segunda-feira, 25 de maio de 2026

Santa Mariana de Jesus de Paredes, o Lírio de Quito – 26 de maio

     
Como resultado do zelo apostólico dos primeiros colonizadores de nosso continente, a Divina Providência suscitou em várias regiões almas ardentes que consagraram suas vidas à salvação das almas entre os indígenas que deixaram as trevas do paganismo e da barbárie para entrar nas hostes benditas da Santa Igreja, ou nos ambientes sociais que iam sendo criados nas colônias da Espanha e de Portugal.
     O apostolado na incipiente sociedade dos primeiros séculos não foi menos árduo do que aquele levado a efeito entre os nativos. Nesse apostolado brilhou a alma extraordinária de Santa Mariana de Jesus de Paredes y Flores.
     Muitos brasileiros conhecem Santa Rosa de Lima, a Padroeira da América Latina, santa peruana que também viveu na época da colonização espanhola, mas Santa Mariana de Jesus é quase desconhecida entre nossos compatriotas.
     Que as ações virtuosas praticadas por esta Santa sirvam de estímulo e exemplo a ser imitado, de acordo com as sábias adaptações que cada qual deve fazer, seguindo sempre a Santa Vontade de Deus.
*
     Nasceu em Quito, Equador, em 31 de outubro de 1618; morreu em Quito, em 26 de maio de 1645. Ela pertencia a uma ilustre linhagem de antepassados: era filha do capitão espanhol Jerônimo de Paredes y Flores e da nobre Mariana Jaramillo.
     Seu nascimento foi acompanhado por fenômenos mais incomuns nos céus, claramente ligados à criança e juridicamente atestados no momento do processo de beatificação. Quase desde a infância ela deu sinais de uma atração extraordinária pela oração e mortificação, ao amor de Deus e à devoção à Virgem Santíssima; e além de ter manifestações notáveis de favor divino, foi inúmeras vezes milagrosamente preservada da morte.
     Antes dos sete anos ficou órfã e uma de suas sete irmãs, Jeronima, esposa do capitão Cosme de Miranda, passou a encarregar-se de sua educação.
     Aprendeu o catecismo tão bem, que aos oito anos de idade foi admitida a Primeira Comunhão (o que era uma exceção naquela época). O sacerdote que fez o exame de religião ficou admirado com a compreensão das verdades do catecismo que ela demonstrava ter.
     Ao ouvir um sermão sobre a grande quantidade de gente que ainda não recebera a mensagem da religião de Nosso Senhor Jesus Cristo, se dispôs a ir com um grupo de companheirinhas evangelizar os pagãos. No caminho, encontraram pessoas que as levaram de volta para casa; as crianças não tinham se dado conta dos perigos que poderiam enfrentar.
     Em outra ocasião resolveu ir com outras meninas a uma montanha para viver como anacoretas dedicadas ao jejum e a oração. Felizmente um touro muito bravo as fez voltar correndo para a cidade. Mariana convidava suas sobrinhas, que eram quase da mesma idade, para rezar o Rosário e fazer a Via Sacra.
     Seu cunhado então se deu conta dos grandes desejos de santidade e oração desta menina e procurou que uma comunidade religiosa a recebesse. Porém, as duas vezes que tentou entrar em convento contrariedades imprevistas a impediram de fazê-lo. Ela então se deu conta de que Deus a queria santificar permanecendo no mundo.
     Sob a direção do jesuíta Juan Camacho fez voto de virgindade perpétua. E sem ingressar em nenhuma Ordem religiosa se consagrou à oração e à penitência na sua própria casa. Ela se propôs cumprir aquele mandato de Jesus: "Quem deseja seguir-me, que negue a si mesmo".
     Em 6 de novembro de 1639 ingressou na Ordem Terceira de Penitência de São Francisco de Assis, a que mais se adequava ao seu espírito de renúncia.
     O jejum que ela mantinha era tão rigoroso, que ela comia um pedaço de pão seco a cada oito ou dez dias. A comida que milagrosamente sustentava sua vida, como no caso de Santa Catarina e de Santa Rosa de Lima, era, de acordo com o testemunho sob juramento de muitos depoentes, o Pão Eucarístico que ela recebia todas as manhãs na Santa Comunhão.
     Mariana recebeu de Deus o dom do conselho e os conselhos que ela dava às pessoas lhes faziam um bem imenso. Ela também anunciava acontecimentos futuros, inclusive a data de sua morte. Era possuidora de um dom especial para paziguar contendores e para conseguir que as pessoas deixassem de pecar.
     Ela possuía um dom extático de oração, previu o futuro, via eventos distantes como se estivessem passando diante dela, lia os segredos dos corações, curou doenças com o sinal da Cruz, ou aspergindo o sofredor com água benta, e pelo menos uma vez ela ressuscitou uma pessoa morta.
     Ela é chamada de “o Lírio de Quito” porque durante uma enfermidade lhe fizeram uma sangria e a jovem de serviço jogou o sangue que tinham tirado de Mariana em um vaso e nele nasceu um lírio.
    Em 1645, um grande terremoto abalou a cidade de Quito e causou muitas mortes por uma epidemia terrível que se lhe seguiu. Um padre jesuíta num sermão disse: "Deus meu, eu Vos ofereço minha vida para que acabem os terremotos". Porém Mariana exclamou: "Não, Senhor, a vida deste sacerdote é necessária para salvar muitas almas. Eu, entretanto, não sou necessária. Eu Vos ofereço minha vida para que cessem esses terremotos".
     Naquela manhã mesmo ela começou a sentir-se mal e morreu no dia 26 de maio. Deus aceitou o seu oferecimento: os terremotos cessaram e as pessoas não mais morreram. Por isso, em 1946 o Congresso do Equador deu a ela o título de "Heroína da Pátria".
     Os primeiros passos preliminares para a beatificação foram dados pelo Monsenhor Alfonso della Pegna, que instituiu o processo de investigação e coleta de provas para a santidade de sua vida, suas virtudes e seus milagres; mas a cópia autenticada do exame das testemunhas não foi encaminhada para Roma até 1754.
     A Congregação Sagrada dos Ritos, tendo discutido e aprovado esse processo, decidiu a favor da introdução formal da causa, e Bento XIV assinou a comissão para a introdução da causa em 17 de dezembro de 1757.
     O processo apostólico relativo às virtudes da Venerável Mariana de Paredes foi elaborado e examinado da forma devida pelas duas Congregações Preparatórias e pela Congregação Geral dos Ritos, e as ordens foram dadas por Pio VI para a publicação do decreto atestando o caráter heroico de suas virtudes.
     O processo relativo aos dois milagres feitos pela intercessão da Serva de Deus foi posteriormente preparado e, a pedido do próprio Reverendo João Roothaan, Geral da Sociedade de Jesus, foi examinado e aceito pelas três congregações, e foi formalmente aprovado em 11 de janeiro de 1817, por Pio IX.
     Santa Mariana de Jesus foi beatificada pelo Beato Pio IX em 20 de novembro de 1853 e canonizada por Pio XII em 4 de junho de 1950.
     Muitos milagres foram a recompensa daqueles que invocaram sua intercessão, especialmente na América, da qual ela parece ter o prazer de mostrar a si mesma a padroeira especial.
 
