segunda-feira, 22 de julho de 2019

Santa Brígida da Suécia, Fundadora - 23 de julho

     Brígida Birgersdotter, escritora, teóloga, fundadora de Ordem religiosa, padroeira da Suécia e Co-padroeira da Europa, era filha do aristocrata Birger Persson de Finsta e de Ingeborg Bengtsdotter. Seu pai foi conselheiro real (riksråd) e homem de leis (legífero) de Tiundalândia na Uplândia. Por intermédio de seus pais e de seu esposo, pertenceu aos círculos políticos mais influentes da Suécia medieval. 
     Santa Brígida nasceu por volta de 1303, segundo uma tradição antiga, em Norrtälje, na província de Uppland. Finsta era a residência da família Finsta, e pertenceu durante certo tempo (porém não na época do nascimento de Brígida) a seu pai Birger Persson. Seu pai era juiz de Uppland, e seu avô paterno, seu avô materno e seu irmão também exerceram essa profissão. Seu esposo também viria a ser juiz, teve um filho que passaria a exercer a mesma atividade. Seu avô materno era primo de Magnus Ladulás, de modo que Brígida tinha parentesco com a família real sueca.  Sua família forneceu à Igreja muitos santos e se dedicava a construir mosteiros, igrejas e hospitais com a própria fortuna. 
     Até os seus 3 anos de idade a pequena Brígida não falava. Repentinamente, falou com impressionante facilidade e desenvoltura. Aos 7 anos teve sua primeira experiência mística conhecida: viu Nossa Senhora que lhe sorria e colocou sua majestosa coroa sobre sua cabeça. Depois, desapareceu.
     Aos 10 anos de idade Brígida experimentou a dor da separação: sua mãe adoeceu gravemente e faleceu. Era, portanto, o ano 1312. Seu pai, se considerando incapaz de prover educação compatível com a de uma menina de sua condição social, enviou-a para a casa da cunhada Catarina Bengtsdotter, em Aspanäs, próxima ao Lago Sommen, em Östergötland. 
     Desde a infância, Brígida tinha o dom das revelações divinas, todas anotadas por ela no seu idioma sueco. Em uma ocasião, viu diante dela Jesus Cristo torturado e morto na cruz. Alguns dias depois, teve uma outra visão, de Cristo pregado à Cruz, coberto de chagas, e o Salvador lhe disse estas palavras: “Olha em que estado me encontro, minha filha”. E ela perguntou: “Jesus, quem te fez isto?”, ao que Ele respondeu: “Aqueles que me ofendem e não querem o meu amor”. Tal visão deixou uma profunda e indelével marca em seu coração.
     Esses dois temas, a profunda devoção a Maria e as meditações sobre o sofrimento de Cristo, marcariam toda a vida de Santa Brígida. As descrições foram traduzidas para o latim e somaram oito grandes volumes, que ainda hoje são fonte de consulta para historiadores, teólogos e fiéis cristãos.
     Ao completar 14 anos, e atendendo às ordens de seu pai e parentes, Brígida casa-se com Ulf Gudmarsson. Com este homem nobre em mais de um sentido, viveu um matrimônio feliz por 28 anos. Como frutos desse casamento, vieram ao mundo 8 filhos, sendo 4 meninos e 4 meninas.
     Era com rigor que eles cuidavam da educação religiosa e acadêmica dos filhos, sempre no caminho para a santificação em Cristo.  Carlos, o mais velho, veio a se tornar um homem de vida desregrada. Dois meninos morreram ainda crianças e o quarto chamava-se Gudmaro. As mulheres se casaram, porém, a terceira, ficando viúva, tornou-se religiosa e foi canonizada como Santa Catarina da Suécia. A quarta filha entrou para a Ordem de Cister, também como religiosa.
     Em 1355, Brígida foi chamada pela corte do rei Magno II para converter-se em dama de honra da rainha Branca de Namur. Esta incumbência exigia que ela frequentasse sempre as cortes luxuosas. Mas não se corrompeu neste ambiente de riquezas frívolas, ao contrário, manteve-se fiel aos ensinamentos cristãos, perseverando seu espírito na dignidade e na caridade da fé.
     A devoção de Brígida também influenciou seu marido. Entre outras viagens, o casal realizou peregrinações a Nídaros (atual Trondheim) e a Santiago de Compostela. A caminho da Espanha, na cidade francesa de Arras, Ulf adoeceu. Quando se temia o pior, o santo francês São Dionísio apareceu ante Brígida e lhe prometeu que seu marido não morreria nessa ocasião. De fato, ele ficou curado, mas, de volta a Suécia, Ulf ingressou no mosteiro cisterciense de Alvastra, onde vivia um dos seus filhos, e lá morreu, em 1344.
     Após a morte de Ulf, Brígida repartiu seus bens entre os herdeiros e os pobres, passando a viver de maneira simples nas imediações do convento de Alvastra. Viúva, Brígida decidiu retirar-se definitivamente para a vida monástica para realizar um velho projeto, a fundação de um mosteiro duplo, de homens e mulheres, que deu origem à Ordem do Santo Salvador, sob as Regras de Santo Agostinho, passando, então, a viver nele.
     Suas visões e revelações se tornaram mais numerosas e frequentes. As revelações divinas não lhe vinham mais em sonhos, mas quando desperta e em oração, muitas vezes em êxtases. As revelações de Santa Brígida se referiam aos assuntos mais polêmicos de sua época e muitos reconhecem que, graças a essas visões, muitos acordos de paz foram firmados e estabeleceram relações políticas entre os Estados, dentre outras coisas.
     Certa vez, em uma visão, Jesus lhe disse: "O que eu te falo não é somente para ti, (...) mas por meio de ti falarei ao mundo". Todas essas experiências foram escritas em latim pelo prior do Mosteiro de Santa Maria, Pe. Pedro de Skninge, que era confessor e confidente de Santa Brígida, confiava com exatidão suas visões divinas.
     Brígida viajou a Roma no ano de 1349 com o propósito de tomar parte na celebração do jubileu de 1350, e para obter permissão do Papa para fundar uma nova Ordem religiosa. Entretanto, na ocasião o Papa residia em Avignon e, além disso, a Igreja havia proibido o estabelecimento de mais ordens. A ausência do Papa desanimou Brígida, que havia tido uma visão na qual encontraria o Papa e o Imperador quando chegasse a Roma.
     Em Roma, residiu primeiramente próximo da Basílica de São Lourenço. Foi testemunha do decaimento espiritual da cidade após a partida do Papa. Durante sua estadia na cidade, escreveu cartas ao Papa, onde lhe suplicava que regressasse a Roma, e se dedicou a visitar as igrejas que continham túmulos de santos. Nas Igreja de São Lourenço de Panisperna, na colina de Viminale, pediu aos transeuntes esmolas para os necessitados. Também aproveitou para viajar em peregrinação aos santuários de Assis, à Nápoles e ao sul da Itália.
     Em 1368, o Papa Urbano V regressou a Roma e, em 21 de outubro recebeu o Imperador Carlos IV. Então Brígida pôde entregar as regras de sua ordem ao Papa, que se encarregaria de examiná-las. As regras foram aceitas com várias revisões e grandes mudanças com as quais Brígida provavelmente não concordava. Além disso, o Papa tomou a decisão de deixar novamente a Itália por motivos de segurança, situação com a qual Brígida também não estava de acordo. Ela profetizou que o Papa receberia um forte golpe de Deus e após dois meses do regresso a Avignon Urbano faleceu.
     Em 1371, quando tinha aproximadamente 68 anos, Brígida realizou uma viagem à Terra Santa, com um itinerário que passaria por Nápoles e Chipre. Em Nápoles, faleceu seu filho Carlos Ulvsson, o que lhe acarretou grandes preocupações. Brígida teve, então, outra aparição que lhe garantiu o perdão divino a seu filho, que agradeceu as orações e lágrimas de sua mãe.
     Quando voltou à Roma, no verão de 1373, uma enfermidade a debilitou e Brígida faleceu no que é hoje a Praça Farnese, no dia 23 de julho, aos setenta e um anos, em mãos de seu fiel confessor. De acordo com sua própria vontade, seus restos mortais foram transladados para a Suécia, especificamente para o convento de Vadstena, após haverem sido enterrados na igreja romana de São Lourenço em Panisperna.
     A Ordem fundada por ela passou a ser dirigida por sua filha, Catarina da Suécia, alcançando notoriedade pelos anos futuros.
     Em 1377, por ordem do Bispo Alfonso Pecha de Vadaterra, amigo e confessor de Brígida, saiu à luz a primeira edição de suas Aparições Celestiais. Em 1378, foi ao fim outra aprovação sobre as regras da ordem religiosa de Brígida, e em 1384 se consagrou o convento de Vadstena.
     O processo de canonização de Brígida começou em 1377 e terminou em 1391. Foi canonizada a 7 de outubro de 1391 por Bonifácio IX.  Em 1999, Santa Brígida foi elevada à categoria, junto com Santa Catarina de Siena e Santa Teresa Benedita da Cruz, de co-patrona da Europa.
     A ordem de Santa Brígida perdura até nossos dias, sob o nome de Ordem do Santo Salvador (Ordo Sancti Salvatoris), chamada comumente de Ordem Brigidina. Os restos de Santa Brígida se encontram no convento de Vadstena. O edifício onde a Santa viveu em Roma, a Casa de Santa Brígida, contém um templo, um convento e um albergue. 
     Ela é venerada como a padroeira da Suécia. Sua festa litúrgica é comemorada em 23 de julho.
Visões e revelações: O tempo presente e as profecias de Sta. Brígida
     As Revelações de Santa Brígida receberam um grau excepcionalmente alto de autenticidade, autoridade e importância desde o início. O Papa Gregório XI (1370-78) aprovou e confirmou-as e julgou-as favoravelmente, assim como Bonifácio IX (1389-1404), na Bula Ab Origine Mundi, par. 39 (7 de julho de 1391). Mais tarde, foram examinados no Concílio de Constança (1414-18) e no Conselho de Basileia (1431-49), ambos julgando-as em conformidade com a fé católica. As revelações também foram fortemente defendidas por inúmeros teólogos conceituados, incluindo Jean Gerson (1363-1429), Chanceler da Universidade de Paris, e Cardeal Juan de Torquemada (1388-1468).
     Consta dos escritos de Santa Brígida que Nosso Senhor, referindo-se aos últimos tempos, disse-lhe: “... 40 anos antes do ano 2000 (anos 60 do século 20, portanto), o demônio será deixado solto, por um tempo”.
     “Um sinal dos eventos que marcarão o fim dos tempos será este: os sacerdotes deixarão de usar o hábito santo e se vestirão como pessoas comuns; as mulheres se vestirão como os homens e os homens como as mulheres”.
     “… Esta é a hora de Satanás, que tem a infame intenção de destruir a minha Criação...”
     Encerramos com uma importante advertência: há muitas supostas profecias atribuídas a Santa Brígida que podem ser encontradas na internet. Porém, é preciso extremo cuidado e seriedade ao se analisar tais conteúdos, porque há muita falsidade e/ou material sem apresentação de fontes que não merece crédito.
Convento de Vadstena
Fontes:
www.obradoespiritosanto.com

