terça-feira, 11 de junho de 2024

Beata Mercedes Maria de Jesus, Fundadora - 12 de junho


Patrona dos missionários equatorianos “ad gentes”
 
     O povo católico do Equador e a Igreja universal podem venerar com alegria duas “flores” nascidas naquele país: a «Açucena de Quito», Santa Mariana de Jesus, e a “Rosa de Guayas”, como carinhosamente é conhecida a Beata Mercedes de Jesus. O perfume de santidade dessas duas flores, de poderosa intercessão celestial, é exemplo e estímulo para uma autêntica vida católica.
     Mercedes se destaca não só por seus dotes espirituais e religiosos, mas também por suas qualidades de grande dama, transmitidos por meio de uma vida ativa e profundamente contemplativa, institucionalizados pelo cumprimento de sua missão de fundadora de uma família religiosa na Igreja do Equador, as Irmãs Marianitas, e por seu legado: “ser amor misericordioso aonde há dor humana”.
      Mercedes Molina de Ayala nasceu no dia 20 de fevereiro de 1828, em Baba, então Departamento de Guayaquil. Era a quarta filha do casal Dom Miguel Molina y Arbeláez e da Sra. Rosa de Ayala y Olvera, família abastada, proprietária de grandes extensões de terra, com plantações de cacau e frutos tropicais. Recebeu as águas batismais na cidade de Pueblo Viejo, em 5 de março do mesmo ano, e sua Primeira Comunhão, bem como sua Confirmação, recebeu das mãos de Mons. Francisco Javier de Garaicoa, em 19 de maio de 1839.
     Sua respeitável mãe ficou viúva quando Mercedes tinha somente dois anos de vida. Ela se consagrou totalmente ao cuidado de seus filhos, lhes ensinando firmeza nos bons propósitos, a justiça, a solidariedade, e que em seus lábios sempre habitasse a verdade.
     “Mercedita, menina de beleza nada comum, nascida em um lar respaldado por uma fortuna apreciável, era modelo de virtudes singulares”.
     No ano de 1841, era uma bela jovenzinha que atraía pretendentes, quando também morre Dona Rosa. A perda de sua mãe foi uma dor indizível. Mercedes ficava órfã de pai e mãe, em companhia de seus irmãos, Maria e Miguel Molina de Ayala.
     Após uma grave queda de cavalo, Mercedes passou por uma conversão, resolvendo levar uma vida de piedade e penitência. Em 1849, quando acabava de cumprir vinte e um anos, renunciou a um brilhante matrimônio, e resolveu se dedicar à ação social e apostólica em um asilo de órfãos. Repartiu todos os bens que havia herdado de seus pais, que tinham provido seus filhos não apenas de dinheiro, mas de uma esmerada educação intelectual e artística.
     Ela se dedicou então aos órfãos em Guayaquil, depois em Cuenca. Foi justamente por essa época que ela conheceu Santa Narcisa de Jesús Martillo Morán, com quem compartilhou sua casa por muito tempo para se ajudarem mutuamente no caminho da cruz, e praticarem juntas a virtude, a oração e a penitência.
     Mercedes viveu inicialmente consagrada a Deus no mundo, sob a direção de sacerdotes insignes. Desta maneira buscava identificar–se com Cristo crucificado, a quem havia elegido acima de qualquer outro amor humano, pela oração e pela penitência.
     Em 1862, começou a levitar quando rezava, perdia os sentidos e tinha êxtases depois de comungar. No ano seguinte, sua fama de beata se estendeu por toda cidade ocasionando os mais variados comentários.
     Grande devota de Santa Mariana de Jesus, se propôs seguir seu exemplo de santidade e à chegada do Padre Garcia, designado Superior da Comunidade Jesuíta de Guayaquil em 1863, fez votos de pobreza, obediência e castidade.
     Naqueles dias, duas damas tinham reunido numerosas crianças pobres do bairro às quais ensinavam, vestiam e davam de comer em uma casa chamada orfanato "A Beneficência".
     Na noite do dia 1º de fevereiro de 1867, aos 39 anos de idade, Mercedes de Jesus tomou a resolução mais importante de sua vida. Furtivamente escapou da casa de sua única irmã, onde vivia, e passou a madrugada no interior da Igreja de São José, absorta em oração. Ao amanhecer, ouviu Missa, comungou, e com algumas poucas peças de roupa no braço, foi para o orfanato, aonde a receberam com imenso júbilo. Sua irmã Maria se encolerizou tanto, que levou muitos anos para perdoá–la e voltar a falar com ela.
     No orfanato passou alguns meses se adestrando no serviço de seus semelhantes, até que o Padre Garcia, que estava em Gualaquiza fundando uma missão, a mandou chamar para que ela o ajudasse em sua obra. Grande foi a surpresa de Mercedes de Jesus ao receber a carta, porém cumpriu a ordem imediatamente e viajou para aquela região dos índios jibaris em 1870, perdendo peso em dez meses de trabalhos rudes e cansativos.
     Em maio de 1871, voltou para Cuenca, fundou o Beatério de Santa Mariana e deu aulas a numerosas meninas. Anos depois, quando seu processo de beatificação foi instaurado, várias velhinhas se apresentaram declarando que haviam sido suas alunas, e que conservavam gratas recordações dela por ser carinhosa com todas.
     Em janeiro de 1873 Mercedes transferiu–se para Riobamba, fundou outro Colégio e caiu gravemente doente. O médico que a assistiu pensou que ela morreria e assim o disse, mas a Beata, com toda calma lhe disse: "Não é verdade, porque tive uma visão. Vi um roseiral muito frondoso e florido que representa a Congregação e esta ainda não cresce, por isso eu viverei o suficiente e muitos anos mais". E sarou em seguida. É por este motivo que ela ficou conhecida como “a Rosa de Guayas”.
     Todos esses trabalhos providencialmente iam acrisolando sua vocação de fundadora.
     Finalmente, na segunda-feira de Páscoa, dia 14 de abril de 1873, recebeu a aprovação do Bispo de Riobamba. Nasceu então, oficialmente, a Congregação das Religiosas de Santa Mariana de Jesus, as Marianitas, nome de sua escolha por ter assumido desde sua juventude a espiritualidade da Santa equatoriana.
     A Beata Mercedes Maria de Jesus Molina é a Fundadora do primeiro Instituto Religioso na Igreja do Equador. O Instituto tinha como meta o atendimento aos órfãos, dar asilo às convertidas e às jovens em perigo, a assistência às prisões. O Instituto tinha e tem uma espiritualidade missionária.
     A Beata Mercedes é pioneira na educação da mulher equatoriana, pois no início do século XIX as escolas destinadas à educação feminina eram quase desconhecidas. É a mulher genial que abre caminho em um lugar geográfico e em um momento histórico em que ninguém então pensava neles. É a criadora de sua própria pedagogia baseada no método direto, prático e integral. Tem metas claras, concretas e precisas; sua preocupação constante não foi elaborar metas teóricas, mas práticas, caracterizadas por uma ação direta, persistente e maternal; sempre equânime e serena, amável e acessível, firme e segura, respeitosa.
     Por três anos a Beata exerceu “o ofício de mãe terna, servindo–os nas enfermidades, cheia de caridade e bondade com todos”, enquanto trabalhava no asilo de órfãos. E assim continuou levando uma vida exemplar, de amor ao próximo e de sacrifício até o heroísmo. Devido aos jejuns e às penitências, seu corpo foi se debilitando pouco a pouco, até que a morte a surpreendeu, em odor de santidade, no dia 12 de junho de 1883, no seu Instituto de Riobamba, aos 55 anos de idade.
      Seus restos foram venerados por horas e ao ser sepultado se constatou que a mão esquerda, que sustentava um crucifixo, estava endurecida e por mais esforços que se fizesse, não a puderam dobrar, impedindo fechar a tampa do ataúde; porém o resto do corpo estava flexível.
     A Madre Superiora então se dirigiu a ela, dizendo: "Mercedes, você que foi tão obediente em vida, obedeça morta e abaixe o braço". Imediatamente o braço abaixou deixando perplexos os presentes, a ponto de o Padre Redentorista que oficiava a Missa pedir para abençoar a multidão com o mesmo braço da defunta, o que foi feito em seguida.
     Seus restos descansam na cidade de Riobamba, na mesma casa onde fundou a Congregação das Marianitas.
     Três anos depois de sua morte foi iniciado o primeiro processo para a sua beatificação, que se interrompeu por um longo tempo por causas políticas e por obra de pessoas contrárias ao seu Instituto.
     O processo foi retomado em 1929; a causa foi introduzida pelo Papa Pio XII em 8 de fevereiro de 1946. O decreto de suas virtudes foi expedido em 27 de novembro de 1981; um milagre atribuído a sua intercessão foi reconhecido em 9 de junho de 1984. No dia 1º de fevereiro de 1985, “a Rosa de Guayas” foi beatificada durante a visita pastoral de João Paulo II ao Equador.
     Em 1948, nas bodas de diamante da Congregação fundada pela Beata, a Santa Sé aprovou os estatutos redigidos por ela em Gualaquiza, embora com algumas reformas.
     Essa educadora e missionária, católica exemplar, a primeira fundadora de uma congregação equatoriana, merece toda nossa veneração. Essa “Rosa” plantou um imenso roseiral, segundo seu sonho e sua inspiração, que se estendeu às diversas nações, espalhando seu perfume apostólico na Igreja da América Latina.
 
