terça-feira, 20 de janeiro de 2026

20 de janeiro Nossa Senhora do Milagre


Orações e milagres medievais: 

Nossa Senhora do Milagre: aparição e conversão do hebreu Ratisbonne

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O Pequeno Rei: O Menino Jesus de Praga – Festa em 14 de janeiro

Devoção ao Menino Jesus
     Pouco depois da fundação da Igreja, muitos santos, notadamente o Papa São Leão, o Grande, já haviam falado sobre o Menino Jesus e seu nascimento. Mas a devoção ao Menino Jesus realmente começou a florescer na Idade Média, graças ao ardor de vários santos.
     São Francisco de Assis ficou comovido ao meditar sobre o fato de que Deus se tornou uma criança e foi colocado em uma manjedoura. Foi ele quem montou o primeiro presépio da história para representar esse mistério divino.
     Santo Antônio de Pádua, seguindo o exemplo de seu fundador e mestre, também se maravilhava com o Deus Infante, e frequentemente recebia o privilégio de segurá-lo em seus braços, sendo assim que São Antônio geralmente é retratado.
     Outros santos também receberam esse favor inefável.
     Foi na Espanha, no século XVI, o "Século de Ouro", que o Menino Jesus começou a ser representado em pé, em vez de deitado em uma manjedora ou nos braços de Nossa Senhora.
     A grande Santa Teresa de Ávila introduziu essa devoção em seus conventos. A partir daí, ela se espalhou por toda a Espanha e pelo mundo. Seu discípulo e cofundador do ramo reformado da Ordem Carmelita, o grande São João da Cruz, nutria tanto entusiasmo pelo mistério do Deus feito homem que frequentemente carregava a imagem do Menino Jesus em procissão durante a temporada natalina e compunha poemas comoventes sobre a Natividade. Muitas invocações ao Menino Jesus começaram então a circular nas casas carmelitas, como "o Pequeno Peregrino", "o Fundador" e "o Salvador."
     A devoção ao Menino Jesus não se limitava ao claustro. Por exemplo, Fernando de Magalhães trouxe consigo uma imagem do Menino Jesus quando descobriu as Filipinas. Essa mesma estátua é venerada até hoje na ilha filipina de Cebu.
     No entanto, caberia a uma filha de Santa Teresa ser tanto uma propagadora da devoção ao Menino Jesus quanto sua confidente.
     A Venerável Margarida do Santíssimo Sacramento (1619-1648) foi carmelita no convento Rei da Glória em Beaune, França, tendo ingressado no convento como interna quando tinha onze anos. Ela desfrutava de grande familiaridade com os anjos e santos e do privilégio de participar dos grandes mistérios da vida de Nosso Salvador. Sua missão especial era venerar e propagar a devoção à infância de Cristo. Enquanto orava diante de Sua imagem em seu convento, o Deus Menino lhe falou: "Escolho honrá-la e tornar visível em você Minha infância e inocência enquanto jazia na manjedoura". Ela recebeu muitas graças extraordinárias pelas quais o Menino Jesus lhe deu uma compreensão mais profunda desse mistério.
     Entre seus outros trabalhos apostólicos, a Irmã Margarida fundou a "Família do Menino Jesus", convidando todos a celebrar fervorosamente o vigésimo quinto dia de cada mês em memória da Santa Natividade e a rezar a "Pequena Coroa do Menino Jesus" — três Nossos Padres e doze Ave Marias — em honra aos primeiros doze anos da vida do Senhor.
     Séculos depois, outra carmelita, Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, honrou o Menino Jesus de forma especial, não apenas escolhendo esse nome na religião, mas também iniciando o caminho da "Infância Espiritual". Foi, segundo ela, na noite de Natal de 1886 que recebeu a maior graça de sua vida, a graça de abandonar a imaturidade infantil e entrar no grande caminho dos santos. Ela se entregou ao Menino Jesus com toda docilidade, como uma bola nas mãos de uma criança. Quando recebeu a responsabilidade de vestir a pequena imagem do Menino Jesus do convento, fez isso com verdadeira devoção. Ela também desfrutava de longos colóquios com a imagem do Infante de Praga no coro do noviciado.
O Menino Jesus de Praga
     Praga é justamente considerada uma das capitais mais belas da Europa. Aqueles que a visitam nunca se cansam de passear por suas ruas, sempre descobrindo novas características e maravilhas inesperadas. Sua topografia contribui muito para sua beleza, e o rio Moldávia, que divide a cidade, é quase lendário. Seus vários períodos históricos se refletem em sua arquitetura, desde fundações românicas até belos exemplos de arquitetura gótica religiosa e cívica, edifícios do Renascimento, Barroco e Clássico, até um exemplo de "arte" moderna, uma concessão ao espírito da época.
     Entre os inúmeros edifícios dignos de interesse nesta cidade privilegiada está a igreja de Nossa Senhora da Vitória, o primeiro santuário barroco do local, construído entre 1613 e 1644. Pertencente aos Carmelitas Descalços, abriga a grande maravilha de Praga, a encantadora estátua do "Pequeno Rei", como é conhecido o Infante de Praga.
Como Começou a Devoção
     O venerável Irmão Dominic de Jesus Maria, prior-general dos Carmelitas Descalços, destacou-se ao exortar os exércitos católicos na vitória do imperador sobre o Eleitor Palatino, o calvinista Frederico V, na sangrenta Guerra dos Trinta Anos. Em 1624, como gesto de gratidão, o imperador Fernando II convocou os carmelitas a Praga e lhes deu uma igreja que foi renomeada Santa Maria da Vitória em reconhecimento à ajuda de Nossa Senhora durante a batalha.
     Em 1628, o Irmão João Luís da Assunção, prior dos Carmelitas da cidade, comunicou aos seus religiosos uma inspiração que sentia para que eles deveriam venerar o Menino Jesus de maneira especial. Ele assegurou que, se isso fosse feito, o Menino Jesus protegeria a comunidade e os noviços aprenderiam com Ele como ser "como crianças pequenas" para entrar no reino dos céus. 
    
