segunda-feira, 29 de maio de 2023

Beata Maria Celina da Apresentação, Clarissa - 30 de maio

     
Maria Celina da Apresentação da Bem-aventurada Virgem Maria (no século Jeanne Germaine Castang) nasceu em Nojals, aldeia de Dordoña (França), em 24 de maio de 1878. Seus pais, Germano Castang e Maria Lafage, eram humildes camponeses, porém testemunhas exemplares do Evangelho; tiveram doze filhos dos quais Jeanne era a quinta. Foi batizada no mesmo dia de seu nascimento e colocada sob a proteção de Nossa Senhora.
     Quando tinha 4 anos de idade caiu nas águas geladas de um riacho quando jogava com seus irmãos. O acidente lhe causou poliomielite, o que a privou do uso da perna esquerda. Apesar disso, a menina não se fechou em si mesma, ao contrário, colaborava nos afazeres domésticos. Frequentou a escola de sua aldeia, dirigida pelas Irmãs de São José de Aubenas, e se destacou por sua inteligência e jovialidade. Também se dedicou às atividades paroquiais.
     Em 1887, devido a grave grise econômica da família, se viu obrigada a abandonar sua bela casa e a viver numa casinha no campo. Em meio à situação de indigência da família, Jeanne, então com 10 anos de idade, demonstrando humildade e disponibilidade, chegou inclusive a pedir esmola no povoado para que seus pais e seus irmãos pudessem comer. Teve que abandonar a escola e deixar de frequentar diariamente a paróquia, porque ficava muito distante de sua casa.
     Em fevereiro de 1891, no hospital infantil de Bordeaux, se submeteu a uma operação da perna. Jeanne permaneceu cinco meses neste centro de saúde, suportando a dor com “paciência angélica”, como testemunharam as enfermeiras do hospital, Filhas da Caridade de São Vicente de Paula.
     Em julho daquele mesmo ano, ainda convalescente, entrou no Instituto Nazaré de Bordeaux, dirigido pelas Irmãs de Jesus Maria de Le Dorat, que acolhia jovens com dificuldades para receberem os cuidados que sua família não podia lhes proporcionar. Foi um período fecundo de sua vida, porque ali começou a discernir com maior clareza a vontade de Deus para ela.
     Em 12 de junho de 1892 recebeu a 1ª. Comunhão com extraordinária devoção; em julho seguinte a Confirmação. Já dava a impressão de viver constantemente na presença de Deus. Sua mãe faleceu no dia 29 de dezembro desse ano e oito dias depois seu irmão mais velho, o que obrigou Jeanne a se encarregar de seus irmãos pequenos, assim, ela teve que deixar o Instituto Nazaré. Ela então já pensava em consagrar-se a Deus.
     Quando as religiosas de São José de Aubenas, congregação a qual pertencia sua irmã mais velha, acolheram duas pequenas irmãs suas, ela pode finalmente levar adiante seu plano de consagração total ao Senhor. Primeiramente solicitou o ingresso nas clarissas de Bordeaux e depois nas religiosas de Jesus Maria de Le Dorat, porém não a aceitaram por causa de sua deficiência e porque ainda não completara 15 anos. Ela teve que esperar.
     Por fim, aos 18 anos, em 12 de junho de 1896 ingressou como postulante no Mosteiro Ave Maria das clarissas, e em 21 de novembro desse mesmo ano vestiu o hábito franciscano, tomando o nome religioso de Maria Celina da Apresentação da Santíssima Virgem Maria.
     No convento conservou a atitude de caridade e serviço que a havia caracterizado em sua família, e progrediu sobretudo no caminho da humildade, mortificação e ocultamento. Sua saúde começou a piorar. A enfermidade, que se manifestou numa grave forma de tuberculose, revelou a grandeza de sua fé e a firme vontade de completar em seu frágil corpo o que falta à Paixão de Cristo.
     Poucos dias antes de sua morte, escreveu em seu diário: “Não te comprazes com os holocaustos nem com as vítimas. Eis-me aqui! Vim para tomar minha cruz. Me ofereço como vítima, como Jesus... Até agora sacrifiquei tudo: afetos, pensamentos... Deverei ser agora menos generosa? Não. Eis-me aqui! Corta, queima, amputa, faz de mim o que quiseres, contanto que meu amor por ti aumente sempre mais e mais. Só te peço isto”.
     No dia 30 de maio de 1897, aos 19 anos e cento e noventa dias depois de ingressar no noviciado, após emitir a profissão religiosa in artículo mortis, Maria Celina entregou sua bela alma a Deus.
     A fama de santidade, que já em vida circundara esta jovem monja, levou à introdução da causa de canonização em 18 de junho de 1930. Em 22 de janeiro de 1957 foi declarada venerável e em 16 de setembro de 2007 foi beatificada na catedral de Bordeaux. A nova Beata repousa na mesma cidade, próximo do mosteiro das clarissas.
     Na vida humilde e comum da gente pobre e em meio a grandes sofrimentos, esta jovem monja soube acolher o amor de Nosso Senhor e corresponder com alegria e serenidade a vontade dEle a seu respeito. Nenhuma revolta, nenhum azedume, somente generosidade humilde e dedicada. Ela é um exemplo para nosso século em que alguns buscam excitar nos pequenos o ódio à sua condição, numa clara inconformidade aos desígnios divinos sobre eles.

 
Fonte: L´Osservatore Romano, ed. semanal en lengua española, del 5-X-07
 
Postado neste blog em 30 de maio de 2015

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Madre Guilhermina Lancaster, fundadora – 27 de maio

Quem era a Madre Guilhermina Lancaster, cujo corpo incorrupto agora é o centro das atenções no Missouri?
 
     Quando as Irmãs Beneditinas de Maria, Rainha dos Apóstolos exumaram o corpo de sua fundadora, Madre Guilhermina Lancaster, OSB, em 18 de maio, encontraram o inesperado: quatro anos após sua morte e enterro em um simples caixão de madeira, seu corpo parecia notavelmente bem preservado.
     A notícia se espalhou rapidamente nas mídias sociais sobre o estado incomum dos restos mortais da fundadora afro-americana da ordem contemplativa, atraindo centenas de peregrinos ao mosteiro na zona rural do Missouri.
     Ainda há perguntas a serem respondidas sobre se uma investigação será realizada para examinar seus restos mortais cientificamente. Enquanto isso, muitas pessoas querem saber mais sobre essa mulher que, aos 70 anos, fundou a congregação das irmãs mais conhecidas por seu canto gregoriano no topo das paradas e álbuns de hinos católicos clássicos.
Uma visão de Jesus em sua primeira comunhão
     A segunda de cinco filhos nascidos de pais católicos em St. Louis no Domingo de Ramos, 13 de abril de 1924, Maria Isabel Lancaster (ela adotou o nome de Guilhermina quando fez seus votos) foi criada em um lar profundamente piedoso.
     Segundo a atual abadessa, Madre Cecília Snell, OSB, e conforme conta uma biografia publicada por sua comunidade, a futura Irmã Guilhermina teve uma experiência mística em sua primeira Comunhão aos 9 anos, quando Jesus a convidou a ser dEle.
     “Ela o viu em sua primeira comunhão. Talvez não muito claramente, mas ela viu que ele era tão bonito”, disse a abadessa. “Ele disse: 'Você quer ser minha?' “E ela disse: 'Ele é tão bonito, como posso dizer não?'”
     Depois desta experiência, aos 13 anos, o pároco perguntou-lhe se alguma vez pensou em ser religiosa. Embora não tivesse pensado, ela foi rapidamente movida pela ideia e escreveu para as Irmãs Oblatas da Providência em Baltimore pedindo permissão para ingressar, “mas ela era muito jovem [então] teve que esperar um pouco mais”.
     O trecho da carta revela uma franqueza impressionante e uma fidelidade duradoura, visto que ela morreria depois de viver 75 anos sob os votos religiosos.
     “Cara Madre Superiora”, diz ela na carta. “Sou uma menina de 13 anos e gostaria de ser freira. Pretendo ir ao seu convento o mais rápido possível. Vou me formar no próximo mês. O que eu quero saber é se a senhora tem que trazer alguma coisa para o convento e o que a senhora tem que trazer. Espero não a estar incomodando, mas estou decidida a me tornar freira (é claro que sou católica). Deus abençoe a senhora e aqueles sob seu comando. Respeitosamente, Maria Isabel Lancaster.
Uma educação católica e uma vocação para toda a vida
     