 
BOERO, Beata Maria Ana de Jesus; O Breviário Romano.
J. H. Fisher (Encylopedia Católica)
https://nobility.org/2018/05/24/may-28-lily-of-quito/
 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Santa Antonina de Niceia, Mártir - 4 de maio

     Esta Santa era mencionada três vezes no Martirológio Romano: 1º de março, 4 de maio e 12 de junho, e de forma diferente em cada uma destas datas, como fossem três pessoas diferentes.
     No século XVI, o cardeal e bibliotecário do Vaticano, César Barônio, unificou os calendários litúrgicos da Igreja, a pedido do papa Clemente VIII, com os santos comemorados em datas diferentes no mundo cristão. A Igreja dos primeiros séculos foi exclusivamente evangelizadora. Para consolidar-se, adaptava a liturgia e os cultos dos santos aos novos povos convertidos. Muitas vezes, as tradições se confundiam com os fatos devido aos diferentes idiomas, mas assim mesmo os cultos se mantiveram.
 
    
O trabalho de Barônio foi chamado de Martirológio Romano, uma espécie de dicionário dos santos da Santa Igreja Catolica de todos os tempos. Porém ele, ao lidar com os calendários egípcio, grego e siríaco, que comemoravam Santa Antonina em datas diferentes, não se deu conta de que as celebrações homenageavam sempre a mesma pessoa. Isso porque o nome era comum mas os martírios eram descritos de maneira diversa entre si.
     O calendário grego dizia que ela fora decapitada; o egípcio, que fora queimada viva; e o siríaco, que tinha morrido afogada. Mais tarde, o que deu luz aos fatos foi um Código Jeronimiano do século V, confirmando que apenas uma mártir com este nome tinha morrido em Nicéia no dia 4 de maio, como aparece no Martirológio Siríaco do século IV.
     As informações do Martirológio Romano, dependentes dos sinassários e do Martirológio Jeronimiano, se baseiam numa antiga Passio perdida. Segundo eles, Antonina era uma cristã de Niceia, na Bitinia, atual Turquia, que durante a perseguição do sanguinário imperador Diocleciano foi aprisionada por ordem do prefeito Prisciliano.
     Ela foi denunciada como cristã, presa e condenada à morte. Mas antes a torturaram de muitas maneiras: ela foi golpeada com varas, suspensa no cavalete, teve seu flanco ferido e por fim foi queimada viva. Voltando ao tribunal, não renegou sua fé. Foi, então, fechada dentro de um saco e jogada no fundo de um lago pantanoso na periferia de Nicéia. Era o dia 4 de maio de 306, data que foi mantida para a veneração de Santa Antonina, a mártir de Nicéia.
      Segundo o Martirológio Siríaco e muitos códices do Martirológio Jeronimiano, o martírio teria ocorrido em Nicomédia, enquanto outros códices colocam o martírio em Niceia, Bitinia, e esta menção, segundo Delehaye, é a de se preferir.
     O nome Antonina é o feminino do antigo nome latino Antonius, derivado, provavelmente, do grego Antionos, que significa “nascido antes”. É um dos nomes mais difundidos entre os povos latinos, que ganhou muitos adeptos entre os cristãos. Mas, antes de Cristo, era muito comum também.
 
Fontes:
santiebeati/.it
04 de Maio de 2026 » Padre Alexandre Fernandes

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Sta. Catarina de Siena, Doutora da Igreja, exemplo de amor pela igreja e pelo Papado - 29 de abril

