sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Beata Regina Protmann, Fundadora - 18 de janeiro

     
     Regina era filha de Peter Protmann e Regina Tingels, ambos descendentes de famílias ricas e católicas. Nasceu em 1552, na cidade de Braunsberg, hoje Braniewo, Polônia. Seu primeiro biógrafo, o jesuíta Engelbert Keilert, descreveu-a como elegante, forte, hábil; sabia ler e escrever. Seu tio era um dos membros do governo.
     No século em que Regina viveu a Europa passava por intensas e tumultuadas mudanças: os movimentos da Pseudo-Reforma Protestante e da Contra-Reforma da Igreja Católica. Foi o grande cisma que incluiu luta armada e dividiu a Cristandade entre católicos e protestantes.
     Os pais proporcionaram uma boa educação intelectual, moral e religiosa à jovem. Era hábito da família se reunir à noite junto da lareira, onde o pai narrava a história dos povos, a vida dos Santos e ensinava religião aos filhos.
     Regina era uma filha amorosa e obediente. Da vida dos Santos narrada por seu pai, era a de Santa Catarina de Alexandria, virgem e mártir dos primeiros tempos, a que Regina mais gostava, talvez porque esta Santa fosse padroeira de sua cidade e por ter sido batizada na Igreja dedicada a ela. Assim, no seu íntimo, havia decidido imitar a Santa em sua total adesão a Jesus.
     Regina cresceu bonita, vaidosa e inteligente, apreciando as roupas elegantes, as diversões e festas, como todas as jovens de sua condição social. Graças à sua liderança, se sobressaia às demais amigas.
     O forte chamado ocorreu aos 19 anos de idade. Regina deixou o conforto da casa paterna, renunciou a um vantajoso casamento e com duas companheiras foi morar numa casa quase em ruínas, à Rua da Matriz, para viver na oração, na penitência, na pobreza, e servir a Deus no próximo: os doentes, os pobres e as meninas abandonadas, carentes de instrução.
     Isto atraiu muitas jovens desejosas de seguir a vida religiosa como ela. Regina criou escolas e com suas companheiras começou a tratar dos doentes em seus domicílios e em hospitais.
     Segundo seu primeiro biógrafo, ela “rezava na verdade e incessantemente”. A oração prepara o terreno para a ação. “Ao abrir o coração ao amor de Deus, abre-o também ao amor dos irmãos, tornando-nos capazes de construir a história segundo o desígnio de Deus” (Novo millennio incunte, 33).
     Após 12 anos de vida em comum, auxiliada pelos Padres Jesuítas, Regina elaborou uma Regra de vida para uma família religiosa contemplativa e ativa, algo inédito para aquele tempo, colocada sob a proteção de Santa Catarina de Alexandria, Virgem e Mártir, a qual foi aprovada pelo Bispo Martinho Kromer, em 18 de março de 1583.
     Uns vinte anos mais tarde, de acordo com as necessidades e as orientações do Concílio de Trento, a primeira Regra foi reformulada e recebeu aprovação pontifícia em 12 de março de1602, e sua obra passou a chamar-se Congregação de Santa Catarina V. e M. A fundadora foi eleita Superiora.
     Além do Convento de Braniewo, Madre Regina fundou mais conventos em localidades vizinhas: Orneta, em 1586; Lidzbark, em 1587 e Reszel, em 1593.
     Depois de 30 anos trabalhando pela expansão de sua obra, Madre Regina retornou doente ao seu primeiro convento de Braunsberg, após uma viagem realizada no inverno. Uma longa e sofrida doença causou seu falecimento no dia 18 de janeiro de 1613.
     Somente três séculos após sua morte, em 1957, foi iniciado o processo para a sua beatificação. Foi beatificada durante a visita de João Paulo II à Polônia em 1999, na cidade de Varsóvia. A Beata Madre Regina Protmann é festejada por toda a Cristandade no dia de sua morte. Suas relíquias são veneradas em Grottaferrata desde o século XX.
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Braunsberg em 1684
    Nos dois primeiros séculos após a morte da Fundadora, a Congregação quase não se expandiu. Subsistiu em meio a tempos difíceis para aquela região: guerras, saques, perseguições, carestia, epidemias e conflitos de toda sorte sucediam-se, deixando trágicas consequências.
     Em 1645 foi fundado mais um Convento em Krakes, na Lituânia. Também lá, as sucessivas tempestades dos séculos seguintes, até nossos dias, não conseguiram aniquilar o frágil rebento.
     Além do cuidado dos doentes, dos pobres e dos órfãos, as Irmãs sempre se dedicaram à formação da juventude feminina. Em 1709, uma peste avassaladora caiu sobre aquela região. Várias Irmãs pereceram vítimas do cuidado aos doentes contagiados.
     Por ocasião do surgimento do Iluminismo e do Absolutismo, as ordens religiosas sofreram repressões políticas, desde o confisco de bens, proibição de admitir novos membros, até a completa supressão. As Irmãs de Santa Catarina gozaram de certa proteção por se dedicarem ao ensino. Estes conflitos causaram grande pobreza e divisão interna entre elas, de modo que a Congregação quase desapareceu.
     Os bispos do Ermland deram apoio e proteção à Congregação através dos tempos, chegando mesmo a intervir nela com medidas disciplinares.
     O início do século XIX viu nascer na Igreja muitas novas congregações religiosas de cunho apostólico e missionário. Nesse tempo, com o auxílio de alguns bispos e dos Padres Jesuítas a Congregação passou por uma verdadeira nova fundação e expansão, sob a liderança das superioras gerais Rosa Schrade e Apolônia Sthurmann.
     Uma cidade após outra foi solicitando a colaboração das Irmãs e assim foram fundadas muitas outras casas religiosas das Irmãs de Santa Catarina, primeiramente nas proximidades da região onde foi fundada e depois até em outros países.
     Além dos serviços domésticos, dedicavam-se aos serviços das Igrejas, à educação das crianças e jovens e ao tratamento dos doentes. Para este fim, fundaram escolas e hospitais, exercendo forte influência cultural no desenvolvimento das localidades onde viviam e atuavam.
     Em 1897, atendendo à solicitação dos frades franciscanos de Petrópolis, RJ, chegaram ao Brasil. Em 1901 foi fundada uma comunidade na Inglaterra, onde ficaram alguns anos. Em 1908 chegaram a Berlim, desenvolvendo sempre os mesmos serviços assistenciais e religiosos.
     Na Segunda Guerra mundial a Congregação sofreu um golpe terrível justamente naquela região, o norte da Alemanha, onde foi fundada e estava muito florescente. Mais de cem Irmãs foram mortas, e as outras, quase todas, tiveram que fugir. Após a Guerra, aos poucos foram se reencontrando e se reorganizando na Alemanha Ocidental. O pequeno grupo que ficou na parte oriental também subsistiu e continuou a crescer ainda que clandestinamente, sob um regime político que tolhia a liberdade religiosa.
     Divididos os territórios em decorrência da mesma Guerra, Braunsberg, cidade que foi o berço da Congregação, passou a pertencer à Polônia. Em 1951, a sede da Congregação se estabeleceu em Roma.
     Presença da Congregação das Irmãs de Santa Catarina no mundo: Brasil, Itália, Togo, Camarões, Benin, Filipinas, Polônia, Rússia, Alemanha, Lituânia e Bielo-Rússia. São hoje cerca de 650 Irmãs distribuídas em cinco províncias.