Sólo para padecer
pido a Dios que me dé vida
hasta que toda sumida
en penas me pueda ver.
No tengo, no, otro querer
y anhela mi razón
amar la tribulación,
la pena y el desconsuelo
con amor, con fe, con celo
y humildad de corazón
Así lo desea y quiere:
Mercedes de mi Jesús.
Guayaquil, Mayo 12 de 1866
 

domingo, 9 de junho de 2024

Beata Ana Maria Taïgi, Esposa, Mãe e Mística - Padroeira das mães de família - 9 de junho

     
     Ana Maria Antônia Gesualda nasceu na bela cidade toscana de Siena, na Itália, em 29 de maio 1769. Era filha única de um conceituado farmacêutico de Siena. Quando os negócios pioraram, a família foi obrigada a emigrar para Roma em busca de melhores condições de vida. Os pais de Ana trabalharam no serviço doméstico em casas particulares, enquanto a menina era internada em uma instituição que se encarregava da educação de crianças sem recursos.
     Durante dois anos ela permaneceu nas Mestras Pias Filipinas, mas apenas conseguiu rudimentos de leitura e escritura. Na idade de treze anos, Ana começou a ganhar o pão com seu trabalho. Durante algum tempo esteve empregada em uma fábrica de tecidos de seda e depois trabalhou no palácio dos Chigi, onde já estavam empregados seus pais.
     Mas a vida mundana de luxo fácil que a cidade eterna proporcionava chegou a tentar esta jovem. Conseguiu passar ilesa porque se casou, aos vinte e um anos, no dia 7 de janeiro de 1790, com Domingos Taïgi, servidor do palácio Chigi. Ele era um homem piedoso, mas de caráter difícil e grosseiro, que nunca compreendeu os dons especiais da esposa.
     Vivendo no ambiente da corte, o casal acabou buscando a felicidade fútil das festas, vaidades, diversões e fortuna. Depois de três anos ela viu o vazio de sua vida familiar e o quanto estava necessitada de Jesus. Foi a uma igreja e fez uma confissão profunda com um sacerdote que se tornou seu diretor espiritual. Foi então que ocorreu sua conversão.
     "Cerca de um ano depois de nosso casamento", diz Domenico em seu depoimento oficial, "a Serva de Deus, ainda na flor de sua juventude, desistiu pelo amor de Deus, de todas as joias que costumava usar - anéis, brincos, colares e assim por diante, e passou a usar a roupa mais simples possível. Ela pediu minha permissão para isso, e eu dei a ela de todo o coração, pois vi que ela estava inteiramente entregue ao amor de Deus".
     Ana Maria iniciou uma nova vida dedicada aos deveres cristãos e a procura da santificação. Ela quis se entregar a duras penitências, mas o padre a fez compreender que seu sacrifício consistia no amor e fidelidade ao sacramento do casamento e no papel de mãe.
     Por 49 anos ela, finíssima no trato, teve a oportunidade de exercitar continuamente a paciência e a caridade. Conhecendo todo o valor do casamento e considerando-o como uma altíssima missão recebida do céu, a Beata transformou a sua casa em um verdadeiro santuário onde Deus tinha o primeiro lugar. Dócil ao marido, fazia com que nada faltasse à família e o pouco que tinha era sempre dividido com os pobres e doentes que nunca deixou de ajudar.
     A sua família foi crescendo com a chegada de sete filhos, três dos quais morreram ainda pequenos, e dos seus velhos pais. Mas ela encontrava tempo para ajudar nas despesas da casa costurando sob encomenda. Mais tarde, quando a filha Sofia ficou viúva com seis filhos, foi Ana Maria que os acolheu e criou dando-lhes uma formação reta.
     Ana Maria era devotíssima da Ssma. Trindade, de Jesus Sacramentado e da Paixão de Nosso Senhor; tinha uma terníssima devoção por Nossa Senhora. Em 26 de dezembro de 1808, ingressou na Ordem Secular Trinitária e tornou-se fervorosa serva e adoradora da SSma. Trindade.
     Favorecida com dons especiais da profecia, tornou-se conhecida por seus conselhos no meio do clero. Ana Maria se tornou muito respeitada durante todos os quarenta e sete anos em que "um sol luminoso aparecia diante dos olhos, onde via os acontecimentos do mundo, os pensamentos e as almas das pessoas", como ela mesma descrevia.
     Foi conselheira espiritual de vários sacerdotes, hoje todos Santos, como Vicente Pallotti, Gaspar Del Búfalo, Vicente Maria Strambi, de nobres e outras personalidades eclesiásticas ilustres.
     Na sua declaração juramentada, e que pode ser consultada no processo de beatificação de Ana Maria, o Cardeal Pedicini se refere aos portentos que ele presenciou nessa mulher extraordinária. Diz o citado Cardeal que Ana Maria Taïgi via os pensamentos mais secretos das pessoas presentes ou ausentes; os acontecimentos dos séculos passados, e a vida que levavam as mais importantes personagens. Este dom era o conhecimento de todas as coisas em Deus, na medida em que a inteligência humana é capaz de conhecê-lo nesta vida. E acrescenta o Cardeal: "Me sinto impotente para descobrir as maravilhas de quem fui confidente durante 30 anos".
     A Beata Ana Maria faleceu em 9 de junho de 1837. O Papa Bento XV a beatificou em 1920, designou sua celebração para o dia de sua morte e a declarou padroeira das mães de família. O decreto de beatificação a aponta como: "prodígio único nos fastos da santidade". O corpo da Beata Ana Maria Taïgi, que prodigiosamente se conservou incorrupto, está guardado na Igreja de São Crisógono, em Roma, numa Capela a ela dedicada.

