sábado, 17 de outubro de 2020

Santa Gwen de Talgarth, princesa e religiosa

     Santa Gwen, Wenna, Genuissa, Branca ou Cândida, (as variantes citadas do seu nome são todas traduções literárias) se presume tenha nascido em 463 no seio de uma família nobre.
     Decidiu se tornar religiosa. Fundou uma igreja em Talgarth, no reino de seu pai, antes de unir-se aos seus irmãos, entre os quais São Nectan, na evangelização de Cerniw setentrional. Naquela região fundou uma igreja em uma comunidade perto de Bodmin, que tomou o seu nome, e próxima das capelas em São Kew e em Cheristow.
     Foi assassinada no dia 18 de outubro, de um ano desconhecido do século VI, por alguns saxões pagãos quando retornava de uma visita a Talgarth.
     Algumas fontes afirmam que ela era viúva, mas não citam o nome do marido.
     Santa Wenna é comemorada no dia de sua morte.
https://catholicsaints.info/saint-gwen-of-tagarth/
 
* * *
 
Santa Gwenn, rainha
 

     Santa Gwenn (Santa Branca em francês) ou Gwen, ou Guen, ou Gwendoline é apelidada em bretão Teir Bronn ("três seios") porque dela nasceu pelo menos três Santos. Ela é a esposa de São Fragan; eles viveram no século VI.
     Santa Gwen era uma rainha britânica nascida em 472. Era uma das três filhas de Cynyr Ceinfarfog, rei de Dyfed, que se estabelecera em Caer Goch nas vizinhanças de Mynyw; era irmã de Santa Non e tia de São David, patrono de Gales.
     Santa Gwen casou-se com Salom del Cerniw, recordado como o chefe supremo dos britânicos, que era o filho mais novo do rei Erbin da Dumnonia.
     Deste matrimônio não sabemos quantos filhos nasceram, com segurança temos os nomes dos Santos Guethenoc e Jacut eram gêmeos e São Cadfan.
     Sabe-se muito pouco a seu respeito. Se recorda somente que ela fundou a igreja de Morval, próximo de Duloe, em Cerniw na Cornualha e que morreu provavelmente no ano de 544.
     Não devemos confundir Santa Gwen rainha com a sua homônima e contemporânea Santa Gwen de Talgarth, ambas festejadas no mesmo dia, 18 de outubro.
História e tradição
     O casal e seus dois primeiros filhos nasceram no Gales, seu país de origem. O terceiro filho teria nascido logo após a família desembarcar na foz do rio Brahec, em Brieuc. Segundo a legenda, Deus lhe deu um terceiro seio para amamentar seus trigêmeos, daí seu apelido bretão "santez Gwenn Teir Bronn", literalmente "a santa com três seios". Segundo Joseph Chardonnet, esta é uma interpretação equivocada da expressão latina trimammis que significa "três vezes mãe" (epíteto composto por duas palavras bretãs, tipo "três" e mamm "mãe") porque a tradição relata que apenas Guethenoc e Jacut eram gêmeos.
     Gwenn é mãe de uma grande família sagrada. Além de seus três filhos santos já mencionados, ela também tem uma filha, Santa Clervie. 
     Santa Gwenn é protetora das crianças e é invocada por mães sem leite; é também a santa padroeira das babás.
 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Madre Jacinta de São José, Fundadora do 1º Convento Carmelita do Brasil

(continuação)

Aparição de Santo Tomás de Aquino

    
“Encontramos este fato na vida da serva de Deus, Madre Jacinta de São José, carmelita descalça, fundadora do Convento de Santa Teresa, no Rio de Janeiro e falecida em odor de santidade a 2 de outubro de 1768.
     No dia 5 de janeiro de 1745, aprouve ao Senhor revelar à sua fidelíssima Serva a Imaculada Conceição da Virgem Maria, não sendo naquela época declarada ainda Dogma de fé. Eram duas horas da madrugada, quando ouviu uma voz que a chamava sem ver ninguém. Imediatamente perdeu os sentidos e sua alma foi levada à augusta presença da Santíssima Trindade, onde conheceu distintamente as Três Divinas Pessoas e o Ser infinito de Deus. Foi-lhe em seguida mostrada a criação da Virgem Maria, formada por Deus com todo o primor, sem mancha alguma de Pecado Original e toda Pura e Imaculada na sua Conceição, porque havia de ser sua Santíssima Mãe segundo a natureza humana.
     Nesta visão tão clara, achava-se presente Santo Tomás de Aquino, de cuja presença teve ela certeza, e quando perdeu de vista a Nossa Senhora, ficou com o Santo, comunicando-se por conceitos. Então, lhe disse S. Tomás, que Deus a elevava a ver a criação da Senhora, para que testemunhasse o que vira e fosse aceito e recebido na Igreja Católica seu testemunho. Desejava e suspirava que a Igreja se resolvesse logo a declarar a Conceição Imaculada de Maria Santíssima e que para esse fim rogasse continuamente a Deus. Jacinta ofereceu-se prontamente; e o Santo tornou, que quando escrevesse sobre o que tinha visto da Conceição da Senhora (sabendo já como havia de explicar tal assunto) assistiria com especial cuidado sua alma”.
 
(Vida da Serva de Deus, Madre Jacinta, por Frei Nicolau de São José, C.D., pág. 77).
Fonte: Mensário “Mensageiro do Santo Rosário”, de Março de 1936; Redação e Administração no Convento dos Dominicanos – Uberaba/MG.
 
http://cumpetroetsubpetrosemper.blogspot.com/2017/06/uma-aparicao-de-santo-tomas-de-aquino.html?spref=pi
http://heroinasdacristandade.blogspot.com/2016/10/madre-jacinta-de-sao-jose-carmelita-2.html
 
