quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Beata Eufemia Domitila, Princesa, dominicana- 17 de janeiro

   
      Em 1299, no castelo de Racibórz (uma cidade na Silésia), nasceu Eufêmia, a segunda filha do duque Przemislau de Ratibor e de sua esposa Ana, filha de Konrad II Czerski. A menina adotou o sobrenome da avó paterna, com o diminutivo Ofka. Seu pai fez um voto a Deus e à Virgem Maria de que fundaria um convento dominicano onde uma de suas filhas se tornaria freira. A promessa tornou-se realidade poucos anos depois, em 1306, com a construção do Convento de Santp Espírito.
    Ofka passou a infância na corte, recebendo uma educação profundamente religiosa. Ela estudou no convento de Santa Catarina, passando muitas horas do dia em oração: gostava de meditar em particular na Paixão do Senhor, mesmo com vigílias noturnas. Ela tinha grande devoção ao Santíssimo Sacramento e se preparava cuidadosamente para assistir à missa. Ela acrescentou atos penitenciais às suas orações: jejum e cilício. 
    O seu primeiro biógrafo narra um acontecimento milagroso que confirmou sua vocação: uma noite ela viu a igreja dominicana em Racibórz iluminada por três raios e num fulgor a pomba do Espírito Santo. Assim, o voto de seu pai se tornou realidade, embora o casamento com o Duque de Brunswick estivesse sendo arranjado em 1311. 
     Aos 14 anos, Ofka vestiu o hábito religioso, com uma cerimônia solene, tornando-se Irmã Domitila Eufemia. Ela viveria o resto da vida em reclusão.
     Ela ocupou o cargo de prioresa várias vezes, pelo menos nos anos de 1341, 1344 e 1349-1359. Existem trinta e um documentos legais assinados por ela, sabemos também que ela se dedicou à construção da igreja, até 1334, e à expansão do mosteiro graças às generosas doações que conseguiu administrar. 
     Nicolau II de Przemyśl foi tão benevolente com o mosteiro que confiou suas três filhas às freiras para educação: Agnieszka e Elżbieta, mais tarde se tornaram freiras, enquanto uma irmã entrou depois de ficar viúva. Irmã Eufemia Domitila conseguiu obter do Papa Clemente VI a aprovação do mosteiro, de estrita observância, com uma bula papal datada de 6 de junho de 1343.
      A espiritualidade de Irmã Eufêmia era cristocêntrica, mas ela também tinha uma forte devoção mariana, tanto que era sempre retratada com o Rosário na mão. Ela levou suas monjas a viver uma consagração autenticamente contemplativa, no espírito da Ordem dos Pregadores. Ela também cuidou da educação das meninas do mosteiro como internas. 
     Para os pobres e necessitados que batiam à porta do convento, nunca faltou ajuda, mesmo em tempos de dificuldades econômicas devido a guerras ou desastres naturais. Ao longo dos anos, a Irmã Eufemia Domitila intensificou suas práticas ascéticas, e sua vida de abnegação era bem conhecida além dos muros do convento.
      Após cerca de um ano de doença, ela morreu em 17 de janeiro de 1359 e foi enterrada na cripta sob a capela de São Domingos, no mausoléu dos Duques de Racibórz. Sua memória permaneceu viva, alguns retratos foram espalhados. Um número cada vez maior de pessoas, rezando a ela, obtinham graças e milagres. 
     O processo de beatificação foi iniciado em 1606 e uma biografia foi publicada. Em 1659, no 300º aniversário de sua morte, a cripta foi reformada e seus restos mortais foram examinados. Em 1737, a capela e o túmulo de Eufêmia foram reconstruídos em estilo barroco tardio. 
     Nos anos de 1734-1735 o processo de beatificação foi retomado, interrompido pelas guerras e em 1810 pela supressão do mosteiro. Em 1821, as relíquias foram transferidas para a Capela Polonesa da igreja paroquial. Em 1936, o sarcófago foi restaurado, mas infelizmente em 1945, quando o Exército Vermelho conquistou Racibórz, ele foi incendiado. Irmã Eufemia Domitila é venerada como beata pelo povo, uma Confraria local a considera sua fundadora.
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Racibórz

   O Ducado de Racibórz foi formado em 1172 como território de Mieszko, tendo como principais cidades Racibórz, Koźle e Cieszyn.
     Após várias anexações, em 1327 o filho do Duque Przemysław, Duque Leszek, prestou homenagem a D. João da Boêmia, após o que seu ducado se torna um feudo da Boemia.
     Após Leszek morrer sem herdeiros, em 1336, o Rei João concedeu o ducado para o Duque Nicolas II de Opava, formando o Estado Ducado de Opava e Racibórz. O ducado iria sofrer várias alterações territoriais até em 1521 foi novamente fundido com Opole sob o governo do Duque Jan II, o Bom.
      Após a morte do Duque Jan em 1532, o Ducado de Opole e Racibórz voltou a pertencer aos Habsburgo, reis da Boêmia desde 1526. O feudo foi dado em penhor ao Margrave George de Brandenburg Ansbach da Casa de Hohenzollern, mais tarde brevemente para a polonesa Casa de Vasa e, finalmente, foi anexado e incorporado ao Reino da Prússia pelo Tratado de Breslau em 1742.
     O título de "Duque de Ratibor" foi adquirido pelo Landgrave Victor Amadeus de Hesse Rotenburg em 1821. Em 1840 o rei Frederico Guilherme IV da Prússia concedeu-o para o sobrinho do landgrave, Príncipe Victor de Hohenlohe Schillingsfürst, que por sua vez renunciou em favor de seu irmão mais novo Chlodwig.
     Atualmente Racibórz é uma cidade da Polônia, do Condado de Raciborski. Estende-se por uma área de 74,96 km2, com 60.218 habitantes, segundo o censo de 2006.