Postada neste blog em 22 de julho de 2012

sábado, 20 de julho de 2019

Beatas Francisca do Coração de Jesus Aldea Araujo e Rita Dolores do Coração de Jesus Pujalte Sánchez, mártires da Guerra Civil espanhola – 20 de julho


Beata Francisca do Coração de Jesus Aldea Araujo
     Filha de Paulo e Narcisa, nasceu em Somolinos, Diocese de Sigüenza-Guadalajara (Espanha), no dia 17 de dezembro de 1881. Órfã de pai e mãe, desde criança foi acolhida como interna no Colégio Santa Susana, das Irmãs da Caridade do Sagrado Coração de Jesus, em Madrid. Aos dezoito anos, no dia 8 de dezembro de 1899, ingressou no Noviciado desse Instituto e emitiu os votos temporários em 1903. Fez seus votos perpétuos em 1º de novembro de 1910.
     Depois de receber o título de professora na Escola Normal de Toledo, dedicou parte de sua vida ao ensino (até 1916) e às atividades apostólicas que acompanham a vida do magistério. Desempenhou posteriormente outros cargos de responsabilidade no Instituto: superiora local, conselheira, secretária e economia geral. Quando estalou a perseguição religiosa, ela exercia o cargo de Administradora-Geral, com residência no Colégio Santa Susana.
     Era generosa e alegre, humilde e alma delicada. Destacou-se por seu amor ao Coração de Jesus e a Maria SSma. Embora temesse uma possível morte diante do rumo que tomavam os acontecimentos, confiou que Deus lhe daria forças se lhe pedisse o martírio. Com um “até o céu” se despediu das Irmãs ao sair do colégio a caminho da morte.