 
Tesouro Carmelitano: fioretti no Brasil colonial
 
      Irmã Francisca de Jesus Maria, infelizmente pouco conhecida mesmo nos ambientes católicos do Brasil, é irmã da Madre Jacinta de São José, fundadora do Carmelo Descalço no Brasil.
      Nasceu Francisca no Rio de Janeiro, em 1719, sendo a última dos quatro filhos de José Rodrigues Ayres e Da. Maria Lemos Pereira, ambos pertencentes a famílias católicas e abastadas. O virtuoso casal proporcionou a seus filhos, dos quais três abraçaram o estado religioso, sólida formação.
      Francisca, reconhecendo desde logo o modo extraordinário pelo qual a Providência divina dirigia sua irmã Jacinta, deixou-se docilmente guiar por ela, apesar da diferença de apenas quatro anos na idade. Obedecia-a como sua superiora e, desde a infância, empregavam ambas o tempo que lhes sobrava, após as ocupações domésticas, em leitura espiritual, meditação, silêncio, mortificação e penitências rigorosíssimas.
Cilícios como presentes
      Um fato surpreendente para nossa época ocorreu nessa família: José Ayres, compreendendo que um desígnio especial pairava sobre suas filhas, não só não proibia, mas incentivava as santas inclinações de ambas, chegando a dar-lhes cilícios como presente de Natal, certo de agradá-las com este gesto, como também a Deus.
     Francisca ainda não atingira os 12 anos de idade quando Jacinta expôs-lhe as vantagens do estado religioso, resolvendo ambas, então, abandonar o mundo para se encerrar no claustro.
     Embora recebessem do pai todo apoio, encontraram por parte da mãe uma oposição peremptória. A morte repentina do pai submeteu-as por completo à vontade materna, sem contudo deixarem as duas irmãs de viver em casa como se estivessem num convento, ao mesmo tempo que cumpriam fielmente seus deveres filiais. As duas irmãs compraram uma chácara, em local deserto do Morro do Desterro, adaptando as toscas habitações nela existentes, onde as duas irmãs iniciaram a vida em comum.
O prêmio da obediência
     Um dia, Jacinta, na qualidade de superiora, dirigiu-se a Francisca e mandou-lhe plantar alguns pedregulhos, por estarem precisando de coentro, planta medicinal da família das umbelíferas.
     Francisca obedeceu incontinenti, regando todos os dias o que plantara, como se se tratasse de preciosas sementes. Deus Nosso Senhor abençoou aquele ato de obediência operando o milagre: daqueles pedregulhos nasceram magníficos coentros.
Obediência após a morte
     Em consequência do excessivo trabalho e das austeridades, Francisca foi atacada de congestão pulmonar. Durante os grandes sofrimentos da última doença, guardou sempre o mesmo semblante sereno e alegre. No dia 13 de julho de 1748, entregou a alma a Deus, aos 30 anos de idade.
     Quando Madre Jacinta a foi amortalhar com algumas outras jovens, que a elas se tinham associado na mesma vida de austeridade, era tal a flexibilidade do corpo de Francisca, que sua irmã não conseguia colocar nele as meias. Disse-lhe, então, Madre Jacinta: "Francisca, não estareis quieta com essas pernas?" Imediatamente o cadáver suspendeu-as, de maneira a facilitar o trabalho da irmã.
     Entretanto, a notícia da morte da serva de Deus e do estado de seu corpo percorreu a cidade. Inúmeras autoridades vieram presenciar o milagre. O corpo foi depositado provisoriamente num sepulcro, mas o povo, acorrendo em massa para ver a "bem-aventurada" - como a chamavam - abriu a sepultura e o caixão. Uns moviam-lhe os braços, outros lhe abriam os olhos, admirados e louvando a Deus.
     Dias depois, os Irmãos Terceiros Franciscanos, querendo para si aquele tesouro, apesar do desejo contrário da Madre Jacinta, que desejava ter o corpo junto a si - com insistência e quase com violência - começaram a transportar os santos despojos para sepultá-los em sua igreja. Jacinta, no entanto, ordenou ao cadáver: "Francisca, veste-te de corrupção!". Imediatamente desapareceram todos os vestígios gloriosos e o corpo se corrompeu. Os Irmãos Terceiros, admirados, retiraram-se. Apenas tinham eles se afastado, o corpo recuperou sua incorruptibilidade anterior, sendo em seguida revestido com o hábito do Carmo e sepultado na capela do convento, onde se encontra até hoje.
 
Fontes: Notícias históricas pelas religiosas do Convento de Sta. Teresa, Rio de Janeiro; Frei Nicolau de São José OCD, "Vida da Serva de Deus Madre Jacinta de São José", Est de Artes Graf C Mendes Jr., Rio de Janeiro, 1933.
 
https://heroinasdacristandade.blogspot.com/2012/07/tesouro-carmelitano-pouco-conhecido-do.html
 
A Capela do Menino Deus localizada na Rua Riachuelo, no bairro da Lapa, RJ.
 
     A sua história confunde-se com a da fundação do antigo Convento de Santa Teresa. Numa manhã de maio de 1742, Madre Jacinta de S. José e a sua irmã Francisca, passavam pelo Caminho da Bica (depois, Rua de Matacavalos; atualmente Rua Riachuelo), onde exploraram uma antiga chácara ali existente, a Chácara da Bica. Encontraram a antiga casa em ruínas e, por entre o arvoredo em abandono, uma fonte. Ao regressar à casa, pediram ao tio delas, Manuel Pereira Ramos, que adquirisse a propriedade, no que foram satisfeitas.
     As duas irmãs para lá se transferiram, fundando o Recolhimento do Menino Deus, primeiro convento de monjas carmelitas descalças na então Colônia, sob a direção de Madre Jacinta São José. Tendo dado início à construção da primitiva capela, a mesma foi consagrada e teve sua primeira missa celebrada em 1 de janeiro de 1744. Mais tarde, diante da ameaça de demolição quando da retificação do traçado daquela importante via urbana, as irmãs, à época, obtiveram a promessa e o empenho do então governador Gomes Freire de Andrade, 1º Conde de Bobadela (1685-1763), de que tal não aconteceria. De fato, pode verificar-se que no local a rua faz uma curva notável, quase em frente à capela.
     Aquele governante, afirma-se que impressionado pela reputação de virtude de Madre Jacinta, obteve junto ao então bispo do Rio de Janeiro, o terreno onde se encontrava a Ermida do Desterro, no Outeiro do Desterro (atual bairro de Santa Teresa), para onde se transferiram as instalações do convento, permanecendo no antigo local apenas a Capela do Menino Deus. Com o tempo, a capela foi abandonada, caindo em ruínas. Foram recolhidos, então, ao convento, a imagem do Menino Deus e as demais relíquias.
     Em 1925, a capela veio a ser reconstruída, após ter sido praticamente toda demolida a antiga capela pelo Conselho Superior da Sociedade de S. Vicente de Paulo, com autorização das freiras do Convento de Santa Teresa, sob condição de que fosse reconstruída. Foram, assim, devolvidas à capela as relíquias da época de Madre Jacinta (a imagem do Menino Deus, o cálice e os sinos), as quais foram transladadas em procissão no dia 6 de janeiro de 1925. De acordo com a tradição, o escritor Machado de Assis aqui passou num Natal para assistir à missa, tendo escrito, a seguir, o seu "Auto de Natal".
     Em finais do século XVIII, se colocaram, na portaria do Convento de Santa Teresa, uma série de belos azulejos brancos-azuis provenientes de Portugal, de autor desconhecido, além de três bons altares de talha em estilo (rococó), também de autoria ignorada. No convento, há um retrato da fundadora, Madre Jacinta, datado de 1769, de autoria do pintor colonial carioca José de Oliveira Rosa. No século XX, houve algumas obras que removeram certos elementos do interior, mas que não chegaram a descaracterizá-lo.
     No convento, estão enterrados Gomes Freire de Andrade, 1.º Conde de Bobadela (Gomes Freire de Andrade), impulsor do projeto e (José Fernandes Pinto Alpoim) (Alpoim), o arquiteto.
     Sobre o Convento, Mons. Pizarro, em sua obra Memórias Históricas do Rio de Janeiro (ed.1825), assim o descreve: "O local do convento é mui agradável por se desfrutarem dali as vistas do mar, desde a barra até o interior da enseada e da terra, pelo centro da cidade e suas circunvizinhanças. O edifício, fabricado com prospecto regular, e majestoso, contém acomodações mui suficientes, e dentro dos seus muros um terreno sofrível, que as próprias habitantes fazem cultivar para seu recreio".
     No Brasil Pitoresco (ed. 1859), Charles Ribeyrolles, achando encantador o sítio onde o construíram, escreve: "Castelo senhorial, que vale bem o castelo da Alma, ao qual se chega pelo caminho da perfeição".

Nota: O retrato acima de Madre Jacinta se encontra no Convento de Santa Teresa no Rio de Janeiro. Este quadro teria sido pintado um dia após a morte da religiosa (2/10.1768) e, segundo relato das religiosas, "não traduziria os traços mais característicos da grandeza da Fundadora, de grande coração, gênio alegre, muito alegre e igualmente grave, de ânimo sincero, cheia de piedade, muito prudente e de uma presença muito respeitável, também era formosa e muito graciosa  e tudo nela era natural e sem afetação".