Racibórz, Igreja do Espírito Santo



terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Beata Alfonsa Clerici, Religiosa do Preciosíssimo Sangue – 14 de janeiro


Religiosa das Irmãs do Preciosíssimo Sangue de Monza, Congregação fundada pela Venerável Maria Matilde Bucchi

     Alfonsa Clerici nasceu em 14 de fevereiro de 1860 perto de Milão, a mais velha de dez filhos de Ângelo e Maria Romano Clerici, quatro dos quais morreram na infância. Alfonsa foi batizada em 15 de fevereiro na igreja de San Vitor Mártir.
     Dois de seus irmãos, Ildefonso e Próspero, juntaram-se aos barnabitas, enquanto sua irmã, Boaventura, ingressou nas Irmãs do Preciosíssimo Sangue em Monza. 
     Em 6 de outubro de 1868, aos oito anos de idade, Alfonsa recebeu a Confirmação na igreja de Santo Estêvão e sua Primeira Comunhão foi celebrada em algum momento entre 1870 e 1872.
     Em 1875, Alfonsa matriculou-se no Colégio do Preciosíssimo Sangue em Monza. Ela se formou em 1879 e passou a lecionar na escola comunitária de Lainate por quatro anos. Alfonsa sentiu um forte desejo de entrar na vida religiosa, mas decidiu adiar os planos, pois ainda tinha que sustentar seus pais e irmãos. Ela prosseguiu seu chamado não muito tempo depois e se juntou às irmãs em Monza em 15 de agosto de 1883, Festa da Assunção.
     O apostolado das Irmãs do Precioso Sangue é a educação das jovens. Alfonsa recebeu o hábito e iniciou seu noviciado em agosto de 1884, fazendo seus primeiros votos em 7 de setembro de 1886; algumas semanas antes disso, sua irmã fez seus votos perpétuos na congregação.
     Alfonsa serviu como professora no colégio das irmãs de Monza de 1887 a 1889 e foi nomeada vice-diretora em 18 de outubro de 1898. No mês seguinte, ela foi nomeada diretora. Ela também atuou como secretária e conselheira geral do Instituto. 
     Em 1911, o bispo Teodoro Valfré di Bonzo pediu a Alfonsa que assumisse a administração da Ritiro della Provvidenza ("Casa da Providência"), estabelecida em Vercelli em 1840 para a educação de meninas e filhas de famílias pobres. Ela mudou-se para Vercelli em 20 de novembro de 1911 e permaneceria lá pelos próximos dezenove anos. 
     A Beata sofreu uma hemorragia cerebral na noite de 12 para 13 de janeiro de 1930 enquanto orava e caiu de bruços no chão. Ela morreu às 13h30 de 14 de janeiro de 1930, um mês antes de seu septuagésimo aniversário. Ela foi enterrada em Vercelli após um funeral em 16 de janeiro, mas foi enterrada novamente em Monza em 8 de maio de 1965. 
Beatificação
     O processo de beatificação começou na Arquidiocese de Vercelli em 13 de janeiro de 1966 e viu o acúmulo de documentação para apoiar a reputação de santidade de Alfonsa Clerici. A fase inicial foi concluída em 30 de junho de 1969. Em 4 de janeiro de 1974, ela recebeu o título Serva de Deus. A Congregação para as Causas dos Santos aceitou os materiais preliminares em 18 de novembro de 1988.
     Alfonsa Clerici foi intitulada venerável em 22 de junho de 2004, quando o Papa João Paulo II reconheceu uma vida de virtude heroicas. Um milagre foi investigado em um processo diocesano que começou em 16 de fevereiro de 2004 e terminou em 24 de junho de 2004. A Congregação validou-o em 5 de novembro de 2004 e passou-o a uma junta médica que aprovou a cura em 27 de novembro de 2008. O milagre em questão envolveu a cura da condição cardíaca quase fatal de Nedo Frosini depois que sua esposa Carla Demi Frosini recorreu à intercessão da falecida religiosa. Os teólogos consultores também aprovaram a cura em 22 de abril de 2009, enquanto a própria Congregação seguiu o exemplo em 13 de abril de 2010. Com o reconhecimento do milagre em 1º de julho de 2010, o Papa Bento XVI aprovou a beatificação. D. Ângelo Amato, Pró-Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, presidiu a beatificação em nome do papa em 23 de outubro de 2010. 


Ir. Alfonsa Clerici (Pensamentos)
     "Santíssima Virgem Maria, inspira, para minha Congregação, vocações de jovens boas e corajosas, que possam dar glória ao Precioso Sangue do teu Jesus, pela prática generosa dos santos Votos e pelo cumprimento das santas Regras".
     "Senhor, dá-me o amor no sofrimento, dá-me o amor na penitência e no sacrifício, dá-me o amor para renunciar a mim mesma. Concede-me que ame Tua cruz, concede-me que ame teu Preciosíssimo Sangue".
     "Verbo da Eucaristia, eu creio em Ti e Te adoro com todas as forças do meu coração. Permanecestes conosco para seres nosso Pai, nosso irmão, nosso Amigo. Teu Coração, transbordante de amor pela humanidade, está sempre pronto a acolher e a fazer o bem a todos, amigos ou inimigos".