Crescendo sob a segregação, Maria Isabel certa vez foi insultada com o apelido de “gotas de chocolate” enquanto corria por um bairro branco a caminho da escola e, embora também fosse ridicularizada como a única católica entre os colegas batistas e metodistas, ela não guardava ressentimento por seu tratamento.
     Quando a escola secundária católica local se tornou segregada pelos Irmãos Cristãos e a escola pública parecia ser sua única opção, seus pais fizeram grandes esforços para garantir que sua filha e seus colegas de escola pudessem continuar sua educação católica.
     Segundo a Irmã Guilhermina conta em sua biografia, “meus pais, que não queriam que eu fosse para o colégio público, puseram mãos à obra e fundaram o Colégio Católico São José para negros, que existiu até o Arcebispo Ritter colocar um fim na segregação. Ela se formou e foi oradora da escola que seus pais ajudaram a fundar e depois entrou para as Irmãs Oblatas da Providência, uma das duas únicas ordens religiosas para mulheres negras ou hispânicas. Ela permaneceria com essas irmãs por 50 anos sob votos.
O hábito e a Missa Tradicional Latina
     Durante seus 50 anos de vida religiosa, Irmã Guilhermina presenciou as mudanças trazidas pelo Concílio Vaticano II e procurou preservar o hábito, chegando a construir um próprio quando as irmãs pararam de produzi-lo.
     “Ela passou tantos anos lutando pelo hábito”, disse Madre Cecília, “a irmã Guilhermina levou a sério a ideia de que o hábito simboliza uma noiva de Cristo”. De acordo com sua biografia, ela criou um hábito para si mesma, criando partes do cocar com uma garrafa plástica de alvejante, mesmo quando suas irmãs não usavam mais os delas.
     Como relatou o Catholic Key, seu hábito caseiro pode ter salvado sua vida quando ela trabalhava como professora em Baltimore e o colarinho rígido de gola alta desviou a faca de um aluno descontente.
     Sua biografia fala de uma ocasião em que uma irmã que passou por ela no corredor apontou para o cocar tradicional e perguntou: “Você vai usar isso o tempo todo?” "Sim!"
     “Depois de anos tentando fazer com que sua ordem voltasse ao hábito anterior, ela ouviu falar que a Fraternidade Sacerdotal de São Pedro iniciou um grupo de irmãs, redescobriu a missa em latim e se apaixonou por ela”, disse Madre Cecília. “E um dia ela fez as malas – e ela tinha 70 anos – e foi fundar esta comunidade! Apenas um salto de fé completo”.
     Em 1995, com a ajuda de um membro da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, iniciou-se a comunidade. Com o tempo, assumiria um carisma mais contemplativo e nitidamente mariano, com especial ênfase na oração pelos sacerdotes.
     Em sua proposta para uma nova comunidade, Guilhermina disse que queria voltar à observância regular, algo que ela pediu durante o capítulo geral das Irmãs Oblatas da Providência. “O uso do hábito, a entrega de todo o dinheiro a um ecônomo comum, a obediência à autoridade legal, a guarda do recinto e dos tempos e lugares de silêncio, e a convivência em uma autêntica vida fraterna”, disse ela. Em suma, em sua nova comunidade, ela imaginou um retorno à disciplina ordinária da vida religiosa.
     A nova comunidade, que começou em Scranton, Pensilvânia, seguia a Regra de São Bento e cantava o tradicional Ofício Divino em latim. Em 2006, a comunidade aceitou um convite do bispo Robert W. Finn para se transferir para sua diocese de São José da cidade de Kansas no Missouri.
     Em 2018, sua Abadia de Nossa Senhora de Éfeso foi consagrada tendo a Madre Cecília como a primeira abadessa e com a Irmã Guilhermina sob sua autoridade. Em 2019, sete irmãs deixaram a abadia para estabelecer uma nova fundação do instituto, o Mosteiro de São José em Ava, Missouri.
     Hoje, as irmãs continuam levando uma vida de silêncio e contemplação, seguindo a Regra de São Bento. Eles participam da Forma Extraordinária da Missa e usam o Ofício Monástico de 1962, com seu tradicional Canto Gregoriano, em latim.
Devota de Mãe Santíssima
     A Irmã Guilhermina é lembrada por seu amor a Nossa Senhora, mesmo nos últimos anos de sua vida, quando sofria de saúde frágil.
     Regina Trout, uma ex-postulante que cuidou da Irmã Guilhermina e agora é casada e tem filhos e é professora de biologia na Purdue University Fort-Wayne, lembra-se de vê-la visivelmente emocionada.
     “Sempre que você falava com ela sobre Nossa Senhora, você podia ver aquela chama. Ela amava tanto Nossa Senhora, e isso transparecia com tanta força”, disse ela.
     As últimas palavras conscientes da irmã Guilhermina, "Ó Maria", cantada dois dias antes de sua morte como parte do hino "O Sanctissima", foram um reflexo de sua profunda piedade mariana, bem como o carisma da música que glorifica a Deus pela qual as Irmãs Beneditinas de Maria são conhecidas.
     “Ela amava nossa Mãe Santíssima”, disse Madre Cecília. “Isso é o que ela diria a todos que vêm aqui: Reze o rosário. Não se esqueça de rezar o terço. Ame a Mãe Santíssima, Ela ama você".
     “Sua morte foi linda”, disse a abadessa ao Grupo ACI da EWTN. “Deus dispôs tudo”. “Estávamos cantando 'Jesus, meu Senhor, meu Deus, meu tudo'. Quando chegamos ao resto da música: 'Se eu tivesse apenas o coração sem pecado de Maria, com o qual amar a Ti, ó que alegria', ela abriu os olhos e olhou para cima.
     “Quero dizer, ela estava em coma, sabemos que ela podia nos ouvir, mas ela simplesmente não respondeu por alguns dias. E então ela apenas olhou para cima com o rosto cheio de explosão de amor. Para a abadessa, parecia que “ela já estava no céu” naqueles momentos.
     Ela faleceu no dia 27 de maio de 2019, aos 95 anos de idade.
 
Por Kelsey Wicks       Denver, Colo., maio 24, 2023
https://www.catholicnewsagency.com/news/254413/who-was-sister-wilhelmina-lancaster-the-african-american-whose-body-is-potentially-incorrupt
 

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Santa Maria Madalena de Pazzi, Mística Carmelita - 25 de maio

