sábado, 13 de março de 2021

Beata Francisca Tréhet, Mártir na Revolução Francesa


Martirológio Romano: Em Ernée, no território de Mayenne, a Beata Francisca Tréhet, virgem da Congregação da Caridade e mártir, que se entregou com toda a diligência à instrução das crianças e aos cuidados dos doentes, e durante a Revolução Francesa foi guilhotinada, completando assim seu glorioso martírio por Cristo.
 
     Francisca nasceu em Saint-Mars-sur-la-Futale (França) em 8 de abril de 1756 no seio de uma família de agricultores.
     Professou seus votos religiosos na Congregação das irmãs da Caridade de Nossa Senhora d’Evron, uma congregação dedicada à educação das jovens e às obras de caridade. Por causa da cor cinza de seu hábito eram chamadas de “as pequenas irmãs cinzas”.
     Por volta do ano de 1783, Francisca foi enviada a Saint-Pierre-des-Landes para aí abrir uma escola paroquial. Logo pôde contar também com a ajuda de uma coirmã, a religiosa Joana Véron. Além de se dedicarem ao ensino, davam uma válida assistência aos doentes.
     Quando a Revolução Francesa eclodiu, uma lei de 17 de abril de 1791 exigia que todos os professores jurassem a Constituição Civil do Clero. Ela se recusou e perdeu sua posição como professora, mas continuou a servir como catequista e a visitar os doentes. Na escola, ela continuou a ter a valiosa cooperação da Beata Joana Véron, que seria martirizada poucos dias depois dela. Ambas foram presas no final de fevereiro de 1794.
     A Revolução Francesa em alguns momentos espalhou o terror e a violência. Apesar dos exemplos virtuosos das irmãs, seus nomes apareceram numa lista de condenados à morte por decapitação na guilhotina. As irmãs logo foram detidas pelo novo regime e enviadas a Ernée. Francisca foi enviada para a prisão e Joana para o hospital por se encontrar muito doente.
     Em 13 de março, Francisca compareceu diante da “Comissão Clemente”, revolucionária. A seção pública teve lugar em Ernée no «templo da Razão», um 23 Ventoso do ano II da República (13 de março de 1794). As acusações foram três: ter acolhido sacerdotes refratários, ter se negado a jurar fidelidade à pátria e ter alimentado e protegido aos "chouans", quer dizer, aos soldados vandeanos.
     Em sua defesa, Francisca disse que tanto revolucionários quanto monarquistas eram seus irmãos em Cristo e a todos aqueles que lhe pediam ela concedia ajuda sem acepção.
     Apesar de sua alegação, o tribunal não se convenceu e pediu que ela gritasse: “Longa vida à república!”, mas a religiosa se negou a fazê-lo. Foi então condenada à guilhotina. Tinha apenas trinta e sete anos e naquele mesmo dia subiu o patíbulo cantando a Salve Rainha. Uma semana depois, sua coirmã Joana Véron teve a mesma sorte.
     Os restos mortais das duas mártires repousam na igreja de São Pedro des-Landes. Sua beatificação ocorreu no dia 19 de junho de 1955.
 
NOTA: Ventoso, em francês Ventôse, é o nome do sexto mês do calendário republicano francês.
 
Fonte: Beata Francesca Trehet (santiebeati.it)

Beata Justina Bezzoli Francucci, Virgem beneditina - 12 de março

Martirológio Romano: Em Arezzo, na Toscana (Itália), Beata Justina Bezzoli Francucci, virgem da Ordem de São Bento e reclusa († 1319)

     Em Florença, no mosteiro beneditino de Santa Maria das Flores, em Lapo, se conserva e venera o corpo incorrupto da Beata Justina Bezzoli Francucci, aqui trazido do mosteiro do Espírito Santo de Arezzo em 1968. Desde 1938 a igreja do mosteiro é também uma paroquia. O coro das monjas é uma extensão da igreja e o centro é o Tabernáculo.
     Em 1350 as primeiras monjas ali se instalaram e em 13 de outubro daquele ano o bispo Santo Andrea Corsini consagrou o mosteiro com a Regra de Santo Agostinho e o título de Santa Maria das Flores, tornando-se a mais antiga igreja de Florença. Em 1808, as monjas tiveram que abandonar o mosteiro devido as leis de supressão das ordens religiosas. Os beneditinos depois se encarregaram dele em 1817. A urna com o corpo da Beata se encontra em uma parede que une as duas comunidades. Seu rosto pode ser visto através do vidro e parece nos convidar a dedicar um tempo adequado a oração.
     Descendente da nobre família Bezzoli Francucci, Justina nasceu em Arezzo entre 1257 e 1260. De caráter humilde e amável, cresceu adquirindo uma certa maturidade. Na casa do pai rico, na facilidade e comodidade, assimilava com a oração diária os sentimentos religiosos mais genuínos. Com frequência se privava de alimento e gostava de se retirar para rezar; sentiu-se atraída a consagrar-se a Deus, o que resultou na imediata negativa dos pais e sem apelação. Era filha única, herdeira amada de uma fortuna considerável, tinha como futuro invejável o casamento com um homem digno de sua linhagem.
     Os caminhos de Deus, entretanto, não são os caminhos dos homens: primeiro convenceu seu pai a custo de lágrimas, depois foi a vez de seu tio paterno, que também não queria se privar de sua única sobrinha. Uma grave doença de seu pai o fez refletir sobre a transitoriedade de todas as coisas e Justina obteve a sua aprovação.
     Justina tinha tão somente 12 anos de idade e esta decisão nos parece incompreensível, mas naquela época as decisões importantes eram tomadas algumas vezes nessa idade. Justina foi recebida no Mosteiro de São Marcos (que já não existe) levando somente uma imagem do Crucificado.  Deixou tudo para se dedicar à meditação da Palavra de Deus; o hábito grosseiro tomou lugar das roupas opulentas. Nas tarefas mais simples mostrava encanto em responder com obediência às necessidades da comunidade.
     Justina permaneceu no mosteiro por quatro anos, quando foi obrigada a sair com as irmãs por causa das guerras que sacudiram a cidade. Com seu crucifixo se transferiu para o Mosteiro de Todos os Santos, porém neste local não ficou por muito tempo. Chegara aos seus ouvidos que numa cela, no Castillo di Civitella (Civitella dela Ciana), vivia reclusa voluntariamente uma virgem chamada Lúcia. Compartilhar as práticas mais austeras das virtudes cristãs se converteu em seu desejo supremo.
     Com a permissão do bispo Umbertini, mudou-se para a ermida de Santa Lúcia que muito feliz a recebeu. Na pobreza extrema foram visitadas pelo pai de Justina, o qual, podemos imaginar com que angústia, tratou em vão levá-la para casa.
     A coexistência destas anacoretas durou somente uns anos, até que Lúcia adoeceu gravemente e sua jovem companheira ajudou-a até o momento de sua morte. Uma vez sozinha, Justina continuou vivendo dedicada à oração e à penitência, visivelmente aliviada pelo Esposo Celestial, que por meio de um anjo a defendeu em várias ocasiões de ataques de lobos.
     Estas e muitas privações minaram sua saúde e aos trinta e cinco anos começou a ter sérios problemas de visão. Viu-se obrigada a retornar ao mosteiro, para a alegria das irmãs, que agora viam que sua alma não era deste mundo. O mosteiro, porém, foi objeto de incursões de soldados e o bispo teve que transladá-las a um lugar mais seguro. Era o ano de 1315 e Justina voltou a mudar de casa.
     A Beata tinha uma singular devoção pela Paixão de Cristo e mesmo doente utilizava os cilícios, chegando inclusive à flagelação. Passou os últimos vinte anos de sua vida completamente cega, caindo muitas vezes em êxtase, inclusive na presença das irmãs. Morreu rezando, rodeada de suas companheiras, no dia 12 de março de 1319. Eram evidentes em seu corpo as feridas causadas por uma corrente de ferro que usou durante anos.
     As graças obtidas por sua intercessão são numerosas. Um lírio branco nasceu espontaneamente em seu túmulo. O corpo, dez anos depois de sua morte, era surpreendentemente flexível e o bispo de Arezzo ratificou a veneração de que se tornou objeto.
     Dois séculos depois de ter sido colocado em uma caixa de ferro, o corpo tornou a aparecer excepcionalmente incorrupto. Em seu caixão foi encontrada uma bandeira de guerra deixada por um capitão como um ex-voto em torno de 1384. Alguns fragmentos da bandeira foram distribuídos aos fiéis como relíquias.
     A Beata Justina é invocada especialmente pelas pessoas cegas; diante de sua urna também foram exorcizados alguns demônios. Seu culto foi confirmado pela Santa Sé em 14 de janeiro de 1891. No dia 12 de cada mês uma associação faz celebrar Missa em recordação de sua comemoração litúrgica.
 