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Madre Jacinta de São José, Fundadora do 1º Convento Carmelita do Brasil

   

     No começo do século XVII foi construída por Antônio Gomes do Desterro, no Morro do Desterro, atual Morro de Santa Teresa, uma ermida consagrada à Sagrada Família. Esta, sob invocação a Nossa Senhora do Desterro, era muito frequentada por romeiros e devotos e nela eram celebradas cerimônias do culto com regularidade. Assim formou-se o Caminho do Desterro, depois chamado Rua dos Barbonos e, a partir de 1870, Rua Evaristo da Veiga, na Lapa, centro do Rio de Janeiro.
    O primeiro Convento de Carmelitas Descalças surgiu do empenho pessoal de uma leiga, Jacinta Pereira Ayres, filha de importante família, que com o apoio do Bispo do Rio de Janeiro, Dom Frei João da Cruz, Carmelita Descalço, e do Governador da Província, Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela, o fundou em 1750, nas encostas do Morro do Desterro, nas imediações do atual Bairro da Lapa.
     Na América, o aparecimento e desenvolvimento do Carmelo Descalço feminino deu-se, em certa medida, de forma semelhante ao caso francês e belga. Sem poder contar com a iniciativa direta da Ordem, muitos que alimentavam o desejo de que se fundassem conventos carmelitas em suas terras, tiveram que constituí-los por conta própria, recebendo quando muito um apoio indireto por parte da Ordem.
     Madre Jacinta – como ficou conhecida por todos, apesar de nunca haver professado canonicamente – nasceu no Rio de Janeiro, a 15 de outubro de 1715, festa de Santa Teresa de Jesus, de pais profundamente cristãos. Crescendo nesse ambiente de profunda religiosidade, desde pequena foi favorecida de graças extraordinárias e tornou-se admirável por suas virtudes e pela vida perfeita que levava na casa paterna. Jacinta sentiu-se naturalmente inclinada a abraçar a vida religiosa. Revelou o seu desejo à sua irmã Francisca, e ambas resolveram entrar num Convento. Não havendo, porém, convento de religiosas naquele tempo no Rio de Janeiro, o padrasto - pois seu pai já havia morrido - requereu a licença de Sua Majestade D. João V, Rei de Portugal, que benignamente deferiu, a fim de que Jacinta e sua irmã Francisca fossem para Lisboa e aí escolhessem o Convento e a Ordem que mais lhes agradasse.
     É interessante a observação da historiadora Leila Mezan Algranti: "Numa colônia de população tão rala, não havia espaço para a vida contemplativa feminina. Embora a presença de religiosos homens tenha marcado a colonização desde o início, o estabelecimento de congregações de mulheres é bem posterior. Mesmo quando a colonização já ia avançada, nos séculos XVII e XVIII, a Coroa procurou manter-se fiel à política de incentivo ao casamento, proibindo, sempre que possível, o surgimento de mosteiros para mulheres, principalmente nas zonas menos povoadas e pouco desenvolvidas”.
     Faltando, contudo, pouco tempo para seu embarque a Lisboa, um acidente impediu Jacinta de deixar o Rio de Janeiro. Presa à cama com o quadril fraturado, sem poder andar ou ficar de pé, Jacinta se viu obrigada então a abandonar seu projeto.
     Mais tarde, já se convalescendo da fratura, Jacinta "um dia, ao descer a ladeira do Desterro, depois de assistir à Missa que ali era celebrada, teve a feliz inspiração de escolher naqueles arredores um lugar solitário para aí, com sua irmã e outras piedosas donzelas que a quisessem acompanhar, viver debaixo de uma Regra".
     Encontrando uma chácara abandonada, conhecida como chácara da Bica, Jacinta, com o apoio de um tio, conseguiu adquiri-la por preço moderado e, no dia 27 de março de 1742, acompanhada por seu irmão por parte de pai, que era sacerdote, e uma criada, deixou a casa paterna e, "depois de se ter confessado e comungado, ouvido Missa na ermida do Desterro, foi encerrar-se naquela chácara isolada, com a firme intenção de nunca mais sair dali". No dia seguinte, Francisca juntava-se a Jacinta. As duas, com a ajuda do irmão José, improvisaram então, em meio às ruínas da chácara, um insólito convento, estabelecendo inclusive clausura. Construíram uma capelinha em honra ao Menino Deus, que ainda hoje existe na Rua Riachuelo, restaurada pela Sociedade de São Vicente de Paula.
     Logo a notícia do aparecimento da nova casa se difundiu por toda a cidade, causando ótima impressão na opinião pública, e no poder civil e eclesiástico da Colônia. Assim, a partir de 1748, outras jovens foram se agregando a elas e, desde então, Madre Jacinta passou a contar com o apoio e a admiração do governador, o Conde de Bobadela, Gomes Freire de Andrade, e do Bispo, Dom Frei João da Cruz. Aconselhada pelo confessor do bispo, Frei Manoel de Jesus, também Carmelita Descalço, Madre Jacinta resolveu adotar, para regular a vida de sua nascente comunidade, as Constituições da reforma teresiana, ainda que oficialmente as donzelas da Chácara da Bica continuassem a ser leigas.
     Desejosa de transformar o recolhimento em Convento Carmelita Descalço, Jacinta pediu a autorização e o apoio do bispo D. Frei João da Cruz que, entusiasmado com a ideia, iniciou os procedimentos para obter as licenças que deveriam ser dadas por Roma e pela Coroa portuguesa. Entrementes, permitiu que se recebesse oficialmente postulantes em seu recolhimento, autorizando que vestissem o hábito carmelitano depois de cumprido o tempo regular da profissão religiosa. Ao mesmo tempo, Madre Jacinta, providenciava com o Governador o projeto do edifício que abrigaria a primeira comunidade carmelitana do Brasil, cuja pedra seria assentada pelo Bispo, às 15:00 h do dia 24 de junho de 1750, "debaixo da invocação e título de Nossa Senhora do Desterro, para religiosas que hão de professar a regra de Santa Teresa", por Provisão do Bispo, de 15 de junho do mesmo ano.
     O Governador, Gomes Freire de Andrade, atraído pela fama das virtudes de Madre Jacinta e suas filhas, foi visitá-las com o Bispo D. Antônio do Desterro e adquiriu-lhes tão grande estima, que tendo alcançado do Bispo a doação da antiga ermida do Desterro (não se pode precisar o ano de sua fundação; sabe-se que sua construção data de 1629, no dia 15 de agosto.), que há mais de um século se elevava no outeiro do mesmo nome (o atual Morro de Santa Teresa), um pouco acima da Chácara, onde muitas vezes ela tinha ido rezar, edificou ao lado o Convento de Santa Teresa, à sua custa, segundo o projeto do Brigadeiro José Fernandes Alpoim (1700-1765) – um dos principais nomes da arquitetura do século XVIII no Brasil colonial, como o Aqueduto da Carioca e o claustro do Mosteiro de São Bento, todos no Rio de Janeiro – indo muitas vezes inspecionar o andamento da construção.
     Antes, porém, que pudesse encaminhar os pedidos de oficialização do Convento, D. João da Cruz viu-se obrigado a deixar a Diocese, passando o governo a D. Frei Antônio do Desterro, franciscano, que orientado por Madre Jacinta e pelo Conde de Bobadela, deu prosseguimento às gestões de seu antecessor.
     O D. Frei Antônio do Desterro, embora vendo com bons olhos a devoção das religiosas e o estabelecimento de mais um convento em sua diocese, não aprovava o exagero místico de Jacinta de São José e as regras demasiado severas de Santa Teresa, sendo estas ordenadas a professar, no novo convento, as regras de Santa Clara.
     Quando chegou o Breve Pontifício, em janeiro de 1751, Madre Jacinta e suas companheiras não o aceitaram, recusando-se a professarem numa Regra que não condizia com as suas reivindicações. Sentindo-se traídas, pediram a intervenção do Conde de Bobadela para que convencesse o Bispo a mudar de ideia e lhes permitissem professar na Regra que haviam escolhido. Como ele se mantinha inflexível, Madre Jacinta decidiu resolver pessoalmente a questão, indo a Lisboa em busca de um novo breve e da licença real.
     "Uma teia de intrigas desencadeou-se a partir da viagem de Madre Jacinta..." Mas depois de examinar os documentos referentes ao caso e investigar pessoalmente a Madre, o Padre Col manifestou-se favorável ao seu pedido, julgando-a capaz e bem intencionada. Entretanto, buscando testar a humildade e obediência da brasileira, sugeriu ao monarca, em seu parecer, “que lhe fosse vedada a condição de Fundadora e Priora e que, para o estabelecimento do convento, fossem enviadas de Portugal carmelitas experientes”.
     Assim instruído e tendo entrevistado pessoalmente Madre Jacinta, o rei, D. José I, não apenas expediu o alvará favorável, como ainda providenciou para que seu representante em Roma, Antônio Freire de Andrade Encerrabodes, obtivesse a fundação de um convento segundo a Regra e as Constituições da Reforma Carmelitana de Santa Teresa. Este foi expedido no dia 22 de dezembro de 1755.
     Munida das devidas licenças, Madre Jacinta retornou ao Brasil, aportando no Rio de Janeiro a 17 de abril de 1756.
     Apesar das autorizações, o Bispo D. Antônio não quis professar canonicamente Madre Jacinta e suas filhas, indo de encontro às disposições oficiais de Roma e Portugal. Porém, em vista desta divergência irreconciliável, o Conde de Bobadela achou prudente não insistir mais, esperando que com o tempo, havia afinal de desaparecer todos os embaraços. Madre Jacinta, que podia apelar à Corte e à Sé apostólica, resolveu aceitar o conselho do conde e não insistiu mais no assunto.

