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Relicário |
Quando da perseguição aos cristãos, no Ocidente, urgia igualmente proteger as relíquias dos santos. Por isso, os restos mortais da avó do Salvador foram inumados na cripta de uma igreja. É o que atesta “O Martirológio de Apt”. Trata-se da fonte mais antiga, mencionando o fato. Outra versão narra que os cruzados trasladaram da Terra Santa os restos mortais da genitora de Maria Santíssima, evitando que fossem violados pelos pagãos.
Santo Auspicio, bispo de Apta Julia, teve o cuidado de salvaguardar esse tesouro sagrado, colocando-o em segurança no jazigo subterrâneo de uma igreja. Graças a previdência de Santo Auspicio as relíquias foram preservadas das terríveis destruições dos sarracenos, dos alanos, suevos, vândalos e outros bárbaros.
Os ataques bélicos e o desgaste dos anos arruinaram as paredes do templo. Com isso, o lugar do túmulo foi ficando esquecido.
No final do século VIII, após a vitória de Carlos Magno sobre os sarracenos, a paz voltou a reinar na Gália. Carlos Magno se hospedou em Apt por volta da Páscoa. O primeiro ato de Carlos Magno ao chegar em Apt foi ordenar que a igreja que fora profanada pelos cultos ímpios fosse reconsagrada.
Construiu-se em Apt uma nova igreja sobre os escombros da primitiva. As escavações depararam-se com estruturas fortalecidas. Conta-se que no domingo de Páscoa de 792, na cerimônia de dedicação do novo templo, as relíquias da Mãe da Virgem de Nazaré foram descobertas,
Um milagre impressionante e uma graça inesperada permitiu que o tesouro desconhecido das relíquias de Sant’Ana fosse revelado. Um jovem cego de 14 anos surdo e mudo de nascença, filho do Barão de Caseneuve, estava presente no santuário. Durante a solenidade, o jovem apontava insistentemente para o lugar da tumba na cripta, como se estivesse vendo algo.
Terminada a missa, Carlos Magno ordenou a escavação no local indicado pelo jovem. Removeram-se as escadarias atrás do altar, aparecendo uma porta lacrada com enormes pedras. Era a entrada da cripta, onde Santo Auspicio costumava celebrar a Santa Missa. “O corpo de Sant’Ana, a mãe de Maria, está descansando ali”, palavras do jovem, que começou a falar, quando avistaram a sepultura. Diante desse acontecimento considerado miraculoso, a multidão presente na Igreja prostrou-se de joelhos. No ataúde havia uma inscrição: “Aqui jaz o corpo da Beata Ana, a mãe da Virgem Maria”.
O cofre foi aberto e uma doce fragrância se espalhou pelas criptas confirmando o milagre. O arcebispo Turpin, após tomar o cofre, colocou-o nos braços de Carlos Magno para que fosse beijado em sinal de alegria e consolo. Carlos Magno ordenou que o relato de todos os acontecimentos fosse registrado por escrito e submetido ao Papa, que o aprovou emitindo um diploma.
Tal relato consta dos documentos atribuídos ao Papa Leão III, aos quais se anexou um relatório eventualmente escrito pelo próprio Imperador, o qual fora coroado por aquele Pontífice. Conserva-se ainda cópia dessa documentação.
As autoridades das principais cidades gaulesas e de outras nações apressaram-se em pedir à Igreja partes do corpo santificado. Fragmentos foram destinados a várias localidades (como Düren, na Alemanha), sendo doados por soberanos e prelados.
Grande parte do corpo sagrado de Sant’Ana repousa em Apt, numa capela-túmulo construída por Ana da Áustria, Rainha da França. Clemente VII concedia indulgências aos peregrinos que ali acorriam.
Partículas dos ossos espalhadas por vários países contribuíram para disseminar a devoção à mãe de Nossa Senhora. Hanna é muito estimada pelos judeus. Descendia do sacerdote Aarão, desposada por Joaquim, oriundo da família real de Davi. Dessa nobreza nasceu a Mãe do Salvador.
As famílias reais portuguesa e imperial brasileira dedicavam devoção especial à genitora de Nossa Senhora, a ponto de ser designada protetora da Casa da Moeda do Brasil. Sant’Ana é co-patrona do Rio de Janeiro e de São Paulo, padroeira de Goiás, de centenas de paróquias e do Seridó potiguar (onde viveram flamengos judeus e católicos lusitanos), bem como titular da sé episcopal de Caicó.
Excertos de 'Les Petits Bollandistes' vol. IX pp



















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