Revelações de Deus à Beata Ana Maria Taïgi
     Deus enviará ao mundo duas espécies de castigos. Primeiro virão vários castigos terrenos: vão ser muito maus, mas serão mitigados e encurtados pelas orações e penitências das almas santas.  Haverá grandes guerras nas quais morrerão pelo ferro milhões de pessoas (as duas Grandes Guerras do séc. XX?). Mas depois destes castigos terrenos virá o celeste que será dirigido aos impenitentes. Este castigo será muito mais horroroso e terrível, não será mitigado por coisa alguma, atuará em todo seu rigor e será universal. Contudo, em que este castigo consistirá Deus não o revelou a ninguém, nem mesmo aos Seus mais íntimos amigos.
     Trevas excessivamente espessas se espalharão pelo mundo inteiro e envolverão a terra durante três dias e três noites. Durante essas trevas será absolutamente impossível distinguir-se qualquer coisa. O ar ficará empestado pelos demônios que aparecerão sob todas as formas, as mais odiosas. Essa pestilência atingirá não exclusivamente, mas bem principalmente, os inimigos da religião, ocultos ou conhecidos, com exceção de alguns poucos que Deus converterá logo depois.
     Enquanto durarem as trevas será impossível a luz natural. Aquele que por curiosidade abrir as janelas, olhar para fora, ou sair pela porta, cairá morto instantaneamente. Durante esses dias devemos ficar em casa rezando o Rosário e invocando a misericórdia de Deus. As velas bentas preservarão da morte, assim como a invocação a Maria e aos Anjos.
     A religião será perseguida e os padres massacrados. As igrejas estarão fechadas, mas apenas por um curto período de tempo. O Santo Padre será forçado a deixar Roma.
     A França cairá numa terrível anarquia. Os franceses terão uma guerra civil durante a qual até os mais velhos pegarão em armas. Os partidos políticos, tendo esgotado o seu sangue e a sua raiva sem terem conseguido chegar a qualquer solução satisfatória, concordarão, como último recurso, em apelar à Santa Sé. Então o Papa enviará um legado especial à França... Seguindo as informações recebidas, o próprio Papa nomeará um Rei muito cristão para governar a França.
     Depois dos três dias de trevas, São Pedro e São Paulo... designarão um novo papa... Então o Cristianismo se espalhará pelo mundo.
     Ele é o Santo Pontífice escolhido por Deus para resistir à tempestade. Em última análise, ele terá o dom dos milagres e o seu nome será louvado em toda a terra.
     Nações inteiras retornarão à Igreja e a face da terra será renovada. Rússia, Inglaterra e China entrarão na Igreja.
                                                           (das Atas de Beatificação de Ana Maria Taïgi)
 
     Em outra ocasião Nosso Senhor comunicou a Beata o grande e próximo triunfo de Sua Igreja. Nosso Senhor disse-lhe: “Primeiro cinco grandes árvores têm de ser cortadas, a fim de que o triunfo possa vir. Essas cinco grandes árvores são cinco grandes heresias”. A Serva de Deus disse então: “Duzentos anos apenas serão suficientes para que tudo isto aconteça?” Nosso Senhor respondeu: “Não levará tanto tempo quanto tu julgas”.
 
 
https://en.wikisource.org/
Místicos da Igreja: Beata Anna Maria Taigi -Esposa Mãe & Mística (mysticsofthechurch.com)
 

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Beata Maria Teresa Soubiran La Louvière, Fundadora - 7 de junho

     
A família Soubiran pertencia à antiga nobreza. Suas origens datam pelo menos do século XIII, e entre seus antecessores indiretos se contam São Luís de França, São Eleazar de Sabran e sua esposa a Beata Delfina, Santa Roselina de Villeneuve, Santa Isabel da Hungria e boa parte das famílias reais da Europa.
     No século XIX, o chefe da família Soubiran era José de Soubiran La Louvière, que vivia em Castelnaudary (em occitano, Castèlnòu d'Arri) perto de Carcassone, sul da França. José se casou com Noemi de Gélis de l´Isle d´Albi.
     Sofia Teresa Agostinha Maria, segunda filha deste matrimônio, nasceu em 16 de maio de 1834 em Castelnaudary. Criada numa família profundamente católica, dirigida por seu tio, o Cônego Luis de Soubiran, Sofia logo se sentiu chamada à vida religiosa. Ela se sentia inclinada à austeridade e à vida reclusa do Carmelo.
     Aos 20 anos, ela fez uma tentativa de vida religiosa numa comunidade católica: após um período de vacilações e tendo solicitado conselhos, decidiu finalmente atender aos desejos de seu tio. Assim, se trasladou para Gand, Bélgica, para estudar o gênero de vida das "beguinas". Esta experiência durou somente um ano, ela voltou à França onde iria implantar essa comunidade e foi nomeada superiora da comunidade de Castelnaudary, que seu tio inaugurara. Estes acontecimentos se passaram entre 1854 e 1855.
     Nos anos seguintes, a nova fundação prosperou, mas de uma forma bastante diferente a dos "beguinatos" belgas, pois Sofia e suas companheiras renunciaram às suas propriedades, estabeleceram um orfanato e praticaram, por regra, a adoração noturna ao Santíssimo Sacramento. Apesar dos progressos, aquela foi uma época muito difícil para a comunidade e sua superiora, e a casa em que moravam recebeu o nome de "o convento do sofrimento".
     Em 1863, Madre Maria Teresa, como ela passou a ser chamada, fez os Exercícios de Santo Inácio sob a direção do famoso jesuíta Pe. Pablo Ginhac. Deus lhe manifestou então claramente que ela devia levar adiante seu propósito de fundar uma congregação tal como tinha planejado.
     O "beguinato" não se dissolveu; simplesmente, em setembro de 1864, Madre Maria Teresa e algumas Irmãs se mudaram para o convento da Rue des Buchers, em Toulouse, que ia ser a residência da nova congregação. Madre Maria Teresa consagrou então a nova comunidade a Maria Santíssima, de quem todas as Irmãs adotariam o nome a partir daquele momento. A Sociedade de Maria Auxiliadora havia nascido. As Irmãs adotaram a espiritualidade inaciana, encontrando Deus tanto na oração quanto na ação apostólica.