Corpo incorrupto da Beata

Para maior informação contatar:
Mosteiro de Santa Maria del Fiore en Lapo
Via Faenza, 24750133 Florença 055/587444
Fonte: Santi e Beati
 
Postado neste blog em10 de março de 2017

terça-feira, 9 de março de 2021

Santa Francisca Romana – 9 de março

Santidade em todos os estados de vida 
     Esta santa foi exemplo de donzela católica, esposa, mãe, viúva, religiosa, e um prodígio de graça e santidade. Ainda em vida teve desvendados mistérios de além-túmulo, sendo favorecida por visões do Inferno, Purgatório e Céu, bem como pela presença visível de seu Anjo da Guarda. Recebeu também a proteção de um Arcanjo, e depois de uma Potestade.
Plinio Maria Solimeo
 
     Francisca, nascida em 1384 de uma alta família do patriciado romano, recebeu a formação católica da mãe, mas foi dirigida nas vias da santidade pelo Divino Espírito Santo. De pureza virginal, não pensava senão em consagrar-se inteiramente a Deus. Aos 12 anos fez voto de ser religiosa. Mas não era esse o desígnio de Deus, pelo menos naquele momento. E assim, aconselhada pelo diretor espiritual, teve que aceitar o matrimônio proposto por seu pai com o jovem Lourenço Ponziani, também de alta estirpe e boa disposição para a virtude.
     Apesar de sua pouca idade, a jovem esposa empenhou-se em estudar o gênio do marido, para com ele viver em perfeita harmonia conjugal. E o fez tão bem que, durante os 40 anos que durou seu casamento, jamais houve o menor desentendimento entre esposo e esposa.
     Casando-se, Francisca foi morar no palácio do marido. Lá encontrou um tesouro na pessoa de sua cunhada Vanossa, predisposta a secundá-la em tudo, na linha da virtude e do bem. As duas passaram a visitar os pobres, assistir os doentes e praticar toda espécie de obras de misericórdia. Para tal, os respectivos maridos, reconhecendo os méritos e alta virtude das esposas, davam-lhes inteira liberdade de ação.
     Assim, um dia Roma estupefata viu Francisca, a grande dama da aristocracia, arrastando pelas ruas principais da cidade um asno carregado de lenha, e ainda com um feixe sobre a cabeça, que ia distribuindo aos pobres. Também foi vista às portas das igrejas junto aos pobres, mendigando com eles para socorrer os que estavam impossibilitados de fazê-lo. Num ano de muita carestia, Francisca e Vanossa foram de porta em porta pedir esmolas para os pobres. Muitos se escandalizavam em ver duas matronas da aristocracia praticando tão modesta tarefa. Outros, pelo contrário, edificavam-se com tanta humildade e juntavam-se a elas.
     Ela converteu várias mulheres perdidas; porém, a algumas que não quiseram fazer penitência e emendar-se, empenhou-se para que fossem expulsas de Roma ou de asilos a que se tinham retirado, para que não pervertessem outras.
Formando os filhos para o Céu
     Sabendo que os filhos são dados para preencher os tronos tornados vazios no Céu pela queda dos demônios, Francisca os pediu a Deus. E teve três. Ao primeiro deu como patrono São João Batista, ao segundo São João Evangelista, e à terceira, uma menina, Santa Inês.
     Cuidando ela mesma de sua educação, preparou-os antes para a vida que não tem fim. Assim João Evangelista, que viveu apenas nove anos, progrediu tanto na virtude, que chegou a ter o dom da profecia. No momento da morte, viu São João e Santo Onofre que vinham buscá-lo.
     Tempos depois de morrer, apareceu à mãe todo resplandecente de glória, acompanhado por um jovem ainda mais brilhante, dizendo-lhe que, da parte de Deus, viria logo buscar sua irmãzinha Inês, então com cinco anos. E que Deus dava à mãe, para ajudá-la nas vicissitudes da vida, além de seu Anjo da Guarda, um Arcanjo para a proteger e iluminar no caminho da virtude.
     Francisca passou a ter a presença radiante desse Arcanjo noite e dia, de modo tal que não precisava da luz material para seus afazeres, pois a do espírito celeste lhe bastava.
Estado de continência na vida conjugal
     Como Santa Francisca viveu na tumultuada época em que Roma estava dividida em dois partidos – o dos Orsini, que lutavam em favor do Papa, e em cujo serviço Lourenço tinha alto cargo, e o dos Colonas, que apoiavam Ladislau de Nápoles – teve muito que sofrer. Seu marido foi gravemente ferido em uma das refregas e levado como prisioneiro, e seu filho como refém; teve também a casa saqueada, sendo despojada de seus bens. Como novo Jó, apenas repetia: "Deus me deu, Deus me tirou, bendito seja Ele". Mais tarde, como o patriarca, teve seus familiares e bens restituídos.
     Quando Lourenço foi gravemente ferido, Francisca tratou-o com todo amor e carinho. E aproveitou, quando este se restabeleceu, para persuadi-lo a viverem dali para frente em perfeita continência. Ele acedeu contanto que ela não o abandonasse e continuasse dirigindo sua casa. Feliz, Francisca vendeu suas joias e ricos vestidos, deu o dinheiro aos pobres e passou a andar com uma grosseira túnica sobre áspero cilício. Começou a tomar uma só refeição por dia, e ainda assim consistindo apenas em legumes insípidos. Aumentou as disciplinas e passou a dedicar mais tempo à oração.