     
Em 25 de maio de 2007, celebrou-se o quarto centenário da morte de Santa Maria Madalena de Pazzi (1566-1607), carmelita florentina e mestre de vida espiritual. Tamanha era a fama de sua santidade entre o povo e o clero, que muito cedo, em 1611, deu-se início a seu processo de beatificação. Importantes estudiosos afirmam que “Maria Madalena de Pazzi, ao lado de Ângela de Foligno e de Catarina de Sena, é, entre as italianas, a escritora espiritual mais conhecida”.
     Numa das famílias de maior destaque da nobreza florentina, Catarina nasceu em 2 de abril de 1566, segunda filha de Maria Buondelmonti e Camillo di Geri de’ Pazzi. Em dois períodos (de 1574 a 1578 e de 1580 a 1581), foi educanda em San Giovannino pelas Cavaleiras de Malta.
     Antes mesmo de completar a idade requerida naqueles tempos para receber a Eucaristia, nutria ela excepcional devoção ao Santíssimo Sacramento. Certa vez, sua mãe, intrigada com as atitudes da filha, interrogou-a sobre a razão pela qual passava alguns dias inteiros a seu lado, sem separar-se sequer por um instante. Respondeu com candura a pequena: “É que nos dias em que comungais, sinto em vós o perfume de Jesus!”.
     Considerando o fervor e a maturidade da menina, seu confessor consentiu em abrir uma exceção, concedendo-lhe fazer a 1ª. Comunhão em 25 de março de 1576, quando contava apenas 10 anos. A consolação e o gozo de Catarina não conheceram limites. Deste modo, obteve autorização para comungar todos os domingos, o que a levava a contar os dias e até mesmo as horas.
     Dias depois de sua 1ª. Comunhão, se entregou para sempre ao Senhor com uma promessa de virgindade.
     Quando contava doze anos, nos seus exercícios de mortificações, chegou a usar um hábito grosseiro e dormir no chão, a pôr uma coroa de espinhos na cabeça e a castigar por muitos modos o seu delicado corpo, manifestando assim o ardente desejo de tornar-se cada vez mais semelhante ao Divino Esposo.  Quando diversos jovens se dirigiram aos pais de Maria, para obter-lhe a mão, ela pode declarar-lhes: “Já escolhi um Esposo mais nobre, mais rico, ao qual serei fiel até a morte”.  Vencidas muitas dificuldades, ela conseguiu entrada no convento das Carmelitas em Florença.
     Na idade de 16 anos entrou nas Carmelitas Descalças (17 de novembro de 1582) no convento de Santa Maria dos Anjos de Florença, bem pouco tempo depois do final do Concílio de Trento (1545-1563). Recebeu o hábito em 1583, tomando o nome Maria Madalena. Em 29 de maio de 1584, estando tão doente que se temia que não se recuperasse, fez sua profissão como religiosa.
A Santa aos 16 anos
     Os primeiros cinco anos de vida monástica são os mais conhecidos da biografia de Santa Maria Madalena. No grande Carmelo de Santa Maria dos Anjos (o mais antigo da ordem), com quase oitenta monjas no período em que viveu Madalena, várias delas tinham um elevado perfil espiritual, desde a Madre Evangelista del Giocondo até Pacífica del Tovaglia, amiga e uma das principais “secretárias” da santa.
     Desde que recebeu o hábito até sua morte experimentou uma série de raptos e êxtases. Depois de sua profissão experimentou êxtases diários por 40 dias consecutivos. Ao final deste tempo parecia estar perto da morte. Entretanto, se recuperou milagrosamente, pela intercessão da Beata Maria Bartolomea Bagnesi, dominicana, cujo corpo incorrupto estava sepultado no Convento de Santa Maria dos Anjos.
     Daí em diante, apesar de sua saúde precária, pode cumprir com esmero as obrigações que lhe destinaram e praticar uma dura penitência.
     Algumas características de seus raptos e êxtases: às vezes os raptos eram tão fortes, que a induziam a movimentos rápidos (por exemplo, em direção a um objeto sagrado); frequentemente podia, em êxtase, levar a cabo seu trabalho com perfeita compostura e eficiência; durante seus momentos de rapto expressava máximas do amor divino e conselhos para a perfeição das almas, especialmente para as religiosas - estas foram copiadas por suas irmãs religiosas e foram publicadas; às vezes ela falava em seu nome, outras em nome de uma ou de outra Pessoa da Santíssima Trindade; os estados de êxtases não interferiam no serviço da santa na comunidade - manifestava um forte sentido comum, um governo estrito e disciplinado, acompanhado por uma grande caridade, o que a fez muito amada até sua morte. 
     Na Quaresma de 1585, os fenômenos extraordinários chegaram a um auge de intensidade. No dia 25 de março, apareceu-lhe Santo Agostinho que gravou em seu peito as palavras “Et Verbum caro factum est”. Na segunda-feira da Semana Santa, recebeu os sagrados estigmas de Cristo, contudo não de forma visível.
     Na ânsia de salvar almas, oferecia-se a Deus para sofrer todas as enfermidades, a morte e ainda os sofrimentos do inferno, se isto fosse realizável, sem precisar odiar e amaldiçoar a Deus.  Em certa ocasião disse: “Se Deus, como a São Tomás de Aquino, me perguntasse qual prêmio desejo como recompensa, eu responderia: ‘Nada, a não ser a salvação das almas’”.
     Os dias de Carnaval eram para Maria Madalena dias de penitência, de oração e de lágrimas, para aplacar a ira de Deus provocada pelos pecadores.
     Para o corpo era de uma dureza implacável; não só o castigava, impondo-lhe o cilício, obrigando-o a vigílias, mas principalmente o sujeitava a um jejum rigorosíssimo; durante vinte e dois anos teve por único alimento pão e água. Por cerca de vinte anos ela viveu ocupada silenciosamente com essa mistura de oração e trabalho que é própria da vida monástica. Depois de ter sido responsável pela acolhida das jovens que vinham para o alojamento de forasteiras (1586-1589), ela esteve ligada, de várias maneiras, à formação das jovens a partir de 1589, até se tornar sub-prioresa a partir de 1604.
     A Santa fez muitos milagres e possuía dons extraordinários. Como mestra de noviças era notável seu milagroso dom de ler as mentes, não apenas das noviças, como também de pessoas fora do convento. Com frequência via as coisas à distância. Conta-se que em uma ocasião viu milagrosamente Santa Catarina de Ricci em seu convento de Prato lendo uma carta que lhe havia enviado e escrevendo a resposta, embora nunca se tivessem conhecido de maneira natural. Tinha o dom de profecia e de cura.
     Deus permitiu que ela sofresse a prova de uma terrível desolação interna, fortes tentações e ataques diabólicos externos por cinco anos (1585-90). Venceu a prova por sua valente adesão ao Senhor e sua humildade, cresceu em virtude e depois experimentou grande consolação.
     Santa Maria Madalena de Pazzi era chamada a rezar e fazer penitência pela reforma de “todos os estados de vida na Igreja” e pela conversão de todos os homens. Ensinou que o sofrimento nos leva a um profundo nível espiritual e ajuda a salvar a alma. Por isso amava o sofrimento por amor de Deus e pela salvação das almas.
     Nossa santa deu a sua contribuição para o bem da Igreja, primeiro como toda monja, ela contribuiu pela vida de oração, mas não foi só assim, ela interveio por meio de cartas ao Romano Pontífice para poder favorecer a reforma da Igreja, pedindo ao papa por meio de cartas, em torno de 21 cartas, com vários temas, entre eles pedindo a reforma da vida religiosa, e a reforma da Igreja. As cartas foram direcionadas ao Papa Sisto V.
     A mística da Santa, na escola de Santa Catarina de Sena, é uma mística que chama à conversão todo o povo de Deus, não para “repreendê-lo”, como afirmam alguns, mas para que, diante do Espírito Santo que bate à porta, alguém “se abra a esse dom”.
     Nos últimos três anos de vida, sofreu diversas enfermidades. Deus permitiu que nas dores ficasse privada ainda de consolações espirituais. Impossibilitada de andar era forçada a guardar o leito. Via-se então um fato extraordinário: quando era dado o sinal para a Missa ou Comunhão, ela se levantava, ia ao coro e assistia a Missa toda. De volta para a cela, caía de novo na prostração e imobilidade.  Quando lhe aconselharam abster-se da Comunhão, declarou ser-lhe impossível, sem o conforto deste Sacramento, suportar as dores.  No meio dos sofrimentos, o seu único desejo era: “Sofrer, não morrer”.  Ao confessor, que lhe falou da probabilidade de um fim próximo dos sofrimentos, ela respondeu: “Não, meu padre, não desejo ter este consolo, desejo poder sofrer até o fim de minha vida”.
     Santa Maria Madalena de Pazzi faleceu no dia 25 de maio de 1607, aos quarenta e um anos de idade. Cinquenta e seis anos depois, em 1663, quando se abriu o túmulo, foi-lhe encontrado o corpo sem o menor sinal de decomposição, percebendo-se ainda o celeste perfume.
     Inúmeros milagres ocorreram depois de sua morte. Beatificada em 8 de maio de 1626 pelo Papa Urbano VIII, foi canonizada em 28 de abril de 1669 pelo Papa Clemente IX. Seu corpo incorrupto permanece na igreja de Santa Maria dos Anjos em Florença.
 