     A partir do ano seguinte, os escritos da Beata nos permitem seguir de perto sua evolução interior até sua morte, ocorrida um quarto de século mais tarde.
     A Casa-Mãe de Toulouse logo deu origem a outras casas que se espalharam por toda a França, chegando até mesmo à Inglaterra após a guerra de 1870.
     Para melhor se colocar nas mãos de Deus, “para ser apenas um pano de fundo para Ele”, Madre Maria Teresa renunciou a todos os seus bens pessoais através de um voto radical de pobreza: Deus lhe deu uma tarefa a cumprir, e ela contava somente com Ele para realizá-la. “Aquele que coloca sua confiança em Deus é fortalecido com a mesma força de Deus”.
     As novas religiosas se dedicavam ao cuidado dos órfãos e à instrução das crianças pobres, e inauguraram em Toulouse a primeira casa de hospedagem para jovens trabalhadoras, a qual se deu o nome de Maison de famille, porque era um verdadeiro lar para as jovens que não o tinham, ou que viviam longe do seu. As Auxiliadoras praticavam diariamente a adoração noturna.
     “Apoiar moças de idades entre quatorze e vinte e cinco anos. Especialmente esta parte da juventude que, sem família, mora nas grandes cidades, frequenta o ateliê e as fábricas. Isto torna-se uma necessidade em nossas sociedades modernas, que centralizam tudo e substituem as famílias cristãs pelas ‘massas’ de indivíduos”.
     A Madre redigiu as Constituições de sua congregação inspirada nas da Companhia de Jesus. O Pe. Ginhac, que tomou parte muito ativa na nova fundação, se encarregou de revisá-las. Em 15 de outubro de 1867, o Bispo de Toulouse, Florian-Jules-Félix Desprez, aprovou as Irmãs de Maria Auxiliadoras e a Santa Sé publicou, em 19 de dezembro de 1868, um breve laudatório.
     Em 1869, foram inaugurados os conventos de Amiens e de Lyon. Durante a guerra franco-prussiana, as religiosas dos três conventos se refugiaram primeiro em Southwark e depois em Brompton, onde os padres oratorianos as ajudaram muito. Mais tarde estabeleceram uma "casa de família" em Kenington, que foi a primeira fundação inglesa das Auxiliadoras.
     Em 1868, ingressou na congregação uma noviça que três anos depois foi eleita, por voto quase unânime do capítulo, conselheira e assistente da Madre Geral. Tratava-se da Madre Maria Francisca, uma mulher muito hábil e inteligente, cinco anos mais velha que Madre Maria Teresa. Infelizmente, durante muito tempo a Beata não se deu conta de que esta era "dominadora, instável e ambiciosa".
     Em princípios de 1874, Madre Maria Francisca declarou que a situação econômica da congregação era desesperadora (atualmente se sabe que era um julgamento exagerado) e inicialmente declarou ser sua a culpa, mas depois passou a atacar Madre Maria Teresa. Em pouco tempo o rumor de que a má situação das coisas era causada pela fundadora correu por todos os conventos da congregação.
     Madre Maria Teresa lembrou-se então que pouco tempo antes Nosso Senhor lhe havia aparecido e lhe dizia: “Tua missão terminará dentro de pouco tempo, não haverá lugar para ti na tua congregação. Porém, meu poder e minha bondade estarão contigo”. Após consultar o Pe. Ginhac, este a aconselhou a renunciar. Sua conselheira foi nomeada superiora geral.
     A nova superiora não permitiu que a fundadora residisse em nenhum dos conventos da congregação. Não faltaram medidas desagradáveis tomadas por Madre Maria Francisca para evitar que a Beata reconquistasse sua antiga influência e autoridade, e culminou na expulsão da fundadora. Em fins de 1874, Madre Maria Teresa voltou a ser simplesmente Sofia de Soubiran La Louvière.
     Em 20 de setembro de 1874, Maria Teresa de Soubiran foi acolhida no mosteiro de Nossa Senhora da Caridade, em Paris. Admitida inicialmente como pensionista, em 20 de abril do ano seguinte ela tomou o hábito e recebeu um novo nome: Irmã Maria do Sagrado Coração. Ela foi admitida definitivamente em 29 de junho de 1877.
     Com muita humildade, fidelidade e amor, ela se adaptou a todos os usos e costumes de sua nova família religiosa, onde por 15 anos viveu sempre mais confiante no amor de Deus que a despojou de tudo e que se tornou sua força, sua alegria, sua oração, sua plenitude.
     Oito anos depois, a irmã da fundadora, Madre Maria Xavier, também foi despedida da congregação, porque sua presença recordava a Fundadora. Ela também ingressou no convento de Nossa Senhora da Caridade de Paris, e informou a irmã sobre o triste estado da congregação.
     A Beata Maria Teresa passou na enfermaria os últimos sete meses de sua vida. Morreu no dia 7 de junho de 1889, murmurando estas palavras: "Vem, Senhor Jesus". Tentou fazer o sinal da cruz, mas não chegou a completá-lo. Foi sepultada no cemitério de Montparnase, na cripta do convento de Nossa Senhora da Caridade. Atualmente, suas relíquias se encontram na Casa-Mãe das Auxiliadoras em Paris.
     Em fevereiro de 1890, Madre Maria Francisca demitiu-se deixando subitamente a congregação. Madre Maria Isabel de Luppé foi eleita Superiora Geral. Fiel companheira de Madre Maria Teresa de Soubiran, ela havia guardado bem vivo o seu espírito; a nova superiora reabilitou a memória da Fundadora junto às Irmãs.
     O Instituto tomou o nome de Sociedade de Maria Auxiliadora e suas Constituições foram aprovadas definitivamente pela Santa Sé em 6 de janeiro de 1924. Em 31 de dezembro de 2005 o Instituto contava 204 religiosas em 28 casas.
     Madre Maria Teresa de Soubiran La Louvière foi beatificada por Pio XII em 20 de outubro de 1946.
 
