segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Santas Fosca e Maura, Martires - 13 de fevereiro

     
     A Passio dessas duas santas narra que Fosca, nascida de uma família pagã de Ravena, aos 15 anos se sentiu inspirada a tornar-se cristã. Ela confidenciou à sua ama, Maura, o desejo de se tornar cristã. Juntas procuraram o sacerdote Ermolao que as ensinou na fé e as batizou. Nenhuma das tentativas de seu pai, Siroi, de induzi-la a voltar à fé de seus pais alcançou resultado. Fosca foi denunciada ao prefeito Quinziano, mas os homens enviados para prendê-la encontraram-na com um anjo e não obtiveram sucesso em seu objetivo.
    Então, Fosca e Maura se apresentaram espontaneamente a Quinziano, foram processadas, cruelmente torturadas e finalmente decapitadas em 13 de fevereiro. Seus corpos foram atirados ao mar, milagrosamente recolhidos e sepultados em costas longínquas por mãos piedosas.
     Séculos depois, a região onde seus corpos haviam sido sepultados foi ocupada por pagãos (árabes). Um cristão chamado Vital, por inspiração divina, levou as relíquias para a Itália, para a ilha de Torcello, na laguna de Veneza, onde uma igreja foi construída em honra das duas mártires.
     A Passio não oferece elementos históricos, mas os hagiógrafos posteriores, ratificados pelo Martirológio Romano, acreditam que o martírio teve lugar durante a perseguição de Décio, assumindo que o prefeito Quinziano é o mesmo "consularis provinciae Siciliae" que martirizou Santa Ágata.
     Lanzoni acredita que estas Atas não anteriores ao século XIV são desprovidas de credibilidade. Segundo ele, as Passio de Santa Ágata e dos Santos Fermo e Rustico, bem como as de Fosca e Maura, não têm nenhum outro propósito além de dar um nome e uma história às relíquias de mártires roubadas e levadas para a pátria por navegantes venezianos. No entanto, é absolutamente impossível que essas supostas santas possam ter sido martirizadas em Ravena, onde as fontes antigas não reconhecem nenhum outro mártir além de Apolinário.
    Algumas observações sobre estas conclusões de Lanzoni: primeiro, a mencionada Passio é certamente anterior ao século XIV: na verdade, a relatam dois códices do século XIII e, mais brevemente um no século. XII. Que as relíquias chegaram a Torcello da África também é confirmado pelos dois nomes, Fosca e Maura, utilizados na Itália como adjetivos para indicar indivíduos africanos. Isso nos garante uma vez mais que as mártires à quem são acreditadas as relíquias eram anônimas no início e então desconhecidas.
     Quanto ao relacionamento com Ravena, ele tem uma origem simplesmente "arquitetônica": a Igreja de Santa Fosca, que constitui um grupo unificado com a basílica e com o batistério de Torcello, é o mais antigo monumento de Veneza que se inspira visivelmente no gosto pelo bizantino de Ravena (que mais tarde se tornou um dos determinantes do veneziano), podendo fazer pensar com grande probabilidade em um arquiteto do Exarcado. A semelhança (embora em escala reduzida) desse monumento com o de São Vital em Ravenna e o aparecimento precisamente do nome Vital na Passio como a do homem que trouxe os corpos das santas para a ilha, só confirma esta hipótese. Ora, a igreja é precisamente do século XII, como a mais antiga cópia da Passio.
     O que importa, aparte a existência de dados históricos ou não, é que existe uma devoção secular a estas santas, e uma devoção que perdura por tantos séculos não pode ser confundida com um fanatismo cego e irracional. Deus tem seus desígnios e, por outro lado, naqueles longínquos tempos invasões, saques e incêndios muitas vezes reduziam à ruinas igrejas e mosteiros, e com eles a possibilidade de reconstruir muitas histórias apenas transmitidas oralmente e com as possíveis distorções.

Fonte: www.santiebeati.it/
Autor: Giovanni Lucchesi

Etimologia: Fosca ou Fosco, do latim Fuscus: “fusco, moreno”.

Maura ou Mauro, do latim Maurus, do grego Mauros: “nativo da Mauritânia” (África setentrional); ou “pardo como um mouro”.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