Quase simultaneamente, a Providência inspirou a princesa Polyxena de Lobkovice, viúva que se retirava ao castelo de Roudnice, a doar ao mosteiro uma estátua do Menino Jesus coberta de cera. Ele foi representado em pé, vestido com trajes reais, segurando um globo na mão esquerda enquanto dava uma bênção com a direita. A estátua havia sido presente de casamento para sua mãe, Maria Manriques de Lara, quando ela se casou com Vratislav de Pernstyn, e ela, por sua vez, a doou à filha como presente de casamento.
     Ao apresentar a estátua ao prior, a princesa Polyxena lhe disse: "Eu te ofereço, querido pai, o que mais amo neste mundo. Honre este Menino Jesus e tenha certeza de que, enquanto o venerar, não lhe faltará nada".
     O Irmão João Luís agradeceu a ela por esse presente que milagrosamente havia vindo realizar seu desejo e ordenou que fosse colocado no altar do oratório dos noviços. Lá, os frades carmelitas se reuniam todos os dias para louvar o Divino Infante e recomendar suas necessidades a Ele.
    Com o tempo, após um período inicial de prosperidade em Praga, os frades foram quase reduzidos à miséria. O prior e seus súditos recorreram ao Menino Jesus, e sua oração logo foi atendida. O imperador Fernando II, rei da Boêmia e da Hungria, conhecendo as dificuldades da comunidade carmelita, concedeu-lhes uma anuidade de mil florins, além de assistência da renda imperial.
     Pouco depois, outro evento extraordinário ocorreu que oferece uma medida da assistência infalível do Infante de Praga àqueles que se voltam para Ele. Havia uma videira no jardim do convento que há muito estava árida. De repente, de maneira totalmente inesperada, começou a florescer e dar os frutos mais doces e esplêndidos que se poderia imaginar.
O Apóstolo do Menino Jesus
     Neste convento havia um jovem padre, Frei Cirilo da Mãe de Deus, que havia deixado o ramo relaxado da ordem carmelita para abraçar a reforma de Santa Teresa. Em vez de encontrar a paz que tanto esperava, porém, sentia-se um reprovado sofrendo as dores do Inferno. Nada o consolava ou apaziguava.
     O prior, vendo-o taciturno e deprimido, perguntou o que havia de errado. O Frei Cirilo abriu seu coração e lhe contou todas as suas dores. "Com a aproximação do Natal", sugeriu o prior, "por que não se ajoelhar aos pés do Santo Menino e confiar a Ele todos os seus sofrimentos? Você verá como Ele vai te ajudar".
     Obedecendo ao prior, Frei Cirilo foi até a imagem do Menino Jesus. "Querida Criança, contemple minhas lágrimas! Estou aos Teus pés; tenha pena de mim!" Naquele exato momento, ele sentiu como se um feixe de luz tivesse penetrado sua alma, dissipando toda sua angústia, dúvidas e sofrimentos. Comovido e extremamente grato, o Frei Cirilo decidiu tornar-se um verdadeiro apóstolo do Divino Infante.
Sitiados por Hereges
     Enquanto isso, os protestantes se reagruparam e, em novembro de 1631, sob o comando do Príncipe Eleitor da Saxônia, sitiaram Praga novamente. O pânico tomou conta das tropas imperiais, e muitos dos angustiados habitantes da cidade fugiram.
     O frade João Maria prudentemente enviou seus frades para Munique, permanecendo com apenas um frade para cuidar do convento.
     Praga se rendeu. Os soldados protestantes invadiram igrejas e conventos, profanando e destruindo os objetos de culto católico. Eles prenderam os dois carmelitas e começaram a saquear o convento. Ao ver a estátua do Menino Jesus no oratório do noviciado, começaram a ridicularizá-la. Um dos soldados, querendo impressionar os outros, cortou as mãozinhas da imagem com sua espada e então lançou a imagem entre os escombros aos quais o altar havia sido reduzido. Lá permaneceu o Menino Jesus, esquecido por muitos anos.
     Quando uma trégua foi assinada em 1634, os carmelitas puderam retornar ao convento. O Frei Cirilo não retornou nesse momento, e ninguém mais se lembrava da imagem do Menino Jesus. Quando o Frei Cirilo finalmente retornou três anos depois, rapidamente percebeu sua ausência. Ele procurou pela preciosa estátua, mas em vão.
     Infelizmente, a paz não durou. Os suíços, quebrando os acordos, novamente sitiaram Praga, queimando castelos e vilarejos à medida que chegavam. O prior aconselhou seus frades a rezar, vendo que somente a oração poderia salvá-los desta vez. O Frei Cirilo sugeriu que se recomendassem ao Pequeno Rei, e ele renovou sua busca pela imagem. Depois de muito esforço, encontrou-o, empoeirado e sujo, e alegremente o levou até o prior. Os frades rezaram fervorosamente diante da imagem sem mãos pela salvação da cidade. Suas orações foram ouvidas; os suíços levantaram o cerco.
     Quando a imagem foi recém-entronizada no oratório do noviciado, os benfeitores do convento, que haviam desaparecido nos anos em que a imagem estava desaparecida, retornaram e renovaram sua ajuda.
     Apesar de seu fervor, o Frei Cirilo não percebeu que as mãos do Menino Jesus estavam ausentes. Um dia, enquanto orava diante do Infante em nome da comunidade, a estátua lhe disse tristemente: "Tenha piedade de mim e eu terei piedade de você. Devolva minhas mãos que os hereges cortaram. Quanto mais você me honrar, mais eu te favorecerei".
     Frei Cirilo imediatamente correu até o prior para contar o que havia acontecido. O prior parecia não acreditar e, devido à privação que o convento sofria, disse que era necessário esperar dias melhores antes de fazer a restauração, pois havia necessidades mais urgentes.
     Circunstâncias favoráveis surgiram quando um novo prior foi eleito pouco depois. Frei Cirilo renovou seu pedido, ao que o prior respondeu: "Se a Criança primeiro nos der Sua bênção, mandarei reparar a estátua". Logo houve uma batida na porta, e uma senhora desconhecida entregou ao Frei Cirilo uma generosa doação. No entanto, o prior lhe concedeu apenas meio florim para a restauração, dizendo que isso deveria ser suficiente. Esse valor insignificante logo foi aumentado por uma generosa doação de Daniel Wolf, um funcionário da corte que havia recebido um favor do Menino Jesus.
     Finalmente, a pequena estátua foi restaurada. Ele foi então colocado em uma urna de cristal próxima à sacristia, atendendo assim ao desejo expresso de Nossa Senhora de que o Menino fosse exposto para veneração pública.
Uma Cura Milagrosa e o Crescimento da Devoção
     Outro evento inesperado influenciou profundamente a devoção ao Pequeno Rei. Um dia de 1639, o Frei Cirilo, já considerado santo por muitos, foi procurado por Henrique Liebsteinski, Conde de Kolowrat, cuja esposa estava gravemente doente. O conde pediu aos frades carmelitas que levassem a estátua ao leito da mulher doente, prima da princesa Polyxena, que havia dado a estátua ao convento. Como vários médicos já consideravam seu caso perdido, sua única esperança restante era a Criança Sagrada.
    O Frei Cirilo não pôde deixar de responder a um pedido tão justo. Quando chegou ao lado da cama da mulher moribunda, seu marido lhe disse: "Minha querida, abra os olhos. Veja, o Menino Jesus está aqui para te curar". Com muito esforço, a mulher doente abriu os olhos e seu rosto se iluminou. "Oh!" ela exclamou, "a Criança está aqui no meu quarto!" Ela levantou os braços em direção à estátua para beijá-la. Ao ver isso, seu marido exclamou jubiloso: "Um milagre! Um milagre! Minha esposa está curada!"
     Mal havia sido restaurada à saúde quando a condessa foi ao convento e ofereceu à Criança uma coroa de ouro e outros objetos preciosos em agradecimento. Este é um dos milagres mais celebrados atribuídos ao Pequeno Rei.
     O conhecimento desse prodígio logo se espalhou além da corte, alcançando o povo da cidade e da região ao redor. Um número cada vez maior de peregrinos de todos os lugares começou a vir para ver o Menino Jesus. Tal era sua fama que uma dama rica da corte, movida por zelo imprudente, fugiu com a estátua. Deus puniu esse sacrilégio, porém, e o Pequeno Rei foi devolvido aos carmelitas.
     Com os fiéis oferecendo muitas oferendas monetárias e outras em agradecimento pelas graças recebidas do Divino Infante, finalmente foi possível construir uma capela especificamente para a estátua milagrosa.
     O arcebispo de Praga, Ernst Cardeal Adalbert von Harrach, foi convidado para a solene consagração em 1648. Ele concedeu aos frades a generosa faculdade de celebrar a Missa na capela do Santo Menino.
     Essa solene confirmação episcopal transformou a capela do Pequeno Rei da Paz em um local oficial de devoção, e ela foi amplamente visitada.
     Em 1648, durante outra batalha da Guerra dos Trinta Anos, tropas protestantes suíças invadiram a cidade mais uma vez. Desta vez, transformaram o convento carmelita em um hospital de campanha, mas nenhum dos 160 soldados feridos tratados ali ousou ridicularizar o Santo Menino. Pelo contrário, durante uma inspeção, o comandante dos invasores, General Königsmark, prostrou-se diante da estátua milagrosa e disse: "Ó Menino Jesus! Não sou católico, mas também acredito na Tua infância, e fico impressionado ao ver a fé do povo e os milagres que Tu fazes em seu favor. Prometo que, na medida do possível, encerrarei o alojamento do convento". E ele deu aos frades uma doação de trinta ducados.
     Pouco depois, a ocupação suíça de Praga terminou, e todos atribuíram o retorno da paz ao Pequeno Rei.
     Com o retorno da normalidade, o Superior Geral dos Padres Carmelitas, Frei Francisco do Santíssimo Sacramento, chegou a Praga em 1651. Ele aprovou a devoção ao Menino Divino e recomendou que os frades a espalhassem para as casas carmelitas na Áustria e entre os fiéis. Em reconhecimento à legitimidade da devoção à sagrada estátua, mandou afixar uma carta na porta da capela do Menino Jesus.
     Em 1655, graças a uma contribuição do Barão de Tallembert, a imagem milagrosa foi colocada sobre um magnífico altar na igreja de Nossa Senhora da Vitória e solenemente coroada pelo arcebispo Joseph von Corti de Praga.
     Até hoje, um memorial solene dessa coroação é celebrado no Dia da Ascensão.
     A devoção ao Infante Divino continuou a se espalhar por todos os níveis sociais. Em 1743, a grande imperatriz Maria Teresa da Áustria aspirava fazer uma peça rica para o Pequeno Rei com suas próprias mãos.
     Em 1744, tropas protestantes, desta vez prussianas, cercaram novamente Praga.
     As autoridades da cidade correram até o convento carmelita para pedir ao prior que carregasse o Pequeno Rei em procissão solene por toda a cidade, a fim de libertá-la do ataque dos hereges.
     Uma rendição honrosa, sem batalhas, foi alcançada; alguns meses depois, os prussianos deixaram Praga, e os moradores da cidade correram até Nossa Senhora da Vitória para agradecer ao Menino Jesus por mais uma graça.
     Pouco tempo depois, outro perigo ainda maior ameaçava a devoção ao Infante Divino. Em 1784, o imperador José II, desdenhoso da vida monástica e especialmente da vida contemplativa, suprimiu o convento carmelita, como fez com muitos outros, e doou a igreja de Nossa Senhora da Vitória à Ordem de Malta.
     Sem a contínua dedicação dos carmelitas, a devoção ao Menino Jesus diminuiu.
     No século XX, durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas ocuparam Praga, após o que o flagelo do comunismo caiu sobre o país por quase 50 anos. Nem um nem outro inimigo da fé de Cristo, no entanto, tentou atacar a estátua milagrosa em si, que permaneceu em seu trono na igreja de Nossa Senhora da Vitória.
Os comunistas proíbem a devoção em Praga  
   