Beata Rita Dolores do Coração de Jesus Pujalte Sánchez
     Nasceu em Aspe (Alicante), no dia 18 de fevereiro de 1853, filha de Antônio Pujalte Anton e de Luísa Sanchez Almodóvar, uma família cristã e abastada. Seus anos de infância e adolescência foram marcados por forte religiosidade, dedicava-se à catequese e às obras de caridade.
     Em 1888 ingressou no Instituto das Irmãs da Caridade do Sagrado Coração de Jesus, fundado em 1877 por Madre Isabel Larrañaga, no qual desempenhou os cargos de mestra de noviças e de segunda superiora, depois da Venerável fundadora. Fez sua profissão religiosa em 21 de junho de 1890; tempos depois emitiu seus votos perpétuos.
     Destacou-se pela solidez de sua fé, caridade, espírito de oração e no trato humano. Com paciência suportou uma doença no ocaso de sua vida e a cegueira, tendo sido ajudada até o fim pela Beata Francisca Aldea Araujo, que fora discípula de Madre Rita quando esta era mestra de noviças.

O martírio
     Durante a perseguição religiosa levada a cabo na guerra civil espanhola de 1936-1939, as duas foram presas e fuziladas. Naquele período a Igreja pagou um enorme tributo: foram assassinados sete mil entre religiosos, religiosas e sacerdotes.
     As duas religiosas tinham passado parte de suas vidas no Colégio de Santa Susana e juntas saíram dele para percorrer um caminho que as converteria em testemunhas de sua fé. O colégio ficava no Bairro das Ventas, então uma das zonas suburbanas de Madrid. Este colégio acolhia, além das religiosas, meninas pobres e órfãs. Embora a situação fosse extremamente perigosa em meio a um ambiente geral de tensão, a comunidade optou por permanecer no colégio para atender as meninas.
     Madre Rita Dolores em várias ocasiões fora convidada a deixar o colégio e procurar por um lugar mais seguro, mas segundo sua lógica, ela perdia mais que ganhava e sempre recusava. Madre Francisca, movida por sua caridade, se comprometeu a não abandoná-la, estando consciente do risco que assumia.
     No dia 20 de julho de 1936 o colégio foi assaltado e alvo de tiroteio. Segundo testemunhas, tanto Rita Dolores como Francisca, quando souberam que a chegada dos milicianos era eminente, se dirigiram para a capela para preparar-se para o martírio; perdoaram antecipada e generosamente seus verdugos e se dispuseram para a morte, que pressentiam certa, se colocando nas mãos de Deus. “Coloquemo-nos em seus braços e que seja feita a sua santíssima vontade”, disse Madre Rita Dolores.
     Na portaria, momentos antes de sair, recitaram o Credo na presença dos milicianos, que as acompanharam até a casa de uma família conhecida. Por volta do meio-dia foram conduzidas violentamente para o interior de uma camioneta. Elas foram levadas para Canillejas, um subúrbio da capital, e ali foram fuziladas no mesmo dia, às 15h. Madre Rita tinha 83 anos e Madre Francisca 55 anos.
     Os médicos que fizeram a autópsia no dia seguinte ficaram maravilhados, porque as Servas de Deus conservavam os membros flexíveis, como se tivessem acabado de morrer, e emanavam um perfume muito intenso e agradável.
     Logo a fama de seu martírio foi divulgada. Testemunhas presenciais se maravilharam com a serenidade de seus rostos e do perfume que se desprendia de seus restos mortais. Por toda parte deixaram a marca de santidade e de humildade. Foram coerentes até o fim no caminho escolhido para fazer o bem ao próximo.
     Em 1940 seus corpos incorruptos foram encontrados e exumados, contribuindo para que se difundisse a fama do martírio e se pensasse na introdução da causa de Beatificação.  Os restos mortais dessas duas Religiosas repousam agora na Capela do Colégio das Irmãs dessa Congregação em Villaverde, perto de Madrid.

A beatificação
     A quando da cerimônia de beatificação, o Santo Padro afirmou que estas religiosas — Madre Rita Dolores Pujalte e a Madre Francisca Aldea — que “pertenciam à comunidade do Colégio de Santa Susana, de Madrid, das Irmãs da Caridade do Sagrado Coração, haviam decidido permanecer no seu lugar apesar da perseguição religiosa desencadeada naquela época, para não abandonarem as órfãs que eram por elas ali assistidas”.
     “Este heroico ato de amor e entrega abnegada” — continuou o Sumo Pontífice — “custou a morte à Madre Rita e à Madre Francisca que, embora estivessem enfermas e fossem idosas, foram capturadas e mortas a tiro. O supremo mandamento do Senhor tinha-se arraigado profundamente nelas durante os anos da sua consagração religiosa, vividos em fidelidade ao carisma da Congregação”.
     O Santo Padre termina a sua homenagem nestes termos: “Elas alcançaram o martírio crescendo no amor pelos necessitados, que não cede diante dos perigos e, se for necessário, não evita o derramamento do próprio sangue. O seu exemplo constitui uma exortação a fim de que todos os cristãos amem como Cristo ama, não obstante as grandes dificuldades”.
     Corajosas, elas “seguiram Jesus fielmente, amando como Ele até ao fim e padecendo a morte pela fé”.
     Elas foram beatificadas em 10 de maio de 1998 no Vaticano, pelo Papa João Paulo II. Vários habitantes de Aspes se encontravam presentes, inclusive parentes de Madre Rita Dolores, como, por exemplo, Angel Maria Boronat Calatayed, que havia intervindo no ato de beatificação.

Fontes:
https://es.catholic.net/op/articulos/61736/francisca-del-corazn-de-jess-aldea-araujo-beata.html#modal

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Beata Tarcísia (Olga) Mackiv – 18 de julho

Martirológio Romano: Em Krystonópil, na Ucrânia, a Beata Tarcísia (Olga) Mackiv, virgem da Congregação das Irmãs Escravas de Maria Imaculada e mártir, que, em tempo da guerra, por ter defendido a fé perante os perseguidores, alcançou a dupla vitória da virgindade e do martírio.