Fontes:
https://www.freimarceloocarm.com.br/index.php/2021/08/30/santa-maria-madalena-de-pazzi/
http://www.santosebeatoscatolicos.com/2015/05/santa-maria-madalena-de-pazzi-virgem.html

Postado neste blog em 24 de maio de 2013

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Beata Maria Domingas Brun Barbantini, Esposa, Mãe, Viúva, Fundadora – 22 de maio

Um exemplo de resignação e santidade diante das adversidades com que se deparou durante a vida
 
     Maria Domingas nasceu em Lucca, a 17 de fevereiro de 1789, segunda filha entre irmãos. Seu pai Pedro Brun, era de origem suíça, e sua mãe, Joana Granucci, era natural de Lucca.
     Na idade de seis anos, ela viveu uma experiência mística de singular importância: a visão do sangue de Jesus que jorra do cálice durante a Consagração. Este acontecimento se constituiu um sinal profético para a sua futura missão ao lado dos doentes e sofredores.
     Aos 12 anos, a morte do pai e de três irmãos menores deixou profundas marcas na adolescência de Maria Domingas. A partir de então, cresceu sob a orientação afetuosa e inteligente da mãe, que soube imprimir na filha as mais belas virtudes católicas, contribuindo de modo particular para formar nela um coração aberto e sensível aos infelizes, tornando-se um exemplo de resignação e santidade diante das adversidades com que se deparou durante a vida.
     Ao alcançar a juventude, destacou-se como uma mulher brilhante, generosa e cheia de zelo cristão. Foi nesta época que conheceu o jovem Salvador Barbantini, que a pediu em casamento após nutrirem grande amor um pelo outro.
     Casaram-se no dia 22 de abril de 1811 na Catedral de São Martino, de Lucca. No seu sexto mês de casamento, quando estava grávida, a morte súbita do seu esposo foi uma ocasião em que, golpeada, aceitou os desígnios da Providência Divina, exprimindo a sua dor a Jesus Crucificado, sob a promessa de que intensificaria sua vida cristã e que não contrairia novo matrimônio: "Tu, serás único, meu Cristo Crucificado, serás o meu bem, doravante meu único e verdadeiro amor, a minha única delícia".
     Viúva e com uma criança, Maria Domingas foi novamente atingida pela dor e pela angústia quando seu filhinho, Lourenço, morreu aos oito anos. Apesar disso, jamais se vislumbrou nela qualquer resquício de revolta. Pelo contrário: intensificou os propósitos firmados pela ocasião da morte do marido e entregou-se total e incondicionalmente ao serviço dos pobres, doentes e infelizes. A sua maternidade desenvolveu-se numa maternidade mais profunda, santa e universal.
     Os pobres enfermos abandonados de sua cidade tornam-se objeto de seu prometido amor. De noite e de dia, sob o sol escaldante ou na chuva, ela não consagrava somente sua ternura aos que sofriam, mas exprimia também diversas atitudes concretas de misericórdia, sempre absolutamente unida e guiada pela Santa Igreja de Cristo, que amava com uma afeição filial, servindo-a com ardor extremo.
     Dotada de qualidades específicas, participava em Lucca das atividades do Mosteiro de Santa Maria da Visitação, destinado à educação dos jovens. Era incumbida de organizar a catequese e sua dedicação permitiu que viesse a fundar um instituto para as crianças abandonadas. Por tamanha dedicação e destaque, foi-lhe confiada a responsabilidade de reforçar e reformar diversas atividades apostólicas e educativas.
     O que efetivamente marcou sua vida foi a fundação do Instituto Religioso das Irmãs Ministras dos Enfermos de São Camilo. Tal projeto teve início no ano de 1829 quando, reunindo em torno de si algumas jovens donzelas pobres, em sua maioria de saúde frágil, realizou prodígios de caridade à cabeceira dos pobres moribundos e abandonados, vocação maternal que atraiu uma grande quantidade de outras jovens àquela obra de apostolado.
     A obra atravessou décadas com diversas moças aplicadas e dedicadas ao apostolado santo das regras escritas pela Fundadora. Finalmente, no dia 5 de agosto de 1841, o arcebispo da cidade de Lucca, D. Domenico Stefanelli, tendo testemunhado a caridade da Fundadora e de suas filhas, aprovou a Regra escrita por Maria Domingas e erigiu a comunidade em Instituto Religioso Diocesano.
     Mulher de fé, sempre empenhada no cumprimento e realização concreta da vontade de Deus, Maria Domingas impôs-se na História. Sempre ensinou às suas filhas espirituais a progredirem próximas dos sofredores, em especial dos enfermos, tratando da doença, valorizando o sofrimento, anunciando o rosto bondoso de Deus, no espírito do paternal e caridoso São Camilo de Lellis, que foi perfeito modelo de santidade e de serviço ao próximo, base da inspiração para a fundação desta congregação Camiliana, presente e atuante em diversas partes do mundo.
     
Maria Domingas experimentou todos os estados de vida que uma mulher pode atravessar: esposa, mãe, viúva, fundadora e religiosa da sua Congregação.
     A Beata entregou sua alma a Deus no dia 22 de maio de 1868. Por ter vivido de maneira heroica e tendo suas virtudes de fé, esperança e caridade reconhecidas pela Igreja, o Papa João Paulo II a beatificou no dia 7 de maio de 1995.
 
Fontes:
http://coisasdesantos.blogspot.com/2019/05/22-de-maio-beata-maria-domingas-brun.html
https://www.irmasdesaocamilo.com.br/site/index.php/noticias/item/615-conheca-historia-da-beata-maria-domingas-brun-barbantini

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Beata Humiliana Cerchi, Viúva e Terciária Franciscana - 19 de maio

Martirológio Romano: Em Florença, Beata Humiliana, da Ordem Terceira de São Francisco, que suportou com paciência e mansidão muitos maus tratos do esposo e, tendo enviuvado, se dedicou inteiramente à oração e às obras de caridade († 1246).
 