Fontes:
Beata Maria Teresa de Soubiran La Louvière (santiebeati.it)
http://alexandrina.balasar.free.fr/

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Santa Clotilde, Rainha dos Francos – 3 de junho


 "Às suas orações a França deve o dom da Fé" (oração litúrgica da festa da Santa) 
 
     O rei da Borgonha morreu e seus quatro filhos dividiram o pequeno reino. Dois deles, gananciosos e cruéis, uniram-se aos ferozes alamanos para invadir os reinos dos outros dois irmãos. Childerico teve a cabeça decepada, seus filhos foram mortos e a esposa atirada ao Ródano. As duas filhas de Childerico, ainda muito crianças, foram poupadas. Gundebaldo, um dos irmãos invasores, levou-as para sua corte. Apesar de ariano, permitiu que elas continuassem a professar a verdadeira religião.
     Fredegária, a mais velha, tornou-se religiosa num mosteiro, onde terminou seus dias em odor de santidade. Clotilde, a mais nova, por "sua doçura, piedade e amor pelos pobres, fazia-se bendizer por todos aqueles que viviam a seu redor".
Sua missão: converter um rei e um reino
     A fama de sua virtude e beleza chegou ao reino dos Francos (atual França). Clóvis I, vitorioso rei dos francos, provavelmente influenciado pelo Bispo São Remígio, que gozava da inteira confiança do monarca, pensou em desposar a virtuosa princesa, apesar de ser ela católica. As bodas realizaram-se no ano de 493, em Soissons, com toda a suntuosidade da época.
     Para agradar a esposa, o rei franco mandou instalar um oratório católico no palácio. Nele Clotilde assistia diariamente a Santa Missa com grande devoção.
     Clotilde deu à luz um herdeiro e obteve de Clóvis licença para batizá-lo. O pequeno inocente faleceu poucos dias depois. Clóvis alegou que se ele tivesse sido consagrado aos seus deuses não teria morrido. A rainha protestou com firmeza e doçura dizendo que em vez de entristecerem-se, eles deveriam alegrar-se por ter o pequenino ido para o Céu.
     No ano seguinte, Clotilde deu à luz outro menino. Apenas batizada, a criança correu perigo de morte. A rainha por suas súplicas e lágrimas, que visavam mais a conversão do marido do que evitar outro falecimento, obteve de Deus que ele se restabelecesse.
As bodas de Clotilde e Clovis
     Clóvis começou a admirar as qualidades da esposa e ouvia-a com gosto, mas a sua conversão haveria de custar muitas lágrimas à esposa. A piedosa rainha entregava-se em segredo a grandes austeridades, prolongadas orações e caridade para com os pobres, a fim de obter a conversão do marido e do reino. Ao mesmo tempo, procurava suavizar o temperamento belicoso do esposo com sua mansidão cristã.
     Clotilde tornou-se amiga de Santa Genoveva, que então resplandecia em Paris por suas virtudes e milagres; a ela e a São Remígio Clotilde recomendou também a conversão do marido. Enquanto isso, Clotilde catequizava suas damas, serviçais e mesmo alguns dos nobres francos que viviam no palácio.
     Na planície de Tolbiac, em 496, a hora da Providência chegou. Clóvis viu-se quase vencido pelos alamanos, mas obteve a reversão da batalha após formular a seguinte promessa: “Deus de Clotilde, se me dás a vitória, faço-me cristão". Após a vitória, sua conversão foi pronta e sincera. Não querendo esperar chegar a Soissons para conhecer "a Fé de Clotilde", mandou chamar um virtuoso eremita, São Vedasto, para que, marchando a seu lado, o instruísse na Fé católica.
     No dia de Natal do mesmo ano, Clóvis, com três mil de seus mais valentes guerreiros, suas duas irmãs e seu filho bastardo, Thierry, ingressaram pelo batismo "na Fé de Clotilde". Quando o rei dos francos entrou com o Bispo de Reims no batistério, este lhe disse as famosas palavras: "Curva a cabeça, altivo Sicambro; adora o que queimaste e queima o que adoraste".
     Quando São Remígio ia proceder à unção do rei com o óleo do Santo Crisma, uma pomba trazendo no bico uma ampola com azeite baixou da abóbada do templo. O Bispo ungiu com aquele azeite a cabeça de Clóvis. Esse azeite seria usado para a unção de praticamente todos os reis franceses, até a abominável Revolução Francesa, quando a ampola foi quebrada pelos revolucionários.
     Clóvis tornou-se muito devoto de São Martinho e foi muitas vezes a Tours visitar o túmulo daquele Santo. Iniciou a aliança entre a França e a Igreja enviando embaixadores ao Papa Anastácio, e fazendo colocar sua própria coroa diante do túmulo do Apóstolo São Pedro. Encorajado por Clotilde, o rei mandou destruir os templos dos ídolos em seu Estado e construiu igrejas dedicadas ao verdadeiro Deus. Clóvis conquistou também a inexpugnável Paris.
     A partir de então, um afeto muito mais forte e sobrenatural uniu os dois esposos, concedendo-lhes a Providência mais dois filhos e uma filha, que é também honrada como Santa.
     Clotilde incentivou seu esposo a empreender uma guerra contra Alarico, rei dos visigodos, que tentava disseminar a heresia ariana na região de Guyenne. Enquanto Clotilde, que o acompanhara nessa cruzada, rezava pelo êxito da batalha, Clóvis abatia o rei visigodo e desbaratava seu exército.
     Extenuado pelas fadigas e lides do governo, Clóvis viu-se atacado por mortal doença em Paris. Clotilde foi ao seu encontro. São Severino, Abade, ministrou-lhe os Sacramentos e ajudou-o preparar-se para a morte. O rei faleceu em 27 de novembro de 511 aos 45 anos de idade.
     Clotilde quis então viver só para Deus; dividiu o reino entre seus três filhos e o enteado. O filho natural de Clóvis, Thierry, reinou em Reims sobre a Austrásia, parte oriental da França, com várias províncias da Alemanha atual; Clodomiro reinou em Orleães; Childeberto em Paris e Clotário I em Soissons.
     Mais de 30 anos de sofrimentos ainda estavam reservados à rainha. Clotilde tinha dado sua filha, que recebera seu nome, como esposa a Amalrico, rei dos visigodos da Espanha, visando a conversão desse monarca. Todavia, a reação do soberano ariano foi de promover toda sorte de perseguições à esposa por sua fidelidade à verdadeira religião. Com permissão do rei, seus vassalos chegavam a atirar-lhe lama quando ela ia à igreja.
     Seus irmãos declararam guerra a Amalrico, que foi morto. Trouxeram então consigo a jovem Clotilde. A mãe não voltaria a ver a filha senão no Céu, pois, acabrunhada de dor, a jovem faleceu a caminho da terra natal.
     As contínuas discórdias e dissensões de seus filhos, e as crueldades cometidas por eles levaram-na a sair de Paris, que tinha sido elevada por Clóvis a capital. Mudou-se para junto do túmulo de São Martinho, em Tours, no mosteiro ali existente, onde, diz São Gregório de Tours, "viu-se uma filha de rei, sobrinha de um rei, esposa de um rei, e a mãe de vários reis, passar as noites em oração, servir os pobres e proteger as viúvas e os orfãozinhos". E ali viveu até a morte.
     Desde essa época viveu ela para a oração, as esmolas, as vigílias, jejuns e outras penitências. E operou vários milagres ainda em vida: curas, mudança de água em vinho, fez surgir uma fonte em campo árido...
     Sentindo aproximar-se a morte, mandou chamar seus dois filhos, exortando-os a servir a Deus e a guardar sua lei, a proteger os pobres, a viverem juntos em perfeita harmonia, e a tratar seus povos com bondade. Depois de fazer pública profissão de Fé Católica, recebeu os Sacramentos e entregou docemente sua alma ao Criador, no dia 3 de junho de 545.
 