O regime comunista na capital da Tchecoslováquia proibiu o livre exercício da devoção, pois propagavam o ateísmo estatal. Na "Primavera de Praga" de 1968, uma tentativa do povo tchecoslovaco de se libertar do regime ímpio foi sufocante de forma sangrenta.
     A devoção ao Menino Jesus continuou restrita à igreja onde a estátua estava exposta. Os frades carmelitas, expulsos de Praga, continuaram seu apostolado fazendo gravuras do Santo Menino e enviando-as clandestinamente para outros conventos europeus.
     Finalmente, em 1989, com a queda do Muro de Berlim, a ditadura comunista na Tchecoslováquia caiu e o país foi dividido em Eslováquia e República Tcheca. As liberdades religiosas e civis foram restabelecidas na República Tcheca, e o novo arcebispo de Praga, que também havia sido vítima da repressão comunista, decidiu dar um novo impulso à devoção ao Menino Jesus. A seu convite, dois frades carmelitas foram a Praga para reabrir o convento e estimular a devoção ao Menino Jesus Divino.
     A devoção ao Menino Jesus já havia se estendido de Praga ao restante da Europa. De lá, espalhou-se para a América Latina, Índia e outros lugares. Nos Estados Unidos, a devoção deve muito àquela grande apóstola dos imigrantes, Santa Francisca Xavier Cabrini, que queria uma estátua do Pequeno Rei em cada casa do instituto que fundou.
     Padre Cirilo da Mãe de Deus morreu em odor de santidade em 1675.
 
Autor: Plinio Maria Solimeo
O autor deve à excelente obra El Pequeno Rey, de Sorella Giovann della Croce, C.S.C.
 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Santa Maria Maravilhas de Jesus, Fundadora - 11 de dezembro

     Maravilhas Pidal y Chico de Guzmán, este era o seu nome de leiga, nasceu em Madrid no dia 4 de novembro de 1891 em uma família profundamente cristã; o pai, Luis Pidal y Mon, segundo Marquês de Pidal, naquele tempo era embaixador da Espanha junto à Santa Sé.
     Sentiu o chamado à vida religiosa desde criança, e com esta finalidade Maravilhas pôs em prática todas as virtudes cristãs, que foram coroadas com sua entrada no mosteiro das Carmelitas Descalças de El Escorial (Madrid), em 1919, onde pronunciou os votos em 7 de maio de 1921.   
     Nos primeiros anos de sua vida religiosa no mosteiro realizou o seu ardente desejo de uma vida humilde e escondida.
     Em 1923, quando ainda era professa de votos temporários, se sentiu inspirada pelo Senhor, em diversas ocasiões, a fundar um mosteiro carmelita no Cerro de los Angeles, local onde o Rei Afonso XIII havia inaugurado, em 1919, um monumento ao Sagrado Coração de Jesus e feito a consagração da Espanha àquele Coração Sagrado.
     Em 19 de maio de 1924, ela deixou o Escorial, transferindo-se com três religiosas e, por obediência aos superiores, fundou o mosteiro em Getafe, território atualmente da Arquidiocese de Madrid.
     Nomeada primeira priora da nova comunidade pelo Bispo de Madrid, em 31 de outubro de 1926, dirigiu o mosteiro, inaugurado próximo do monumento ao Cristo Rei, com fortaleza e doçura, instaurando uma fidelidade teresiana total com um grande espírito apostólico, um senso profundo do ideal contemplativo.
     Embora respeitando a clausura, viveu a sua vida de contemplativa interessada nas necessidades dos menos favorecidos; por outro lado, seu amor pela Cruz era tão grande, que chegava ao heroísmo: por penitência, durante 35 anos dormiu apenas três horas por noite, vestida e sentada no chão com a cabeça apoiada no leito.
     Em 1933, oito das suas Irmãs fundaram um mosteiro de clausura em Kottayam na Índia, onde ela também deveria ir, mas foi impedida pelos superiores.
     Por causa da revolução espanhola que ensanguentou a Espanha com a perseguição e o ódio contra tudo que se relacionasse com a religião, Madre Maria Maravilhas de Jesus foi obrigada a deixar o mosteiro com todas as suas religiosas em 22 de julho de 1936.
     Acolhidas primeiramente pelas Ursolinas francesas de Getafe, em agosto seguinte se fixou em uma casa de Madrid e depois atravessou Valencia, Barcelona, Port-Bou, Lourdes, retornando em outra parte da Espanha, estabelecendo-se em uma antiga ermida da Ordem do Carmo em Las Batuecas (Salamanca).
     Em maio de 1939, o mosteiro de Cerro de los Angeles foi reaberto e dali partiram as Irmãs dirigidas por ela, que graças ao maravilhoso florescimento de vocações carmelitas puderam abrir várias Casas: Mancera (1944), Duruelo (Ávila) em 1947, Cabrera (1950), Arenas de San Pedro (1954), Córdoba (1956), Aravaca - Madrid (1958), La Aldehuela (1961), Málaga (1964); finalmente, em 1966, restaurou e desenvolveu o mosteiro da Encarnação de Ávila e a casa de Santa Teresa.
Maravilhas jovem
     Graças às numerosas vocações atraídas por sua personalidade forte, pode mandar três Irmãs para o mosteiro de Cuenca (Equador), em 1954, o qual necessitava de reforços. Fez construir um convento e igreja para os Carmelitas Descalços na província de Toledo
     Chamavam-na “a Santa Teresa de Jesus do século XX”.
     Retirou-se no convento de La Aldehuela (Madrid), em 1961, vivendo em grande pobreza, de onde dirigia o movimento e a vida regular de tantos mosteiros com a sua palavra materna e o seu exemplo.
     Em 1967, em Ventorro, promoveu a fundação de colégios para crianças privadas de escola; em 1969 conseguiu 16 casas pré-fabricadas para famílias pobres.
     Em 1972 a Santa Sé aprovou a Associação de Santa Teresa, constituída por ela para os seus mosteiros, associação esta empenhada em iniciativas sociais, da qual foi eleita presidente.
     Entre 1972 e 1974, ajudou na construção de 200 habitações, com a Igreja e as obras sociais em Perales del Rio, colaborando com o pároco local. Com a bondade daqueles que confiavam nela e na sua obra, ajudou a construção da nova clínica para religiosas e monjas em Pozuelo di Alarcón (Madrid).
     Foi atingida por uma pulmonite na Sexta-Feira Santa de 1967 e desde então foi se debilitando, mas não abandonava a fidelidade à Regra e às Constituições. Morreu santamente depois de breve enfermidade no dia 11 de dezembro de 1974, no mosteiro da Aldehuela (Madrid).
     Mulher notabilíssima por suas virtudes e por suas capacidades humanas, com seu espírito de oração contemplativa, com o desejo de ajudar a Igreja e com o anelo de salvar as almas, Madre Maravilhas deixou um traço indelével que a tornaram fidelíssima à sua vocação e autora corajosa de obras para a glória de Deus.
     A sua espiritualidade se exprimia na oração contínua, na sua pobreza excepcional e na de seus mosteiros, na vida austera sustentada pelo trabalho que permitia manter-se e ajudar as grandes iniciativas sociais e beneficentes da Igreja, que ainda falam dela.
     Os seus despojos repousam na paupérrima capela do mosteiro de La Aldehuela. A causa para sua canonização foi introduzida em 19 de junho de 1980; foi beatificada por João Paulo II em 10 de maio de 1998 na Praça de São Pedro, em Roma.  Em 4 de maio de 2003, o mesmo pontífice a canonizou em Madrid, com a participação de uma enorme multidão.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

