sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Beata Vilburga, Reclusa de São Floriano - 11 de dezembro

      
     A figura desta Beata, uma vida de reclusa em extrema penitência, é difícil de ser compreendida pela mentalidade moderna voltada para uma liberdade e um prazer desenfreados. Vilburga (também conhecida como Wilburgis, Wilberg), que nasceu no território da Áustria atual, viveu durante quarenta anos em uma cela.
     Vilburga nasceu nas proximidades da Abadia de São Floriano. O pai, Henrique, morreu durante uma peregrinação a Jerusalém; ela foi educada sob os cuidados da mãe e da governanta. Aos 16 anos, com a amiga Matilde, fez uma peregrinação, longa e corajosa para aqueles tempos, sobretudo por uma jovem sozinha, a São Tiago de Compostela, na Espanha, uma das grandes metas de peregrinação na Idade Média.
     De volta a sua terra natal, a amiga Matilde desejava fazer com ela uma outra peregrinação, desta vez a Roma. Mas Vilburga já fizera uma escolha mais definitiva e completa de sua vida. Renunciando ao mundo, no dia da Ascenção de 1248, se fechou solenemente em uma cela junto à igreja dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho de São Floriano.
     A Abadia de São Floriano era já renomada e ainda hoje sua fama persiste. Os eremitas daquele século escolhiam esta forma de isolamento, isolavam-se em pequenas construções erigidas no exterior dos conventos, mas bastante próximas para que eles usufruíssem da direção espiritual dos monges. Às vezes até monges do mesmo convento escolhiam esta forma de penitência para um período de maior mortificação e dedicação à ascese.
     Através de uma janela que defrontava na igreja conventual, Vilburga participava da liturgia dos monges. Sua amiga Matilde também tomou uma cela vizinha, num regime de semiliberdade, podendo providenciar mantimentos e fornecendo-os também a Vilburga.
     Esta vida de reclusa durou 40 anos, até sua morte. Ela só deixou sua cela uma vez, e por pouco tempo, quando em 1275, para fugir dos soldados de Rodolfo de Asburgo (1218-1291), imperador do Sacro Império Romano desde 1273, acompanhou os monges agostinianos na fuga para dentro dos muros da cidade de Enns, que tem o mesmo nome do rio que a atravessa, afluente do Danúbio.  
     Pelos méritos de sua união com Deus, teve dons sobrenaturais, como a visão dos acontecimentos contemporâneos. Era tal sua fama de espiritualidade e vida interior, que leigos e religiosos, pecadores e pessoas piedosas, gente de todas as classes sociais, postavam-se diante da janela de sua cela para pedir conselhos e orações àquela mulher que era um exemplo de penitência.
     A fama de Vilburga ultrapassou os limites da Áustria, tendo sido convidada pela Beata Inês de Praga († 1282 ca.), depois por Catarina, sobrinha do Beato Gregório X, que a convidou a fundar um convento na Itália, mas em ambos os casos a Beata não quis abandonar sua cela, o silêncio e o recolhimento.
     Manteve uma correspondência epistolar com o célebre monge cisterciense Gustolfo de Viena.
     Com 56 anos morreu em sua cela, no dia 11 de dezembro de 1289. Foi sepultada na igreja do vizinho convento de São Floriano, onde ainda repousa em um sarcófago da cripta.
     O seu culto continuou ininterruptamente nestes séculos; peregrinos da Áustria e da Alemanha continuam a fluir para venerá-la. Já em vida foi considerada uma santa e no aniversário de sua morte uma Missa solene é celebrada, embora não tenha sido oficialmente beatificada pela Igreja.
     Sua vida foi inspiração literária de alguns escritores alemães.
 
Abadia de São Floriano, Áustria

     O mosteiro, que leva o nome de São Floriano, foi fundado no período carolíngio. Desde 1071, albergou uma comunidade de cônegos agostinianos e é, portanto, um dos mais antigos mosteiros em funcionamento do mundo, segundo a Regra de Santo Agostinho.

     Entre 1686 e 1708 o complexo do mosteiro foi reconstruído em estilo barroco por Carlo Antonio Carlone, cuja obra-prima é São Floriano. Após sua morte, Jakob Prandtauer continuou o trabalho. O resultado é o maior mosteiro barroco da Alta Áustria. Bartolomeo Altomonte criou os afrescos.

     A construção da ala da biblioteca começou em 1744, sob Johann Gotthard Hayberger . A biblioteca é composta por cerca de 130.000 itens, incluindo muitos manuscritos. A galeria contém numerosas obras dos séculos XVI e XVII, mas também algumas obras do final da Idade Média da Escola do Danúbio, em particular de Albrecht Altdorfer.

     Em 1827, o bibliotecário polonês Padre Josef Chmel encontrou um dos mais antigos artefatos literários poloneses, um manuscrito iluminado contendo os Salmos em latim, alemão e polonês no mosteiro. Por causa do local da descoberta, recebeu o nome de Saltério Sankt Florian e agora reside na Biblioteca Nacional da Polônia.

     Em janeiro de 1941, a Gestapo apreendeu as instalações e expulsou os monges. A partir de 1942, a Reichsrundfunkgesellschaft ("Sociedade de Rádio do Terceiro Reich"), sob o comando do diretor-geral Heinrich Glasmeier, operou a partir daqui. Os cônegos voltaram após o fim da guerra.

     As instalações agora também abrigam o Museu do Corpo de Bombeiros da Alta Áustria.

Basílica
     A igreja dos cônegos foi elevada à categoria de basílica menor em 1999. É dedicada a São Floriano e a Santo Agostinho.
     O Priorado de São Floriano possui dois órgãos, o maior dos quais é conhecido como "órgão de Bruckner" (Brucknerorgel) e contém quatro manuais, 103 pontos e 7.343 tubos. Foi tocada pelo compositor e organista Anton Bruckner, anteriormente um menino do coro do mosteiro, quando era organista, entre 1848 e 1855. Ele está enterrado sob o órgão dentro da igreja.
Coro de Meninos de São Floriano
     A Abadia de São Floriano também é conhecida pelo Coro de Meninos de S. Floriano ( St. Florianer Sängerknaben ), um coro de meninos fundado em 1071. Este coro tem sido uma parte tradicional do culto monástico desde a sua fundação. Ainda tem uma responsabilidade particular pela música sacra do priorado, mas agora também realiza digressões internacionais, aparições na televisão e produção de CDs.