Alfonsa Clerici – Wikipédia, a enciclopédia livre
https://anastpaul.com/

domingo, 12 de janeiro de 2025

Santa Margarida Bourgeoys, Fundadora - 12 de janeiro


     A cidade de Montreal (Canadá) deve sua origem a um grupo de fiéis, homens e mulheres da França do século dezessete, cujo sonho era levar aos povos do Novo Mundo o que consideravam como seu bem mais precioso: sua fé. Foi com a esperança de realizar este objetivo que estabeleceram uma colônia na ilha de Montreal. Em maio de 1642 a Vila Maria era fundada na ilha de Montreal. Margarida Bourgeoys chegou à nascente Vila Maria em 1653. A fundação vivia então o temor de todos os perigos aos quais estava exposta.
     A chegada de Margarida, onze anos depois da fundação, realizava uma parte do plano inicial, que previa a educação das crianças da colônia. Ela acompanhava o “recrutamento dos cem homens”, com o qual se contava salvar Vila Maria, que em 1653 enfrentava uma tremenda alternativa: abandonar o novo posto ou aumentar seus habitantes.
     Com aqueles homens e aquelas mulheres, compartilhava tanto os perigos e as privações, como os esforços e as esperanças que marcavam o ritmo da vida da colônia nascente. Como eles, era vulnerável às ameaças que a rodeavam: ataques dos inimigos ou enfermidades, bem como as incompreensões das autoridades da Igreja e do Estado, algumas vezes hostis ou incompetentes.
     Como muitos dos que participaram da direção dos trabalhos de fundação de Montreal, Margarida Bourgeoys vinha de uma região da França onde desde a Idade Média as mulheres colaboravam ativamente na sociedade. Ela estava convencida da importância do papel das mulheres na colônia: nas mãos das educadoras, nas mãos das futuras esposas e mães repousava o futuro do Canadá. Como consequência, considerava sua educação como uma prioridade.
     A educação que Margarida e suas companheiras davam às crianças, meninos e meninas no começo, bem como às mulheres da Nova França, era antes de tudo a educação da fé. A fé que Margarida expressava tanto na sua vida como em suas palavras, era a alma de todo seu ensinamento, era uma fé baseada no mandamento do Novo Testamento: Amarás ao Senhor teu Deus de todo coração, de toda tua alma e ao próximo como a ti mesmo.
     Além dos valores religiosos, Margarida preparava as crianças, em sua maioria filhos dos colonos que edificavam Montreal, para o desafio de ganhar a vida para si e para suas famílias e construir um país novo.
A Fundadora
     Margarida nasceu no dia 7 de abril de 1620, em Troyes, antiga capital da Champagne, sexta de doze filhos de comerciantes de cera. Na cidade natal freqüentou a escola elementar. Nas suas “Memórias” a Santa revela a sua vocação precoce. “Desde minha primeira juventude o Senhor me deu uma particular inclinação para reunir as jovens da minha idade”. Com elas não só jogava, como costurava e rezava.
     Aos dezenove anos, com a morte da mãe, Margarida assume a direção da casa. Participando de uma procissão no primeiro domingo de outubro de 1640, Margarida passou diante do portal da abadia e ergueu o olhar na direção de uma imagem de Nossa Senhora. Por um instante o rosto da Virgem lhe pareceu vivo e sorridente, e ela sentiu-se livre dos sentimentos de vaidade que a vinham acometendo. Ela considerou sempre tal episódio como “a sua conversão”.
     Bourgeoys conta em suas memórias: “Voltamos em frente ao portal [da abadia] de Notre Dame onde há uma imagem de pedra [da Virgem] em cima da porta e olhando para ela achei muito bonita e ao mesmo tempo fiquei “tão tocada e tão mudada que não me conhecia mais”.
     Comovida pelo olhar da imagem de Maria, ela experimentou o chamado de Deus, como se de repente tivesse surgido a convicção de que não poderia viver de outra forma senão consagrando-se a Deus. Naquele dia, tudo em sua vida começaria a se encaminhar para se tornar religiosa e servir aos mais necessitados.
     Para corresponder à graça recebida, Margarida entrou na Congregação das Irmãs de Nossa Senhora, fundada por São Pedro Fourier e ali fez os votos.
     Seu diretor espiritual, Monsenhor Jendret, lhe propôs a fundação de uma congregação de religiosas que embora vivendo em comunidade trabalhassem no mundo a favor dos pobres, dos doentes e dos ignorantes. Como tal empreendimento não fosse momentaneamente levado adiante, Margarida retoma sua vida de oração e de assistência aos pobres e doentes.
     Em 1650, no dia da Assunção, prostrada em adoração ao Santíssimo Sacramento, viu, ao lado da Hóstia, o Menino Jesus que lhe sorria sem nada dizer.
     Um dia recebe a visita do governador do Canadá, Paul Chomedey de Maisonneuve, considerado pelos contemporâneos “um verdadeiro cavaleiro, forte e corajoso como um leão e piedoso como um monge”, francês de origem, que propõe a Margarida transferir-se para Montreal para abrir uma escola elementar.
     Na noite anterior, São Francisco aparecera à Santa em sonho acompanhado daquele senhor. Ela não hesitou em colocar-se à sua disposição, no caso de seus superiores consentirem. Os parentes procuraram retê-la, mas, no início de 1653, embarcou para o Novo Mundo, sem dinheiro nem vestiário, não sem antes renunciar legalmente à sua parte na herança. A viagem durou três meses e foi trágica: a peste se espalhou a bordo e Margarida se tornou enfermeira, médica e sacerdote.
     Em Vila Maria, na ilha de Montreal, ao lado do forte onde Margarida se alojou, surgira um pequeno hospital fundado pela Serva de Deus Jeanne Mance em 1645. As duas heroínas da caridade logo se tornaram amigas e colaboradoras. A principal ocupação da Santa era dar aulas aos filhos dos colonos, mas também seria enfermeira no hospital e auxiliadora dos soldados mais pobres.
Serva de Deus
Jeanne Mince