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos" (Jo 15, 13). Os mártires que hoje são declarados Beatos seguiram o Bom Pastor até ao fim. Que o seu testemunho não permaneça para vós simplesmente um orgulho: que ele se torne ao contrário um convite a imitá-los. Com o Batismo, cada cristão é chamado à santidade. Nem a todos é pedida, como a estes novos beatos mártires, a prova suprema da efusão do sangue. Mas a cada um é confiada a tarefa de seguir Cristo com generosidade quotidiana e fiel.
Papa João Paulo II – Homilia de Beatificação – 27 de junho de 2001


     Olga Mackiv nasceu em 23 de março de 1919 na aldeia de Khodoriv, na região ucraniana de Lviv.  Foi a primeira dos quatro filhos de Roman e Maria Kuka. Depois da escola primária, frequentou o ensino médio em Xodoriv, ​​e, em seguida, entrou na escola estadual industrial Lviv. Em junho de 1937 recebeu o certificado de professora de corte e costura. Sentindo o chamado de Deus à vida religiosa, ela queria entrar no convento. Mas sua mãe se opunha fortemente e a impediu, chegando até mesmo a proibi-la de ir à igreja, mas seu pai a apoiou em sua vocação.
      Em 3 de março de 1938, ingressou no Instituto das Irmãs Servas de Maria Imaculada, fundado em 1892 por alguns padres Basilianos para o cuidado e guarda de crianças, cuidado dos doentes, santificação do domingo e formação das pessoas, dando sua própria vida o exemplo de virtude cristã e diligência. Após o postulantado, em 4 de novembro de 1938 iniciou o noviciado com o nome de Tarsykia (Tarcísia). Em 5 de novembro de 1940 fez os primeiros votos e tornou-se gerente de oficina do mosteiro e professora de corte e costura. Pessoa serena, alegre, gentil, atenciosa e de oração, seu tempo do noviciado e os primeiros anos após os votos coincidiu com a Segunda Guerra Mundial. As dificuldades dão-lhe estímulo a se dedicar ainda mais à sua missão. 
     Destinada à casa de sua congregação em Krystonopol, em 17 de julho de 1944, com suas Irmãs do convento, refugiou-se nos sótãos devido ao intenso bombardeio das forças soviéticas. No dia seguinte, um soldado soviético tocou a campainha na porta do convento. Irmã Tarcisia acudiu a abrir a porta acreditando tratar-se do capelão, que era aguardado.
     Irmã Damjana relata: "Irmã Tarsykija me passou correndo e chegou à porta. De repente, lembrou-se que não tinha a chave da porta. Ela se virou e pediu a chave para a irmã Mary. Só então um militar com metralhadora disparou através da janela da porta e atingiu a cabeça Irmã Tarsykija. Vi-a cair ao chão".
     No dia seguinte o militar voltou ao convento e confessou, sem enrubescer, que havia disparado contra a Irmã Tarcisia por ser uma monja católica.
     Priora do seu convento até a chegada dos comunistas em Lviv, Irmã Tarcísia fez um voto privado, na presença de seu diretor espiritual, o Padre Volodomyr Kovalyk, aceitando sacrificar sua própria vida para a conversão da Rússia e para a defesa da Igreja Católica.
     Ela foi beatificada por João Paulo II em 27 de junho de 2001, juntamente com 24 outras vítimas do regime soviético de nacionalidade ucraniana, durante sua visita apostólica à Ucrânia.

Fontes:
http://www.santiebeati.it/dettaglio/92943

Significado do Nome Olga. Tem origem russa, porém reproduz o nome escandinavo Halag, que significa “santa”, “sublime”, “consagrada a Deus”. Santa Olga de Kiev foi a primeira mulher russa a ser canonizada e é celebrada pela Igreja Católica no dia 26 de maio.

Significado do Nome Tarcísio (a). Tem origem na palavra grega Társeas, que significa “de Társeas”, “pertencente à Társeas”, “da natureza de Társeas”. Tem como variante gráfica Tarsísio, bem como partilha do mesmo sentido que o nome Tarsílio ou Tarcílio. Sua forma feminina é Tarcísia.

Postado um resumo neste blog em 18 de julho de 2011

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Beata Teresa de Sto. Agostinho e Companheiras, Mártires da Revolução Francesa - 17 de julho (cont.)

     A escritora Gertrud von le Fort mostrou em seu livro A Última ao Cadafalso, por meio de recursos literários, o quão perversa e sanguinária foi a Revolução Francesa (1789) que nada teve de “Igualdade, liberdade e fraternidade”, como se propaga, mas foi a encarnação diabólica do mal na França, especialmente contra a Igreja Católica.
     O texto abaixo, faz parte da narrativa que, baseada em fatos reais, mostra o assassinato covarde e revoltante de 16 irmãs carmelitas de Compiègne, na guilhotina, acusadas maldosamente de serem “subversivas” e inimigas da Revolução. Foi o ódio de Satanás contra aquelas que ofereciam a Deus a sua vida para aplacar a cólera de Deus na França. Esta obra de uma forma geral, por meio da trama que se desenrola para explicar o que aconteceu com Carmelitas de Compiègne, nos ajuda a compreender profundamente o contexto da Revolução Francesa e o quanto foi cruel.