Postado neste blog em 11 de dezembro de 2012
 
http://www.santiebeati.it/dettaglio/91825

Menino Jesus e os corações

 


quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

O Divino Menino Jesus de Beaume

     
     A venerável religiosa carmelita Irmã Margarida do Santíssimo Sacramento, falecida em 26 de maio de 1648, em Beaume (França), na idade de 29 anos, tornou-se célebre pela sua devoção ao Menino Deus.
     Vimos na narração sucinta de sua vida no post anterior, que Margarida se consagrou ao Menino Jesus como esposa de sua infância e em 1636 criou a “Família do Santo Menino Jesus” cujos “servos” deviam viver das virtudes da Santa Infância e recitar a Pequena Coroa. Esta devoção muito rapidamente saiu dos limites do claustro. Em 1643, uma imagem do Menino Jesus foi-lhe dada pelo virtuoso Barão Gaston de Renty, que fora atraído pela fama de sua santidade (*).
     A Venerável compôs, por inspiração divina, uma pequena coroa constituída de três Pai-nosso em honra da Santíssima Trindade, e de doze Ave-Marias em memória dos doze anos da infância de Jesus.
     Jesus mostrou à dedicada serva o quanto esta prática lhe era agradável: fê-la ver, numa revelação, estes pequenos terços brilhando com uma luz sobrenatural, prometendo-lhe que daria graças especiais a quem o trouxesse e recitasse com devoção, sobretudo as virtudes da pureza e da inocência. A recitação desta Coroinha obtém prodígios de graças espirituais e temporais, e é um poderoso escudo contra os espíritos infernais.


Coroinha (ou Terço) do Menino Jesus
 
Divino Menino Jesus, adoro a vossa Cruz e me entrego à vossa Santa Vontade.
Em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
 
Trindade Adorável, nós Vos oferecemos todas as Adorações do Coração do Santo Menino Jesus.
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Pai Nosso...
 
Santíssima Trindade, nós Vos oferecemos o que operastes na alma da Santíssima Virgem no tempo da Encarnação.
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Pai Nosso...
 
Trindade Adorável, agradecemos as graças que concedestes à São José em vista de Jesus e de Maria.
E o Verbo se fez carne e Ele habitou entre nós. Pai Nosso...
 
 
OS DOZE MISTÉRIOS DA SANTA INFÂNCIA
 
1. A ENCARNAÇÃO DE NOSSO SENHOR:
Santo Menino Jesus, adoramos o momento da tua Encarnação.
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Ave Maria...  [repetir em cada mistério]
 
2. SUA MORADA NO SEIO DE SUA SANTA MÃE:
Adorável Criança, nós Te adoramos residindo nove meses no seio de Maria.
 
3. SEU NASCIMENTO:
Criança Divina, nós Te adoramos nascendo em um pobre estábulo.
 
4. SUA PERMANÊNCIA NO ESTÁBULO:
Criança muito amável, precioso tesouro do céu e da terra, junto com os anjos e os pastores de Belém nós Te adoramos na manjedoura.
 
5. SUA CIRCUNCISÃO:
Deus de Amor, que é a própria Santidade, Te adoramos levando a marca da Aliança na tua Circuncisão. Faça nossos corações semelhantes ao Teu.
 
6. SUA EPIFANIA:
Santo Menino Jesus, com os Magos prostramo-nos aos Teus pés sagrados. Sede para sempre o único Rei de nossos corações.
 
7. SUA APRESENTAÇÃO NO TEMPLO:
Adorável Criança, oferece-nos a Deus Teu Pai contigo, para que sejamos totalmente entregues ao Amor.
 
8. SUA IDA PARA O EGITO:
Santo Menino que, sendo o Deus Forte, fugiste diante do Rei Herodes, faz-nos fugir, mais do que da morte, da sombra do pecado.
 
9. SEU RETORNO DO EGITO:
Poderosíssima Criança, afasta-nos do espírito do mundo e faça crescer em nós o desejo do Céu.
 
10. SUA VIDA OCULTA EM NAZARÉ:
Amabilíssimo Menino, faze-nos amar a vida oculta e humilde e deixa-nos saborear a felicidade de saber que somos amados pela Sagrada Família.
 
11. SUAS VIAGENS COM SUA SANTA MÃE E SÃO JOSÉ:
Divino Menino Jesus, santifica todos os nossos passos. Visto que és nosso único Tesouro, que O busquemos com frequência em nossas igrejas para rezar para Ti e Te adorar, nosso Salvador e nosso Deus.
 
12. SEU ENCONTRO NO TEMPLO NO MEIO DOS DOUTORES:
Admirável Menino Jesus, no qual estão contidos todos os Tesouros da Sabedoria e da Ciência, venha e estabeleça para sempre o teu lar em nossos corações. Sê o nosso único Mestre, inspira-nos a tua Vontade e dá-nos a graça de cumpri-la com fidelidade e alegria.
 
CONSAGRAÇÃO ao Santo Menino Jesus
     Divino Menino Jesus, que me dais tudo que tendes e tudo que sois para me salvar e me enriquecer com sua graça. Em resposta ao vosso imenso amor por mim, eu Vos ofereço e dedico tudo o que sou e tudo o que tenho. Eu me entrego a Vós, consagro todas as faculdades da minha alma a Vós. Dedico minha memória a Vós: façais com que ela se lembre continuamente de que Vos fizestes uma criança por mim. A Vós consagro a minha inteligência: iluminai-me com as vossas luzes divinas, me faça entender que se quisésseis Vos humilhar até Vos tornar uma criança para me salvar, devo lutar continuamente contra os movimentos de orgulho e ambição para imitar-vos no estado de vossa Santa Infância. Eu consagro minha vontade a Vós: tornai-Vos o mestre de todos os meus desejos e de todas as minhas afeições. Faça, ó Santo Menino Jesus, que eu não tenha outra vontade do que servi-lo e amá-lo, imitá-lo praticando a humildade, obediência, gentileza, simplicidade e inocência. Dê-me um coração puro que olhe apenas para Vós e que se alegra com o que sois. Ó Jesus, Rei da Graça, eu me abandono a Vós. Venha reinar sobre meu coração hoje e para sempre. Amém
 