 
     Em 25 de março de 1347, Lapa Benincasa deu à luz duas gêmeas em seu vigésimo quarto parto. Uma delas não sobreviveu após o Batismo. A outra, Catarina, tornar-se-ia a glória de sua família, de sua pátria, da Igreja e do gênero humano.
     Giacomo di Benincasa, seu pai, era um tintureiro bem estabelecido, "homem simples, leal, temeroso de Deus, e cuja alma não estava contaminada por nenhum vício"; piedoso e trabalhador, criava sua enorme família de 25 filhos no amor e no temor de Deus. Catarina, a penúltima da família e caçula das filhas, teve a predileção de todos e cresceu num ambiente moral puro e religioso.
     Aos 7 anos de idade Catarina consagrou a sua virgindade a Cristo; aos 16, cortou sua longa cabeleira para evitar um casamento; e aos 18, recebeu o hábito das Irmãs da Penitência de São Domingos.
     Catarina encarou a sua clausura com seriedade e vivia encerrada no seu próprio quarto, onde, por intermédio da oração e diálogo afirmava que estava sempre com e em Cristo. Abandonou a sua cela somente em 1374, quando a peste se alastrou por toda a Europa e ela decidiu cuidar dos enfermos e abandonados, tendo praticado grandes atos de caridade.
    Nesse mesmo ano (1374), teve uma visão e ficou estigmatizada. Na visão Cristo lhe disse que ela trabalharia pela paz, e mostraria a todos que uma mulher fraca pode envergonhar o orgulho dos fortesAnalfabeta, aprendeu milagrosamente a ler e escrever, para poder cumprir a missão pública que Deus lhe destinava.
Sua Missão
     No fim da Idade Média — quando a gloriosa Civilização Cristã já decaía a olhos vistos — a Itália era um aglomerado de reinos e repúblicas que viviam em guerra entre si, ou, em uma mesma cidade, guerra entre facções contrárias. Catarina foi várias vezes chamada a ser o seu anjo pacificador. Assim, viajou ela de Siena para Florença, Luca, Pisa e Roma como pacificadora.
     Em 1375, toda a Itália estava envolvida em graves disputas políticas relativas à volta do papado; organizavam-se milícias nas cidades de Perusa, Florença, Pisa e em toda a Toscana, em revolta contra o poder político do Papa Gregório XI.
     Catarina, mediadora entre o Papa e os conjurados, inicia uma correspondência incessante com o Papa Gregório XI, cheia de piedade e amor filial, cada vez mais premente, em favor dos súditos dos Estados Pontifícios que se tinham rebelado contra ele: "Santíssimo e dulcíssimo Pai em Nosso Senhor Jesus Cristo [...] Ó governador nosso, eu vos digo que há muito tempo desejo ver-vos um homem viril e sem temor algum. [...] Não olheis para a nossa miséria, ingratidão e ignorância, nem para a perseguição de vossos filhos rebeldes. Ai! que a vossa benignidade e paciência vençam a malícia e a soberba deles. Tende misericórdia de tantas almas e corpos que morrem".
     Censurou o rei da França por guerrear contra cristãos e não empenhar-se na cruzada: "Eu peço-vos que sejais mais diligente para impedir tanto mal e para ativar tanto bem, como é a recuperação da Terra Santa e daquelas almas infelizes que não participam do Sangue do Filho de Deus. Desta coisa vos deveríeis envergonhar, vós e os outros senhores cristãos; porque é uma grande confusão diante dos homens, e abominação diante de Deus, fazer a guerra contra os irmãos e deixar os inimigos; e querer tirar o que é dos outros e não reconquistar o que é seu. Eu vos digo, da parte de Jesus Crucificado, que não demoreis mais a fazer esta paz. Fazei a paz e fazei toda a guerra contra os infiéis".
     Catarina, devorada de zelo e amor pela Igreja, ansiava pela pacificação da Cristandade para que, unidos, os cristãos se dispusessem a seguir em uma Cruzada para libertar os Santos Lugares.
     Ela decidiu seguir até Avinhão, cidade onde os papas viviam desde há mais de 70 anos, e apresentar-se diante de Gregório XI para convencê-lo a regressar a Roma, pois isto seria fundamental para a unidade da Igreja e a pacificação da Itália.
     Em Avinhão, diante dos cardeais, Catarina ousou proclamar os vícios da corte pontifícia e pedir, em nome de Cristo Jesus, a reforma dos abusos. Gregório XI a chamara para dar sua opinião em pleno Consistório dos Cardeais. Ela o convenceu a voltar a Roma.
     Em 17 de janeiro de 1377, Gregório XI deixa Avinhão, apesar da oposição do Rei francês e de quase todo o Sacro Colégio. Ele ainda hesita no caminho, e ela o conjura a ir até o fim.
     Mas a paz na Igreja não seria longa. Outra vez a república de Florença revoltou-se contra o Papa, que apelou para Catarina. Rejeitada por aquela cidade, a Santa quase foi martirizada. Gregório XI, gasto, envelhecido, sofrido, não resistiu e entregou sua alma a Deus.
     Os cardeais elegem Urbano VI. Conhecendo Catarina, e vendo nela o espírito de Deus, o novo Pontífice a chama a Roma para estar a seu lado. Não sem razão, pois cardeais franceses, desgostosos com o novo Papa, voltam para Avinhão, anulam sua eleição e elegem o antipapa Clemente VIII. A Cristandade mergulha em nova divisão: o Grande Cisma do Ocidente.
     Catarina tentou inutilmente trazer de volta ao verdadeiro redil os três cardeais, autores principais do cisma. Escreveu a reis e governantes da Europa para trazê-los ao verdadeiro Papa. Catarina escreveu 150 cartas a cardeais, bispos e prelados; e a reis, príncipes e governantes, 39.
     "As angústias que lhe causavam as revelações sobre o futuro da Igreja foram para essa Santa [Catarina de Siena] como uma paixão dolorosa. Ela clamava ao Senhor e pedia graça para essa Igreja, Esposa de seu Divino Filho: `Tomai, ó meu Criador, este corpo que eu recebi de vossas mãos. Não perdoeis nem a carne nem o sangue; rompei-o, lançai-o nas brasas ardentes; quebrai meus ossos, contanto que vos praza de me ouvir em favor de vosso Vigário'".
Doutora da Igreja
     Ela foi agraciada com o "casamento místico"; recebeu estigmas semelhantes aos de Nosso Senhor e teve uma "morte mística", durante a qual foi levada em espírito ao Inferno, ao Purgatório e ao Paraíso; teve também uma "troca mística de coração" com Nosso Senhor.
     Entre seus inúmeros discípulos, os caterinati, havia membros do clero, da nobreza e do povo mais miúdo. Um deles, São Raimundo de Cápua, seu confessor, foi também seu primeiro biógrafo e quem nos forneceu pormenores de sua impressionante vida.
     "Todos os seus contemporâneos dão testemunho de seu extraordinário charme, que prevalecia ainda em meio da contínua perseguição à qual ela foi sujeita, mesmo da parte dos frades de sua própria Ordem e de suas irmãs em religião".
     Uma das suas obras ditadas, Diálogo sobre a Divina Providência, é ainda hoje considerada um dos maiores testemunhos do misticismo cristão e uma exposição clara de suas ideias teológicas e de sua mística. Este livro compila as revelações - umas sublimes e outras terríveis - feitas por Deus à Santa durante seus êxtases. Seus secretários anotavam suas palavras durante os êxtases a seu pedido.
     Santa Catarina faleceu no dia 29 de abril de 1380, aos 33 anos. Em 1970, Paulo VI declarou-a Doutora da Igreja, sendo a única leiga a obter esta distinção. João Paulo II declarou-a co-padroeira da Europa, juntamente com Santa Brígida da Suécia e Santa Teresa Benedita da Cruz. É Padroeira da Itália. Sua festa comemora-se no dia 29 de abril.
 
Fonte:  Grandes Santos que Iluminaram o Mundo, Plinio Ma. Solimeo
 
Conselho de Santa Catarina de Sena sobre a Santa Paciência
     “Deveremos afirmar, então, que nenhum sofrimento é grande? De modo algum. E se a sensualidade se revoltar, lembremos-lhe: 'Atenção, pois o fruto da impaciência é o castigo eterno, que receberás no dia do juízo. É melhor para ti querer o que Deus quer, amar o que Ele ama, ao invés de querer o que preferes e amar o que agrada à sensualidade. Quero que suportes virilmente a dor, já que os sofrimentos desta vida não têm comparação com a glória futura, preparada por Deus aos que o temem (Rom. VIII, 18; ICor. II, 9) e cumprem sua vontade”.
 
(Santa Catarina de Sena. Carta 5, para Francisco de Montalcino)


Nosso Senhor a Santa Catarina de Sena, sobre o homossexualismo
     “Esses infelizes ... caem no vício contra a natureza. São cegos e estúpidos, cuja inteligência obnubilada não percebe a baixeza em que vivem. Desagrada-me esse último pecado, pois sou a pureza eterna. Ele me é tão abominável que somente por sua causa fiz desaparecer cinco cidades (cfr. Sab. 10, 6). Minha justiça não mais consegue suportá-lo”.
     “Esse pecado, aliás, não desagrada somente a mim. É insuportável aos próprios demônios, que são tidos como patrões por aqueles infelizes ministros. Os demônios não toleram esse pecado. Não porque desejam a virtude; por sua origem angélica, recusam-se a ver tão hediondo vício. Eles (os demônios) atiram as flechas envenenadas de concupiscência, mas se voltam quando o pecado é cometido”.
 
