domingo, 1 de fevereiro de 2026

Santa Joana de Lestonnac, Viúva e Fundadora - 2 de fevereiro

     
     Numa fria manhã de 1556, Ricardo de Lestonnac, nobre magistrado e conselheiro do rei, que preside seu lar em Bordéus (França), recebeu do céu uma bênção: a primogênita, Joana, que encherá a nobre morada com a luz de seus olhos azuis e de seu encanto especial. Joana Eyquen de Montaigne, a nobre castelã, recebeu em seus braços com alegria a pequenina, mas se opõe tenazmente que a filha receba o batismo católico. A vontade firme do pai triunfa e Joaninha começa sua vida no campo do combate familiar, o que colocará em grave perigo a pureza de sua fé.
     O veneno é inoculado por meio de carícias maternas: historietas maliciosas contra os sacerdotes e o Vigário de Cristo, ausência total da Virgem Santíssima. Desta forma a nova apóstata calvinista tentava trazer para si o terno coração da pequena, a quem o tio, o célebre filósofo Miguel de Montaigne, chamou sem titubear "bela princesa, albergada num magnífico palácio".
     Seus tios, os senhores de Beauregard, se unem à mãe herege neste trabalho. Mas Miguel de Montaigne velava pela guarda de sua fé. A menina triunfou na luta com a firme ajuda de seu pai e com a cooperação de seu irmão Guy, que repetia à noite o que aprendera no colégio que frequentava, dirigido pelos padres jesuítas. Era a nova Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio, que chegara a Bordéus.
     A devoção a Nossa Senhora se enraizou em sua alma, e seu desejo de sacrificar o porvir brilhante que o mundo lhe oferecia pela vida religiosa, cedeu somente diante da insistência paterna que teme os claustros e mosteiros invadidos pela heresia calvinista.
     Tendo Joana dezessete anos, o pai, atendendo aos insistentes pedidos de Gastão de Montferrant, Barão de Landiras e de la Mothe, concedeu-lhe a mão da filha. A vida matrimonial foi muito sólida e Joana foi mãe oito vezes. Os três primeiros morreram muito pequeninos. Os outros cinco - dois varões e três mulheres - foram crescendo sob o olhar atento da mãe.
     A baronesa, como a mulher forte do Evangelho, ensinava aos filhos os deveres da caridade católica: visitas aos pobres, aos colonos, atendimento abnegado aos pobres que lhes batem à porta. Não sem razão o mundo inteiro a chamaria um dia de "honra e glória da França e da Igreja".
     Em 1597, após 24 anos de matrimônio, Gastão de Montferrant faleceu. Seguiram-se grandes dores e tristezas: a morte do esposo, do filho mais velho, do pai e do tio. Joana ficou só e continuou com fortaleza a educação dos quatro filhos que lhe restaram.
     Seis anos mais tarde, tendo seu filho Francisco se casado e suas filhas Marta e Madalena se consagrado a Jesus nas Anunciadas de Bordéus, resolveu deixar a filha mais nova, Joaninha, sob os cuidados de Francisco e da esposa, e ingressar no convento.
     Na manhã de sua partida, saiu muito cedo do palácio para evitar as despedidas, porém, seu coração de mãe ainda enfrentou mais um sacrifício: é surpreendida com a súbita chegada da filha mais nova, que se lança em seus braços desfeita em prantos e pedindo para ela não deixar Bordéus.
     Aos 46 anos de idade, ela ingressou no Mosteiro Cisterciense de Toulouse. Mudou seu nome para Joana de São Bernardo. Este ramo feminino dos Cistercienses reformados nascera na Abadia de Feuillant, na Gasconha, para reagir à decadência da Ordem.
     Seis meses após ter vestido o santo hábito, sua palidez preocupava a comunidade e suas rigorosas penitências esgotaram suas forças por completo. A Madre Superiora a convenceu a voltar para o seu castelo.
