
"Deus
te ungiu com o óleo da alegria" (Salmo 54,8)
Santa
Valburga foi uma das mais populares santas da Idade Média. Ela nasceu na
Inglaterra por volta de 710. Seu pai, Ricardo, rei dos saxões do oeste, possuía
um castelo em Dorsetshire; sua mãe, Vinna, irmã de São Bonifácio, era piedosa e
mãe extremosa. Ambos são venerados como santos pela Igreja. O casal teve três
filhos: Vilibaldo, Vinibaldo e Valburga.
Vilibaldo
foi educado na Abadia de Waltham, perto de Winchester. Vinibaldo, de
temperamento menos ativo e mais contemplativo, foi educado em casa.
Quando tinha seis anos de idade, nasceu-lhe uma irmã que foi batizada com
o nome de Valburga, equivalente no grego a Eucheria, que significa
“graciosa”. Muito cedo perderam a mãe e uma amizade muito profunda ligou os
dois irmãos.
Em
721, Vilibaldo, então com cerca de vinte anos, manifestou o desejo de visitar a
Terra Santa. Deixou a abadia com a licença de seu superior e voltou para
Dorsetshire para persuadir o irmão a acompanhá-lo na viagem. Ricardo estava
enfermo e Vinibaldo não queria deixá-lo só. Sequer mencionou ao pai os planos
do irmão mais velho. Mas, este revelou seu plano e tão eloquente foi, que o pai
resolveu acompanhar os filhos na peregrinação.
Valburga
tinha então 11 anos apenas. Ela sabia, contudo, que as peregrinações, muitos frequentes
entre os saxões, exigiam muito dos viajantes que enfrentavam dificuldades e
perigos; muitos meses se haviam de passar antes que fosse possível receber notícias
dos peregrinos; o seu pai era velho, talvez não resistisse aos rigores da
penosa e longa peregrinação... Todavia, nada fez para dissuadir seu pai de tão
santa decisão.
A
Rainha Cuthberga fundara recentemente em Dorsetshire a Abadia de Wimbourne.
Esposa do Rei Alfredo, a rainha sentira um chamado para uma dedicação total a
Deus e obtivera licença do esposo para se tornar monja. O magnífico mosteiro
duplo de Wimbourne tornou-se logo célebre pela santidade de seus habitantes e
austeridade da sua disciplina.
Ricardo
resolveu levar a pequena Valburga para esta grande abadia, para que dela
cuidassem as monjas enquanto ele se ausentava. Ao se despedir de seu pai,
Valburga não imaginava que não o tornaria a ver: o santo homem faleceu na
Itália, sendo sepultado pelos dois filhos em Lucca.
Enquanto
seus irmãos abraçavam a vida monástica em Roma, Valburga adotou também o estado
religioso, passando vinte e seis anos em Wimbourne.
Destes
vinte e seis anos pouco se sabe, mas, tendo em vista que o nível intelectual
das monjas daquele mosteiro era muito elevado, pois escreviam com fluência o
latim e o grego, e com facilidade citavam os clássicos, sendo notáveis suas
iluminuras e transcrições de Missas, Sagradas Escrituras etc., além de bordados
em fio de ouro e prata, presume-se que Valburga recebeu sólida instrução e
aperfeiçoou-se em todos estes trabalhos.
Aconteceu
então que São Bonifácio, tio de Valburga, o grande apóstolo da Alemanha, foi a
Roma pedir ajuda para o seu trabalho missionário naquela região. O Papa instou
Vilibaldo e Vinibaldo a acompanharem o dedicado tio.
Mais
tarde, por meio de uma carta dirigida a Lioba, sua prima, e a Valburga, sua
sobrinha, São Bonifácio convidou-as a fundar um mosteiro em sua diocese, para
mostrar às mulheres daquela região o exemplo das virgens cristãs. Após breves
preparativos Santa Lioba e Santa Valburga, com algumas companheiras, deixaram
sua terra natal para devotar suas vidas à conversão da Alemanha.
Durante
a viagem da Inglaterra para a Alemanha as monjas enfrentaram uma tempestade que
obrigou os marinheiros a se desfazerem da carga. Valburga implorou a Deus e,
sobrevindo repentina calma, os viajantes desembarcaram sãos e salvos em
Antuérpia. Ao desembarcar, os marinheiros proclamaram o milagre que haviam
testemunhado, de modo que Valburga foi recebida em todos os lugares com alegria
e veneração. Na mais antiga igreja desta cidade há uma gruta onde Santa
Valburga costumava rezar enquanto esperava para reiniciarem a viagem. Ela é
muito venerada naquela cidade desde sua permanência ali.