     Escoltada por trinta homens, fez reconstruir a grande cruz que Maisonneuve havia erigido sobre a montanha vizinha, em cumprimento a um voto, e que os iroqueses tinham abatido. Libertou o governador de grave tentação, exortando-o a cumprir o voto de castidade. Enfim, idealizou a construção da primeira igreja de pedra dedicada a Nossa Senhora.
     Em 1658, após quatro anos de intensa atividade, Margarida conseguiu abrir a primeira escola. Como os trabalhos se multiplicassem, a Santa pensou em procurar na França jovens desejosas de servir a Deus no próximo. O seu plano para o futuro constava de um pequeno instituto para as crianças indígenas, uma associação para as jovens e um círculo para os jovens esposos, com a finalidade de preparar boas mães de família. Encontrou quatro jovens na França dispostas a segui-la, e a amiga Jeanne Mance ajudou-a a encontrar reforços para suas obras.
     As obras de Madre Bourgeoys foram se consolidando, o que lhe pareceu uma confirmação da Providência para que ela realizasse a fundação da Congregação de Nossa Senhora de Montreal. A doação de terras efetuadas em 1662 pelo governador é uma nova forma de apoio à obra.
     As irmãs criaram e administraram uma fazenda onde produziram alimentos suficientes para ajudar a enfrentar a fome que atingiu o povo de Ville-Marie. E não só isso, as freiras transformaram o local num centro de instrução para agricultores onde os camponeses aprenderam sobre a criação de animais e o cultivo de especiarias.
A Santa e Maisonneuve
diante da Cruz
     Para obter autorização real e encontrar novas vocações, a Fundadora viajou novamente para a França em 1670. Ajudada pela “Companhia de Montreal”, consegue ser recebida por Luiz XIV, que lhe concedeu tudo que desejava. A única preocupação da Madre era então dar uma formação religiosa ao seu Instituto, como ela anotou em suas “Memórias”: “Nos é sempre lembrado que um certo espírito de humildade, de simplicidade, de docilidade, de obediência, de pobreza, de desprendimento de todas as coisas e de abandono à Divina Providência deve ser o verdadeiro espírito da Congregação”.
     O primeiro Bispo de Quebec, Monsenhor de Laval, erigiu a Congregação em 1676. Madre Margarida fundava uma das primeiras comunidades religiosas de mulheres não enclausuradas da Igreja, as quais deviam prover as suas próprias necessidades, e que sobrevivem até hoje. Sua característica é resultado da experiência adquirida por Margarida ao longo do que se tem chamado “o período heroico da história de Montreal”. Sua fonte de inspiração foi a Santíssima Virgem, que ela considerava como a primeira e a mais fervorosa dos discípulos do Senhor, ensinando e fazendo o bem na Igreja primitiva.
     Se fossemos perguntar a Madre Margarida qual foi o melhor momento de sua vida, acreditamos que ela teria escolhido o período compreendido entre 1653, com a saída de Paul de Chomedey de Maisonneuve e a chegada do batalhão de Carignan. Foram anos de luta, de perigo, de privação e de prova; foram também anos de esperança, de amizade e de sonhos compartilhados. Naqueles anos, Margarida conhecia cada colono e cada mulher de Montreal, muitos dos quais intimamente: ela era parte de suas vidas como eles eram da sua.
     Durante sua vida, a Congregação contou não somente com mulheres francesas, mas também com norte-americanas de ascendência francesa, ameríndia e até inglesa. Sua ação educadora se estendeu até Quebec e aos pequenos povoados ao redor de São Lourenço.
     Como tantas outras fundadoras de congregações religiosas, Margarida é conhecida por sua obra, para cuja realização sofreu a dupla prova de ter posta em dúvida sua capacidade de realização, e de sentir-se terrivelmente indigna aos olhos de Deus. Porém, sua coragem e seu ardente desejo de ajudar as crianças e a todos, levou-a sempre para frente. Ela dizia: “Quero a todo custo não apenas amar ao meu próximo, mas fazer-me amada por eles”.
     Em 1698, após quarenta anos, o Senhor concedeu-lhe a alegria de ver sua Congregação ser aprovada como ela a havia concebido: além dos três votos, as religiosas fazem o de instruírem e educarem a juventude feminina. Com isso, ela pôde finalmente pronunciar seus votos perpétuos aos 78 anos. 
     Em 19 de setembro de 1693, aos 72 anos, Madre Margarida havia renunciado ao cargo de superiora, quando suas forças começavam a declinar. Eis as palavras que dirigiu à comunidade na ocasião:
     “Agora não se trata mais de falar de mim senão como uma miserável, que por não ter sido fiel ao empreendimento que me foi confiado tão amorosamente, merece grandíssimos castigos, que aumentaram ainda por causa da pena que meu relaxamento vos fez sofrer. Peço-vos perdão e o auxílio de vossas orações. Coloquem aqui o remédio enquanto for possível. É preciso mudar prontamente de superiora, e a que for eleita faça observar exatamente a Regra, até nas maiores minúcias, porque sem isto, que coisa se fará nesta comunidade diferente do que fazem as pessoas do mundo que vivem cristãmente? Mantende-vos no espírito que deveis ter, que é de pobreza, de mortificação, de obediência e de abandono nas mãos de Deus”.
     Nos últimos anos de vida, Madre Margarida viveu serena e em perfeita conformidade com a vontade de Deus. O resto de seus dias passou rezando e escrevendo suas memórias.
     Confinada na enfermaria, a Fundadora se preparou para a morte cosendo, rezando e exortando as Irmãs à fidelidade ao dever, à caridade e à observância da Regra. O fim chegou de forma inesperada. No último dia do ano 1699, a fundadora ofereceu sua vida para salvar a da mestra de noviças, que estava gravemente enferma. A mestra de noviças recobrou a saúde e a Madre Bourgeoys morreu no dia 12 de janeiro de 1700.
     Pio XII a beatificou em 12 de novembro de 1950, e foi canonizada por João Paulo II em 31 de outubro de 1982