São Nicolau de Mira, 6 de dezembro

  
Santa Klaus na
era vitoriana

Como São Nicolau evoluiu para o Papai Noel e por quê?
     Quatro artistas, trabalhando com histórias passadas de geração em geração, são responsáveis pelo Papai Noel que hoje conhecemos como o "espírito de generosidade e amor." A outra razão pela qual temos o Papai Noel e não São Nicolau é devido ao ódio protestante contra os dias de Santo católicos.
     A transformação de São Nicolau em Papai Noel ou Papai Janeiro ocorreu primeiro na Alemanha, depois em países onde as Igrejas Reformadas eram maioria, e finalmente na França, com a festa sendo celebrada no Natal ou no Dia de Ano Novo. Colonos protestantes holandeses em Nova Amsterdã (Nova York) substituíram São Nicolau (Sinter Claes) pelo benevolente mágico que ficou conhecido como Papai Noel.
     Em 1517, ocorreu a Reforma Protestante. Protestantes não acreditam em santos. No entanto, São Nicolau era tão amado por todos que as pessoas mantiveram sua memória de generosidade e amor, mas acabaram com a influência católica criando novos personagens baseados nele, como o Papai Noel ou Pére Noël.
     Na lenda holandesa, Sinta Claes e seu elfo original, Pedro Negro, um pequeno mouro, deixam a Espanha em seu barco a remo no dia de São Nicolau, 6 de dezembro, e seguem para Amsterdã. Depois de pousar na véspera de Natal com presentes, ele pergunta aos pais se seus filhos foram bons ou ruins. Se foram bons, os presentes iam para eles; se foram ruins, recebiam pedaços de carvão. Quando colonos holandeses, predominantemente protestantes, chegaram a Nova Amsterdã (Nova York) no século XVII, levaram consigo sua versão de "São Nicolau". Com algumas modificações e por má pronúncia de São Nicolau, seu nome foi alterado para Sinta Claes e Pedro Negro foi retirado.
     Em 1820, o primeiro de quatro artistas, Washington Irving, um escritor muito popular de sua época, escreveu um livro de sátira política que falava muito sobre a Sinta Claes, ou Papai Noel. Nela, ele fez Sinta Claes sem burro ou cavalo branco e o colocou em uma carroça puxada por cavalos que voava sobre telhados, jogando presentes pelas chaminés de boas crianças. O Papai Noel de Irving era um sujeito alegre, com um chapéu largo e calças largas. A roupa e o meio de transporte do Papai Noel não duraram muito.
Sinta Cçaes e Pedro Negro
     Em 1823, o segundo artista, um professor chamado Dr. Clement Clarke Moore, presenteou sua família com um poema sobre o Papai Noel para divertir seus netos. O poema era Uma Visita de São Nicolau, que começava assim: "Era a noite antes do Natal..." O poema rapidamente se tornou popular em todo os Estados Unidos. O poema de Clement Moore usou a descrição do Papai Noel no livro de Washington Irving, mas ele adicionou novos detalhes. Ele o transformou em alegre São Nicolau, um elfo rechonchudo e despreocupado que conseguia se espremer por uma ou duas chaminés, com um trenó cheio de brinquedos, oito renas voadoras, e ele mudou sua casa da região do Mediterrâneo para o Polo Norte.
     Papai Noel frequentemente era mostrado vestido com roupas verdes, ou azuis ou pretas. Quando uma das filhas de Clement Moore fez uma versão caligrafada do famoso poema do pai como presente de Natal para o marido, apesar das palavras do pai, ela vestiu o Papai Noel com um longo casaco verde. Papai Noel permaneceu um elfo até a década de 1860. Foi aí que ele engordou de novo. Em 1882, o terceiro artista, Thomas Nast, desenhou quem ele achava que Clement Moore estava descrevendo. Foi publicado em um jornal chamado Harper's Weekly.
     Thomas Nast, ilustrador da revista Harper's, retratou um Papai Noel redondo. Ele também desenhou o mapa do Papai Noel, dando ao Papai Noel uma oficina e um lar no Polo Norte. Ele também fez com que esse Papai Noel tivesse uma lista mundial de crianças boas e más. Essa versão do Papai Noel durou até a década de 1920, quando a publicidade entrou em cena.
     O último artista, Haddom Sundblom, trabalhou para a Coca-Cola Company e desenhou seus cartazes e anúncios. Haddom Sundblom decidiu que o Papai Noel vestia vermelho e não era realmente um elfo. Ele também fez o Papai Noel beber uma Coca-Cola. Esse Papai Noel foi feito no início dos anos trinta. O Papai Noel de veludo vermelho, que Haddom Sundblom projetou para publicidade há 80 anos, é como a maioria das pessoas pensam sobre o Papai Noel hoje.
     Em 1939, o Papai Noel pegou a nona rena, Rudolph; essa rena-de-nariz-vermelha foi criada por um redator de publicidade da Montgomery Ward.
 
por Jenifer Segerstrom
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Contos sobre Honra, Cavalaria e o Mundo da Nobreza — nº 554
Como São Nicolau evoluiu para o Papai Noel e por quê? - Nobreza e Elites Tradicionais Análogas
 
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São Nicolau de Mira, o padroeiro dos marinheiros 

     São Nicolau de Mira nasceu no ano 275 em Pátara, cidade marítima da Lícia, na Turquia meridional. Seus pais eram ricos e possuíam uma profunda vida de oração. Ainda muito jovem, tornou-se órfão. Recordando a passagem do “Jovem rico”, Nicolau, ao receber por herança uma grande quantia de dinheiro, livremente doou aos necessitados e pobres.
     Educado no cristianismo, tornou-se sacerdote da diocese de Mira, onde, com amor, evangelizou os pagãos, mesmo no clima de perseguição que os cristãos viviam.
     Certa vez, ficou sabendo que um homem havia perdido todo o seu dinheiro. Ele tinha três filhas, as quais tinham idade suficiente para o casamento, mas não tinham os dotes para a celebração. Por isso, as filhas do pobre homem seriam vendidas como escravas, pois não poderiam viver na casa por mais tempo.
     Na noite antes da partida da filha mais velha que seria vendida, ela lavou suas meias e as colocou em frente ao fogo para que secassem. Na manhã seguinte, a jovem viu que havia, dentro de sua meia, uma bolsinha com ouro. s países do Norte da Europa, usando da fantasia, viram em Nicolau o velho de barbas brancas que levava presentes às crianças no mês de dezembro.
     Com a morte do bispo de Mira, Nicolau foi eleito seu sucessor. A obediência fez com que Nicolau abandonasse a solidão para assumir as responsabilidades de bispo. Conquistou a todos com sua caridade, zelo, espírito de oração e carisma de milagres em favor, sobretudo, dos enfermos.
     Historiadores relatam que ao ser preso por causa da perseguição dos cristãos, Nicolau foi torturado e condenado à morte, mas, felizmente, salvou-se em 325, pois foi publicado o edito de Milão que concedia a liberdade religiosa.
     São Nicolau de Mira participou do Concílio de Niceia, onde, contra a heresia ariana, foi definida a divindade de Jesus, declarado consubstancial ao Pai. Nicolau presenciou uma cena indescritível: Constantino Magno, um grande perseguidor do povo cristão, ajoelhou-se para beijar as cicatrizes de Nicolau e de outros cristãos torturados na última perseguição.
     São Nicolau de Mira faleceu em 343, na cidade de Mira, com fama de santidade e de instrumento de Deus para que muitos milagres chegassem ao povo. Após sua morte, seu túmulo em Mira se tornou um local de peregrinação. 
     As relíquias de São Nicolau de Mira foram consideradas milagrosas devido a um misterioso líquido que saía dele, chamado “maná de São Nicolau”. São Nicolau de Mira é invocado contra os perigos de incêndios e é padroeiro dos marinheiros.
 