Felizes os povos aos quais foi dada uma mãe, pela divina munificência.

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Santa Mariana de Jesus, a “Açucena de Quito” – 26 de maio


Uma Santa equatoriana desconhecida; a primeira a ser canonizada no Equador
 
     Santa Mariana é Heroína Nacional do Equador, padroeira de Quito, protetora dos órfãos e dos doentes. A Santa nasceu no dia 31 de outubro do ano 1618, na cidade em Quito. Hoje Quito é a capital do Equador. Na época, porém, pertencia ao Vice-Reino do Peru. Ela era a mais nova de oito filhos e alega-se que seu nascimento foi acompanhado por fenômenos incomuns nos céus, fenômeno este claramente conectado com a criança e juridicamente atestado durante o seu processo de beatificação.
     Mariana era filha de Jerônimo de Paredes y Flores, Capitão espanhol, nascido em Toledo, e de Mariana de Granobles de Xamarillo. Sua mãe era descendente dos conquistadores espanhóis, católica convicta e mulher virtuosa. A Santa era de alta nobreza, pois descendia de “Grades de Espanha” (nobreza mais antiga que a da Família Real Espanhola), teve seu nome em consideração a Madre Mariana de Jesus Torres y Berriochoa (1563-1635), grande mística, sobrinha do Rei Felipe II da Espanha. Esta Madre chegou a Quito com 15 anos, acompanhando sua tia Madre Maria Taboada que fora incumbida pelo Soberano, a pedido das matronas de Quito, para fundar um monastério de Concepcionistas reclusas na capital equatoriana.
     Com apenas quatro anos Santa Mariana ficou órfã de pai. Pouco tempo depois ela perdeu também sua mãe, que ficara muito entristecida pela morte do marido. Antes de morrer, a mãe de Mariana confiou-a a guarda de sua irmã mais velha. Esta já era casada com um capitão chamado Cosme de Casso, com o qual já tinha três filhas, com idades próximas às de Mariana.
     O casal deu aos filhos e a Mariana uma educação humana e religiosa. Mariana sobressaiu-se logo pela inteligência nos estudos e na música, com uma bela voz. Mas cantava somente cânticos religiosos. E desde cedo manifestou grande piedade, espírito de sacrifício e oração. Com sete anos, salvou suas sobrinhas da morte, tirando-as de um lugar onde, logo em seguida, uma parede caiu.
A Maturidade espiritual
     O cunhado e a irmã, percebendo que Mariana tinha uma espiritualidade precoce, quiseram que ela, aos sete anos, fizesse a Primeira Comunhão. O costume na época era aos 12 anos.  Um padre jesuíta examinou-a e, surpreso com sua maturidade e virtude, ministrou-lhe a Primeira Comunhão, passando a ser seu diretor espiritual. Por essa ocasião ela quis passar a ser chamada de Mariana de Jesus, com a finalidade de mostrar a todos que ela pertencia somente a Ele. Desde menina, quis evangelizar os índios e ser eremita, mas ainda não era a hora.
     Aos 12 anos, sua irmã e o cunhado quiseram levar Santa Mariana a um convento franciscano. Ela também queria, porém, fatos externos impediram que isso acontecesse. Então, Mariana compreendeu que sua vocação era viver recolhida, mas estando “no mundo”. O diretor espiritual aprovou e sua irmã destinou três aposentos da casa para que ali, ela vivesse sua vida “reclusa”. Mariana recusou móveis e luxos, escolhendo tudo muito simples e pobre.
     Uma das salas tornou-se capela. Ao entrar para a sua “reclusão”, fez os votos de pobreza, castidade e obediência. De lá, só saía quando ia à igreja ou ajudar os pobres, aos quais muito amava. Sempre levava sua guitarra e cantava cânticos religiosos para consolo dos pobres. Vivia fazendo jejuns, passava dias à base de pão e água, outras vezes seu único alimento era a Eucaristia e a oração.
     Levantava-se diariamente de madrugada para fazer suas orações. Todas as manhãs, das 8 às 9 horas, rezava pelas almas do purgatório. Fazia trabalhos manuais para dar aos pobres, servia refeições à família de sua irmã, lavava louças e objetos. Trabalhava como uma empregada e depois se recolhia novamente para orações e descanso noturno.
A Fraqueza física
     Por causa dos jejuns e sacrifícios, ela adoecia. Por isso, como era costume na época, era submetida a “sangrias”. Uma empregada jogava o sangue tirado sempre no mesmo local. Após a morte de Santa Mariana, neste local nasceram lírios de beleza inigualável.
Profecias
     Santa Mariana, como qualquer pessoa, sofreu tentações, principalmente a do desânimo e a do desespero. Porém, venceu através da Eucaristia, da oração, do jejum e da direção espiritual. Ela profetizou que a casa de seu cunhado e de sua irmã se transformaria num convento e que o lugar em que ela dormia seria o coro das irmãs. Isso, de fato, aconteceu alguns anos mais tarde, com as Irmãs carmelitas.
Milagres de Santa Mariana
     A história de Santa Mariana de Jesus apresenta vários milagres e duas ressurreições acontecidas através de sua oração: uma de sua sobrinha e outra de uma índia assassinada pelo marido que julgou, injustamente, que a índia o traía. Ao voltar à vida, a índia revelou que, no meio de seus sofrimentos, antes de morrer, teve uma visão de Santa Mariana dizendo a ela: “coragem”.
Salvando a cidade de Quito
     No ano 1645, quando Mariana tinha 26 anos, uma horrorosa epidemia caiu sobre a cidade de Quito. Muita gente morreu por causa dessa doença. Além disso, fortes terremotos ocorriam na região por causa de um vulcão próximo. Todos estavam alarmados e sem esperança.
     Quando chegou o dia 25 de março, dia da Anunciação, Santa Mariana estava na missa. Ali ela ouviu o padre dizer que era preciso mais sacrifícios e penitências para suplicar a paz naqueles tempos de provação. Mariana quis, então, oferecer sua própria vida pela salvação do povo da cidade e orou a Deus para que assim acontecesse. Quando chegou o dia seguinte, ela começou a sofrer inúmeros males.
      Ao mesmo tempo, porém, os tremores foram cessando e a peste foi terminando. Mas o povo de Quito ficou consternado ao saber do estado grave em que se encontrava aquela que tinham como verdadeira santa. A população se reuniu em frente à casa de seu cunhado, mas somente o Bispo pôde entrar.
     O Bispo ministrou a ela os sacramentos e soube do oferecimento que ela fizera de sua vida. Sabendo de sua morte próxima, ela quis ser levada para a cama de sua sobrinha para que, na hora da morte, não tivesse mais nenhum pertence.
Devoção a Santa Mariana
     Santa Mariana faleceu em 26 de maio do ano 1645, com apenas 26 anos de idade.
     No sermão de seu enterro, realizado pelo Pe. Alonso de Rojas, S.J., este enfatizou que a sua mortificação corporal e renúncia da carne a colocou como um modelo para as mulheres de Quito, tanto que suas palavras foram: “Aprendam, mulheres de Quito, de sua compatriota, (a preferir) a santidade acima da beleza, as virtudes acima de ostentação”. E esse sermão se tornou o documento-chave no longo processo de estabelecer a sua santidade, beatificação (1853) e canonização (1950).
     A peste e os terremotos passaram e a paz reinou por muito tempo em Quito. Logo todo o povo da cidade acorreu para chorar e prestar sua última homenagem àquela que tinha entregado sua própria vida por eles. Seus restos mortais foram colocados no altar da Igreja de Quito e permanecem lá até hoje. Por isso, ela chamada de a Heroína Nacional do Equador e padroeira de Quito. Após sua morte, várias graças e milagres foram alcançados através da intercessão de Santa Mariana.
Canonização
     Do processo de beatificação, Monsenhor Alfonso dela Pegna deu início ao primeiro passo preliminar e instituiu o processo de inquirir e coletar evidências de santidade em sua vida, suas virtudes e milagres. Os Ritos das Sagradas Congregações discutiram e aprovaram o processo em favor de sua introdução formal e o Papa Bento XIV assinou a causa em 17/12/1757. O processo apostólico concerniu virtudes da Venerável Mariana das Paredes. Após todos os processos legais, na Basílica de São Pedro, no dia 10/11/1853, o resumo foi lido e a beatificação foi realizada.
     Santa Mariana de Jesus foi beatificada pelo Papa Pio IX, no ano de 1850. Ela foi canonizada, em 1950, um século depois, pelo então Papa Pio XII. 


Na igreja da Companhia (dos Jesuítas), em Quito, aos pés de Nossa Senhora de Loreto, se venera a imagem de Santa Mariana de Jesus ladeada por várias de suas relíquias, entre elas a guitarra (à esquerda) e a caixa de costura (à direita).
 




Este quadro representa Santa Mariana de Jesus Paredes Flores Granobles y Jamarillo (1618-1645), leiga 
que viveu no Equador — o traje da época era de leigas — e que, por sua beleza, candura e pureza virginal, ficou para a história como a “Açucena de Quito”.
 
Oração a Santa Mariana   
     “Santa Mariana de Jesus, modelo de oração e de amor a Jesus, orai por nós, para que saibamos seguir vosso exemplo de dedicação a Deus e ao próximo. E que saibamos colocar sempre o Senhor em primeiro lugar em nossa vida”. 
     Santa Mariana de Jesus, Açucena de Quito, Heroína do Equador, Rogai por nós.
 
Fontes:
História de Santa Mariana - Santos e Ícones Católicos - Cruz Terra Santa
S. Mariana de Jesus de Paredes, virgem | Salve Maria

domingo, 19 de maio de 2024

Beata Humiliana Cerchi, Viúva e Terciária Franciscana - 19 de maio

Martirológio Romano: Em Florença, Beata Humiliana, da Ordem Terceira de São Francisco, que suportou com paciência e mansidão muitos maus tratos do esposo e, tendo enviuvado, se dedicou inteiramente à oração e às obras de caridade (†: 1246).
 