As aparições de Lourdes - 11 de fevereiro

     
     As aparições de Nossa Senhora de Lourdes começaram no dia 11 de fevereiro de 1858, quando Bernadete Soubirous, camponesa com 14 anos, foi questionada por sua mãe, pois afirmava ter visto uma "dama" na gruta de Massabielle, cerca de uma milha da cidade, enquanto ela estava recolhendo lenha com a irmã e uma amiga. A "dama" também apareceu em outras ocasiões para Bernadete até os dezessete anos.
   Bernadete Soubirous foi canonizada. A primeira aparição da "Senhora", relatada por Bernadete foi em 11 de fevereiro. O Papa Pio IX autorizou o bispo local permitir a veneração da Virgem Maria em Lourdes, em 1862.
     Em 11 de fevereiro de 1858, Bernadete Soubirous foi, com a irmã Toinette e Jeanne Abadie, recolher um pouco de lenha, a fim de vendê-la e poder comprar pão. Quando ela tirou os sapatos e as meias para atravessar a água, junto à da gruta de Massabielle, ela ouviu o som de duas rajadas de vento, mas as árvores e os arbustos não se mexiam. Bernadete viu uma luz na gruta e uma menina, tão pequena como ela, vestida de branco, com uma faixa-azul presa em sua cintura com um rosário em suas mãos em oração e rosas de ouro amarelo, uma em cada pé. Bernadete tentou manter isso em segredo, mas Toinette disse a mãe. Por essa razão ela e sua irmã receberam castigo corporal pela sua história. Três dias depois, Bernadete voltou à gruta com as outras duas meninas. Ela levou água benta para utilizar na aparição, a fim testá-la e saber se não "era maligna", porém a visão apenas inclinou a cabeça com gratidão quando a água foi dada a ela.
     Em 18 de fevereiro, ela foi informada pela senhora para retornar à gruta, durante um período de duas semanas. A senhora teria dito: "Eu prometo fazer você feliz não neste mundo, mas no próximo". Após a notícia se espalhar, as autoridades policiais e municipais começaram a ter interesse. Bernadete foi proibida pelos pais e o comissário de polícia Jacomet de ir lá novamente, mas ela foi assim mesmo.                                                                   
     No dia 24 de fevereiro a aparição pediu oração e penitência pela conversão dos pecadores. No dia seguinte, a aparição convidou Bernadete a cavar o chão e beber a água da nascente que encontrou lá.
     Como a notícia se espalhou, essa água, foi administrada em pacientes de todos os tipos, e muitas curas milagrosas foram noticiadas. Sete dessas curas foram confirmados como desprovidas de qualquer explicação médica pelo Prof. Verges, em 1860. A primeira pessoa com um milagre certificado era uma mulher, cuja mão direita tinha sido deformada em consequência de um acidente. O governo vedou a Gruta e emitiu sanções mais duras para alguém que tentasse chegar perto da área fora dos limites. No processo, as aparições de Lourdes tornaram-se uma questão nacional na França, resultando na intervenção do imperador Napoleão III, com uma ordem para reabrir a gruta em 4 de outubro de 1858 de 1858. A Igreja decidiu ficar completamente longe da polêmica.
     Bernadete, conhecendo as localidades bem, conseguiu visitar a gruta à noite, mesmo quando vedada pelo governo. Lá, em 25 de março, a aparição lhe disse: "Eu sou a Imaculada Conceição" ("que soy era Immaculada concepciou").
     No domingo de Páscoa, 7 de abril, o médico examinou Bernadete e observou que suas mãos seguravam uma vela acesa e mesmo assim não possuíam quaisquer queimaduras. Em 16 de julho, Bernadete foi pela última vez à Gruta e relatou que "Eu nunca a tinha visto tão bonita antes". 
     A Igreja, diante de perguntas de nível nacional, decidiu instituir uma comissão de inquérito, em 17 de novembro de 1858. Em 18 de janeiro de 1860, o bispo local declarou que: "A Virgem Maria apareceu de fato a Bernadete Soubirous". Estes eventos estabeleceram o culto mariano de Lourdes, que, juntamente com Fátima, é um dos santuários marianos mais frequentados no mundo, ao qual viajam anualmente entre 4 a 6 milhões de peregrinos.
     A veracidade das aparições de Lourdes não são um artigo de fé para os católicos. Não obstante todos os últimos Papas visitaram este local. Bento XV, Pio XI e João XXIII foram quando ainda eram bispos, Pio XII como delegado papal. Ele também declarou uma peregrinação a Lourdes em uma Encíclica na comemoração do 100º aniversário das aparições, completados em 1958. João Paulo II visitou Lourdes três vezes e o Papa Bento XVI concluiu uma visita lá em 15 de setembro de 2008 para comemorar o 150º aniversário das aparições em 1858. 

A Basílica de Lourdes

Santa Bernadete em fins de outubro de 1873
Reflexão:
     Nossa Senhora, que tem pena das almas, para provar que a Fé Católica é verdadeira pratica milagres para operar conversões. Nisso Nossa Senhora nos dá um grande ensinamento. Ela mostra, pela bondade dEla em Lourdes que Ela é nossa Mãe, que Ela quer e pode praticar maravilhas por nós, e Ela as pratica. E, entretanto, a maior parte dos doentes que vão lá voltam sem terem sido curados.
     Mas, há em Lourdes outro aspecto. São inúmeros doentes que vão a Lourdes, e voltam sem terem sido curados. Por que razão Nossa Senhora opera a cura de uns e não opera a cura de outros? Qual é o mistério?
     Eu creio que é um dos mais estupendos milagres de Lourdes. Se a gente prestar bem atenção, passa-se o seguinte: para a grande maioria das almas o sofrimento é necessário para a santificação. Então, as doenças bem levadas são meios para a santificação. Por meio de doenças e provações espirituais a pessoa se santifica. E quem não compreende o papel do sofrimento e da dor para operar nas almas o desapego, o amor de Deus, e a regeneração, não compreende absolutamente nada.

     São Francisco de Salles chegou a afirmar que o sofrimento é verdadeiramente o 8º sacramento, de tal maneira ele é indispensável.

Excerto extraído do blog Lourdes e suas aparições
(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra proferida em 6/2/1965. Sem revisão do autor)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Santa Austreberta, Abadessa de Pavilly – 10 de fevereiro

Martirológio Romano: No território de Rouen na Neustria, hoje na França, Santa Austreberta, virgem e abadessa, que viveu santamente no mosteiro de Pavilly que fora recentemente fundado por Santo Audoeno, bispo

