sábado, 5 de dezembro de 2020

Santa Crispina, Mãe de família e Mártir - 5 de dezembro

     
     Etimologicamente seu nome significa “de cabelo crespo”. Santa Crispina e seu martírio são comprovados por dois documentos de grande valor histórico. Um é a Passio, tirada das Atas oficiais do processo. O outro é um sermão de Santo Agostinho, contemporâneo da mártir, pronunciado no aniversário de sua morte.
     Santa Crispina nasceu em Tagora, Numídia, atual Argélia e Túnez. Ela possuía muito dinheiro e filhos para alimentar e educar. Vivia em Tebaste, África, no final do século III e começos do IV. A graça de Deus tocou seu coração. Resplandecia diante de todos por sua virtude e todos, já em vida, começaram a chamá-la a “santa".
     Sua saúde não era muito boa, mas ela compensava tudo com a fortaleza de sua alma. Os fiéis de Cristo Nosso Senhor a estimavam e respeitavam com carinho profundo. Era una boa conselheira em assuntos cristãos e humanos. As duas coisas vão intimamente unidas. As orientações que dava eram acertadas.
     Santo Agostinho comenta seu sacrifício brilhante: "Os perseguidores eram tão furiosamente contra Crispina, contra esta mulher rica e delicada, mas ela era forte, porque o Senhor era a sua proteção ... Esta mulher, irmãos, há alguém na África que não a conheça? Foi muito notável, de família nobre e muito rica, mas sua alma não cedeu: o corpo é que devia ser afetado".
     Ela foi levada diante do juiz Anulino, que lhe fez muitas perguntas. A Passio, com base no diálogo entre o juiz e Crispina, nos faz ver como esta mulher tenazmente se recusou a "sacrificar aos demônios", resistindo a qualquer ameaça para não "sujar sua própria alma com os ídolos, que são feitos de pedra, fabricado pelo homem".
     Antes dela provavelmente foram condenados outros cristãos. Na verdade, os calendários dão os nomes de Júlio, Potamia, Felix, Grato e outras sete pessoas. Assim, o juiz perguntou: "Você quer viver muito ou morrer entre as torturas como seus cúmplices?". "Se eu quisesse morrer - disse ela - eu não deveria fazer outra coisa que dar o meu consentimento aos demônios, deixando que a minha alma se perdesse no fogo eterno".
     Eles emitiram a sentença "em conformidade com os requisitos da lei de Augusto". Crispina ouviu bendizendo ao Senhor. Em seguida, no dia 5 de dezembro de 305, ela foi atingida no frágil pescoço pelo fio da espada, fora de Tebaste, em um lugar onde foi encontrada a antiquíssima memória sepulcral dedicada à Mártir.
     Em seu sermão, Santo Agostinho não hesita em comparar Crispina a Santa Inês, aproximando a jovem cândida e intacta como um cordeiro a uma mulher idosa, esposa e mãe. Agostinho também menciona a comunhão sublime e misteriosa que une os mortos aos vivos, os santos aos sofredores. "Estes Santos, - diz ele - não sofrem mais; estão aqui entre nós".
     O que era verdade para Santo Agostinho ainda é verdadeiro e reconfortante para nós. Vivamos no meio dos Santos, e o seu sacrifício vai nos ajudar.
 
http://www.santiebeati.it/dettaglio/90495
https://es.catholic.net/op/articulos/35295/crispina-santa.html#modal
https://www.newadvent.org/cathen/04490b.htm
 
Postado neste blog em 4 de dezembro de 2012

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Santa Bibiana (Viviana), Mártir – 2 de dezembro

      Não temos informações precisas sobre a vida desta santa, a quem o Papa Simplício, no século V, dedicou uma igreja no Esquilino. No entanto, o culto de Bibiana era muito entusiasmado, talvez também graças ao seu nome, que tem a mesma origem do nome Viviana, um nome, na etimologia popular, ligado ao verbo "viver", e, portanto, sinônimo de vitalidade, vivacidade e desejo de sobrevivência espiritual.
     De acordo com o "Passio Bibianae", esta santa é uma das vítimas da perseguição anticristã do imperador Juliano, o Apóstata (361-363), um pagão que dificultou a fé cristã apesar da liberdade de culto proclamada graças a Constantino em 313.
     Ela era uma virgem nativa de Roma. Seu pai Flávio e sua mãe Dafrosa, com sua irmã Demétria, eram todos excelentes cristãos. Apronio, o governador local, tomando conhecimento de que Flávio era cristão, dispensou-o do cargo e depois de mandar queimá-lo no rosto com um ferro quente, exilou-o em Aquapendente, onde alguns dias depois morreu. Dafrosa foi decapitado fora da cidade.
     Ele queria forçar as filhas à apostasia: Demétria e Bibiana permaneceram fiéis, encorajando uma a outra e se preparando para o martírio. Ambas presas durante cinco meses sofreram as privações e as angústias da prisão, quando Demétria generosamente confessou a fé de Jesus Cristo, morrendo aos pés do juiz durante o interrogatório.
     Vendo Apronio que Bibiana não cedia à sua bajulação, se empregou um meio o mais infame e diabólico para demovê-la. Mandou a casta virgem à prisão com uma certa Rufina, uma mulher má de maus trajes para induzi-la ao mal. Como Bibiana, permanecia firme em sua fé, depois de sofrer todos os tipos de humilhação foi amarrada à coluna e açoitada até a morte, e o corpo foi jogado aos cães selvagens numa rua de Roma, no Fórum Tauriano.
     Outro prodígio aconteceu nesse instante, pois os cães não o tocaram. Ao contrário, mantiveram uma distância respeitosa do corpo da mártir. Os seus restos, então, foram recolhidos pelos demais cristãos e enterrados ao lado dos familiares, num túmulo construído no monte Esquilino, em Roma. No local floresceu um belo jardim e diz-se que as ervas colhidas ali serviam para curar diversas doenças, de dor de cabeça a epilepsia e assim sua tumba se tornou um local de peregrinação.
     A veneração era tão intensa, que no ano 407 o Papa Simplício mandou construir sobre sua sepultura uma pequena igreja dedicada a ela. O culto ganhou um reforço maior ainda quando, por volta de 1625, foi erguida sobre as ruínas da antiga igreja uma basílica. Nela, as relíquias de Santa Bibiana se encontram guardadas debaixo do altar-mor. A escultura de Santa Bibiana feita por Bernini encontra-se hoje na igreja de mesmo nome em Roma. Sua fachada também foi restaurada por Bernini, dando sua aparência atual. Os corpos da mãe e da irmã de Bibiana foram encontrados em um sarcófago e depositados em urnas sob o altar principal.
     Além de ser uma das padroeiras da belíssima cidade de Sevilha, na Espanha, Santa Bibiana é também padroeira da diocese de Los Angeles, nos Estados Unidos. É celebrada no dia 2 de dezembro, considerado o dia de sua morte pela fé em Cristo.
 