     Ó doce Senhor Jesus, conserva-me em tua graça, para que eu jamais Te abandone ou Te ofenda com pecados e vícios. Não deixes a mim, pobre serva, morrer e perecer; dá-me, ó Deus, a mim, pobre criaturinha, a mim, “pobre cachorrinho, as migalhas que caem de Tua mesa”. Não sou digna de tuas grandes graças; dá-me, ó Deus, que eu Te ame, honre e bendiga eternamente”. Beata Madre Regina Protmann

Fontes: 
http:www.paulinas,org.br; http://acsc.com.br/historia;

Postado pela 1ª vez em 18 de janeiro de 2012

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Venerável Ana de Guigné - 14 de janeiro

Uma tão grande alma para uma tão pequena menina

     Em 1915, um ano após o início da primeira guerra mundial, enquanto os combates se atolam nas trincheiras, todas as famílias de França sabiam que uma visita de oficiais do estado civil num lar significava o anúncio de uma morte na frente de batalha. Assim, quando em 29 de julho de 1915, a Senhora de Guigné vê o presidente da câmara de Annecy-le-Vieux chegar à porta da sua residência, ela percebeu que o seu marido, ferido já em três ocasiões, não regressaria mais.
     “Ana, se me queres consolar, tens de ser boazinha”, diz a mãe à sua filha de tão-somente quatro anos de idade. A partir daquele momento, a criança até aí voluntariosamente desobediente, orgulhosa e invejosa, iria realizar, com tenacidade e continuidade, um combate de cada instante a fim de se tornar boa, o combate da sua transformação interior que ela vencerá graças à sua vontade, obviamente, mas sobretudo – e é ela a dizê-lo – através da oração e de sacrifícios que ela se impõe. Veem-na ficar vermelha, serrando os seus pequenos punhos para controlar o seu forte caráter perante as contrariedades que enfrenta; depois, pouco a pouco, as crises diminuíram até ao ponto dos seus familiares e conhecidos ficarem com a impressão que tudo se lhe tornou agradável. O amor pela sua mãe que ela quer consolar vai assim tornar-se o seu caminho para Deus.
     Quando a Irmã, que cuidava dela durante sua doença, perguntou como se tornar uma santa, ela disse “simplesmente querendo". A Ana de Guigné era uma criança com uma vontade de ferro e desde o momento de sua conversão ela quis apenas uma coisa: ser uma santa. "Tornar-se um santo é persistir", dizia ela. Embora ela tenha vivido por um curto período de tempo, ela se destacou em superar suas inclinações naturais, generosa e heroicamente aceitou os sofrimentos que Deus lhe enviou.
 