(*) O Barão Gaston de Renty (1611 - 1649) muitas vezes presidente da Companhia do Santíssimo Sacramento, composta por membros da nobreza, combatia no campo cultural-moral a revolução cultural que preparava a Revolução Francesa.
     O Barão de Renty quis ser cartuxo, mas as circunstâncias o levaram a fazer um casamento exemplar e ser pai de uma família numerosa.
     Dotado de uma extraordinária capacidade articuladora, expandiu a Companhia do Santíssimo Sacramento pela França, inspirou sua fundação de Montreal, no Canadá, terra que jamais pisou.
     Ele doou a imagem milagrosa do Menino Jesus de Beaune e acredita-se que possa tê-la entalhado ele próprio.
    “Sua devoção ao Menino Jesus, tão característica da espiritualidade do final do século XVII e dos séculos seguintes, não foi, no entanto, uma devoção ao “pequeno Jesus” pedindo que as crianças fossem boazinhas como as imagens.
     “Sua devoção à Infância é a de um abandono radical de si mesmo, retomando o tema da Infância de Jesus, o que os quietistas condenados designavam erroneamente com os termos do abandono a Deus, da expropriação de si mesmo para quem alcançou o fim do caminho espiritual. (...)
     “Encontramos em Gaston de Renty o misticismo medieval e do início da reforma católica ligada ao Concílio de Trento, que no final do século XVII não era mais reconhecida”.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Venerável Margarida do Santíssimo Sacramento e a devoção ao Pequeno Rei da Graça

Inocência, pureza, simplicidade... Estas são as virtudes que Margarida do Santíssimo Sacramento prometia àqueles que contemplassem Jesus no mistério de sua Infância. Que nosso mundo, tão complicado, tão agitado, se abra à Paz que vem da manjedoura e de onde Jesus nos revela o segredo: “
Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas" (Mt. 19, 14).
 
Uma "fundadora" de seis meses
     Em 7 de fevereiro de 1619, em Beaune, Joana Bataille, esposa de Pedro Parigot, deu à luz seu quinto filho, ela teria mais dois. O casal profundamente católico vivia confortavelmente com a renda da terra e da vinha. A pequena Margarida foi batizada no mesmo dia.
     Seis meses depois, ocorreu um acontecimento importante: as freiras do Carmelo de Dijon, fundado em 1605, depois de muitas provações e dificuldades, abriram um Carmelo em Beaune. O cônego que cedeu o priorado de Santo Estevão às Carmelitas não era outro senão o tio-avô de Margarida. Por isso, ele estabeleceu uma condição para esta concessão: que sua sobrinha fosse recebida no mosteiro, e quando ela tivesse idade suficiente seria a "fundadora"!
     Margarida, com apenas seis meses se tornou “fundadora” do Carmelo de Beaume. Ela poderia revoltar-se por ter sido assim destinada ao claustro sem o seu consentimento, mas o Espírito Santo desceria sobre a alma desta criança e ia conduzi-la precocemente a uma maturidade espiritual surpreendente.
     Ela é gentil e dócil, graciosa, e a esses dons naturais acrescentava-se uma piedade crescente. Aos cinco anos, o Santíssimo Sacramento a atraia como um ímã e ela se ofereceu a Deus no segredo do seu coração. Às vezes, o frio a atingia tanto, que ela pensava que ia desmaiar na igreja, mas o Espírito Santo a cobria com um calor suave e ela continuava sua oração.
     Também precoce, e sobrenatural, era a sua atração vibrante de ternura pelos pobres, tão numerosos nestes tempos de guerra e de epidemias. Acompanhava a mãe nas visitas aos enfermos e vencia a repugnância ao trocar os curativos dos doentes. O despojamento de Jesus que ela contemplava na manjedoura despertou nela o desprezo das riquezas, das roupas cobiçadas, dos pratos delicados. 
“Não mostrar nossos sofrimentos”
      Tudo parecia sorrir para a pequena Margarida: miúda, rosto delicado, caráter amável, sorriso delicioso, ela encantava a todos que a conheciam. Mas ela sofria de acessos de melancolia, de tristeza, delirava. Suas convulsões faziam sua mãe chorar de preocupação. Desse desequilíbrio nervoso Margarida nunca se recuperaria completamente.
     Em meio ao pior sofrimento moral e físico, Margarida mantinha a paz e a serenidade. Ela resistia às tentações e ao ataque de desespero, seu socorro era a oração, dia e noite. Ela escreveu aos dez anos esta reflexão surpreendente que explica seu temperamento igual: “Quando o Bom Deus nos envia sofrimentos, devemos nos esforçar para escondê-los dentro de nós e não demonstrá-los aos outros, pois eles não são obrigados a aguentá-los”.
     A morte da Sra. Parigot colocou um fim abrupto à infância de Margarida. Em seu leito de morte, sua mãe a consola e promete que ela será uma carmelita. Margarida, arrasada, corre para a igreja e prostrada diante da imagem da Virgem, implora que Ela se coloque no lugar da mãe e entende em seu coração que foi ouvida.
"Presa" na infância de Jesus
      Na mesma tarde do funeral, Margarida, em seu vestido de luto, foi levada ao convento das Carmelitas por seu pai. Apesar de sua dor, ela foi imediatamente inundada de alegria. Acolhida pela Madre Isabel da Trindade, Priora, e Madre Maria da Trindade, Mestra de Noviças, a pensionista de onze anos e meio entretém as duas santas mulheres com comentários inflamados sobre o Santíssimo Sacramento. No dia seguinte, ela foi admitida para fazer sua primeira comunhão e ouviu Jesus chamá-la: “Minha pequena esposa”.
     Esta menina, cuja sabedoria e seriedade diferia das outras crianças, adaptou-se muito rapidamente à vida da Comunidade. Ela descobriu a devoção ao Menino Jesus, cultivada no Carmelo desde Santa Teresa de Ávila, dizia que o: “O Menino Jesus me aprisionou nos doze anos de sua Infância”.
