmaio que a impediu de descer para a missa. A partir desse dia, não deixou mais o seu quarto. Dedicou seus últimos dias às suas filhas: falou com cada uma em particular para lhes dar seus derradeiros avisos. Apesar de sua fraqueza, permaneceu lúcida até o fim.
     No dia 19 de setembro de 1852, às 13h30m, na presença do Pe. Faber e de algumas Irmãs, num último esforço, tomou seu crucifixo, que nunca deixava, fitou-o, colocou os lábios nas chagas do Salvador e, inclinando a cabeça, exalou o último suspiro.
     Quando a triste notícia do falecimento de Madre Emília espalhou-se pela cidade, o povo, chorando e lastimando a grande e irreparável perda, exclamava: “Morreu a Santa!”.
     Madre Rodat foi beatificada em 9 de junho de 1940 e canonizada em 23 de abril de 1950.
*
     A vida de Santa Emília de Rodat, assim como de tantos outros santos e santas, foi unida ao Calvário e Cruz do Redentor por meio dos sofrimentos físicos e morais, que Emília oferecia em ato de humildade em expiação dos seus pecados e os pecados do mundo para que sua obra fosse frutuosa aos olhos dos homens e de Deus.
     Emília dizia sempre às suas irmãs: “Nunca seremos as filhas do Divino Coração, se não nos pusermos em estado de vítimas”. No coração de Jesus, o cristão aprende a lidar com o sofrimento, transformando-o em oração e súplica, em descanso e refrigério.
     “Santa Emília de Rodat, mulher virtuosa, filha da Providência e Apóstola da caridade” 
 
(*) Rouergue é uma antiga província da França, correspondendo aproximadamente ao moderno departamento de Aveyron. Sua capital histórica é Rodez. É delimitada a norte por Auvergne, a sul e sudoeste por Languedoc, a leste por Gévaudan e a oeste por Quercy.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Santa Ludmila, Duquesa e Mártir da Boêmia - 16 de setembro