Elaboração da Regra de sua Ordem: orientação de Apóstolos e grandes santos
     Francisca via o perigo que corriam muitas damas de Roma entregues às frivolidades e futilidades de uma sociedade decadente, na qual já se podiam perceber os inícios funestos do Renascimento. Por isso orava e chorava diante de Deus, pedindo remédio para isso. Ouviu então uma voz que lhe dizia: "Vai, trabalha, reúne-as, infunde teu espírito e o espírito de Bento, o patriarca, espírito de paz, de oração e de trabalho" (1). A serva de Deus começou então a reunir viúvas e donzelas dispostas a viver no estado de perfeição.
     No princípio formou só uma associação de mulheres piedosas dedicadas ao culto da Mãe de Deus e ao trabalho da própria santificação. Mas depois, por inspiração de Deus, surgiram as "Oblatas de São Bento". São Pedro, São Paulo, São Bento e Santa Maria Madalena apareceram-lhe diversas vezes, instruindo-a sobre os pontos da regra. "Ela a levou depois a uma tal perfeição, que se pode dizer que nela deixou a ideia mais perfeita da vida religiosa" (2).
     Quando faleceu seu marido, Francisca encaminhou o futuro do filho que lhe restava, deixando-lhe toda sua herança, e pediu admissão na congregação que fundara. Por obediência a seu confessor, aceitou o cargo de superiora. E Deus bendisse seu sacrifício dando-lhe por companheiro mais um Anjo do coro das Potestades, cuja glória era muito mais esplendorosa ainda que a do Arcanjo. Era também muito maior seu poder contra os demônios, pois com um só olhar os afugentava (3).
Vítimas de violentos ataques
     Se é verdade que a santa tinha contínuo comércio com os anjos, não é menos verdade que também o espírito infernal não lhe dava trégua, agredindo-a muitas vezes, até fisicamente. Assim, uma vez estava ela de joelhos junto a uma religiosa doente, quando o demônio a agarrou com fúria e a arrastou pelo quarto até a porta. Outra noite, estando ela em oração, tomou-a pelos cabelos e levou-a a um terraço, deixando-a pendurada sobre a via pública. Encomendou-se Francisca a Deus, e logo viu-se em sua cela.
     Numa outra ocasião, Santa Francisca acendia uma vela benta. O espírito infernal pegou a vela, atirou-a ao solo e cuspiu em cima. A santa lhe perguntou por que profanava uma coisa santa. Ele respondeu: "Porque as bênçãos da Igreja me desagradam sobremaneira".
Impressionantes visões do Inferno, Purgatório e Céu
     Santa Francisca foi favorecida com muitas visões sobre a vida do além, tendo sido levada em espírito por seu Anjo ao Inferno, ao Purgatório e ao Paraíso celeste. Depois de testemunhar os horrores do Inferno, foi levada ao Purgatório. Sobre este lugar de expiação, diz ela: "Nele não reina nem o horror, nem a desordem, nem o desespero, nem as trevas eternas [do inferno]; lá a esperança divina difunde sua luz". E lhe foi dito que esse lugar de purificação era também chamado de `pousada de esperança'. Ela viu ali almas que sofriam cruelmente, mas anjos as visitavam e assistiam em seus sofrimentos. (4)
Foi levada ao Paraíso celeste, onde compreendeu algo da essência de Deus.
     A Paixão de Cristo era sua meditação ordinária, sendo que algumas vezes sentia fisicamente as dores padecidas por Cristo. Era grande devota da Sagrada Eucaristia, sobre a qual fazia longas meditações diante do Sacrário. Na véspera de Natal de 1433, Francisca teve a dita de receber em seus braços o Divino Menino Jesus.
Falecimento e elogio ímpar de Doutor da Igreja
     Em 9 de março de 1440, conforme havia predito, a Santa entregou a alma a Deus. Contava 56 anos de idade, dos quais havia passado doze na casa paterna, quarenta no estado de matrimônio e quatro como religiosa.
     Roma chorou e exaltou aquela ilustre filha. Milagres começaram a operar-se em seu túmulo. "Quando, em 1606, estava em andamento o processo de canonização de Francisca, São Roberto Belarmino, Doutor da Igreja, juntou ao seu voto favorável uma declaração que consistiu num elevado elogio da extraordinária Santa. Afirmou que tendo ela vivido primeiro em virgindade, depois, uma série de anos, em casto matrimônio, tendo suportado os incômodos da viuvez, e tendo seguido finalmente a vida de perfeição no claustro, merecia tanto mais as honras dos altares quanto mais podia ser apresentada como modelo de virtude a todas as idades e todos os estados". (5)
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Notas
1 - Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo I, p.454.
2 - Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d'après le Père Giry, Paris, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, 1882, tomo III, p. 314.3 - Edelvives, El Santo de Cada Día, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoza, 1947, tomo II, p. 98.
4 - Pe. F. X. Shouppe, S.J., Purgatory _ Explained by the Lives and Legends of the Saints, TAN Books and Publishers, Inc., Rockford, Illinois, USA, 1973, p. 11.
5 - Pe. José Leite, S.J., Santos de Cada Dia, Editorial Apostolado da Oração, Braga.
Fonte: http://catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=536&mes=marco2001
 