     Austreberta (Austreberthe ou Eustreberta) nasceu por volta de 630 em Marconne, perto de Hesdin, na diocese de Thérouanne, na antiga região de Artois, hoje departamento de Pas-de-Calais. Seus pais eram ilustres: Badefrido, era um dos primeiros oficiais da casa do Rei Dagoberto I; Frameilde ou Framechidis, da família dos reis alemães, foi honrada como santa.
     Desde pequena a Santa mostrava um fervor incrível na oração e no exercício da meditação. Um dia, quando contemplava sua imagem refletida na água, viu um véu sobre sua cabeça; aquela estranha experiência lhe produziu uma impressão permanente.
     Aos 12 anos, ao saber que a família a destinava a um matrimônio, fugiu acompanhada de seu irmão mais novo e foi ter com Santo Omer (595-670) bispo de Thérouane e abade de Abbeville, que lhe imporia o véu de virgem consagrada a pedido dela, mas este, ao saber quem ela era, e pensando o quão preocupados estariam seus pais, a persuadiu a voltar para casa. Naqueles anos o Santo, cujo nome latino era Audoaro, era bispo de Thérouanne, depois de ter vivido por 20 no convento beneditino de Luxeuil.
     Voltando para a família, Austreberta conseguiu convencer os pais da beleza da via que escolhera. Decidiu assim viver a própria vocação entrando no convento de Abbeville, dito Port-sur-Somme. Ali recebeu o véu das mãos de Santo Audoaro.
     Logo ganhou todos os corações com sua piedade e humildade. Ela mesma estava feliz naquela comunidade tão devota e observante.
     Conta-se que um dia, quando Austreberta assava o pão para a comunidade, as chamas iam se extinguindo no forno quente. Os pães estavam prontos e só faltava tirar as brasas. A Santa enfiou a vassoura que pegou fogo e encheu o forno de chamas. Temendo que os pães queimassem, ela primeiro fechou a porta da cozinha e depois, inclinando-se entre as chamas, que não lhe fizeram nenhum mal, limpou o interior do forno com suas mãos e tirou os pães. À jovem que assistiu perplexa a cena, Austreberta pediu que não dissesse nada a ninguém, e continuou tranquilamente seu trabalho, sem nenhuma queimadura nem em si nem nas roupas. A Santa relatou o fato ao seu confessor, que a aconselhou a não mais repetir o fato.
     Após 14 anos, São Felisberto, o fundador da Abadia de Jumièges, procurou-a para que fosse governar o mosteiro feminino fundado em Pavilly, Caux, perto de Rouen. O local e os fundos necessários para a fundação tinham sido doados por Amalberto, senhor do local, cuja filha, Aurea, também receberia o véu no novo mosteiro.
     Santo Audoaro continuou a assistir Austreberta com seus conselhos e abençoou a igreja da nova abadia, sem dúvida com a autorização de Santo Audoeno, bispo do local.
     Austreberta governou o mosteiro aliando a doçura à firmeza. Dura consigo mesma, era cheia de bondade com as religiosas. Ela não exigia nada que ela mesma não era a primeira a fazer. Uma noite em que as monjas tinham voltado a dormir após a recitação de Matinas, Austreberta foi ao dormitório para examinar se tudo estava em ordem. O ruído que ela fez despertou a priora. Esta, que acreditava tratar-se de uma simples religiosa, repreendeu-a por faltar com a regra e ordenou que por penitência ela fosse rezar diante da cruz no centro do claustro. A Santa obedeceu sem replicar e passou o resto da noite aos pés do crucifixo. A priora só percebeu seu engano na manhã quando foi à igreja com as outras religiosas. Ela se aproximou da abadessa e pediu-lhe perdão, que foi prontamente concedido.
     Durante 40 anos Austreberta dirigiu a nova fundação. Uma febre anunciou que sua morte estava próxima. Ela pediu para ser levada ao local onde a comunidade se reunia e falou com grande unção sobre as principais virtudes. Nos dias seguintes ela se tornou mais introspectiva. Após receber o viático, faleceu tranquilamente: era o dia 10 de fevereiro, provavelmente no ano de 704. As suas relíquias foram transferidas para Montreuil-sur-Mer por ocasião das invasões normandas e hoje ela é patrona de Barentin, perto de Rouen, cujo rio tomou o nome de Austreberthe.
     A Santa fez construir três igrejas dedicadas à Virgem Santíssima em Saint Martin e em Saint Pierre. Ela tornou-se famosa por suas visões e pelos milagres que operou. Há uma cidade com o nome de Sainte-Austreberthe em veneração a ela. 
     O mosteiro de Pavilly foi destruído pelos normandos no século IX. Fugindo das invasões normandas, as religiosas de Pavilly encontraram refúgio em Montreuil (Pas-de-Calais) e fundaram a Abadia Santa Austreberta. Em 1090 o Abade Gautier I da Abadia da Trindade du Mont restaurou um priorado no local onde ele existiu. Abandonado em 1717, a capela foi resgatada e voltou a ser utilizada em 1860.
     Em 1803 as religiosas doaram o tesouro de arte sacra de Pavilly à Montreuil e à comuna. Este ainda hoje se conserva na Abacial Saint-Saulve em Montreuil. Entre as peças do tesouro, a cruz de Santa Austreberta.
 
A legenda: Austreberta e o lobo
     Santa Austreberta e suas religiosas lavavam as roupas brancas da Abadia de Jumièges, distante algumas léguas de Pavilly. Um burro transportava sozinho as roupas de um mosteiro ao outro, tão habituado estava a fazer este trabalho. Um dia, o burro ficou face a face com um lobo que o devorou.
     Segundo a tradição, Austreberta saiu para buscar um burro desaparecido. Seguindo um rastro de sangue, chegou até um lobo. A santa o repreendeu e o perdoou, porém o condenou a realizar o serviço do burro com humildade e submissão. O lobo cumpriu esta tarefa o resto de sua vida.
     No local onde o burro morreu uma capela foi erigida no século VII e quando o monumento ruiu, uma simples cruz de pedra o substituiu. Por sua vez ela foi substituída por um carvalho chamado carvalho do burro.
     Isto deu lugar à uma festa popular: a festa do lobo verde. Cada ano um jovem, vestido com uma pele de lobo verde e carregando roupas, ia das margens do Canche até a Abadia de Jumièges. Era a festa do “Verde”. A festa do “Verde” foi transferida para 24 de junho, dia de São João Batista. Nesta data a roupa verde é atribuída a um outro homem por um ano.
     Santa Austreberta é patrona das lavadeiras e das lavanderias.

Fontes:
Alban Butler : Vie des Pères, Martyrs et autres principaux Saints… – Traduction : Jean-François Godescard.


                                                                                                                    



terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Santa Josefina Bakhita, religiosa – 8 de fevereiro