(Fonte: “O Diálogo”: Edições Paulinas, 1984, pp. 259-260)

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Irmã Maria Antônia (Cecy Cony) e o Anjo da Guarda – 24 de abril

      
     Esta religiosa e mística brasileira, Irmã Maria Antônia, é pouco conhecida. Entretanto, o venerável Servo de Deus padre jesuíta João Batista Reus, cuja beatificação está em andamento no Vaticano, também ele misticamente agraciado, falecido em odor de santidade em 1947, confirmou a vida mística e santa da Irmã Maria Antônia. Assim a descreve na apresentação do livro 
Devo Narrar Minha Vida:
     Obrigada pela obediência, escreveu ela as reminiscências da sua vida, sem reflexão, com certa repugnância e pedindo auxílios especiais a Nosso Senhor. Mal terminava algum dos seis cadernos de que se compõe o manuscrito, entregava-o logo às Superioras e não perguntava mais por ele. Morreu antes de concluir a sua autobiografia, que só abrange seus primeiros 21 anos de vida, e pôde apresentar-se na presença do Senhor com a beleza deslumbrante da inocência batismal.
     Cecy era inteligente e de formação esmerada. Os atestados do colégio davam-lhe quase sempre o 1º ou o 2º lugar. No magistério foi professora habilíssima, como atestam suas superioras. Humilde, extremamente sincera e inocente, nunca na sua vida proferiu uma mentira nem ofendeu a Nosso Senhor “por querer”. Esta declaração dá-nos a chave para julgarmos com justiça de certas fragilidades exteriores que lhe notaram algumas pessoas. Era incapaz de inventar fatos místicos. Nem por leitura nem por qualquer outro meio ordinário pôde conhecer os fenômenos dessa natureza que descreve com tanta nitidez.
     Ao saber, quase no fim de seus dias, que havia almas que nunca experimentavam a presença sensível de Nosso Senhor por ocasião da Sagrada Comunhão, perguntou assustada: “Nem na primeira Santa Comunhão?” A resposta negativa fê-la chorar amargamente. E exclamou: “Estas almas, nesta vida, nunca chegaram a conhecer Nosso Senhor”.
São Leopoldo, Colégio Cristo Rei, 8 de dezembro de 1946.
Pe. J. Batista Reus, S.J.
* * *
    
Cecy Cony menina
     Cecy Cony nasceu no dia 4 de abril de 1900, em Santa Vitória do Palmar, RS. Era filha do 
Cap. João Ludgero de Aguiar Cony e de Antônia Soares Cony.
     Profundamente religiosa desde tenra infância, como ela mesma relata, “desde esse dia de fevereiro ou março de 1905, o “Novo Amigo” acompanhou-me sempre, sempre, por toda a parte, e comigo fazia guarda a Papai do Céu, ao pé da grande cômoda. ... aos 6 anos soube que Ele era o Santo Anjo da Guarda. Compreendia-o perfeitamente; falava-me, mas eu jamais ouvia sua santa voz”. Cecy conviveu com o seu Anjo da Guarda por cerca de 30 anos.
     Em fins de 1905 ou meados de 1906, o Capitão Cony foi transferido para a guarnição de Jaguarão e a família mudou-se para aquela cidade, onde Cecy passou a frequentar o Colégio Imaculada Conceição.
     Em 17 de outubro de 1906, em sua 1ª Comunhão, fez o juramento de fidelidade: “Bom e querido Jesus, eu juro para o Senhor que não quero nunca fazer um só peca­do”. A partir daquela ocasião, sempre sentia a presença sensível de Jesus na Alma ao comungar.
     Sua devoção a Maria Santíssima também foi precoce: “Depois da Ave-Maria, a segunda oraçãozinha que aprendi com Madre Rafaela, foi: Lembrai-Vos que Vos pertenço, terna Mãe, Senhora Nossa! Ah! Guardai-me e defendei-me como propriedade Vossa. Sempre rezei esta oraçãozinha de manhã e de noite, até entrar para o convento. Aprendera também a fazer sacrificiozinhos a Nossa Senhora. E alegria imensa senti quando Madre Rafaela nos ensinou a rezar o Santo Rosário”.
     O caso do Divino Espírito Santo - Jaguarão, município próximo à fronteira Brasil/Uruguai, tinha uma secular devoção ao Divino Espírito Santo. Todos os anos a Bandeira do Divino saia a angariar donativos para a grande solenidade. A família de Cecy não deixava de colaborar e ela mesma dava sua pequenina contribuição.
     Por volta de 1911, uma chocante notícia pôs em polvorosa todos os habitantes de Jaguarão. No quartel do Exército, localizado no centro da cidade, o coronel comandante mandou um sargento avisar que a procissão devia seguir adiante, pois lá não entraria o estandarte do Espírito Santo. Esse fato causou uma forte impressão em Cecy. "Como esse coronel pode ser tão ruim assim? Os pobres soldados ficaram privados da oportunidade de receber a bênção do Espírito Santo e dar uma modesta contribuição para a festa. Mas, muito pior do que isso, foi o insulto a Deus!" Acabrunhada com tais pensamentos, e não conseguindo adormecer à noite, ela ficou imaginando um meio de reparar tão grave ofensa.
     Inspirada por seu Anjo da Guarda, no dia seguinte saiu às ruas pedindo aos soldados e demais militares moedas e falando da sua tristeza pelo fato do coronel não ter permitido que o estandarte do Espírito Santo entrasse no quartel. Cecy também colabora com o dinheiro que tinha para comprar um sapato novo. Na cidade, ninguém soube desta participação de Cecy.
     Em 8 de dezembro de 1914, Cecy tornou-se Filha de Ma­ria. Em 1920, começaram suas decisões e indecisões sobre o estado a tomar. Foi só em 1925 que Cecy conheceu claramente a Ssma. vontade de Deus a respeito de sua vocação. Com a energia de sua inquebrantável vontade, embora sangrando o coração, despediu-se dos pais e seguiu o chamado do Esposo divino: em junho de 1926, entrou como postulante na Congregação das Irmãs Franciscanas em São Leopoldo, onde se esforçou por adaptar-se ao espírito de São Francisco, o que não lhe custou, porém mais difícil era viver uma vida tão diferente da que levara até ali no seio da família.
     A morte do pai, tão amado, em 18 de janeiro de 1927, foi um duro golpe que abateu suas forças físicas; Cecy teve de deixar seu querido convento.
     De volta ao convento, em 17 de fevereiro de 1928 recebeu o véu branco de noviça. No dia 14 de fevereiro de 1930, Irmã Antônia proferiu os votos temporários, ocasião em que Nosso Senhor novamente aludiu a sofrimentos futuros.
     Irmã Antônia consagrou-se irrevogavelmente ao Divino Esposo pelos votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência no dia 24 de fevereiro de 1933. Com inteira dedicação e espírito de sacrifício, retomou sua atividade como professora no Colégio São José, em São Leopoldo. Compreendia admiravelmente as suas alunas, e estas, por sua vez, cercavam de carinhosa veneração a bondosa educadora.
     Sofrimentos místicos, indizivelmente dolorosos, no corpo e na alma, assediaram-na impiedosamente. Um dos mais dolorosos padecimentos era o peso de todos os pecados do mundo, sentindo ela estes pecados na sua alma como se os tivesse cometido ela mesma. O inferno a incitava a dizer: “não quero mais sofrer!” Mas a jaculatória: “Meu Jesus, eu Vos amo ainda!” foi sua prece eficaz em favor das almas periclitantes, seu grito de vitória contra os assaltos infernais.
     Os sofrimentos de Irmã Antônia valiam ora como reparação pelas perseguições feitas à Santa Igreja, ora como expiação pelos ultrajes que Jesus Eucarístico sofre perenemente; contribuíram para a salvação das crianças e dos soldados, para a santificação do clero e dos religiosos.
     Na noite do dia 24 de abril de 1939, Irmã Antônia morreu serenamente, mas envolta em grande padecimento. No dia seguinte foi sepultada no cemitério conventual das franciscanas de São Leopoldo. Alunas atiram flores sobre o sarcófago; suas carinhosas cartas com pedidos e recomendações foram colocadas junto ao seu corpo. 
     Finalmente, a palavra do filósofo e conhecido conferencista Frei Pacífico, O.F.M. Cap., que leu a autobiografia: “É pela boca dos 'inocentes, das crianças' que Jesus revela aos homens os tesouros de seu infinito amor. Eu gostei imenso das páginas da feliz criança, encheram minha alma do desejo de recorrer mais seguido ao meu Anjo da Guarda” (excerto). 
 