     Mas uma vez que a exaltação das primeiras descobertas se acalmou, as tentações assumem o controle. Ela via a mão do demônio, animais terríveis, pragas que virão; ela perde o sono e não consegue comer nada enquanto convulsões atrozes retorcem seus membros, seguidas por longos cochilos, acessos de medo e lágrimas. Os médicos falam em epilepsia, mas intrigados com a lucidez, a modéstia e a gentileza de que sua jovem paciente não se afastava.
     Em 6 de junho de 1631, aos doze anos, exausta e emagrecida, Margarida recebeu o hábito de noviça, tomando o nome de Irmã Margarida do Santíssimo Sacramento. As crises se sucedem até 31 de julho, quando a aparição do Menino Jesus, sentado à beira de um poço, cura Margarida.
O Espírito da Infância e a Graça da Cruz
     Em agosto, Jesus prontamente a exorta a participar do estado de sua Infância. Por seis meses, ela se encontraria em um paraíso perpétuo. Suas irmãs às vezes a veem lavada com pureza, perfumada com castidade, seu rosto brilhando com uma brancura deslumbrante, abstendo-se por algum tempo de toda comida. Acima de tudo, são as suas virtudes que impressionam suas companheiras e suas superioras: uma humildade muitas vezes posta à prova, uma obediência que prevalece sobre a sua natureza.
     Em 7 de fevereiro de 1632, Jesus a encorajou à penitência: “Agora você deve aprender a ciência da minha Cruz”. Como a pequena Teresa de Lisieux dois séculos depois, Margarida foi carregada do peso dos pecadores. Doenças, sofrimentos, enfermidades nunca a deixarão. Consciente dos pecados e das desordens que ocorriam em um mosteiro ou na pessoa de um sacerdote, sentia amargura e angústia, sofria pelos orgulhosos e impuros, pelas almas vaidosas, pelos preguiçosos e blasfemadores.
     Foi na Epifania de 1632 que ela assinou o seu ato de consagração como Esposa do Menino Jesus em seu presépio. Fez a profissão solene em 24 de junho de 1635 e Jesus apareceu para ela em forma de uma criança, dando-lhe o anel, a coroa e o manto com esta promessa: “Não recusarei nada do que me pedires na oração”.
     O ano de 1636 foi terrível para a França: guerras, invasões, cercos. Jesus confidencia a Margarida: “Pelos méritos do Mistério de minha Infância superarás todas as dificuldades”. Margarida criou então a “Família do Santo Menino Jesus” cujos “servos” viverão das virtudes da Santa Infância e recitarão a Pequena Coroa. Esta devoção muito rapidamente saiu dos limites do claustro. O exército inimigo se retirou e a Borgonha experimentou dois séculos de paz.
A chegada do pequeno rei
     Em 15 de dezembro de 1637, enquanto toda a França rezava pelo nascimento de um herdeiro ao trono de Luís XIII, Margarida foi informada da gravidez da rainha, antes da própria Ana da Áustria! Tendo se tornado rei da França, Luís XIV veio ao Carmelo de Beaune em 1658 para agradecer às irmãs por suas orações. Mas é outro rei que entrará no mosteiro.
     Na verdade, a fama de Margarida chegou aos ouvidos de um gentil-homem normando, o Barão Gaston de Renty. Ele foi ao Carmelo em 1643 sem ver Margarida, que vivia cada vez mais retraída. Em novembro, ele enviou a ela a estátua que se tornaria o querido Pequeno Rei da Graça. Na sequência de um mal-entendido, esta escultura chegou, humildemente, pelo correio. “Fiquei muito surpreso”, escreveu M. de Renty um mês depois, “quando soube que o Menino Jesus foi levado pelo correio. Meu Deus! Como é que não foi quebrado tendo sido levado por quase cem léguas!
     Margarida tivera alguns anos antes a inspiração de construir uma capela dedicada ao Menino Jesus; esta foi consagrada no dia de Natal de 1639. A chegada do Pequeno Rei coincidiu com a morte de Madre Maria da Trindade em dezembro de 1643. Em 1644, Gaston de Renty encontrou Margarida: o Filho de Deus fez uma ligação tão estreita entre essas duas almas, que era apenas um coração e um espírito. Este santo homem, que era o diretor espiritual da prioresa, Madre Isabel da Trindade, se colocou nas mãos da jovem carmelita de 25 anos: “Eu me entrego a vós, minha querida irmã, para que possais formar-me de acordo com o desejo de vosso Santo Esposo.
"Quando tudo estiver consumado, o Menino Jesus me atrairá a Ele"
     Em março de 1648, Margarida foi colocada na enfermaria da qual nunca mais sairia. Enquanto seu corpo é um abismo de sofrimento, sua alma é um abismo de paz e alegria: não parecia que ela era uma criatura mortal, mas uma alma já regenerada pela glória. Até o fim, ela agradecia às irmãs e as consolava: “Vós me encontrareis sempre no Santíssimo Sacramento”.
     Ela morreu no dia 26 de maio pela manhã, aos 29 anos de idade. Depois chegava ao Carmelo um desfile de fiéis para prestar uma última homenagem à santinha. Gaston de Renty, que logo a seguiria, escreveu: “Deus levou para o céu o que a terra não era digna de possuir”. São João Eudes vira Margarida pouco antes de sua morte: “Não posso falar do respeito e da devoção que o Santo Menino Jesus imprimiu em nossos corações a respeito de sua santa esposa; já sentimos vários efeitos de sua caridade, espiritual e corporal”.
     Na verdade, intercessões e milagres se sucederam. Depois de um processo de beatificação muito atribulado e com interregnos, a Irmã Margarida do Santíssimo Sacramento foi declarada Venerável em 1873, aguardando-se, com a graça de Deus, que rapidamente chegue aos altares.
 