Vilibaldo
fundou o Mosteiro de “Eihstat”, que se tornaria mais tarde a Diocese de
Eichstätt. Valburga tornou-se abadessa de um mosteiro beneditino feminino em
Heidenheim - morada dos pagãos, em alemão - local onde já se instalara seu
irmão Vinibaldo com seus monges. Em breve o significado desse nome perderia o
sentido, pois os dois mosteiros converteram gradualmente a aridez espiritual e
material da região, e os campos deram abundantes colheitas.
À
morte de seu irmão, Valburga assumiu a direção do mosteiro masculino que ele
dirigira. Ela era muito respeitada e amada ainda em vida. Sua vida de
profunda oração, sua caridade e coragem, bem como os milagres que ela realizava,
tornaram-na venerada pelo povo que vivia à sombra dos mosteiros dirigidos por
ela.
Nos
últimos anos, conforme relata o monge Wolfhard que escreveu sua vida mais ou
menos cem anos depois de sua morte, ela "confirmada no santo amor
de Deus, tendo vencido o mundo e todos os seus atrativos, repleta de fé,
saturada de caridade com os adornos da sabedoria e a joia da castidade, notável
pela benevolência e humildade, foi receber o galardão que devia coroar tantas
virtudes".
Santa
Valburga foi assistida por seu irmão São Vilibaldo em seus últimos momentos,
tendo ele lhe administrado os Sacramentos. Ela faleceu em 25 de fevereiro de
779 e foi sepultada ao lado do irmão Vinibaldo.
São Vilibaldo viveu até 786, e após sua
morte a devoção à Santa Valburga gradualmente declinou, e seu túmulo foi
negligenciado. Por volta de 870, Otkar, então bispo de Eichstätt, decidiu
restaurar a igreja e o mosteiro de Heidenheim, que estavam caindo em ruínas. Os
operários profanaram o túmulo de Santa Valburga. Uma noite ela apareceu para o
bispo, repreendendo-o e ameaçando-o. Isso levou ao traslado solene dos seus restos
mortais para Eichstätt em 21 de setembro do mesmo ano. O corpo de Santa
Valburga que foi encontrado incorrupto e coberto por um fluido precioso, qual
puríssimo óleo.
Em 893, o Bispo Erchanbold, sucessor de
Otkar, abriu o santuário para retirar uma parte das relíquias para Lioba,
Abadessa de Monheim, e o corpo foi descoberto mais uma vez como imerso em um
precioso óleo ou orvalho, que até hoje (salvo durante um período em que
Eichstätt foi colocado sob interdição, e quando o sangue foi derramado na
igreja por ladrões que feriram gravemente o tocador de sino) continuou a fluir
dos restos sagrados.
Há
mais de mil anos esta misteriosa umidade oleosa, que é coletada das relíquias
de Santa Valburga pelas monjas, vem operando milagrosas curas. Os documentos
mais antigos que relatam os milagres atribuídos ao óleo foram escritos entre
893 e 900.
Este
óleo tornou-se conhecido como "óleo de Santa Valburga" e vem sendo um
sinal de sua contínua intercessão. O óleo é colocado pelas religiosas em
pequenas ampolas de vidro que são dadas aos peregrinos. Curas atribuídas à
intercessão de Santa Valburga acontecem até os nossos dias.
No Martirológio Romano ela é comemorada em
1 de maio, seu nome está ligado à Santo Asafe, cujo principal festival é
celebrado na Bélgica e na Baviera. No Breviário Beneditino sua festa é
atribuída a 25 (no ano bissexto 26) de fevereiro.
Ela é a padroeira de Eichstätt, Oudenarde,
Furnes, Antuérpia, Gronigen, Weilburg e Zutphen, e é invocada como patrona
especial contra a hidrofobia, e em tempestades também por marinheiros.
*
No
século XVI, a terra natal de Santa Valburga, Inglaterra, separou-se da Igreja
Católica após séculos de fidelidade a Roma. Naquele século, muitos católicos
foram martirizados por não aceitarem a nova igreja fundada pelo rei Henrique
VIII, que se autoproclamou chefe da Igreja Anglicana. Depois dele, os reis da
Inglaterra sempre exerceram aquele cargo até os dias de hoje.
Neste
início do século XXI, entretanto, uma onda de conversões de anglicanos
percorreu todo o Reino Unido (Inglaterra e suas ex-colônias).