Fonte: “Devo Narrar Minha Vida”, Memórias da infância de uma religiosa Franciscana da Penitência e da Caridade Cristã da Casa-Mãe de São Leopoldo, RS, editadas pelo P. J. Batista Reus, S.J., antigo professor de Ascética e Mística.
Imprimatur: Por comissão especial do Exmo. e Revmo. Sr. D. Pedro da Cunha, antigo bispo de Petrópolis, com a data de 15/4/1953.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Santa Senhorinha de Vieira, Abadessa Beneditina - 22 de abril

     
     Nasceu no ano de 924, mais provavelmente em Vieira do Minho. Era a filha mais nova de Avulfo, Conde e Senhor de Vieira e de Basto, e de Da. Teresa, irmã do Conde Gonçalo Soares. Chamou-se primeiro Domitila, mas o pai, regressando já viúvo de guerras, começou a chamar à filha queridíssima sua senhorinha e este passou a ser o seu nome.
    Ficando órfã muito cedo, o pai confiou-a a Da. Godinha, tia materna da Santa, abadessa no Mosteiro de S. João, de Vieira do Minho, da Ordem de S. Bento.
     Narram velhos códices que Senhorinha, tão bem acompanhada, se exercitou desde a mais tenra idade em jejuns, cilícios e disciplinas, consumindo o melhor do seu tempo na oração e em ouvir a palavra de Deus. Resistiu com energia a um nobre pretendente para matrimônio, pessoa que encontrava em Avulfo o melhor apoio. Mas o pai compreendeu esses desejos de perfeição.
     Ela professou aos 15 anos, segundo os costumes monásticos peninsulares. E Avulfo doou à filha, para que se sustentassem, ela e as companheiras que aparecessem, os direitos que possuía, como padroeiro, nas igrejas de São João de Vieira, São Jorge de Basto e de Atei. Assim parece ter-se originado o Mosteiro de Vieira.
     Dizem-nos que a Santa lia assiduamente a regra do Convento, os escritos de Santo Ambrósio, a Vida dos Santos e, muito naturalmente, a Escritura Sagrada. Teve grandíssimos desejos de martírio, que a tia lhe fez compreender estar na observância monástica. Mas Godinha não durou muito e a sobrinha mandou dar-lhe honrosa sepultura na sua Igreja de São Jorge de Basto.
     E, para ocupar o seu lugar no governo do mosteiro, foi eleita Senhorinha. Teria então uns 36 anos de idade e aproximadamente 20 de professa. A partir desta data, falam os velhos textos de numerosos milagres seus: fazer que aparecesse o pão necessário, transformar água em vinho (ver os azulejos da Igreja de São Vítor em Braga, do séc. XVII), e outros prodígios ainda.
     Vivia então em Celanova (junto a Orense, na Galiza), onde fundara um notabilíssimo mosteiro, o ex-bispo de Dume. São Rosendo, primo de Santa Senhorinha. Era visitador e reformador dos mosteiros de todo o Minho e Douro. Como tal vinha de vez em quando a Vieira.
     Não se sabe o porquê, Santa Senhorinha transferiu-se, com as suas religiosas, para a terra que hoje tem o nome da Santa, no município de Cabeceiras de Basto. Essa freguesia chamava-se então São Jorge de Basto. Nela, ao lado da atual igreja paroquial seiscentista, ainda se encontra o chamado campo da feira, em cujo subsolo se descobrem sinais do que deve ter sido o mosteiro.
     Gervásio, irmão da santa, levava vida mundana e por orações da Santa converteu-se e santificou-se. Senhorinha, segundo um testemunho igualmente antigo, teve conhecimento, ao rezar no coro, da entrada de São Rosendo no céu. Estando também a orar, ela ouviu uma voz que lhe dizia: "Vem, minha escolhida, porque desejou o Rei a tua beleza". Percebeu logo do que se tratava, pediu os sacramentos e exortou as religiosas a perseverarem no amor de Deus e do próximo.
     Deu a sua alma a Deus com 58 anos de idade, a 22 de abril do ano 982. Ficou sepultada na igreja do mosteiro, entre os túmulos da tia e do irmão: Santa Godinha e São Gervásio.
     Havendo por ela muita devoção, o Arcebispo de Braga, D. Paio Mendes (1118-1138), veio visitar o sepulcro da Santa em ordem à canonização, pois se dizia que ela estava na sepultura "inteirinha, incorrupta, como que dormindo".
Igreja de Sta Sinhorinha
     Deslocara-se, pois, até à igreja onde se encontrava o venerado túmulo, e - diz a crónica - tendo convocado o povo, que acorrera em massa, dispunha-se a exumar o corpo santo, sepultado em campa rasa, junto do altar-mor, quando, inesperadamente, um homem cego de nascença começou a bradar: "Vejo as mãos do Arcebispo e vejo o Arcebispo".
     Grande alvoroço da multidão, espanto enorme do Prelado; interroga-se o miraculado que responde: "Eu fui sempre cego, desde o nascimento, senti uma mão que tocou nos meus olhos e agora vejo o Arcebispo e a sepultura de Santa Senhorinha".
     Desistiu então o Arcebispo de abrir a sepultura, crendo piamente na santidade de Senhorinha e na verdade dos milagres. Mas depois, no ano de 1130, mandou-o levantar da terra e apor-lhe uma inscrição que fala da virgem consagrada, Senhorinha, e dos seus milagres inumeráveis em vida e numerosos depois da morte.
     Constituiu esta lápide uma verdadeira canonização, que estava nessa altura nas atribuições dos bispos locais. Mais tarde o Papa Alexandre III (1159-1181) reservou as canonizações aos Papas.
     Com a visita e o epitáfio de D. Paio Mendes começou uma época de mais intensa devoção à Santa, com peregrinos de Portugal inteiro, da Galiza, de Leão etc.
     D. Sancho I (1185-1211), vendo o filho e herdeiro D. Afonso em perigo de morte, veio a Santa Senhorinha (nome do lugar que sucedeu a S. Jorge de Basto) pedir a saúde dele e prometer, se obtivesse a graça, constituir um refúgio à volta da igreja; obteve-a e andou a pé a indicar o sítio dos marcos que D. Gonçalo Mendes, senhor da terra, mandou pôr.
     O rei D. Pedro I firmou, a 15 de setembro de 1360, a doação do padroado de Santa Maria de Basto, com os seus frutos e rendas, à Igreja de Santa Senhorinha, sob a condição, entre outras, de que este templo tivesse três lâmpadas com azeite, uma diante do crucifixo, outra diante do corpo de Santa Senhorinha e a terceira na capela em que jaz o corpo de São Gervásio. E explica o rei que esta capela foi mandada construir por D. Inês de Castro - terá sido entre 1340 e 1357. Conclui-se que, por essa altura, o túmulo de Santa Senhorinha estava no corpo da igreja.
     Apesar de só no século XVIII ter entrado o ofício litúrgico de Santa Senhorinha no Breviário Bracarense, a festa de Santa Senhorinha foi introduzida no Breviário Bracarense de D. Rodrigo de Moura Teles (1724). Temos indícios de que desta Santa se rezava liturgicamente em todo o país a 22 de abril até ao fim do século passado; assim em almanaques de 1854 e 1898. De Santa Godinha, fora da Diocese de Braga, nada se encontra; de São Gervásio rezou a Sé Patriarcal de Lisboa de 1322 até 1761, pelo menos.
     Com solenidade, celebrou-se em Santa Senhorinha de Basto o milenário da morte da Santa em 1982.