     
Prática. Para vencer a batalha da pureza requer oração, mortificação e vigilância.
   Oração: Ó Senhor Jesus que no martírio de vossa serva Bibiana, Vós nos destes um admirável exemplo de fortaleza e amor a Deus, que, exercitando essas virtudes também venhamos um dia para desfrutar no céu.
     Se chover no dia da Santa Bibiana chove 40 dias e uma semana.
 
Martirológio Romano: Em Roma, Santa Bibiana, mártir, sob o Papa São Simplício foi dedicada a ela uma basílica no Esquilino.
 
Etimologia: Bibiana (talvez) variante de Viviana = quem tem vida, que é vital, do latim
 
https://cruzterrasanta.com.br/historia-de-santa-bibiana/416/102/
https://franciscanos.org.br/vidacrista/calendario/santa-bibiana/#gsc.tab=0

sábado, 28 de novembro de 2020

Beata Maria Madalena da Encarnação, Fundadora - 29 de novembro

Fundadora da Congregação das Adoradoras Perpétuas do Santíssimo Sacramento
 
     Nasceu em Porto Santo Stefano (Itália) no dia 16 de abril de 1770, no seio de uma família fervorosamente católica. Foi batizada no dia seguinte com os nomes de Catarina Maria Francisca Antônia.
     Cresceu em um ambiente impregnado de religiosidade exemplar. Seu pai, Lourenço Sordini, promoveu que se expusesse o Santíssimo Sacramento na igreja paroquial, para a veneração pública, em circunstâncias especiais, com espírito de amor e reparação, como, por exemplo, no carnaval. Assim, desde sua adolescência, Catarina passava horas em adoração junto a Jesus Sacramentado.
     Aos 17 anos recebeu uma proposta de casamento da parte de Afonso, jovem de boa posição, que lhe presenteou joias preciosas. Adornada com elas, ao olhar-se no espelho o rosto doloroso de Jesus Crucificado lhe apareceu, convidou-a a entregar-se totalmente a ele e lhe dizendo: "Catarina, me abandonas por um amor humano?" Em fevereiro de 1788 ingressou no mosteiro das Terciárias Franciscanas de Ischia de Castro. Ao vestir o hábito religioso tomou o nome de Irmã Maria Madalena da Encarnação. Nos primeiros anos foi dirigida pelos passionistas de um mosteiro próximo.
     Em 19 de fevereiro de 1789, terça-feira de carnaval, no refeitório viu "Jesus como em um trono de graça no Santíssimo Sacramento, rodeado de virgens que O adoravam" e ouviu uma voz que lhe dizia: "Te elegi para instituir a obra das Adoradoras Perpétuas, que dia e noite me oferecerão sua humilde adoração para reparar as ofensas e as ingratidões da humanidade e impetrar graças e ajudas de minha divina misericórdia". Aquele dia se converteu para ela no "dia da luz".
     No dia 20 de abril de 1802, aos 32 anos, foi eleita abadessa, cargo que ocupou até 1807. Ela prometeu fortalecer a vida de pobreza e penitência do convento. Sob a direção espiritual do Pe. João Antonio Baldeschi a fundação de uma comunidade religiosa monástica que se dedicasse exclusivamente à adoração do Santíssimo Sacramento amadureceu. Seguindo a vontade de Deus que desejava um novo instituto, e redigidas as Constituições, se mudou para Roma com algumas Irmãs e com a bênção de Pio VII, para fundar o primeiro mosteiro das Adoradoras Perpétuas do Santíssimo Sacramento, no convento de São Joaquim e Santa Ana, em Quattro Fontane. A fundação teve lugar no dia 8 de julho de 1807. Por iniciativa sua a igreja foi aberta para a adoração dos fiéis leigos.
     O Cardeal Júlio Maria dela Somaglia, Prefeito da Congregação para os Ritos, assinou o Decreto de Aprovação das Regras. 
     Graças a sua união com Deus cada vez mais íntima, a seu grande espírito de fé e a sua intensa oração em tempos muito difíceis devido a invasão dos franceses depois da Revolução Francesa, conseguiu realizar muitas obras em benefício do mosteiro e também de muitas pessoas que recorriam a ela.
     A Madre Maria Madalena profetizou ao Papa Pio VII a sua deportação para a França: "Mas não tenha medo; ninguém lhe poderá prejudicar e voltará glorioso a Roma". A cruz também chegou para as Adoradoras sob a forma da supressão do instituto e ela foi exilada em Florença.
     Com a queda do regime napoleônico, no ano 1814, a Madre voltou para Roma com algumas jovens florentinas e em 18 de setembro de 1817 vestiu o novo hábito religioso, que havia visto no "dia da luz": túnica branca e escapulário vermelho, símbolos do candor virginal e do amor a Jesus Crucificado e Eucarístico.
     Em 10 de março de 1818 a Santa Sé reconheceu oficialmente a Congregação, que a Madre Maria Madalena colocou sob o patrocínio da Virgem das Dores.
     A Beata faleceu em 29 de novembro de 1824, em Roma. Foi sepultada em Santa Ana no Quirinal, com a permissão do papa, que então residia no Palácio do Quirinal, mas em 1839 seus despojos foram transladados para a Igreja de Santa Maria Madalena em Monte Cavallo, nova sede de Roma das Adoradoras Perpétuas.
     Foi beatificada no dia 3 de maio de 2008 na Basílica de São João de Latrão, Roma.
     O Instituto conta hoje com mais de noventa mosteiros espalhados por todo o mundo. 
 
Fontes:
http://www.es.catholic.net/santoral/articulo.php?id=38976i
www.santiebeati/it
https://it.cathopedia.org/wiki/Beata_Maria_Maddalena_dell%27Incarnazione
 
Postado neste blog em 28 de novembro de 2012

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Isabel de Castela, a Católica, 1ª. Grande Rainha da Europa – 26 de novembro

Os reis católicos com sua filha Joana

A rainha que empreendeu uma cruzada
Figura feminina extraordinária a muitos títulos, essa soberana exerceu papel decisivo na História da Espanha e de toda a cristandade por seu espírito de cruzada contra o poder muçulmano da época
 