     
    O nome Bakhita, que significa "afortunada" ou "bem-aventurada", não lhe foi dado ao nascer, mas lhe foi atribuído pelos raptores, pois ela ficara tão abalada ao ser capturada, que esqueceu seu verdadeiro nome.
     Segundo consta de sua autobiografia, ela era originária da aldeia de Olgossa (a pronúncia é “algoz” e em árabe significa “dunas de areia”), em Darfur, Sudão, país africano de predominância islâmica, e que 1869 deve ter sido o ano de seu nascimento. Crescera junto a seus pais, três irmãos e duas irmãs, uma delas gêmea sua. Seu pai possuía terras, plantações e gado, era irmão do chefe da aldeia. Era uma família muito unida.
     Não devemos nos esquecer de que, apesar de possuírem terras, gado, etc., viviam numa aldeia onde as cabanas eram de barro com telhado de palha. Todos nas aldeias estavam sujeitos ao grande perigo que eram os bandos negreiros que raptavam homens, mulheres e crianças para negociar no mercado de escravos.
     No ano de 1874 sua irmã mais velha foi raptada. A dor dilacerou o coração daquela família tão unida e feliz. Em sua biografia ela escreveu: “Lembro-me quanto chorou mamãe e quanto choramos todos”.
     No ano de 1876, com mais ou menos 7 anos de idade, foi raptada e arrancada do seio de sua família. A pequena, tomada de pavor, foi levada brutalmente por dois árabes e foram eles que lhe impuseram o nome de “Bakhita”.
     A pequena escrava, depois de um mês de prisão, foi vendida a um mercador de escravos. Na ânsia de voltar para casa, Bakhita se armou de coragem e tentou fugir. Porém, foi capturada por um pastor e revendida a outro árabe, homem feroz e cruel, que, por sua vez, revendeu-a a outro mercador de escravos. Foi vendida e comprada várias vezes nos mercados de El Obeid e de Cartum. Foi vendida a um general turco, cuja esposa era mulher terrivelmente má; desejou marcar suas escravas e Bakhita estava entre elas. Chamou então uma tatuadora. Eis como a Santa narra o fato:
     "Uma mulher habilidosa nesta arte cruel (tatuagem) veio à casa principal... nossa patroa colocou-se atrás de nós, com o chicote nas mãos. A mulher trazia uma vasilha com farinha branca, uma vasilha com sal e uma navalha. Quando terminou de desenhar com a farinha, a mulher pegou da navalha e começou a fazer cortes seguindo o padrão desenhado. O sal foi aplicado em cada ferida... Meu rosto foi poupado, mas 6 desenhos foram feitos em meus seios, e mais 60 em minha barriga e braços. Pensei que fosse morrer, principalmente quando o sal era aplicado nas feridas... foi por milagre de Deus que não morri. Ele havia me destinado para coisas melhores".
      Em 1882 Bakhita foi finalmente comprada pelo cônsul da Itália no Sudão, Calixto Legnani, que logo lhe deu carta de liberdade.
     No período de escravidão, Bakhita havia sofrido as humilhações, os sofrimentos físicos, psicológicos e morais dos escravos negros. Na casa do cônsul Legnani, Bakhita trabalhava como pessoa livre e isto lhe deu momentos de serenidade. "Desta vez fui realmente afortunada - escreve Bakhita - porque o novo patrão era um homem bom e gostava de mim. Não fui maltratada nem humilhada, algo que me parecia completamente irreal, pude inclusive sentir-me em paz e na tranquilidade”.
     Em 1884 Legnani teve que deixar Cartum, devido a chegada de tropas Mahdis, e retornar à Itália. Bakhita pediu para acompanhá-lo e foi atendida. Com eles partiu também um amigo do Consul, o Sr. Augusto Michieli.
    Chegados a Gênova, o Sr. Legnani, pressionado pelos pedidos da esposa do Sr. Michieli, concordou que Bakhita fosse morar com eles. Assim, ela foi para Zianino de Mirano, Vêneto, onde seria babá da filhinha dos Michieli, Mimina, de quem se tornou amiga.
     Apesar de serem pessoas boas e honestas, os Michieli não eram católicos praticantes. Como sempre, Deus tem seus desígnios e acabou colocando no caminho de Bakhita, o administrador dos Michieli, o Sr. Illuminato Chechini. Illuminato era um homem muito piedoso e logo se preocupou com a formação religiosa de Bakhita e, ao dar um crucifixo a ela, disse em seu coração: “Jesus, eu a confio a Ti”.
     A compra de um hotel em Suakin, no Mar Vermelho, obrigou a esposa do Sr. Michieli, a Sra. Maria Turina, a transferir-se para lá, a fim de ajudar o marido na sua administração. Bakhita e a pequena Mimina foram confiadas às Irmãs Canossianas de Veneza, graças aos conselhos do Sr. Illuminato, que agia novamente, sob a inspiração da graça, a favor da jovem. A Santa diria mais tarde que ela considerava o Sr. Illuminato como seu segundo pai.
     Com as Irmãs Canossianas Bakhita aprendeu a doutrina e conheceu o Deus dos cristãos que desde pequena “sentia no coração, sem saber quem Ele era” e que havia dado a ela forças para suportar a escravidão.
     Ainda na África, a pequena escrava costumava olhar para o céu e, ao avistar a lua e as estrelas, indagava-se: “Quem será o ‘patrão’ de todas essas coisas? E sentia uma vontade imensa de vê-Lo e prestar-lhe homenagem”. Depois de ‘patrões’ tão terríveis que a tiveram como sua propriedade, Bakhita acabou por conhecer um ‘patrão’ totalmente diferente – no dialeto veneziano que agora tinha aprendido, chamava ‘paron’ a Nosso Senhor Jesus Cristo. Até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Este ‘Paron’ morrera por amor a ela e a protegia.
     Ao final de nove meses, a Sra. Maria Turina voltou à Itália para buscar sua filhinha Mimina e aquela que considerava sua escrava, pois retornariam à África. Bakhita já prestes a receber os sacramentos, recusou-se a voltar para a África, apesar do afeto que nutria pela família Michieli e principalmente pela pequena. Sentia em seu coração um desejo inexplicável de abraçar a fé e vivê-la para sempre.
     Apesar dos apelos e até ameaças da Sra. Michieli, a jovem africana não cedeu em sua resolução. Bakhita estava livre, na Itália não havia escravidão. Sua patroa retornou à África com sua filha e Bakhita prosseguiu com sua catequese, feliz, mesmo sabendo que seria a última chance de rever seus familiares na África.
     Em 9 de janeiro de 1890, foi batizada, fez a 1ª Comunhão e foi crismada pelas mãos do Patriarca de Veneza, Cardeal Agostini, recebendo o nome cristão de Josefina Margarida Bakhita. Ela mesma conta em sua biografia que estando no Instituto conheceu cada dia mais a Deus “que me trouxe até aqui desta forma estranha”. Ela descreveria este dia como o mais feliz de sua vida: sentir-se filha de Deus era-lhe uma emoção inigualável, assim como receber Jesus na Eucaristia era o Céu na Terra. Daquele dia em diante era fácil vê-la beijar a pia batismal e dizer: “Aqui me tornei filha de Deus!”
     Bakhita nutria em seu coração o sublime desejo de se tornar religiosa, uma Irmã Canossiana. Em 8 de dezembro de 1896, aos 38 anos de idade, tomou o hábito e ingressou na Congregação das Filhas da Caridade Canossianas, com o nome religioso de Irmã Josefina.
     Ela sonhava com a conversão do povo africano e no dia de sua profissão religiosa rezou: “Ó Senhor, se eu pudesse voar para lá longe, entre a minha gente e proclamar a todos em voz alta a Tua bondade; ó quantas almas eu poderia conquistar para Ti! Entre os primeiros a minha mãe, o meu pai, os meus irmãos, a minha irmã ainda escrava... e todos, todos os pobres negros da África. Faze, ó Jesus, que também eles Te conheçam e Te amem!”