Ana com sua mãe e irmãos
   
Ana de Guigné, a mais velha de quatro filhos, nasceu em 25 de abril de 1911, filha do Conde Jacques de Guigné e de Antoinette de Charette. O conde era um segundo tenente no 13o batalhão, Chambéry de Chasseurs Alpins. A avó materna de Ana, Françoise Eulalie Marie Madeleine de Bourbon-Busset era descendente direta do sexto filho do rei São Luís IX da França. A mãe de Ana era a sobrinha-neta do general François de Charette, um dos líderes de La Vendée.
     Quando Jacques (Jojo) nasceu 15 meses depois de Ana, ela ficou muito ciumenta, jogando sujeira nos olhos do bebê e uma vez até o chutou. Felizmente isto não durou muito e ela estava muito feliz por ser a mais velha. Ana era arrogante, difícil de lidar e seus primeiros quatro anos foram os piores. Este comportamento estava prestes a mudar e, com isso, uma menina santa emergiu.
     Madeleine Bassett (Demoise, como as crianças a chamavam), a governanta que chegou em janeiro de 1916, ficou surpresa ao saber como Ana tinha sido difícil nos últimos 4 anos e meio. Ana, atenciosa com Demoise, fazia com que se sentisse em casa, até apontando para as flores no jardim, dizendo a Demoise que poderia mandar um buquê para sua família em Cannes. Uma coisa que a governanta notou foi que Ana parecia mais sábia para sua idade. “Eu estava realmente encantada com a graça de suas maneiras. Não se podia deixar de amá-la, mesmo inspirando respeito. Ela também era muito sensata e tinha um coraçãozinho tão gentil”.
     Este caminho encontra-se balizado pelas numerosas reflexões de Ana que nos revelam a intensidade da sua vida espiritual e pelos numerosos testemunhos dos seus próximos que recordam os esforços contínuos que ela fazia para progredir na sua conversão. Para Ana de Guigné, o farol que ilumina o seu caminho de conversão é a sua primeira comunhão à qual aspira com todo o seu ser e toda a sua alma e que ela prepara com alegria. Chegado o momento, a sua tenra idade necessitando uma licença especial, o bispo impõe-lhe um exame que ela ultrapassará com uma facilidade desconcertante. “Desejo que estejamos sempre ao nível de instrução religiosa desta criança”, dirá o seu examinador.
     A continuação da sua curta vida traduz a paz de uma grande felicidade íntima alimentada pelo amor a Deus que se aplica, à medida que cresce, a um círculo de pessoa cada vez mais vasto: seus parentes e familiares, pessoas com quem vai contatando, os doentes, os pobres, os não crentes.
     Ela vivia, rezava, sofria pelos outros. Atingida precocemente pelo reumatismo, ela soube o que é o sofrimento e corresponde-lhe com uma oferta: “Jesus, eu vo-lo ofereço”, ou ainda “Ó, eu não sofro; aprendo a sofrer!”
     Mas em dezembro de 1921, ela é afetada por uma doença cerebral – sem dúvida uma meningite – que a força a permanecer acamada. Ela repetia incessantemente: “Meu Deus, eu quero tudo o que quiserdes”, e acrescentava sistematicamente às orações que são feitas pelas suas melhoras: “e curai também todos os outros doentes”.
Chateau de La Cour o castelo da família
     Ana de Guigné morreu na madrugada de 14 de janeiro de 1922 após este último diálogo com a religiosa que velava por ela: “Irmã, posso ir com os anjos?” - “Sim, minha bela pequena menina”. “Obrigada, Irmã! Ó, obrigada!”.
     Esta menina é uma “santa”, tal é então o veredito geral. Os testemunhos abundam, artigos são publicados e o Bispo de Annecy inicia em 1932 o processo de beatificação. Mas então a Igreja não tinha tido ainda a necessidade de ajuizar sobre a santidade de uma criança que não fosse mártir. Os estudos conduzidos em Roma sobre a possibilidade da heroicidade das virtudes da infância foram concluídos positivamente em 1981 e a 3 de março de 1990 o decreto reconhecendo a heroicidade das virtudes de Ana de Guigné e declarando-a “venerável” era assinado pelo papa João Paulo II. 
Ana, com cerca de 9 anos. “Eu perguntei a ela ‘Você ama a Deus?’ Ela me respondeu com tal intensidade em seus olhos e em todo o seu corpo: ’Padre, eu O amo com todo meu coração e alma!’. Jamais esqueci o ardor do amor que ela irradiava”, Padre Jacquemont.

Notas escritas e bilhetes
“Meu pequeno Jesus, eu vos amo e para vos agradar tomo a resolução de obedecer sempre.” (Bilhete deixado sobre o altar aquando da sua primeira comunhão)
“O pequeno Jesus, parece-me que me respondeu no meu coração. Eu dizia-Lhe que queria ser muito obediente e pareceu-me ouvir: sim, sê-o.” (bilhete à mãe 1917)
“Eu quero que o meu coração seja puro como um lírio”.
“Quero que Jesus viva e cresça em mim. Que meios tomar para isso?” (Notas de retiro 1920)
“Bem podemos sofrer por Jesus pois Jesus sofreu por nós”.
     Numa imagem do Calvário que ela tinha feito, Ana escreveu: “De pé diante da Cruz sobre a qual o seu Filho estava suspenso, a Mãe das dores chorava com resignação. Dai-me a graça de chorar convosco”. Ela acrescentava: “Porque Jesus não é suficientemente amado”.

