sexta-feira, 5 de março de 2021

Santa Colete Boylet de Corbie, Virgem Clarissa e Reformadora de sua Ordem – 6 de março

          A vida e a obra de Santa Colete se situam numa época extremamente tormentosa: a Guerra dos Cem Anos, gerada pelas rivalidades sangrentas entre duas famílias principescas da França; e o Cisma do Ocidente que dividia a Cristandade. Na Ordem franciscana, as dissensões - nascidas já em vida de São Francisco - entre os partidários da regra estrita e os que desejavam mitigações, terminaram com a vitória destes últimos.
     Quanto ao ramo feminino da Ordem, o direito de possuir bens, concedido por Alexandre IV ao mosteiro de Longchamps, próximo de Paris, fundado pela Beata Isabel de França, irmã de São Luís IX, começou a enfraquecer seriamente o "privilégio da pobreza" arduamente defendido por Santa Clara.
     Em 1263, Urbano IV estendeu a regra mitigada a todos os conventos de Clarissas e só raras comunidades guardaram a estrita observância primitiva. A autorização de possuir bens e tolerâncias relativas à clausura levaram à tibieza os conventos "urbanistas".
     É neste contexto que devemos compreender a missão de Santa Colete.
A vocação
     Nicolette Boylet ou Boëllet nasceu em Corbie, diocese de Amiens, França, em 13 de janeiro de 1381. Seus pais, Roberto Boylet e Marguerite Moyon, quase sexagenários, colocaram este nome na menina em sinal de reconhecimento a São Nicolau de Bari pelo seu nascimento. O pai era artista carpinteiro, caridoso e virtuoso; a mãe confessava-se e comungava toda semana, coisa rara naquela época.
     A menina cresceu em um ambiente acolhedor e muito religioso. Aos quatro anos já tinha uma vida de oração; aos sete, fazia uma hora de oração diária e assistia clandestinamente as Matinas cantadas nos beneditinos. Ela dirá mais tarde que aos nove anos recebeu plena e inteira revelação do espírito da Ordem franciscana e da necessidade de sua reforma.
     Em 1399, seus pais faleceram com alguns meses de intervalo um do outro. O pai confiara a filha aos cuidados de D. Raoul de Roye, abade do mosteiro beneditino de Corbie. Este desejava que ela se casasse. Colete recusou-se e acabou obtendo sua permissão para doar seus bens aos pobres e para entrar para a beguinaria (*) de Amiens, onde ficou apenas um ano por achar muito suave a disciplina ali vigente.
     Pelo mesmo motivo fez tentativas frustradas junto às beneditinas de Corbie e no Convento de Moncel, que seguia a regra de Urbano IV.
     Colete retornou a Corbie e seus concidadãos, que anteriormente a admiravam, passaram a desprezá-la porque a consideravam uma instável. Seu tutor começava a se impacientar com seus "caprichos".
     Neste isolamento moral, a Providência colocou o Padre João Pinet em seu caminho. Ele era guardião do convento de Hesdin, fervoroso religioso de São Francisco, intensamente desejoso de fazer reviver a observância primitiva da Ordem. Este religioso aconselhou-a a se fazer reclusa da Terceira da Ordem de São Francisco.
     Em 17 de setembro de 1402, festa dos Estigmas de São Francisco, ela pronunciou o voto de clausura, e passou a viver numa pequena ermida próxima da igreja paroquial de Nossa Senhora, em Corbie. Emparedaram-na entre dois contrafortes da igreja, numa pequeníssima cela que recebia a luz através de uma grade de ferro que dava para a igreja. Ali permaneceu por três anos, jejuando durante a Quaresma a pão e água, dormindo sobre um punhado de gravetos espalhados no chão.
A reformadora
     Em sua reclusão as visões se multiplicaram: por determinação de São Francisco e de Santa Clara, que lhe apareceram, ela devia reformar a Ordem segunda franciscana. Colete temia que tais visões fossem causadas "pelo inimigo do inferno". Ela consultou clérigos de seu meio e todos concordam em que ela devia agir. Após muita relutância, fruto de sua humildade, empreendeu a reforma inspirada por Deus.
     Ela precisava de alguém que a aconselhasse e mais uma vez a Providência vem em seu auxílio: o Padre Henrique de Baume, religioso franciscano de grande virtude, que sofria com a decadência da sua Ordem, tornou-se seu diretor espiritual e seu colaborador zeloso. Ele obtém a adesão da Condessa Branca de Genebra para a causa de Colete. Em Besançon, ele se encontra com Isabeau de Rochechouard, viúva do Barão de Brissay, que o acompanha a Corbie.
     Durante o Cisma havia três papas ao mesmo tempo: um em Roma, outro em Avinhão e o terceiro em Pisa. A França - bem como a Espanha e a Escócia - prestava obediência ao papa de Avinhão, que então era Bento XIII.
     Em 1406, obtida a dispensa do voto de reclusão perpétua, Colete dirigiu-se a Nice, acompanhada do Padre Baume e da Baronesa de Brissay, para se encontrar com Bento XIII. Expõe-lhe detalhadamente seu propósito restaurador.
     Depois de profunda reflexão, Bento XIII impôs-lhe o véu e o cordão seráfico e nomeou-a Superiora Geral de todos os conventos de Clarissas que viesse a fundar ou reformar. Autorizava Colete a transferir para o convento que fosse fundar as religiosas de mosteiros estrangeiros, e acolher eventualmente membros da Ordem Terceira franciscana. Bento XIII expediu a bula autorizando a reforma no dia 16 de outubro de 1406.
     Os católicos viviam na perplexidade e na boa vontade durante esses tormentosos anos do Cisma; estavam do lado que tinham por autêntico, ou que lhes indicavam suas autoridades. Santa Catarina de Siena e Santa Catarina da Suécia estavam com o papa de Roma, enquanto São Vicente Ferrer e Santa Colete estavam com o de Avinhão, concretamente com Bento XIII.
     Não foi fácil para Colete dar andamento aos seus projetos imediatamente. Durante alguns anos suas tentativas de reforma fracassaram. Seu empenho teve o apoio de personagens tão relevantes como a Condessa de Genebra e das duquesas de Borgonha e da Baviera.
     No Franche-Comté, com mais três amigas, que se tornaram suas primeiras filhas, ela se instalou. A comunidade logo cresceu e foi preciso procurar um lugar mais espaçoso. Em 1410, conseguiu finalmente autorização para ocupar o convento de urbanistas de Besançon, onde viviam apenas duas irmãs. A reforma estava assegurada. Àquele convento logo seguiram outros até um total de 17, reformados ou novas fundações.
     Como norma, cada convento devia ter quatro frades a seu serviço. Assim, a dinâmica reformadora sempre mantinha contato com os Gerais Franciscanos. Os Gerais da Ordem, principalmente Antônio de Massa e Guilherme de Casal, aceitaram e confirmaram a bula de 1406. O espírito da reforma coletina se infiltrava sutilmente na Ordem primeira.
     Colete precisava criar as Constituições para reger tão numerosas fundações. Em 1430, ela redigiu um texto - conhecido como Sentimentos de Santa Colete - que foi remanejado em 1432 e aprovado em 28 de setembro de 1434 por Frei Guilherme de Casal. Este havia submetido o texto a dois cardeais e alguns outros teólogos, que deram sua aprovação.
     