     Filha de João II, Rei de Castela, e sua segunda esposa, nasceu Isabel a 22 de abril de 1451 na pequena cidade de Madrigal. Aquela que seria a última mulher cruzada descendia, tanto pelo lado paterno quanto pelo materno, de dois reis santos e cruzados: São Luís IX, da França, e seu primo São Fernando III, de Castela.
     Falecendo o pai quando sua idade era pouco mais de três anos, foi educada piedosamente pela mãe, juntamente com seu irmão menor Afonso. “Bordava telas e casulas, costurava roupas para os pobres, aprendia a fiar como as mulheres do povo. Tecia sedas, urdia e confeccionava tapetes com assombrosa habilidade”. (1) Aos 11 anos foi levada com Afonso por Henrique IV, seu meio-irmão, para a corte castelhana, considerada então a mais corrompida da Europa.
Na corte castelhana, dois partidos em disputa
     Na corte castelhana, “a princesinha estudava música, pintura, poesia, costura e gramática. Cada dia passava muito tempo em oração pedindo a Deus que os guardasse, a ela e a Afonso, livres de todo pecado; e especialmente invocava a Bem-aventurada Virgem, São João Evangelista e o apóstolo São Tiago, patrono de Castela”. (2)
     Pela fraqueza dos reis castelhanos, “nesse período [os nobres] tinham chegado ao ponto de despojar completamente o trono de sua autoridade. Aproveitavam-se da incrível imbecilidade de Henrique IV e das escandalosas relações entre Joana de Portugal, sua segunda mulher, e seu favorito Beltran de la Cueva”, (3) a quem atribuíam a paternidade da infanta Joana, por isso cognominada la Beltraneja.
     Com a chegada dos jovens príncipes, formaram-se logo na corte dois partidos: um que defendia a legitimidade destes ao trono, e outro que defendia a da Beltraneja. O primeiro partido tornou-se tão poderoso, que obteve do fraco rei que reconhecesse Afonso e Isabel como seus legítimos herdeiros.
     Falecendo o príncipe Afonso, o partido de Isabel quis aclamá-la rainha no lugar de Henrique IV. “Nessa ocasião, Isabel deu uma das primeiras provas de suas grandes qualidades, recusando a coroa usurpada que lhe era oferecida, e declarando que nunca, enquanto seu irmão vivesse, aceitaria ela o título de rainha”. (4)
     Aos 18 anos, Isabel casou-se secretamente com o herdeiro da coroa de Aragão, o príncipe D. Fernando, para evitar as tratativas que seu irmão fazia para casá-la com outro pretendente.
Assume as rédeas do governo e reconstrói o país
     Isabel assumiu o governo aos 23 anos, à morte de Henrique IV. Com sua energia, e acompanhada de seu marido Fernando, foi obtendo a adesão de cada cidade para sua causa. Mas o Rei de Portugal, Afonso V, querendo assenhorear-se de Castela, entrou no país para casar-se com a Beltraneja, a qual, afirmava ele, era a legítima herdeira do trono. Vários potentados castelhanos tomaram seu partido, aliando-se a ele. A alternativa para Isabel era ceder, ou então guerrear. E ela não cedia num ponto em que julgava estar inteiramente com a razão. Assim, apesar de estar esperando um segundo filho, pôs a cota de malhas e, a cavalo, foi recrutando gente em todas as suas cidades, enquanto Fernando fazia o mesmo em Aragão. Habilíssimo general e grande estrategista, Fernando obteve retumbante vitória sobre o soberano português, consolidando assim Isabel no trono.
     Triste foi a herança que recebeu Isabel de seu fraco e imoral meio-irmão. “As indústrias quebravam, a moeda andava escassa, centenas de cidades desafiavam sua autoridade sob o mando de prefeitos que se criam reis delas, o povo morria de fome e de epidemias. A Igreja necessitava de reforma, o governo existia só de nome, e por todas as partes os camponeses estavam oprimidos por bandos de ladrões”. (5)
     Os jovens soberanos entregaram-se com energia à tarefa de reconstruir o país. Começaram a reprimir severamente os abusos e aplicar a justiça contra quem quer que fosse. Fizeram reviver, para isso, a Santa Irmandade, força de voluntários que servia de polícia local, com jurisdição sobre assassinatos, atos de violência, rapina, atentados a mulheres e desobediência às leis e aos magistrados. Isabel obteve do Papa a instauração da Santa Inquisição em Castela para pôr fim aos abusos, na esfera religiosa, principalmente de cristãos-novos (judeus convertidos), muitos dos quais tinham fé duvidosa e utilizavam a usura para pressionar os cristãos.
     Isabel era muito ciosa de sua autoridade como rainha. Por isso, em 1475 firmou com seu esposo o acordo denominado Concórdia de Segóvia, pelo qual recebeu o título de Rainha e proprietária de Castela, e seu esposo o de rei consorte. “Desde esse momento os esposos formam um bloco impossível de dividir, e com essa firmeza podem fazer frente ao estalido da guerra”. (6)
A cruzada contra os infiéis maometanos
     Um dos maiores empenhos que Isabel teve em seu reinado foi mover a guerra santa contra o invasor muçulmano. Para esse empreendimento, obteve do Papa as mesmas indulgências de Cruzada concedidas aos que iam lutar na Terra Santa, tendo o Sumo Pontífice lhe enviado uma cruz de prata para ir à frente de seus exércitos.
     Nas várias campanhas que encetou, e sobretudo na reconquista de Granada, Isabel arrebatava seus soldados por sua energia sobre-humana, senso do dever e espírito sobrenatural. Estes “criam que ela era uma santa. Como Santa Joana d’Arc, sempre lhes recomendava viver honestamente e falar bem. Não havia nem blasfêmias nem obscenidades no acampamento onde ela se achava, e viam-se curtidos soldados ajoelhar-se para rezar, enquanto se celebrava a missa ao ar livre por ordem da piedosa rainha”. (7) A presença da soberana era para os guerreiros como uma garantia de vitória, pois lhes inspirava valor e confiança. Até os mouros admiravam a grande rainha, cantando sua bondade e beleza em suas canções, apesar de a temerem como inimiga.
     Enquanto Fernando, um dos melhores guerreiros de sua época, comandava o exército, a rainha cuidava de toda a retaguarda, como recrutamento de reforços, envio de alimentos e munições, bem como projetava os hospitais — foi ela quem instituiu o primeiro hospital militar da História, e suas enfermeiras precederam as da Cruz Vermelha em mais de trezentos anos. Cavalgava de um lugar a outro, indo mesmo aos acampamentos revestida de leve armadura de aço, para elevar o moral dos soldados. Mas essa rainha guerreira fazia questão de ela mesma costurar a roupa de seu marido, nunca usando o monarca outras senão as confeccionadas pelas hábeis mãos de Isabel ou de suas filhas.
Título glorioso de “Reis Católicos”