Emprestai-mO, Oh, Maria minha boa Mãe
Emprestai-me o vosso filho, apenas um segundo,
Colocai-o nos meus humildes braços.
Permiti-me, Maria
beijar os pés do vosso querido Filho
que me deu tantas graças.
Como eu desejo, ó Maria,
receber nos meus braços o vosso Filho,
Dai-mO, dai-mO!
Que feliz eu sou agora
pois tenho-O comigo!
(Canto composto por Ana para a comunhão)

     À sua mãe que lhe perguntou por que razão deixou de usar o seu missal, ela respondeu: “Porque sei de cor as suas orações e distraio-me facilmente ao lê-lo. Pelo contrário, quando falo ao pequeno Jesus nunca me distraio. É como quando falamos com alguém, Mãezinha, sabemos muito bem o que dizemos”. (dezembro de 1919)

Fontes:
http://www.annedeguigne.fr/pt/biografia/uma-grande-alma.html
http://www.nobility.org/2015/01/12/anne-de-guigne/

Postado pela 1ª vez em 14 de janeiro de 2015

domingo, 13 de janeiro de 2019

Santa Neosnadia, ou Neomaye, Virgem – 14 de janeiro

  


     Nascida perto de Loudun, na diocese de Poitiers, talvez em Monterre-Silly, Neosnadia não deixou de sua vida, que terminou no século V, outro traço que a reputação de uma grande virtude e uma grande humildade. Ela é objeto de um culto local e popular na região de Poitiers, onde numerosas capelas e uma paróquia são dedicadas a ela.
      Um recente Próprio da diocese a comemora em 17 de janeiro e é nesta data ela e lembrada pela Bibliotheca Sanctorum.
      Na França, a festa de Santa Neomaye (ou Noemoise ou Neomoye) du Poitou é realizada em 14 de janeiro.





A vila de Sainte-Neomaye
     A legenda diz que Sainte-Neomaye leva o nome de uma jovem muito virtuosa, Neomaye, que foi prometida, contra sua vontade, a um feio senhor local. Ao invés de aceitar o casamento, e a fim de manter sua virtude, ela pediu que seu pé fosse mudado em uma perna de ganso, e foi cumprida depois que ela mergulhou em uma fonte. Esta fonte ainda hoje tem a fama de algum poder mágico
     Sainte-Neomaye é famosa pela sua Feira dos Burros (La Foire aux Mules) desde o século XVIII. Hoje em dia, esse evento social ainda acontece na maravilhosa praça central da vila, mas é menos um evento comercial e mais um entretenimento.
     Nesta ocasião, uma corrida, "Les Chemins du Roy", acontece ao redor da aldeia, através de pequenos caminhos usados, há muito tempo, por comerciantes de jumentos. 


    Sainte-Neomaye está localizado no sudeste de Deux-Sèvres. Fica a 14 km a leste de Niort, 60 km a sudoeste de Poitiers. A cidade é atravessada por vários rios. O mais importante é o Sèvre Niortaise. Está localizada muito próximo de Poitiers e seus shoppings e universidades (60 km), e La Rochelle e do Oceano Atlântico.


Fontes:
http://www.santiebeati.it/dettaglio/91613
https://en.wikipedia.org/wiki/Sainte-Néomaye

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Beata Ana Maria Janer Anglarill, Fundadora - 11 de janeiro