Quanto ao ramo masculino, Santa Colete não tinha evidentemente jurisdição sobre a Ordem primeira, mas ela exerceu uma forte influência espiritual nela e conseguiu a adesão de alguns conventos masculinos à sua reforma. Segundo uma estimativa mais provável, em 1447, data da morte da Santa, a sua reforma contava com 17 conventos femininos e 7 masculinos.
     A reforma coletina estendeu-se rapidamente pela França, Espanha, Flandres e Saboia. Sob o impulso renovador de Santa Colete, os franciscanos voltaram a praticar aquilo que São Francisco havia querido para sua Ordem: vida de pobreza sem mitigações, vida austera, intensa oração pessoal e comunitária, e muita oração e penitência pela unidade da Igreja, então dividida pelo Cisma.
     Nos dias atuais, os conventos de "coletinas" são cerca de 140, a maior parte na Europa, embora haja alguns também na América, Ásia e África.
     A piedade de Colete, notável desde a infância, cresceu e a conduziu a um tal grau de união com Deus, que os êxtases tornaram-se contínuos. Por vezes, eles duravam vários dias. Ao redor dessa intensa vida mística, que a ação não obstava, gravitavam fenômenos tais como: levitação; eflúvios odoríferos que emanavam não somente da pessoa de Colete, mas das coisas que ela tocava; conhecimento das consciências; o estado das almas do Purgatório; dons de profecia.
     Santa Colete era de uma pureza requintada, e seu amor por esta virtude se manifestava por seu pendor irresistível pelas almas puras, as crianças também a atraiam, e mesmo os animais cuja aparência simbolizavam a pureza, como as rolas e os cordeiros.
     Ela protagonizou inúmeros milagres que favoreciam suas fundações: na reforma de Hesdin, recebeu uma soma de quinhentos escudos de ouro, de origem celeste; em Poligny, descoberta de água potável; a provisão de trigo de Auxonne não diminuía e possibilitava as religiosas reparti-lo com os frades de Dôle; um tonel de vinho encheu-se sob a ação das preces de Colete, e muitos outros fatos relatados em seu processo de canonização.
     Verdadeira filha da Igreja, ele sofria com o Cisma que dilacerava sua unidade, e trabalhou denodadamente com São Vicente Ferrer pela extinção do Cisma.
     Coleta era também filha da França. As nobres casas conflitantes, Armagnacs (partido do Duque d'Orleans) e Bourguignons (partido do Duque de Bourgogne), a chamaram para fundar conventos em seus domínios. Segundo depoimentos, ela certa vez conseguiu dissuadi-los de lutar. Apesar das tensões, Colete foi respeitada por ambas e pode continuar sua obra.
     Santa Colete viajou muito, operou numerosos milagres, suportou sofrimentos de toda a espécie. Ela foi uma mulher extraordinária que soube obter a colaboração de papas, frades, príncipes, duques para a sua obra.
     Santa Colete morreu em Gand, Bélgica, no dia 6 de março de 1447. As marcas de sua própria doença e do sofrimento desapareceram. Seu corpo tornou-se belo, com uma pele branca como a neve, membros flexíveis e exalando um celestial perfume. Como era seu desejo, o corpo foi sepultado direto na terra. Numeroso foi o público que compareceu às suas exéquias, atraídos por sua fama de virtude e pelos fatos maravilhosos que narravam sobre ela.
     O processo de sua canonização iniciou poucos anos após sua morte, em 1472, mas somente se tornaria realidade anos depois. O processo relata, além dos fatos mencionados, curas operadas em pessoas de suas comunidades e cinco casos de ressurreição. Colete foi beatificada em 23 de janeiro de 1740. Porém, ela só foi canonizada em 24 de maio de 1807, sob o pontificado de Pio VII. Sua festa é celebrada no dia 6 de março.
 
(*) Beguinaria: convento onde vivem religiosas sem pronunciar votos, cada qual ocupando o seu aposento à parte. Beguina é o nome dado a essas religiosas nos Países Baixos e na Bélgica.
 
Etimologia: Colete, ou Colette, abreviação de Nicolette, feminino de Nicolet, em português Nicolau, do grego Nikólaos: “vencedor (niko) do povo (laos)”.
 