     Um fato mostra a têmpera dessa rainha. No cerco de Granada, uma vela mal colocada ateou fogo na tenda ao lado da rainha, e desta propagou-se para todo o acampamento, que foi tomado pelas chamas. Os mouros, das muralhas, cantavam vitória. Mas a enérgica soberana, para mostrar sua determinação de conquistar a cidade, mandou edificar novo acampamento de pedra, surgindo assim uma verdadeira cidade à qual deu o nome de Santa Fé. Foi de lá que partiram as investidas contra Granada, obtendo-se sua capitulação.
     O Papa Alexandre VI concedeu ao real casal, por seus serviços em prol da Cristandade, o título de Reis Católicos, em harmonia com o de Rei Cristianíssimo, concedido anteriormente ao monarca francês.
     A política matrimonial que seguiram os Reis Católicos teve como intuito isolar a França, sua grande rival na época. Mas não tiveram felicidade com seus filhos. A primogênita, também chamada Isabel, casou-se com o jovem príncipe português Afonso e, ao enviuvar precocemente, contraiu matrimônio com o seu herdeiro Dom Manuel, o Venturoso. O príncipe João casar-se-ia com Margarida de Áustria, filha do Imperador Maximiliano I, mas morreria jovem. Joana, que entrará para a História como Joana a Louca, contraiu matrimônio com Felipe de Áustria, o Formoso, e tornou-se herdeira do trono que passou para seu filho, o futuro Carlos V. Maria casa-se com seu cunhado, o viúvo Dom Manuel, e Catarina será a desafortunada esposa do lúbrico Henrique VIII, da Inglaterra.
     “O bom governo dos soberanos católicos levou a prosperidade da Espanha ao seu apogeu e inaugurou a Idade de Ouro do país”. (8)
     Três meses após a conquista de Granada, Isabel assinou uma ordem de expulsão dos judeus de seus territórios; e favoreceu a empresa de Cristóvão Colombo, que descobriria assim a América.
    A Rainha Isabel morreu em Medina do Campo, Valladolid, a 26 de novembro de 1504. No seu testamento, reflexo de uma concepção patrimonial do reino, não legou os direitos sucessórios a Fernando, mas à filha Joana a Louca, mãe do futuro imperador Carlos V (I da Espanha), que deu início a uma nova dinastia espanhola, a dinastia dos Habsburgos.
     A morte desta grande rainha foi muito lamentada pelos seus contemporâneos. Um deles deixou este depoimento: “O mundo perdeu seu adorno mais nobre; uma perda que deve chorar não somente a Espanha, que ela já não levará mais no caminho da glória, mas todas as nações da Cristandade, porque ela era o espelho de todas as virtudes, o amparo do inocente e o sabre vingador do culpado. Não conheço ninguém de seu sexo, nos tempos antigos nem nos modernos, que, a meu juízo, possa equiparar-se com esta mulher incomparável”. (9)
*
     A expansão territorial de Castela sob o mando dos Reis Católicos, iniciou-se com a anexação do arquipélago das Canárias e terminou (1492), com a conquista de Granada, último reino muçulmano da península ibérica. O evento mais marcante do seu reinado foi a descoberta da América por Cristóvão Colombo, no qual participou ativamente do financiamento da viagem e, depois, da evangelização e implantação da igreja nas novas terras.
     O seu reinado também favoreceu a pecuária ovina em Castela e o comércio de lã, centralizou e fiscalizou as operações mercantis com as Índias e saneou a moeda castelhana. Politicamente fortaleceu as instituições reais, aumentou o controle sobre as ordens militares, a fazenda real, as Cortes, a justiça. No campo religioso e cultural, efetuou uma extensa reforma do clero, com a ajuda do Cardeal Francisco Jiménez de Cisneros, e terminou o processo de unificação religiosa, com a expulsão dos judeus não-convertidos (1492) e a imposição do Cristianismo à população árabe. Para fiscalizar o cumprimento dessas medidas, fortaleceu o tribunal da Inquisição. Isabel criou uma escola palaciana, que elaborou a primeira Gramática castelhana (1492).
A rendição de Granada

     MADRI, 19 jan. 19 / 06:00 am (ACI).- A Associação ‘Enraizados’, da Espanha, defendeu a figura da rainha Isabel a Católica e observou que as declarações da líder do partido ‘Podemos’ de Andaluzia, Teresa Rodríguez, "não buscam a verdade histórica, mas uma interpretação ideológica da mesma".
     Com suas declarações sobre os Reis Católicos, Rodríguez mostrou "que não sabe muito sobre Isabel a Católica, uma das personagens femininas mais importantes da história da Espanha e da história universal", disse José Castro Velarde, presidente de Enraizados.
     Velarde também assegurou que "a lenda negra em torno da figura de Isabel a Católica continua se difundindo com declarações como as de Teresa Rodríguez, que não buscam a verdade histórica, mas uma interpretação ideológica dela".
     Por isso, Enraizados destaca que durante o reinado de Isabel a Católica, chegou-se à América, desenvolvendo conhecimentos de cartografia e navegação até então desconhecidos, com isso, os "argumentos de Teresa Rodríguez se desfazem por si mesmos".
     Velarde também assegurou que "Isabel a Católica foi a primeira a conceder direitos aos índios, que eram considerados cidadãos da Espanha em igualdade de condições com os moradores da península. De acordo com o decreto de 1500, nenhum índio poderia ser escravizado. Determinou que os índios continuassem sendo os donos das terras que lhes pertenciam antes da chegada dos espanhóis".
     Nesse sentido, a Associação Enraizados ressaltou que Isabel a Católica é um "modelo de mulher, mãe e política. Isabel estabelece que não há diferença na capacidade de governo entre homem e mulher, assim educa suas filhas e assim procede com si mesma. Além disso, ela conseguiu fazer com que as mulheres também embarcassem para o Novo Mundo".
     "Acreditamos que, com boa vontade, Teresa Rodríguez pode mudar de ideia sobre Isabel a Católica. E para informá-la nós lhe enviamos o livro ‘Isabel la Cruzada’. Certamente poderá aprender com a rainha Isabel, que era, como ela, mulher, mãe e política", conclui o presidente de Enraizados.
Processo de beatificação
     Isabel a Católica está em processo de beatificação. Em outubro do ano passado, a Diocese de Valladolid sediou o Simpósio Internacional "Isabel a Católica e a evangelização da América", organizado em colaboração com a Arquidiocese de Granada na tentativa de relançar a causa, destacando seu grande testemunho de santidade.
https://www.acidigital.com/
________
Notas:
1. Luis Amador Sanchez, Isabel, a Católica, tradução de Mario Donato, Empresa Gráfica O Cruzeiro S. A., Rio de Janeiro, 1945, p. 55.
2. William Thomas Walsh, Isabel de España, tradução castelhana de Alberto de Mestas, Cultura Española, 1938, p. 49.
3. Ramón Ruiz Amado, DO, The Catholic Encyclopedia, Vol. VIII, transcrito por WGKofron, copyright © 1910 de Robert Appleton Company, online edition copyright © 1999 by Kevin Knight.
4. Id. ibid.
5. William Thomas Walsh, op.cit., p. 171.
6. (Site: www.artehistoria.com, Protagonistas de la História, Isabel la Católica.)
7. Walsh, op.cit., p. 160.
8. The Catholic Encyclopedia, online edition.
9. Carta de Pedro Mártir, um dos secretários da rainha, comunicando a morte de Isabel ao Arcebispo Talavera, in William Thomas Walsh, Isabel de España, p. 599.
 