Postado neste blog em 8 de março de 2015

domingo, 7 de março de 2021

Santas Perpétua e Felicidade, mártires - 7 de fevereiro

Sta. Perpétua, mosaico
do sec. V
          Neste dia, diz o Martirológio Romano: “Em Cartago, o natalício [para o céu] das santas mártires Perpétua e Felicidade. Como narra Santo Agostinho, Felicidade estava para dar à luz [no momento do martírio] e, segundo as leis, deveria esperar até que isso ocorresse. Gemeu de dor na ocasião do parto, mas exultou de alegria quando foi lançada às feras. Junto com elas padeceram Sátiro, Saturnino, Revocato e Secundo. Este último sucumbiu no cárcere. Todos os mais foram torturados por vários animais ferozes, e depois acabaram a golpes de espada, sob o imperador Severo”.
     Estas duas santas morreram martirizadas em Cartago (África) no dia 7 de março de 203. Perpétua era uma jovem mãe de 22 anos, que tinha um filhinho de poucos meses. Pertencia a uma nobre família muito estimada por toda a cidade. Enquanto estava na prisão, a pedido de seus companheiros mártires, foi escrevendo o diário de tudo o que ia acontecendo com eles, e que tornou-se num dos relatos mais pungentes da gloriosa luta dos mártires cristãos da Igreja primitiva.
     Felicidade era uma escrava de Perpétua. Era também muito jovem e na prisão deu à luz uma menina que depois os cristãos se encarregaram de criar muito bem. Uns escravos que foram aprisionados com elas as acompanharam em seu martírio, bem como o diácono Sáturo, que as havia instruído na religião e as havia preparado para o Batismo. Não tinham prendido Sáturo, mas ele se apresentou voluntariamente.
Sta. Felicidade, mosaico do sec V
    Os antigos documentos que narram o martírio destas duas Santas eram imensamente estimados na antiguidade e Santo Agostinho disse que eram lidos nas igrejas com grande proveito para os ouvintes. Esses documentos narram o seguinte:
     No ano 202, o imperador Severo mandou matar aqueles que continuassem a ser cristãos e não quisessem adorar os falsos deuses.
     Perpétua estava celebrando uma reunião religiosa em sua casa de Cartago, quando chegou a polícia do imperador e a levou prisioneira, junto com sua escrava, Felicidade, e os escravos Revocato, Saturnino e Segundo.
     Diz Perpétua em seu diário: "Nos lançaram no cárcere e eu fiquei consternada, porque nunca havia estado em um lugar tão escuro. O calor era insuportável e estávamos em muitas pessoas em um subterrâneo muito estreito. Me parecia morrer de calor e de asfixia, e sofria por não poder ter junto de mim meu filhinho que era tão pequeno e que necessitava muito de mim. O que mais eu pedia a Deus era que nos concedesse uma coragem muito grande para sermos capazes de sofrer e lutar por nossa Santa Religião".
     Felizmente dois diáconos católicos chegaram no dia seguinte e deram dinheiro aos carcereiros para que passassem os prisioneiros para outra habitação menos sufocante e escura que a anterior, e foram levados a uma sala aonde pelo menos entrava a luz do sol e não ficavam tão apertados e incômodos. E permitiram que o filhinho de Perpétua fosse levado até ela, pois ele estava sofrendo muito a sua falta. Ela diz em seu diário: "Desde que tive meu pequenino junto de mim aquilo não me parecia um cárcere, mas um palácio, e eu me sentia cheia de alegria. E o menino também recuperou a sua alegria e o seu vigor". As tias e a avó se encarregaram depois da criança e de sua educação.
     O chefe do governo de Cartago chamou a juízo Perpétua e seus companheiros. A noite anterior Perpétua teve uma visão na qual lhe foi dito que teriam que subir por uma escada cheia de sofrimentos, mas que no final de dolorosa escalada estaria o Paraíso Eterno os esperando. Ela narrou a visão que tivera a seus companheiros, e todos se entusiasmaram e fizeram o propósito de permanecerem firmes na Fé até o fim.
     Os primeiros a comparecer foram os escravos e o diácono. Diante das autoridades todos proclamaram que eram cristãos e que preferiam morrer a adorar aos falsos deuses.
     Em seguida, chamaram Perpétua. O juiz suplicava que deixasse a religião de Cristo e que aceitasse a religião pagã, pois assim salvaria a sua vida. E lhe recordava que ela era uma mulher jovem e de família rica. Porém Perpétua proclamou que estava resolvida a ser fiel à religião de Cristo Jesus até a morte.
     Então chegou seu pai (o único da família que não era cristão) e de joelhos lhe rogava e suplicava que não persistisse em se chamar cristã, que aceitasse a religião do imperador, que o fizesse por amor a seu pai e a seu filhinho. Ela se comoveu intensamente, porém terminou dizendo-lhe: "Pai, como se chama essa vasilha que há aí em frente?" "Uma bandeja", respondeu-lhe o pai. "Pois bem, essa vasilha deve ser chamada de bandeja, e não de xícara, ou de colher, porque é uma bandeja. E eu, que sou cristã, não posso ser chamada nem de pagã, nem de nenhuma outra religião, porque sou cristã e quero ser para sempre". E acrescenta o diário escrito por Perpétua: "Meu pai era o único de minha família que não se alegrava porque nós íamos ser mártires por Cristo".
     O juiz decretou que os três homens seriam levados ao circo e ali, diante da multidão, seriam destroçados pelas feras no dia da festa do imperador; e que as mulheres seriam amarradas diante de uma vaca furiosa para que as destroçasse.
     Havia, entretanto um inconveniente: Felicidade ia ser mãe e a lei proibia matar aquela que ia dar à luz. Dois dias antes do martírio, Felicidade deu à luz a uma menina num parto muito doloroso. Um soldado escarnecia dela por causa de suas dores: “Você está se lamentando agora; e o que será quando as feras a estiverem mordendo?” Ela respondeu cheia de fé: “Hoje sou eu que sofro, mas nesse dia sofrerá por mim Aquele por quem eu sofro”. Sua filha foi confiada a cristãs fervorosas, e assim a mãe pode sofrer o martírio. Ela desejava, sim, ser martirizada por amor a Cristo.
     Então os cristãos rezaram com fé e era permitido aos condenados à morte fazer uma ceia de despedida. Perpétua e seus companheiros converteram sua ceia final em uma Ceia Eucarística. Dois santos diáconos levaram-lhes a Comunhão e depois de rezarem e de animar-se uns aos outros, se abraçaram e se despediram com o ósculo da paz. Todos estavam animados, alegremente dispostos a entregar a vida para proclamar a sua fé em Jesus Cristo.
     Os escravos foram lançados às feras que os destroçaram, e eles derramaram assim o sangue por nossa religião. Antes de levá-los à praça os soldados queriam que os homens entrassem vestidos de sacerdotes dos falsos deuses e as mulheres vestidas de sacerdotisas das deusas dos pagãos. Porém Perpétua se opôs corajosamente e ninguém quis colocar roupas de religiões falsas.
     O diácono Sáturo havia conseguido converter um dos carcereiros, chamado Pudente, e lhe disse: "Para que vejas que Cristo sim é Deus, te anuncio que me lançarão a um urso feroz, e essa fera não me fará nenhum mal".
     E assim aconteceu: amarraram-no e aproximaram-no da jaula de um urso muito agressivo. O feroz animal não lhe quis fazer nenhum mal, mas, pelo contrário, deu uma tremenda mordida no domador que tratava de fazê-lo se lançar contra o santo diácono. Soltaram então um leopardo, que destroçou Sáturo. Quando o diácono estava moribundo, untou com seu sangue um anel e o colocou no dedo de Pudente. Ele aceitou definitivamente a fé cristã.
     Perpétua e Felicidade foram envolvidas em uma malha e colocadas no centro da praça; os algozes soltaram uma vaca bravíssima que as chifrava sem misericórdia. Perpétua unicamente se preocupava em manter as roupas arrumadas para não dar escândalo por parecer pouco coberta. Ajeitava também os cabelos para não parecer despenteada como uma pagã chorona.
     A multidão, emocionada diante da valentia destas jovens mulheres, pediu que as tirassem pela porta por onde levavam os gladiadores vitoriosos. Perpétua, como que saindo de um êxtase, perguntou: "E onde está a tal vaca que ia nos chifrar?" Porém, logo o povo cruel pediu que as trouxessem de novo para a praça e lhes cortassem a cabeça ali, diante de todos.
     As duas jovens valentes se abraçaram emocionadas e voltaram para a praça. Um golpe cortou a cabeça de Felicidade, porém o verdugo que devia matar Perpétua estava muito nervoso e errou o golpe. Ela deu um grito de dor, estendeu a cabeça sobre o cepo e indicou com a mão o local preciso onde o verdugo devia dar-lhe o golpe. Esta mulher valorosa demonstrou com este gesto que morria mártir por sua própria vontade e com toda generosidade.
     Os nomes de Felicidade e Perpétua entraram para o calendário dos mártires venerados já no quarto século em Roma. Uma magnífica basílica foi depois edificada sobre seus túmulos.
 