Fonte: Colette de Corbie – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)
 
Postado neste blog em 6 de março de 2015

quarta-feira, 3 de março de 2021

Santa Cunegundes, Imperatriz, viúva e religiosa - 3 de março

      
     Santa Cunegundes era filha de Sigfrid, primeiro Conde de Luxemburgo, e de Edviges, sua piedosa esposa. Ela nasceu por volta do ano 975. Ela era uma descendente de sétima geração de Carlos Magno. Seus pais instilaram nela desde o berço os sentimentos mais ternos de piedade; casaram-na com Henrique, Duque da Baviera.
     O seu casamento com Henrique II foi espiritual, isto é, eles casaram-se com companheirismo religioso e pelo mútuo acordo de não consumarem o seu relacionamento. Os historiadores ainda debatem sobre a veracidade da história, mas segundo alguma fonte, o casal – inspirado pelo modelo de São José e da Virgem Maria – teria feito voto de perpétua virgindade, haja visto que não tiveram filhos. Outra fonte, no entanto, dá a entender que Henrique, ao perceber que Cunegundes era estéril, e embora ele a pudesse rejeitar, conforme os costumes germânicos, decidiu não repudiar sua mulher. O amor que ele nutria por Cunegundes era tão grande que o Imperador preferiu não ter filhos a ter que repudiar sua amada esposa.
     Ela foi coroada em Paderborn no dia de São Lourenço, ocasião em que fez grandes presentes para as igrejas da cidade. No ano de 1014, Cunegundes foi com o marido a Roma, e com ele recebeu a coroa do Sacro Império Romano das mãos do Papa Bento VIII.
     Antes de seu casamento, com o consentimento de Henrique, ela havia feito voto de virgindade. Caluniadores depois a acusaram junto a ele de ter tido liberdades com outros homens. Para remover o escândalo de tal calúnia, confiando em Deus, a santa Imperatriz andou sobre brasas incandescentes sem ser ferida provando assim sua inocência. O imperador condenou suas suspeitas e credulidade, e fez as pazes com ela. Eles viveram a partir desse momento com a maior união de corações, trabalhando para promover a honra de Deus e o avanço da piedade.
     Logo, a fama de santidade começou a circundar o casal. Durante sua vida, Cunegundes deu grandes mostras de piedade e caridade para com os pobres.
     Tendo certa vez se retirado em Hesse, ela caiu gravemente enferma e fez um voto: caso ela se recuperasse, fundaria um mosteiro, o que aconteceu. O mosteiro foi mandado executar por ela de forma imponente em um lugar chamado então Capungen, agora Kaffungen, perto de Cassel, na diocese de Paderborn, e deu-o às religiosas da Ordem de São Bento.
     Antes que a construção acabasse, Santo Henrique morreu, em 1024. Ela recomendou sua alma às orações dos súditos, especialmente às suas queridas monjas, e expressou seu desejo de se juntar a elas. Ela já havia esgotado os seus bens fundando bispados e mosteiros, e no auxílio aos pobres. Tudo o que era rico ou magnificente ela pensava ser mais adequado dar às igrejas do que ao seu palácio. Ela, portanto, tinha agora pouco para dar. Mas estava ainda sedenta de abraçar a pobreza evangélica perfeita e de renunciar a tudo para servir a Deus sem obstáculos.
     No dia do aniversário da morte de seu marido, no ano de 1025, ela reuniu muitos prelados para a dedicação da igreja de Kaffungen, e, após a leitura do Evangelho na Missa, Cunegundes ofereceu um pedaço da verdadeira cruz; depois tirou suas vestes imperiais e vestiu-se com um hábito pobre, seu cabelo foi cortado e o bispo colocou o véu e um anel como garantia de sua fidelidade a seu esposo celeste.
     Assim que foi consagrada a Deus, parecia ter esquecido totalmente que ela tinha sido imperatriz, e comportava-se como a última na casa. Nada ela temia mais do que aquilo que pudesse trazer-lhe à mente a lembrança de sua antiga dignidade. Ela rezava e lia muito, trabalhava com suas mãos, abominava a mínima aparência de mundanismo, e tinha um prazer singular em visitar e confortar os doentes. Assim ela passou os últimos 15 anos de sua vida, sem nunca gozar da menor preferência a qualquer religiosa da comunidade.
     Suas mortificações tornaram-na muito fraca e causaram sua última enfermidade. Seu mosteiro e toda a cidade de Cassel ficaram penalizados diante do pensamento de sua perda estar se aproximando; ela, porém, não parecia se preocupar: deitada sobre um tecido grosseiro, estava pronta para entregar sua alma, enquanto as orações da agonia eram lidas ao lado dela. Percebendo que estavam preparando um pano com franjas de ouro para cobrir seu corpo após a sua morte, ela ordenou que fosse retirado. Ela não ficou descansada enquanto não lhe foi prometido que ela seria enterrada como uma pobre religiosa em seu hábito.
     Ela faleceu no dia 3 de março de 1040.
O seu corpo foi depositado com honras solenes em Bamberg, junto dos ossos de seu esposo, Santo Henrique. A maior parte de suas relíquias ainda permanece na mesma igreja. Ela foi solenemente canonizada por Inocêncio III, em 19 de março de 1200. O autor de sua vida relaciona muitos milagres ocorridos em seu túmulo pela intercessão desta santa virgem e viúva.
     Santa Cunegundes é padroeira da diocese de Bamberg (Alemanha), de Luxemburgo, da Lituânia e da Polônia
 
Fontes:
De sua vida, escrito por um cânone de Bamberg, cerca do ano 1152: também a Dissertação de Henschenius, p. 267
cfr. As Vidas dos Santos, por Rev. Alban Butler, 1866. Volume III: Março, p. 501-502
 
Postado neste blog em 3 de março de 2013

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Santa Valburga, Virgem, Princesa e Abadessa beneditina – 25 de fevereiro


 
"Deus te ungiu com o óleo da alegria" (Salmo 54,8)
 