 
     Os Cerchi, guelfos da parte branca, eram uma família ilustre: um irmão de Humiliana ocupou cargos públicos importantes. Era época de lutas infindas, mesmo dentro das muralhas da cidade. O vizinho podia ser um inimigo e, portanto, cada casa rica tinha a sua torre. Os guelfos eram leais ao Papa e os gibelinos ao imperador alemão. Na verdade, mais do que por motivos políticos se lutava por motivos econômicos; ricos comerciantes e nobres que disputam o poder. Em Florença, as lutas começaram com a morte de Buondelmonte, no domingo de Páscoa de 1215.
     Naquele período turbulento o espírito evangélico deu origem a novas ordens dentro da Igreja, pensamos nos franciscanos e nos dominicanos. São Francisco morreu quando Humiliana tinha sete anos. A notícia causou um rebuliço mesmo em Florença, que ele tinha visitado muitas vezes, e certamente chegou aos ouvidos de Humiliana.
     Humiliana nasceu em Florença em 1219, filha de Olivério Cerchi. Por perder a mãe quando era ainda criança, foi educada pela madrasta Ermelina, consanguínea de São Filipe.
     Conhecemos pouco de sua infância, mas podemos imaginá-la bastante normal. As mulheres eram sujeitas a muitas limitações. Aos quinze anos de idade, em obediência ao seu pai, ela se casou com Bonaguisi, um tecelão tão rico quanto ganancioso e rude, provavelmente usurário. O pai havia colocado bem as outras filhas, por exemplo, as uniões com os Adimari e os Donati. O casamento de Humiliana foi, portanto, um acordo econômico entre duas famílias ricas (o dote esponsal era um verdadeiro contrato), sendo completamente insignificantes as suas aspirações. A jovem noiva sofreu acima de tudo pelas iniquidades e má conduta do cônjuge, e tentou compensar isso com muitas obras de caridade.
     A Providência sempre vem em auxílio dos justos. Humiliana encontrou em sua nova casa uma colaboradora excepcional: a cunhada Ravena. Foi um apoio importante porque, sendo maior idade, tinha o controle da casa e juntas elas chamavam menos atenção. A união foi perfeita. Levantavam-se cedo e iam à Missa (geralmente na vizinha igreja de São Martino), faziam o trabalho doméstico, coordenando os empregados. Elas, então, dedicavam-se às obras de misericórdia. Humiliana geralmente se levantava antes do estabelecido e, enquanto o silêncio envolvia a casa, ela rezava intensamente ao seu Jesus. Ravena testemunhou que Humiliana subtraía da mesa toda a comida que podia para distribuí-la aos pobres, juntamente com sapatos e roupas. Para os doentes, uma vez ela esvaziou metade do seu colchão. Juntas, elas visitavam o Mosteiro dominicano de Ripoli e o hospital de São Gallo.
     Humiliana também confeccionava paramentos sagrados para as igrejas que visitava, usando escondido os tecidos preciosos que o marido lhe dava, ela tinha uma grande veneração pelo culto divino. Para os pobres intervinha junto aos conhecidos ricos para obter recursos e muitas vezes trabalhava à noite, longe dos olhos das pessoas. Na caridade, a única regra era a de Cristo. Quando foi descoberta, teve que suportar insultos e espancamentos do esposo e até de parentes do marido. Mas Humiliana conhecia a passagem do Evangelho que chama bem-aventurados os perseguidos por causa do Senhor. Encarnando perfeitamente o ideal franciscano, ela tomou o hábito da Ordem Terceira na Igreja de Santa Cruz das mãos de Frei Michele Alberti, seu confessor.
     Humiliana teve duas filhas; o casamento durou cinco anos até a morte repentina de seu marido, que morreu com os últimos sacramentos. Os parentes tinham de manter por um ano a viúva que, em seguida, voltou para sua família. Durante este ano ela convidou para sua mesa muitos pobres. O costume cruel do tempo estipulava que as crianças deviam ser deixadas com os parentes do marido (no caso de Humiliana, felizmente, seriam cuidadas por Ravena).
     Viúva com pouco mais de vinte anos, seu pai tentou convencê-la a se casar novamente. Desta vez a negação foi inflexível, ela queria entrar no Mosteiro de Monticelli (fundado por Santa Inês, irmã de Santa Clara). Os planos do Senhor, no entanto, eram diferentes. O seu dote que foi devolvido foi cedido ao seu pai (por um ato oficial!) e não podendo se tornar uma freira, em 1241 pediu e obteve do papa autorização para viver isolada na torre dos Cerchi, próximo da Praça da Senhoria. Privada dolosamente de grande parte dos bens, se alegrou com isso, deu graças a Deus e se dedicou à penitência e à esmola, distribuindo aos pobres o pouco que lhe restava.
     A fiel Gisla era mais do que uma camareira, foi uma companheira. No isolamento de seu quarto, com o essencial, montou um altar para Nossa Senhora. Passava os dias rezando e fazendo penitência, mesmo com cilicio. Jejuava nos dias de festa e nas vigílias, durante a Quaresma e Advento. Em alguns períodos ela também respeitava o grande silêncio. Ela sofreu muito por causa da impossibilidade de continuar as atividades caritativas. Ela se deu toda a Deus, a castidade da viuvez. Ela vivia como uma reclusa no coração de Florença, entre as pessoas que muitas vezes iam visitá-la (incluindo as filhas). Seu quarto tornou-se uma espécie de centro espiritual; entre outras coisas, a cada Quinta-feira Santa ela lavava os pés de suas irmãs terciárias. A Fé, sua riqueza mais importante, sempre a apoiara em dificuldades e Cristo recompensou consolando-a todos os dias. Não faltaram as vexações diabólicas e as provas espirituais, mas também as visões místicas. Foram muitos os dons com que Deus a agraciou: êxtases, espírito profético e poder taumatúrgico.
     Muitos episódios da sua vida mereceram ser inscritos em florilégios legendários: ser curada duma chaga dolorosa por meio dum sinal da cruz traçado por mão invisível; fazer com que a água substituísse o azeite para alimentar a lamparina do Santíssimo Sacramento; seu Anjo da Guarda a chamava de madrugada para a oração da manhã; padecendo de sede em virtude de uma febre, veio a Virgem Maria dar-lhe de beber; Jesus muitas vezes a alimentou com pão e mudou a água em vinho, e  ressuscitou uma filha morta subitamente. Satanás vinha tentá-la com alucinações e seduções, com imagens sedutoras ou formas repelentes: a firmeza de sua fé defendia-a sempre desses assaltos.
         Ela adoeceu, mas se manteve em silêncio para evitar distúrbios: uniu seus sofrimentos aos de Cristo na Cruz. No dia de sua última Páscoa terrena, ao som dos sinos caiu em êxtase. Ela morreu assistida apenas pela fiel servidora no alvorecer de 19 de maio de 1246. Era sábado, o dia dedicado a Maria e Humiliana tinha vinte e sete anos.
     O funeral foi triunfal dado que já a cercava a fama de santidade. Seus pés foram enfaixados para evitar os excessos das pessoas; ela tinha expressado esse desejo movida pelo senso de pudor que sempre lhe fora tão caro. As pessoas aclamaram-na santa e espontaneamente se dirigiam ao seu túmulo para rezar. Ela foi enterrada em sua igreja favorita de Santa Cruz. No começo, ela foi enterrada no chão, em seguida por trás de uma parede sob as escadas do púlpito, até que seu irmão Arrigo (que seguira seu exemplo se tornando franciscano), dispôs uma capela no claustro. Hoje suas relíquias são veneradas em uma capela do transepto, em uma urna artística. A humilde beata repousa na basílica que o mundo inteiro conhece por suas obras de arte e porque ali estão sepultados alguns grandes da Itália.
     Sua vida foi escrita em latim pelo Frei Vito de Cortona (do convento de Celle) e pelo confessor Frei Miguel, sendo que os dois a tinham conhecido. Houve uma atenção incomum ao recolher testemunhos: são citadas escrupulosamente trinta e quatro testemunhas, incluindo três cunhadas, uma avó e três empregadas domésticas. Mesmo os milagres (quarenta e sete), que ocorreram nos três anos após a morte, foram registados por Frei Hipólito, do mesmo convento.
     A biografia foi resumida trezentos anos mais tarde por Raphael Volterrano e pelos Bollandistas. Exemplo de grande e humilde mulher, de filha, de esposa e mãe, nela resplandeceram as virtudes da humildade, da caridade e da obediência. Suas maiores devotas eram as mulheres em necessidade. O seu culto foi aprovado pelo papa Inocêncio XII em 24 de julho de 1694.
Fontes:
https://franciscanos.org.br/
www.santiebeati/it
 

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Beata Juliana de Norwich, Mística - 13 de maio