     Por mais de 50 anos, esta humilde Filha da Caridade dedicou-se à diversas ocupações na Congregação. Transferida para a cidade de Schio, lá permaneceu por 45 anos: foi cozinheira, responsável do guarda-roupas, bordadeira, sacristã e porteira. Nesta última função, as suas mãos pousavam docemente sobre a cabecinha das crianças que frequentavam a escola do Instituto. A sua voz amável chegava prazerosa aos pequeninos, reconfortava os pobres e os doentes e encorajava a todos que vinham bater à porta do Instituto.
      A vida exemplar de Irmã Bakhita, a sua humildade, a sua simplicidade e o seu constante sorriso, suas palavras de conforto e atitudes carinhosas cativavam e conquistaram o coração de todos os habitantes de Schio (hoje a cidade tem cerca de 39 mil habitantes) que passou a ser conhecida com o apelido em dialeto vêneto de "Madre Morèta" (Mãe Moreninha).
     As Irmãs a estimavam pela sua inalterável afabilidade, pela fineza da sua bondade e pelo seu profundo desejo de tornar Jesus conhecido. “Sede bons, amai a Deus, rezai por aqueles que não O conhecem. Se soubésseis que grande graça é conhecer a Deus!,,,”
     Algo custou a ela muito trabalho: foi escrever a sua autobiografia em 1910, que foi publicada em 1930. Em 1929 as superioras mandaram-na a Veneza para contar a história de sua vida. Após a publicação de suas memórias, se tornou famosa, viajando por toda a Itália dando conferências e coletando donativos para a Congregação.    
     A saúde de Irmã Josefina foi se debilitando; em seus últimos anos teve que se utilizar de uma cadeira de rodas, o que não a impediu de continuar viajando, apesar de todos os incômodos. A quem a visitava e lhe perguntava como se sentia, respondia sorridente: “Como o Patrão quer!”    
     Quando já estava bem doente, dizia: “Vou-me devagarinho para a eternidade... Vou com duas malas: uma contém os meus pecados; a outra, bem mais pesada, contém os méritos infinitos de Jesus Cristo. Quando eu comparecer diante do Tribunal de Deus, cobrirei a minha mala feia com os méritos de Nossa Senhora. Depois abrirei a outra e apresentarei os méritos de Jesus Cristo. Direi ao Pai: ‘Agora julgai o que vedes’. Estou segura de que não serei rejeitada! Então me voltarei para São Pedro e lhe direi: ‘Pode fechar a porta porque eu fico!”
     Na agonia, delirando, reviveu os terríveis anos de sua escravidão e vária vezes suplicava à enfermeira que a assistia: “Por favor, solta-me as correntes, pesam muito!” Às 20 horas do dia 8 de fevereiro de 1947, em Schio, ela entregava sua alma a Deus aos 78 anos de idade, rodeada pela comunidade em pranto e em oração. Suas últimas palavras foram: “Nossa Senhora! Nossa Senhora!” E seu último sorriso testemunhava o encontro com a Mãe de Jesus.
     Uma grande multidão foi dar o último adeus à Madre Morena. Foi velada por três dias, durante os quais, contam as pessoas, suas articulações ainda permaneciam quentes e as mães tomavam sua mão para colocá-la sobre a cabeça de seus filhos.
     Foi enterrada inicialmente na capela de uma família de Schio, os Gasparella, provavelmente na espera de um sepultamento definitivo na Igreja da Sagrada Família. E assim foi em 1969, quando o corpo incorrupto de Bakhita foi sepultado sob o altar da Igreja do mesmo convento.
     A fama de sua santidade se espalhou rapidamente e todos iam ao seu túmulo pedir sua intercessão. O processo para a causa de canonização iniciou-se doze anos após a sua morte. Em 17 de maio de 1992 foi beatificada e em 1º de outubro de 2000, foi elevada à honra dos altares pelo Papa João Paulo II, sendo que o milagre que a levou a ser reconhecida como Santa, aconteceu em Santos, São Paulo, Brasil.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Beata Isabel Canori Mora, esposa, mãe – 5 de fevereiro