     “São cerca de oito horas da tarde. É verão e o céu ainda está claro. A multidão comprime-se em volta da guilhotina, erguida no centro da antiga Place du Thrône, atual Barriére de Vincennes. Junto dos degraus que conduzem ao cadafalso, o carrasco, Charles-Henri Sanson, espera respeitosamente de pé, flanqueado por dois ajudantes. O calor é opressivo, e em toda a praça reina um odor mefítico de sangue. Vindos da cidade, despontam os carroções. Hoje são dois, e vêm bastante cheios: ao todo, serão quarenta vítimas. Recebem-nas as exclamações e ameaças habituais, mas o barulho logo se abafa em murmúrios de espanto. Acontece que, entre os condenados, se veem diversas mulheres de capa branca: são as dezesseis carmelitas do convento de Compiègne, Ao contrário dos seus companheiros de infortúnio, não deixam pender a cabeça nem choram ou gritam; trazem o rosto erguido, e a linha firme do corpo é sublinhada pelas mãos amarradas às costas. E cantam: aos ouvidos de todos, ressoam as notas quase esquecidas da Salve Rainha em latim e do Te Deum. Até para o mais empedernido dos basbaques presentes, é um espetáculo inaudito.
     Quando os carroções param ao pé do cadafalso, o burburinho faz-se silêncio absoluto. Até essas mulheres histéricas, as chamadas “fúrias da guilhotina”, que sempre estão na primeira fila dos espectadores, emudecem.
    As primeiras a descer são as carmelitas. Uma delas, a priora, Madre Teresa de Santo Agostinho, aproxima-se do carrasco e pede-lhe que lhes conceda uns minutos para poderem renovar os seus votos e que a deixe ser a última a sofrer a execução, para que possa animar cada uma das suas filhas até o fim. Sanson, o carrasco, alma delicada, concorda de bom grado.
     Todas juntas, cantam o Veni Creator Spiritus. A seguir, renovam os seus votos religiosos. Enquanto rezam, uma voz de mulher sussurra na multidão: “Essas boas almas, vejam se não parecem anjos! Pela minha fé, se essas mulheres não forem diretas ao paraíso, é porque o paraíso não existe!… “.
     A priora recua até a base da escada. Tem nas mãos uma estatueta de cerâmica da Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo. A primeira a ser chamada, a mais jovem de todas, é a noviça Constança. Ajoelha-se diante da Madre e pede-lhe a bênção. Segundo uma testemunha, ter-se-ia também acusado nesse momento de não haver terminado o ofício do dia.
     Com um sorriso, a Madre diz-lhe: “Vai, minha filha, confiança! Acabarás de rezá-lo no Céu”, e dá-lhe a beijar a imagem. Constança sobe rapidamente os degraus, entoando o salmo Laudate Dominum omnes gentes, “Louvai o Senhor, todos os povos”. “Ia alegre, como se se dirigisse para uma festa”. O carrasco e seus ajudantes, com gesto profissional, dispõem-na debaixo da guilhotina. Ouve-se o golpe surdo do contrapeso, o ruído seco da lâmina que cai, o baque da cabeça recolhida num saco de couro. Sem solução de continuidade, o corpo é lançado ao carroção funerário.
     Uma por uma, as freiras ajoelham-se diante da priora e pedem-lhe a bênção e permissão para morrer. Cantam o hino iniciado por Constança. Quando chega a vez da Irmã de Jesus Crucificado, que tem 78 anos, os jovens ajudantes do carrasco têm de descer para ajudá-la a vencer os degraus. Ela diz-lhes afavelmente: “Meus amigos, eu vos perdoo de todo o coração, tal como desejo que Deus me perdoe”.
     Só falta a Madre. Com gesto simples e firme, beija a estatuazinha e confia-a a primeira pessoa que tem ao lado (*). Tem 41 anos, um rosto expressivo, nem muito bonito nem feio; o porte é, mais do que altivo, descontraído. Os olhos castanhos, sofridos, mas irradiando bondade, procuram os do Pe. Lamarche, que as confessara no dia anterior na prisão e que se encontra entre a multidão. Como quem tem pressa em concluir uma tarefa urgente, sobe por sua vez os degraus.
     Agora tudo terminou. Pode-se cortar o silêncio como se fosse um queijo. Muitos dos assistentes choram baixinho. Anos mais tarde, encontrar-se-ão – registrados em cartas pessoais, diários íntimos e memoriais – os ecos da emoção que experimentaram e dos efeitos que ela lhes causou: muitos sentiram a necessidade de mudar de vida, de retomar a prática dos sacramentos, um ou outro de ingressar num convento... Um deles, um menino que presenciara a cena das janelas de um prédio situado em frente da guilhotina, guardou dela uma impressão tão profunda que, anos mais tarde, quando fazia o serviço militar, carregava sempre consigo as obras de Santa Teresa de Ávila e acabou por fazer-se sacerdote. “O amor vence sempre”, costumava dizer a Madre priora; “o amor vence tudo”.
     Os corpos foram levados às pressas para o antigo convento dos agostinianos do Faubourg de Picpus. Lá foram lançados na fossa comum e cobertos de cal viva. Hoje há ali um gramado cercado de ciprestes, com uma simples cruz de ferro. É um lugar de silêncio e oração.
     Na capelinha anexa a esse cemitério, há uma lápide que traz o nome das dezesseis mártires beatificadas em 27 de maio de 1906 por São Pio X.

(*) Essa imagem foi devolvida mais tarde à Ordem e encontra-se hoje no Carmelo de Compiègne, novamente fundado em 1867.