São Nicolau: a história do bispo que inspirou Papai Noel - BBC News Brasil

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Santa Crispina, Mártir de Tebaste - 5 de dezembro

     Etimologicamente seu nome significa “de cabelo crespo”. Santa Crispina e seu martírio são comprovados por dois documentos de grande valor histórico. Um é a Passio, tirada das Atas oficiais do processo. O outro é um sermão de Santo Agostinho, conterrâneo da mártir, pronunciado no aniversário de sua morte.
     Crispina nasceu de rica e nobre família em Tebaste (ou Thagara, ou Thacora), cidade romana da Numídia, em Taoura, Argélia, norte da África. Ali vivia no final do século III e início do século IV, casada e mãe de vários filhos. Não possuía boa saúde; muito firme na Fé, era estimada carinhosamente pelos cristãos, que a procuravam pelos seus bons conselhos tanto em assuntos religiosos quanto naturais.
     A graça de Deus tocou seu coração. Resplandecia diante de todos por sua virtude e todos, já em vida, começaram a chamá-la a “santa". Os fiéis de Cristo Nosso Senhor a estimavam e respeitavam com carinho profundo. Era una boa conselheira em assuntos cristãos e humanos. As duas coisas vão intimamente unidas. As orientações que dava eram acertadas.
     Neste período eclodiu a décima perseguição do imperador romano Diocleciano aos cristãos. Sendo muito conhecida na região, Crispina foi uma das primeiras a serem presas e levada a Tebaste para julgamento pelo procônsul Gaius Annio Anullino. Diante dele, ela se negou a adorar os deuses pagãos: – "Você quer viver muito ou morrer entre as torturas como seus cúmplices?". [Os calendários dão os nomes de Júlio, Potamia, Felix, Grato e outros sete cristãos.]
     "Se eu quisesse morrer, eu não deveria fazer outra coisa que dar o meu consentimento aos demônios, deixando que a minha alma se perdesse no fogo eterno".
     Para humilhá-la, rasparam o seu cabelo, e Gaius a atormentou de várias formas, mas nem diante do choro dos seus próprios filhos ela negou a Deus. Humilhado, então, ficou Gaius, diante da valentia de Crispina, e irritado decretou-lhe a morte por decapitação de espada, diante do que a santa disse: "Louvado seja Deus que me olhou de cima e me tirou de suas mãos".
     No dia 5 de dezembro de 305, ela foi atingida no frágil pescoço pelo fio da espada, fora de Tebaste, em um lugar onde foi encontrada a antiquíssima memória sepulcral dedicada à Mártir. Neste local foi posteriormente construída uma Basílica.
     Os Atos de seu martírio, escritos não muito tempo depois do evento, formam um valioso documento histórico do período da perseguição. O dia da morte de Santa Crispina era celebrado na época de Santo Agostinho.
     Santo Agostinho comenta seu sacrifício brilhante: "Os perseguidores eram tão furiosamente contra Crispina, contra esta mulher rica e delicada, mas ela era forte, porque o Senhor era a sua proteção ... Esta mulher, irmãos, há alguém na África que não a conheça? Foi muito notável, de família nobre e muito rica, mas sua alma não cedeu: o corpo é que devia ser afetado".
     Em seu sermão, Santo Agostinho não hesita em comparar Crispina a Santa Inês, aproximando a jovem cândida e intacta como um cordeiro a uma mulher idosa, esposa e mãe. Agostinho também menciona a comunhão sublime e misteriosa que une os mortos aos vivos, os santos aos sofredores. "Estes Santos, - diz ele - não sofrem mais; estão aqui entre nós".
     O que era verdade para Santo Agostinho ainda é verdadeiro e reconfortante para nós. Vivamos no meio dos Santos, e o seu sacrifício vai nos ajudar.  
 
Fontes:
https://www.a12.com/
Fonte: https://www.liriocatolico.com.br/enciclopedia/palavra/santa_crispina/