Fontes:
https://www.acidigital.com/
https://cruzterrasanta.com.br/
https://pt.aleteia.org/
 

sexta-feira, 5 de março de 2021

Santa Colete Boylet de Corbie, Virgem Clarissa e Reformadora de sua Ordem – 6 de março

          A vida e a obra de Santa Colete se situam numa época extremamente tormentosa: a Guerra dos Cem Anos, gerada pelas rivalidades sangrentas entre duas famílias principescas da França; e o Cisma do Ocidente que dividia a Cristandade. Na Ordem franciscana, as dissensões - nascidas já em vida de São Francisco - entre os partidários da regra estrita e os que desejavam mitigações, terminaram com a vitória destes últimos.
     Quanto ao ramo feminino da Ordem, o direito de possuir bens, concedido por Alexandre IV ao mosteiro de Longchamps, próximo de Paris, fundado pela Beata Isabel de França, irmã de São Luís IX, começou a enfraquecer seriamente o "privilégio da pobreza" arduamente defendido por Santa Clara.
     Em 1263, Urbano IV estendeu a regra mitigada a todos os conventos de Clarissas e só raras comunidades guardaram a estrita observância primitiva. A autorização de possuir bens e tolerâncias relativas à clausura levaram à tibieza os conventos "urbanistas".
     É neste contexto que devemos compreender a missão de Santa Colete.
A vocação
     Nicolette Boylet ou Boëllet nasceu em Corbie, diocese de Amiens, França, em 13 de janeiro de 1381. Seus pais, Roberto Boylet e Marguerite Moyon, quase sexagenários, colocaram este nome na menina em sinal de reconhecimento a São Nicolau de Bari pelo seu nascimento. O pai era artista carpinteiro, caridoso e virtuoso; a mãe confessava-se e comungava toda semana, coisa rara naquela época.
     A menina cresceu em um ambiente acolhedor e muito religioso. Aos quatro anos já tinha uma vida de oração; aos sete, fazia uma hora de oração diária e assistia clandestinamente as Matinas cantadas nos beneditinos. Ela dirá mais tarde que aos nove anos recebeu plena e inteira revelação do espírito da Ordem franciscana e da necessidade de sua reforma.
     Em 1399, seus pais faleceram com alguns meses de intervalo um do outro. O pai confiara a filha aos cuidados de D. Raoul de Roye, abade do mosteiro beneditino de Corbie. Este desejava que ela se casasse. Colete recusou-se e acabou obtendo sua permissão para doar seus bens aos pobres e para entrar para a beguinaria (*) de Amiens, onde ficou apenas um ano por achar muito suave a disciplina ali vigente.
     Pelo mesmo motivo fez tentativas frustradas junto às beneditinas de Corbie e no Convento de Moncel, que seguia a regra de Urbano IV.
     Colete retornou a Corbie e seus concidadãos, que anteriormente a admiravam, passaram a desprezá-la porque a consideravam uma instável. Seu tutor começava a se impacientar com seus "caprichos".
     Neste isolamento moral, a Providência colocou o Padre João Pinet em seu caminho. Ele era guardião do convento de Hesdin, fervoroso religioso de São Francisco, intensamente desejoso de fazer reviver a observância primitiva da Ordem. Este religioso aconselhou-a a se fazer reclusa da Terceira da Ordem de São Francisco.
     Em 17 de setembro de 1402, festa dos Estigmas de São Francisco, ela pronunciou o voto de clausura, e passou a viver numa pequena ermida próxima da igreja paroquial de Nossa Senhora, em Corbie. Emparedaram-na entre dois contrafortes da igreja, numa pequeníssima cela que recebia a luz através de uma grade de ferro que dava para a igreja. Ali permaneceu por três anos, jejuando durante a Quaresma a pão e água, dormindo sobre um punhado de gravetos espalhados no chão.
A reformadora
     Em sua reclusão as visões se multiplicaram: por determinação de São Francisco e de Santa Clara, que lhe apareceram, ela devia reformar a Ordem segunda franciscana. Colete temia que tais visões fossem causadas "pelo inimigo do inferno". Ela consultou clérigos de seu meio e todos concordam em que ela devia agir. Após muita relutância, fruto de sua humildade, empreendeu a reforma inspirada por Deus.
     Ela precisava de alguém que a aconselhasse e mais uma vez a Providência vem em seu auxílio: o Padre Henrique de Baume, religioso franciscano de grande virtude, que sofria com a decadência da sua Ordem, tornou-se seu diretor espiritual e seu colaborador zeloso. Ele obtém a adesão da Condessa Branca de Genebra para a causa de Colete. Em Besançon, ele se encontra com Isabeau de Rochechouard, viúva do Barão de Brissay, que o acompanha a Corbie.
     Durante o Cisma havia três papas ao mesmo tempo: um em Roma, outro em Avinhão e o terceiro em Pisa. A França - bem como a Espanha e a Escócia - prestava obediência ao papa de Avinhão, que então era Bento XIII.
     Em 1406, obtida a dispensa do voto de reclusão perpétua, Colete dirigiu-se a Nice, acompanhada do Padre Baume e da Baronesa de Brissay, para se encontrar com Bento XIII. Expõe-lhe detalhadamente seu propósito restaurador.
     Depois de profunda reflexão, Bento XIII impôs-lhe o véu e o cordão seráfico e nomeou-a Superiora Geral de todos os conventos de Clarissas que viesse a fundar ou reformar. Autorizava Colete a transferir para o convento que fosse fundar as religiosas de mosteiros estrangeiros, e acolher eventualmente membros da Ordem Terceira franciscana. Bento XIII expediu a bula autorizando a reforma no dia 16 de outubro de 1406.
     Os católicos viviam na perplexidade e na boa vontade durante esses tormentosos anos do Cisma; estavam do lado que tinham por autêntico, ou que lhes indicavam suas autoridades. Santa Catarina de Siena e Santa Catarina da Suécia estavam com o papa de Roma, enquanto São Vicente Ferrer e Santa Colete estavam com o de Avinhão, concretamente com Bento XIII.
     Não foi fácil para Colete dar andamento aos seus projetos imediatamente. Durante alguns anos suas tentativas de reforma fracassaram. Seu empenho teve o apoio de personagens tão relevantes como a Condessa de Genebra e das duquesas de Borgonha e da Baviera.
     No Franche-Comté, com mais três amigas, que se tornaram suas primeiras filhas, ela se instalou. A comunidade logo cresceu e foi preciso procurar um lugar mais espaçoso. Em 1410, conseguiu finalmente autorização para ocupar o convento de urbanistas de Besançon, onde viviam apenas duas irmãs. A reforma estava assegurada. Àquele convento logo seguiram outros até um total de 17, reformados ou novas fundações.
     Como norma, cada convento devia ter quatro frades a seu serviço. Assim, a dinâmica reformadora sempre mantinha contato com os Gerais Franciscanos. Os Gerais da Ordem, principalmente Antônio de Massa e Guilherme de Casal, aceitaram e confirmaram a bula de 1406. O espírito da reforma coletina se infiltrava sutilmente na Ordem primeira.
     Colete precisava criar as Constituições para reger tão numerosas fundações. Em 1430, ela redigiu um texto - conhecido como Sentimentos de Santa Colete - que foi remanejado em 1432 e aprovado em 28 de setembro de 1434 por Frei Guilherme de Casal. Este havia submetido o texto a dois cardeais e alguns outros teólogos, que deram sua aprovação.
     