    
Em 1757, concluídas as obras do edifício do convento, Madre Jacinta e suas filhas ali se recolheram definitivamente, “vivendo em observância religiosa, seguindo em tudo a Regra e Constituições da reforma carmelitana...” Em 1767, o Recolhimento de Santa Teresa contava já com 21 mulheres, número máximo definido pelas Constituições.
      Madre Jacinta, findou seus dias na prática constante das virtudes e no dia 2 de outubro de 1768 morre, aos 52 anos de idade, sem ter podido receber a profissão canônica. Seus restos mortais são conservados no Convento de Santa Teresa, assim como os do fundador, Gomes Freire de Andrade, falecido em 1º de janeiro de 1763.
     As filhas de Madre Jacinta continuaram recolhidas em seu Convento, imitando os exemplos de sua admirável Fundadora, até que após a morte de D. Frei Antônio do Desterro, ocorrida em 1773, o seu sucessor, D. Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco, em 1780, reconheceu oficialmente a clausura e vestiu canonicamente as recolhidas com o hábito carmelitano. Em seguida, no dia 23 de janeiro de 1781, finalmente, as filhas de Madre Jacinta professaram os votos religiosos solenes.
     Quantos anos de perseverança! Vinte e cinco anos desde a expedição do Breve Pontifício! O Convento de Santa Teresa teve a alegria de celebrar os seus 250 anos de Fundação, no ano Jubilar 2000 do nascimento de Jesus Cristo (1750 - 2000).
 
(continua)


(Vida da Serva de Deus, Madre Jacinta, por Frei Nicolau de São José, C.D., pág. 77). Fonte: Mensário “Mensageiro do Santo Rosário”, de Março de 1936; Redação e Administração no Convento dos Dominicanos – Uberaba/MG.

sábado, 10 de outubro de 2020

Beata Maria Catarina, Virgem, Serva de Maria - 10 de outubro

     
     Maria Catarina Irigoyen Echegaray nasceu em pleno século XIX, em 25 de novembro de 1848, em Pamplona, no coração da Navarra; era a última de oito irmãos e gêmea do sétimo. Em 26 de novembro, festa dos Esponsais da Virgem, foi batizada na Igreja Catedral de Pamplona e em 26 de novembro de 1860 Maria Catarina recebeu a Primeira Comunhão.
     A sua família, aparentada com aquela de São Francisco Xavier, era fervorosa e observante, e contribuiu de maneira decisiva na maturação da sua fé.
     Ela foi educada no Instituto das Irmãs Dominicanas, distinguindo-se por sua particular devoção filial a Nossa Senhora. Eleita presidente da Congregação das Filhas de Maria, nos momentos livres visitava o hospital da cidade para assistir aos anciãos e as pessoas abandonadas, enquanto com algumas companheiras mantinha em sua casa uma oficina para a confecção de roupas para os necessitados.
     Na idade de 30 anos começou a colaborar com as religiosas Servas de Maria, que estavam abrindo uma casa em Pamplona, cuja principal obra apostólica era o tratamento gratuito dos doentes, um serviço diurno e noturno feito nos domicílios, nas clínicas, nos hospitais, dispensários e ambulatórios (*)
     Com o passar do tempo o relacionamento entre Maria Catarina e a Congregação se intensifica e se consolida, enquanto nela se delineia os contornos da chamada à vida religiosa naquele Instituto. Assim sendo, solicitou à fundadora, Santa Maria Soledade Torres Acosta, ser admitida na Congregação.
     Tendo entrado como Postulante em Pamplona em 31 de dezembro de 1881, foi transferida para Madri para o noviciado. Emitiu sua Profissão Temporária em 14 de maio de 1883 e a Profissão Perpétua em 15 de julho de 1889. Permaneceria até sua morte na capital da Espanha.
     Se entrega com dedicação ao serviço domiciliar dos doentes, operando com caridade, paciência, determinação. Naquele período uma pandemia de cólera, influenza e varíola fazia vítimas nas casas, provocando o abandono dos doentes por parte dos familiares pelo medo do contágio.
     Desprezando o perigo, a religiosa os assiste incansavelmente. E a fama de suas extraordinárias capacidades, alimentadas pelo inexaurível espírito de caridade, se difunde rapidamente por toda Madri, a ponto de em algumas casas se colocarem cartazes com a frase: “Se eu adoecer, que eu seja tratado pela Irmã Maria Catarina”.
     Após 23 anos de serviços junto aos enfermos, devido a uma grave forma de surdez teve que renunciar à sua amada atividade; assumiu então o encargo de recolher as ofertas que os benfeitores destinavam ao sustento da Congregação.
     Seus sofrimentos, entretanto, não terminaram. Em 1913, foi diagnosticada com uma tuberculose óssea que lhe causavam dores tremendas. A doença bloqueia o físico, mas não o coração e o espírito: a sua vida se torna uma oração contínua por todas as intenções que lhe são confiadas por tantos que a consideravam “fonte de força e porta para chegar até Deus”.
     Irmã Maria Catarina visitou mais de 400 casas de doentes, sem contar as visitas que realizou no tempo da epidemia de cólera. As famílias admiravam sua dedicação e entrega, especialmente nas epidemias de cólera, gripe e varíola. Havia ocasiões em que Irmã Maria Catarina encontrava os doentes abandonados por seus familiares para evitar contrair alguma daquelas enfermidades.
     Madre Alfonsa relatou que “Irmã Maria Catarina resistia sem medo do contágio, atendendo incansavelmente aos infectados, dedicando seu tempo, sua vida e até o sustento que lhe chegava de Chamberi. Dizem que essa dedicação e sua maneira hábil de cuidar dos enfermos eram tão conhecidas, que nas fachadas de algumas casas se podia ler o letreiro: ‘se adoeço, que Irmã Maria Catarina cuide de mim’”.
   “Com tanta solicitude e bondade”, se lê entre os testemunhos do seu processo de glorificação, “acorria aos pedidos e às necessidades dos doentes, que muitos deles a consideravam como uma mãe amorosa e muitas famílias a solicitavam como enfermeira ideal”.
     Irmã Maria Catarina faleceu no dia 10 de outubro de 1910, na casa-mãe da Congregação, no quarteirão madrileno de Chamberi, onde hoje repousam os seus despojos.
     O milagre que possibilitou sua beatificação aconteceu em La Paz, na Bolívia: graças à sua intercessão, um cirurgião acometido de uma doença cerebral se recuperou e retornou ao trabalho.
     Irmã Maria Catarina foi beatificada em 29 de outubro de 2011.
 