     
     Neste ano ocorrerão as celebrações dos 1.100 anos do martírio de Santa Ludmila, a primeira Santa boêmia e avó do Príncipe São Venceslau. Haverá muitos eventos comemorativos em toda a República Tcheca, mas o ponto alto será em 18 de setembro de 2021, na cidade de Tetin, perto de Praga, o local do martírio da Santa.
     Santa Ludmila, é a padroeira dos educadores cristãos e mães de famílias. A mãe é de fato a primeira educadora, por ensinar e dar exemplo a seus filhos, formando assim o primeiro núcleo importante de sua personalidade futura.
     Aqueles que estiveram em Praga certamente se lembrarão, entre outras inúmeras obras monumentais, da enorme Praça das Venceslas, estrategicamente localizada entre a Cidade Velha e a Cidade Nova e um símbolo dos destinos nacionais, bem como da identidade tcheca na história moderna. Ao lado do Museu Nacional está o monumento equestre do padroeiro São Venceslau (905 ca.- 935), propagador do cristianismo na Boêmia e assassinado jovem por seu irmão diabólico Boleslau. A grande estátua dele é cercada pelos quatro santos padroeiros boêmios: atrás Sto. Adalberto e Sta. Inês, na frente São Procópio e, não surpreendentemente, Santa Ludmila.
     Na realidade, ela era avó de São Venceslau, com um nome que do eslavo pode ser traduzido como "amada pelo povo" e com o nome após a morte de "mãe dos pobres" por suas obras de caridade.
*
      A partir do século VII, começou a evangelização dessa Nação, mas somente com a organização de um Estado e com a ascensão ao trono ducal de Borivar, o primeiro duque cristão da Boêmia, é que o Catolicismo se firmou e começou a alcançar progressos consideráveis. Em 873, o duque Borivar casou-se com Ludmila, princesa piedosa, sagaz e ardente propulsora da Fé católica, de quem teve três filhos e três filhas.
     Ajudada pelo presbítero Paulo, capelão da corte, discípulo dos grandes evangelizadores dos eslavos, depois do batismo do marido celebrado por São Metódio, Ludmila também se converteu à fé cristã e recebeu os sacramentos das mãos do mesmo Santo, cerca do ano 874. Borivar mandou construir o Castelo de Praga, onde foi erigida a primeira igreja católica da Boêmia, dedicada a São Clemente.
     Após a morte de seu marido, ocorrida em 894, Ludmila distribuiu a maior parte dos seus bens e passou a se dedicar a uma vida de densa piedade. Durante o governo de seu filho Spytihnev, teve enorme influência sobre o reino. Depois da morte deste, subiu ao trono seu outro filho, Wratislau. Infelizmente o pai não impedira Wratislau de contrair matrimônio com Draomira, princesa pagã, de má índole e totalmente entregue ao culto dos ídolos.
     Wratislau continuou o trabalho apostólico de Borivar com grande empenho. Embora Draomira simulasse ter-se convertido, não escapava à sagacidade da duquesa Ludmila a falsidade da nora. Por isto, ao nascer-lhe os filhos Venceslau (907-935) e Boleslau, pediu a duquesa-mãe licença ao seu filho para educar os dois netos. Draomira, contudo, consentiu na separação do primogênito, conservando consigo Boleslau.
     No palácio da avó, em Praga, Venceslau recebeu sólida formação religiosa e cultural, bem como o aprendizado na carreira das armas, alcançando tal progresso, seja na virtude, seja nas ciências, que chegou a ser reputado um dos melhores príncipes de seu tempo.
     Venceslau tinha apenas treze anos quando seu pai pereceu numa batalha contra os húngaros. Embora o duque tivesse deixado a regência à sua mãe Ludmila, a nora, auxiliada por sectários e à custa de subornos, tomou as rédeas do governo. Draomira, mãe dos infantes, ficou regente e governadora do Estado, enquanto o príncipe herdeiro não chegasse à maioridade.
     Não tendo mais o marido para contê-la, Draomira deu livre curso a seu ódio contra a Religião, decretando o fechamento das igrejas, proibindo o culto divino e a evangelização. Nas escolas houve proibição absoluta de se falar de Deus. Os professores católicos foram substituídos pelos pagãos. Sacerdotes e monges foram proscritos. Ao mesmo tempo, Draomira concedeu amplos privilégios aos pagãos. A desolação e a impiedade reinavam na corte dessa nova Jezabel.