     Ignora-se o seu nome de batismo e o de sua família. O seu livro “Revelações do Amor Divino”, que contém dados sobre sua existência, é mencionado por uma testemunha recentemente descoberta: Margery Kempe, outra mística inglesa de seu tempo, que em sua autobiografia diz que no ano 1414 visitou "Lady Julian" (Sra. Juliana) para obter conselhos de direção espiritual.
O Cardeal Adam Easton, beneditino de Norwich, pode ter sido o diretor espiritual de Juliana e editado o seu Texto Longo.
     Juliana, nome como era conhecida em vida, e pelo qual ficará conhecida para sempre, talvez tenha sido adotado em honra de São Julião, patrono da igreja junto à qual transcorreu grande parte de sua vida. A igreja pertencia ao Mosteiro de Beneditinas de SS. Maria, dentro da cidade de Norwich. Há um debate acadêmico sobre se Juliana era uma monja do priorado, ou uma leiga. Ela viveu em uma ermida de três quartos do lado de fora do mosteiro, e tinha duas servidoras que a atendiam quando atingiu a idade avançada.
     Aos 30 anos, quando ela vivia em casa, sofreu uma doença grave. Julgando-se que estivesse perto da morte, um padre veio-lhe administrar a Santa Unção em 8 de maio de 1373. Como parte do ritual, o padre manteve o crucifixo no ar acima dos pés da cama. Juliana relata que estava a perder a vista e entorpecida, mas quando olhou para o crucifixo viu que a imagem de Jesus começou a sangrar. Durante as horas seguintes, Juliana teve uma série de dezesseis visões de Jesus Cristo, que terminaram quando ela se recuperou da sua doença, em 13 de maio de 1373.
     Juliana escreveu sobre as suas visões imediatamente depois de terem acontecido, apesar do texto final pode não ter sido terminado durante alguns anos, numa primeira versão das Revelações do Amor Divino, agora conhecida como o Texto Curto, com 25 capítulos e cerca de 11 000 palavras. Vinte a trinta anos depois, talvez no início da década de 1390, Juliana começou a escrever uma explicação teológica do significado das visões, conhecida esta versão como o Texto Longo, que consiste em 86 capítulos e cerca de 63 500 palavras. Este trabalho parece ter passado por várias revisões, antes de ser completado, talvez na primeira ou na segunda década do séc. XV. Acredita-se ser o mais antigo livro escrito no idioma inglês por uma mulher.
 
Revelações do Amor Divino
     “Revelações do Amor Divino” é uma obra célebre no Catolicismo por causa da clareza e da profundidade da visão de Deus de Juliana.
     O Texto Curto sobrevive apenas num manuscrito de meados do séc. XV, o Manuscrito Amherst, que foi copiado de um original escrito em 1413, ainda em vida de Juliana. O Texto Curto parece não ter sido muito lido e apenas seria publicado em 1911. O Texto Longo parece ter sido um pouco mais bem conhecido, mesmo assim parece não ter sido muito divulgado na Inglaterra do final da Idade Média. O único manuscrito sobrevivente desta época é o Manuscrito de Westminster, escrito de meados a final do séc. XVI, que contém uma parte do Texto Longo, sem referência à autoria, reescrito como um tratado didático em contemplação.
     A primeira edição impressa das “Revelações do Amor Divino” foi da responsabilidade do monge beneditino inglês Serenus Cressy, tendo sido publicada em 1670. Esta versão foi reedita em 1843, 1864 e 1902. O moderno interesse pela obra aumentou na sequência da edição da responsabilidade de Grace Warrack, em 1901, com uma linguagem modernizada, tendo sido a principal responsável por dar a conhecer aos leitores contemporâneos esta obra. As “Revelações do Amor Divino” vêm sendo publicadas em várias línguas, tornando-se muito populares no âmbito da literatura mística cristã.
     A versão do livro feita por Grace Warrack, em 1901, introduziu os escritos de Juliana junto à maioria dos leitores do início do século 20. Após a publicação da edição de Warrack, o nome de Juliana se espalhou rapidamente e se tornou tema de muitas palestras e escritos. Em 1979, uma edição do livro foi publicada e, como resultado, o livro tornou-se amplamente vendido e discutido, em um momento de espiritualidade renovada. Juliana de Norwich é agora reconhecida como uma das místicas mais importantes da Inglaterra.
     Os beneditinos de Norwich e o Cardeal da Inglaterra, Adam Easton, podem ter sido os diretores espirituais de Juliana de Norwich, e os editores de seu Longo Texto mostrando o Amor.
     O ditado: "... Tudo estará bem, e todos estarão bem, e todos os tipos de coisas deverão estar bem", que Juliana afirmou ter sido dito a ela por Deus, reflete sua teologia. É uma das linhas mais famosas da escrita teológica católica e é uma das mais famosas frases da literatura de sua época.
     Em suas visões, Juliana viu o sangue fluindo sob a Coroa de Espinhos de Jesus Cristo, viu a Virgem como uma jovem e simples senhora; e em relação à Cruz, ela viu a misericórdia Divina caindo como uma fina chuva de graças durante a Sua Paixão. Ela viu o Senhor morrendo, os Seus terríveis tormentos, e escreveu: “Assim eu O vi e eu O amava”.
     De sua ermida na Inglaterra da virada do século XIV para o XV, Juliana de Norwich é uma das vozes que se destacam nesse percurso, levando totalmente a sério a identificação que o cristianismo faz entre Deus e o amor.
     “Vi com certeza que quando Deus nos criou já nos amava, e tal amor nunca diminuiu nem diminuirá. Nesse amor ele fez todos os seus trabalhos, fez todas as coisas benéficas a nós, e nesse amor nossa vida é eterna. Na nossa criação tivemos um princípio, mas o amor em que nos fez estava nele desde a eternidade; nesse amor temos nosso princípio”, escreveu Juliana na última página de seu único escrito, em que procurou aprofundar, no decorrer de sua vida, uma visão que teve em um dia de maio de 1373, quando tinha 30 anos de idade.
     Se Deus é amor, “Ele está em tudo que é bom” e “é Ele a bondade que cada coisa tem” – disso Juliana estava convencida. Segundo a sua visão, estamos profundamente arraigados em Deus. O pecado não foi e não é capaz de negar que é em seu útero maternal que vivemos. “Nada pode estar entre Deus e nossa alma”, escreveu ela. “Deus nunca está fora da alma, na qual habita alegremente e sem fim”.
     Deus está mais próximo de nós do que a nossa própria alma, pois Ele é o fundamento em quem nossa alma repousa”, afirmou Juliana. “Nossa alma se assenta em Deus no verdadeiro descanso e nossa alma se assenta em Deus na verdadeira força, e nossa alma está naturalmente enraizada em Deus no amor infinito. E, portanto, se desejamos ter conhecimento de nossa alma, comungar e envolver-nos com ela, é necessário buscar nosso Senhor Deus, em quem ela está incluída”.
 
    É precisamente prestando atenção a essa presença amorosa de Deus na interioridade que a pessoa pode recobrar a semelhança com Ele. “Ele ensinará à alma como deve comportar-se quando O contempla”, explicou Juliana. Cristo, que assume a nossa natureza humana e sensível, fazendo com que tudo aquilo que somos se insira definitivamente na realidade divina, é o amor de Deus, “o fundamento de todas as leis”.
     É o amor a garantia de que tudo acabará bem, apesar dos contextos conflituosos em que vivemos. É o amor que dará sentido à história e é no amor que serão reconciliadas todas as coisas. “Assim como a Santíssima Trindade criou todas as coisas a partir do nada, assim então a mesma Santíssima Trindade fará ficar bem tudo o que não está bem”, escreveu Juliana.
     O rosto do Deus que lhe fala em sua visão é a própria expressão disso: “Tudo isso Ele me revelou cheio de felicidade, mostrando assim: ‘Vê! Eu sou Deus. Eu estou em todas as coisas. Vê! Eu fiz todas as coisas. Vê! Eu nunca retiro as minhas mãos da minha obra, nem nunca retirarei, eternamente – vê! E conduzo todas as coisas até o final que ordenei desde o início dos tempos, pelo mesmo poder, sabedoria e amor com os quais as criei. Como poderia alguma delas ser errada?
     Na época de sua morte, a Beata tinha uma vastíssima reputação e atraia visitantes de toda a Inglaterra para a sua cela. Embora Juliana não tenha sido formalmente beatificada, é mencionada como Beata por vários autores e na Inglaterra a invocam como Santa.
     A festa da Beata Juliana de Norwich na tradição católica romana é a 13 de maio.
 
Fontes: Juliana de Norwich – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)
Juliana de Norwich, la mística desconocida | BalmesLibreria.com
https://www.semprefamilia.com.br/