Quanto ao ramo masculino, Santa Colete não tinha evidentemente jurisdição sobre a Ordem primeira, mas ela exerceu uma forte influência espiritual nela e conseguiu a adesão de alguns conventos masculinos à sua reforma. Segundo uma estimativa mais provável, em 1447, data da morte da Santa, a sua reforma contava com 17 conventos femininos e 7 masculinos.
     A reforma coletina estendeu-se rapidamente pela França, Espanha, Flandres e Saboia. Sob o impulso renovador de Santa Colete, os franciscanos voltaram a praticar aquilo que São Francisco havia querido para sua Ordem: vida de pobreza sem mitigações, vida austera, intensa oração pessoal e comunitária, e muita oração e penitência pela unidade da Igreja, então dividida pelo Cisma.
     Nos dias atuais, os conventos de "coletinas" são cerca de 140, a maior parte na Europa, embora haja alguns também na América, Ásia e África.
     A piedade de Colete, notável desde a infância, cresceu e a conduziu a um tal grau de união com Deus, que os êxtases tornaram-se contínuos. Por vezes, eles duravam vários dias. Ao redor dessa intensa vida mística, que a ação não obstava, gravitavam fenômenos tais como: levitação; eflúvios odoríferos que emanavam não somente da pessoa de Colete, mas das coisas que ela tocava; conhecimento das consciências; o estado das almas do Purgatório; dons de profecia.
     Santa Colete era de uma pureza requintada, e seu amor por esta virtude se manifestava por seu pendor irresistível pelas almas puras, as crianças também a atraiam, e mesmo os animais cuja aparência simbolizavam a pureza, como as rolas e os cordeiros.
     Ela protagonizou inúmeros milagres que favoreciam suas fundações: na reforma de Hesdin, recebeu uma soma de quinhentos escudos de ouro, de origem celeste; em Poligny, descoberta de água potável; a provisão de trigo de Auxonne não diminuía e possibilitava as religiosas reparti-lo com os frades de Dôle; um tonel de vinho encheu-se sob a ação das preces de Colete, e muitos outros fatos relatados em seu processo de canonização.
     Verdadeira filha da Igreja, ele sofria com o Cisma que dilacerava sua unidade, e trabalhou denodadamente com São Vicente Ferrer pela extinção do Cisma.
     Coleta era também filha da França. As nobres casas conflitantes, Armagnacs (partido do Duque d'Orleans) e Bourguignons (partido do Duque de Bourgogne), a chamaram para fundar conventos em seus domínios. Segundo depoimentos, ela certa vez conseguiu dissuadi-los de lutar. Apesar das tensões, Colete foi respeitada por ambas e pode continuar sua obra.
     Santa Colete viajou muito, operou numerosos milagres, suportou sofrimentos de toda a espécie. Ela foi uma mulher extraordinária que soube obter a colaboração de papas, frades, príncipes, duques para a sua obra.
     Santa Colete morreu em Gand, Bélgica, no dia 6 de março de 1447. As marcas de sua própria doença e do sofrimento desapareceram. Seu corpo tornou-se belo, com uma pele branca como a neve, membros flexíveis e exalando um celestial perfume. Como era seu desejo, o corpo foi sepultado direto na terra. Numeroso foi o público que compareceu às suas exéquias, atraídos por sua fama de virtude e pelos fatos maravilhosos que narravam sobre ela.
     O processo de sua canonização iniciou poucos anos após sua morte, em 1472, mas somente se tornaria realidade anos depois. O processo relata, além dos fatos mencionados, curas operadas em pessoas de suas comunidades e cinco casos de ressurreição. Colete foi beatificada em 23 de janeiro de 1740. Porém, ela só foi canonizada em 24 de maio de 1807, sob o pontificado de Pio VII. Sua festa é celebrada no dia 6 de março.
 
(*) Beguinaria: convento onde vivem religiosas sem pronunciar votos, cada qual ocupando o seu aposento à parte. Beguina é o nome dado a essas religiosas nos Países Baixos e na Bélgica.
 
Etimologia: Colete, ou Colette, abreviação de Nicolette, feminino de Nicolet, em português Nicolau, do grego Nikólaos: “vencedor (niko) do povo (laos)”.
 
Fonte: Colette de Corbie – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)
 