Cemitério de Picpus
     O Cemitério de Picpus é um lugar com uma história bastante particular. Criado durante os dias mais atormentados da Revolução Francesa, este é o único cemitério privado de Paris ainda em atividade.
     O cemitério contém valas comuns com as vítimas guilhotinadas entre 13 de junho e 28 de julho de 1794 na Place de la Nation. Em pouco tempo, cerca de 1306 pessoas foram decapitadas. O Tribunal Revolucionário decidiu dispor dos corpos na vala comum não muito longe da guilhotina. Assim, encontraram um lugar a apenas cinco minutos da Place de la Nation, no jardim de uma capela de um antigo convento dos Canônicos de Santo Agostinho, confiscado durante a Revolução Francesa.
     Entre os guilhotinados estavam muitos nobres cidadãos franceses como o poeta André Chénier, o Marques de Lafayette, além do pai da Imperatriz Dona Amélia de Leuchtenberg, Alexandre de Beauharnais. Entretanto, há quem pense que o Terror da Revolução aconteceu somente dentro da nobreza. Ledo engano, pessoas do povo também foram mortas, em sua grande maioria sapateiros, cozinheiros, costureiras. Seu crime? Trabalhar para o Rei. Há uma lista onde consta o nome de uma família inteira que foi chacinada, mais o seu animal de estimação, que era um papagaio que falava "Vive le Roi!".
     Em seus porões estão os crânios e ossos, dando ao visitante uma experiência terrível daqueles dias. Contam os cronistas da época que as poças de sangue que ficavam estagnadas nas ruas deixaram a cidade com o odor a podridão durante muito tempo.
     Uma vala foi cavada no fundo do jardim, onde os corpos decapitados eram jogados juntos, nobres e freiras, comerciantes e soldados, trabalhadores e estalajadeiros. Uma segunda vala foi cavada quando a primeira foi preenchida.
     Os nomes daqueles que foram enterrados nas duas valas comuns, 1.306 homens e mulheres, estão inscritos nas paredes da capela. Dos 1.109 homens, havia 108 nobres, 108 clérigos, 136 monges (gens de robe), 178 militares e 579 pessoas comuns. Há 197 mulheres enterradas lá, sendo 51 da nobreza, 23 freiras e 123 plebeias. O derramamento de sangue parou quando o próprio Robespierre foi decapitado e o jardim foi fechado.
     Entre as mulheres, 16 freiras carmelitas com idades de 29 a 78 anos foram trazidas para a guilhotina juntas, cantando hinos enquanto eram levadas para o cadafalso, um fato relembrado na ópera de Poulenc, Diálogo das Carmelitas. Elas foram beatificadas em 1906 como as Mártires de Compiègne.
      Em 1797, sob o Diretório, a terra foi secretamente adquirida pela Princesa Amália Zephyrine de Salm-Kyrburg, cujo irmão, Frederico III, Príncipe de Salm-Kyrburg (que foi morto pela Revolução), foi enterrado em uma das sepulturas comuns. Em 1803, quando Napoleão foi o Primeiro Cônsul, um grupo de familiares de aristocratas, parentes das vítimas, comprou o restante da terra e construiu um segundo cemitério ao lado das covas comuns. E ainda hoje, só os seus descendentes podem ser enterrados no Cemitério de Picpus. Desde 1998, este cemitério está listado como um monumento histórico francês.

https://en.wikipedia.org/wiki/Picpus_Cemetery

terça-feira, 16 de julho de 2019

Beata Teresa de Sto. Agostinho e companheiras, mártires da Revolução Francesa – 17 de julho

     


     O Carmelo de Compiègne, França, contava com 15 religiosas coristas, uma noviça, três conversas ou irmãs de véu branco e duas torneiras seculares, que viviam entregues ao espírito de oração, de silêncio e de renúncia, quando rebentou a Revolução Francesa.
     Em 13 de fevereiro de 1790 um decreto suprime as ordens religiosas; as carmelitas deviam deixar o mosteiro, mas todas afirmam “querer viver e morrer naquela casa santa”. A 4 de agosto de 1790, os membros do diretório do distrito procederam ao inventário dos bens da comunidade. As religiosas foram “convidadas” a despir o hábito e a abandonar o mosteiro.  Cinco dias mais tarde, a conselho da Câmara, todas assinaram o juramento de Liberdade-Igualdade.  Desde então, vivem dispersas.
     Todavia, mesmo dispersas, a regularidade da vida de cada grupo não passou despercebida aos jacobinos de Compiègne. Decidiram estes fazer uma inspeção, durante a qual se apoderaram de vários elementos que lhes pareceram gravemente comprometedores: cartas de padres em que se tratava de novenas, escapulários e direção espiritual, um retrato de Luís XVI e imagens do Sagrado Coração. O grupo revolucionário mandou deter as religiosas e mantê-las incomunicáveis.
     A 22 de junho de 1794, foram encerradas no Mosteiro da Visitação, transformado em cárcere.  Lá, as reclusas retrataram o juramento feito de Liberdade-Igualdade, “preferindo mil vezes morrer a manterem-se culpadas de tal juramento”. E julgaram-se felizes por terem retomado em comum os exercícios da Regra. 
     A 12 de julho, chegava a Compiègne a ordem da Comissão de Salvação Pública para serem levadas a Paris. Sem lhes ser permitido acabar a sua frugal refeição, meteram-nas todas em duas carroças. O cortejo chegou à Paris no dia seguinte, pelas três horas da tarde, à Conciergerie, a prisão anexa ao palácio da justiça.
     Na Conciergerie, como em Compiègne, prosseguiram as 16 carmelitas em observar a regra; no dia 16 de julho celebraram a festa de Nossa Senhora do Carmo com entusiasmo. À tarde foram avisadas que iriam comparecer, no dia seguinte, diante do tribunal revolucionário. Depois de breve interrogatório e sem ouvir testemunhas, o tribunal condenou à morte as 16 carmelitas. 
     Uma hora depois, subiram elas para as carroças que as levaram à Praça do Trono Derrubado (Praça da Nação). Indiferentes e serenas, cantaram o Miserere e depois a Salve Rainha. Chegadas à base do cadafalso entoam o Te Deum, o canto de ação de graças, a que juntam o Veni Creator. Depois, renovam as promessas do batismo e os votos de religião.
     Assim pereceram na tarde de 17 de julho de 1794. O sacrifício, das que se tinham generosamente oferecido em holocausto “pela paz da Igreja e da França”, não foi em vão.  De fato, “somente dez dias após o suplício delas, cessava a tormenta que, ao longo de dois anos, tinha espalhado pelo solo da França o sangue dos filhos da França” (Decreto de declaração do martírio, 24 de junho de 1905).
     São Pio X, a 27 de maio de 1906, declarou-as beatas.

Virgens e mártires
     Segue uma breve resenha das cinco carmelitas que não morreram mártires.
     Duas das monjas morreram antes de 1794: Irmã Elisabeth de Jesus Maria (Boitel), que padecia de graves enfermidades, morreu no Carmelo em fevereiro de 1791; tinha 55 anos. Em 31 de outubro de 1792, um mês e meio depois da expulsão do mosteiro, Irmã São Pedro de Jesus (d'Angest) faleceu, aos 50 anos de idade, numa casa de Compiègne.
     As outras três encontravam-se fora da cidade no momento da prisão (junho de 1794): Irmã Santo Estanislau da Providência (Legros) e Irmã Teresa de Jesus (Jourdain) haviam ido a Rosières, na Picardia, à casa do irmão de Irmã Santo Estanislau, que estava sofrendo pela morte de sua esposa. Irmã Maria da Encarnação havia viajado a Paris para resolver alguns assuntos de família. Sua estada na capital teve que prolongar-se porque a Administração exigia-lhe uma série de documentos que não era fácil conseguir. Correspondia-se regularmente com a priora.
     Francisca Genoveva Philippe nasceu em Paris, em 16 de novembro de 1761, era filha legítima do príncipe de Conti e recebeu uma brilhante educação. Mas em 1787, aos vinte e seis anos, depois de ser curada por intercessão da Beata Maria da Encarnação, entrou no Carmelo, tomando o nome de sua benfeitora. Graças a ela conhecemos bem a personalidade das dezesseis carmelitas mártires, com quem viveu durante oito anos. Com efeito, em 1823 retirou-se ao Carmelo de Sens, onde escreveu uma resenha biográfica de suas companheiras a pedido de Dom Villecourt, futuro Cardeal, superior do Carmelo e vigário-geral de Sens. Estes preciosos documentos foram publicados em 1836 com o título L'histoire des Religieuses Carmelites de Compiègne.
     Irmã Maria da Encarnação acabava de morrer em 10 de janeiro desse mesmo ano. Ao falar de cada uma das mártires, colocaremos entre aspas a opinião de Irmã Maria da Encarnação e as informações que nos oferece sobre a prisão e condenação das religiosas.