(*) O Instituto conta hoje com 1.600 religiosas distribuídas em 115 comunidades, e está presente em 22 países da Europa, América, África e Ásia.
 

Fonte: www.vaticaninsider.it
http://www.santiebeati.it/dettaglio/95461
 
Postado neste blog em 8 de outubro de 2013

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Santa Keyne de Gales, Virgem e Eremita – 8 de outubro

     
  Pensamos em santos como personagens etéreos que fizeram coisas inacreditáveis em terras distantes e em tempos desconhecidos. E vamos concordar que alguns deles fazem jus a essa reputação. Mas não devemos nos esquecer que eles também eram pessoas reais.
     Numerosas menções a Santa Keyne existem em áreas tão diversas como Gales do Sul, Anglesey, Somerset, Hertfordshire e Cornualha. A única fonte literária sobre a vida de Santa Keyne é a Vita Sanctae Keynae, que foi editada por João de Tynemouth e incluída em seu Angliae Walliae Scotiae et Hiberniae no século XIV. Infelizmente, esta referência provavelmente não é confiável, pois foi registrada quase 800 anos após sua morte. Nenhuma outra fonte contemporânea sobre ela ou sua vida sobreviveu.
     Keyne foi uma das 12 filhas do rei galês Brychan de Brycheinioq, região que é hoje Gales do Sul, e de sua esposa, Gwlady. E além de ser real esta não foi uma família comum do século V. Brychan teve impressionantes 24 filhos com 3 esposas diferentes. De Situ Brecheniauc, diz que ele realmente teve 24 filhos, vários santos.
     Embora fosse de grande beleza e recebesse muitas ofertas de casamento, Keyne fez um voto de virgindade e seguiu uma vida religiosa (daí seu nome galês, Cain Wyry, ou Keyne the Maiden). Sua vita relata que ela viajou muito, e fundou vários oratórios, incluindo Llangeinor, Glamorgan, Llangunnor e Llangain em Dyfed, e Rockfield (Llangennon) em Runston, Gwent.
     Também é dito que ela teria atravessado o Severn em Cornualha, onde ela residiu com uns eremitas por muitos anos. A vila de Santa Keyne, na Cornualha, tem seu nome e é o local de uma igreja e de um poço sagrado que também leva seu nome.
     Por volta de 490, ela visitou seu sobrinho São Cadoc no Monte São Miguel; São Cadoc a convenceu a voltar ao País de Gales, e um poço sagrado marcou o local onde ela se estabeleceu e acabou morrendo. Ela morreu virgem em 8 de outubro em 490 ou 505.
     A festa de Santa Keyne é celebrada em 8 de outubro, embora também seja registrada em 30 de setembro. Ela é a santa padroeira original do que é agora St Martin-by-Looe (Penndrumm) e está ligada com o Rio Kenwyn em Truro. No entanto, seu legado mais duradouro e romantizado está ligado ao poço sagrado que leva seu nome, localizado na Cornualha.
     Algumas fontes dizem ser ela a santa padroeira de Keynsham em Somerset, onde, diz-se, ela residiu às margens do Avon, região que estava repleta de serpentes e inabitável. Depois que Santa Keyne fez uma oração fervorosa, as serpentes foram transformadas em pedra, e a área tornou-se habitável. (Hoje, estes são considerados os restos fossilizados dos amonitas).
     G. H. Doble achou difícil aceitar que uma mulher pudesse ter viajado tão longe ou fundado tantos oratórios, e, portanto, "pode muito bem ter sido um homem". Ele acreditava que as viagens eram realizadas por santos homens naquele período, um sentimento que foi compartilhado pelo estudioso Alban Butler, que acreditava que um número de santas tinha realmente sido homens. Esta visão tem sido contestada por estudiosos como Jane Cartwright, que afirma que isso é um indicativo de uma escola de pensamento em que santos homens são muito mais propensos a serem figuras históricas reais do que as santas, e que a masculinidade por si só é maior evidência de historicidade do que a feminilidade.
     Santa Keyne era uma mulher com uma missão. Ela queria ver um pouco do mundo e espalhar o Cristianismo pelo caminho. Santa Keyne teve uma família muito santa, nada menos que 14 de seus irmãos foram canonizados. Muitos deles também têm conexões com Cornualha – Morwenna, Clether, Nectan, Ive, Maybn para citar apenas alguns.
O Poço de Santa Keyne

     Depois de uma longa vida espalhando a palavra do Senhor, Santa Keyne decidiu se estabelecer na Cornualha e fez sua morada em um vale não muito longe de Looe. Neste vale havia uma linda fonte de água corrente fresca e ela amava tanto o local que plantou árvores lá para adicionar um pouco de sombra – um carvalho, um freixo, um junco e um olmo. Em seu leito de morte, ela pediu para ser deitada ao lado da fonte para que ela pudesse ouvir o seu balbucio reconfortante.
     Foi esta fonte que Santa Keyne abençoou com seu último suspiro e lhe concedeu um poder especial que todas as mulheres do condado logo ouviram falar. Pela primeira vez um poço não deveria curar raquitismo, infertilidade ou lumbago! Este poço foi feito para dar direitos iguais aos esposos! Tradicionalmente o marido ou a esposa que primeiro beber das águas do poço "obtém o domínio".
     Um poema fala de um noivo que deixou sua noiva na entrada da igreja para ser o primeiro no poço. A esposa o enganou levando uma garrafa de água para a igreja e a bebendo enquanto ele estava a caminho. Há também uma balada chamada The Well of St Keyne escrita por Robert Southey definida como uma adaptação da Helston Furry Dance.     
     O poço sagrado de Santa Keyne está localizado a cerca de 0,8 km a sudeste da Igreja de Sta. Keyne, na Cornualha, e agora está protegido por uma pequena casa feita de granito. A habitação original foi construída no século XVI, foi reconstruída em 1936 depois que a pista adjacente foi ampliada. A placa ao lado do poço descreve o encanto que a legenda diz que Santa Keyne lançou sobre a água do poço.
     Antes de sua morte, Santa Keyne disse a São Cadoc que o lugar cairia nas mãos de uma raça pecaminosa, de quem ela arrancaria e levaria a outros homens, que encontrariam seu túmulo esquecido, e neste lugar o nome do Senhor seria abençoado para sempre.                                                                
Igreja de Santa Keyne