     Santa Valburga foi uma das mais populares santas da Idade Média. Ela nasceu na Inglaterra por volta de 710. Seu pai, Ricardo, rei dos saxões do oeste, possuía um castelo em Dorsetshire; sua mãe, Vinna, irmã de São Bonifácio, era piedosa e mãe extremosa. Ambos são venerados como santos pela Igreja. O casal teve três filhos: Vilibaldo, Vinibaldo e Valburga.
     Vilibaldo foi educado na Abadia de Waltham, perto de Winchester. Vinibaldo, de temperamento menos ativo e mais contemplativo, foi educado em casa. Quando tinha seis anos de idade, nasceu-lhe uma irmã que foi batizada com o nome de Valburga, equivalente no grego a Eucheria, que significa “graciosa”. Muito cedo perderam a mãe e uma amizade muito profunda ligou os dois irmãos.
     Em 721, Vilibaldo, então com cerca de vinte anos, manifestou o desejo de visitar a Terra Santa. Deixou a abadia com a licença de seu superior e voltou para Dorsetshire para persuadir o irmão a acompanhá-lo na viagem. Ricardo estava enfermo e Vinibaldo não queria deixá-lo só. Sequer mencionou ao pai os planos do irmão mais velho. Mas, este revelou seu plano e tão eloquente foi, que o pai resolveu acompanhar os filhos na peregrinação.
     Valburga tinha então 11 anos apenas. Ela sabia, contudo, que as peregrinações, muitos frequentes entre os saxões, exigiam muito dos viajantes que enfrentavam dificuldades e perigos; muitos meses se haviam de passar antes que fosse possível receber notícias dos peregrinos; o seu pai era velho, talvez não resistisse aos rigores da penosa e longa peregrinação... Todavia, nada fez para dissuadir seu pai de tão santa decisão.
     A Rainha Cuthberga fundara recentemente em Dorsetshire a Abadia de Wimbourne. Esposa do Rei Alfredo, a rainha sentira um chamado para uma dedicação total a Deus e obtivera licença do esposo para se tornar monja. O magnífico mosteiro duplo de Wimbourne tornou-se logo célebre pela santidade de seus habitantes e austeridade da sua disciplina.
     Ricardo resolveu levar a pequena Valburga para esta grande abadia, para que dela cuidassem as monjas enquanto ele se ausentava. Ao se despedir de seu pai, Valburga não imaginava que não o tornaria a ver: o santo homem faleceu na Itália, sendo sepultado pelos dois filhos em Lucca.
     Enquanto seus irmãos abraçavam a vida monástica em Roma, Valburga adotou também o estado religioso, passando vinte e seis anos em Wimbourne.
     Destes vinte e seis anos pouco se sabe, mas, tendo em vista que o nível intelectual das monjas daquele mosteiro era muito elevado, pois escreviam com fluência o latim e o grego, e com facilidade citavam os clássicos, sendo notáveis suas iluminuras e transcrições de Missas, Sagradas Escrituras etc., além de bordados em fio de ouro e prata, presume-se que Valburga recebeu sólida instrução e aperfeiçoou-se em todos estes trabalhos.
     Aconteceu então que São Bonifácio, tio de Valburga, o grande apóstolo da Alemanha, foi a Roma pedir ajuda para o seu trabalho missionário naquela região. O Papa instou Vilibaldo e Vinibaldo a acompanharem o dedicado tio.
     Mais tarde, por meio de uma carta dirigida a Lioba, sua prima, e a Valburga, sua sobrinha, São Bonifácio convidou-as a fundar um mosteiro em sua diocese, para mostrar às mulheres daquela região o exemplo das virgens cristãs. Após breves preparativos Santa Lioba e Santa Valburga, com algumas companheiras, deixaram sua terra natal para devotar suas vidas à conversão da Alemanha.
     Durante a viagem da Inglaterra para a Alemanha as monjas enfrentaram uma tempestade que obrigou os marinheiros a se desfazerem da carga. Valburga implorou a Deus e, sobrevindo repentina calma, os viajantes desembarcaram sãos e salvos em Antuérpia. Ao desembarcar, os marinheiros proclamaram o milagre que haviam testemunhado, de modo que Valburga foi recebida em todos os lugares com alegria e veneração. Na mais antiga igreja desta cidade há uma gruta onde Santa Valburga costumava rezar enquanto esperava para reiniciarem a viagem. Ela é muito venerada naquela cidade desde sua permanência ali.
     Vilibaldo fundou o Mosteiro de “Eihstat”, que se tornaria mais tarde a Diocese de Eichstätt. Valburga tornou-se abadessa de um mosteiro beneditino feminino em Heidenheim - morada dos pagãos, em alemão - local onde já se instalara seu irmão Vinibaldo com seus monges. Em breve o significado desse nome perderia o sentido, pois os dois mosteiros converteram gradualmente a aridez espiritual e material da região, e os campos deram abundantes colheitas.
     À morte de seu irmão, Valburga assumiu a direção do mosteiro masculino que ele dirigira. Ela era muito respeitada e amada ainda em vida. Sua vida de profunda oração, sua caridade e coragem, bem como os milagres que ela realizava, tornaram-na venerada pelo povo que vivia à sombra dos mosteiros dirigidos por ela.
     Nos últimos anos, conforme relata o monge Wolfhard que escreveu sua vida mais ou menos cem anos depois de sua morte, ela "confirmada no santo amor de Deus, tendo vencido o mundo e todos os seus atrativos, repleta de fé, saturada de caridade com os adornos da sabedoria e a joia da castidade, notável pela benevolência e humildade, foi receber o galardão que devia coroar tantas virtudes".
     Santa Valburga foi assistida por seu irmão São Vilibaldo em seus últimos momentos, tendo ele lhe administrado os Sacramentos. Ela faleceu em 25 de fevereiro de 779 e foi sepultada ao lado do irmão Vinibaldo.
     São Vilibaldo viveu até 786, e após sua morte a devoção à Santa Valburga gradualmente declinou, e seu túmulo foi negligenciado. Por volta de 870, Otkar, então bispo de Eichstätt, decidiu restaurar a igreja e o mosteiro de Heidenheim, que estavam caindo em ruínas. Os operários profanaram o túmulo de Santa Valburga. Uma noite ela apareceu para o bispo, repreendendo-o e ameaçando-o. Isso levou ao traslado solene dos seus restos mortais para Eichstätt em 21 de setembro do mesmo ano. O corpo de Santa Valburga que foi encontrado incorrupto e coberto por um fluido precioso, qual puríssimo óleo.
     Em 893, o Bispo Erchanbold, sucessor de Otkar, abriu o santuário para retirar uma parte das relíquias para Lioba, Abadessa de Monheim, e o corpo foi descoberto mais uma vez como imerso em um precioso óleo ou orvalho, que até hoje (salvo durante um período em que Eichstätt foi colocado sob interdição, e quando o sangue foi derramado na igreja por ladrões que feriram gravemente o tocador de sino) continuou a fluir dos restos sagrados.
     Há mais de mil anos esta misteriosa umidade oleosa, que é coletada das relíquias de Santa Valburga pelas monjas, vem operando milagrosas curas. Os documentos mais antigos que relatam os milagres atribuídos ao óleo foram escritos entre 893 e 900.
     Este óleo tornou-se conhecido como "óleo de Santa Valburga" e vem sendo um sinal de sua contínua intercessão. O óleo é colocado pelas religiosas em pequenas ampolas de vidro que são dadas aos peregrinos. Curas atribuídas à intercessão de Santa Valburga acontecem até os nossos dias.
     No Martirológio Romano ela é comemorada em 1 de maio, seu nome está ligado à Santo Asafe, cujo principal festival é celebrado na Bélgica e na Baviera. No Breviário Beneditino sua festa é atribuída a 25 (no ano bissexto 26) de fevereiro.
     Ela é a padroeira de Eichstätt, Oudenarde, Furnes, Antuérpia, Gronigen, Weilburg e Zutphen, e é invocada como patrona especial contra a hidrofobia, e em tempestades também por marinheiros.
*
 