Vítima expiatória pelo Papado
    
   Isabel Canori era filha de Tomás Canori, grande proprietário de terras romano, e de Teresa Primoli, aristocrática dama da Cidade dos Papas.
     Após receber esmerada educação familiar, desposou um jovem advogado, Cristóforo Mora, filho de um rico médico da mesma Roma, em 10 de janeiro de 1796. Do casal nasceram quatro filhas, duas das quais morreram com pouca idade. 
     Tudo augurava ao novo matrimônio um brilhante futuro. Mas a tragédia veio logo. O marido arruinou a família e abandonou o lar, seduzido por uma mulher de má vida. Foi preso pela polícia pontifícia, primeiro num cárcere, depois num convento. Jurou mudar de vida, mas após retornar ao seu lar, tentou repetidas vezes assassinar sua esposa Isabel. Ela foi de uma fidelidade heroica, oferecendo pelo marido enormes sacrifícios. E profetizou que ele acabaria morrendo sacerdote.
     Assim foi. Após o falecimento da Bem-aventurada, em 5 de fevereiro de 1825, Cristóforo caiu em si e fez-se religioso, levando exemplar vida de penitência. Foi ordenado sacerdote e morreu rodeado de grande consideração.
     Quando abandonada pelo esposo, incompreendida pelos familiares, Isabel teria caído na miséria se benfeitores não a tivessem auxiliado. Entre eles encontravam-se Prelados romanos que narraram ao Papa Pio VII os seus méritos. O Pontífice, beneficiado pelas orações e sacrifícios dela, concedeu privilégios pouco comuns à capela privada da sua humilde casa.
     Sua causa de beatificação foi introduzida em 1874, durante o pontificado do Beata Pio IX. Pio XI aprovou o decreto de heroicidade de virtudes em 1928, tendo sido Isabel Canori Mora beatificada em 24 de abril de 1994 por João Paulo II.
Deus desvenda a gravidade do pecado
     No Natal de 1813, ela foi arrebatada a um local inundado de luz, onde inúmeros santos rodeavam um humilde presépio. Nele, o Menino Jesus chamava-a docemente. A própria Isabel descreveu, sem preocupações literárias, a surpresa que teve: Em 25 de dezembro de 1813 (...) vi três mensageiros celestes que me convidaram a ir com eles. Uma luz diante de nós nos conduziu até o Presépio. (...) Eu vi um lindo e gracioso Menino que jazia num pobre berço junto de sua Santíssima Mãe. (...) Porém, oh que coisa tão estranha eu vou contar! Ela me causou sumo estupor! Só de pensar sinto horror. Aproximei-me, então, do sagrado presépio e o vi todo cheio de sangue.
Manuscrito da Beata
     A partir desta primeira visão, Deus foi-lhe revelando o lamentável agir de certos setores eclesiásticos que atraíam a cólera divina, acumpliciados com a Revolução que derrubava tronos e seculares costumes cristãos na ordem temporal.
     Três décadas antes de La Salette e um século antes das revelações na Cova da Iria, as revelações falavam do mal que já se infiltrara na Igreja e na sociedade civil. Vê-se bem que em Fátima Nossa Senhora fez uma advertência final para esse mal, que progredia apesar de todos os avisos em sentido contrário.
     Os anjos conduziram espiritualmente a Beata Elizabeth a antros secretos onde se tramava essa conjuração. De cada vez, novas aberrações lhe eram desvendadas.
     Em 24 de fevereiro de 1814 foram-lhe exibidas cenas que lembram a crise dos dias em que vivemos: “Via — narra ela — muitos ministros do Senhor que se despojavam uns aos outros; raivosamente arrancavam-se os paramentos sagrados; via serem derrubados os altares sagrados pelos próprios ministros de Deus”.
     Em 22 de maio de 1814, enquanto rezava pelo Santo Padre, “vi-o viajando rodeado de lobos que faziam complôs para atraiçoá-lo”. A visão repetiu-se nos dias 2 e 5 de junho. Nesta última, narra a vidente: “Vi o sinédrio de lobos que circundavam [o Papa Pio VII, então reinante] e dois anjos que choravam. Uma santa ousadia me inspirava a lhes perguntar a razão da sua tristeza e do pranto. Eles, contemplando a cidade de Roma com olhos cheios de compaixão, disseram o seguinte: `Cidade miserável, povo ingrato, a Justiça de Deus castigar-te-á'”.
A Beata frustra a manobra para erradicar o Papado de Roma.
     Tendo passado 17 dias desde o início de minha enfermidade, chegaram a Roma as tropas austríacas [para enfrentar] a revolução dos napolitanos. A terrível seita dos carbonários queria invadir a cidade de Roma para promulgar sua perversa Constituição. Não faltavam partidários em nossa cidade de Roma e em grande número.
     Todos eles conspiravam para expulsar o Santo Padre Papa Pio VII, com o malicioso pretexto de guardá-lo em lugar seguro, de medo a uma insurreição popular. (...) Eles tinham tentado todas as fórmulas para expulsar o Santo Padre de Roma. Tinham lhe incutido muito temor e, com fortíssimos argumentos, o haviam persuadido a partir.
     De fato, uma noite tinham atrelado uma carruagem para conduzi-lo a Civitavecchia. Nos dias anteriores haviam preparado toda a equipagem para sua partida, dizendo que de momento o transfeririam a essa cidade. Mas, se os assuntos de governo andavam mal, posteriormente tê-lo-iam levado a outros lugares. Tudo isto era uma manobra dos próprios sectários que queriam derrubar o Santo Padre.
     Junto com sua partida, teriam saído muitos Cardeais, senhores e prelados. Todos já estavam em preparativos para abandonar Roma. Com este malicioso ardil pretendiam tomar as rédeas do governo de Roma e escravizá-lo à bárbara Constituição. Castigo bem merecido para esta população, por causa de sua grande insubordinação em relação ao governo eclesiástico. (...)
Altar com as relíquias da Beata
     Por meio de divinas ilustrações, eu percebia muito claramente todas essas tramas. (...) Eu disse a meu confessor que visse como dizer ao Santo Padre para não se deixar enganar pelos argumentos dos que o aconselhavam e lhe solicitavam a partida, mas que ficasse em Roma. (...)
     Meu pai espiritual respondeu prudentemente que não se podia transmitir essa advertência ao Santo Padre. O sentimento comum dos políticos era pôr em bom resguardo o Santo Padre, fazendo-o partir de Roma. Portanto, não se teria obtido o desejado. Eu fiquei persuadida desta justa razão.
     Ele me disse, porém, que elevasse fervorosas orações ao Senhor, a fim de que iluminasse o Santo Padre sobre o engano, desprezasse os conselhos humanos e decidisse não sair de Roma. Ouvindo o sábio conselho de meu diretor, pus-me a rezar com todo empenho. (...) Eis que subitamente Deus concedeu tanta sutileza a minha alma, que ela pôde num instante penetrar no Palácio do Quirinal.
     Meu espírito pôde falar livremente, por via da inteligência, e manifestar ao Santo Padre meus sentimentos ditados pelo espírito do Senhor. E assim lhe fornecer todos os dados que eu acreditava necessários para sua permanência em Roma.
     De fato, ele pôs em prática, ponto por ponto, quanto o meu pobre espírito lhe tinha manifestado, não obstante todos os conselhos e grandes argumentos, e a carruagem que já estava atrelada para fazê-lo partir. Ele abandonou o parecer de todos seus conselheiros e disse-lhes que, em lugar de partir, queria repousar. Que não pretendia partir de modo algum.
     Esta deliberação repentina e inesperada do Santo Padre frustrou com um golpe todos os planos já feitos e acertados pelos malignos sectários. Nasceu neles uma grande confusão. Isto foi um trabalho da graça do Senhor, que os confundiu de tal maneira que as tropas napolitanas, em lugar de avançar contra Roma, como já tinham decidido, ficaram presas do medo. Precipitadamente abandonaram as próprias fortalezas sem disparar sequer um canhão. Deram-se precipitadamente à fuga.
     Percebendo este fato, as tropas austríacas avançaram e, sem disparar um tiro de canhão, sem combater, se apoderaram das fortalezas e marcharam sem obstáculos até Nápoles. (...) Assim a pobre cidade de Roma ficou livre dessa terrível invasão [págs. 653-659 dos manuscritos da Beata].
     “Lucina (uma das duas filhas da Beata) narra que uma noite a mãe a chamou próxima de si, junto com Annuccia (a outra filha) e lhes disse:  — Agora vos narrarei muitas belas coisas, porque o Senhor me tem diante dos olhos o livro da divina sabedoria, assim que estou lendo o que falo, mas quando se fechar este livro eu não poderei mais vos dizer nada”. 
     “E anunciou acontecimentos grandiosos a propósito do que deveria acontecer no mundo e às nações que terão reconhecido a Igreja de Jesus Cristo, falou de Roma e de uma gloriosa reforma da qual conhecia as circunstâncias mais mínimas. Porém, foi como se as filhas tivessem tido um sonho do qual procurassem em vão reagrupar os fios rompidos”.
     “Deus não permitiu que dele se recordassem e Isabel não deixou memória deles ‘porque – assegura ela – o Senhor não quer, por Seus justos juízos, que se manifestem as suas divinas determinações’”.
     “Ela, porém, como viu o infernal trabalho de ocultas seitas para abater o Catolicismo, conheceu – a distância de um século, a formação daquele apostolado leigo chamado a levar em meio à sociedade corrompida as pequenas sementes da palavra de Cristo”.
     “Viu a falsa filosofia, o materialismo e o egoísmo desembocar naquelas fatais guerras pelas quais – como ela preanunciava – deviam fazer cair em ruína cidade e inteiras províncias, arrasadas ao chão igrejas, trucidados sacerdotes inocentes, alterado e ameaçado o mundo inteiro”.
     “Viu também, na desorganização geral, entre ondas de revoluções e de anarquia, permanecer imune de tantos flagelos uma pequena zona, centro espiritual do universo, e lá recolher-se o rebanho fiel a Cristo”.
     “Presentes – sem dúvida – os novos triunfos de Roma, da sua Roma pela qual se tinha oferecida como vítima. Mas, sobretudo voltou seus olhos para o clero secular e regular, e foi sua a nossa atual oração: ‘Enviai, oh Senhor, sacerdotes santos para vossa Igreja, operários dedicados pela vossa messe!’”