Fontes: Museu “Margarida Bourgeoys”; www.santiebeati.it

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Beata Ana dos Anjos Monteagudo, Dominicana - 10 de janeiro

     
     Ana Monteagudo Ponce de León nasceu em Arequipa no dia 26 de julho de 1602, filha do espanhol Sebastián Monteagudo de la Jara e da arequipenha Francisca Ponce de León.
     Conforme os costumes da época, com três anos seus pais a enviaram ao Mosteiro de Santa Catarina para ali ser educada. Voltou ao lar por decisão de seus pais quando tinha 14 anos. Nem os atrativos do mundo nem as perspectivas de um vantajoso casamento a atraiam.
     Conta-se que um dia teve uma visão de Santa Catarina de Sena na qual a santa lhe mostrava o hábito das freiras dominicanas de clausura. Para Ana, aquela visão era confirmação suficiente de seu chamado e se tornaria um poderoso argumento para voltar ao mosteiro.
     Seus pais tentaram dissuadi-la. Ofereceram-lhe joias, vestidos e confortos, mas a beata manteve-se firme. Com o tempo, seu pai seria o primeiro a aceitar sua decisão, enquanto sua mãe, com o coração partido, deu seu consentimento, mas pediu que ela não voltasse mais para casa. O dote para entrar no mosteiro foi pago pelo seu irmão Francisco, que teria sido padre.
     Em 1618 iniciou o noviciado e acrescentou o apelativo "dos Anjos" ao seu nome. A aspereza da vida conventual não a intimidava. Vivia com entusiasmo o ideal de São Domingo de Guzmán e de Santa Catarina de Siena.
     No mosteiro, até 1632, exerceu os cargos de Sacristã; depois, até 1645, o de Mestra de Noviças; finalmente, o de Priora até 1647.
     Conta-se que a Irmã Ana sempre se sentiu incapaz para o cargo mais elevado do mosteiro, mas que repetia continuamente que fazia o possível para servir a Deus no lugar que lhe fora confiado.
     Algumas dessas histórias evocam as tentativas de rebelião de suas irmãs e mais de uma conspiração para envenená-la. A causa: o descontentamento com as medidas de austeridade que a irmã Ana tinha imposto e a sua ordem expressa de que as freiras vestissem apenas o hábito, sem qualquer adorno adicional – um regresso ao espírito essencial da Ordem.
     Na época o mosteiro era habitado por cerca de 300 religiosas, nem todas desejosas de perfeição. Sua obra reformadora sofreu oposições, mas ela permaneceu sempre fiel à observância conventual, mantendo maturidade e equilíbrio. 
     Assim, Irmã Ana acabou por liderar uma reforma radical do mosteiro centrada exclusivamente no desejo de santidade: “Ela sabia acolher todos os que dela dependiam, orientando-os pelos caminhos do perdão e da vida da graça”.
     Exemplar na oração e na caridade, atendeu com abnegação e heroicidade as vítimas de uma peste que assolou Arequipa. “Ela fez sua presença escondida ser notada além dos muros do seu convento, com a fama da sua santidade. Ajudava os bispos e os padres com as suas orações e conselhos; acompanhava com a sua oração os caminhantes e peregrinos que a procuravam”,
     Dentro e fora do mosteiro praticava as virtudes, mantinha a serenidade e a paciência nos sofrimentos, prodigalizando nos conselhos e no espírito apostólico, com grande misericórdia inclusive com relação às almas do Purgatório.
     Um aspecto muito bonito da vida da beata era a estreita relação que mantinha com as almas do Purgatório, a quem chamava de “suas amigas” e pelas quais rezava incessantemente. “Desta forma, iluminando a piedade ancestral pelos defuntos com a doutrina da Igreja, seguindo o exemplo de São Nicolau de Tolentino, de quem era devota, estendeu a sua caridade aos defuntos com suas orações e sufrágios.
Procissão com a imagem da beata
     Irmã Ana também é conhecida pelo seu dom de profecia. Previu várias vezes sobre as doenças de seus parentes: para alguns ela previu a cura e, em outros casos, a morte inevitável.
     Depois de dez anos de enfermidade, que a tornaram paralítica e cega, faleceu no dia 10 de janeiro de 1686, aos 84 anos de idade. Já em vida gozava de fama de santidade.
     Em 2 de fevereiro de 1985 foi beatificada em Arequipa por João Paulo II, durante sua viagem ao Peru.
     A Beata Ana dos Anjos passou quase setenta anos no mosteiro dominicano em Arequipa, Peru. Inteiramente dedicada ao serviço divino, ela era como um anjo do bom conselho para seu povo. Seus restos mortais repousam em Arequipa, no mosteiro de Santa Catarina de Sena.
Mosteiro de Sta Catarina de Siena, Arequipa, Peru


Martirológio romano: Em Arequipa, no Peru, a Beata Ana dos Anjos Monteagudo, virgem da Ordem dos Pregadores, que com o dom do conselho e com a profecia trabalhou generosamente pelo bem de toda a cidade.

Fontes: http://www.santiebeati.it/detaglio/90750  
Santo do dia: Hoje é celebrada a beata Ana dos Anjos, amiga das almas do purgatório

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Beata Eurósia Fabris Barban, viúva, mãe de família - 8 de janeiro