Fundadora do Instituto das Irmãs da Sagrada Família de Urgell
     
     Tu, Senhor, me darás a graça para ser uma esposa fiel, que te ama muito e te serve na pessoa dos doentes, dos deficientes”, dizia a Serva de Deus.
    No dia 11 de janeiro de 1885, em Talarn, histórica vila situada junto à cidade de Tremp, Ana Maria Janer Anglarill, pouco antes de entregar sua alma a Deus, expressou seu último desejo: morrer sobre o solo nu como penitente por amor a Cristo "que por mim expirou cravado na cruz", disse a Beata. Terminava assim uma trajetória de provada santidade, de correspondência fiel ao amor de Deus.
     Ana Maria nasceu no dia 18 de dezembro de 1800 em Cervera (Lérida, Espanha). Entrou como Irmã de Caridade no hospital de Cervera, onde se entregou ao cuidado dos doentes e à educação de meninas, em momentos especialmente difíceis, marcados pelas chamadas guerras civis que ensanguentaram a história da Espanha no século XIX.
     Em 1833, quando eclodiu a primeira guerra carlista e o hospital de Castelltort se tornou hospital militar, “a situação em que se encontrou Madre Janer no campo de batalha não foi fácil, e embora não tivesse os meios suficientes, soube organizar e infundir serenidade naquelas pessoas, dar-lhes alívio, consolá-las”, conforme depoimento de Irmã Cecília. Os feridos de guerra chamavam-na “a mãe” porque “fazia de tudo para cuidar de seus ferimentos e os ajudava a morrer pacificados com Deus e consigo mesmos”, disse aquela Irmã.
     Mas, em 1836 a junta do hospital expulsou as Irmãs. Naquele ano o governo liberal decretou a supressão das ordens religiosas, o confisco dos bens eclesiásticos e a expulsão das comunidades religiosas das obras sociais e educativas que até então sustentavam. A História é rica em atropelos deste gênero.
     Terminada a guerra, Ana Maria conheceu o exílio na França até 1844. Em 1849, Ana Maria se ofereceu como voluntária para trabalhar como Irmã na Casa de Misericórdia de Cervera. Durante dez anos atendeu amorosamente os órfãos daquela casa, as crianças de famílias muito pobres, os jovens sem capacitação e os anciãos. Em sua entrega tornava realidade a presença constante da Igreja de Jesus Cristo na vida dos mais pobres.
     A partir de 1850, a junta do hospital de La Seu d'Urgell queria estabelecer uma comunidade de irmãs de caridade, mas várias circunstâncias haviam impedido a formação de uma comunidade estável. Em 1853, o Bispo José Caixal tomou posse da diocese e um de seus propósitos era revitalizar o serviço oferecido pelo hospital aos doentes e aos pobres. Assim, em 1858 os administradores deste centro iniciaram os contatos para que Ana Maria Janer assumisse o estabelecimento como superiora.
     No final de junho de 1859, obtido o consentimento dos administradores do hospital Castelltort e da Casa de Misericórdia e a autorização do vigário geral de Solsona e do bispo de Urgell, Madre Janer viaja para Seu acompanhada de duas postulantes, Concepcion Descárrega e Josefa Selva. Em 1º de julho, conforme registrado em uma ata do Hospital de la Seu, Ana Maria Janer compareceu perante a diretoria para expressar sua profunda motivação para aceitar a tarefa:
     Que ela tinha vindo aqui com o propósito de encarregar-se da direção interna do estabelecimento por espírito de caridade, e não de interesse, contentando-se que se mantenham a ela e às outras irmãs saudáveis ​​e doentes com a decência correspondente à sua classe e que para sapatos e roupas seja dada a cada uma das irmãs a quantidade de cento e sessenta reais anuais e ao mesmo tempo que à sua morte lhe seja feito funeral segundo a vontade da junta, dando a favor dela tudo que ganhar com o seu trabalho".
     A partir dali sabemos bem o que aconteceu: apresentação e aprovação da regra de vida do Instituto chamado então "Irmãs da Caridade" e também sob o patrocínio da Virgem Imaculada, de São Vicente de Paulo e de São Luís Gonzaga. Suas duas finalidades ficaram bem definidas: assistência aos pobres e doentes, e educação das meninas. A primeira comunidade do hospital de Urgell formada pela Madre Janer, e as duas postulantes que a acompanharam, e Maria Viladomat, crescerá de tal maneira, que em breve o hospital ficará pequeno e o convento de Santo Domingo deverá ser solicitado para o noviciado da congregação nascente.

     Desnecessário dizer, o Instituto recebeu durante os primeiros anos o impulso das mãos da Madre Janer que, incansável, apesar de sua idade, não vai deixar de fundar aqui e ali escolas, instituições de caridade e hospitais: Cervera, Tremp, Oliana, Bellver, Sant Andreu, Organia, Castellciutat, Llívia, Les Avellanes. De acordo com as crônicas mais antigas das fundações, nestes foi ela pessoalmente para estabelecer as comunidades. No caso das escolas, a tática era sempre a mesma: conseguir que as irmãs obtivessem os cargos oficiais de professoras.
     O período revolucionário compreendido entre 1868 e 1875 representou um duro golpe para as obras da Madre Janer. Entre 1874 e 1880 ela enfrentou também outros tipos de lutas e provas em que manifestou seu grande sentir com a Igreja, seu silêncio e obediência.
     Em 1879, Mons. Casañas, novo Bispo de Urgell, posteriormente nomeado Cardeal, reorganizou a vida do Instituto e Madre Janer, aos oitenta anos, como merecido reconhecimento foi nomeada primeira superiora geral. Passou seus últimos anos na casa de Talarn sendo exemplo de luminosa caridade.
     Madre Janer tinha um amor especial pela cruz. Contemplar Cristo Crucificado se tornou para ela a base que lhe permitia ser sinal e testemunha clara dAquele que nos amou primeiro, dAquele que nos ama até dar a própria vida.
     Atualmente o Instituto das Irmãs da Sagrada Família de Urgell está presente na Espanha, Andorra, Itália, Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile, Colômbia, México, Peru e Guiné Equatorial.
     Madre Janer foi beatificada no dia 8 de outubro de 2011, durante o pontificado de Bento XVI.  A primeira mulher a ser beatificada na Catalunha durante séculos.