Retrato das mártires carmelitas
Madre Teresa de Santo Agostinho - Era então a priora da comunidade.
     Maria Madalena Claudine Lidoine nasceu em Paris aos 22 de setembro de 1722 e foi batizada na igreja de São Sulpício no dia seguinte ao seu nascimento. Recebeu no seio de sua família uma esmerada educação.
     "Desde sua infância unia uma grande piedade a uma aguda inteligência, e desde muito jovem sentiu-se chamada ao estado religioso. Entrou em nossa casa das carmelitas de Compiègne em agosto de 1773, à idade de 21 anos. Tomou o nome da ilustre priora de nossa casa de Saint-Denis, sua augusta protetora, a Madre Teresa de Santo Agostinho". Trata-se de Madame Luísa de França, filha de Luís XV. Foi ela quem pediu à Delfina Maria Antonieta que pagasse o dote para que a jovem entrasse no Carmelo, pois seus pais não podiam fazê-lo.
     Vários extratos de sua correspondência e algumas cartas de seu diretor espiritual (desconhecido) nos permitem apreciar suas grandes qualidades humanas e sobrenaturais. Nelas podemos descobrir uma alma mística em pleno período de purificação, uma grande calidez afetiva, um alto sentido comum e um abandono confiante nas mãos de Deus.
     Onze anos depois de sua profissão foi eleita priora, em 1789 tinha trinta e sete anos e estava preparada para os grandes tormentos que a esperavam.

Irmã São Luís - Era a subpriora.
     Maria Ana Francisca Brideau nasceu e foi batizada em 7 de dezembro de 1751, em Beltfort, e fez seus estudos no convento da Visitação de Compiègne, onde seu padrinho estava como "encarregado do quartel militar do rei". Isto pode explicar sua entrada no Carmelo de Compiègne aos 19 anos.
     "O grande atrativo que sentia nossa querida irmã pela recitação do Ofício Divino, seu interesse por conhecer bem as rubricas, sua pontualidade em assistir os atos da comunidade fizeram com que fosse eleita subpriora, ofício no qual se entendia perfeitamente com a Madre Priora. Era por natureza doce, modesta e silenciosa". Tinha 38 anos em 1789.

Irmã de Jesus Crucificado
     Era a mais antiga de todas nessa comunidade em que "exerceu durante muitos anos o ofício de sacristã". Maria Ana Piedcourt nascera em Paris, em 9 de dezembro de 1715 e entrou no convento aos 19 anos.

Irmã Carlota da Ressurreição
     Ana Maria Madalena Francisca Teresa Thouret nasceu em 16 de setembro de 1715, em Mouy, diocese de Beauvais. "Tinha um temperamento vivo e alegre" e verdadeira paixão pela dança. Aos 21 anos entrou no Carmelo, onde se desdobrou como enfermeira até o ponto de contrair uma deformação da coluna vertebral que a fez sofrer muito. Foi também subpriora, ecônoma, primeira torneira e sacristã.

Irmã Eufrásia da Imaculada Conceição
     Maria Cláudia Cipriana Brard nasceu a 12 de maio de 1736, em Bourth, no Eure, e entrou no Carmelo aos 20 anos. Cheia de vida, de grande imaginação, entusiasmada, um tanto original, "era, no entanto, de temperamento sério, e pela gravidade de seu aspecto ninguém poderia crer que fosse a alma de nossas recreações, pela graça e amenidade de seu falar". A rainha Maria Leczinska chamava-a sua "afabilíssima monja filósofa".
     Em fins de abril ou princípios de maio de 1794 escreveu a Irmã Maria da Encarnação, que se encontrava em Paris: "Querida irmãzinha, une-te a mim para cantar as misericórdias do Senhor e dar graças a sua infinita bondade por ter feito que caíssem dos meus olhos as enormes escamas que os cobriam e que me impediam ver o horroroso precipício aonde ia conduzir-me esse miserável e infernal espírito de orgulho e de inveja que sempre houve em mim". E humilhou-se com toda a sinceridade de seu coração. Em 1789, tinha 53 anos.

Madre Henriqueta de Jesus
     Maria Francisca de Croissy, sobrinha de segundo grau de Colbert, nasceu em Paris aos 18 de junho de 1745 e entrou no Carmelo aos 17 anos, depois de ter tentado fazê-lo aos 16. Recebeu o véu das mãos da rainha Maria Leczinska, que gostava de assistir a essas cerimônias.
     Maria Henriqueta de Jesus "se fez apreciar mais pela índole de seu coração, sua terna piedade, seu zelo e o harmonioso conjunto de todas as virtudes religiosas que por seus dotes naturais e os conhecimentos que havia adquirido. Por isso a comunidade julgou-a digna de presidi-la, embora não tivesse ainda 34 anos". Foi reeleita priora até 1786. Então Madre Teresa de Santo Agostinho confiou-lhe o cargo de mestra de noviças. Tinha 44 anos em 1789.

Irmã Teresa do Coração de Maria
     Maria Ana Hanisset nasceu em Reims, em 1742, e entrou no Carmelo em 1763. "Dotada de uma grande sabedoria, prudência e discernimento", era a primeira torneira interna. Tinha 47 anos em 1789.