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Madre Francisca de Jesus, fundadora da Companhia da Virgem

 
   Era outubro de 1910
; Francisca voltava com sua mãe de uma viagem ao Brasil, que nunca mais tornaria a ver. Ela não era mais do que um ponto perdido na imensidade do Oceano, mas um ponto que era toda a predileção da Providência. Em pleno mar, Francisca foi convidada por Deus para uma oração mais profunda e começou pouco a pouco a ver claro sua Vocação. Luzes extraordinárias começaram a instrui-la sobre o Sacerdócio, a Hierarquia Eclesiástica, o valor do Santo Sacrifício da Missa. Ela compreendeu que deveria ir a Roma, falar com o Santo Padre sobre a fundação de uma Ordem religiosa que fosse destinada à oração e à imolação pelas intenções do Papa, pela Hierarquia e pelas vocações sacerdotais. Durante o resto da viagem este ideal se foi precisando, completando, esclarecendo, por obra dAquele mesmo que o havia inspirado.
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     Lembremo-nos hoje de outra grande mística brasileira, também ela desconhecida no país em que nasceu. Entretanto, quão bela era sua alma! Procuremos conhece-la e a sua obra que atualmente vive em nossa nação.
     Francisca Carvalho do Rio Negro era a nona filha dos barões do Rio Negro. Nasceu em Petrópolis a 27 de março de 1877, e passou sua primeira infância no Brasil. Sua família passou a residir em Paris quando ela era muito jovem e poucas vezes voltou a sua terra natal. Entretanto, a obra que realizou no exterior haveria de se transportar para o Brasil quando este país mais necessitava de orações e exemplos de dedicação à Santa Igreja.
     Todavia, toda sua existência é uma constante luta para realizar os desígnios de Deus e estes a deixaram perplexa por muito tempo. Adolescente, por um impulso espontâneo fruto da graça, Francisca fez um voto de virgindade perpétua diante de uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes. Tempos depois, diante de uma proposta de casamento muito do agrado de seus pais, tem uma atitude de firme recusa. De uma beleza pura, tranquila e firme, pretendentes não faltavam.
     Por 14 anos teve que resistir às pressões de sua família que a queria casada. A este sofrimento era acrescida a incompreensão de seu confessor que considerava nulo o voto feito por ela na adolescência!
    Aos 30 anos, finalmente inteiramente desobrigada por sua família e por seu diretor, estava pronta para atender ao primeiro apelo dAquele a quem ela se consagrara de corpo e alma! Seu diretor obrigou-a a fazer várias experiências, mas todas resultaram infrutíferas, sem que se descobrisse o gênero de vida que Deus queria dela. “Eu queria fazer a vontade divina, custasse o que custasse, era impossível descobri-la!” - havia de escrever mais tarde, nas notas sobre este período de sua vida.
     Após as graças da viagem, sua mãe e seu diretor, quando lhes expôs seus desígnios, mostraram-lhe toda a dificuldade de semelhante pretensão. Mas, desta vez, não quiseram opor-se a nada. Pelo contrário, seu diretor escreveu uma carta de apresentação ao Cardeal Vives y Tuto, que lhe poderia conseguir a almejada audiência com o Santo Padre.
     Em 13 de dezembro de 1910 foi recebida por São Pio X. O grande pontífice, que ilustrou a Igreja pela santidade de sua vida, não tardou em perceber a origem sobrenatural dos ideais de Francisca. Concedeu-lhe várias entrevistas, e acabou por induzi-la a fazer um ensaio de fundação, à qual deu, desde logo, ao Cardeal Pompilli como protetor. Madre Francisca colocou os fundamentos na divisa: “Christo et Ecclesiae”
     Duas jovens também se deixaram seduzir pelo elevado objetivo da imolação pelos interesses da Igreja. Estando prestes a se desencadear a 1ª guerra mundial, Nosso Senhor estabelecia uma conspiração mística de três pobres e frágeis mulheres, escondidas e humildes.
     Em 12 de junho de 1921, o Cardeal Pompilli consagrou a casa que recebeu o nome de ‘Priorado da Virgem’. Nesta ocasião, a baronesa do Rio Negro voltou definitivamente para o Brasil. Se ainda algum laço prendia Francisca a este mundo, certamente era sua mãe. Este último desapegar-se foi-lhe dolorosíssimo. Daí por diante ela estava sozinha em terra estranha, mas também daí por diante a sua vida era Cristo.
     Depois da fundação, a sua vida tornou-se extraordinária, ainda mesmo quando resolvia as questiúnculas engendradas pelos equívocos, pelos mal-entendidos, pelas contradições, com que todas as fundações têm de se defrontar. Ao mesmo passo, voltaram-lhe, com redobrada violência, as penas interiores e sua saúde comprometeu-se ao contrair a terrível moléstia de Basedow. Devido essa doença sofreu séria operação em 1922 e no ano seguinte diante da perspectiva de uma nova operação recebeu uma graça de cura milagrosa por intercessão de São Pio X. Outra intervenção milagrosa se deu graças a intercessão de Santa Teresinha do Menino Jesus, que lhe apareceu.
     Todas essas provações não impediam a fundadora de organizar cuidadosamente a vida interna de seu convento de contemplativas. Mas ela estava arrasada. Certa vez, em 28 de outubro de 1922, pensou sucumbir aos sofrimentos internos e externos que a submergiam. Num último alento, ainda encontrou forças para fazer este supremo oferecimento: “Entretanto, eu quero sofrer convosco, meu Senhor Jesus”. Neste momento, ela viu ao seu Senhor Jesus, a Cruz às costas, seguido por uma turba ululante que lhe disse: “Quem sofreu tanto como Eu? Siga-me, preciso de ti. Recusarás vir?”
     Não, não havia de ser a Madre Francisca de Jesus quem recusaria segui-Lo. Imediatamente Lhe pede perdão, e suplica-Lhe queira infundir um verdadeiro amor. Como lembrança desta graça extraordinária, a Santa Face de Jesus imprimiu-se na parede da cela, como outrora no lenço da Verônica.
     Em fins de 1928, diversas postulantes, em que ela depositava as maiores esperanças, abandonaram o Priorado. Aquele abandono de suas filhas mais queridas atingiu-lhe o fundo da alma, portanto, e despedaçou seu coração afetuoso. Uma voz interior se fez ouvir para a consolar: “Serás sacudida, tu e a tua barca, mas nem tu, nem a tua barca naufragarão”. 
     