sábado, 15 de novembro de 2025

Beata Edvige Carboni, a mística que lutou pelas almas do Purgatório

     
     Edvige Carboni nasceu em Sássari na noite de 2 de maio de 1880, a segunda de seis filhos de João Batista Carboni (m. 1937) e Maria Domenica Pinna (m. 1910). Recebeu o batismo dois dias depois e a confirmação em 1884, de Mons. Eliseu Giordano; fez voto de castidade em 1885. Ela ingressou na escola em 1886 e terminou três séries de educação.
     A mãe recordava que no nascimento de Edvige tinha visto uma hóstia luminosa na custódia; outro fenômeno estranho que ocorreu após seu nascimento foi uma marca sobrenatural da Cruz em seu peito, formada de sua própria carne.
     Sua mãe a ensinou a bordar quando criança e ela trabalhava com seu pai no ramo de bordados. Também passou uma temporada no convento das Irmãs de São Vicente em Alghero, onde as freiras ministravam um curso de bordado. A saúde frágil de sua mãe fez com que ela cuidasse de seus irmãos mais novos, bem como executasse outras tarefas domésticas.
     Na casa da avó havia uma réplica do quadro de Rafael da Virgem Maria com o Menino Jesus; ela subia numa cadeira para alcançar a imagem e dizia à Mãe Santíssima: "Minha mãe, eu te amo. Dê-me teu filho para que eu possa brincar com Ele". Ela foi obrigada a fazer as compras devido aos problemas de saúde de sua mãe, apesar de ter medo de fazê-las à noite, mas seu Anjo da Guarda apareceu para ela e disse-lhe: "Não tenhas medo. Estou contigo e te mantenho em boa companhia".
     Edvige fez sua primeira comunhão em 1891. Aos 15 anos ela queria se tornar freira, mas sua mãe desaprovou e ela interpretou essa desaprovação como um sinal da vontade de Deus. Em 1895 nasceu sua irmã Paulina; naquele ponto ela tinha irmãos e nenhuma irmã. A partir de 1896, suas visões de Jesus e Maria tornaram-se cada vez mais frequentes.
     Tornou-se professa da Ordem Terceira de São Francisco em 1906 e pertencia a uma associação conhecida como Amigos de Santa Teresinha do Menino Jesus; ela começou a registrar seus pensamentos em um diário espiritual. Sua mãe morreu em 1910 e suas responsabilidades triplicaram.
     Em 1911, aos 31 anos, Cristo lhe teria dito: "Edviges, quero que você seja a efígie da minha paixão". Assim, ela recebeu os estigmas da Paixão do Senhor em seu corpo. Este fenômeno místico não pôde permanecer oculto, causando desconfiança e calúnias das pessoas.
Sinal do estigma
     Edvige também recebeu a transverberação e registrou um caso de encontro demoníaco em dezembro de 1941. Suas experiências com o demônio tornaram-se mais agressivas com o passar do tempo. Em uma ocasião, ela foi chutada nas pernas e em outra suas obturações de ouro foram roubadas. Certa vez, ela ficou confinada à cama por um tempo depois que um martelo a atingiu nos joelhos.
     Ela anotou em seu diário espiritual em 12 de junho de 1941 seu primeiro encontro com São João Bosco. O Santo chegou a convidá-la a se inscrever como salesiana em 25 de setembro de 1941.
     A Beata teve uma série de visões de santos: Santa Rita de Cássia - durante uma peregrinação ao santuário da santa; Santa Teresinha do Menino Jesus, Santa Gema Galgani - a quem ela admirava, ela também participou de sua canonização em 1940; São Paulo, Santa Catarina de Siena - em uma peregrinação de 9 de abril de 1950 ao seu santuário; São Francisco de Assis, e outros.     
     Edvige também teve visitas de São Padre Pio de Pietrelcina em suas visões, apesar de o sacerdote estar vivo. Padre Pio conhecia Edvige e se referia a ela como uma "santa". Ela também conheceu São Luís Orione.
     Ela começou a experimentar a bilocação em 1925 e isso se tornou maior durante a 2ª. Guerra Mundial.
      Em 1929, sua irmã Paulina encontrou um emprego como professora em Marcellina Scalo - uma pequena cidade entre Roma e Tivoli. Seu pai não queria que Paulina fosse embora sozinha, então toda a família se mudou da Sardenha para o continente. Em 1934 ela se mudou para Albano Laziale até a morte de seu pai em 1937, e finalmente se estabeleceu em Roma em 1938. A partir de 1941 passou a fazer parte da Confraria da Paixão de Scala Santa em Roma. Em 11 de agosto de 1941, ela escreveu sobre Jesus permitindo-lhe uma visão do céu. 
     Edvige passou os últimos quatorze anos de sua vida morando com sua irmã Paulina em Roma. Seu último diretor espiritual foi o padre passionista Inácio Parmeggiani. Seu tempo em Roma a viu ensinar catecismo enquanto cuidava dos pobres e enfermos. Por sua piedade, recebeu elogios do Servo de Deus João Batista Manzella e de padres como Ernesto Maria Piovella e Felice Cappello.
     Ao longo da vida, Edvige precisou cuidar da mãe, da tia, da avó, do pai e, por fim, da irmã Paulina. Sempre o fez com amor e paciência. Ela particularmente amou os pobres. Se algum pobre batesse à sua porta enquanto ela comia, ela daria a ele sua comida. Edvige costumava dizer: "Os pobres são meus amigos mais queridos. Eu daria tudo por eles, brincos, anéis... Eu os amo porque Jesus os ama. No Céu veremos todo o bem que fizemos aos pobres. Eles nos abrirão as portas do Céu".
     Em 17 de fevereiro de 1952, ela se levantou de manhã para assistir à Missa e voltou para casa para uma refeição antes de voltar à igreja para ouvir o padre Lombardi pregar um sermão. Ela e a irmã chegaram em casa de trem às 20h30, quando ela reclamou que não estava se sentindo bem. Sua irmã chamou um médico e dois padres de sua paróquia, que lhe ministraram os últimos sacramentos. Edvige morreu de angina de peito às 22h30 e foi sepultada em Albano Laziale, onde já estavam enterrados seu irmão Galdino e sua esposa.
     Seus restos mortais em um caixão branco foram exumados em outubro de 2015 para inspeção canônica como parte da causa de canonização. Seus restos mortais foram realocados como resultado disso.
Alma vítima para a conversão dos comunistas
     Jesus tinha escolhido Edvige para ser uma alma vítima e ela se ofereceu generosamente para a salvação de outros. Jesus pediu-lhe muitas orações e sacrifícios porque muitas almas corriam o risco de condenação eterna.
     Ela escreveu: "Depois da Santa Comunhão, vi três cruzes. Jesus estava no meio, as outras duas estavam vazias. Então Dom Bosco veio até mim e disse: "Filha, Jesus me deu a tarefa de encontrar almas vítimas para reparar por muitas ofensas que Ele recebe constantemente, especialmente por causa da imodéstia e para que haja paz entre as nações.   Filha, depois de procurar um tanto, eu encontrei você e Gracia. Essas duas cruzes serão uma para você e uma para ela" (diário, 12 de junho de 1941). Gracia era uma das amigas próximas de Edvige, que aos 33 anos consagrou-se a Jesus e ofereceu-se como alma vítima a fim de obter a paz durante a 2ª. Guerra Mundial.
     Jesus pediu a Edvige que se oferecesse como vítima especialmente pelos comunistas. Ela escreveu: "Sonhei com a Virgem Maria que me disse: 'Minha filha, promete-me sofrer toda tribulação, rejeição, desprezo e sofrimento pela conversão dos comunistas".
     Um dia Irmã Gabriela Sagheddu (beatificada em 25|1|1983) uma freira trapista que se ofereceu como vítima para que a Igreja Anglicana se reunisse com a católica, apareceu a Edvige e disse-lhe: "Oferecei-vos como vítima para que os comunistas possam voltar a Igreja".
     Em junho de 1941, Edvige escreveu em seu diário: "Enquanto rezava, entrei em êxtase e São João Bosco apareceu e me disse: 'Minha filhinha, lembre-se que você se ofereceu como vítima pela libertação dos pobres russos do bolchevismo; reze para que logo o Crucificado possa entrar na Rússia".
     "Ontem à noite sonhei comigo mesma na Rússia. Vi Stalin sentado, com uma pequena mesa à sua frente, onde escreveu em letras grandes estas palavras: ‘Eu sou o forte e terrível inimigo de Deus’, com um rosto feio, o que me assustou ao olhá-lo com atenção. Stalin enviou tropas de soldados para matar as tropas de soldados católicos, e eu gritei: "Avante!" e disse aos nossos bons soldados: "Vamos, coragem!" Então gritando, acordei. Stalin é realmente feio, um seguidor do diabo. Devemos também orar por ele, porque Jesus sofreu na cruz e derramou seu precioso sangue por Stalin também". (9 de agosto de 1941)
     Em uma carta que Edvige escreveu ao Pe. Inácio Parmeggiani, ela diz: "Pai, Jesus me disse ontem à tarde: "Minha filha, ore pela salvação dos chineses comunistas. Eles são tão ruins. Até agora prenderam dez bispos. Como eu disse outro dia, um deles é Mons. Guthberth O'Gara, bispo passionista de Nanquim. Jesus me fez ver onde esse passionista estava. Ele estava em uma cela escura. Os guardas o ameaçavam, mas permaneceu em silêncio olhando para o céu. Eu estava gritando e disse a esses homens: 'Vocês são ruins'. Eles me ameaçaram, mas eu estava lá em cima e disseram: 'Ela é a bruxa do Papa. Ela é uma bruxa!' Eu disse a eles: 'Lembrem-se que um dia vocês serão julgados pelo bom Jesus. Se vocês não fizerem penitência, vocês vão para o Inferno'. Eles ficavam repetindo: 'Bruxa! Bruxa!' Pai, rezai pela conversão daqueles irmãos perdidos".
     Edvige foi levada duas vezes para visitar o Cardeal Mindszenty na cadeia e ela falou com ele e com Jesus. (Cardeal Mindszenty também recebeu visitas do Padre Pio e da Irmã Cristina Montella em bilocação durante sua prisão.)
Visões do Céu, Inferno e Purgatório
     Edvige tinha visões de pessoas que tinham ido para o inferno, de almas que estavam no purgatório e pediam sua ajuda, e das almas que entraram no céu.
     Vitalia afirma: "Havia um jovem que morava no prédio de Edvige. Ele nunca ouviu seus conselhos para se arrepender. Ele era um incrédulo e morreu repentinamente de um choque elétrico em seu local de trabalho. Eles tiveram tempo suficiente para levá-lo ao hospital, mas quando ele estava lá, rejeitou o sacerdote e os sacramentos.
     Um dia Edvige o viu cercado de chamas, condenado. Ele a xingava e a recriminava por não ter rezado mais por ele. Jesus consolou Edvige, dizendo-lhe que tinha tido misericórdia para com este homem enviando-lhe um sacerdote, mas que ele o havia rejeitado".
     Jesus também deixou Edvige saber de um dentista na Sardenha que tinha sido condenado: "Minha filha, aquele dentista que morreu há alguns meses não queria me reconhecer como seu pai, e eu não o reconheci como filho".
     Um caso bem conhecido foi a de um padre que durante a 2ª. Guerra Mundial dava conferências negando a presença real de Jesus na Eucaristia em uma Universidade de Roma. Após sua morte, ele apareceu a Edvige que costumava rezar por ele. Disse-lhe que tinha sido condenado por causa dos livros que escrevera contra a fé e por causa do escândalo que ele causou. Para provar a Edvige que não era imaginação, o padre pegou um livro em seu quarto e, ao tocá-lo, ficou completamente queimado.
     Quanto ao purgatório, Edvige escreveu em seu diário em outubro de 1943: "Alguém apareceu e tocou meu pulso e me queimou. Eu não o conhecia. Ele estava vestido de funcionário. e disse: "Eu morri durante a guerra. Gostaria de algumas missas celebradas por Mons. Vitali. Você e sua irmã devem oferecer a Santa Comunhão por mim".
     Depois de ter as missas celebradas e as comunhões oferecidas por suas intenções, ele apareceu-lhe novamente cercado de luz e disse: 'Vou para o céu, onde vou rezar por vocês duas (Edvige e Paulina), e especialmente por Mons. Sou russo, meu nome é Paulo Vischin. Minha mãe havia me educado no Fé, mas quando cresci deixei-me levar por más influências. No momento da morte me arrependi e lembrei do que minha mãe me ensinou quando criança’".
     Em outra ocasião Edvige escreveu: "Sonhei com uma professora que tinha morrido há um mês por causa de um bombardeio. Vi que ela estava em uma luz brilhante, mas seus braços estavam um pouco queimados. O resto de seu corpo era saudável e bonito. Ela disse: 'Olhe para mim agora. Tudo que preciso é de mais uma missa e serei libertada. Por favor, mande Mons. rezar uma para mim'".
     A Virgem Maria disse a Edvige que sua tia estava no purgatório porque muitas vezes ela tinha faltado à missa nos dias santos de obrigação. Seu irmão, Giorgino, também apareceu para Edvige e disse-lhe que ele estava no purgatório e tinha que permanecer lá por oito anos. Ele pediu orações e pegou em sua mão quando se despediu, deixando-lhe uma cicatriz da queimadura que durou até sua morte.
     No Dia de Finados Edvige se enchia de alegria ao contemplar longas filas de almas que vinham agradecê-la por suas orações ao entrarem no Céu.
     Em 1923, sua amiga Mercedes Farci morreu aos 28 anos de tuberculose. Poucos dias após sua morte, Mercedes apareceu para Edvige vestida de branco e disse que estava gozando da presença de Deus e das alegrias do Céu.
     Jesus permitiu-lhe ter uma visão do Céu. Em agosto de 1941, ela escreveu: "Jesus me disse: 'Vinde e vais ver coisas lindas'. Fui caminhando até um lindo portão que tinha dois anjos, um de cada lado, guardando-o. O portão tinha uma placa que dizia: "Aqueles que são desonestos e imodestos não podem entrar". Os anjos me fizeram entrar. Fico feliz. Entro. Era um pedaço do Céu. Que lindo! Plantas e flores que eu nunca tinha visto antes. O chão estava coberto de pérolas e flores preciosas. Depois, sinalizaram-me para não ir mais longe. Vi um padre salesiano aproximar-se com uma chave na mão e abrir a porta onde estava escrito: "Jardim Salesiano". Lá dentro havia padres e leigos de todas as idades. Era um lindo jardim com plantas e flores que eu nunca tinha visto e todo mundo cantava feliz".
Seu amor por Maria e a importância do Rosário
     Ela escreveu em seu diário em março de 1942: "A Virgem Maria apareceu-me com lágrimas nos olhos. Eu me aproximei dela e disse: 'Por que estais chorando?' “Estou chorando porque não posso apaziguar a ira do Meu Filho contra a raça humana. Se os homens não fazem penitência, a guerra não acabará e muito sangue será derramado. Minha filha, modas imodestas e desonestidade enfureceram a Deus. Rezai e fazei penitência. Rezai o Rosário frequentemente. É a única arma poderosa para atrair as bênçãos de Céu”.
     Ela também teve a seguinte visão: "Um dia, depois da Santa Comunhão, encontrei-me numa pradaria, e num trono vi Maria Auxiliadora coberta de um grande manto. Na planície havia uma terrível tempestade de vento e fogo. De repente, São João Bosco apareceu. Ele estava correndo através da tempestade chamando homens e mulheres para se salvarem eles mesmos se escondendo sob o manto de Maria. Milhares se esconderam sob o manto de Maria, mas outros milhares não quiseram entrar e riram daqueles que o fizeram. Dom Bosco, no meio da tempestade, subiu em cima de uma mesa e começou a pregar, dizendo: 'Você vai morrer por causa de sua própria culpa, venha sob a proteção de nossa Mãe Celestial'".
     "Mas eles, tendo coração duro e sendo indiferentes às suas palavras, ficaram surdos à exortação do santo. Eu vi o fogo cercá-los enquanto tentavam escapar. Isso não parecia uma visão para mim, pois sentia que estava acordada com todos os meus sentidos. Ainda hoje, quando me lembro, estremeço ao ver aquelas almas endurecidas que preferiam ser queimadas em vez de obedecer à voz de Dom Bosco. Mas aqueles que estavam sob o manto de Maria estavam seguros".
Beatificação
     A Congregação para a Causa dos Santos aprovou sua causa em 2 de maio de 2017; sua virtude heroica foi confirmada em 4 de maio de 2017 e recebeu o título de Venerável.
     O milagre necessário para sua beatificação foi investigado no local de origem e recebeu a validação da Congregação para a Causa dos Santos em 6 de outubro de 2000. Um decreto de 7 de novembro de 2018 permitiu a beatificação de Edvige Carboni; foi realizado em sua Sardenha natal, em 15 de junho de 2019.
 