     Os Cerchi, guelfos da parte branca, eram uma família ilustre: um irmão de Humiliana ocupou cargos públicos importantes. Era época de lutas infinitas, mesmo dentro das muralhas da cidade. O vizinho podia ser um inimigo e, portanto, cada casa rica tinha a sua torre. Os guelfos eram leais ao Papa e os gibelinos ao imperador alemão. Na verdade, mais do que por motivos políticos se lutava por motivos econômicos; ricos comerciantes e nobres que disputam o poder. Em Florença, as lutas começaram com a morte de Buondelmonte, no domingo de Páscoa de 1215.
     Naquele período turbulento o espírito evangélico deu origem a novas plantas dentro da Igreja, pensamos nos franciscanos e nos dominicanos. São Francisco morreu quando Humiliana tinha sete anos. A notícia causou um rebuliço mesmo em Florença, que ele tinha visitado muitas vezes, e certamente chegou aos ouvidos de Humiliana.
     Humiliana nasceu em Florença em 1219, filha de Olivério Cerchi. Por perder a mãe quando era ainda criança, foi educada pela madrasta Ermelina, consanguínea de São Filipe.
     Conhecemos pouco de sua infância, mas podemos imaginá-la bastante normal. As mulheres eram sujeitas a muitas limitações, eram submissas ao pai ou ao marido, tinha que respeitar as regras sociais, mesmo nas roupas. Aos quinze anos de idade, em obediência ao seu pai, ela se casou com Bonaguisi, um tecelão tão rico quanto ganancioso e rude, provavelmente usurário. O pai havia colocado bem as outras filhas, por exemplo, as uniões com os Adimari e os Donati. O casamento de Humiliana foi, portanto, um acordo econômico entre duas famílias ricas (o dote esponsal era um verdadeiro contrato), sendo completamente insignificantes as suas aspirações. A jovem noiva sofreu acima de tudo pelas iniquidades e má conduta do cônjuge, e tentou compensar isso com muitas obras de caridade.
     A Providência sempre vem em auxílio dos justos. Humiliana encontrou em sua nova casa uma colaboradora excepcional: a cunhada Ravena. Foi um apoio importante porque, sendo maior idade, tinha o controle da casa e juntas elas chamavam menos atenção. A união foi perfeita. Levantavam-se cedo e iam à Missa (geralmente na vizinha igreja de São Martino), faziam o trabalho doméstico, coordenando os empregados. Elas, então, dedicavam-se às obras de misericórdia. Humiliana geralmente se levantava antes do estabelecido e, enquanto o silêncio envolvia a casa, ela rezava intensamente ao seu Jesus. Ravena testemunhou que Humiliana subtraía da mesa toda a comida que podia para distribuí-la aos pobres, juntamente com sapatos e roupas. Para os doentes, uma vez ela esvaziou metade do seu colchão. Juntas, elas visitavam o Mosteiro dominicano de Ripoli e o hospital de São Gallo.
     Humiliana também confeccionava paramentos sagrados para as igrejas que visitava, usando escondido os tecidos preciosos que o marido lhe dava: ela tinha uma grande veneração pelo culto divino. Para os pobres intervinha junto aos conhecidos ricos para obter recursos e muitas vezes trabalhava à noite, longe dos olhos das pessoas. Na caridade, a única regra era a de Cristo. Quando foi descoberta, teve que suportar insultos e espancamentos do esposo e até de parentes do marido. Mas Humiliana conhecia a passagem do Evangelho que chama bem-aventurados os perseguidos por causa do Senhor. Encarnando perfeitamente o ideal franciscano, ela tomou o hábito da Ordem Terceira, na Igreja de Santa Cruz das mãos de Frei Michele Alberti, seu confessor.
     Humiliana teve duas filhas; o casamento durou cinco anos até a morte repentina de seu marido, que morreu com os últimos sacramentos. Os parentes tinham de manter por um ano a viúva que, em seguida, voltava para sua família. Durante este ano ela convidou para sua mesa muitos pobres. O costume cruel do tempo estipulava que as crianças deviam ser deixadas com os parentes do marido (no caso de Humiliana, felizmente, seriam cuidadas por Ravena).
     Viúva com pouco mais de vinte anos, seu pai tentou convencê-la a se casar novamente. Desta vez a negação foi inflexível, ela queria entrar no Mosteiro de Monticelli (fundado por Santa Inês, irmã de Santa Clara). Os planos do Senhor, no entanto, eram diferentes. O seu dote, que foi devolvido, foi cedido ao seu pai (por um ato oficial!) e não podendo se tornar uma freira, em 1241 pediu e obteve do papa autorização para viver isolada na torre dos Cérchi, próximo da Praça da Senhoria. Privada dolosamente de grande parte dos bens, se alegrou com isso, deu graças a Deus e se dedicou à penitência e a esmola, distribuindo aos pobres o pouco que lhe restava.
     A fiel Gisla era mais do que uma camareira, foi uma companheira. No isolamento de seu quarto, com o essencial, montou um altar para Nossa Senhora. Passava os dias rezando e fazendo penitência, mesmo com cilicio. Jejuava nos dias de festa e nas vigílias, durante a Quaresma e Advento. Em alguns períodos, ela também respeitava o grande silêncio. Ela sofreu muito por causa da impossibilidade de continuar as atividades caritativas. Ela se deu toda a Deus, a castidade da viuvez. Ela vivia como uma reclusa no coração de Florença, entre as pessoas que muitas vezes iam visitá-la (incluindo as filhas). Seu quarto tornou-se uma espécie de centro espiritual; entre outras coisas, a cada Quinta-feira Santa ela lavava os pés de suas irmãs terciárias. Cristo recompensou consolando-a todos os dias. Não faltaram as vexações diabólicas e as provas espirituais, mas também as visões místicas. Foram muitos os dons com que Deus a agraciou: êxtases, espírito profético e poder taumatúrgico.
     Muitos episódios da sua vida mereceram ser inscritos em florilégios legendários: ser curada duma chaga dolorosa por meio dum sinal da cruz traçado por mão invisível; fazer com que a água substituísse o azeite para alimentar a lamparina do Santíssimo Sacramento; seu Anjo da Guarda a chamava de madrugada para a oração da manhã; padecendo de sede em virtude de uma febre, veio a Virgem Maria dar-lhe de beber; Jesus muitas vezes a alimentou com pão e mudou a água em vinho, e  ressuscitou uma filha morta subitamente. Satanás vinha tentá-la com alucinações e seduções, com imagens sedutoras ou formas repelentes: a firmeza de sua fé defendia-a sempre desses assaltos.
         Ela adoeceu, mas se manteve em silêncio para evitar distúrbios: uniu seus sofrimentos aos de Cristo na Cruz. No dia de sua última Páscoa terrena, ao som dos sinos caiu em êxtase. Ela morreu, assistida apenas pela fiel servidora, no alvorecer de 19 de maio de 1246. Era sábado, o dia dedicado a Maria e Humiliana tinha vinte e sete anos.
O funeral foi triunfal, dado que já a cercava a fama de santidade. Seus pés foram enfaixados para evitar os excessos das pessoas; ela tinha expressado esse desejo movida pelo senso de pudor que sempre lhe fora tão caro. As pessoas aclamaram-na santa e espontaneamente se dirigiam ao seu túmulo para rezar. Ela foi enterrada em sua igreja favorita de Santa Cruz. No começo, ela foi enterrada no chão, em seguida, por trás de uma parede sob as escadas do púlpito, até que seu irmão Arrigo (que seguira seu exemplo se tornando franciscano), dispôs uma capela no claustro. Hoje suas relíquias são veneradas em uma capela do transepto, em uma urna artística. A humilde beata repousa na basílica que o mundo inteiro conhece por suas obras de arte e porque ali estão sepultados alguns grandes da Itália.
     Sua vida foi escrita em latim pelo Frei Vito de Cortona (do convento de Celle) e pelo confessor Frei Miguel, sendo que os dois a tinham conhecido. Houve uma atenção incomum ao recolher testemunhos: são citadas escrupulosamente trinta e quatro testemunhas, incluindo três cunhadas, uma avó e três empregadas domésticas. Mesmo os milagres (quarenta e sete), que ocorreram nos três anos após a morte, foram registrados por Frei Hipólito, do mesmo convento. A biografia foi resumida trezentos anos mais tarde por Raphael Volterrano e pelos Bollandistas. Exemplo de grande e humilde mulher, de filha, de esposa e mãe, nela resplandeceram as virtudes da humildade, da caridade e da obediência. Suas maiores devotas eram as mulheres em necessidade. O seu culto foi aprovado pelo Papa Inocêncio XII em 24 de julho de 1694.
 
Fonte: www.santiebeati.it Autor: Daniele Bolognini
https://www.santiebeati.it/dettaglio/92199
 
Postado neste blog em 18 de maio de 2017

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Beata Isabel Crivelli de Milão, Clarissa – 17 de maio

     
A Beata Isabel Crivelli de Milão é uma Clarissa que viveu entre os séculos XV e XVI. Sabemos muito pouco sobre ela. Conta-se que Isabel Crivelli foi uma das freiras mais famosas do mosteiro de Santo Apolinário de Milão. De fato, no martirológio franciscano ela é lembrada com estas palavras: "abstinentia ed ecstatica oratione exornata" (em tradução livre, adornada com abstinência e êxtase na oração).
     Santo Apolinário de Milão foi um mosteiro franciscano feminino da Ordem das Clarissas, localizado na Porta Romana na cidade de Milão. Em 1223, o arcebispo Enrico I Settala concedeu um terreno para a construção do convento perto da igreja de Santo Apolinário, permitindo que as freiras entrassem no mosteiro em 1224. Além disso, o bispo doou as relíquias de São Fausto e São Lourenço.
      Santo Apolinário foi o primeiro mosteiro de claustros franciscanos fundado na cidade de Milão. Num documento datado de 1640, as Clarissas atestam que desde o início foram colocadas sob o governo espiritual dos conventuais de São Francisco, passando em 1471 para a jurisdição dos padres menores observantes de Santo Ângelo.
     Os anais franciscanos relatam que a Beata Isabel Crivelli de Milão pode ter morrido por volta do ano de 1527. Nos martirológios franciscanos a Beata Isabel Crivelli de Milão é celebrada no dia 17 de maio.
 