     Porém, Santa Ludmila vigiava. Com muita diplomacia foi preparando terreno para que Venceslau fosse aclamado duque aos dezoito anos. Nessa ocasião, então, a combativa princesa obteve de todas as regiões uma completa e irrestrita adesão a Venceslau, cujos predicados constituíam a honra e o orgulho da Boêmia.
     Venceslau ascendeu ao poder, exilou sua mãe e irmão numa província afastada e iniciou o trabalho de restabelecimento da ordem tumultuada pelos cinco anos de despotismo da sanguinária Draomira. Alcançou tanto êxito nessa tarefa, por sua sabedoria e prudência, que em pouco tempo transformou-se na expressão mais pura da majestade real e cristã, que iria ter em São Luís, três séculos mais tarde, um exemplo perfeito.
     Este príncipe tornou-se o pai dos pobres, o protetor dos órfãos e o guardião da justiça; mas, sobretudo, o paladino da Religião. Sua força e virtude provinham do amor à Sagrada Eucaristia e à Virgem Maria, em cuja honra fez voto de castidade perpétua.
     Do seu exílio, Draomira tentava destruir a obra do filho. Convencida de que sua sogra, Santa Ludmila, era a grande incentivadora do neto, mandou assassiná-la, crime que seus sectários executaram estrangulando-a, enquanto rezava em seu oratório, na noite de 15 de setembro de 920.
     Colocado o túmulo da rainha mártir numa esplanada, próximo do seu castelo em Tetín, não tardou que o culto a Ludmila logo se espalhasse; junto ao seu túmulo muitos milagres ocorreram e um perfume se expandia pelo entorno, à noite via-se sobre ele uma luz misteriosa.
     Draomira furiosa, com tal manifestação divina, mandou edificar ali uma capela em louvor de São Miguel, para atribuir ao Arcanjo tantos prodígios.
     Venceslau fez transladar o corpo da avó da Tetín a Praga; no dia 10 de outubro de 926 os despojos receberam sepultura definitiva na Basílica de São Jorge, na mesma cidade. Esta transferência não tinha caráter de culto oficial, mas apenas atribuir à velha rainha digna sepultura numa igreja, como então se usava.
     Só em 1142, o clero de Praga tratou de obter o reconhecimento oficial do culto, concedido pela Santa Sé um ano depois, uma vez efetuado o processo no qual se examinaram as suas altas virtudes de abnegação e devotamento pelo bem do seu povo até aceitar a morte antes que atraiçoar seus ideais. O reconhecimento do culto foi dado em 1143-1144, durante a visita do Legado Pontifício, Guido di Castello, a Praga.
     Santa Ludmila é representada com os trajes ducais e sua festa é celebrada no dia 16 de setembro. Há uma vasta literatura sobre a vida de Santa Ludmila, dela somente ou combinada com a de seu neto São Venceslau. Ela foi reconhecida como mártir da Fé; nos séculos seguintes foi proclamada "mãe da Boêmia", desenvolvendo-se mais e mais a devoção, ainda hoje muito florescente.
     Simulando grande desejo de reconciliação com o filho, Draomira convidou-o para ser padrinho do primeiro filho de Boleslau, anunciando grandes festas. São Venceslau, embora duvidasse da sinceridade da mãe, não pôde deixar de aceitar o convite, visto por todos como o epílogo feliz de uma longa dilaceração no ducado.
     Depois da solene festividade do batismo e do banquete oferecido ao Santo no castelo de Stará, retirou-se este para rezar o Ofício da Virgem Maria, numa igreja. Lá Boleslau e seus sectários o assassinaram, em 28 de setembro de 935.
     A pérfida Draomira, contudo, recebeu o castigo que merecia pelos seus crimes. Certo dia em que ela passava próximo de um local onde havia mandado executar inúmeros católicos, o solo se abriu e ela foi engolida viva.
     São Wenceslau não morreu inutilmente, uma vez que, por pressão do Imperador alemão Otão I, seu irmão ímpio, Boleslau, voltou a favorecer o Cristianismo. A filha deste último, casada com o rei da Polônia, foi grande propagadora do catolicismo em seu reino, e um filho de Boleslau se fez monge. Outro filho seu foi Boleslau II (967-999), cognominado o Piedoso.