Fontes:
https://www.mysticsofthechurch.com/2014/02/edvige-carboni.html?m=1
https://www.caffestoria.it/
Edvige Carboni – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)
Italiana Edviges Carboni beatificada na Sardenha - Vatican News

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Irmã Maria da Cruz e o “Manuscrito do Purgatório”

Nossa Senhora e as almas
do Purgatório 

     O mês de novembro é dedicado às almas do Purgatório, assim sendo, nada melhor do que lermos e refletirmos sobre o texto que segue:  
 
     Manuscrito do Purgatório constitui os registros da Irmã Maria da Cruz (cujo nome era Elisa Sofia Clementina Hébert, nascida em Néhou-St-Georges em 1 de dezembro de 1840 e falecida em Cherbourg em 11 de maio de 1917). Esta religiosa do Convento Agostiniano de Valognes recebeu, por um especial desígnio divino, mensagens do Purgatório, manifestadas por uma antiga companheira do convento chamada Maria Gabriela, falecida em Valognes a 22 de fevereiro de 1871, com apenas 36 anos de idade. As manifestações tiveram início em novembro de 1873, na forma de gemidos prolongados, e se confirmaram, por via oral, a partir de 15 de fevereiro de 1874.
     A autenticidade destes relatos tem sido amplamente defendida, em função da própria vida religiosa da Irmã Maria da Cruz, como pelo testemunho de vários teólogos e do próprio diretor espiritual da religiosa, Pe. Prével, que acompanhou os eventos durante todas as suas manifestações. De qualquer forma, no contexto formal da Santa Igreja trata-se de um documento de caráter de devoção particular.
     Estas extraordinárias confidências de uma alma sobre as realidades e os sofrimentos do Purgatório foram expostas em francês nos manuscritos originais, publicados em várias línguas. O texto, composto pelas mensagens compiladas no período de 1874 a 1890, não tem um padrão 'literário', sendo comumente truncado e descontínuo, mas as mensagens transmitidas constituem um tesouro de alento à fé e à caridade cristãs.
* * *
     Em novembro de 1873, Irmã Maria da Cruz ouviu subitamente, junto dela, gemidos prolongados. Disse então espantada: “Oh! Quem é? Faz-me medo… Por favor, não se mostre! Mas diga-me quem é”. Não obteve resposta, mas as queixas continuaram… aproximando-se dela cada vez mais. A irmã rezava continuamente, com comunhões, Vias Sacras e Rosários; os gemidos não paravam e o mistério continuava. No domingo de 15 de fevereiro de 1874, ouviu uma voz que lhe disse: “Não tenha medo! Não me verá em sofrimento! Sou a Irmã Maria Gabriela (uma jovem religiosa falecida em Valognes a 22 de fevereiro de 1871).
     Então a alma sofredora disse à antiga companheira, cujos conselhos tantas vezes desprezara, que multiplicaria as visitas para a ajudar a santificar-se, pois entrava no plano Divino que a Irmã Maria da Cruz, pela santidade da sua vida, aliviasse e finalmente libertasse aquela que outrora tanto exercitara a sua paciência. A Irmã Maria da Cruz suplicou-lhe que desaparecesse e nunca mais voltasse, mas foi tempo perdido. Foi-lhe respondido que deveria suportar, todo o tempo que Deus quisesse, o que ela mais temia.
     E foi assim que durante vários anos, se estabeleceram entre a alma da Irmã Maria Gabriela e a Irmã Maria da Cruz misteriosas relações e revelações acerca do Purgatório que foram registradas de 1874 a 1890, no Manuscrito do Purgatório.
 