   No século XVI, a terra natal de Santa Valburga, Inglaterra, separou-se da Igreja Católica após séculos de fidelidade a Roma. Naquele século, muitos católicos foram martirizados por não aceitarem a nova igreja fundada pelo rei Henrique VIII, que se autoproclamou chefe da Igreja Anglicana. Depois dele, os reis da Inglaterra sempre exerceram aquele cargo até os dias de hoje.
     Neste início do século XXI, entretanto, uma onda de conversões de anglicanos percorreu todo o Reino Unido (Inglaterra e suas ex-colônias).



Ampola que continha o "óleo de Santa Valburga" e é guardada com
todo respeito por ter contido um dom desta grande Santa.

Postado neste blog em 25 de fevereiro de 2011
 
Fontes:
Gertrude Casanova (Enciclopédia Católica) - https://nobility.org/

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Beata Maria de Jesus (Emília d’Oultremont d’Hooghvorst), Fundadora - 22 de fevereiro

     Emília d’Oultremont d’Hooghvorst nasceu a 11 de outubro de 1818, no castelo de Wégimont (Liége, Bélgica), numa família nobre e impregnada dos valores cristãos. Era filha do Conde Emílio d’Oultremont e da Condessa Maria Carlota de Lierneux de Presles. Recebeu uma sólida formação humanística e religiosa, que resultou em um caráter enérgico, seja no plano físico (tornou-se uma ótima atleta) seja no plano moral. Coragem e energia foram dois traços fundamentais da sua personalidade.
     A devoção ao Sagrado Coração, à Virgem Maria e sobretudo à Eucaristia, se enraizaram na sua alma juvenil e caracterizaram desde então o desenvolvimento de sua espiritualidade. A personalidade da jovem desenvolveu-se de forma serena e equilibrada, enriquecida com os seus extraordinários dons humanos e espirituais.
     Seu pai serviu como embaixador belga na Santa Sé em Roma. Precisamente durante uma cerimônia num palácio em Roma, como ela mesma descreveu em sua autobiografia, se sentiu chamada por Deus durante o baile. Seu par, o Conde de Seyselle, estava elogiando os afrescos que decoravam a sala, quando ela ouviu a voz de Deus que a solicitava para escolher entre o caminho do mundo e o de Jesus. “Senhor, minha vida sois Vós somente”, respondeu Emília. O conde, entretanto, tentava devolvê-la a realidade sem poder explicar o que havia acontecido ao seu par.
     Ela então pensou em consagrar-se ao Senhor. Diversas foram as propostas de casamento, mas quando conheceu o Conde Victor van der Linden d'Hooghvorst, “um jovem de virtude sólida e de piedade excepcional” - como ela mesma diria - Emília reconheceu que o Senhor a queria conduzir pelo caminho do matrimônio, o qual foi celebrado a 19 de outubro de 1837.
     Viveu em plenitude a vida de uma jovem e feliz esposa, mãe de quatro filhos: Adriano, Edmundo, Olímpia e Margarida. A partir daí Emília encontrou nos Padres Jesuítas os guias espirituais, que a compreenderam e orientaram no seu caminho espiritual.
     Depois de uma visita ao Papa, em 1831, escreveu o que pensava dos pontífices de seu tempo, se mostrando crítica por sua excessiva politização e falta de sintonia com os homens e a ciência. “Em Roma o papa não deveria ser senão um pai e um pontífice”.
     De 1839 a 1846, Emília permaneceu em Roma e foi brindada com experiências interiores que a dirigiram sempre mais a um amor total a Deus. Aos 24 anos, quando já era mãe de dois filhos, enquanto rezava na capela de Santo Inácio de Loyola, perto da Igreja de Jesus, em Roma, teve uma visão do santo fundador dos Jesuítas que com a Constituição da Ordem nas mãos lhe assegurou que um dia haveria de seguir as suas Regras.
     Em 10 de agosto de 1847 o seu esposo faleceu vítima de malária. Emília viveu esta prova com fé e prosseguiu com coragem a sua missão de mãe e educadora; consagrou-se a Deus com o voto de castidade, dedicando-se ainda mais às obras de caridade. Transferiu-se para Paris, a fim de seguir a formação dos seus filhos no Colégio dos Jesuítas.
     Quando a 8 de dezembro de 1854 o Papa Pio IX proclamava a Imaculada Conceição da Mãe de Deus, Emília pedia a Maria que lhe inspirasse o que era mais agradável a Deus. Durante uma longa e intensa oração na capela do castelo da família lhe foi revelado por Nossa Senhora o que Deus esperava dela: a fundação de uma Congregação destinada à reparação dos ultrajes cometidos contra o Santíssimo Sacramento.
     Com algumas jovens de diversas nacionalidades, iniciou no ano seguinte a vida em comum, mas o início oficial da nova família religiosa teve lugar em 1º de maio de 1857, em Estrasburgo, com o nome de Instituto de Maria Reparadora, dia da vestidura de Madre Maria de Jesus (este era o seu nome religioso) e das suas companheiras, guiadas pelo espírito de Santo Inácio.
A Beata jovem religiosa
     Madre Maria de Jesus acompanhou com solicitude a opção dos seus dois filhos de seguirem o caminho matrimonial, e alegrou-se com a decisão das suas filhas de a seguirem na vida religiosa, na mesma Congregação por ela fundada.
     O espírito inaciano foi a alma que animou todo o seu zelo apostólico, a tal ponto que tomou decisões arriscadas, como a resposta ao chamado dos Jesuítas para que constituísse uma casa na Índia, após dois anos de fundação, a fim de as religiosas se dedicarem à promoção humana e espiritual das jovens relegadas a uma situação de inferioridade devido à divisão das castas. Foi o lançamento definitivo de uma expansão por vários países da Europa.
     Os últimos anos de Madre Maria de Jesus foram repletos de sofrimentos de diversos gêneros: lutos familiares, preocupação pelos seus filhos, separações e dificuldades no seio da Congregação.
     Com a saúde muito debilitada, quando se encontrava de passagem por Florença, de retorno à Bélgica, estando na casa do filho Adriano, Madre Maria de Jesus faleceu, no dia 22 de fevereiro de 1878, aos 59 anos de idade. Seu túmulo se encontra na Igreja da Santa Cruz e São Bartolomeu na Via Lucchesi, em Roma.
      A heroicidade de suas virtudes foi reconhecida em 23 de dezembro de 1993 e foi beatificada em Roma no dia 12 de outubro de 1997 pelo papa João Paulo II.
 