Convento de Seligenthal fundado por Santa Ludmila

Fontes: Enciclopédia Cattolica, vol. XII. p. 1179; Bnttler. Vida dos Santos, Ed. Vozes, Petrópolis. 1992. p.259; Catolicismo setembro/1995

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Beata Maria de Jesus López de Rivas, Carmelita Descalça - 13 de setembro

     
     A Reforma Teresiana do Carmelo se difundiu da Espanha para toda a Europa e depois para o mundo todo, graças a numerosas personalidades, algumas injustamente pouco conhecidas. É o caso da Beata Maria de Jesus, que Santa Teresa definiu como o seu "pequeno teólogo".
     Durante oitenta anos de sua longa vida, a Espanha conheceu poder e esplendor, mas também a decadência. Maria, do convento de Toledo, do qual não se afastou, viveu os vários acontecimentos à luz da Fé, que olha além da realidade terrena. Algumas autobiografias falam dela, bem como seus escritos e o testemunho de contemporâneos e de santos que mantiveram com ela relacionamento, bem como a própria Santa Teresa de Jesus.
     “O doutorzinho” – como a chamava a grande Santa Teresa de Jesus e assim a continuarão a chamar todos os historiadores - Maria López de Rivas nasceu numa nobre família de Tartanedo (Guadalajara) no dia 18 de agosto de 1560.
     Depressa chegaram provações ao seu coração, pois sendo ainda muito criança, aos 4 anos de idade morreu-lhe o pai, gravando no seu coração estas últimas palavras do seu pai moribundo: “Filha, Deus será o teu pai”. A mãe muito jovem tornou a se casar e a pequena ficou com os avós e tios paternos, onde foi educada nos princípios católicos. Viu-se obrigada, portanto, a emigrar para Molina de Aragão; como era a única filha, herdou um patrimônio considerável. Ali cresceu em idade e formação cristã, já que eles viviam muito a sério a fé em Jesus Cristo. A menina Maria conheceu ainda criança, o Padre Castro, jesuíta, que a encaminhou para o Carmelo.
     De "rara beleza", dos catorze aos dezessete anos travou uma luta consigo mesma e com os familiares por causa do desejo que sentia de consagrar-se ao Senhor na Ordem Carmelita, há pouco reformada.
     Deixando bem-estar e riqueza, entrou no convento de Toledo, introduzida pelo jesuíta Padre Castro, em 12 de agosto de 1577. Ela foi recebida por Santa Teresa, que nove anos antes havia fundado aquele convento. Não gozou nunca de boa saúde e isto fê-la passar muitas dificuldades e não poucos desprezos por parte das próprias religiosas que não queriam relacionar-se com uma doente crônica. Mas interveio a Madre Teresa que disse, ao recebê-la e ao oferecê-la à Comunidade de Toledo, prognosticando a futura santidade da postulante e diante das hesitações em aceitá-la devido à saúde precária respondeu: "Deixemo-la professar, ainda que tivesse que ficar de cama todos os dias da sua vida. Esta é a vontade de Deus".
     Santa Teresa propunha uma doação total de si ao Senhor o que correspondia ao desejo de Maria, apesar de sua timidez se manifestar às vezes de modo "sanguíneo e colérico".
     Professou dia 8 de setembro de 1578. Os primeiros anos foram dedicados principalmente à oração, começando a se manifestar os dons místicos como os estigmas nas mãos, nos pés e na cabeça.
     Com 24 anos foi nomeada mestra de noviças, cargo que ocupou por oito vezes, alternado com o de sacristã, enfermeira e subpriora. Ausentou-se de Toledo por cinco meses em 1585, para a fundação de um novo convento em Cuerva. Pela primeira vez, aos 31 anos, foi nomeada priora.
     Santa Teresa chegou a penetrar profundamente em sua alma e via nela ricas qualidades que sabia dariam bons frutos a seu tempo. E não se equivocou. A mesma santa disse noutra ocasião: “Estou certa de que o convento que a tiver será mais feliz do que todos os outros, porque mesmo que viesse a estar de cama toda a vida, gostaria de a ter em minha casa”.
     As enfermidades que sempre a atribularam não encurtaram a sua vida, pois morreu muito idosa, apesar de ter vivido com todo o rigor a sua dura vida de carmelita contemplativa e de ter trabalhado duramente ao longo de toda a vida. Nunca aceitava dispensas de espécie alguma. Como muito bem dizia a Santa Madre, a enfermidade que mais a molestava era a “enfermidade do amor”, que sentia tão profundo e grande pelo Senhor.
     Desempenhou vários cargos: sacristã, enfermeira, mestra de noviças, prioresa, subpriora, e desempenhou todos estes cargos com grande entrega e caridade. Todos acudiam a ela para lhe pedir conselho e amavam-na com toda a alma A mesma Madre Teresa, em mais de uma ocasião, recorreu a ela para que lhe resolvesse algumas dificuldades que tinha sobre a vida de oração e sempre encontrou na Irmã Maria de Jesus luz e sábia orientação. Por isso a batizou com o carinhoso nome de “meu doutorzinho”: Assim deve ser como dizes “doutorzinho meu”.