http://catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=E324E968-F714-7F28-2AC8BEF5B88BF868

     MADRI, 19 jan. 19 / 06:00 am (ACI).- A Associação ‘Enraizados’, da Espanha, defendeu a figura da rainha Isabel a Católica e observou que as declarações da líder do partido ‘Podemos’ de Andaluzia, Teresa Rodríguez, "não buscam a verdade histórica, mas uma interpretação ideológica da mesma".
     Com suas declarações sobre os Reis Católicos, Rodríguez mostrou "que não sabe muito sobre Isabel a Católica, uma das personagens femininas mais importantes da história da Espanha e da história universal", disse José Castro Velarde, presidente de Enraizados.
     Velarde também assegurou que "a lenda negra em torno da figura de Isabel a Católica continua se difundindo com declarações como as de Teresa Rodríguez, que não buscam a verdade histórica, mas uma interpretação ideológica dela".
     Por isso, Enraizados destaca que durante o reinado de Isabel a Católica, chegou-se à América, desenvolvendo conhecimentos de cartografia e navegação até então desconhecidos, com isso, os "argumentos de Teresa Rodríguez se desfazem por si mesmos".
     Velarde também assegurou que "Isabel a Católica foi a primeira a conceder direitos aos índios, que eram considerados cidadãos da Espanha em igualdade de condições com os moradores da península. De acordo com o decreto de 1500, nenhum índio poderia ser escravizado. Determinou que os índios continuassem sendo os donos das terras que lhes pertenciam antes da chegada dos espanhóis".
     Nesse sentido, a Associação Enraizados ressaltou que Isabel a Católica é um "modelo de mulher, mãe e política. Isabel estabelece que não há diferença na capacidade de governo entre homem e mulher, assim educa suas filhas e assim procede com si mesma. Além disso, ela conseguiu fazer com que as mulheres também embarcassem para o Novo Mundo".
Processo de beatificação
     Isabel a Católica está em processo de beatificação. Em outubro do ano passado, a Diocese de Valladolid sediou o Simpósio Internacional "Isabel a Católica e a evangelização da América", organizado em colaboração com a Arquidiocese de Granada na tentativa de relançar a causa, destacando seu grande testemunho de santidade.
 
https://www.acidigital.com/

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Santa Cecilia Yu So-sa, Viúva e mártir - 23 de novembro

Em Seul, na Coreia, Santa Cecília Yu So-sa, mártir, que, sendo viúva, em ódio à fé cristã foi privada dos seus bens, encarcerada e doze vezes sujeita a interrogatórios; finalmente, exausta pelo suplício dos espancamentos, morreu quase octogenária.
 
     Cecilia foi elevada às honras dos altares acompanhada de seus dois filhos mártires: São Paulo Chong Ha-sang e Santa Isabel Chong Chong-hye.
     Nasceu em Seul, capital moderna da Coreia do Sul, em 1761, e se casou com o viúvo Agostinho Yak-jong, um dos primeiros cristãos da Coreia. Com ele foi para a capital e ali recebeu o sacramento do batismo das mãos do Pe. Chu Mun-mo, missionário chinês na Coreia. Seu esposo foi martirizado em 1801, e também Carlos Chong Chol-sang, filho do primeiro casamento de seu marido. Ela foi aprisionada e logo deixada livre, porém seus bens foram confiscados.
     Cecília, além de viúva se viu empobrecida e voltou para a região da família de seu marido, Majae, com seus filhos. Ali seu cunhado, inimigo do cristianismo, a recebeu friamente, e foi um amigo de seu falecido esposo que teve compaixão dela e lhe ofereceu uma casa para morar. A frieza dos antigos amigos e parentes a rodeou.
     Ela enfrentou a morte da viúva de Carlos, o filho de seu marido, martirizado; do filho daquele casal e de sua própria filha mais velha. Em meio a sua desgraça Cecilia conservou a fé e a paciência, e em vista da hostilidade de que era objeto, manteve uma conduta prudente, não fazendo alarde do cristianismo, porém transmitindo a doutrina cristã a seus filhos no âmbito de seu lar.
     Quando seu filho Paulo atingiu a idade de 20 anos, ela sugeriu que ele se casasse; ele lhe disse que queria dedicar-se a continuar a obra evangelizadora de seu pai mártir, e para tanto foi para a capital, deixando a mãe e a irmã em Majae.
     Ela temia os perigos pelos quais seu filho passaria para organizar um ressurgimento do cristianismo e aceitava com mansidão que seu filho não pudesse proporcionar a ela alguma ajuda. Em 1827, entretanto, o Bispo de Pequim recriminou Paulo por não prestar ajuda a sua mãe e ele então a levou consigo para a capital, junto com sua irmã Isabel.
     A vida ali se tornou muito difícil e por isso Cecilia resolveu voltar para Majae, porém logo lhe foi oferecido o encargo de auxiliar os missionários que chegavam. Assistia a Missa diariamente e ajudava os católicos mais pobres. 
     Em 1839 a perseguição aos cristãos recomeçou e foi aconselhada que fosse para Majae, mas ela preferiu ficar. Ela e a filha se dedicaram a se preparar para o martírio.
     No dia 1º de junho, estando seu filho ausente, foi aprisionada. Quando lhe perguntaram se era verdade que era católica, respondeu que sim, e quando foi intimada a abandonar sua religião e a delatar os demais católicos, disse que não sabia onde os outros cristãos moravam, e que estaba disposta a morrer para conservar sua fé
     Foi interrogada cinco vezes e cada interrogatório era acompanhado de golpes de cana de bambu, que a deixaram muito machucada. Levada para a prisão, morreu no cárcere de Bo-jeong no dia 23 de novembro de 1839, quase octogenária.
     Foi canonizada em 6 de maio de 1984 em Seul pelo papa João Paulo II, juntamente com 102 mártires coreanos. O grupo conhecido com o nome “Santos André Kim Taegon, Paulo Chong Ha-sang e companheiros” é festejado no calendário litúrgico latino no dia 20 de setembro.
 