1874
     24 de março de 1874: 'Amanhã, vá visitar o Santíssimo Sacramento quantas vezes lhe for possível. Vou acompanhá-la e ter a felicidade de estar perto de Nosso Senhor. Isso me alivia'.
     25 março de 1874: 'Agora estou no Segundo Purgatório. Desde a minha morte, eu estava no Primeiro, onde padeci um grande sofrimento. Nós também sofremos no Segundo, mas não tanto quanto no Primeiro. Sempre procure ser um apoio para a sua Superiora. Não fale muitas vezes. Espere até você ser questionada antes de responder'.
     Maio de 1874: 'Estou no Segundo Purgatório desde a Festa da Anunciação. Naquele dia, eu vi a Virgem Maria pela primeira vez. Na primeira etapa, nós nunca a vemos. A visão dEla nos encoraja e esta Mãe querida nos fala do Céu. Enquanto nós a vemos, nossos sofrimentos são muito reduzidos. Oh, como eu desejo ir para o Céu! Que grande martírio sofremos uma vez que vimos a Deus!
     O que eu acho? Eu acho que Deus permite isso para o seu benefício e para meu consolo. Ouça bem o que vou lhe dizer. Deus escolheu você para um propósito especial. Ele quer que você salve muitas almas por seu conselho e bom exemplo. Se, por sua conduta, você frustrar isso, um dia você vai ter que prestar contas de cada alma que você poderia ter salvo. É bem verdade que você não é digna disso, mas Deus permite que seja assim. Ele é o Mestre e distribui as suas graças a quem Lhe aprouver.
     Fazes bem em orar para São Miguel e para exortar os outros a fazê-lo. A gente é de fato feliz na hora da morte quando se tem confiança em alguns santos. Eles serão os seus protetores diante de Deus nesse momento terrível. Nunca hesite em lembrar suas filhas das grandes verdades da salvação. Nestes dias, mais do que nunca, as pessoas precisam se lembrar das verdades sobrenaturais.
     Deus quer que você se sacrifique por Ele sem reservas. Ele ama você mais do que muitas outras; portanto, Ele vai lhe dar muito mais graças... Tenha cuidado para não perder nenhuma das graças que Ele lhe concede. Viva somente para Deus. Tente buscar a glória de Deus em todos os lugares. Quanto bem você pode fazer pelas almas! Não faça nada, exceto o que agrada a Deus. Antes de cada ação, recolha-se por um momento para ter certeza de que o que você vai fazer vai ser agradável a Ele. Tudo por Jesus. Ama-O muito!
     Sim, eu sofro muito, mas o meu maior tormento é não ver a Deus. É um martírio contínuo. Isso me faz sofrer mais do que o fogo do Purgatório. Se mais tarde você amar a Deus como Ele o quer, você vai experimentar um pouco deste anseio, que leva um tempo para se unir ao objeto de seu amor, que é Jesus. Às vezes vemos São José, mas não tão frequentemente como nós vemos a Santíssima Virgem.
     Você deve tornar-se indiferente a tudo, exceto para Deus. Assim, você vai chegar à altura da perfeição a que Jesus lhe chama. Madre I. não se beneficiou das Missas rezadas por ela. Religiosos não têm o direito de dispor dos seus bens. É contrário à santa pobreza. Se você fizer bem as suas preces, as almas confiadas a seus cuidados serão beneficiadas por elas. Deus nunca recusa graças que são pedidas a Ele por meio de orações bem-feitas.
     O Purgatório das religiosas é muito mais longo e mais rigoroso do que o das pessoas do mundo, porque abusaram de graças especiais. Muitas freiras estão abandonadas no Purgatório, por sua própria culpa, é claro, pois ninguém se lembra delas. Nossa falecida Reverenda Madre me disse que Deus ficaria muito feliz se a comunidade oferecesse uma missa por elas de vez em quando. Certifique-se de dizer isso para a Madre Superiora. Deus ama a Reverenda Madre muito. Ele lhe dá uma pesada cruz para provar o Seu amor por ela.
     Ninguém pode ter uma compreensão real dos sofrimentos do Purgatório. Ninguém pensa neles no mundo. Até mesmo as comunidades religiosas se esquecem de que devem rezar pelas pobres almas e que devem inspirar seus alunos para esta devoção. Eles, por sua vez, deveriam levar essa devoção a outras pessoas do mundo. Não tenha medo de fadiga quando se trata de servir a Deus. Sacrifique tudo por Ele.
     Obedeça a sua Superiora prontamente. Deixe-a torcer e retorcer você como ela quiser. Seja muito humilde. Humilhe-se sempre, se possível, até o chão. M. está no Purgatório porque, por suas observações desleais, muitas vezes ela anulou o bem que a Superiora poderia ter feito. Torne-se uma prática sua viver na presença de Deus, com uma intenção pura. Deus procura almas dedicadas que irão amá-Lo para seu próprio bem. Estas são muito poucas. Ele quer que você seja um dos Seus verdadeiros amigos. Muitos pensam que amam a Deus, mas amam apenas a si próprios.
     Nós não vemos Deus no Purgatório. Isso o tornaria o Céu. Quando uma alma procura Deus e, por puro amor, não deseja nada mais, Ele nunca permite que a alma seja enganada. Muitas vezes, Deus derrama copiosas graças onde a malícia é abundante. Por que você deveria recusá-las? Dedique-se a Deus. Sacrifique-se e imole-se por Ele. Você nunca poderá fazer o suficiente por Ele. É somente o nosso transbordamento de piedade que podemos derramar sobre os outros. Coloque de lado todo o respeito humano, mesmo em relação às Irmãs mais velhas. Diga sempre o que se fizer necessário em caso de defesa da Madre Superiora. Deus não se serve de Seus grandes amigos para provar e infligir problemas e dor para os outros. Agradeça a Ele que você não tenha feito isso. É melhor ser a bigorna que o martelo. Você não deve se cansar por sofrer no corpo e na alma, apenas em consideração da pequena reparação ao seu passado. A conquista de sua coroa final mal começou'.
     Junho de 1874: 'Note bem, sempre que uma tempestade ruge contra uma alma, ela tende a acalmar-se novamente. O diabo tem seus agentes em todos os lugares, mesmo nos conventos. Eu não vejo Deus quando Ele está exposto (na Eucaristia), mas estou consciente da Sua presença como você com os olhos da fé. Nossa fé, no entanto, é muito diferente da sua. Sabemos que Deus é. Ande sempre na presença de Deus. Diga-lhe tudo. Fale com Ele como se fosse conversar com um amigo. Guarde a sua vida interior com cuidado.
     A fim de preparar-se bem para a Sagrada Comunhão, você deve amar a Deus, não só antes e depois de recebê-Lo, mas sempre e em todos os momentos. Deus deseja que você pense apenas nEle. Mortifique sua mente, seus olhos, sua língua, que isso será muito mais agradável a Deus do que penitências corporais. Estas (penitências corporais), muitas vezes, procedem a partir da própria vontade. Você deve tratar Deus como um Pai, como um amigo querido, como um esposo amado. Você deve derramar toda a ternura do seu coração apenas em Jesus, total e completamente. Durante toda a eternidade você vai cantar a infinita misericórdia de Deus para consigo.
     Você deve amar tanto a Jesus que Ele possa ser capaz de encontrar em seu coração um lugar de descanso agradável, onde Ele possa ser capaz, por assim dizer, de consolar-se das muitas ofensas que recebe em todos os lugares. Você deve amá-Lo pelas almas indiferentes e covardes. mas, acima de tudo, por você mesma. Em uma palavra, você deve amá-lo tanto em Valognes que você se torne um exemplo brilhante. É verdade que Santa Teresa e Madre Eust. O amavam muito, mas, por ter causado a Ele dor no passado, você deve amá-Lo muito mais em comparação a essas almas inocentes'.
     12 de dezembro de 1874: 'Se você realmente ama a Deus assim, Ele não vai lhe recusar nada. Ele lhe dará o que você pedir. Deus quer que você se preocupe apenas com Ele, com Seu amor e com a realização de Sua Santa Vontade. Quando estamos preocupados com Deus, devemos também pensar na necessidade das almas. Haveria muito pouco mérito em ser salvo sozinho. Deus espera um maior grau de perfeição de você do que Ele espera de muitas outras almas'.
 
Fonte http://www.sendarium.com/2013/06/o-manuscrito-do-purgatorio-i.html