Datam da última fase de sua vida os mais belos e inspirados escritos de Madre Francisca, pois que as suas trevas eram iluminadas momentaneamente por luzes vivíssimas, que a mergulhavam num mar de felicidade. Estes escritos são um alimento espiritual de primeira ordem, e aproximam, singularmente, sua autora dos grandes contemplativos que a Igreja produziu.
     Madre Francisca de Jesus entregou a alma ao Criador em 28 de maio de 1932. Dois anos antes ela escrevera a suas filhas: “É preciso amar Nosso Senhor generosamente, até a destruição de si mesmo, o que é absolutamente necessário, se se quer amá-Lo verdadeiramente”.
     Depois de sua morte, grandes prodígios em curas e conversões se realizaram, mediante sua intercessão. Mas maior prodígio foi certamente o fato da Companhia da Virgem vir a perder a casa da Via Tuscolana, 367, e com isso a Companhia mudou-se para o Brasil, para Petrópolis, vindo rezar pelas vocações neste país de clero escasso, berço de sua fundadora.
     A esposa do Embaixador Luiz Guimarães, então representante do Brasil junto à Santa Sé, tomou a iniciativa de promover a instalação da Companhia da Virgem no Brasil. A transferência se fez, conforme documento oficial assinado pelo Visitador Apostólico, Pe. Lázaro d’Arbonne, com data de 20 de setembro de 1937.
     A Congregação se compunha, então, de 12 membros. Saindo de Gênova a sete de outubro, aportam no Rio a 19 do mesmo mês, no ano de 1937. Instalou-se em Petrópolis, tendo como Bispo Dom José Pereira Alves.
     No dia oito de dezembro de 1969 as Irmãs da Companhia da Virgem fizeram a Profissão Monástica segundo a Regra de S. Bento e recebem a Consagração das Virgens. Em 1980, o mosteiro foi elevado a Abadia,
*
     Transcrevemos abaixo um texto publicado por Pe. Reginaldo Garrigou-Lagrange, O.P., extraído das anotações da Fundadora:
[...]
     “Minhas queridas filhas, não vos orgulheis nem vos glorieis jamais de vossa virgindade. Temei antes diminuir o brilho dessa angélica virtude que alegra o coração de Deus.
     “Guardamos tesouro mui precioso em vaso de extrema fragilidade.
     “Dai graças a Deus por esse tesouro e acautelai-vos com mil precauções:  sede atentas, prudentes, vigilantes.  Jesus, no entanto, vos deseja atentas sem constrangimento, prudentes sem dureza, vigilantes sem escrúpulos. Encha o vosso coração sincera caridade, e sede por amor fiéis à santa observância; dilate esse amor a vossa alma e uma casta liberdade vos regule os atos. Caminhai com grande amor na presença do Bem-Amado que será vosso Juiz.
     “Suplicai-Lhe guarde Ele próprio o precioso tesouro que vos confiou, e sua doce Mãe, que é vossa Mãe a tantos títulos o guardará também.
     “Conheço as vossas almas e corações; pertencem plenamente a Deus, a seu Cristo, à sua Igreja. É ainda graça muito superior aos vossos méritos; bendizei a Deus muitas vezes, repetindo-Lhe – pura verdade! – que sem Ele nada podeis. A ação de graças será nova graça: de nós, minhas queridas filhas, só temos o pecado...
     “Como poderíamos então – sem estarmos loucas – ter sequer a tentação de nos gloriar dessa preciosa graça da virgindade! Estejamos bem certas de que só a possuímos por mera liberalidade de Deus, cuja misericórdia para conosco é infinita.  Esforcemo-nos por ser dignas, ou antes, o menos indignas possível, de tanto amor e predileção.  Se fordes fiéis, Ele usará para convosco de prodigalidade real, divina. Tão poucos Lhe são verdadeiramente fiéis!
     “O Senhor gostaria que a virgindade fosse virtude comum a todos os homens”, diz São João Crisóstomo, e esse desejo nos é atestado nestas palavras do Apóstolo ou antes de Cristo, que por sua boca fala: “Quisera, diz ele, que todos os homens fossem castos e puros assim como sou”. Deus, porém, é indulgente para conosco; sabe que se o espírito é pronto, a carne é fraca. Não testemunhou esse desejo sob a forma imperiosa do preceito, deixando-nos a liberdade de realizá-lo ou de a ele nos subtrair.
     “Há, no entanto, convites instantes da parte de nosso Deus e esses convites Ele não os dirige do mesmo modo a toda a humanidade...
     “Para com as almas que chama à Sua intimidade, mostra-se insistente, suplicante, e lhes revela com tão grande luz o radioso esplendor da virgindade, que imediatamente elas se apaixonam pela bela virtude, preferindo mil mortes a dela serem privadas.
     “Conheceis todas o apelo do Mestre; vós o sentistes mendigando o vosso amor... e como Tiago e João tudo deixastes para segui-Lo.  Teríeis julgado dar-Lhe alguma coisa? Não, também neste caso vós é que recebestes.
     “Bem pequenina é a nossa parte:  não fechar a porta ao seu Amor: eis tudo.
Sei que a Deus abris completamente a entrada de vosso espírito, de vosso coração, minhas queridas filhas, e quanto o bendigo!
     “Sede generosas! Jamais recueis, o que não seria digno d’Aquele que vos escolheu”.
“Só Deus, hóspede dos corações puros e amigo das almas sem mancha, vos pode elevar pela santa virgindade até à semelhança dos Anjos.
     “No que vos toca, nada Lhe deveis recusar; Ele fará o resto. Há de guardar-vos e abençoar-vos, a fim de que, permanecendo sempre virgens sob as vestes de Santa Maria, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, vos apliqueis de contínuo a fazer o que é digno de recompensa.
     “Tomai vossas medidas, minhas queridas filhas, para que no grande dia do Juízo tenhais na mão a lâmpada cintilante...
     “Deus não vos faltará e se lhe fordes fiéis sereis daquelas que em companhia de Santa Inez seguirão por toda parte o Cordeiro”.
 
A Abadia em Petrópolis

(“Madre Francisca de Jesus”, de Reginaldo Garrigou-Lagrange, Tip. Beneditina Santa Maria, págs. 127/135)

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Irmã Maria Antônia (Cecy Cony) e o Anjo da Guarda

    
     Esta religiosa e mística brasileira, Irmã Maria Antônia, é pouco conhecida. Entretanto, o venerável Servo de Deus padre jesuíta João Batista Reus, também ele misticamente agraciado, falecido em odor de santidade em 1947, confirmou a vida mística e santa da Irmã Maria Antônia. Assim a descreve na apresentação do livro Devo Narrar Minha Vida:
     Obrigada pela obediência, escreveu ela as reminiscências da sua vida, sem reflexão, com certa repugnância e pedindo auxílios especiais a Nosso Senhor. Mal terminava algum dos seis cadernos de que se compõe o manuscrito, entregava-o logo às Superioras e não perguntava mais por ele. Morreu antes de concluir a sua autobiografia, que só abrange seus primeiros 21 anos de vida, e pôde apresentar-se na presença do Senhor com a beleza deslumbrante da inocência batismal.
     Cecy era inteligente e de formação esmerada. Os atestados do colégio davam-lhe quase sempre o 1º ou o 2º lugar. No magistério foi professora habilíssima, como atestam suas superioras. Humilde, extremamente sincera e inocente, nunca na sua vida proferiu uma mentira nem ofendeu a Nosso Senhor “por querer”. Esta declaração dá-nos a chave para julgarmos com justiça de certas fragilidades exteriores que lhe notaram algumas pessoas. Era incapaz de inventar fatos místicos. Nem por leitura nem por qualquer outro meio ordinário pôde conhecer os fenômenos dessa natureza que descreve com tanta nitidez.
     Ao saber, quase no fim de seus dias, que havia almas que nunca experimentavam a presença sensível de Nosso Senhor por ocasião da Sagrada Comunhão, perguntou assustada: “Nem na primeira Santa Comunhão?” A resposta negativa fê-la chorar amargamente. E exclamou: “Estas almas, nesta vida, nunca chegaram a conhecer Nosso Senhor”.
São Leopoldo, Colégio Cristo Rei, 8 de dezembro de 1946.
Pe. J. Batista Reus, S.J.