Fonte: «Año Cristiano» - AAVV, BAC, 2003; santiebeati.it
Postado neste blog em 22 de novembro de 2012

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Santa Matilde de Hackeborn, o "Rouxinol de Deus” - 19 de novembro

   

     Santa Gertrudes a Grande, no IV livro da obra Liber specialis gratiae (O livro da graça especial), no qual se narram as graças especiais que Deus outorgou a Santa Matilde, afirma: “O que escrevemos é bem pouco em comparação com o que omitimos. Unicamente para a glória de Deus e utilidade do próximo publicamos estas coisas, porque nos pareceria injusto manter o silêncio sobre tantas graças que Matilde recebeu de Deus, não tanto para ela mesma, segundo nosso parecer, mas para nós e para os que virão depois de nós” (Mechthild von Hackeborn, Liber specialis gratiae, VI, 1).
     Com Gertrudes nós nos introduzimos na família do Barão de Hackeborn, uma das mais nobres, ricas e poderosas da Turíngia, aparentada com o imperador Frederico II, e entramos no Mosteiro de Helfta no período mais glorioso da sua história.
     O barão já havia dado uma filha ao mosteiro, Gertrudes de Hackeborn (1231/1232 - 1291/1292), dotada de uma destacada personalidade. Abadessa durante 40 anos, foi capaz de deixar uma marca peculiar na espiritualidade do mosteiro, levando-o a um florescimento extraordinário como centro de mística e de cultura, escola de formação científica e teológica. Gertrudes ofereceu às monjas uma elevada instrução intelectual, que lhes permitia cultivar uma espiritualidade fundada na Sagrada Escritura, na Liturgia, na tradição patrística, na Regra e espiritualidade cistercienses, com particular predileção por São Bernardo de Claraval e Guilherme de Saint-Thierry. Foi uma verdadeira mestra, exemplar em tudo, na radicalidade evangélica e no zelo apostólico.
     Santa Matilde, desde a sua juventude, acolheu e vivenciou o clima espiritual e cultural criado pela irmã, oferecendo depois sua marca pessoal.
     Matilde de Hackeborn, uma das grandes figuras do mosteiro de Helfta e do monaquismo alemão no século XIII, nasceu em 1241 ou 1242, no Castelo de Helft, Saxônia, na nobre e poderosa família Hackeborn, que era possuidora de terras na Turíngia. A terceira filha do barão nasceu tão frágil que se chegou a acreditar estar morta, mas o padre que foi batizá-la profetizou que ela chegaria a ser santa e que Deus obraria grandes coisas por meio dela.
       Aos 7 anos, com sua mãe, visitou sua irmã Gertrudes no mosteiro de Rodersdorf. Ficou tão fascinada por esse ambiente, que desejou ardentemente fazer parte dele. Entrou como educanda e, em 1258, converteu-se em monja do convento que entrementes havia se transferido para Helfta, na propriedade dos Hackeborn.
     Distinguiu-se pela humildade, fervor, amabilidade, limpeza e inocência de vida, familiaridade e intensidade na relação com Deus, com Nossa Senhora e com os santos. Dotada de elevadas qualidades naturais e espirituais, como “a ciência, a inteligência, o conhecimento das letras humanas, a voz de uma suavidade maravilhosa: tudo a tornava adequada para ser um verdadeiro tesouro para o mosteiro, sob todos os aspectos”. (Ibid., Proemio).
     Assim, o "rouxinol de Deus" - como era chamada -, ainda muito jovem converteu-se em diretora da escola do mosteiro, diretora do coro e mestra de noviças, serviço que levou a cabo com talento e infatigável zelo, não somente em benefício das monjas, mas de todo aquele que desejasse acudir à sua sabedoria e bondade.
     Iluminada pelo dom divino da contemplação mística, Matilde compôs numerosas orações. É mestra de fiel doutrina e de grande humildade, conselheira, consoladora, guia no discernimento: “Ela - lê-se - distribuía a doutrina com uma abundância que nunca tinha sido vista no mosteiro, e temos grande temor de que nunca se volte a ver algo semelhante. As monjas se reuniam ao seu redor para escutar a palavra de Deus, como a um pregador. Era o refúgio e a consoladora de todos e tinha, como dom singular de Deus, a graça de revelar livremente os segredos do coração de cada um. Muitas pessoas, não só no mosteiro, mas também estranhos, religiosos e leigos, vindos de longe, testemunhavam que esta santa virgem lhes havia libertado de suas penas e que nunca haviam provado tanto consolo como ao seu lado. Além disso, ela compôs e ensinou tantas orações que, se fossem reunidas, superariam o volume de um saltério” (Ibid., VI,1).
     Em 1261, chegou ao convento uma menina de 5 anos, de nome Gertrudes: foi confiada aos cuidados de Matilde, então com 20 anos, que a educou e guiou na vida espiritual até fazer dela não somente sua discípula excelente, mas sua confidente. Em 1271 ou 1272, entrou no mosteiro também Matilde de Magdeburgo. O lugar acolheu, assim, 4 grandes mulheres - duas Gertrudes e duas Matildes -, glória do monaquismo germânico.
     Em sua longa vida transcorrida no mosteiro, Matilde passou por contínuos e intensos sofrimentos, aos quais acrescentou as duríssimas penitências escolhidas para a conversão dos pecadores. Dessa forma, participou da Paixão do Senhor até o final da sua vida (cf. ibid., VI, 2). A oração e a contemplação foram a fonte da sua existência: as revelações, seus ensinamentos, seu serviço ao próximo, seu caminho na fé e no amor têm aqui sua raiz e seu contexto.
     No primeiro livro da obra Liber specialis gratiae as redatoras recolhem as confidências de Matilde indicadas nas festas do Senhor, dos santos e, de modo especial, de Nossa Senhora. É impressionante a capacidade que esta santa tinha de viver a Liturgia em seus vários componentes, inclusive os mais simples, levando-a à vida monástica cotidiana. Algumas imagens, expressões, aplicações talvez estejam longe da nossa sensibilidade, mas se considerarmos a vida monástica e sua tarefa de mestra e diretora de coro, perceberemos sua singular capacidade de educadora e formadora, que ajuda suas irmãs a viverem intensamente, partindo da Liturgia, cada momento da vida monástica.
     Na oração litúrgica, Matilde deu particular importância às horas canônicas, à celebração da Santa Missa, sobretudo à Santa Comunhão. Nesse momento, ela frequentemente se elevava em êxtase, em uma intimidade profunda com Nosso Senhor em seu Coração ardentíssimo e dulcíssimo, em um diálogo estupendo no qual pedia iluminação interior, enquanto intercedia de modo especial por sua comunidade e por suas irmãs. No centro estão os mistérios de Cristo, aos quais Nossa Senhora remete constantemente, para caminhar pela senda da santidade: “Se desejas a verdadeira santidade, fica perto do meu Filho; Ele é a própria santidade que santifica tudo” (Ibid., I,40). Nesta sua intimidade com Deus está presente o mundo inteiro, a Igreja, os benfeitores, os pecadores. Para ela, céu e terra se unem.
     Suas visões, seus ensinamentos, as circunstâncias da sua existência são descritos com expressões que evocam a linguagem litúrgica e bíblica. Capta-se, assim, seu profundo conhecimento da Sagrada Escritura, seja tomando símbolos, termos, paisagens, imagens ou personagens. Sua predileção era pelo Evangelho:
     “As palavras do Evangelho eram para ela um alimento maravilhoso e suscitavam em seu coração sentimentos de tal doçura, que frequentemente, pelo entusiasmo, não conseguia terminar sua leitura... A forma como lia estas palavras era tão fervente, que suscitava a devoção em todos. Assim também, quando cantava no coro, estava toda absorta em Deus, transportada por tal ardor, que às vezes manifestava seus sentimentos com os gestos... Outras vezes, elevada em êxtase, não ouvia quem a chamava ou a movia e com dificuldade recuperava o sentido das coisas exteriores” (Ibid., VI, 1).
     Em uma das suas visões, o próprio Jesus lhe recomenda o Evangelho; abrindo-lhe a ferida do seu dulcíssimo Coração, disse-lhe: “Considera quão imenso é meu amor; se queres conhecê-lo bem, em nenhum lugar o encontrarás expresso mais claramente que no Evangelho. Ninguém jamais sentiu a expressão de sentimentos mais fortes e mais ternos que estes: como meu Pai me amou, assim eu vos amei (Jo 15, 9)” (Ibid., I,22).
     A discípula Gertrudes descreve com expressões intensas os últimos momentos da vida de Santa Matilde de Hackeborn, duríssimos, mas iluminados pela presença da Beatíssima Trindade, de Nosso Senhor, de Nossa Senhora, de todos os santos, e também de sua irmã de sangue, Gertrudes. Quando chegou a hora em que o Senhor quis levá-la com Ele, ela lhe pediu para poder viver mais um pouco no sofrimento pela salvação das almas, com o que Jesus aquiesceu, contente com este último sinal de amor.
     Matilde tinha 58 anos. Percorreu o último trecho do caminho caracterizado por 8 anos de graves doenças. Sua obra e sua fama de santidade se difundiram amplamente. Chegada a sua hora, “o Deus de Majestade (...), única suavidade da alma que o ama (...), cantou-lhe: Venite vos, benedicti Patris mei... (Vinde, benditos do meu Pai, vinde receber o Reino) e a associou à sua glória” (Ibid., VI,8).
     Santa Matilde de Hackeborn nos confia ao Sagrado Coração de Jesus e a Nossa Senhora. Convida a louvar o Filho com o Coração da Mãe e venerar Maria com o Coração do Filho: “Eu vos saúdo, ó Virgem veneradíssima, neste dulcíssimo orvalho, que do Coração da Santíssima Trindade se difundiu em vós; eu vos saúdo na glória e no gozo com que agora vos alegrais eternamente, Vós que, com preferência a todas as criaturas da terra e do céu, fostes escolhida antes ainda da criação do mundo! Amém” (Ibid., I, 45).
     Matilde percorreu um caminho de íntima união com Nosso Senhor, entrando em diálogo com o seu dulcíssimo e ardente Coração, fonte de luzes interiores e ocasião de intercessão pelas suas irmãs. Pouco após a sua morte, a sua obra e a sua fama de santidade já tinham se difundido grandemente.
     Matilde faleceu em 19 de novembro de 1299 com 59 anos de idade. A fama e a importância que a ela atribui sua discípula, Santa Gertrudes de Helfta, a Grande, acabou por fazer sombra a Santa Matilde, que a partir do século XVI passou para um segundo plano.
 