Irmã Teresa de Santo Inácio
     Maria Gabriela Trézel nasceu em Compiègne em 4 de abril de 1743 e foi indiscutivelmente uma mística. Chamavam-na "o tesouro escondido" devido à profundidade de sua vida contemplativa feita de solidão e de silêncio. Às que estranhavam vê-la no coro sem livros, respondia: "Deus descobre em mim uma ignorância tão profunda, que pensa que ninguém senão Ele seria capaz de instruir-me, e por isso quer ter o incômodo de fazê-lo Ele mesmo".
     "Nossa querida irmã - conclui Irmã Maria da Encarnação - foi no mundo (entre 1792 e 1794) o que havia sido no claustro, mantendo em meio às tormentas e tempestades um talante sempre sereno, tranquilo e agradável, que não era outra coisa que a prova de sua contínua união com quem era o único objeto de seus pensamentos, de seus desejos e de todos os seus afetos". Tinha 46 anos em 1789.

Irmã Júlia Luísa de Jesus
     Rosa Crétien de Neuville nasceu em 30 de dezembro de 1741, em Euvreux, no Eure, e aos 18 anos casou-­se com um primo carnal, do qual ficou viúva depois de cinco ou seis anos de casamento. Durante longos meses viveu encerrada em sua dor, sem querer ver ninguém; mas acabou por vencer esse "estado de melancolia" graças a seu tio, o sacerdote De Vaux, a quem confessou suas resistências à graça. Encontrou-se com Madame Luísa de França, que em 1776 orientou-a para o Carmelo de Compiègne.
     Teve um noviciado difícil, mas "a partir do dia em que pronunciou os votos apareceram em sua frente a alegria e a serenidade, e substituíram seu aspecto grave ... ". Tinha 47 anos em 1789.

Irmã Maria Henriqueta da Providência
     Nascida em Cajarc, no Lot, aos 16 de junho de 1760, Maria Antonieta Pelras pertencia a uma família de doze filhos. Um de seus irmãos se tomou sacerdote e três irmãs entraram na Congregação das Damas da Caridade de Nevers, onde também ela ingressou quando tinha uns 15 ou 16 anos. Mas sua formosura nada comum fazia-a correr não poucos perigos, razão por que renunciou por completo ao mundo e aos 25 anos pediu ser admitida no Carmelo de Compiègne. Nele desempenhou o ofício de enfermeira. Tinha 29 anos em 1789.

A noviça: Irmã Constância
     Maria Genoveva Meunier nasceu em Saint-Denis, na região do Sena, em 28 de maio de 1765, e em 1788 entrou no Carmelo de Compiègne. Tinha que fazer a profissão em fins de 1789, quando um decreto da Assembleia Constituinte proibiu a partir de então, os votos religiosos (outubro de 1789).
     Esta dura prova redobrou-se pelas dificuldades criadas por sua família, que ao ter notícia do decreto quis fazê-la voltar à casa paterna. Após uma tentativa inútil de um de seus irmãos, interveio a Justiça.
     Irmã Constância respondeu aos oficiais: "Senhores, estou aqui com total consentimento de meus pais. Se querem fazer-me sair só porque seu carinho os alarma por causa dos perigos que eu possa correr permanecendo aqui, agradeço-lhes, mas só a morte poderá separar-me da companhia de minhas Madres e Irmãs".
     A Madre Priora escrevia em 14 de agosto de 1790 a uma antiga postulante: "Irmã Constância continua aqui como noviça; não lhe faltaram provações por parte de sua família: atualmente já não querem que lhes escreva nem querem ouvir falar dela; o Senhor o permite para assegurar-Se de sua fidelidade; quanto ao mais, sente-se muito feliz de que agora a deixem tranquila aqui: espera que Deus acabará tocando-lhes o coração e que um dia vejam sem desgosto sua perseverança". Em 1789, Irmã Constância tinha 24 anos.

As Irmãs conversas (externas)
     As três Irmãs conversas eram:
Irmã Maria do Espírito (Angélica Roussel) tinha 47 anos em 1789. Procedia de Fresnes, e entrou no Carmelo aos 31 anos. "O Senhor Deus quis provar a paciência dessa querida Irmã com um estado de contínuos sofrimentos, que ela suportou de maneira sumamente edificante para a comunidade, e de uma forma tanto mais meritória quanto era uma mulher naturalmente enérgica e muito ativa".

Irmã Santa Marta (Maria Dufour) também tinha 31 anos quando saiu de sua cidade natal de Bannes, em Sarthe, para entrar no Carmelo. Tudo o que sabemos dela cabe em duas linhas: "Nunca deixou de ser a alegria e o consolo de suas superioras e um motivo de edificação para as Irmãs". Tinha 48 anos em 1789.

Irmã São Francisco Xavier (Isabel Júlia Vérolot), natural de Lignères, em Aube, tinha 25 anos em 1789 e estava há dois anos no Carmelo. Aberta, cheia de entusiasmo e de bondade. "Nossa Madre acreditou ser seu dever, antes que nossa Irmã fizesse seu compromisso, pôr-lhe ante os olhos a perspectiva das adversidades que ameaçavam as Ordens religiosas (isso era em janeiro de 1789): 'Não, querida Madre - respondeu ela com sua habitual ingenuidade e seu falar camponês - pode ficar totalmente tranquila, pois se tiver a alegria de consagrar-me a Deus, não desejo outra coisa. Assim, querida Madre, não se preocupe comigo, que Deus se encarregará disso'."

As torneiras
     Duas irmãs nascidas em Compiégne: a mais velha, Ana Catarina Soiron (47 anos em 1789), e a mais nova, Teresa Soiron (41 anos em 1789) eram encarregadas do serviço externo como torneiras desde 1772.
     Convém destacar que as irmãs Soiron não eram carmelitas. Eram seculares - não usavam hábito - a serviço da comunidade e solidárias com esta até o martírio, ao qual não quiseram de modo algum subtrair-se. Em razão dessa fidelidade, a Igreja as reconheceu e beatificou junto às carmelitas e como carmelitas.

(Fonte: HUGELÉ, Philippe. El Carmelo de Compiègne en 1789. In: HUGELÉ, Philippe et al. No las dejaron ser libres. Burgos: Monte Carmelo, 1998. Tradução/adaptação: Fr. José Gregório OCD)
Da Revista Mensageiro de Santa Teresinha – Ano 87 – Julho. Agosto. Setembro de 2011