Fonte: https://www.vatican.va/
 
Postado neste blog em 21 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Santa Gertrudes Comensoli, Fundadora - 18 de fevereiro

     Quinta de dez filhos de uma família modesta, mas de profunda religiosidade, nasceu em Bienno, Brescia, Itália, a 18 de janeiro de 1847. No batismo recebeu o nome de Catarina. Desde pequena sentiu grande atração por Jesus Cristo presente na Eucaristia. Passava horas em silêncio diante do sacrário a pensar, como ela dizia.
     Começou a confessar-se aos cinco anos e aos sete, sem prevenir ninguém, aproximou-se da Sagrada Comunhão. Movida pelo Espírito Santo, fez voto de virgindade perpétua, dizendo a Nosso Senhor: “Juro um milhão de vezes que serei sempre vossa, Senhor. Se algum dia Vos hei-de ser infiel, levai-me imediatamente”.
     Aos 15 anos entrou no Instituto das Irmãs de Caridade de Lovere, fundado por Santa Bartolomea Capitanio, mas deixou-o espontaneamente ao cabo de seis meses, por falta de saúde.
     Em 1867, para aliviar as carências da família, foi para Chiari como empregada doméstica do arcipreste, Padre João Batista Rota, futuro Bispo de Lodi, indo depois para S. Gervásio d’Alda (Cremona) como dama de companhia da Condessa Fé-Vitali.
     Foi ali que, em 1879, se encontrou pela primeira vez com o Padre Francisco Spinelli. Os dois tinham os mesmos ideais: fundar uma congregação que tivesse por fim a adoração perpétua ao Santíssimo Sacramento e a educação cristã de meninas pobres.
     Em 1880, tendo estado em Roma, entrevistou-se com o Papa Leão XIII a quem falou de seu projeto. Este pontífice apoiou sua obra, mas além da adoração ao Santíssimo Sacramento enfatizou a educação das jovens operárias.
A Santa na juventude
     Depois da morte dos pais e de conseguir separar-se da família Fé-Vitali, que a estimava como filha, foi para Bérgamo onde, sob a orientação espiritual do Padre Spinelli, com sua irmã Bartolomea e uma outra companheira, deu início ao novo Instituto, a 15 de agosto de 1882.
     Decorrido dois anos, a 15 de dezembro de 1884, com a bênção e consentimento do Bispo, D. Camilo Guindani, cinco Adoradoras ou Sacramentinas vestiram o hábito, e Catarina Comensoli, que tomara o nome de Irmã Gertrudes do Santíssimo Sacramento, foi eleita Superiora da comunidade, de que faziam parte outras nove religiosas que haviam professado anteriormente.
     O Instituto difundiu-se rapidamente por várias cidades e povoações. Tudo parecia correr pelo melhor quando uma grande tempestade desabou sobre a Congregação. Por razões nada fáceis de apurar, as casas e bens do Instituto foram confiscados, sem culpa dos fundadores. Por outro lado, entre eles tinha havido já um certo desentendimento: a Irmã Gertrudes desejava que o Instituto desse primazia à adoração ao Santíssimo, ao passo que o Padre Spinelli era de opinião que as obras de caridade deviam ocupar o primeiro posto. Quando o caso da falência se veio juntar a esta divergência, o desfecho natural era cada um seguir o próprio caminho.
     A Irmã Gertrudes, por conselho do Bispo Guindani, afastou-se temporariamente de Bérgamo, levando consigo um grupo de religiosas, que tomaram o nome de Sacramentinas. Foram para Lodi, onde o Bispo João Batista Rota as acolheu favoravelmente e em 8 de setembro de 1891 lhes concedeu a aprovação diocesana.
     No ano seguinte, a 28 de março, puderam regressar à casa de Bérgamo já resgatada da hipoteca. Foi ali que a Madre Gertrudes passou os últimos anos de vida. Aproveitou-os para dar consistência e desenvolvimento ao Instituto e sobretudo para lhe incutir o carisma próprio da adoração e reparação ao Santíssimo Sacramento.
     A Santa Sé concedeu-lhes o Breve laudatório a 11 de abril de 1900 e a aprovação definitiva a 14 de dezembro de 1906, quando a fundadora já havia partido para a eternidade. Com efeito, Madre Gertrudes havia falecido aos 56 anos, no dia 18 de fevereiro de 1903.
Adoração ao Santíssimo
     O solene funeral bem mostrou de quanta veneração ela gozava entre todos. Em 9 de agosto de 1926, o venerado cadáver foi transportado do cemitério para a Casa Mãe, onde permanece numa capela apropriada, contígua à Igreja da Adoração.
     A sua fama de santidade confirmou-se no processo canônico, que levou à declaração das virtudes heroicas a 26 de abril de 1961.
     Deus corroborou com um milagre, aprovado no dia 13 de maio de 1989, quanto foi preciosa aos Seus olhos a vida e morte de Madre Gertrudes Comensoli, que finalmente recebeu as honras da beatificação no dia 1º de outubro do mesmo ano.
     Em 26 de abril de 2009, Bento XVI a inscreveu no livro dos Santos.
 