     Em 1600, quando faltava um ano para o término do segundo triênio de priorado, durante uma visita canônica, o superior, dando crédito às acusações infundadas de uma religiosa, depôs a Beata do cargo. Irmã Maria aceitou a prova sem ressentimento, conservando o bom humor inalterado. Por 20 anos suportou humildemente as calúnias, algumas doenças e aflições espirituais com as quais o Senhor provou a sua santidade.
     Um ano depois da morte da acusadora, pela qual Maria rezou intensamente para obter uma morte serena, foi publicamente reabilitada pelo mesmo superior, que diante da comunidade lhe pediu perdão. Foi unanimemente reeleita priora em 25 de junho de 1624. Por causa da saúde ruim, pediu e obteve autorização para ser apenas conselheira e mestra de noviças, cargo que exerceu até a morte.
     No dia da Epifania de 1629, o Senhor lhe disse: “Maria, tu me pedes para ser libertada da prisão do corpo; saibas que ainda não é hora, porque se até agora tu viveste para ti, agora deves viver para outros; para o teu repouso uma eternidade te espera”. E ela verdadeiramente se deu toda para o bem da comunidade e do próximo.
     Naqueles anos a nova capela do convento estava sendo construída e ela se dedicou ao bom êxito da obra, valendo-se até das boas amizades para recolher os fundos necessários. Apesar de muito idosa e com diversas enfermidades causadas em parte pelas penitências, participava da vida de oração da comunidade, causando admiração dos fiéis que frequentavam a igreja aos quais ela acolhia no parlatório.
     No dia 13 de setembro de 1640, no extremo das forças, pediu à superiora a permissão para morrer. Após ter recebido Jesus Eucarístico, expirou. Eram as 10 h da manhã; tinha oitenta anos, dos quais sessenta e três consagrados ao Senhor.
     Circundava-a uma aura de santidade. Irmã Maria tinha respondido plenamente ao que o Senhor havia pedido: "Filha, o teu amor é tão veemente, que ninguém o merece além de Mim".
     O melhor elogio é dado a ela pela Santa Madre Teresa, que a teve por colaboradora também na feitura dos seus escritos. Maria, por sua vez, foi importante testemunha no processo de canonização de Teresa, que aconteceu, para sua grande alegria, em 1622.
     A Beata conheceu São João da Cruz (o primeiro encontro foi em 17 de agosto de 1578) e quando o Santo escapou da prisão e se refugiou no convento de Toledo, Maria foi uma das suas mais atentas ouvintes. A confiança entre os dois durou muitos anos e o místico doutor teve sempre por ela uma grande consideração
     O primeiro Provincial do Carmelo Reformado, Padre Jerônimo Gracian da Mãe de Deus, refere haver constatado os estigmas da Paixão do Senhor em Maria, misticamente impressos em seu corpo. 
     Manteve relacionamento com a Beata Ana de São Bartolomeu e com o Venerável Domingos de Jesus e encontrou o Rei da Espanha, Felipe III, que lhe pediu orações. Como todas as grandes místicas, Maria tinha os pés no chão. Compreendia bem as necessidades do próximo sofredor e eram muitas as pessoas que a procuravam para serem confortadas, tanto no parlatório como por meio de carta.
     Suas grandes devoções eram: o Menino Jesus, que definia “doutor da enfermidade de amor”; o Sagrado Coração, Maria, a Eucaristia. Repetia às Irmãs: “Só aquele que tem a grande sorte de tornar Cristo senhor do seu próprio ser sabe conhecer a Deus Divino e Humano; só ele envereda por caminho seguro”.
     Às suas religiosas repetia com um tom que tocava o coração: “Filhas, sabem que somos de casa com o Ssmo. Sacramento, que vivemos com sua Majestade sob o mesmo teto? Se os religiosos fossem conscientes de tal privilégio, nenhum julgaria adquiri-lo a preço demasiado caro, ainda que fosse à custa de lágrimas e de sangue”.
     Na sua última doença, ouviu Cristo que lhe perguntava se não queria já entrar na glória. Maria de Jesus respondeu que a prioresa a queria viva e lhe ordenava que pedisse a Deus a vida. Ao que Cristo lhe respondeu: “Pede-lhe licença para morrer e ela te dará”. Assim aconteceu. No dia 13 de setembro de 1640, Maria de Jesus, tomando as mãos da prioresa, pediu-lhe licença para morrer. Tendo respondido a priora: “Faça-se a vontade de Deus”. E assim faleceu em seguida a Irmã Maria de Jesus.
     Beatificada no dia 14 de novembro de 1976 por Paulo VI, a sua festa é celebrada dia 13 de setembro.
 