     Naquela noite, esforçando-se para aceitar a vontade de Deus e mais esta prova, teve uma visão celestial que a faz ver o abismo do inferno. Nele caem muitas jovens em espantoso torvelinho e estendiam os braços implorando seu auxílio. Sobre este quadro espantoso apareceu magnífica e grandiosa a imagem de Maria. Ela compreendeu a vontade de Deus. A futura Companhia de Maria, em benefício da juventude feminina, começou a delinear-se naquela última vigília no convento cisterciense.
     Após deixar o mosteiro, Joana se retirou em La Mothe. Em 1605, encontrava-se em Bordéus e trabalhava como voluntária com outras senhoras e moças durante uma epidemia de peste, e aí descobriu sua vocação: o trabalho na sociedade, entre as jovens mais necessitadas de ajuda e instrução. Foi visitando e cuidando das pessoas nas regiões mais pobres da cidade, e em contato com as jovens que eram atraídas pelo chamado de Deus e por sua personalidade, que ela desejou realizar o trabalho apostólico que a atraia. Ela percebeu que a espiritualidade inaciana expressava sua própria espiritualidade.
     Ela manteve contatos com dois Jesuítas, Pe. de Bordes e Pe. Raimundo, que compartilhavam suas preocupações. O Papa Paulo V aprovou a fundação da Companhia de Nossa Senhora em 7 de abril de 1607.
     Em 11 de março de 1608, diante da generosa resposta de cinco primeiras companheiras, a cidade de Bordéus, engalanada, participou da tomada de hábito das religiosas que iniciaram o combate da Companhia de Maria.
     O Cardeal François d’Escoubleau de Sourdis, inicialmente protetor da obra, desejou mais tarde ligá-la às Ursulinas, e lhes negou a profissão em maio de 1610. Porém, a 7 de dezembro, em seu castelo de Lormont, recebeu uma graça particular da Santíssima Virgem que advogava em favor de suas filhas, e, na festividade da Imaculada, o mosteiro de Joana assistiu à profissão da fundadora e de suas primeiras companheiras, que já eram nove.
     Como todas as obras de Deus, forte vendaval de perseguição sacodiu a ainda frágil árvore. Por isso mesmo ela se enraizou mais fortemente e em breve as sementes lançadas germinarão: antes que a alma da fundadora voasse para o Céu, são quarenta as novas preciosas e florescentes ramagens. Joana enfrentou desde os desprezos de Lucia de Teula, fundadora frustrada de Toulouse, que não lhe poupou insultos e perseguições, até a traição de uma de suas filhas, única infiel no grupo de suas primeiras religiosas, que cedendo a uma tentação ambiciosa fez chegar ao prelado falsas acusações.
     "A parte que Jesus nos dá de sua Cruz nos faz conhecer quanto Ele nos ama", repetiria mais tarde a Santa fundadora.
     Em 1622, retiraram-lhe o cargo e ela deixou Bordéus. Entretanto, as outras casas continuam a dedicar-lhe a estima, o afeto e a confiança devidos à Fundadora da Ordem. Ela é considerada a Madre Geral, mesmo que o status lhe é recusado pela Igreja, e que ela não possa se comunicar com as outras casas naquele terrível período.
     A Fundadora, relativamente idosa, parte para fundar uma casa em Pau. Ela aí permaneceu até 1634, se ocupando da organização da vida da nova fundação e ensinando as meninas mais pobres. Num silêncio santo e exemplar, deixava admirados todos quantos tinham a dita de tratar com ela.
     No fim de seu mandato, em 1626, a superiora ingrata reconheceu seus erros e pediu publicamente perdão a Santa Joana de Lestonnac.
     A pedido dos superiores e por insistência do Cardeal de Sourdis, ela retornou a Bordéus para consagrar seus últimos anos à redação definitiva das Constituições que foram impressas em 1638. Todas as casas e a Ordem viverão sob estas Constituições em qualquer parte do mundo onde elas estiverem.