     
    Eurósia Fabris nasceu em Quinto Vicentino (Vicenza, Itália), uma aldeia agrícola a poucos quilômetros de Vicenza, no dia 27 de setembro de 1866. Era filha de Luís e de Maria Fabris, humildes lavradores.
     Em 1870, Eurósia tinha quatro anos quando foi viver com a família em Marola, aldeia do distrito de Torri di Quartesolo (Vicenza). Ela ali permaneceu durante toda a sua vida. Apenas frequentou as duas primeiras classes elementares, de 1872 a 1874, pois ajudava o pai nos trabalhos do campo e a mãe nos trabalhos domésticos. Todavia esta instrução foi suficiente para que ela aprendesse a escrever e a ler, particularmente a Sagrada Escritura, ou outros livros religiosos, como o catecismo, a História Sagrada, a Filoteia e as Máximas eternas de Santo Afonso de Liguori.
     Além das atividades domésticas, Eurósia ajudava também sua mãe no ofício de costureira, profissão que ela irá exercer mais tarde. Rica em qualidades humanas e religiosas, Eurósia sempre se mostrava atenta às necessidades da sua família.
     Aos doze anos recebeu a Primeira Comunhão. Desde então ela era assídua ao Sacramento Eucarístico, recebendo-o todos os dias de festa religiosa, já que então não se praticava a comunhão quotidiana; só bem mais tarde, em 1905, foi publicado o decreto de São Pio X autorizando a comunhão diária.
     Eurósia inscreveu-se na Associação das Filhas de Maria na paróquia de Marola, sendo assíduas às suas reuniões. Observava rigorosa e escrupulosamente os estatutos da mesma. O fervor de sua piedade mariana cresceu ainda mais sob a influência do santuário vizinho dedicado à Nossa Senhora do Monte Berico, ponto de referência da sua devoção, porque desde Marola o santuário era bem visível no alto da montanha onde fora construído.
     Eurósia tinha como objeto das suas devoções o Espírito Santo, o Presépio, o Crucifixo, a Eucaristia, a Santíssima Virgem e as almas do Purgatório. Foi uma apóstola no seio de sua própria família, no meio das suas amigas e na paróquia, onde ela ensinava o catecismo às crianças. Também ensinava corte e costura às jovens que frequentavam sua casa.
     Aos 18 anos, Eurósia era uma jovem séria, piedosa e trabalhadeira. Suas virtudes e a sua estatura física eram notadas, o que fez com que vários pretendentes desejassem contrair matrimônio com ela, o que ela sempre recusou.
     Em 1885 Rosina (assim a chamavam também na família) foi tocada por um acontecimento trágico: uma jovem esposa, sua vizinha, morreu deixando três filhas ainda pequenas órfãs. A mais velha delas morreu também pouco depois. As duas outras tinham apenas 20 meses e 4 meses, respectivamente. Um tio e o avô, doente crônico, viviam com o pai das duas órfãs. Eram três homens de forte caráter que se afrontavam verbalmente ao longo do dia.
     A situação emocionou muito Rosina: durante seis meses, todas as manhãs ela passou a se ocupar das crianças e pôr ordem na casa. Seguindo o conselho de seus pais e do pároco, depois de muito rezar, ela aceitou casar-se com o viúvo, Carlos Barban, bem consciente dos sacrifícios que ela iria enfrentar. O pároco diria mais tarde: “Foi na verdade um ato heroico de caridade para com o próximo”.
     O casamento foi celebrado em 5 de maio de 1886; o casal teve nove filhos. Além de seus filhos, das duas órfãs e de outras três crianças recolhidas pelo casal, Mamãe Rosa - como a chamavam depois do seu casamento - ofereceu carinho, cuidados assíduos, sacrifícios e uma sólida formação cristã. Uma dessas crianças, Mansueto Mazzuco, entrou mais tarde no convento da Ordem dos Frades Menores Franciscanos, onde passou a usar o nome de Frei Jorge.
     Uma vez casada, Eurósia executava com grande fidelidade as suas obrigações de vida conjugal, e vivia numa profunda comunhão com seu marido. Tornou-se sua conselheira e seu conforto, demonstrou um terno amor aos seus filhos, uma capacidade de trabalho fora de normas, uma grande capacidade para responder às necessidades do próximo, uma intensa vida de oração e amor a Deus, uma grande devoção à Santíssima Eucaristia e à Virgem Maria.
     Tornou-se para a sua família um verdadeiro tesouro, a mulher forte de que fala a Sagrada Escritura. Ela soube gerir as economias familiares, bem magras, mas conseguia dividir com os pobres o pão de cada dia. Ela demonstrou as suas qualidades extraordinárias quando seu marido faleceu após uma longa doença.
     Durante o período bélico 1915-1918, uma sobrinha faleceu e seu esposo estava na batalha, deixando 3 filhinhos, duas meninas e um menino de 10 meses. Nenhum parente se encarregou das crianças. Rosa, completamente de acordo com o marido e sobretudo confiando na Divina Providência, os acolheu em sua casa como filhos. Desta maneira, Rosa foi mãe de catorze filhos!
     Em 1916 foi fundada uma fraternidade de terciários franciscanos na paroquia de Marola, no território de Vicenza. Era assistida por frades Menores do convento de Santa Lucía em Vicenza. Eurósia Fabris de Barban foi das primeiras a se inscrever, seguida por seu filho Sante Luigi Barban, que também era casado e pai de onze filhos.
     Seu amor pela Eucaristia a levava a encarregar-se de que a igreja estivesse sempre adornada e limpa, e de que seus filhos se apresentassem asseados na igreja. “Diante do Senhor temos que ser belos na alma e também lindos nas roupas”. Seu comportamento durante a oração era exemplar. “Na igreja se mostrava com recolhimento, com a mãos juntas ou com o rosto entre as mãos, rezando fervorosamente. Era diferente das outras pessoas por seu recolhimento”. Aproveitava qualquer momento de silêncio para rezar.
     A família de Mamãe Rosa era verdadeiramente um exemplo de família católica. Ela soube educar e ensinar os filhos a rezar, a obedecer, a ter o temor de Deus, a oferecer os sacrifícios quotidianos, a amar o trabalho e todas as virtudes cristãs.
     Nessa missão de mãe cristã, Mamãe Rosa sacrificou-se e consumiu-se num longo e permanente serviço, dia após dia, como uma luz sobre o altar da caridade. No período de 1918 a 1921, três dos seus filhos foram ordenados 
sacerdotes: dois diocesanos e um franciscano, Frei Bernardino, que foi o seu primeiro biógrafo. O último filho morreu aos 14 anos enquanto seminarista. Um dos filhos adotivos entrou na Ordem dos Frades Menores e uma das duas órfãs entrou no Convento das Irmãs da Misericórdia.  
     Rosa era uma costureira muito hábil e apreciada, e tinha sempre um grupinho de jovens às quais ensinava a arte de coser, sem pedir nenhuma retribuição. Se comportava com elas como uma mãe, aproveitando qualquer ocasião para inculcar-lhes os valores humanos e cristãos, as preparava para formar famílias cristãs.
     Mamãe Rosa morreu no dia 8 de janeiro de 1932. O seu corpo repousa na igreja paroquial de Marola. Eurósia foi beatificada no dia 6 de novembro de 2005, em Vicenza (Itália) pelo papa Bento XVI.

Joias espirituais de Mamma Rosa
     Eu não desejo mais nada a não ser o amor de Deus e crescer sempre mais no seu amor. Do resto, nada mais me importa.
     É preciso dar contas a Deus e não aos homens, das nossas ações e da nossa vida. Se tivermos os olhos em Deus, não importa o que os outros digam.
     Quando se reza é preciso esquecer todas as coisas deste mundo! É preciso falar com Deus e estar atentos àquilo que lhe dizemos e ao que Ele nos diz.
     Quando a Igreja fala, é Deus que fala e é preciso escutá-lo.
     É o Senhor que nos manda os filhos como um tesouro. Tenhamos confiança em Deus e Ele nunca nos fará Faltar tudo o que é necessário.
     Os filhos que o Senhor nos deu, são em primeiro lugar Seus e só depois nossos. E se Ele os quiser para si, nós devemos estar gratos, mais ainda, felizes: com isto concede-nos uma grande honra.
     O Senhor dá-nos ainda mais, quando fazemos a caridade por Seu amor. Se damos alguma coisa aos pobres, é o mesmo que a oferecêssemos a Jesus em pessoa.
     É melhor ser pobres do que ricos!... Não são as riquezas que alegram o coração, mas sim fazer a vontade de Deus.
     Seja feita a vontade de Deus, Ele ama-nos e não nos abandonará nunca.
     Repousaremos no Paraíso.
     Se durante a vida tivermos sempre feito o nosso dever, a morte não nos meterá medo.