Fonte: https://www.santiebeati.it/dettaglio/98117

sábado, 13 de maio de 2023

Santa Maria Domingas Mazzarello, Cofundadora - 14 de maio

 
   
Maria Domingas Mazzarello nasceu em 9 de maio de 1837 em Mornese, Acqui, Itália, filha de José e Madalena Mazzarello. Era filha de camponeses que ritmavam a vida pelo alternar das estações: pessoas honestas e sustentadas por uma fé profunda. Maria, a mais velha de 10 filhos, sete dos quais sobreviveram, aprendeu as lições de uma típica irmã mais velha. Como primogênita, ela começou desde muito cedo a ajudar a mãe no cuidado dos irmãos menores e dos afazeres domésticos. O que se revelou providencial, pois mais tarde cuidaria de uma grande família religiosa. 
     Main, como era carinhosamente conhecida em casa, sobressaía-se nas aulas de catecismo e fez sua Primeira Comunhão em 1850. Adolescente, começou a ajudar o pai no trabalho dos vinhedos. Com tantos cuidados sobre os ombros desde a infância, Maria não teve tempo de ir à escola. Entretanto, tinha forte caráter e espírito de liderança. Durante toda a vida fez um contínuo esforço para adaptar-se aos outros e adquirir a suavidade de trato que depois a caracterizou como superiora.
     Maria Mazzarello ingressou aos 15 anos na Associação das Filhas de Maria Imaculada, fundada pelo vigário local, Pe. Domingos Pestarino. As associadas dedicavam-se às obras de caridade e ao cuidado das crianças. O grupo era formado por 15 moças, mas não possuía um regulamento escrito. As jovens se reuniam na casa de uma delas, para fazer leitura espiritual e traçar planos de ação.
     Quase morreu de tifo com a idade de 23 anos, e embora sobrevivesse, ela nunca recuperou novamente a totalidade de suas forças. Durante a convalescença, teve uma visão: viu surgir no campo um grande edifício, e muitas meninas brincando e rindo em seu pátio. Ouviu então uma voz: “Eu as confio a ti”. Maria ficou perplexa, sem saber bem o que isso significava. Mais ou menos ao mesmo tempo, Dom Bosco também teve uma visão de muitas meninas abandonadas num pátio. Uma voz também lhe dizia: “Essas são minhas filhas; cuide delas”.
    Com sua amiga Petronila começou a trabalhar como costureira. Desejando trabalhar com as jovens, elas fundaram uma escola de corte e costura que logo se tornou uma escola normal. Todos os domingos elas ofereciam às jovens da cidade, estudantes ou não, uma oportunidade de virem à escola para jogos e orações.
     Certo dia um senhor, cuja esposa falecera recentemente, pediu às jovens que cuidassem de suas duas filhas, porque estava desempregado. Pouco depois apareceram outras órfãs. Aos domingos, as Filhas de Maria Imaculada começaram também a reunir as meninas da cidade para entretê-las com jogos e cânticos, proporcionando-lhes assim uma distração inocente. Desse modo, o apostolado com as meninas de Mornese foi progredindo, fazendo essas Filhas de Maria Imaculada com as meninas da cidade, sem o saberem, um pouco o que Dom Bosco fazia com os meninos em Turim.
     O Papa Pio IX havia sugerido a Dom Bosco a fundação de um instituto feminino que “fizesse pelas meninas o que os Salesianos fazem em favor dos meninos”. O comentário do Papa foi logo complementado por um sonho em que ele via uma multidão de meninas junto à colina de Borgo Alto, que lhe pediam que se preocupasse também com sua educação. “Nós meninas não temos também uma alma a salvar, como têm os meninos?”, o recriminam. Então ele vê em sonho Maria Auxiliadora que lhe diz: “Te confio estas jovens; elas também são minhas filhas”. Anos mais tarde nesse lugar seria construída a primeira casa das Filhas de Maria Auxiliadora.
     Foi então que o Pe. Pestarino, que estava entrando para os salesianos em Turim, comentou com Dom Bosco o bem que a Associação de Maria Imaculada fazia com as jovens em Mornese. O santo interessou-se muito, e em 1867 foi para lá com sua banda de meninos, com o pretexto de angariar fundos para seu Oratório.
     Impressionado com o que viu, Dom Bosco teve uma reunião com as moças da Associação, na qual lhes propôs formar um ramo feminino dos Salesianos, que faria para as jovens o que os sacerdotes faziam para os jovens. A resposta foi entusiástica. O Papa Pio IX aprovou o projeto, e as quinze jovens, lideradas por Maria Mazzarello, fizeram então, no dia 31 de julho de 1872, sua profissão religiosa nas mãos do Bispo de Acqui, de Dom Bosco e do Padre Pestarino. Surgiu assim o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora. Dom Bosco pediu a Maria Mazzarello que fosse a superiora, até que se fizesse uma eleição entre as novas religiosas, e assim se fez.
     Aos poucos novas postulantes vieram engrossar as fileiras da congregação. Assim, dois anos depois, um grupo de Filhas de Maria Auxiliadora fundou uma casa da congregação em São Martinho. “Como ramo feminino da família religiosa Salesiana, as Filhas de Maria Auxiliadora [...] trouxeram para seu ministério o gênio feminino particular que casa tão bem a educar, ensinar, e encorajar as jovens no caminho da salvação e do crescimento pessoal”.
     Em 1874 Maria Domingas foi eleita Superiora Geral das Filhas de Maria Auxiliadora, que ficou popularmente conhecida como Irmãs Salesianas, com a casa matriz em Nizza, Monferrato.
     Madre Mazzarello sentiu a importância do estudo para que ela e outras irmãs na mesma situação pudessem educar as alunas. Pois, a seu exemplo, várias das irmãs eram ainda analfabetas. Decidiu então que as mais aptas não só aprendessem a ler e escrever, mas fizessem cursos para poderem lecionar em suas escolas. Ela se interessava pelo progresso espiritual e intelectual de cada uma.
     A Congregação cresceu rapidamente. A pedido de Dom Bosco, algumas das irmãs foram em 1877 como voluntárias para as missões na América Latina. A Madre enviou seis freiras para fundar uma casa na Argentina para onde vários italianos haviam emigrado.
     Nos sete anos que permaneceu como Superiora Geral, até sua morte, Madre Mazzarello tinha muito presente que fora uma camponesa analfabeta, e por isso esmerava-se em tratar as outras irmãs com a mais profunda humildade, compreensão e amor materno. E todas a viam como tendo um coração de mãe e alma de anjo, o que as conquistava. Sua vida foi marcada por um estilo de relações simples, autênticas. Como educadora, teve coração de mãe, sabendo ser firme em relação aos princípios e valores universais. Foi realmente um ponto de referência estável, ao mesmo tempo acolhedor e compreensivo. Jamais lera um tratado de Pedagogia, mas sendo uma líder nata consolidou com sua capacidade e competência, aliadas à sua sede apostólica, um trabalho que ainda hoje é cheio de vida.
     Em 1881, Madre Mazzarello fez uma viagem à França para visitar uma fundação, mas retornou de Marselha, pois sentia-se doente. São João Bosco encontrou-se com ela e a confortou. Em 27 de abril ela recebeu os últimos sacramentos e disse: “Agora já assinei meu passaporte e estou pronta para ir”. Ela faleceu logo depois, em 14 de maio em Nizza, Monferrato com apenas 44 anos.
     Ao falecer, Santa Maria Domingos Mazzarello deixou o legado de uma congregação com 250 religiosas e mais de 30 casas na Itália, França e na América. Hoje elas são mais de 15.000 em todos os continentes.
     Seu corpo é venerado na Basílica de Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos, em Turim, Itália, ao lado de São João Bosco. Foi beatificada em 1938 pelo Papa Pio XI e canonizada em 24 de junho de 1951 pelo Papa Pio XII.
 
Fontes:
http://www.salesiansisters.org.au/node/6. Pe. José Leite, Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1987, p. 51.
 