Fontes: 

Publicado pela 1ª vez em 10 de janeiro de 2014

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Beata Alix (Alice) Le Clerc, Cofundadora - 9 de janeiro

    
     Uma das grandes obras da Contra-Reforma foi ter começado a preocupar-se com a educação das meninas. Em 1535, Santa Ângela de Merici fundou a Congregação das Ursulinas com este fim. Santa Joana de Lestonnac fundou, em 1606, a Congregação das Religiosas de Nossa Senhora. Por sua vez, São Pedro Fourier fundou as Canonisas Regulares de Santo Agostinho da Congregação de Nossa Senhora, obra na qual Alix (Alice) Le Clerc, ou Madre Maria Teresa de Jesus, cooperou como cofundadora.
     Alix nasceu em Remiremont, ducado da Lorena, em 2 de fevereiro de 1576. Seu pai, Jean Le Clerc (1550-1602) era um rico comerciante muito culto; sua mãe, Anne Sagay (1560-1609), era oriunda de uma honrada família de Épinal Sua família ocupava uma posição de destaque, mas pouco se sabe da vida de Alix até os dezessete anos. Era então uma jovem alta e bela, loura, de constituição delicada, atraente e inteligente.
     Outro relato, escrito por ela mesma, nos informa que se distinguia na música e na dança, que era muito popular e que tinha muitos admiradores. Alix deixa entender que se envaidecia com isto, o que é provável. Entretanto, lembremo-nos que os santos tendem a exagerar seus defeitos. Por outro lado, Alix mostra que não deixava de ter seriedade: “Em meio a tudo isto, meu coração estava triste”. Pouco a pouco a frivolidade de sua vida se lhe tornou insuportável.
     Por razões de saúde, seu pai teve que mudar-se para Hymont e isto alegrou Alix. Ela diria mais tarde: “Isto me alegrou, o retirar-se do mundo, que me aborrecia sem saber qual a causa”. Alix tinha então 19 anos. Foi então que ela teve um primeiro sonho que mudou sua vida. Ela se viu em uma igreja, próximo do altar, a seu lado se encontrava Nossa Senhora vestida com um hábito religioso desconhecido, que lhe falava: "Vem, minha filha, que eu mesma vou te dar as boas-vindas".
    Em Hymont a jovem encontrou São Pedro Fourier (1565-1640), que era vigário de uma paróquia de Mattaincourt, nas redondezas. São Pedro Fourier foi um dos pioneiros da Reforma Católica e um pioneiro em matéria de educação. Um dia em que assistia à Missa nessa paróquia, Alix ouviu um ruído de tambor e viu o demônio que fazia os jovens dançar “ébrios de alegria". Nesse instante se deu a conversão de Alix, que relatou: "Ali mesmo resolvi não me misturar com semelhante companhia".
     Alix trocou seus vestidos finos pelas roupas das camponesas e pouco saia de sua casa. Sob a prudente direção de São Pedro Fourier, procurou descobrir qual a vontade de Deus a seu respeito, o que lhe causou grandes sofrimentos espirituais. Tanto seu pai como São Pedro Fourier lhe aconselharam que entrasse em um convento. Ao que ela não concordava, pois no sonho lhe fora revelado que não existia nenhuma forma de vida religiosa adaptável à sua vocação.
     Alix confiou a São Pedro Fourier que estava obcecada pela ideia de fundar uma congregação ativa. Este se mostrou cético, mas aconselhou-a a procurar outras jovens que compartilhassem de suas ideias, coisa muito difícil em um povoado afastado. Alix porém conseguiu encontrar companheiras.
     Na Missa de Natal de 1597, Alix Le Clerc, Ganthe André, Isabel e Joana de Louvroir se consagraram publicamente a Deus. Quatro semanas depois, São Pedro Fourier convenceu-se de que elas eram chamadas a fundar uma comunidade sob sua direção.
     Uma solução inesperada: a quatro quilômetros de Mattaincourt havia uma abadia de canonisas seculares. Era uma comunidade de ricas e aristocráticas damas que levavam uma vida conventual. Uma dessas senhoras, Judith d'Aspremont, decidiu proteger Alix e suas três companheiras. Mas pouco tempo depois as damas do Capítulo, todas de boa nobreza, começaram a hostilizar o pequeno grupo. A Sra. d’Aspremont então deu-lhes para morar uma casa que ela adquirira em Mattaincourt. As jovens se instalaram ali na véspera de Corpus Christi de 1598.
     Ao terminar um retiro, declararam unanimemente a São Pedro Fourier que se sentiam chamadas a fundar uma nova congregação, já que esta era a vontade de Deus para elas. A finalidade do novo instituto era "ensinar as meninas a ler, a escrever e a costurar, mas sobretudo a amar e servir a Deus". A esta santa ocupação deviam se dedicar, sem distinguir entre pobres e ricos, e sem cobrar um centavo, "porque isto agrada mais a Deus".