     No dia 2 de fevereiro de 1640, a religiosa que possuía uma grande devoção a Eucaristia, a Santíssima Virgem - a quem consagrou sua companhia -, que tributava um culto muito especial a seu anjo da guarda, a mãe caridosa e boa que distribuía aos mais necessitados os remédios adquiridos para a comunidade, após uma enfermidade rápida, rodeada de suas filhas e pronunciando com doçura celestial os nomes de Jesus, Maria e José, entregou sua alma a Deus, em meio a veneração e ao amor de filhas que viviam nas quarenta casas do Instituto.
     A ignominiosa Revolução Francesa profanou seus veneráveis despojos, enterrando-os junto à ossada de um cavalo. Ao fim da Revolução, o zelo e o amor da Madre Duterrail conseguiram, ao restaurar as casas da França após trabalhos imensos, encontrar os restos venerandos da Fundadora.
     Transcorridos trezentos anos de espera, Joana de Lestonnac foi beatificada pelo Papa Leão XIII em 1900, e, no dia 15 de maio de 1949, canonizada por Pio XII.
     O lema da Santa, "ou trabalhar ou morrer pela maior glória de Deus", ainda hoje ressoa como o ideal a ser vivido por suas filhas nas cento e cinquentas casas da Companhia de Nossa Senhora.
 
Fontes: www.santiebeati.it - Domenico Agasso; Ciclo Santoral, Maria Angeles Viguri, ODN

Santa Jacinta de Marescotti, Padroeira de Viterbo - 30 de janeiro

      
     Clarice de Marescotti era filha de Marcantonio Marescotti e Otávia Orsini, Condessa de Vignanello, localidade próxima de Viterbo, Itália, onde nasceu provavelmente no dia 16 de março de 1585.
     De seus pais recebeu profunda formação religiosa. Entretanto, atingindo a adolescência, Clarice, nobre, bela, tornou-se vaidosa e mundana, buscando apenas divertir-se. Sua preocupação passou a ser vestidos, adornos, entretenimentos e um casamento digno de sua classe social.
     Seu pai se preocupava muito com a salvação da filha. Resolveu mandá-la para o convento onde já estava sua irmã mais velha, que lá era um exemplo de virtude. Clarice foi de má vontade, mas como terceira franciscana, pois alimentava o desejo de sair dele o mais rápido possível para voltar à vida de antes. Tanto insistiu que o pai acabou cedendo.
     Mas fora ela não encontrou o que esperava: nenhum casamento apareceu e Clarice viu ainda sua irmã mais nova, Hortência, casar-se com o marquês romano Paulo Capizucci e ela ficar para trás.
     Por insistência da família ela retornou àquele mesmo convento das religiosas da Ordem Terceira Franciscana regular, desta vez como freira, tomando o nome de Jacinta.
     Mas, julgando ela que as celas das freiras eram muito pequenas e pobres, mandou construir uma especial para si, de acordo com sua posição social. Sua cela parecia um bazar pelos luxuosos adornos. Aquilo poderia ficar bem num palácio, destoava do ambiente do convento. Sua piedade é tíbia; a mortificação prescrita, um tédio; até recebe as admoestações com desprezo. Por dez anos levou no convento uma vida mundana.
     Quando completou 30 anos, chegou a hora de Deus e surgiu potente a nobre e católica linhagem que levava dentro de si. Uma grave doença a faz refletir sobre o fogo do Purgatório e do Inferno; tremeu de terror e clamou pelo confessor.
     O Pe. Antônio Biochetti, virtuoso sacerdote, foi atender a doente. Mas, entrando naquele quarto luxuoso recusou-se atender a confissão da freira, dizendo que o Paraíso não era feito para os soberbos. Chorando perguntou-lhe: "Então não há mais salvação para mim?". "Sim — respondeu o religioso — contanto que deixe esses vãos adornos, essas vestimentas suntuosas, e se torne humilde, piedosa, esqueça o mundo e pense só nas coisas do Céu".
     Na manhã seguinte, após ter trocado sua roupa de seda por um pobre hábito, Jacinta fez sua confissão geral com um verdadeiro arrependimento. Depois, no refeitório, aplicou-se forte disciplina diante das irmãs e pediu-lhes perdão pelos maus exemplos que havia dado.