Fontes:
http://enfantjesusdebeaune.free.fr/marguerite-du-saint-sacrement.htmlhttps://apostoladopequenavia.com.br/

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Santa Branca de Castela, Viúva, Religiosa e Mãe de São Luís IX, Rei de França - 2 de dezembro

 Casamento de Branca e o Delfim
 

    Branca era filha de Afonso VIII, Rei de Castela, e de Leonor da Inglaterra. Nasceu em Palência no início de 1188. Com onze anos foi prometida como esposa a Luís, delfim da França, pelo tio João Sem Terra, que tinha intenção de se reconciliar com o Rei Felipe Augusto. Em 22 de maio de 1200, Filipe Augusto e João Sem Terra assinaram finalmente o Tratado de Goulet. João cedeu à sua sobrinha os feudos de Issoudun e Gravay, juntamente com os de André de Chauvigny, senhor de Châteauroux, em Berry. O casamento foi celebrado no dia seguinte em Portmort, na margem direita do rio Sena, território de João
     Branca começou a mostrar as suas qualidades de estadista em 1216, quando Luís reclamou a coroa inglesa para a sua esposa, invadindo a Inglaterra a pedido da nobreza inglesa, revoltada contra João Sem Terra. Mas o apoio dos rebeldes cessou com a morte de João, poucos meses depois. Aliados em torno de Henrique III de Inglaterra, filho do falecido rei, os ingleses uniram-se contra o agora invasor francês. Filipe Augusto não quis se envolver e Branca foi um importante apoio para Luís. Estabeleceu-se em Calais e organizou duas frotas e um exército sob o comando de Roberto de Courtenay, que acabariam por serem derrotados pelos ingleses.
     Branca encontrava-se profundamente aflita, pois já se haviam passado doze anos desde seu casamento e ainda não tinha filhos. São Domingos de Gusmão, que fora visitar a Rainha, aconselhou-a a rezar diariamente o Rosário, pedindo a Deus a graça de tornar-se mãe. Seguindo fielmente o conselho, ela foi atendida e em 1213 deu à luz o seu primogênito, Filipe, que veio a falecer na infância.
     O fervor da rainha não se abalou por essa provação. Ao contrário, ela procurou o auxílio de Nossa Senhora mais do que antes. Distribuiu Terços para todos os membros da corte e para os habitantes de muitas cidades do seu reino, pedindo que se unissem a ela na súplica a Deus. Sua ardente oração foi ouvida quando, em 1215, nasceu aquele que seria depois São Luís IX, o príncipe que se tornaria a glória da França e modelo dos reis cristãos.
     Branca, que fora educada nos princípios católicos, educou seus numerosos filhos, entre eles Luís, segundo os mesmos ensinamentos. Ao educar os seus filhos nos mais rígidos princípios morais e religiosos, ganhou também a aprovação do clero.
     A Rainha herdou dos Plantagenetas, seus ancestrais maternos, a excepcional força de ânimo e o senso político que demonstrou colaborando nos empreendimentos do esposo, encorajado por ela na sua luta pela expulsão dos ingleses do Poitou.
Santa Branca e São Luís IX 
    
Quando Filipe II de França morreu, Luís VIII sucedeu-o e foi coroado em 6 de agosto de 1223, juntamente com Branca, na Catedral de Reims.
     Após a morte de Luís VIII em 1226, Branca tornou-se Regente em nome do filho, Luís IX de França, de doze anos de idade. Apesar da grande aceitação como rainha consorte, agora enfrentava a hostilidade da nobreza francesa, provavelmente devido a ser mulher e estrangeira, apoiada em outro estrangeiro, o Cardeal Romano Frangipani de Santo-Ângelo, legado papal e preceptor do jovem rei, presente na França já no tempo de Luís VIII, e que muito ajudou Branca em suas lutas. Mas, acima de tudo, os nobres desejavam aproveitar uma debilidade da autoridade real para retomar as prerrogativas políticas que um século de progresso do poder real lhes tinha retirado.
     Branca só conseguiu dissolver esta coligação ao dividir os barões, impressionados pelos seus preparativos bélicos ou conquistados pela hábil diplomacia. Na conclusão do Tratado de Meaux-Paris de 1229, conseguiu organizar a tomada do Languedoc. No ano seguinte repeliu um ataque inglês e resistiu aos boatos de ligações ilícitas com o Cardeal Frangipani e com Teobaldo IV de Champagne. Paralelamente, apoiou-se na obra reformadora de São Bernardo Claraval para fundar as abadias de Royaumont, em 1228, e de Maubuisson, em 1236.
     São Luís reconheceu dever-lhe o seu reino, ele mesmo afetado pela personalidade da mãe. Mesmo depois da maioridade em 1234, manteve a grande influência política de Branca. Foi a ela que confiou mais uma vez a regência durante a 7ª. Cruzada ao Egito, projeto a que ela se opunha. Na campanha desastrosa que se seguiu, ela manteve a paz, simultaneamente retirando homens e dinheiro do reino para auxiliar o seu filho no Oriente.
     A rainha mãe soube triunfar sobre as coligações formadas contra a sua pessoa e contra a monarquia pelos grandes vassalos, governando com inteligência, e pôs fim ao conflito contra os cátaros. Foi celebrada pela sua beleza tanto quanto pela sagacidade. Branca de Castela também pode ter sido compositora: a ela é atribuído Amours ou trop tard me suis pris.
     No final da sua vida retirou-se em Melun, onde morreu em 27 de novembro de 1252, enquanto São Luís IX ainda se encontrava no Oriente. O seu corpo repousa na Abadia de Maubuisson, fundada por ela e onde ela mesma recebera o hábito cisterciense alguns anos antes da morte. O seu coração é conservado na Abadia de Lys, nas proximidades de Melun, para onde fora levado em 13 de março de 1253.
     Os casamentos dinásticos de sua vasta prole e de seus descendentes fizeram com que Branca de Castela se tornasse ancestral de praticamente todas as casas reais europeias em menos de cem anos após sua morte.
     Branca de Castela é universalmente venerada como santa, embora não tenha sido canonizada; sua festa é celebrada no dia 2 de dezembro.
 
Fontes:
http://www.santiebeati.it/dettaglio/37600
https://pt.wikipedia.org/wiki/Branca_de_Castela
http://www.santosebeatoscatolicos.com/2016/06/santa-branca-de-castela-viuva-religiosa.html

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

ADVENTO: TEMPO DE REFLEXÃO, PENITÊNCIA, CONVERSÃO

O PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO
 
Coroa do Advento
 

   Um dos sinais externos mais familiares do Advento é a Coroa do Advento. As velas do advento demonstram prontamente o forte contraste entre as trevas e a luz, que é uma imagem bíblica importante. Jesus referiu-se a si mesmo como a “Luz do Mundo” que dissipa as trevas do pecado: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue nunca andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (João 8:12).
     Ela também nos lembra que, como cristãos, devemos brilhar a luz de Cristo neste mundo. Como Jesus nos diz: Vós sois a luz do mundo ... resplandeça a vossa luz diante dos outros, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus. (Mateus 5: 14-16)
     FORMA: A forma circular da coroa, sem começo nem fim, simboliza a eternidade de Deus. Deus não tem começo nem fim. Também simboliza Seu amor infinito por nós - um amor que enviou seu Filho ao mundo para nos redimir da maldição do pecado. Além disso, representa a vida eterna que se torna nossa por meio da fé em Jesus Cristo.
     NÚMERO: A Coroa do Advento tradicionalmente contém quatro velas que são acesas, uma de cada vez, em cada um dos quatro domingos do tempo do Advento. Cada vela representa 1.000 anos. Somadas, as quatro velas simbolizam os 4.000 anos que a humanidade esperou pelo Salvador do mundo - de Adão e Eva a Jesus, cujo nascimento foi predito no Antigo Testamento. Algumas tradições também incluem uma quinta vela branca de "Cristo" nas coroas do Advento, simbolizando a pureza, e é acesa na véspera do Natal ou no dia de Natal. Muitas coroas podem incorporar uma vela branca, adicionando uma vela pilar ao centro da coroa.
     COR: Roxo é uma cor litúrgica usada para significar um tempo de oração, penitência e sacrifício e é usada durante o Advento e a Quaresma. Advento, também chamado de "pequena Quaresma", é a época em que esperamos espiritualmente em nossas "trevas" com expectativa esperançosa de nossa redenção prometida, assim como o mundo inteiro fazia antes do nascimento de Cristo, e assim como o mundo inteiro faz agora, quando avidamente aguarda seu retorno prometido. Podemos literalmente sentir a sala iluminada conforme progredimos nesta temporada de preparação espiritual!
     NOTA: Como não é fácil obter vela roxa, normalmente usa-se velas brancas, vermelhas, ou na cor da cera de que é feita.
E MAIS:
     O uso de sempre-vivas nos recorda de nossa vida eterna com Cristo; as folhas pontiagudas do azevinho e as bagas vermelhas representam a coroa de espinhos da Paixão de Jesus e de Seu Precioso Sangue; e pinhas simbolizam a ressurreição de Cristo.
MAS HÁ AINDA MAIS ...
     Não apenas a Coroa do Advento em si está repleta de simbolismo e significado, mas cada um dos domingos carrega um tema próprio. Neste artigo, exploraremos o primeiro domingo do Advento e observaremos como toda a história do Natal se desenrola para nós a cada ano - se estivermos prestando atenção.
     Para esse fim, exploraremos os três “ajudantes” para um Advento vantajoso - penitência, jejum e oração. Incluído uma explicação clara dos ensinamentos da Igreja Católica sobre a necessidade desta abordagem contra-cultural para se preparar para o nascimento de Nosso Salvador.
 