     Em 1601, São Pedro Fourier e a Beata Alix fundaram uma segunda casa em Saint-Mihiel, seguida pelas de Nancy, Pont-à-Mousson, Saint-Nicolas-du-Port, Verdun e Chalons-sur-Marne. Esta última, estabelecida em 1613, foi a primeira fundação fora da Lorena.
     Alix e uma das companheiras foram enviadas por São Pedro a um convento das Ursulinas de Paris para que se documentassem sobre a vida monástica e os métodos de ensino. A beata fez numerosas viagens entre as diferentes comunidades que ela havia fundado, se dedicando exaustivamente em edificá-las, se aconselhando com outras obras já constituídas.
     Em 1616, duas bulas da Santa Sé concederam afinal a desejada aprovação da Congregação. Com base nisso, o Bispo de Toul aprovou as Constituições. Pela primeira vez treze religiosas vestiram o hábito que a Virgem revelara na visão a Alix, e iniciaram o ano de noviciado.
     Como as bulas papais somente mencionassem o convento de Nancy, a Beata Alix teve que renunciar ao cargo de superiora da Congregação a favor da Madre Ganthe André, “sem a qual, explica São Pedro Fourier, nossa congregação não teria podido ser fundada”, apesar de Madre André e de Alix não estarem de acordo sobre a organização.
     Além dessa provação, a beata atravessava um período de crise espiritual conhecido por “noite escura da alma”. Atualmente é reconhecido o título de cofundadora das Canonisas de Nossa Senhora, mas isto não acontecia durante sua vida e São Pedro Fourier era o primeiro a negar a ela este título, “para mantê-la em seu lugar”.
     Em 1621, a Beata obteve permissão para renunciar ao cargo de superiora local de Nancy, pois estava doente já algum tempo. Os médicos a declaram incurável, diagnóstico que desconsolou toda Nancy, desde o duque e a duquesa da Lorena até as alunas e os mendigos. Ela recebeu numerosas visitas, entre as quais personagens eminentes que vinham solicitar sua ajuda espiritual.
     São Pedro Fourier foi para Nancy e a ouviu em confissão e a preparou para a morte. Alix se despediu solenemente da comunidade no dia da Epifania, exortando suas religiosas ao amor e a união. “Eu me lembrarei de vós todas diante de Deus. De vossa parte, conservai-vos sempre na mais inteira união, usando da caridade umas com as outras, porque a caridade e a união são os meios para manter vossa Ordem”.
     O desfecho chegou no dia 9 de janeiro de 1622, depois de uma longa agonia. A Beata não havia feito 46 anos de idade. Durante três dias seu corpo permaneceu exposto, os guardas colocados à porta da igreja são obrigados a ceder lugar à multidão que quer se aproximar dela. A duquesa e os príncipes, bem como as damas da Corte, assistiram ao seu enterro.
     Por ordem do Bispo de Toul, Jean de Maillans de Porcelets, e contrariando seu pedido de ser enterrada no cemitério, seu corpo foi colocado em um caixão de jumbo sob o altar do coro das religiosas. Foi gravado sobre o túmulo: “Aqui repousa o corpo da B. Mère Alix Leclerc, fundadora e primeira religiosa da Congregação de Nossa Senhora, primeira superiora do mosteiro de Nancy, primeiro erigido pela mencionada Congregação”.
     Logo todos a aclamaram como santa e imediatamente se começou a recolher testemunhos para introdução de sua causa, mas a guerra impediu que o processo fosse adiante e ela somente foi beatificada em 1947.
     Em 1666, o convento de Nancy publicou uma vida da Beata Alix Le Clercq, que é na realidade uma coleção de documentos valiosos sobre a beata. O bispo de Saint-Dié introduziu, em 1885, a causa de beatificação, baseando-se em um exemplar dessa biografia, que havia caído em mãos do Conde Gandélet. A primeira biografia propriamente dita foi publicada em Nancy, em 1773; existe o manuscrito de outra, escrita em 1766; em 1858 veio à luz outra biografia, e a partir de então se multiplicaram os livros sobre a Beata.
     Há ainda a mencionar as vidas de São Pedro Fourier, escritas por Bedel (1645), Dom Vuillemin (1897), e o Pe. Rogie. O autor do prefácio da biografia inglesa da Beata Alix, fala dos excelentes métodos de educação empregados pelas canonisas. São Pedro Fourier ensinava pedagogia a suas religiosas.
     Muitos mosteiros têm seu nome na Bélgica, no Brasil, nos Países Baixos. Atualmente há filhas de Alix Le Clerc em 43 países. Em outubro de 2007, as relíquias da Beata foram solenemente transferidas para a Catedral de Nossa Senhora da Anunciação de Nancy.