Postado neste blog em 6 de março de 2015

quarta-feira, 3 de março de 2021

Santa Cunegundes, Imperatriz, viúva e religiosa - 3 de março

      
     Santa Cunegundes era filha de Sigfrid, primeiro Conde de Luxemburgo, e de Edviges, sua piedosa esposa. Ela nasceu por volta do ano 975. Ela era uma descendente de sétima geração de Carlos Magno. Seus pais instilaram nela desde o berço os sentimentos mais ternos de piedade; casaram-na com Henrique, Duque da Baviera.
     O seu casamento com Henrique II foi espiritual, isto é, eles casaram-se com companheirismo religioso e pelo mútuo acordo de não consumarem o seu relacionamento. Os historiadores ainda debatem sobre a veracidade da história, mas segundo alguma fonte, o casal – inspirado pelo modelo de São José e da Virgem Maria – teria feito voto de perpétua virgindade, haja visto que não tiveram filhos. Outra fonte, no entanto, dá a entender que Henrique, ao perceber que Cunegundes era estéril, e embora ele a pudesse rejeitar, conforme os costumes germânicos, decidiu não repudiar sua mulher. O amor que ele nutria por Cunegundes era tão grande que o Imperador preferiu não ter filhos a ter que repudiar sua amada esposa.
     Ela foi coroada em Paderborn no dia de São Lourenço, ocasião em que fez grandes presentes para as igrejas da cidade. No ano de 1014, Cunegundes foi com o marido a Roma, e com ele recebeu a coroa do Sacro Império Romano das mãos do Papa Bento VIII.
     Antes de seu casamento, com o consentimento de Henrique, ela havia feito voto de virgindade. Caluniadores depois a acusaram junto a ele de ter tido liberdades com outros homens. Para remover o escândalo de tal calúnia, confiando em Deus, a santa Imperatriz andou sobre brasas incandescentes sem ser ferida provando assim sua inocência. O imperador condenou suas suspeitas e credulidade, e fez as pazes com ela. Eles viveram a partir desse momento com a maior união de corações, trabalhando para promover a honra de Deus e o avanço da piedade.
     Logo, a fama de santidade começou a circundar o casal. Durante sua vida, Cunegundes deu grandes mostras de piedade e caridade para com os pobres.
     Tendo certa vez se retirado em Hesse, ela caiu gravemente enferma e fez um voto: caso ela se recuperasse, fundaria um mosteiro, o que aconteceu. O mosteiro foi mandado executar por ela de forma imponente em um lugar chamado então Capungen, agora Kaffungen, perto de Cassel, na diocese de Paderborn, e deu-o às religiosas da Ordem de São Bento.
     Antes que a construção acabasse, Santo Henrique morreu, em 1024. Ela recomendou sua alma às orações dos súditos, especialmente às suas queridas monjas, e expressou seu desejo de se juntar a elas. Ela já havia esgotado os seus bens fundando bispados e mosteiros, e no auxílio aos pobres. Tudo o que era rico ou magnificente ela pensava ser mais adequado dar às igrejas do que ao seu palácio. Ela, portanto, tinha agora pouco para dar. Mas estava ainda sedenta de abraçar a pobreza evangélica perfeita e de renunciar a tudo para servir a Deus sem obstáculos.
     No dia do aniversário da morte de seu marido, no ano de 1025, ela reuniu muitos prelados para a dedicação da igreja de Kaffungen, e, após a leitura do Evangelho na Missa, Cunegundes ofereceu um pedaço da verdadeira cruz; depois tirou suas vestes imperiais e vestiu-se com um hábito pobre, seu cabelo foi cortado e o bispo colocou o véu e um anel como garantia de sua fidelidade a seu esposo celeste.
     Assim que foi consagrada a Deus, parecia ter esquecido totalmente que ela tinha sido imperatriz, e comportava-se como a última na casa. Nada ela temia mais do que aquilo que pudesse trazer-lhe à mente a lembrança de sua antiga dignidade. Ela rezava e lia muito, trabalhava com suas mãos, abominava a mínima aparência de mundanismo, e tinha um prazer singular em visitar e confortar os doentes. Assim ela passou os últimos 15 anos de sua vida, sem nunca gozar da menor preferência a qualquer religiosa da comunidade.
     Suas mortificações tornaram-na muito fraca e causaram sua última enfermidade. Seu mosteiro e toda a cidade de Cassel ficaram penalizados diante do pensamento de sua perda estar se aproximando; ela, porém, não parecia se preocupar: deitada sobre um tecido grosseiro, estava pronta para entregar sua alma, enquanto as orações da agonia eram lidas ao lado dela. Percebendo que estavam preparando um pano com franjas de ouro para cobrir seu corpo após a sua morte, ela ordenou que fosse retirado. Ela não ficou descansada enquanto não lhe foi prometido que ela seria enterrada como uma pobre religiosa em seu hábito.
     Ela faleceu no dia 3 de março de 1040.
O seu corpo foi depositado com honras solenes em Bamberg, junto dos ossos de seu esposo, Santo Henrique. A maior parte de suas relíquias ainda permanece na mesma igreja. Ela foi solenemente canonizada por Inocêncio III, em 19 de março de 1200. O autor de sua vida relaciona muitos milagres ocorridos em seu túmulo pela intercessão desta santa virgem e viúva.
     Santa Cunegundes é padroeira da diocese de Bamberg (Alemanha), de Luxemburgo, da Lituânia e da Polônia
 
Fontes:
De sua vida, escrito por um cânone de Bamberg, cerca do ano 1152: também a Dissertação de Henschenius, p. 267
cfr. As Vidas dos Santos, por Rev. Alban Butler, 1866. Volume III: Março, p. 501-502
 
Postado neste blog em 3 de março de 2013

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Santa Valburga, Virgem, Princesa e Abadessa beneditina – 25 de fevereiro


 
"Deus te ungiu com o óleo da alegria" (Salmo 54,8)
 