Acendendo a primeira vela do Advento

     Embarcamos em nossa jornada do Advento ao acender a primeira vela. Se há crianças em casa, dá para sentir a emoção aumentar à medida que clamam para ver quem vai acendê-la! Quando a primeira vela é acesa, a seguinte oração pode ser dita por um líder ou por todos reunidos:
     Antes de acender a vela, reze: Ó Deus, regozijando, nos lembramos da promessa de seu Filho. Como a luz desta vela, que a bênção de Cristo venha sobre nós, iluminando nosso caminho e guiando-nos por sua verdade. Que Cristo nosso Salvador traga vida às trevas do nosso mundo e para nós enquanto esperamos por Sua vinda. Pedimos isso por Cristo nosso Senhor. Amém.
 
Adicionando a seguinte invocação de acordo com a semana:
PRIMEIRA SEMANA:
Ó Emmanuel, Jesus Cristo,
Desejo de cada nação,
Salvador de todos os povos,
Venha e habite entre nós.
 
     Esta vela tem sido tradicionalmente chamada de "Vela do Profeta", lembrando-nos que Jesus está voltando. A virtude teológica da ESPERANÇA está no centro da primeira semana do Advento. Esta é a virtude praticada pelos profetas e toda a raça judaica por 4.000 anos, enquanto esperavam pelo Salvador prometido. E é a virtude que cada cristão deve praticar ao longo de sua vida e é tão bem definida no Ato de Esperança: “... espero obter o perdão dos meus pecados, com a ajuda de Tua graça e a vida eterna”.
“Ajudante” da Esperança - Penitência
     Ao longo dos tempos, a Igreja Católica nos encorajou a fazer penitência em antecipação à vinda de Cristo. Como pecadores, todos nós sabemos instintivamente que precisamos fazer penitência por nossos pecados e uma vez que a praticamos, estamos novamente cheios de esperança na promessa de salvação.
O Advento é também um período de penitência... não pensamos nisso, O Advento também é um tipo de reconhecimento da nossa distância de Deus, ainda mais numa época de antecipação e alegria, mas há uma natureza penitencial nisso.
     Para viver o espírito penitencial do Advento, o Pe. Kleczewski ofereceu várias dicas. Além de se confessar durante a temporada, como fazem durante a Quaresma, os católicos podem desistir de algo, fazer orações extras ou realizar atos de caridade, comprando presentes para uma criança pobre.
     O Frei Kleczewski comparou a expectativa do Advento e do Natal com uma criança que espera a volta dos pais. “Estamos esperando, esperando, e esperando que eles voltem para casa, mal podemos esperar que eles voltem para casa. Bem, é disso que se trata o Advento, é sobre a espera e a edificação do anseio tanto para o reino vindouro, mas também para a celebração do nascimento de Cristo ", disse ele.
     A esperança é a virtude que praticamos para alimentar e sustentar nossa espera.
 
O PASTOR DE NOSSAS ALMAS - A IGREJA CATÓLICA
     Vamos enfrentar isto: falar sobre penitência no mês de dezembro, quando todos estão correndo para comprar presentes, é muito contra-cultural. Mas também o é a obediência a uma autoridade superior e é para esta autoridade - a Igreja Católica - que agora nos voltamos.
 