     Nova enfermidade fez com que a ruptura com a vida antiga fosse total. Entregou tudo o que possuía para a superiora e revestiu-se com a mortalha de uma freira que acabava de morrer. Fez o propósito de romper com tudo aquilo que lhe lembrava a antiga vida. Desde então passou a ser chamada de Jacinta de Santa Maria e não mais de Marescotti.
     Trocou sua cama por um feixe de lenha, tendo uma pedra como travesseiro; mortificava-se dia e noite, tomando tão ásperas disciplinas, que o solo de sua cela ficava manchado de sangue. Às sextas-feiras, em memória da sede que Nosso Senhor sofreu na Paixão, colocava um punhado de sal na boca. Sua alimentação passou a ser pão e água. Durante a Quaresma e o Advento, vivia de verduras e raízes apenas cozidas na água.
     Considerando-se como a pior pecadora, escolheu para patronos santos que tinham ofendido a Deus antes de se converterem, como Santo Agostinho, Santa Maria Egipcíaca e Santa Margarida de Cortona. Era devota do Arcanjo São Miguel, amava a contemplação da Paixão de Jesus Cristo, a Missa a levava às lágrimas, as imagens da Virgem Santíssima eram seu refúgio.
     Procurava toda ocasião para se humilhar. Às vezes ia ao refeitório com uma corda ao pescoço, ajoelhava-se diante das freiras, beijava-lhes os pés pedindo perdão pelos maus exemplos passados.
     Ela escreveu a uma religiosa: "Há 14 anos que eu mudei de vida. Durante esse tempo eu rezei algumas vezes quarenta horas seguidas, assisti todos os dias a várias missas, e me encontro ainda longe da perfeição. Quando poderei servir meu Deus como Ele merece? Reze por mim, minha amiga, para que o Senhor me dê ao menos a esperança".
     Embora se considerasse a mulher mais pecadora, a nomeiam subpriora e mestra de noviças. E a fama de suas virtudes propaga-se por toda a região. Deus recompensou sua fiel serva com dons extraordinários como o de profecia, milagres, conhecer os corações, ser instrumento de conversões e frequentes êxtases.
     A conversão de Francisco Pacini, célebre por seus desmandos, tornou-se famosa. Ouvindo falar dele, a Santa fez jejuns e orações por sua conversão. Convencido por um amigo convertido por Jacinta, Pacini vai ao convento falar com ela. No parlatório, diante daquela pobre freira, começou a tremer e à medida que ela falava, ele foi se transformando, caiu de joelhos e prometeu confessar-se.
     No domingo seguinte, o da Paixão, com os pés descalços e uma corda no pescoço, Pacini, no meio da Igreja pediu perdão a todos por seus crimes e escândalos. Mais tarde revestiu o hábito de peregrino e consagrou sua vida a Deus.
     Jacinta reformou muitos conventos com cartas escritas às superioras relaxadas, admoestando-as dos castigos que as ameaçavam. Por sugestão sua a Duquesa de Farnese e de Savella fundou dois mosteiros de clarissas, um em Farnese, outro em Roma.
     Ela se preocupava com as almas que se extraviavam no pecado e para sua recuperação fundou duas confrarias: a Companhia dos Sacconi, para atendimento material dos enfermos e para ajudá-los a morrer bem; e a Congregação dos Oblatos de Maria para incentivar a piedade, fazer obras de caridade e fomentar o apostolado dos leigos.
     Como não tinha voto de clausura, Jacinta ia visitar os pobres, levando-lhes sempre o auxílio espiritual, além do material. Em seu grande apreço pela nobreza dava assistência especialmente aos nobres empobrecidos e envergonhados.
     Santa Jacinta de Marescotti entregou sua bela alma a Deus em 30 de janeiro de 1640. Foi canonizada em 1807 pelo Papa Pio VII. É festejada no dia de seu nascimento para o Céu.
 
Fontes: Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après le Père Giry, Paris, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, 1882, tomo II, pp. 348 a 356 ; Manuel de Castro, O.F.M., Santa Jacinta de Marescotti, in Santoral Franciscano.