Fontes: http://alexandrina.balasar.free.fr/eurosia_fabris_pt.htm;
http://alexandrina.balasar.free.fr/eurosia_fabris_pt.htm; L'Osservatore Romano, de 11-XI-05.


terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Santa Rafaela Maria do Sagrado Coração, Fundadora - 6 de janeiro

 

  Ildefonso Porras e Rafaela Ayllón, abastado casal, não suspeitaram quais eram os misteriosos desígnios de Deus quando lhes nasceu a décima de seus treze filhos, Rafaela, no dia 1º de março de 1850. Rafaela Maria Porras y Ayllón nasceu em Pedro Abad, província de Córdoba (Espanha). Dos seus pais recebeu uma educação cristã, especialmente eficaz porque baseada no exemplo.
     Santa Rafaela Maria tinha quatro anos quando seu pai, Presidente da Câmara de Pedro Abad, tombou vítima de sua religiosidade e de seu heroísmo: ao cuidar dos doentes de cólera, ele próprio contraiu a doença. Sua viúva, mulher forte, passou a dirigir a família. Dedicou especial atenção na educação das "duas perolazinhas", como eram chamadas as duas únicas meninas, Rafaela e Dolores, esta última quatro anos mais velha que a irmã.
     A educação recebida de sua mãe, uma mistura de solícita ternura e de suave exigência, fez amadurecer nela os melhores traços do seu temperamento. Ao chegar à adolescência, era uma criança precocemente reflexiva, doce e tenaz ao mesmo tempo, senhora de si, sempre disposta a ceder nos seus gostos perante os gostos dos outros.
     Rafaela e a irmã, jovens finas, cultas, bem dotadas, podiam frequentar a melhor sociedade de Córdoba e Madri. Mas Rafaela, de joelhos diante do altar de São João dos Cavaleiros, em Córdoba, consagrou-se a Nosso Senhor com um voto de castidade perpétua aos quinze anos de idade. Isto aconteceu no dia da Anunciação de Nossa Senhora, a Escrava do Senhor. Mais tarde ela diria: "É tão formosa a flor da pureza!" Por uma coincidência providencial, a propriedade daquela igreja seria mais tarde entregue às Escravas do Sagrado Coração de Jesus, obra que Rafaela fundaria.
     A morte da sua mãe, quando ela tinha dezenove anos, foi outro momento forte na reta trajetória da sua entrega a Deus. A partir de então se dedicou completamente aos mais carentes e não havia na povoação uma necessidade ou dor que ela não consolasse. Em tudo isto era acompanhada por sua irmã Dolores, que iria ser também sua companheira inseparável na fundação do Instituto das Escravas do Sagrado Coração de Jesus.
Sta. Rafaela jovem
     Por caminhos inesperados, as duas irmãs viram-se convertidas em fundadoras. A 14 de abril de 1877 estabelecia-se em Madri a primeira comunidade das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, dedicadas a adorar o Santíssimo Sacramento e a educar crianças e jovens, principalmente as pobres. Aprovadas pelo Cardeal Moreno, das dezoito noviças que haviam começado aquela aventura "nenhuma se perdera".
     Testemunhas de Deus num mundo desgarrado pela dor de frequentes guerras, as primeiras Escravas trataram de dar a conhecer o amor de Cristo, amor até a morte, expressivamente simbolizado no seu Coração aberto. Rafaela Maria e a sua irmã Dolores fizeram disto a missão do Instituto, que impulsionaram com a sua atividade e deram vida com o seu espírito. Santa Rafaela Maria foi a encarnação do ideal de uma Escrava. O nome que adotou na vida religiosa – Maria do Sagrado Coração de Jesus – exprime a sua atitude constante de resposta ao Amor.
     Em 29 de janeiro de 1887, o papa Leão XIII aprovava definitivamente o Instituto e, temporariamente, as Constituições pelas quais elas tinham lutado com denodo.
     As Escravas espalharam-se rapidamente, e Rafaela dirigiu-as, com Maria del Pilar, nome que sua irmã adotara, como ecônoma geral, até 1893.
     Neste ano, Irmã Maria del Pilar convenceu-se que a irmã errava muito na administração econômica, fez campanha e as Religiosas Conselheiras declararam a Madre Rafaela incapaz de governar a Congregação. Irmã Maria del Pilar substituiu-a no cargo; teve, deste modo, o gosto de ser Superiora geral durante dez anos (1893-1903).
     Estes dez anos e os 22 seguintes passou-os Rafaela a um canto, esquecida e desprezada, mas feliz por não ter senão que dar bom exemplo e entregar-se continuamente à oração e à humildade. Sem amargura de coração, sem críticas, sem o menor ressentimento, vendo a mão invisível de Deus que com infinito amor modelava o seu barro, aceitou para o resto da sua vida – tinha quarenta e três anos – o martírio do “não fazer”.
     Entregue à oração e às simples tarefas domésticas, nas quais soube traduzir o seu imenso desejo de ajudar o Instituto e a Igreja, Santa Rafaela Maria pode ver o crescimento daquela obra nascida do seu amor e fecundada pela sua dor. Sempre serena, acreditou contra toda a esperança no Deus fiel que levaria a feliz término a empresa que por meio dela e de sua irmã tinha começado.
     Naqueles anos de isolamento, só teve o consolo de uma viagem a Loreto e Assis, e outra a Espanha. Por todas as casas que visitou deixou uma esteira de edificação. As religiosas mais jovens podiam comprovar o que tinham ouvido as mais velhas comentarem sobre a fundadora. Ela nunca mais exerceu a autoridade no Instituto, mas edificava a todas o verem-na, já idosa, ajudando a uma postulante recém-chegada a pôr as mesas.
     O prolongado e doloroso holocausto estava para se consumar. Devido às longas horas que passava ajoelhada diante do Santíssimo Sacramento, centro de sua vida, contraiu uma doença no joelho direito que pouco a pouco a foi consumindo em meio a dores intensas. Os últimos oito meses que passou retida em seu leito foram de acerbo sofrimento. "Aceitai todas as coisas como se viessem das mãos de Deus", repetia ela.
     No dia 6 de janeiro de 1925, Santa Rafaela morre santamente na casa de Roma, onde permanecera os últimos anos de sua vida. Depois de seu falecimento as autoridades eclesiásticas compreenderam o que se tinha passado; foi aberto o processo de sua beatificação.
     Quase ao final da 2a. Guerra Mundial, um bombardeio americano atingiu o cemitério onde Madre Rafaela estava sepultada. Seu túmulo milagrosamente foi preservado e, ao fazerem a exumação de seus despojos, encontraram seu corpo incorrupto e flexível como se ela dormisse.
     Pio XII beatificou-a em 1952 e Paulo VI canonizou-a no dia 23 de janeiro de 1977.