Postado neste blog em 13 de maio de 2011

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Beata Joana de Portugal, Princesa e Dominicana - 12 de maio

     
Esta princesa faleceu quando as cortes europeias eram grandes responsáveis pela expansão dos costumes renascentistas, enquanto dando prestígios aos intelectuais que lançavam as ideias da Renascença, aos juristas que plasmavam o Estado absolutista, e levando uma vida esplêndida, luxuosa, no meio das delícias, esquecidos do fim último de sua vocação de ser exemplo para as classes inferiores.
     Durante muito tempo esta princesa praticou a virtude da mortificação na própria corte, a ponto de tomar como emblema a coroa de espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sua atitude entrava em choque com todas as tendências da época e repercutiu, nesse período já adiantado da Renascença, como uma espécie de reminiscência da Idade Média.
     Também dentro do convento o modo como ela praticava as virtudes religiosas era um agir contra, pois as religiosas viviam de um modo muito relaxado naquele tempo. Era uma época de grande decadência das ordens religiosas.
     Décadas depois, a grande Santa Teresa de Jesus contava como viviam as carmelitas no tempo dela: recebiam visitas o dia inteiro; tinham guitarras, alaúdes e cantavam no claustro canções muitas das quais eram cantigas profanas; por qualquer motivo eram autorizadas a passar temporadas enormes na casa da família etc. Os conventos eram verdadeiros receptáculos de mundanismo.
     Esta Beata admirável é exemplo para todos os tempos de como devemos combater: de frente, com vigor e sem respeito humano.
* * *
     Após súplicas e orações prementes, pois ainda não havia herdeiro para o trono, nasceu Joana, a filha primogênita do rei D. Afonso V, décimo segundo rei de Portugal, e de sua esposa, Da. Isabel, no dia 6 de fevereiro de 1452, e foi jurada princesa herdeira do trono. Trocou esse título pelo de Infanta depois do nascimento de seu irmão, que foi o rei D. João II. Sua mãe faleceu quando Joana tinha apenas quatro anos.
     A augusta menina cresceu como flores de altar, educada com grande esmero pela Princesa Dona Beatriz de Meneses. De personalidade marcante, chegou a exercer temporariamente a regência do Reino.
     Enquanto viveu na corte, praticou as mais altas virtudes cristãs. Tomou como emblema uma coroa de espinhos e, debaixo de suas ricas vestes, ninguém suspeitava que usava um cilício. Jejuava a pão e água, especialmente às sextas-feiras.
     Profundamente compassiva, procurava o quanto podia amenizar as misérias de seu próximo. Encarregara uma pessoa virtuosa de distribuir suas esmolas. Anotara num livro os nomes dos necessitados, o grau de pobreza de cada um e o dia em que a esmola lhes devia ser dada. Na Quinta-feira Santa, lavava os pés de doze mulheres pobres; despedia-as depois de lhes dar roupas novas e dinheiro.
A Beata antes de se
tornar religiosa 
     Era tão formosa que, segundo afirma Frei Luís de Sousa, vieram pintores de outras nações para retratá-la. Muitos príncipes pediram-lhe a mão insistentemente, mas negou-a a todos. Joana aspirava ardentemente entrar para uma ordem religiosa, mas as dificuldades eram muitas. Teve que lutar contra as resistências de seu pai e de seu irmão, que preferiam que ela fizesse um casamento vantajoso.
     Em 1471, D. Afonso V tomou Arzila e ocupou Tanger, abandonada pelos mouros. Quando de seu retorno ao Reino, Joana, aproveitando o clima de euforia, disse-lhe que os monarcas da antiguidade costumavam oferecer sacrifícios aos deuses quando alcançavam qualquer vitória, que ele oferecesse também a Deus o sacrifício de sua única filha. D. Afonso não pode negar o que ela lhe pedia, consentindo que entrasse para um convento, apesar de os príncipes e as damas da corte acharem isto inconveniente.
     Encerrou-se no Mosteiro de Jesus, da Ordem de São Domingos, em Aveiro, onde sua humildade e obediência foram tão grandes, que ninguém podia dizer que ali estava uma filha de rei.  Levou sua humildade até o ponto de lavar roupa, amassar pão, varrer o convento. Aprendeu a fiar e a tecer. Do linho preparado por ela se faziam os corporais para a igreja.
     Em 1479, a peste assolou o país. Joana, obedecendo ao pai, rumou para o Alentejo, aonde a peste não chegara. Passados onze meses Joana voltou a Aveiro.
     Em 1481, faleceu D. Afonso, seu querido pai, a quem sucedeu seu irmão D. João II. Todos esses infortúnios a aproximavam cada vez mais de Deus; não havendo nada neste mundo que a prendesse, suspirava pelo céu.
     Trabalhou ainda esta princesa denodadamente pela conversão das almas, pois a preocupava muito a sorte dos pecadores. A sua obra predileta foi a redenção dos cativos da África. Sua breve vida foi um holocausto de amor e de sacrifício.
     Sua saúde começou a declinar em 1489, e em princípios de maio de 1490 reconheceu que sua morte estava próxima. Na madrugada do dia 12 de maio, a comunidade reuniu-se em torno de seu leito e rezou o Ofício da Agonia. À invocação Omnes Sancti Innocentes, orate pro ea, Joana abriu os olhos e ergueu-os para o Céu por um breve espaço de tempo; depois, expirou suavemente. Sua alma voou em companhia dos santos inocentes.
     Em seu túmulo ocorreram inúmeros milagres obtidos por sua intercessão; a memória de Joana foi sempre guardada em Aveiro.
     O Papa Inocêncio XII a beatificou, confirmando o seu culto, em 1693. D. Pedro II mandou construir um túmulo luxuoso depois da beatificação, para onde foram trasladados os seus santos despojos e onde ainda hoje se conservam.
     A 5 de janeiro de 1963, Paulo VI a declarou especial protetora da cidade de Aveiro. 
 
Postado neste blog em 12 de maio de 2011

terça-feira, 9 de maio de 2023

Santa Solange, Mártir da pureza - 10 de maio

     
Solange foi uma pastora do século IX. É uma das padroeiras de Berry, França. Ela é invocada para o alívio da seca.
     “A ilustríssima virgem Solange é a patrona e, por assim dizer, a Santa Genoveva de Berry. Ela nasceu em 863, no burgo de Villemont, a duas ou três léguas da cidade de Bourges. Seu pai era um pobre vinhateiro que levava uma vida muito católica; Deus recompensou sua piedade abençoando seu casamento. Ele teve uma filha a quem pôs o nome de Solange. Nesta admirável criança a beleza do corpo e a beleza da alma faziam as delícias de Deus e dos homens”.
     “Antigas crônicas a chamam de Solange ou Soulange; o local de seu nascimento não existe mais; podemos ver as ruínas de uma casa no meio do Prado Verdier, que dizem que era a habitação de Santa Solange. Esta pradaria fica a meia légua do burgo que recebeu o nome da Santa após sua morte”.
     “As lições do ofício que a Igreja consagrou a ela narram que dia e noite aparecia sobre sua cabeça uma estrela que a conduzia em suas caminhadas, e que lhe servia de regra em tudo o que ela devia fazer; esta estrela servia especialmente para guia-la e adverti-la, assim que o tempo que ela destinava à oração ou à salmodia se aproximava, como se esta luz, que outrora convidara os Santos Reis Magos a ir reconhecer e adorar Jesus Cristo, tivesse sido reproduzida para favorecer esta Santa esposa do Salvador, e indicar a ela os preciosos momentos que o divino Esposo pedia suas adorações”. 
(Extraído dos Petits Bollandistes)
     Ela era forte, alegre e piedosa; gostava de ouvir as vidas dos santos durante as longas noites de inverno. Especialmente gostava da história de Santa Inês, que tinha sofrido um terrível martírio, e para si repetia que haveria de seguir os seus passos. Aos sete anos fez voto de castidade.
     Quando se tornou mais velha, passou a se ocupar do pequeno rebanho da família. Levantava-se ao amanhecer, passava diante da pequena igreja e parava para deixar algumas flores sobre o altar, depois seguia para o campo, onde havia construído uma capelinha toda para si e ali se ajoelhava rezando com fervor.
     Algumas vezes era transportada por êxtases e o tempo passava velozmente, mas os anjos a chamavam de volta à realidade. Era muito generosa com os pobres e também foi abençoada com o poder de curar os doentes e curou muitos.
     Um dia, atraído pela reputação da pastora, Bernardo de la Gothie, filho de Bernardo, Conde de Poitiers, de Bourges et do Auvergne, montou seu cavalo e, sob pretexto de ir à caça, foi em direção a Villemont, onde Solange guardava seu pequeno rebanho. Ao vê-la, ele desejou vivamente tê-la, mas ela recusou sua proposta.
     Aparentemente resignado, o jovem, entretanto, voltou a abordá-la no mesmo local dias depois e, diante de nova recusa, agarrou-a e levou-a em seu cavalo. Solange, decidida a não consentir em seus avanços, conseguiu escapar e caiu em um riacho próximo da estrada. Bernardo, cego de raiva diante da persistente recusa de Solange, a decapitou (outros dizem que ele a traspassou com sua espada).
     Solange, que estava de pé, calmamente estendeu seus braços para receber sua cabeça e caminhou até Saint Martin du Cros (um cruzeiro) onde caiu sem vida e foi sepultada. (Boll. T. 5, pp. 427 a 431) A ereção de cruzes nas encruzilhadas era então muito frequente.
     A tradição tem como data do martírio de Solange o dia 10 de maio de 878, sob o pontificado de Frotario, Arcebispo de Bourges (876-890). Uma nova igreja foi construída sobre o túmulo da Santa e lhe foi dedicada.
    Desde a Idade Média até os dias de hoje seu culto permanece importante em Berry. Seus restos foram exumados “por causa dos milagres que eles operavam” (Guérin). Inicialmente colocados em um relicário de madeira, foram depois postos em um relicário de cobre. A última transladação ocorreu em 1511. Em 1657, a cidade de Bourges doou um relicário de prata para substituir o antigo. Em 1793, durante a Revolução Francesa, as relíquias foram dispersas.
     "Fazendo minha visita a Méry-ès-Bois, em 5 de abril de 1843 – escreve M. Caillaud, vigário geral – aí encontrei relíquias de Santa Solange: um osso do crânio, a mandíbula superior e um dente da Santa. Estas relíquias pertenciam, antes da Revolução, à abadia dos bernardinos de Luís e tinham sido transferidas com grande pompa à Méry-ès-Bois em 1791, assim que os monges deixaram o convento; eu dividi estas relíquias em duas porções iguais, das quais uma ficou em Méry-ès-Bois, e a outra foi dada à paroquia de Santa Solange”.
     Todos os anos, os fiéis peregrinos levam o relicário contendo as relíquias de Santa Solange até a capela consagrada, no “Campo do martírio”. A igreja foi classificada como monumento histórico em 1913.
     O Papa Alexandre VII autorizou a criação de uma confraria dos “Primos de Santa Solange".
 