A Beata aos 22 anos
Fontes: La mia vita nel Cuore della Trinità — Diario della Beata Elisabetta Canori Mora, sposa e madre, Libreria Editrice Vaticana, 1996, 765 pp. Imprimatur do Vicariato de Roma, Pe. Luigi Moretti, secretário-geral, 31-8-1995.

https://aparicaodelasalette.blogspot.com.br/p/isabel-canori-mora.html

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Festa da Purificação de Nossa Senhora e da Apresentação do Menino Jesus no Templo – 2 de fevereiro

     

     A cada 2 de fevereiro, comemora-se a festa da Purificação ou das Candeias (Luz). É o dia da bênção das velas (candeias) e em muitas igrejas, antes da celebração da Santa Missa, são organizadas procissões solenes em que são levadas as velas acesas, símbolo de Jesus Cristo que apresentado a Deus no templo de Jerusalém foi saudado pelo velho Simeão como a luz que veio para iluminar os povos.
     A festa também tem o nome de Purificação de Nossa Senhora, por ser o dia em que Maria Santíssima, em obediência à lei mosaica, se apresentou no templo do Senhor, quarenta dias depois do nascimento do seu Divino Filho. Cabe ressaltar que a maternidade da Virgem Maria, em tudo diferente das outras mulheres, isentava-a das obrigações de uma lei.
     A Antiga Lei Mosaica estabelecia que para a purificação das mulheres que davam à luz, após 40 dias do parto deveriam levar o seu primogênito ao Templo para o apresentarem a Deus (Lv 12). Obviamente, Jesus e Maria não estavam sujeitos à Lei, mas quiseram observá-la para nos dar o exemplo de obediência e humildade.
     Em Lucas 2:22-40, Maria e José levaram o Menino Jesus ao Templo de Jerusalém, conforme prescrito para realizar a redenção do primogênito. Maria Santíssima ofereceu ao Senhor o sacrifício ritual de dois pombinhos, estabelecido para a purificação de mulheres pobres.
     Lá encontraram Simeão, que inspirado pelo Espírito Santo, fora-lhe revelado que não morreria sem ver o Salvador. Por inspiração divina, reconheceu no Menino Aquele por quem esperava. Tomando-O, então, nos braços, exclamou: “Agora, sim, Senhor, podeis deixar morrer em paz o vosso servo, conforme dissestes, porque já viram os meus olhos o Salvador que prometestes enviar-nos” (Lc 2, 25s).
     Simeão também profetizou a Maria: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma”.

Fonte: http://www.a12.com/santuario-nacional/formacao/detalhes/festa-da-purificacao-de-nossa-senhora-e-da-apresentacao-do-menino-jesus-no-templo


Apresentação do Menino Jesus no Templo: atmosfera de santidade e pureza
Catolicismo, N° 618, junho de 2002, pag. 52


     O afresco mostra a Apresentação do Menino Jesus no Templo, e foi executado pelo célebre Giotto na Capela Scrovegni em Pádua (Itália). Nele aparecem Nossa Senhora e São José de um lado; e de outro, o Profeta Simeão. Atrás, pode-se observar a Profetisa Ana. 
     A parte central da cena é apresentada em estilo medieval, numa dependência do Templo de Jerusalém. 
     O aspecto da pintura que interessa sobretudo é a atitude de São José e de Nossa Senhora. Quem apresentou o Divino Infante ao Profeta foi Nossa Senhora. Ela está com as mãos numa atitude de quem acaba de entregar o Menino, ou pronta para recebê-lo. São José, recolhido modestamente em segundo plano, acompanha a cena. 
    Nota-se que uma atmosfera — é uma coisa misteriosa — de santidade e de pureza domina toda a cena. De maneira que o próprio templozinho, que se vê no afresco, faz transparecer qualquer coisa de esguio e de virginal. 
     Tudo que o artista coloca como fundo, meio azulado e com ramagens que parecem ser folhas de uma vegetação, se delineia sobre um céu também com predominância do azul. Mas todo o colorido é um pouco escuro, colocando muito em relevo a parte central do tema: o Menino Jesus — é o foco de luz —, o Profeta Simeão e Nossa Senhora. Já envoltos numa atmosfera com um pouco menos de luz encontram-se São José e a Profetisa Ana. 



Nota da redação — O afresco foi pintado por Giotto di Bondone (1267-1337) na Capela degli Scrovegni ou Capela da Arena — cuja restauração completa foi concluída recentemente —, assim chamada por se encontrar no interior de um anfiteatro romano, em Pádua. Os documentos do tempo nos informam que um rico senhor de poderosa família de Pádua — os Scrovegni — comprou em 1300 todo o terreno das arenas romanas, para ali construir sua moradia. Nos dias de hoje, inteiramente destruída a residência, restou apenas a Capela, onde se encontram os famosos afrescos de Giotto. As pinturas dessa Capela foram executadas de 1302 a 1306. 
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 30 de novembro de 1988. Sem revisão do autor





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Santa Veridiana (ou Verdiana), Virgem e reclusa – 1° de fevereiro

Martirológio Romano: Próximo de Castelfiorentino na Toscana, Santa Verdiana, virgem, que viveu numa clausura desde a juventude até a velhice.