     Neste dia em que a Santa Igreja comemora os Santos Anjos da Guarda, queremos enfatizar o íntimo e contínuo convívio desta bela alma com seu Anjo da Guarda.
     Profundamente religiosa desde tenra infância, como ela mesma relata, “desde esse dia de fevereiro ou março de 1905, o “Novo Amigo” acompanhou-me sempre, sempre, por toda a parte, e comigo fazia guarda a Papai do Céu, ao pé da grande cômoda. ... aos 6 anos soube que Ele era o Santo Anjo da Guarda. Compreendia-o perfeitamente; falava-me, mas eu jamais ouvia sua santa voz”. Cecy conviveu com o seu Anjo da Guarda por cerca de 30 anos.
     Em 17 de outubro de 1906, em sua 1ª Comunhão, fez o juramento de fidelidade: “Bom e querido Jesus, eu juro para o Senhor que não quero nunca fazer um só peca­do”. A partir daquela ocasião, sempre sentia a presença sensível de Jesus na alma ao comungar.
     Sua devoção a Maria Santíssima também foi precoce: “Depois da Ave-Maria, a segunda oraçãozinha que aprendi com Madre Rafaela, foi: Lembrai-Vos que Vos pertenço, terna Mãe, Senhora Nossa! Ah! Guardai-me e defendei-me como propriedade Vossa. Sempre rezei esta oraçãozinha de manhã e de noite, até entrar para o convento. Aprendera também a fazer sacrificiozinhos a Nossa Senhora. E alegria imensa senti quando Madre Rafaela nos ensinou a rezar o Santo Rosário”.
     Irmã Antônia consagrou-se irrevogavelmente ao Divino Esposo pelos votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência no dia 24 de fevereiro de 1933. Com inteira dedicação e espírito de sacrifício, retomou sua atividade como professora no Colégio São José, em São Leopoldo. Compreendia admiravelmente as suas alunas, e estas, por sua vez, cercavam de carinhosa veneração a bondosa educadora.
     Sofrimentos místicos, indizivelmente dolorosos, no corpo e na alma, assediaram-na impiedosamente. Um dos mais dolorosos padecimentos era o peso de todos os pecados do mundo, sentindo ela estes pecados na sua alma como se os tivesse cometido ela mesma. O inferno a incitava a dizer: “não quero mais sofrer!” Mas a jaculatória: “Meu Jesus, eu Vos amo ainda!” foi sua prece eficaz em favor das almas periclitantes, seu grito de vitória contra os assaltos infernais.
     Os sofrimentos de Irmã Antônia valiam ora como reparação pelas perseguições feitas à Santa Igreja, ora como expiação pelos ultrajes que Jesus Eucarístico sofre perenemente; contribuíram para a salvação das crianças e dos soldados, para a santificação do clero e dos religiosos.
     Na noite do dia 24 de abril de 1939, Irmã Antônia morreu serenamente, mas envolta em grande padecimento. No dia seguinte foi sepultada no cemitério conventual das franciscanas de São Leopoldo. Alunas atiram flores sobre o sarcófago; suas carinhosas cartas com pedidos e recomendações foram colocadas junto ao seu corpo.

     Finalmente, a palavra do filósofo e conhecido conferencista Frei Pacífico, O.F.M. Cap., que leu a autobiografia: “É pela boca dos 'inocentes, das crianças' que Jesus revela aos homens os tesouros de seu infinito amor. Eu gostei imenso das páginas da feliz criança, encheram minha alma do desejo de recorrer mais seguido ao meu Anjo da Guarda” (excerto). 

Nota: para mais detalhes da vida de Irmã Maria Antônia, vide http://heroinasdacristandade.blogspot.com/2016/04/irma-maria-antonia-cecy-cony-religiosa.html?m=1). 

Fonte: “Devo Narrar Minha Vida”, Memórias da infância de uma religiosa Franciscana da Penitência e da Caridade Cristã da Casa-Mãe de São Leopoldo, RS, editadas pelo P. J. Batista Reus, S.J., antigo professor de Ascética e Mística.
Imprimatur: Por comissão especial do Exmo. e Revmo. Sr. D. Pedro da Cunha, antigo bispo de Petrópolis, com a data de 15/4/1953.
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A missão do seu Anjo da Guarda não termina quando você morre, é maravilhoso descobrir o que ele ainda vai fazer por você depois disso

    
O Catecismo da Igreja Católica, referindo-se aos Santos Anjos, ensina no número 336 que, “desde o início até a morte, a vida humana está cercada de sua custódia e intercessão”.
     A partir disso, conclui-se que a pessoa conta com a proteção e guarda do seu anjo mesmo no momento da sua morte. Ou seja, os anjos não nos acompanham somente nesta vida, mas sua ação se prolonga até nossa morte, nossa passagem para a vida eterna.
     Para entender a relação que une os anjos às pessoas no momento de sua passagem à outra ida, é preciso compreender que os anjos foram “enviados para todos aqueles que hão de herdar a salvação” (cf. Hb 1, 14).
     Ou seja, a principal missão do Anjo da Guarda é a salvação do ser humano, é fazer que a pessoa entre na vida de união com Deus. E, nesta missão, encontra-se a assistência que o anjo dá às almas no momento em que se apresentam diante de Deus.
     Os Padres da Igreja destacam a especial missão dos anjos de assistir as almas na hora da morte e protegê-las dos últimos ataques dos demônios.
     São Luís Gonzaga (1568-1591) ensina que, quando a alma abandona o corpo, esta é acompanhada e consolada pelo seu anjo da guarda para que se apresente com confiança diante do tribunal de Deus.
     Segundo o santo, o anjo apresenta os méritos de Cristo, para que neles se apoie a alma no momento do seu juízo particular; e, uma vez pronunciada a sentença pelo Divino Juiz, se a alma é enviada ao purgatório, esta recebe a visita frequente do seu anjo da guarda, que a conforta e consola, levando-lhe as orações que foram feitas por ela e garantindo-lhe sua futura libertação.
     A missão dos Anjos da Guarda continua até levar a alma à união dom Deus.
     No entanto, é necessário levar em consideração que, depois da morte, nos espera um juízo particular, no qual a alma, diante de Deus, pode escolher entre abrir-se ao amor de Deus ou rejeitar definitivamente seu amor e seu perdão, renunciando assim, para sempre, à comunhão alegre com ele (cf. João Paulo II, audiência geral de 4 de agosto de 1999).
     Se a alma decide entrar em comunhão com Deus, seu anjo se unirá a ela para louvar eternamente o Deus Uno e Trino.
     Se a alma precisa passar pelo purgatório, seu anjo intercederá por ela diante do trono de Deus e buscará ajuda entre os homens na terra para levar orações ao seu protegido, ajudando-o a sair do purgatório o quanto antes.
     As almas que decidem rejeitar definitivamente o amor e o perdão de Deus, também rejeitam a amizade eterna do seu Anjo da Guarda. Neste terrível evento, o anjo louva a justiça e santidade divinas.
     Em qualquer um dos três possíveis cenários (céu, purgatório ou inferno), o santo anjo sempre se alegrará com o juízo de Deus, pois ele se une de maneira perfeita e total à vontade divina.
     Nunca nos esqueçamos de que nós podemos nos unir aos anjos dos nossos entes queridos já falecidos, para que eles levem nossas orações diante do trono de Deus, para que o Senhor manifeste sua misericórdia.
 
Santa Francisca Romana via constantemente seu Anjo da Guarda

Fonte: https://pt.aleteia.org  via  www.sinaisdoreino.com.br