Fonte: http://zecalambert.blogspot.com.br/2010/10/santa-matilde-de-hackeborn.html 
Postado neste blog em 19 de novembro de 2015

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Santa Gertrudes, a Grande - 16 de novembro

     A famosa Abadia de Helfta foi fundada por Gertrudes de Hackeborn. Gertrudes pertencia à dinastia dos Hackeborn e era irmã de Santa Matilde de Hackeborn (¹).
     Bem jovem entrara na abadia cisterciense de Roderdorf e foi eleita abadessa em 1251. Em 1253, fundou o convento de Hederleben com a ajuda de seus dois irmãos, Alberto e Luís, mas, como faltasse água ali, deram-lhe o Castelo de Helpeda (Helfta), próximo de Eisleben (moderna Alemanha) e as terras ao seu arredor. Em 1258 ela mudou-se para Helfta com toda a comunidade.
   Durante o período em que Gertrudes foi abadessa, Helfta tornou-se famosa em todo o Sacro Império Romano-Germânico, devido às práticas de ascetismo de suas monjas, ao misticismo de algumas e da grande capacidade intelectual que abrilhantou a vida monástica feminina da Idade Média.
     Gertrudes exigia que suas religiosas fossem educadas nas artes liberais, mas acima de tudo tivessem amplo conhecimento das Escrituras. Era considerada um modelo de abadessa, mais especialmente por sua conduta durante o ano de enfermidade que precedeu o seu falecimento.
     Gertrudes de Hackeborn nunca escreveu, nem recebeu qualquer revelação de Deus, nem tão pouco foi canonizada. Não deve ser confundida com Santa Gertrudes, a Grande.
 