Nascida na Toscana, consagrou desde muito jovem sua virgindade a Deus. Peregrinou a Santiago de Compostela e a Roma, retornando depois à terra natal, onde voluntariamente viveu murada numa cela, durante 34 anos, em meio a rigorosas penitências e recebendo graças místicas extraordinárias.

     Virgem da Terceira Ordem (1182-1242). Clemente VII concedeu seu ofício e missa em 20 de setembro de 1533.

     Em 1155, a Ordem do Carmelo foi fundada. Em 1220, São Francisco de Assis estabeleceu a Ordem dos Franciscanos. Em 1212, a jovem Clara de Assis seguiu o exemplo de São Francisco de Assis e viveu, dentro da clausura e na contemplação, o ideal de pobreza evangélica. Surgiu, assim, a Ordem das Clarissas, ou a Segunda Ordem Franciscana.
     A Ordem de Santa Clara que se fundou no Convento de São Damião, sob a orientação de Santa Clara e de S. Francisco e que teve sempre o apoio dos Frades Menores, depressa se estendeu por toda a Europa e tem hoje cerca de 1500 mosteiros em todos os continentes, a Ordem de Clausura mais numerosa em toda a Igreja.
     Era, portanto, uma época em que se enaltecia o ideal da pobreza e do recolhimento. Foi dentro desse período que viveu a santa que homenageamos hoje, Santa Veridiana.
*
     No primeiro dia de fevereiro de 1242, de repente todos os sinos de Castelfiorentino em Florença, Itália, começaram a repicar simultaneamente. Quando os moradores constataram que tocavam sozinhos, sem que ninguém os manuseassem, tudo ficou claro: eles anunciavam a morte de Veridiana.
     Veridiana nasceu em 1182, nos arredores daquela cidade que amou e onde viveu quase toda sua existência, só que enclausurada numa minúscula cela, de livre e espontânea vontade.
     Pertencendo a uma família nobre e rica, os Attavanti, Veridiana levou uma vida santa, que ficou conhecida muito além das fronteiras de sua terra e que lhe valeu inclusive a visita em pessoa de seu contemporâneo Francisco de Assis, que a abençoou e admitiu na Ordem Terceira, em 1221.
     A fortuna da família, embora em certa decadência, Veridiana sempre utilizou em favor dos pobres. Um dos prodígios atribuídos a ela mostra bem o tamanho de sua caridade. Consta que certa vez um dos seus tios, muito rico, deixou aos seus cuidados grande parte de seus bens, que eram as colheitas de suas terras.
     A cidade atravessava uma época terrível de carestia e fome, seu tio nem pensou em auxiliar os necessitados, era um mercador e procurou vender grande parte desses víveres, o que conseguiu por um preço elevado, obtendo grande lucro. Mas, ao levar o comprador para retirar o material vendido, levou um susto, suas despensas estavam completamente vazias: Veridiana tinha distribuído tudo aos pobres
     O tio ficou furioso, pediu um prazo de 24 horas ao comprador e ordenou a Veridiana que solucionasse o problema, já que fora a causadora dele. No dia seguinte, na hora marcada, as despensas estavam novamente cheias, e o negócio pode se concretizar.
     Após uma peregrinação ao túmulo do Apóstolo São Tiago em Compostela, Espanha, um centro de peregrinação tão requisitado quanto Roma o é pelos túmulos de São Pedro e São Paulo, ao retornar Veridiana se decidiu pela vida religiosa e reclusa. Para que não se afastasse da cidade, seus amigos e parentes construíram então uma pequena cela, próxima ao Oratório de Santo Antão, onde ela viveu 34 anos de penitência e solidão. A cela possuía uma única e mínima janela por onde ela assistia à Missa e recebia suas raras visitas, e também minúsculas refeições, suficientes apenas para que não morresse de fome.
     O culto a Santa Veridiana foi aprovado pelo papa Clemente VII no ano de 1533. Ela também se tornou protetora do presídio feminino de Florença por associação aos seus 34 anos de prisão voluntária. Sua devoção ainda é muito popular na região da Toscana, na Itália, onde é venerada como sua padroeira.
     No local do antigo Oratório de Santo Antão foi construída uma igreja em sua homenagem, e lá foram depositadas suas relíquias no ano de 1939.
   Veridiana ligou seu coração ao Sagrado Coração de Jesus em profundas meditações e contemplações. Nesses colóquios ela encontrou a verdadeira sabedoria, a verdadeira paz, a verdadeira força que a fez viver assim por 34 anos. Aprendamos com Santa Veridiana a mergulhar na imensidão do amor divino! Pensemos no que disse São Francisco de Assis: “o homem vale o que é diante de Deus e nada mais”.

Fonte: www.santiebeati.it/; “Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola.

Etimologia: Viridiana, do latim viridiana, “verdejante”. Outras formas: Veridiana, Verdiana.


Nota: Aos que se interessam pelo tema da vida eremítica, seguem Santas ou Beatas eremitas/solitárias constantes deste blog:

Fev 14, 2014   Santa Alexandra do Egito, a reclusa
Mar 29 , 2013  Santa Gladys, rainha e eremita
Mai 2, 2013     Santa Viborada, reclusa de S Gallo
Mai 6, 2011     Beata Juta ou Judite de Sangerhausen
Mai 13, 2013   Beata Juliana de Norwich
Mai 15, 2014   Santa Cesária de Otranto
Jun 10, 2013   Santa Olivia de Palermo
Jun 25, 2016   Santa Tigris ou Tecla de Maurienne
Jul 2, 2014      Santa Monegonda de Tours
Set 1, 2014      Santa Verena de Zurzach
Set 1, 2015      Santa Colomba, eremita
Set 4, 2013      Santa Irmengarda de Süchteln
Set 4, 2012      Santa Rosália de Palermo
Set 4, 2013      Santa Ida de Herzfeld
Set 9, 2011      Santa Maria da Cabeça, esposa de Sto. Isidro
Set 27, 2012    Santa Hiltrudes de Liessies
Out 12, 2014   Beata Joana de Leber, 1ª reclusa da América do Norte (Canadá)
Out 13, 2015   Santa Quelidonia de Subiaco, solitária
Dez 1, 2012    Santa Florença de Poitiers