Fonte: https://otcarmo.org/
 
Postado neste blog em 12 de setembro de 2011
 

sábado, 11 de setembro de 2021

Beata Maria Luísa Angélica Prosperi, Mística Beneditina - 12 de setembro

Em Trévi, cidade da Úmbria, região da Itália, Maria Luísa (Gertrudes Prósperi), abadessa da Ordem de São Bento, dotada de experiências espirituais extraordinárias e generosidade para com os necessitados.
 
     No dia 19 de agosto de 1799, em Fogliano, pouco distante de Cascia, Itália, nasceu Gertrudes, filha de Domenico e de Maria Diomedi. Mesmo pertencendo à nobreza local, sua família não possui grandes recursos financeiros. Gertrudes foi batizada no mesmo dia de seu nascimento, e a pia batismal onde recebeu este sacramento existe ainda hoje na igreja paroquial de Santo Hipólito. Sua família deu a ela uma educação profundamente católica.
     Quando tinha vinte anos, no dia 4 de maio de 1820, ingressou no mosteiro beneditino de Santa Lucia de Trevi, que fora reaberto após a supressão napoleônica.
      Irmã Maria Luísa, nome de religiosa que adotou, teve uma existência caracterizada por fatos e dons extraordinários. Praticava penitências muito rígidas, provou em sua própria carne a Agonia de Nosso Senhor, a Flagelação, a Coroação de espinhos, os golpes, os estigmas nas costas e nas mãos. O Senhor desejava que ela participasse de seus sofrimentos, enquanto o demônio a molestava até durante a noite e com pancadas.
     Ela atuou como enfermeira, sacristã, camerlenga em quatro ocasiões, e também foi instrutora. Não há dúvida sobre sua determinação em exercê-los efetivamente e impregnando-os com caridade porque senão ela não teria sido tão estimada por suas irmãs e por pessoas fora do mosteiro, como foi o caso.
     Em 1837 Madre Maria Luísa foi eleita Abadessa. Foi nessa época que um de seus quatro diretores espirituais, o bispo Inácio Giovanni Cadolini, arcebispo de Spoleto, a instruiu a colocar suas experiências místicas por escrito.
     Em uma das visões que teve, Cristo alertou-a sobre a procedência de seus sofrimentos. O Redentor carregava a cruz quando lhe disse: “É assim que eu te amo, você será a vergonha de todos. Você será oprimida, e apesar de ser assediada por demônios, você sofrerá por causa de confessores. Eles vão querer ajudá-la, mas eles não serão capazes de...”.
     Seu diretor espiritual, o Pe. Cadolini, Bispo de Spoleto, depois Arcebispo de Ferrara e Cardeal, por cinco anos a induziu a reconhecer a soberba e a obra do demônio nas suas visões. E num colóquio celestial ela recebeu grandes consolos: “Aqui, filha, é sua casa, aqui você descansará, pedirá o que quiser, colocará aqui todo o seu coração que eu aceitarei, aqueles dos justos por me amarem, os dos pecadores para convertê-los, os de incrédulos para que possam voltar à minha Igreja”.
     O jesuíta Pe. Paterniani, confessor e biógrafo dela, narrou a vida extraordinária desta mulher que, ainda doente desde 1847, estando em sua cama liderou a comunidade e teve a energia para incentivá-la na rigorosa observância do carisma que a reuniu.
     Ela fez reflorescer no mosteiro a observância da Regra, privilegiando a adoração ao Santíssimo Sacramento. Contemplava longamente o Crucifixo; a todos que pediam seus conselhos convidava a recorrerem com confiança amorosa na infinita Misericórdia de Jesus.
     Certo dia, Jesus Cristo lhe apareceu no parlatório principal com o semblante de um peregrino.
     Na semana santa de 1847, ela viveu a Paixão de Cristo, como narra seu biógrafo: "Ao redor da cabeça tinha como sinais na forma de uma coroa de espinhos, perto do coração tinha uma ferida aberta cheia de sangue vivo, um sinal apareceu no meio das mãos...". Depois de uma pequena melhora, quando a Páscoa chegou Gertrude piorou novamente, embora ela continuasse a governar o mosteiro até sua morte.
     Madre Maria Luísa faleceu no dia 12 de setembro de 1847, aos quarenta e sete anos de idade apenas. Conservam-se muitas cartas suas originais, ou cópias feitas pelo seu confessor, o jesuíta Pe. Paterniani, que em 1870 escreveu a primeira biografia da Beata.
     Em 1914 a causa de sua beatificação foi introduzida, ficando suspensa devido à deflagração da 1ª. Guerra Mundial. Foi considerada Venerável em 1º de julho de 2010; foi proclamada oficialmente Beata na Catedral de Spoleto em 12 de novembro de 2012. Desde 1232, quando a cidade se vestiu de gala para a canonização de Santo Antônio de Pádua, não havia ocorrido uma cerimônia de tal solenidade.
     Seus despojos repousam na igreja de Santa Lúcia de Trevi.
 