     Santa Valburga foi uma das mais populares santas da Idade Média. Ela nasceu na Inglaterra por volta de 710. Seu pai, Ricardo, rei dos saxões do oeste, possuía um castelo em Dorsetshire; sua mãe, Vinna, irmã de São Bonifácio, era piedosa e mãe extremosa. Ambos são venerados como santos pela Igreja. O casal teve três filhos: Vilibaldo, Vinibaldo e Valburga.
     Vilibaldo foi educado na Abadia de Waltham, perto de Winchester. Vinibaldo, de temperamento menos ativo e mais contemplativo, foi educado em casa. Quando tinha seis anos de idade, nasceu-lhe uma irmã que foi batizada com o nome de Valburga, equivalente no grego a Eucheria, que significa “graciosa”. Muito cedo perderam a mãe e uma amizade muito profunda ligou os dois irmãos.
     Em 721, Vilibaldo, então com cerca de vinte anos, manifestou o desejo de visitar a Terra Santa. Deixou a abadia com a licença de seu superior e voltou para Dorsetshire para persuadir o irmão a acompanhá-lo na viagem. Ricardo estava enfermo e Vinibaldo não queria deixá-lo só. Sequer mencionou ao pai os planos do irmão mais velho. Mas, este revelou seu plano e tão eloquente foi, que o pai resolveu acompanhar os filhos na peregrinação.
     Valburga tinha então 11 anos apenas. Ela sabia, contudo, que as peregrinações, muitos frequentes entre os saxões, exigiam muito dos viajantes que enfrentavam dificuldades e perigos; muitos meses se haviam de passar antes que fosse possível receber notícias dos peregrinos; o seu pai era velho, talvez não resistisse aos rigores da penosa e longa peregrinação... Todavia, nada fez para dissuadir seu pai de tão santa decisão.
     A Rainha Cuthberga fundara recentemente em Dorsetshire a Abadia de Wimbourne. Esposa do Rei Alfredo, a rainha sentira um chamado para uma dedicação total a Deus e obtivera licença do esposo para se tornar monja. O magnífico mosteiro duplo de Wimbourne tornou-se logo célebre pela santidade de seus habitantes e austeridade da sua disciplina.
     Ricardo resolveu levar a pequena Valburga para esta grande abadia, para que dela cuidassem as monjas enquanto ele se ausentava. Ao se despedir de seu pai, Valburga não imaginava que não o tornaria a ver: o santo homem faleceu na Itália, sendo sepultado pelos dois filhos em Lucca.
     Enquanto seus irmãos abraçavam a vida monástica em Roma, Valburga adotou também o estado religioso, passando vinte e seis anos em Wimbourne.
     Destes vinte e seis anos pouco se sabe, mas, tendo em vista que o nível intelectual das monjas daquele mosteiro era muito elevado, pois escreviam com fluência o latim e o grego, e com facilidade citavam os clássicos, sendo notáveis suas iluminuras e transcrições de Missas, Sagradas Escrituras etc., além de bordados em fio de ouro e prata, presume-se que Valburga recebeu sólida instrução e aperfeiçoou-se em todos estes trabalhos.
     Aconteceu então que São Bonifácio, tio de Valburga, o grande apóstolo da Alemanha, foi a Roma pedir ajuda para o seu trabalho missionário naquela região. O Papa instou Vilibaldo e Vinibaldo a acompanharem o dedicado tio.
     Mais tarde, por meio de uma carta dirigida a Lioba, sua prima, e a Valburga, sua sobrinha, São Bonifácio convidou-as a fundar um mosteiro em sua diocese, para mostrar às mulheres daquela região o exemplo das virgens cristãs. Após breves preparativos Santa Lioba e Santa Valburga, com algumas companheiras, deixaram sua terra natal para devotar suas vidas à conversão da Alemanha.
     Durante a viagem da Inglaterra para a Alemanha as monjas enfrentaram uma tempestade que obrigou os marinheiros a se desfazerem da carga. Valburga implorou a Deus e, sobrevindo repentina calma, os viajantes desembarcaram sãos e salvos em Antuérpia. Ao desembarcar, os marinheiros proclamaram o milagre que haviam testemunhado, de modo que Valburga foi recebida em todos os lugares com alegria e veneração. Na mais antiga igreja desta cidade há uma gruta onde Santa Valburga costumava rezar enquanto esperava para reiniciarem a viagem. Ela é muito venerada naquela cidade desde sua permanência ali.
     Vilibaldo fundou o Mosteiro de “Eihstat”, que se tornaria mais tarde a Diocese de Eichstätt. Valburga tornou-se abadessa de um mosteiro beneditino feminino em Heidenheim - morada dos pagãos, em alemão - local onde já se instalara seu irmão Vinibaldo com seus monges. Em breve o significado desse nome perderia o sentido, pois os dois mosteiros converteram gradualmente a aridez espiritual e material da região, e os campos deram abundantes colheitas.
     À morte de seu irmão, Valburga assumiu a direção do mosteiro masculino que ele dirigira. Ela era muito respeitada e amada ainda em vida. Sua vida de profunda oração, sua caridade e coragem, bem como os milagres que ela realizava, tornaram-na venerada pelo povo que vivia à sombra dos mosteiros dirigidos por ela.
     Nos últimos anos, conforme relata o monge Wolfhard que escreveu sua vida mais ou menos cem anos depois de sua morte, ela "confirmada no santo amor de Deus, tendo vencido o mundo e todos os seus atrativos, repleta de fé, saturada de caridade com os adornos da sabedoria e a joia da castidade, notável pela benevolência e humildade, foi receber o galardão que devia coroar tantas virtudes".
     Santa Valburga foi assistida por seu irmão São Vilibaldo em seus últimos momentos, tendo ele lhe administrado os Sacramentos. Ela faleceu em 25 de fevereiro de 779 e foi sepultada ao lado do irmão Vinibaldo.
     São Vilibaldo viveu até 786, e após sua morte a devoção à Santa Valburga gradualmente declinou, e seu túmulo foi negligenciado. Por volta de 870, Otkar, então bispo de Eichstätt, decidiu restaurar a igreja e o mosteiro de Heidenheim, que estavam caindo em ruínas. Os operários profanaram o túmulo de Santa Valburga. Uma noite ela apareceu para o bispo, repreendendo-o e ameaçando-o. Isso levou ao traslado solene dos seus restos mortais para Eichstätt em 21 de setembro do mesmo ano. O corpo de Santa Valburga que foi encontrado incorrupto e coberto por um fluido precioso, qual puríssimo óleo.
     Em 893, o Bispo Erchanbold, sucessor de Otkar, abriu o santuário para retirar uma parte das relíquias para Lioba, Abadessa de Monheim, e o corpo foi descoberto mais uma vez como imerso em um precioso óleo ou orvalho, que até hoje (salvo durante um período em que Eichstätt foi colocado sob interdição, e quando o sangue foi derramado na igreja por ladrões que feriram gravemente o tocador de sino) continuou a fluir dos restos sagrados.
     Há mais de mil anos esta misteriosa umidade oleosa, que é coletada das relíquias de Santa Valburga pelas monjas, vem operando milagrosas curas. Os documentos mais antigos que relatam os milagres atribuídos ao óleo foram escritos entre 893 e 900.
     Este óleo tornou-se conhecido como "óleo de Santa Valburga" e vem sendo um sinal de sua contínua intercessão. O óleo é colocado pelas religiosas em pequenas ampolas de vidro que são dadas aos peregrinos. Curas atribuídas à intercessão de Santa Valburga acontecem até os nossos dias.
     No Martirológio Romano ela é comemorada em 1 de maio, seu nome está ligado à Santo Asafe, cujo principal festival é celebrado na Bélgica e na Baviera. No Breviário Beneditino sua festa é atribuída a 25 (no ano bissexto 26) de fevereiro.
     Ela é a padroeira de Eichstätt, Oudenarde, Furnes, Antuérpia, Gronigen, Weilburg e Zutphen, e é invocada como patrona especial contra a hidrofobia, e em tempestades também por marinheiros.
*
 
   No século XVI, a terra natal de Santa Valburga, Inglaterra, separou-se da Igreja Católica após séculos de fidelidade a Roma. Naquele século, muitos católicos foram martirizados por não aceitarem a nova igreja fundada pelo rei Henrique VIII, que se autoproclamou chefe da Igreja Anglicana. Depois dele, os reis da Inglaterra sempre exerceram aquele cargo até os dias de hoje.
     Neste início do século XXI, entretanto, uma onda de conversões de anglicanos percorreu todo o Reino Unido (Inglaterra e suas ex-colônias).



Ampola que continha o "óleo de Santa Valburga" e é guardada com
todo respeito por ter contido um dom desta grande Santa.

Postado neste blog em 25 de fevereiro de 2011
 
Fontes:
Gertrude Casanova (Enciclopédia Católica) - https://nobility.org/