DECLARAÇÃO EMITIDA PELA CONFERÊNCIA NACIONAL DE BISPOS CATÓLICOS 18 DE NOVEMBRO DE 1966
     "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós... Se dissermos que não pecamos, fazemos [Deus] mentiroso, e a sua palavra não está em nós" (1 Jo 1: 8-10).
• Assim, as Sagradas Escrituras declaram que nossa culpa é universal; daí a obrigação universal do arrependimento que Pedro, em seu sermão no Pentecostes, declarou necessária para o perdão dos pecados (Atos 2:38). Daí, também, o constante reconhecimento da Igreja de que todos os fiéis são obrigados pela lei divina a fazer penitência. Quanto ao fato do pecado, nós, cristãos, não podemos reivindicar nenhuma exceção, portanto, da obrigação de penitência, não podemos pedir isenção.
• As formas e os períodos de penitência variam de tempos em tempos e de pessoa para pessoa. Mas a necessidade de conversão e salvação é imutável, assim como a necessidade de que, confessando nossa pecaminosidade, realizemos, pessoalmente e em comunidade, atos de penitência e conversão interior.
• Por estas razões, os povos cristãos, membros de uma Igreja ao mesmo tempo santa, penitente e sempre em processo de renovação, observaram desde o início os tempos e os dias de penitência. Eles o fizeram por meio de observâncias penitenciais comunitárias, bem como por atos pessoais de abnegação; imitaram o exemplo do próprio Filho imaculado de Deus, a respeito de quem as Sagradas Escrituras nos dizem que foi ao deserto para jejuar e orar quarenta dias (Mc 1,13). Assim, Cristo deu o exemplo ao qual Paulo apelou ao nos ensinar como nós, também, devemos chegar às medidas maduras da plenitude de Cristo (Ef 4:13).
• Dos muitos períodos penitenciais que em um momento ou outro entraram no calendário litúrgico dos cristãos (que neste ponto preservaram a sagrada tradição de seus ancestrais espirituais hebreus), três sobreviveram particularmente aos nossos tempos: Advento, Quaresma e o vigílias de certas festas.
Advento
• A mudança de costumes, especialmente em relação à preparação para o Natal, diminuiu a apreciação popular do tempo do Advento. Algo parecido com o clima de férias do Natal parece agora ser antecipado nos dias do tempo do Advento. Como resultado, esta época infelizmente perdeu em grande medida o papel de preparação penitencial para o Natal que antes tinha.
• Católicos zelosos têm se esforçado para manter vivos ou restaurar o espírito do Advento, resistindo à tendência de se afastar das disciplinas e austeridades que uma vez caracterizaram a temporada entre nós. Talvez seu propósito devoto seja melhor realizado, e o ponto do Advento seja mais bem promovido se confiarmos na renovação litúrgica e na nova ênfase na liturgia para restaurar sua compreensão mais profunda como um período de preparação eficaz para o mistério da Natividade.
• Por estas razões, nós, os pastores das almas desta Conferência, apelamos aos católicos para fazerem do tempo do Advento, a partir de 1966, um tempo de meditação sobre as lições da liturgia e de maior participação nos ritos litúrgicos pelos quais os mistérios do Advento são exemplificados e seu efeito santificador é realizado.
• Se em todos os lares, igrejas, escolas, retiros e outras casas religiosas cristãs, as observâncias litúrgicas são praticadas com novo fervor e fidelidade ao espírito penitencial da liturgia, então o Advento se imporá novamente. Seu propósito espiritual será novamente percebido com clareza.
• Uma rica literatura sobre as observâncias litúrgicas da família e da comunidade, apropriada ao Advento, felizmente se desenvolveu nos últimos anos. Instamos a instrução a partir dela, contando com a renovação litúrgica de nós mesmos e de nosso povo para cumprir nossas obrigações espirituais com relação a este tempo.
 
(continua)

ADVENTO: TEMPO DE REFLEXÃO, PENITÊNCIA, CONVERSÃO

 O SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO

     À medida que avançamos na jornada espiritual do Advento, o segundo domingo simboliza tradicionalmente a virtude da FÉ. A segunda vela acesa neste dia é conhecida como "Vela de Belém". Refletir sobre o caminho da Virgem Maria e de São José a Belém durante as semanas que antecederam o primeiro Natal é uma boa maneira de permanecer em um espírito de humilde reflexão e penitência.
     Certamente, até a fé de Maria e José deve ter sido posta à prova durante a árdua jornada de Nazaré a Belém. Eles tiveram que viajar 145 quilômetros até a cidade dos ancestrais de José: ao sul, ao longo das planícies do rio Jordão; a oeste, pelas colinas que cercam Jerusalém e entrando em Belém.
     Eles não estavam acostumados a viajar a pé, mas com o estado avançado de gravidez de Maria, dizer que "as coisas estavam difíceis" seria um eufemismo terrível, beirando a blasfêmia. Eles teriam passado por terrenos áridos e acidentados, encostas rochosas, vales desertos e talvez olivais verdes, contando com a gentileza de estranhos para encontrar um lugar para descansar à noite.
     Todas essas dificuldades foram suportadas com espírito de fé, sabendo que o que foi prometido a eles seria cumprido, apesar de todas as evidências físicas em contrário. A criança no ventre de Maria seria o Salvador de toda a humanidade. O Criador de todas as encostas e vales pelos quais eles passaram, logo, muito em breve, respirará pela primeira vez entre eles. Em questão de dias, o mundo inteiro mudaria.
     "Agora, fé é confiança no que esperamos e certeza sobre o que não vemos." Hebreus 11: 1
 
Alimento para o pensamento
     Então, como alguém que vive no século vinte e um se prepara para comemorar um evento tão inspirador e sobrenatural? Quando cercado pelo consumismo que quase eclipsou o motivo da temporada, é fácil se deixar levar por um sentimento de indiferença. Tendo ouvido jingles irritantes de Natal nos alto-falantes de todas as lojas, alguém pode até ser culpado de desejar que o Natal tivesse "acabado".
     Há algo que podemos fazer individualmente para nos prepararmos espiritualmente para o Natal e para lutar contra a maré secular. É uma prática mais antiga do que o próprio Natal, uma observância obrigatória nos séculos passados ​​e uma disciplina recomendada pelo próprio nosso Senhor: Podemos jejuar no Advento.
     O jejum é uma forma de penitência, que à primeira vista parece descompassada no tempo da esperança. No entanto, é a penitência que nos prepara para a vinda do Salvador, que veio para nos salvar de nossos pecados. E Ele não nos salvará a menos que primeiro nos arrependamos - reconheçamos nossos pecados e nossa necessidade de ser perdoados - e então manifestemos nosso arrependimento por meio de atos de penitência: oração, jejum e esmola.
     O Papa São Leão Magno (reinou 440-461) - aquele que enfrentou Átila, o Huno - encorajou os fiéis a este respeito:
     "O que é mais eficaz do que o jejum, pelo qual nos aproximamos de Deus e, resistindo ao diabo, vencemos os vícios indulgentes? Pois o jejum sempre foi alimento para a virtude: pensamentos castos, desejos razoáveis ​​e deliberações mais sólidas lucram com o jejum. E por meio dessas aflições voluntárias, nossa carne morre para a concupiscência e nosso espírito é renovado para a excelência moral”.
Benefícios do jejum
     O jejum aguça nossos esforços para combater o pecado e agir com caridade, ajudando-nos assim a resistir à tentação de reduzir o Advento a uma longa maratona de compras. Do jejum, recebemos a graça de olhar para a manjedoura em vez do Walmart, os pastores em vez de "super" modelos indecentes, os Magos em vez de Macy's. Um Natal centrado no consumismo nos faria acreditar que nossos desejos podem ser saciados com o último item para presente ou tendência da moda. Mas o desconforto do jejum nos lembra que a satisfação com os bens materiais é passageira; somente Deus, a fonte e o fim de todos os desejos regulares, pode realmente satisfazer.
     Como nos lembra Santo Agostinho, “Nossos corações estão inquietos até que descansem em Ti, Senhor”.
     O jejum produz outro benefício, que aponta para a essência do Advento - o anseio. Quando jejuamos, nossos corpos clamam por aquilo que abandonamos voluntariamente, seja comida, conforto, entretenimento ou outros bens. Como católicos, podemos responder com uma oração: “Senhor, apressa-te a preencher o vazio dentro de mim neste Natal, porque sei que só tu podes satisfazer plenamente os anseios da minha alma”. Com o estômago vazio e um coração expectante, a velha oração de Israel: Ó venha, Ó venha, Emanuel, soa com um novo significado.
     O jejum é mais necessário do que nunca, pois vivemos em tempos em que a gratificação instantânea reina suprema; onde um grande número de seres humanos é encorajado a se escravizar a um vício, ou pior. O jejum ajuda a recuperar um certo grau de controle em nossas vidas, que é a verdadeira liberdade.
Enquanto você acende a segunda vela
     No segundo domingo do Advento, com os seus entes queridos, ou a memória dos seus entes queridos, reunidos com você em torno da Coroa do Advento, agora é hora de continuar a tradição milenar de acender a segunda vela junto com a primeira.
     Uma oração de sua escolha pode acompanhar esta iluminação, ou continuar a oração fornecida no primeiro domingo do Advento:
     Antes de acender a vela, reze: Ó Deus, regozijando, nos lembramos da promessa de seu Filho. Como a luz desta vela, que a bênção de Cristo venha sobre nós, iluminando nosso caminho e guiando-nos por sua verdade. Que Cristo nosso Salvador traga vida às trevas de nosso mundo, e para nós enquanto esperamos por Sua vinda. Pedimos isso por Cristo nosso Senhor. Amém
 