  
Fontes: Santos de Cada Dia, Pe. José Leite S.J., 3ª ed. Ed. A. O. – Braga; http://www.vatican.va/.

Postado neste blog em 17 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Santa Georgina ou Georgete, Virgem - 15 de fevereiro

     São Gregório de Tours (m. 594 ca.) conhecia muito bem a história da região de Clermont-Ferrand, no Auvergne, França, pois nasceu e passou muitos anos naquela cidade. Tinha, portanto, um bom conhecimento das tradições relativas a existência e as virtudes de Santa Georgina (De Gloria confessorum, XXXIV), de quem foi quase contemporâneo. E o que sabemos desta Santa é o que foi transmitido por ele.
     No início do século VI, Georgina vivia em Clermont-Ferrand "religiosa atque devota Deo". Retirou-se para uma aldeia dos arredores para ficar em maior recolhimento e poder oferecer a Deus "as suas oferendas de louvor". Jejuava todos os dias e rezava quase sem cessar.
     Por ocasião de sua morte (ca. 500), quando seu corpo era transportado em direção a igreja para ali serem feitas as orações fúnebres, um bando de pombas acompanhou-lhe os santos despojos desde a casa mortuária, e durante o Ofício escondeu-se no telhado. Logo que o cortejo se encaminhou para o cemitério, as aves tornaram a aparecer e pairavam por cima dos despojos da Santa até estes descerem à terra. Depois, subiram para o céu.
     O candor das pombas simbolizava e honrava a virgindade da defunta. Segundo a tradição, eram anjos que, para honrar a pureza da defunta, tinham tomado a forma de pombas brancas.
     Estudiosos acreditam que os restos de Santa Georgina foram colocados na igreja de São Cassiano, em Clermont-Ferrand. O Martirológio Romano a menciona no dia 15 de fevereiro, dia em que é comemorada também naquela cidade.
Catedral de Clermont-Ferrand
 
Etimologia: Jorge ou George, do grego Geórgios, o mesmo que Georgós, "agricultor". Feminino: Geórgia (português), Georgina (italiano), Georgette (francês).
 
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     São Filipe Néri já dizia: "Na luta pela pureza, vence quem foge". "O sagaz vê o perigo e se esconde, o incauto segue em frente e paga por isso" (Prov XXVII, 12).
     Foge, pois, meu irmão, "foge do pecado como de uma serpente, porque, se te aproximares, morder-te-á; seus dentes são dentes de leões que aos homens tiram a vida" (Eclo XXI, 2).
     "Fuja, e quão longe puder, fuja (…). Fuja como de ar pestilento, corte-lhe o passo como a incêndio; creia que a fragilidade humana - e a astúcia diabólica - é maior do que ponderação alguma pode declarar" (Pe. Manuel Bernardes).
     Fuja, porque "quem ama o perigo, nele perecerá" (Eclo III, 27). Como cera ao fogo!

Postado neste blog em 14 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Santa Catarina de Ricci, Dominicana e grande Mística do Séc. XVI – 13 de fevereiro

A Santa com seus irmãos

     Santa Catarina, uma das maiores Santas da Idade Moderna, nasceu em Florença, de família ilustríssima. Os Ricci são uma família antiga, que ainda subsiste em condições prósperas na Toscana. Pedro de Ricci, o pai de nossa santa, era casado com Catarina Bonza, uma senhora de bom nascimento. A santa nasceu em 1522, e no batismo recebeu o nome de Alexandrina, mas tomou o nome de Catarina na profissão religiosa.
     Tendo perdido a mãe na infância, ela foi formada para a virtude por uma madrinha muito piedosa, e sempre que ela estava ausente, era encontrada de joelhos em alguma parte secreta da casa.
     Quando ela tinha entre seis e sete anos, seu pai a colocou no convento de Monticelli, perto dos portões de Florença, onde sua tia, Luísa de Ricci, era freira. Este lugar era para ela um paraíso: distante do barulho e do tumulto do mundo, ela servia a Deus sem impedimento ou distração.
     Depois de alguns anos, seu pai a levou para casa. Ela continuou seus exercícios habituais no mundo tanto quanto foi possível, mas as interrupções e dissipação, inseparáveis ​​de sua posição, causavam-lhe tanto mal-estar. Com o consentimento de seu pai, que ela obteve com grande dificuldade, no ano de 1535, décimo quarto de sua idade, ela recebeu o véu religioso no convento dos dominicanos em Prat, na Toscana, do qual seu tio, Frei Timóteo de Ricci, era superior.
     Tendo se separado definitivamente do mundo, Catarina não só sentiu a alma invadida da mais pura alegria, como tratou, desde o primeiro instante, de adquirir as virtudes de religiosa perfeita. A bula da canonização confirma que sua vida no noviciado foi de uma santidade angélica. Admirável era sua humildade, que a fazia não recuar diante dos trabalhos mais humildes de casa, ficando-lhe o espírito sempre unido a Deus.
     Tendo apenas 25 anos de idade, foi eleita superiora, cargo que ocupou até a morte, contribuindo assim para maior satisfação das Irmãs, para as quais era uma verdadeira mãe. Governava pelo bom exemplo na prática de todas as virtudes, conseguindo assim que na comunidade reinasse sempre ótimo espírito, e as religiosas se esforçavam a seguir o exemplo da superiora.
     A reputação de sua extraordinária santidade e prudência atraiu muitas visitas de grande número de bispos, príncipes e cardeais - entre outros, de Cervini, Alexandre de Medicis e Aldobrandini, que todos os três foram posteriormente elevados à cátedra de São Pedro, sob os nomes de Marcelo II, Clemente VIII e Leão XI.
     Catarina tomara para exemplo o modelo Jesus Crucificado, a quem dedicava o mais terno amor. A Sagrada Paixão e Morte de Jesus estava-lhe sempre diante dos olhos, e os lábios pronunciavam constantemente jaculatórias e saudações ao bem amado na Cruz, cuja meditação era, por assim dizer, o pão de cada dia da Santa. O maior desejo consistia-lhe em poder participar dos sofrimentos de Jesus Cristo e sentir no corpo o que Ele sentiu nas três horas de agonia.
     Sempre que nas quintas-feiras de tarde começava a meditação da Sagrada Paixão e Morte de Jesus, entrava em êxtase, permanecendo neste estado até o dia seguinte. Era nestas ocasiões que sua alma via a Sagrada Paixão e Morte de Jesus em todos os pormenores, tomando parte mais ou menos ativa no grande sofrimento do divino Mestre. Além destes sofrimentos místicos, Deus mandou-lhe outros em forma de doenças graves e dolorosas. Em vez de lhe diminuírem a fé, aumentavam-na, e na santa Comunhão encontrava a graça e força divinas, para levar a cruz com merecimento.
     As Irmãs observaram muitas vezes que Catarina, tendo recebido a santa Comunhão, parecia rodeada de luz celestial, e o corpo elevava-se acima do leito. Inimiga do próprio corpo, castigava-o com duras mortificações, quanto às Irmãs dedicava as maiores atenções, vendo-as sofrer qualquer coisa. Durante 48 anos não se alimentava senão de pão e água concedendo ao corpo um repouso noturno de três horas apenas. Tanto mais é para admirar este espírito de penitência, sabendo-se que a santa nunca cometera um pecado mortal.
     Grandes e extraordinárias foram também as graças de que Deus cumulou sua serva. Catarina possuía o dom da profecia, do conhecimento de coisas ocultas, da cura de doenças e da multiplicação de mantimentos em favor dos pobres.
   