Altar de Santa Sinhorinha e Santa Godinho
 
Fonte: www.portalcatolico.org.br

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Santa Bernadete Soubirous, vidente de Lourdes - 16 de abril

As Maravilhas de Santa Bernadete
Por Professor Plinio Corrêa de Oliveira
 
     
Depois de ler a vida de qualquer santo, fechamos o livro exclamando, "Que grande santo! Eu não achava que algo assim pudesse existir."
     De fato, desde que seja bem escrito, a vida de qualquer santo é uma maravilha única, cheia de surpresas.
     A vida de Santa Bernadete Soubirous não é exceção. Ela era uma camponesa francesa de uma região dos Pirineus que, de certo ponto de vista, mistura aspectos da Espanha e da França. Ela parece muito francesa, embora tenha traços espanhóis. Olhando para suas fotos autênticas (que normalmente não são encontradas em igrejas), vemos uma pessoa com um rosto levemente quadrado, com traços regulares e bem definidos. Ela tem grandes olhos pretos com um certo olhar fixo espanhol, diferente do olhar francês mais rápido. Seu olhar espanhol penetra quase a ponto de um raio-x. Junto com seu nariz espanhol, seu rosto apresenta uma coerência que realmente se destaca e a marca de cima a baixo.
     Sua mentalidade é direta. Ela não se mede. Ela era uma pessoa com horizontes muito elevados, mas teve uma criação muito simples, o que significa que nunca foi ensinada a ser reservada ou discreta. O que ela pensava, diria diretamente.
     Toda a expressão dela é de completo distanciamento. Ela era completamente humilde e não queria ser ninguém especial. Seu objetivo era realizar o serviço de Nossa Senhora sem se importar com o que os outros pensam.
     Considere o fato de que Santa Bernadete poderia ter se tornado vaidosa ao ver grandes multidões reunidas para vê-la falar com Nossa Senhora na Gruta durante as aparições. 
    
Esse fato é agravado pelo fato de Santa Bernadete ser do interior, onde tal atenção causa uma impressão muito maior. Quanto menor a cidade, mais importância se dá a ela. É mais fácil para um nova-iorquino (para usar um exemplo americano) criticar Nova York do que para os moradores criticarem sua própria cidadezinha. Quando o prefeito da pequena vila morre, toda a cidade aparece para o funeral. A vila inteira representa o mundo inteiro. É considerado extraordinário.
     Podemos acrescentar que essa atmosfera da pequena vila do interior tem muito mais vida e é mais acolhedora do que a enorme Babel moderna, onde o indivíduo é como um grão de areia solto. Na vila, cada habitante é como a célula viva de um organismo. Em Nova York ou São Paulo, cada um é como um grão de areia em uma enorme pilha em que cada grão pesa sobre os outros, e de onde toda tempestade de vento leva grãos para longe.
     Assim, podemos entender o que significou para Santa Bernadete ter toda a cidade de Lourdes para visitá-la. Era algo extraordinário. No entanto, sua reação não foi se tornar vaidosa. Em vez disso, ela permaneceu indiferente à atenção. Durante todo esse tempo, ela foi ela mesma completamente e naturalmente diante de todos. Quando chamada pela polícia para falar sobre as revelações, ela se comportou com extraordinária coragem e facilidade. Com seus pais, o pároco e outras pessoas íntegras com quem ela lidava, e depois com seus superiores religiosos, ela foi um modelo de respeito e obediência.
     Assim, podemos ver nela o espírito de uma verdadeira mulher ultramontana e católica. Ela é uma verdadeira santa, totalmente indiferente à pompa e à estima deste mundo. Ao ignorar tudo, ela não foi ignorada. Pois, se buscasse o aplauso do mundo, não seria livre para fazer nada além das ações que lhe renderiam esse aplauso. Ela seria obrigada a tocar conforme a música deles. A atitude de Santa Bernadete Soubirous era ser ela mesma. Se o mundo não gostava, ela não se importava. Tudo o que ela se importava era ser fiel à Santa Igreja Católica.
     Quando se tratava de autoridades legítimas, sua atitude era diferente. Ela teve muito cuidado para demonstrar obediência e respeito extremos. Isso porque havia um princípio sobrenatural envolvido e não apenas o fator humano dela. Ela não se importava com os caminhos do mundo, mas demonstrava todo o devido cuidado e respeito por coisas com uma raiz religiosa, que vinha de Deus.
     Santa Bernadete Soubirous impressionou muitos com sua conduta durante as aparições. Ela converteu inúmeras pessoas simplesmente pela forma como fazia o sinal da cruz. Ela aprendeu isso com Nossa Senhora – o modelo supremo de amigos e adoradores de Jesus Cristo – e assim adquiriu um amor pelo sofrimento e pela Cruz de Cristo. Por isso, algo da unção de Nossa Senhora se manifestaria nela quando fizesse o sinal da cruz.
     Mesmo após as aparições, ela edificou as pessoas enquanto a observavam fazer o sinal da cruz, algo que muitas vezes fazemos de forma descuidada, sem dar a devida importância ao que estamos fazendo.
     No entanto, o que mais impressionava as pessoas era toda a sua postura durante as aparições. Elas percebiam que ela estava em contato com algo que não podiam ver, mas que vinha de fora dela.
     Elas notaram uma transformação extraordinária nela. De simples camponesa, ela assumiria uma majestade que impressionava a todos. Uma dama da alta sociedade que a viu durante uma aparição disse que nunca tinha visto uma garota da aristocracia com a postura e porte de Santa Bernadete enquanto falava com Nossa Senhora. Em outras palavras, porque ela estava lidando com a Rainha do Céu e da Terra, essa Rainha comunicava algo régio a ela, e algo dessa virtude permaneceu em sua alma. 
    