“A fé firme, sólida, ilimitada, elevava-a às alturas dos mistérios de Deus. Parecia que ela via com os olhos quanto nós cremos por fé. Sempre grata ao Senhor por este dom, exortava continuamente as suas irmãs de hábito a apreciar a virtude da fé, como princípio e fundamento de salvação e de beatitude”.
Cardeal Angelo Amato – Homilia de Beatificação – 10 de novembro de 2012
 
Mosteiro de Santa Lucia

Fonte: www.santiebeati.it
Postado neste blog em 11 de setembro de 2012

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Beata Maria Toríbia ou Maria da Cabeça, Esposa de S. Isidoro Lavrador - 9 de setembro

     
     A vida desta mulher humilde, escondida com Cristo em Deus, trabalhadora, esposa, mãe de família, viúva e anacoreta, transcorreu na região de Madrid, recém conquistada pelo rei castelhano Afonso VI aos mouros do reino taifa de Toledo. A região tinha pertencido até então ao califado de Córdoba, onde se falava o árabe e onde os cristãos perseveravam na fé católica segundo os costumes da Espanha herdados dos visigodos. Terras que formaram parte da Castela de El Cid (1099), que se esforçava por aclimatar-se aos francos que entravam com os que faziam a Reconquista.
     Contexto de paz instável devido às continuas incursões dos mouros que não resistiam ao avanço cristão depois da conquista de Toledo (1085). Em um século XII onde o Norte ibérico é sulcado por enxames de peregrinos europeus que percorrem o Caminho em direção ao túmulo do Apóstolo Santiago, que em Toledo se começa a verter para o Latim a sabedoria transmitida pelos árabes e com uma Córdoba que respira o refinamento do Oriente.
      Este era o contexto em que viveu Maria Toríbia, esposa de Santo Isidoro e mãe de Santo Ilano. A dureza das condições da vida do campo era sentida, sobretudo pelas mulheres. Nesse quadro real se santificou a mulher que seria mais tarde o marco de referência da capital e da Corte de um império que estenderia o culto dessa camponesa das Filipinas até a Califórnia.
      No século XVIII, ao preparar o texto litúrgico das Matinas do Ofício Divino se escreve, com grande esmero histórico, uma primeira e breve biografia dela. O relato, destinado à oração, resume o mais substancial que se conservou dela na memória popular:
     Maria da Cabeça nasceu em Madrid, ou próximo desta localidade. Seus pais, piedosos e honestos, pertenciam ao grupo dos chamados moçárabes (do árabe musta'rab, "arabizado", com este nome eram conhecidos os cristãos que viviam sob a dominação muçulmana na Andaluzia). Foi esposa de Santo Isidoro o agricultor.
     Não é fácil dizer com que santidade viveu sua condição de mulher casada. Suas ocupações eram arrumar a casa, limpá-la, cozinhar, fazer o pão com suas próprias mãos, tudo tão simples, que a única coisa que brilhava em sua vida era: a humildade, a paciência, a devoção, a austeridade e outras virtudes com as quais se tornava rica aos olhos de Deus.