Maria Santíssima dignou-se de aparecer à serva de Deus e reclinou nos seus braços o Menino Jesus, que a consolava com dulcíssimos colóquios, e lhe imprimiu os sinais das chagas nas mãos, nos pés e no lado. Célebre é a visão de Jesus Cristo Crucificado, o qual desprendeu a mão da Cruz e a abraçou ternamente.
     Em outra visão lhe ofereceu um anel, em sinal de sua união mística. (O Papa Bento XIV menciona na bula de canonização todos estes fatos extraordinários. O sábio e esclarecido Papa não o teria feito, se, após sério estudo, não tivesse certeza da autenticidade dos mesmos). Catarina, porém, permaneceu humilde, procurando ocultar perante os homens todas as provas de predileção divina.
     Tendo tido notícia de que uma das Irmãs havia tomado nota do que de extraordinário e louvável lhe ocorrera na vida, deu ordem para que tudo fosse entregue às chamas. Contudo não lhe era possível impedir que a fama de sua santidade se divulgasse dia por dia. De toda a parte vinham pessoas, entre as quais algumas de alta colocação social e política, ouvir seus conselhos e pedir-lhe intercessão junto a Deus. Sendo-lhe insuportável isto, pediu a Deus que restringisse os benefícios ou, que pelo menos não os manifestasse aos homens. Também este pedido teve acolhimento. 
     Deus permitiu que a fama se transformasse em desprezo, e que Catarina por muitos fosse taxada de impostora e hipócrita. Esta provação Catarina a suportou com maior indiferença e uma paciência admirável. Conhecedores da vida religiosa dizem que a santidade de Catarina mais se manifestou e brilhou nos dias tristíssimos da difamação e calúnia, do que na época das profecias e grandes milagres. São Felipe Neri, contemporâneo de Catarina, tinha em grande consideração a serva de Deus, com a qual mantinha viva correspondência. Ele mesmo diz que, por uma graça excepcional de Deus, teve a visão da Santa, com a qual se deteve demoradamente. (*)
     Pelo fim da vida, Catarina foi acometida de doenças gravíssimas e dolorosas. Se a Sagrada Paixão e Morte de Jesus lhe era sempre a meditação predileta, muito mais quando a alma se preparava para as núpcias eternas. Com muita devoção recebeu os últimos Sacramentos, segurando sempre nas mãos a imagem do Crucifixo. Na hora da morte abriu os braços em cruz, e nesta posição entregou o espírito a Deus. As Irmãs que se achavam presentes, ouviram distintamente uma música de harmonias celestiais e Santa Madalena de Pazzi, que se achava em Florença, viu numa visão a alma de Catarina fazer a entrada triunfal no céu, acompanhada de grande multidão de Anjos.
     Ela passou desta vida mortal à bem-aventurança eterna e à posse do objeto de todos os seus desejos, na festa da Purificação de Nossa Senhora, no dia 2 de fevereiro de 1589, aos 67 anos de idade. A cerimônia de sua beatificação foi realizada por Clemente XII em 1732, e a de sua canonização por Bento XIV em 1746.
     Sua festa é adiada para o dia 13 de fevereiro.

(*) Algo parecido com o que Santo Agostinho relata sobre São João do Egito aconteceu entre São Filipe Neri e Santa Catarina de Ricci. Por terem algum tempo se entretido em uma troca de cartas, para satisfazer o desejo mútuo de se verem, enquanto ele estava detido em Roma ela apareceu a ele em uma visão, e eles conversaram um tempo considerável, cada um sem dúvida em êxtase. São Filipe Neri, embora muito circunspecto em dar crédito ou em publicar visões, declarou que enquanto viva Catarina de Ricci tinha aparecido a ele em visão, como seu discípulo Galloni nos assegura em sua vida. (1) E os continuadores dos Bollandistas nos informam que isso foi confirmado pelos juramentos de cinco testemunhas. (2)
     Bacci, em sua vida de São Filipe, menciona a mesma coisa, e o Papa Gregório XV, em sua bula pela canonização de São Filipe Neri, afirma que enquanto este santo viveu em Roma, conversou um tempo considerável com Catarina de Ricci, uma freira, que então estava em Prat, na Toscana. (3)
 
Note 1. Gallon. apud Contin. Bolland. Acta Sanctorum, Maii, t. 6. p. 503. col. 2. n. 146.
Note 2. Gallon. apud Contin. Bolland. Acta Sanctorum, Maii, t. 6. p. 504. col. 2.
Note 3. In Bullar. Cherubini, t. 4. p. 8.
 
Fontes:
www.santiebeati.it/
cfr. The Lives of the Saints, by Rev. Alban Butler, 1866. Volume II: February, p. 406-408.
Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus: SANTA CATARINA DE RICCI, Virgem Dominicana e grande Mística do Séc. XVI. (santosebeatoscatolicos.com)