Muitas pessoas perceberam que Nossa Senhora falava com ela, não porque viam Nossa Senhora, mas porque viam Bernadete como um espelho de Nossa Senhora. De fato, durante as aparições, a vidente era uma espécie de Speculum Mariae, ou melhor, Speculum Justitiae. É verdadeiramente admirável ver como Nossa Senhora comunica suas virtudes a seus devotos, que, por assim dizer, as absorvem dela.
     Quando uma irmã em seu convento insistiu com a Irmã Bernadete em contar sobre o vestido que Nossa Senhora estava usando quando apareceu, ela respondeu que, se quisessem saber os detalhes, deveriam pedir para Nossa Senhora voltar para que pudessem ver por si mesmas.
     Isso era característico dos muitos comentários pitorescos de Santa Bernadete. Sua superiora frequentemente tentava torná-los menos mordazes e mais educados, mas finalmente permitia que passassem. Os ditos de Bernadete tinham uma nota que era ao mesmo tempo cômica e inflamada, com um tom afiado que mostrava seu temperamento animado e vibrante.
     Quando perguntada se se orgulhava de ter sido escolhida por Nossa Senhora, ela respondeu: "Quem você acha que eu sou? A Santíssima Mãe me escolheu porque eu era a mais ignorante. Se ela tivesse encontrado alguém mais ignorante do que eu, certamente teria escolhido ela".
     Tal comentário não era apenas humilde, mas também bastante verdadeiro. Humildade é a verdade. Nossa Senhora a escolheu porque era a garota mais ignorante de Lourdes. Antes das revelações, ela era uma boa menina, mas não uma santa. Nossa Senhora a escolheu porque sua ignorância foi um dos argumentos extraordinários para confirmar as aparições.
     Ela era uma camponesa tão ignorante que simplesmente não tinha meios de saber sobre as coisas espirituais que contava às autoridades. Ela não tinha o fundo espiritual para manter a atitude que mantinha.
     Sua ignorância era um dos aspectos apologéticos de Lourdes.
     Embora muito animada, Santa Bernadette podia facilmente passar despercebida. Com o tempo, sua doença foi desgastando-a gradualmente. Na verdade, sua situação é semelhante à de Santa Teresa, a Pequena Flor. Ela ofereceu sua vida como vítima expiatória pelos pecadores, mas acima de tudo por um pecador misterioso que ela não nomeou e por quem sofreu terrivelmente para que ele se redimisse e fosse santificado. Seria um homem de seu tempo ou um homem que viria no futuro, cuja existência a Providência lhe revelou? Ninguém sabe.
     Uma biografia de Santa Bernadete menciona o fato de que Nossa Senhora revelou um segredo para ela, sobre o qual ela nunca disse nada. Parece que estava relacionado à identidade daquele pecador misterioso. Assim, as três grandes aparições de Nossa Senhora de nossos tempos tinham todos os segredos: Nossa Senhora de La Salette, Nossa Senhora de Lourdes e Nossa Senhora de Fátima.
     Vamos pedir a Santa Bernadete que nos procure uma grande devoção a Nossa Senhora e que ela possa cada vez mais comunicar as virtudes de Nossa Senhora a nós.
O texto anterior é retirado de uma palestra informal que o professor Plinio Corrêa de Oliveira ministrou em 15 de abril de 1966. Foi traduzido e adaptado para publicação sem sua revisão.
 
https://southafricaneedsourlady.co.za/
 
* * *
 
    
O historiador eclesiástico Rorbacher escreveu a respeito de Santa Bernadette, virgem, a quem Nossa Senhora apareceu em Lourdes:
    “Bernadete Soubirous era uma criança em tudo igual às outras. Nela só se destacavam a expressão do olhar de invulgar inocência”.     
    “Na primeira aparição, Bernadete só pode fazer o Sinal da Cruz depois que Nossa Senhora o fez. Mas segundo numerosas testemunhas, depois dessa visão, em toda a vida de Bernadete, seu Sinal da Cruz era inigualável e realmente inesquecível. Um sinal inimitável, pois a vidente o aprendera com a Santíssima Virgem”.
     “Uma ocasião, no convento, insistiam com a Irmã Bernarda para que dissesse como era o vestido com o qual Nossa Senhora lhe aparecia. Uma das religiosas dizia que era desta fazenda, outra, daquela.
     “Respondeu-lhe Bernadette: `Eu não disse que o vestido era disso ou daquilo. Era de um pano que nunca vi. Ademais, se querem saber tanta coisa, fazei Nossa Senhora voltar outra vez e vede bem'“.
     “Grande era sua humildade. Quando alguém a procurou certa vez para que dissesse algumas palavras de edificação às noviças, respondeu sorrindo: 'Ai, nada sei. O que se pode arrancar de uma pedra, minha Irmã?'
     “Perguntou-lhe sua superiora se não se sentia orgulhosa por ter sido escolhida por Maria para lhe ser a confidente.
     “Respondeu: ‘Que ideia a senhora faz de mim? A Santíssima Virgem escolheu-me porque eu era a mais ignorante. Se Ela achasse uma outra mais ignorante do que eu, ter-lhe-ia escolhido certamente’“.
     “Os contínuos sofrimentos e vômitos de sangue aniquilavam lentamente a vidente. Seu aspecto físico demonstrava esse aniquilamento e a santa, ao lado disso, buscava apagar-se no convento.
     “Conseguiu-o de tal maneira que uma postulante, ao entrar para o convento, declarou que queria conhecer Bernadette, justamente quando ela passava no momento, a mostraram.
     “E a santa disse: “Bernadete, é isto” ( Bernadete, c'est ça).