Igreja de Santa Solange, Berry 

Etimologia: Solange = do latim Solemnia, “solene, majestosa”.
 
Postado neste blog em 9 de maio de 2013

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Beata Maria Catarina de Santo Agostinho, Virgem Agostiniana - 8 de maio

     
Descendente de duas famílias nobres de Cotentin (França), Maria Catarina de Santo Agostinho, no século Catarina Simon de Longpré, nasceu e foi batizada a 3 de maio de 1632, em Saint-Sauveur-le-Vicomte, no atual departamento da Mancha, na França. Seu pai Joaquim Simon de Longpré, era advogado e sua mãe, Francisca Jourdan de Launay, era filha de um lugar-tenente civil e penal.
     A educação da menina foi confiada a seus avós maternos. Os Jourdan tinham em sua casa uma espécie de hospital onde recebiam e tratavam os pobres e os doentes. Catarina ali recebeu uma grande influência da parte de São João Eudes (1601-1680) e outros religiosos que frequentavam aquela Instituição.
    Em 1642, num escrito assinado com o próprio sangue, ela consagrou-se à Santíssima Virgem. No ano seguinte fez três votos: tomar a Santíssima Virgem como mãe, não cometer nenhum pecado mortal e viver uma castidade perpétua.
     Seduzida pela vida religiosa, aos 12 anos Catarina entrou como postulante para o Hôtel-Dieu de Bayeux em 7 de outubro de 1644. Começou a aprender a profissão de enfermeira neste hospital, onde as religiosas Agostinianas Hospitalares da Misericórdia de Jesus davam assistência aos doentes.
     Entrou no noviciado dessa Congregação e desde então ela concebeu o desejo de ir para o Canadá, onde as freiras Agostinianas tinham fundado, em 1539, o Hôtel-Dieu de Quebec. Quando estas pediram novas recrutas, Catarina ofereceu-se imediatamente. Ela ainda não havia completado dezesseis anos de idade.
     Tentaram dissuadi-la e seu pai opôs-se ao seu desejo. Ela fez o voto “de viver e morrer no Canadá, se Deus lhe abrisse a porta deste país”. Todos foram forçados a ceder às suas razões e Catarina fez profissão religiosa a 4 de maio de 1648, em previsão do seu embarque, em 27 de maio. No dia 19 de agosto de 1648 ela chegou a Québec.
     Madre Catarina de Santo Agostinho ia ser uma grande ajuda para o mosteiro e o hospital de Quebec. Ela progredira tanto na prática de todas as virtudes e na profissão de enfermeira, que aos 22 anos foi nomeada administradora da comunidade e do hospital. Assumiu depois a direção do hospital e foi escolhida para Conselheira da Superiora e Mestra de Noviças. Durante seu primeiro triênio como depositária, ela dirigiu a construção do novo Hôtel-Dieu.
     Procurou aprender a língua dos indígenas a fim de poder ensinar-lhes o catecismo e encaminhá-los para Deus. O seu zelo e caridade não tinham limites. Humilde, simples e alegre, palmilhou rapidamente o caminho da santidade.
     No entanto, esta jovem freira tão ativa esteve quase sempre doente. Ela esteve mais de oito anos com febre sem nunca acamar, sem reclamar, sem desistir à obediência, sem perder os exercícios da Comunidade. Não só não se queixava, mas ela estava sempre de semblante agradável e a sua ternura contínua causava a admiração de todos.
     A discrição de Catarina iludiu até mesmo suas irmãs sobre as suas disposições interiores. Considerou-se que, enquanto viva, ela se comportava simplesmente como uma boa religiosa, porque, com exceção do seu diretor e do seu bispo, ninguém sabia o que nela se passava. As riquezas da sua vida interior e as maravilhas místicas que o Espírito Santo operava na sua alma foram reveladas apenas depois de sua morte.
     Conta-se sobre ela “coisas extraordinárias”: visões, revelações, constantes lutas contra os demônios. Ela teve a consolação de ver espiritualmente o Padre João de Brébeuf (1593-1649), jesuíta mártir no Canadá em 1649, proclamado Beato em 1925 e canonizado em 1930, juntamente com outros sete jesuítas, mártires entre 1622 e 1649. O santo jesuíta, que fora assassinado pelos iroqueses, apareceu para ela dizendo: “Era para ele um sofrimento ver que um país pelo qual ele tinha tanto trabalhado e onde havia derramado seu sangue, fosse agora terra de abominação e de impiedade” e prosseguiu: “Irmã de Santo Agostinho! Tendes piedade de nós? Ajudai-nos, eu vos peço!” Madre Catarina respondeu abandonando-se “à divina justiça, como uma vítima pública pelos pecados dos outros”.
     No mês de fevereiro de 1663, teve ainda visões do Padre João de Brébeuf que a fez compreender que Deus queria servir-se dela para proteger o país e todos que recorressem a ela receberiam uma ajuda segura.
     O Beato Francisco de Laval, seu bispo, e a Beata Maria da Encarnação fizeram mais caso, no entanto, das suas virtudes sólidas do que dos “milagres e maravilhas”. Maria da Encarnação, quanto a ela, sentiu que “as graças que Deus lhe concedeu estavam baseadas nas três virtudes: humildade, caridade e paciência”.
     Estas três virtudes, Catarina praticou-as a um verdadeiro grau heroico. Nunca, na verdade, ela sofreu tanto, especialmente por parte dos demônios, que não lhe deixavam qualquer descanso, torturando-a moralmente e batendo-lhe mesmo. Contudo, nunca saciada de sofrimentos, a humilde hospitaleira queria imolar-se sempre cada vez mais para a salvação das almas e o bem espiritual de seu país de adoção. Finalmente, consumida pela tísica, ela morreu em 8 de maio de 1668, com a idade de trinta e seis anos.
     O Beato Francisco de Laval, para o qual Catarina de Santo Agostinho era “a alma mais santa que conhecera”, tinha “uma confiança muito especial” no seu poder, “porque, se ela nos socorreu tão poderosamente durante o tempo em que viveu entre nós, escreve ele, que não fará ela agora conhecendo com mais luminosidade as necessidades, seja do Pastor ou seja do rebanho?”
     Madre Maria Catarina foi beatificada em Roma no dia 23 de abril de 1989 e sua festa litúrgica é celebrada a 8 de maio.
 
Fontes: http://alexandrina.balasar.free.fr; Santos de cada dia, Pe. José Leite, S.J. 3ª. Ed.; www.santiebeati.it

Postado neste blog em 7 de maio de 2014