Gertrudes, a Grande
     É certo que Gertrudes era de uma família abastada, mas sabemos apenas que ela nasceu em Eisleben, Alemanha, no ano 1256. Não era de família nobre, como acreditaram alguns, confundindo-a com Gertrudes, a Abadessa de Helfta. Seus pais a colocaram como aluna das beneditinas de Roderdorf quando tinha apenas cinco anos.
     Muito piedosa e culta, Gertrudes de Hackeborn vendo a estupenda inteligência de sua homônima, incentivou-a muito não apenas na observância monástica, mas também nas atividades intelectuais que Santa Lioba e suas freiras anglo-saxãs haviam transmitido às suas fundações na Germânia.
     A pequena Gertrudes encantava a todos. “Nessa alma, Deus reuniu o brilho e o frescor das mais belas flores à candura da inocência, de maneira que encantava todos os olhares como atraía todos os corações”, diz sua biógrafa e contemporânea.
     Como vimos acima, a comunidade transferiu-se para Helfta e a Abadia seguia na época a regra cisterciense. Para uma jovem de seu tempo, não era coisa tão comum, mas Gertrudes recebeu uma cultura universal e clássica. Estudou latim, filosofia e teologia; se comprazia com a leitura de Virgílio e Cícero, e a filosofia de Aristóteles.
     A educação de Gertrudes foi confiada à irmã da priora, Matilde de Hackeborn, muito adiantada na via mística e na santidade. Esta procurava incutir nas almas de suas alunas o fogo do amor de Deus que devorava seu coração. E encontrou em Gertrudes um campo propício para isso.
     A narração das experiências místicas de Matilde, Lux divinitatis, constitui um elegante texto poético. Por volta de 1290, Matilde tivera uma visão relacionada com a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Estas religiosas eram influências decisivas na vida interior de muitas jovens que delas se aproximavam, e certamente devem ter influenciado Gertrudes.
     Em 27 de janeiro de 1281, depois de um mês de terrível provação, Nosso Senhor apareceu-lhe e fez-lhe compreender sua falta: “Provaste a terra com meus inimigos e sugaste algumas gotas de mel entre os espinhos. Volta a mim, e te inebriarei na torrente de meu divino amor”.  E, como dirá ela mesma, o Senhor "mais brilhante que toda luz, mais profundo do que qualquer segredo, docemente começou a aplacar aquela perturbação que havia entrado em meu coração".
     Nessa visão, não de modo visível externamente, foram-lhe impressos os sagrados estigmas de Cristo Senhor Nosso, e em seguida foi agraciada com êxtases.
     Após tais acontecimentos, que ela chama de “sua conversão”, entregou-se com ardor ao estudo da teologia escolástica e mística, da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, sobretudo de Santo Agostinho, São Gregório Magno, São Bernardo e Hugo de São Vítor.
     No mosteiro ela não exercia outra função senão a de irmã-substituta da irmã-cantora, Santa Matilde. Apesar de sempre doente e lutando tenazmente contra suas paixões, atendia às inúmeras pessoas que a vinham consultar. Gertrudes desejaria viver na solidão, mas as notícias correm e pessoas chegam ao mosteiro para fazerem confidências, para interrogá-la, ou simplesmente para vê-la.
     E esta contemplativa enferma tem momentos de assombrosa atividade no contato com as pessoas e no empenho em divulgar-lhes a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e o culto a São José. A outros mais distantes auxilia com seus escritos, a exemplo de Matilde, e o faz com elegância que é fruto de seus estudos. O empenho da adolescência e da juventude na disciplina escolástica preparara Gertrudes para ser uma apóstola do modo adequado ao seu tempo. E é uma precursora de Santa Teresa d'Ávila e de Santa Margarida Maria Alacoque.
     Santa Gertrudes foi objeto das complacências divinas, como mais tarde haveria de ser Santa Margarida Maria Alacoque. Ambas penetraram no amor íntimo de Jesus, embora de maneira diversa.
     Santa Gertrudes é a Santa da Humanidade de Jesus Cristo e a teóloga do Sagrado Coração. Ela vê o Coração Divino não com a coroa de espinhos e a cruz; não se sente chamada à vocação especial de vítima expiatória pelos pecados do mundo. A chaga do peito que Jesus lhe apresenta é uma porta dourada por onde ela entra. Como São João Evangelista, ela repousa sobre o peito de Jesus, onde seu Coração é para ela um banho de purificação, um asilo e um descanso.
     Um dia Gertrudes não pôde assistir com as Irmãs uma conferência espiritual. Apareceu-lhe o Senhor e lhe disse: “Queres, minha queridíssima, que o sermão o faça Eu?” Ela aceitou e Jesus fez que ela descansasse sobre o seu Coração e ela ouviu duas pulsações: “Com estas duas pulsações opero Eu a salvação dos homens”, disse-lhe Ele. A primeira pulsação servia para tornar o Pai propício aos pecadores, para lhes desculpar a malícia e movê-los à contrição; a segunda era um grito de alegria e congratulação pela eficácia do sangue de Jesus na salvação dos justos. Era um grito que atraía os bons para trabalharem constantemente na obra de sua perfeição.
     Num ano em que o frio ameaçava os homens, animais e colheitas, durante a Missa Santa Gertrudes implorava a Deus que desse remédio a esses males. E teve a seguinte resposta: “Filha, hás de saber que todas tuas orações são ouvidas”. Ao que ela replicou: “Senhor, dai-me a prova desta bondade fazendo com que cessem os rigores do frio”. Ao sair da igreja, a santa notou que os caminhos estavam inundados pela água produzida pela neve derretida. O tempo favorável continuou, e começou mais cedo a primavera.
     A fama de santidade acompanhava Gertrudes já em vida e perdurou no tempo. As suas obras, o Arauto da bondade divina e os sete Exercícios, em belíssima prosa latina, foram editadas no século XVI pelo cartuxo João Lamperge e foram logo traduzidas para várias línguas europeias.
     Os especialistas afirmam que os livros da Santa Gertrudes, junto com as obras de Santa Teresa d'Ávila e de Santa Catarina de Sena, são as obras mais úteis que uma mulher tenha dado à Igreja para alimentar a piedade das pessoas que se dedicam à vida contemplativa.
     Santa Gertrudes havia escrito uma preparação para a morte, para proveito dos fiéis. Consistia em um retiro de cinco dias, o primeiro dos quais consagrado a considerar a última enfermidade; o segundo, a confissão; o terceiro, a unção dos enfermos; o quarto, a comunhão; e o quinto a dispor-se para a morte. Certamente ela se preparou desse modo para seu falecimento, que ocorreu no Mosteiro de Helfta, em 17 de novembro de 1302.
     Gertrudes já era considerada santa no momento de sua morte; Clemente XII incluiu o seu ofício no Calendário Romano em 1677. Mas somente em 1739 o seu culto foi estendido à Igreja Universal.
     Santa Teresa de Ávila e São Francisco de Sales promoveram muito o culto a essa santa extraordinária. Gertrudes é uma das padroeiras dos escritores católicos.
 
(¹) Santa Matilde de Hackeborn (ou de Helfta) – festa litúrgica 19 de novembro.
 
    Esta Santa, junto com Santa Gertrudes, a Grande, é a glória do monaquismo e uma das maiores escritoras espirituais e místicas do Cristianismo.
     Matilde nasceu em 1241, no Castelo de Helfta, e pertencia a uma das mais nobres e poderosas famílias da Turíngia, os Hackeborn, aparentada com o Imperador Frederico II. Com sete anos foi enviada para o mosteiro beneditino de Roderdorf para ser educada. Em 1258, quando sua irmã mais velha, Gertrudes, foi eleita abadessa da Abadia de Helfta, Matilde a seguiu. Três anos mais tarde ela ficou encarregada da direção de uma jovem monja, Gertrudes, que era alguns anos mais jovem do que ela.
     Matilde foi mestra do coro. Tinha cinquenta anos e estava doente. Sua irmã mais velha já havia falecido quando Matilde revelou o seu grande segredo: as maravilhas que a graça divina operava em sua alma, tudo o que Deus mostrava a ela. Duas Irmãs recolheram suas confidências e uma delas foi Santa Gertrudes, a Grande. Elas trabalharam de 1291 a 1298. Nasceu assim o Livro da Graça Especial, uma das mais belas e das mais célebres obras da literatura mística da Idade Média.
     Como Santa Gertrudes, Santa Matilde é precursora da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, fonte do amor divino. Ela teve por este amor expressões de apaixonado lirismo. O renome de Matilde se espalhou.
     No século XIV ela era célebre em Florença, pois os dominicanos tinham propagado o Livro da Graça. Dante, em seu Purgatório, menciona uma encantadora jovem, Matelda, que guarda o Paraíso terrestre, provavelmente inspirado pela cantora do amor divino.
     Matilde faleceu em 19 de novembro de 1298 ou 1299.