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Beata Ida de Louvain, Monja cisterciense e Beata Ida de Boulogne, Viúva, Oblata secular beneditina - 13 de abril

Neste dia a Santa Igreja comemora duas Beatas homônimas que viveram diferentes vocações, mas ambas muito admiráveis


Beata Ida de Louvain, Monja cisterciense - 13 de abril
 
     No mosteiro cisterciense de Roosendaal (Val-des-Roses), no Brabante, na atual Holanda, a Beata Ida, virgem, que sofreu muitos maus tratos do pai antes de entrar na vida religiosa e pela austeridade da sua vida imitou em seu corpo a paixão de Cristo.
(† c. 1290)
     Sabemos de Ida de Louvain o que um autor anônimo conta em sua Vida, escrita pouco tempo depois de sua morte.
     Nascida por volta de 1212, Ida pertencia a uma família de ricos comerciantes. Seu pai era um comerciante de vinhos que vivia na operosa cidade de Louvain e que, preocupado unicamente em acumular riquezas e em usufruir dos bens terrenos, ficou muito contrariado quando a filha lhe disse que tinha a intenção de se fazer monja. O pai não consentiu, o que a fez sofrer muito.
    Desde muito jovem ela manifestou repulsa por aquela nova sociedade comercial cujo aparecimento nas cidades do Norte provocava uma pobreza muito grande de uma população reduzida à mendicância. Em profundo conflito com a família, Ida se dedicava a ajudar os pobres, ao mesmo tempo em que se infligia impressionantes penitências que visavam reparar os ultrajes feitos a Nosso Senhor Jesus Cristo.
     Ela finalmente conseguiu vencer a dureza de seu pai e ingressou na abadia cisterciense de Val-des-Roses, perto de Malines. Sua biografia, composta provavelmente no final do século XIII, baseada nos testemunhos de seu confessor, revela uma mulher em odor de santidade cujo renome ultrapassou o claustro de seu mosteiro.
     Dominicanos e franciscanos reconheceram os seus méritos e não se pode deixar de perceber a influência da espiritualidade franciscana nas evocações dessa mística: a exemplo de São Francisco de Assis, Ida tinha grande familiaridade com os animais; seu corpo marcado por cinco chagas evocava seu amor imenso por Jesus sofredor.
     Antes mesmo de sua entrada no mosteiro apresentava um desejo insaciável de receber a Eucaristia.  É um dos temas desenvolvidos em sua Vida; assim como ela, outras santas daquele século dão testemunho da grande devoção pelo Santíssimo Sacramento que se desenvolveu a partir da Festa de Corpus Christi celebrada pela 1ª vez em 1246 na diocese de Liége.
     Sua biografia também apresenta numerosas analogias com a de outras cistercienses da diocese de Liège: Ida de Nivelles, Lutgarda d’Aywières, Beatriz de Nazaré ou Ida de Gorsleeuw, com as quais esta mística participa da mesma intimidade com o Menino Deus e Jesus Cristo crucificado.
     Alegrias e sofrimentos marcam seus encontros com Cristo que se faz ver, ouvir, entender. Ele se revela o Amor Encarnado que fere ao mesmo tempo em que cura. Ele oferece a ela seu Coração, lhe desvenda sua beleza, celebra uma Missa solene para ela.
     Transportada ao coro dos Serafins, ela vislumbra o mistério da Santíssima Trindade. Seu biógrafo revela que ela traduziu os textos da liturgia para a língua vernácula sob a orientação do Espírito Santo.
     Além de jejuns, distribuição alimento aos pobres, participação nos sofrimentos de Nosso Senhor, Ida se dedicou à oração, à contemplação e aos trabalhos manuais, entre os quais preferia a transcrição dos livros, mas não recusava jamais as incumbências mais humildes; estava sempre disponível no serviço de suas irmãs de hábito.
     Os fenômenos místicos, os seus êxtases frequentes e muitos prodígios lhe foram atribuídos e numerosas conversões.
     Ida faleceu no dia 13 de abril em um ano por volta de 1290.
     Considerada beata no século XVII tanto pelos hagiógrafos cistercienses como pelos Bolandistas, Ida faz parte destas figuras tratadas abundantemente pelos especialistas da mística da Idade Média.
 
Fontes: «Vita de venerabili Ida Lovaniensi. Ordinis Cisterciensis...», Bibliothèque nationale de Vienne, Series nova 12707, f°167r°-197r°.; «Vita de venerabili Ida Lovaniensi. Ordinis Cisterciensis...», éd. Daniel Papebroch, Acta sanctorum, Avril, t.II, 1866, p.156-198.
Beata Ida di Lovanio (santiebeati.it)
 
* * *

Beata Ida de Boulogne, Viúva, Oblata secular beneditina - 13 de abril
 
     Ida nasceu em Boulogne, em 1040. Era filha de Godofredo, duque da Baixa Lotaríngia, e aos 17 anos desposou Eustáquio II, conde de Boulogne. Ida foi mãe de Eustáquio III, de Godofredo de Bouillon e de Balduino I, reis de Jerusalém.
     Suas imensas possessões se estendiam desde Luxemburgo até o Atlântico, passando por Ardenne e Pas de Calais.
     Muito devota, sua ocupação favorita era confeccionar belos ornamentos litúrgicos. Rezava com tanto fervor, que o Cronista Guilherme de Tiro atribuía boa parte do êxito da 1ª Cruzada às suas orações.
     Grande benfeitora das igrejas e dos pobres, após a morte de seu marido fundou vários mosteiros: Saint-Wulmer em Boulogne para os Cônegos Agostinianos, Saint-Michel-du-Wast para os monges de Cluny. Ela fez doações consideráveis ​​para a Abadia Saint-Bertin, Bouillon e Afflighem, favoreceu a reforma de Cluny sob a influência de Santo Anselmo de Canterbury, seu diretor espiritual, o qual manteve com ela uma correspondência epistolar que chegou até nós. Este particular destaca o papel que o santo arcebispo teve na reforma monástica na região de Flandres.
     Ida não tomou o hábito beneditino, como se acreditava (Holweck, p. 500), mas obteve de Santo Ugo a ligação espiritual com Cluny, de modo a ser considerada oblata da Ordem Beneditina.
     Ela morreu no dia 13 de abril de 1113 e foi enterrada na igreja de Wast (notamos que muitas informações biográficas erroneamente mencionam Saint-Waast, em vez de Wast). Em 1669 seus restos mortais foram transferidos para os beneditinos de SSmo. Sacramento em Paris, que levaram com eles quando, em 1808, se estabeleceram em Bayeux, onde eles ainda são mantidos (uma relíquia, no entanto, foi deixada em Wast).
                                                                       
A beata se despede de seu
filho que vai para a
Cruzada 
       A festa de Ida que era celebrada na antiga diocese de Boulogne, mais tarde foi autorizada para as dioceses de Arras e Bayeux, quando adotaram o rito romano. A comemoração da santa é encontrada em muitos calendários medievais a 13 de abril.
     Para a santa mãe do grande cruzado Godofredo de Bouillon não se tem uma representação iconográfica bem caracterizada e poucas são as imagens dela. Entre estas, muito tardia, vale a pena notar a escultura em madeira do artista do século XVIII Georg Ueblherr na igreja austríaca de Engelszell, que a representa em adoração do crucifixo.
     Ela é patrona das viúvas. 
     Ida teve dois filhos e um genro que deixaram marca na História. Seus filhos Godofredo de Bouillon e Balduino I tomaram parte na gloriosa primeira cruzada e foram os primeiros soberanos francos do reino de Jerusalém.
     Seu genro foi Henrique IV, imperador da Alemanha, cujo nome ficou ligado a “questão das Investiduras”. Quando foi derrotado, teve que implorar perdão ao Papa Gregório VII, porém mais tarde, retomou as hostilidades, se apoderou de Roma e mandou o Papa para o exílio, onde morreu.
 
Fonte: http://www.santiebeati.it/