 
Fontes:  www.aciportugal.org/content/view/44/33/ ; Santos de cada dia, Pe. José Leite, S.J.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Beata Maria Ana Sureau-Blondin, Fundadora - 2 de janeiro

 
   Esta beata do Canadá, cujo nome civil era Maria Ester Sureau-Blondin, nasceu em Terrebonne, na província de Quebec, em 18 de abril de 1809. Seu pai, João Batista Sureau-Blondin, era agricultor e a mãe, Maria Rosa Limoges, dona-de-casa. Ela era a terceira de 12 filhos desta família muito católica.
     Maria Ester passou a infância e a adolescência em casa, recebendo educação e formação de seus pais devido à falta de escolas católicas de língua francesa em um Estado que há 50 anos passara para o domínio britânico e protestante.
     Aos 20 anos, em 1829, começou a prestar serviços às Irmãs da Congregação de Notre- Dame, que haviam se estabelecido recentemente em Terrebonne, recebendo como salário o aprender a ler e a escrever. Em 1832, foi admitida no noviciado da Congregação, mas não pronunciou os votos, porque foi rejeitada pela saúde precária.
     Ela passou um período de tratamento e descanso em casa e depois se tornou colaboradora da professora da escola primária católica na vila de Vaudreuil, tornando-se diretora da mesma escola em 1838.
     Comovida com a ignorância das crianças rurais e incentivada pelo vigário Paul-Loup Archambault, decidiu, em 1848, depois de obter a permissão de Mons. Inácio Bourget, Bispo de Montreal, lançar as bases para uma nova comunidade inteiramente dedicada à educação. Em setembro de 1850, com quatro companheiras, ela pronunciou os seus votos adotando o nome de Irmã Maria Ana, dando início à Congregação das Irmãs de Santa Ana.
     No início a jovem instituição passou por muitas dificuldades devido à grande pobreza. Mas o recrutamento para esta nova comunidade foi tão bem sucedido, que em 1853 tiveram que transferir o jovem Instituto, contando então com 34 membros, de Vaudreuil para Saint-Jacques de l'Achigan (Saint-Jacques). Em 1864, a Casa Mãe foi finalmente fixada em Lachine.
     O que caracteriza a carreira de Madre Maria Ana é que dos 40 anos de vida religiosa ela somente governou a sua comunidade por quatro anos.
     Uma espécie de drama moral começou para ela em sua chegada a Saint-Jacques, com a nomeação do Abade Luís Adolfo Maréchal como capelão do Instituto. Segundo ele, as Irmãs de Santa Ana, Congregação que tinha apenas cinco anos, tinha o duro desafio de substituir professoras respeitáveis, as religiosas da Sociedade do Sagrado Coração de Jesus.
     A equipe de Madre Maria Ana foi agitada por um homem naturalmente dominador que excedeu seus poderes, segundo a superiora, interferindo nas regras da comunidade. O entendimento entre a fundadora das Irmãs de Santa Ana e o capelão tendo se tornado impossível, foi preciso sacrificar um ou outro para evitar profundas divisões no seio da comunidade.
     Em agosto de 1854, Mons. Bourget decidiu destituir Madre Maria Ana e nomear um novo conselho. Nomeada superiora do Convento de Sainte-Geneviève (Pierrefonds) que ela fundara em 1851, para lá ela se encaminhou no início de novembro.
     Apesar da distância, muitas religiosas formadas pela Irmã Maria Ana permaneceram em contato com ela, o que não foi tolerado pelo capelão, que obteve a permissão do bispo para tirar-lhe também aquele cargo.
     A partir de então Madre Maria Ana ficaria longe do governo da comunidade. Em 1864, ela acompanhou as Irmãs que se instalaram na nova Casa Mãe de Lachine, mas seus cargos de conselheira local, de assistente local e conselheira geral são apenas títulos: de fato, a fundadora das Irmãs de Santa Ana vai limitar-se às tarefas mais humildes. Para ela, fundadora e ótima professora, foram confiadas tarefas como: portaria, responsável pela lavanderia das Irmãs, sacristã, ofícios que ela exerceu ao longo de 36 anos em casas fundadas em várias cidades.
     A força de alma de Madre Maria Ana se manifestou por uma docilidade exemplar ao seu bispo, pelo perdão concedido de forma inequívoca ao Abade Maréchal e às suas filhas que pareciam ter esquecido o passado. Outros se encarregariam de exaltar uma fundadora desconhecida. Mas a "recuperação" seria lenta. Falecendo octogenária, em 2 de janeiro de 1890, Madre Maria Ana foi até o fim uma testemunha discreta e calma do desenvolvimento do seu trabalho.
     O último período de sua vida é o testemunho de uma fé viva e de uma grande força de vontade no meio das incompreensões, exemplo de submissão amorosa à vontade de Deus, de respeito à autoridade, caridade e serviço a todos, humildade e abnegação.
     Ela aceitou sua demissão oferecendo sua vida para o bem da Congregação, o que evidentemente foi aceito por Deus: em 1884, a Congregação recebeu a aprovação de Roma, e em 1890 havia 428 religiosas envolvidas no ensino e ocupadas no cuidado dos doentes em 42 casas de Quebec, Colômbia Canadense, Estados Unidos e Alasca.
     No outono de 1889, Madre Maria Ana ficou doente com uma bronquite grave; na noite de Natal ela quis assistir à Missa na capela da Casa Mãe, o que lhe custou um agravamento da doença, que a levou à morte em 2 de janeiro de 1890, em Lachine.
     Em 7 de janeiro de 1977 foi introduzida na causa de sua beatificação; em 14 de março de 1991 recebeu o título de Venerável; em 29 de abril de 2001 foi beatificada pelo Papa João Paulo II na Praça de S. Pedro, em Roma.
Fontes: santiebeati/it; www.biographi.ca/fr/bio/sureau_esther_11F.html