Adicione a seguinte invocação:
SEGUNDA SEMANA:
Ó Rei de todas as nações, Jesus Cristo,
Única alegria de cada coração,
Venha e salve seu povo.
 
O TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO

     “Eles entrarão em Sião cantando; alegria eterna coroará suas cabeças. Alegria e júbilo os dominarão, e a tristeza irá embora. (Isaías 35:10)
     No terceiro domingo do Advento, estamos quase concluindo este período de preparação. De imediato, notamos uma diferença distinta em nossas celebrações externas: as cores mudaram de roxo para rosa. As vestes dos padres e a terceira vela em cada coroa do Advento agora é rosa.

Por que rosa, e o que isso tem a ver com Gaudete?
     A cor rosa sempre foi associada à alegria e à festa. A alegria é simbolizada pelo acender da vela rosa, lembrando-nos da alegria que o mundo experimentou com a vinda do Salvador do Mundo.
Esta vela também foi chamada de "Vela dos Pastores", pois coletivamente imaginamos que alegria incrível esses humildes camponeses devem ter sentido quando foram anunciados pelos anjos com "Gloria in Excelsius Deo!"
     Portanto, é apropriado, em meio à oração e penitência, nos alegrarmos ao vermos o objetivo do tempo se aproximando: “O Senhor está perto”.
     "Alegrem-se sempre no Senhor; novamente, eu digo, alegrem-se. Que a sua modéstia seja conhecida de todos os homens. O Senhor está perto". (Filipenses 4: 4-5)
     Esta é uma citação em latim, e a primeira palavra da antífona é gaudete (latim, “alegrar-se”). Como a primeira palavra dessa antífona de entrada é “Gaudete”, o terceiro domingo do Advento ficou conhecido tradicionalmente como domingo de Gaudete.
     Com apenas mais um domingo antes do Natal, nossos preparativos, espirituais e temporais, adquirem um senso de expectativa mais ansioso e urgente. As vestimentas rosa e uma vela rosa na coroa do Advento ajudam a aumentar essa ênfase. Não é surpreendente que os verbos "cantar" e "alegrar-se" sejam ouvidos continuamente na Sagrada Escritura neste domingo.
 
O Deus que dá alegria à minha juventude (Ad Deum qui laetificat juventutem meam)
     Ninguém se “alegra” como as crianças. Portanto, este seria um bom momento para voltar sua atenção para o maior presente de todo este Natal, Jesus.
     Se você tem filhos ou netos, sobrinhas ou sobrinhos, o Advento é o momento perfeito para trazer o foco de volta para o verdadeiro motivo da temporada.
     Ler uma história bem ilustrada do nascimento de Cristo em um lugar público pode ser uma verdadeira proclamação de sua fé. Acrescente a isso o canto dos hinos do Advento que usam os nomes de Jesus e Maria e você terá uma contra-revolução cultural fiel!
     Apenas algumas sugestões:
* Leve as crianças para decorar seu gramado e sua casa com foco no presépio.
* Certifique-se de dar o exemplo SEMPRE desejando aos outros um “Feliz Natal”. Vamos fazer de “Boas Festas” nada mais do que uma moda passageira.
* Use cartões de Natal adequados com o tema da Natividade
* Belas canções tradicionais de Natal para você aprender e cantar com a família e amigos:
* Contos de Natal centrados em Cristo para compartilhar com jovens e adultos:
 
Algumas reflexões finais
     São Paulo exortou os filipenses a se alegrarem porque “O Senhor está perto”. Essa mesma presença de Deus deve ser o nosso foco, porque isso nos ajudaria com as outras coisas que precisam ser mudadas em nossa vida pessoal e no mundo.
  O que nos traria alegria hoje? Fim do aborto? Certamente! Conversão em nossas casas e comunidades? Um novo espírito de devoção e solenidade na liturgia? Com certeza. Na verdade, a maior alegria da nossa época seria que Nossa Santíssima Mãe se tornasse verdadeiramente a Rainha de todos os corações, o cumprimento da promessa de Nossa Senhora de Fátima de que, “Finalmente, o Meu Imaculado Coração triunfará”.
     Vamos participar com alegria e confiança dessa promessa, especialmente neste domingo de Gaudete, sabendo que, assim como a promessa de Deus de um Salvador já foi cumprida há dois milênios, assim será o Reino de Maria!
 
Oração para acender a vela do terceiro advento
     Antes de acender a vela, reze: Ó Deus, regozijando, nos lembramos da promessa de seu Filho. Como a luz desta vela, Que a bênção de Cristo venha sobre nós, iluminando nosso caminho e nos guiando por sua verdade. Que Cristo, nosso Salvador, traga vida para as trevas de nosso mundo, e para nós enquanto esperamos por Sua vinda. Pedimos isso por Cristo nosso Senhor. Amém

Adicione a seguinte invocação:
TERCEIRA SEMANA:
Ó Chave de David, Jesus Cristo,
Os portões do céu se abrem ao seu comando,
Venha e deixe seu povo livre.

(continua)