     Era muito serviçal e atenta com seu marido. Viviam tão unidos como se fossem uma só carne, um só coração e uma única alma. Ela o ajudava nos afazeres rústicos; cuidava das hortaliças e procurava exercer a caridade, sem abandonar nunca sua contínua oração.
     Como ambos não tinham outro desejo senão o de levar uma vida pura e fervorosamente dedicada a Deus, um dia entraram de acordo em separar-se, depois de criar seu único filho, permanecendo ele em Madrid e ela indo para uma ermida situada num local próximo do Rio Jarama, a ermida de Nossa Senhora da Piedade, em Torrelaguna, onde seria sepultada à sua morte.
     O novo gênero de vida solitário consistia em venerar a Virgem Maria, fazer longas e profundas meditações, tendo Deus como mestre, limpar a sujeira da capela, adornar os altares, pedir aos povoados vizinhos ajuda para cuidar da lâmpada e outros trabalhos.
     Ela realizou milagres similares aos de seu esposo, enquanto Isidoro permanecia em Madrid com seu filho Ilano dedicando-se à educação do menino, transmitindo a ele seus ensinamentos e poderes. Quando o pai morreu, Ilano mudou-se para Villalba de Bolobras e se tornou ermitão junto a um castelo templário, fazendo os mesmos milagres que seus pais, relacionados com a água, a agricultura e os animais.
     O texto mais antigo que menciona esta Beata é o manuscrito conhecido como o Códice de João Diácono, uma coleção de milagres realizados por seu esposo Santo Isidoro, escrito em Latim, com primorosa caligrafia, em meados do século XIII, quando ainda se conservava viva a memória dos santos esposos. O pergaminho se encontrava no arquivo da velha paróquia madrilena de Santo André. O autor poderia ter sido um diácono de Almudena, ou o franciscano Juan Gil de Zamora, secretário de Afonso X, o Sábio.
     Até fins do século XVI, quando teve início o seu processo de beatificação, não existe documento escrito que fale dela, falecida por volta de 1175, em Castela, e sepultada no Convento Ermida de Santa Maria. O seu corpo foi encontrado em 1596, mas o seu culto já havia se difundido muito havia vários séculos.
     Aquela ermida, por causa da presença da cabeça da Beata, foi denominada de Santa Maria da Cabeça e a ela mesma foi dado o nome de Maria, embora algumas tradições anteriores ao século XVI referiam que seu verdadeiro nome era Toríbia.
     Próximo ao Convento de Santa Maria existia há muito uma confraria intitulada Santa Maria da Cabeça, em que ela era festejada no dia 9 de setembro. Em 1615, quando o processo de beatificação se iniciou, suas relíquias foram transferidas para Torrelaguna. O Papa Inocêncio XII confirmou o culto da Beata em 11 de agosto de 1697
A Beata e seu esposo
http://www.santiebeati.it/
 
Postado neste blog em 8 de setembro de 2011