Publicado pela 1ª vez em 9 de janeiro de 2013

domingo, 6 de janeiro de 2019

Santa Talulla ou Tuililatha de Kildare, Virgem e Abadessa – 6 de janeiro

   
Catedral de Sta. Brígida em Kildare, Irlanda
      6 de janeiro é o dia da festa de um grupo de três mulheres, conhecidas coletivamente como as "Filhas de Nadfrac". Acontece com frequência que nesses grupos de santas não temos os nomes individuais que o compõem, mas, neste caso, as fontes preservam as identidades de três mulheres santas distintas - Muadhnat, Tuililatha e Osnat -, mas todas elas são comemoradas no mesmo dia.
     As três irmãs estão associadas a fundações monásticas em diferentes partes da Irlanda. Canon O'Hanlon começa com Santa Muadhnat, mas quando nos deparamos com mais algumas pesquisas sobre esta santa, começarei com a irmã do meio, Santa Tuililatha (também conhecida como Tuilach e mais recentemente, Tuilclath), uma sucessora de Santa Brígida como abadessa de Kildare.
     No final de sua pequena obra, Canon O'Hanlon segue a autoridade do hagiólogo do século XVII, Padre John Colgan, ao nos dizer que ela floresceu por volta do ano 590, tendo ficado um pouco menos impressionado com o antiquário anglicano do século XVIII, Mervyn Archdall, autor da famosa pesquisa de casas religiosas irlandesas, Monasticon Hibernicum (1786).

Santa Tallulla ou Tuililatha, Virgem e Abadessa de Kildare, Condado de Kildare. [século VI]

      A esposa de Cristo deixa sua casa com seus confortos, suas alegrias e associações felizes, como o pássaro deixa a terra sob ele, subindo em direção aos céus, onde se sente exposto a menos perigo e goza de mais verdadeira liberdade.
     Uma irmã da santa virgem acima mencionada [i.e. Santa Muadhnat] foi Santa Tallulla ou Tulilach. Por Archdall ela é incorretamente chamada Falulla, e aparentemente sem autoridade ele atribui sua eleição de superiora de uma comunidade em 580 d.C.
     Tallulla, abadessa de Cill-Dara, ou Kildare, é mencionada nos Martirológios de Marianus O'Gorman e de Donegal, neste dia. O epíteto ‘virgem’, é afixado em uma menção quase similar no Martirológio de Tallagh no dia 6 de janeiro. Aqui ela é chamada Tuililatha.
     Não se pode determinar se ela precedeu ou sucedeu a Santa Comnat no governo de freiras em Kildare, pois só tomamos conhecimento de que a presente santa abadessa floresceu no ano de 590.

Fontes:
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Etimologia: Talulla, um nome irlandês que constitui uma forma anglicizada do Tuilelaith gaélico; este é composto de tuile (abundância) e flaith (princesa), e pode, portanto, ser interpretado como "princesa da abundância" ou "mulher frutífera".

Festa dos Santos Reis - 6 de janeiro

(continuação)


A estrela que os guiou 
     O referido manuscrito estava na Biblioteca Vaticana havia pelo menos 250 anos, mas não se sabe mais nada de sua proveniência.
     Está escrito em siríaco, língua falada pelos primeiros cristãos da Síria e ainda hoje, bem como do Iraque e do Irã.
     O Prof. Landau acredita que no apócrifo entra muita imaginação. Mas, há uma muito longa descrição das supostas práticas, culto e rituais dos Reis Magos.
     Feitos, pois, os devidos descontos no apócrifo, lemos nele que Set, terceiro filho de Adão, transmitiu uma profecia, talvez recebida de seu pai, de que uma estrela apareceria para sinalizar o nascimento de Deus encarnado num homem.
Prêmio a uma fidelidade de séculos
     Gerações de Magos teriam aguardado durante milênios até a estrela aparecer, confiantes no aviso de Set.
     Mistérios da fidelidade! Milênios aguardando, gerações morrendo na esperança e transmitindo aos filhos o anúncio de um dia remoto em que o mundo receberia o Salvador!
     Segundo o Prof. Landau, o apócrifo diz que a estrela no fim “transformou-se num pequeno ser luminoso de forma humana que foi Cristo, na gruta de Belém”.
     A afirmação não é procedente se a interpretarmos ao pé da letra. Mas, levando em conta o estilo altamente poético do Oriente, poderíamos supor que o brilho da estrela de Belém convergiu no Menino Jesus e desapareceu.
     E, de fato, depois de encontrar o Menino Deus, os Magos não mais viram a estrela. Alertados por um anjo, voltaram por outro caminho às suas terras, como ensina o Evangelho de São Mateus, que não mais menciona a estrela no retorno.
Anúncio dos profetas e juízo de Padres e Doutores da Igreja
     A festa da adoração dos Reis Magos ao Menino Jesus recebeu o nome de Epifania do Senhor. Epifania vem do grego: πιφάνεια que significa “aparição; fenômeno miraculoso”.
     A festa se comemora no dia 6 de janeiro, ou seja, doze dias após o Natal, ou 2 domingos após o Natal, dependendo do calendário litúrgico usado.
     “Andaram as gentes na tua luz e os reis no esplendor do teu nascimento”, profetizou Isaías (Is 60, 3).
     E São Tomás de Aquino explica: ‘Os Magos foram as primícias dos gentios que acreditaram em Cristo. E neles se manifestou, como um presságio, a fé e a devoção das gentes que vieram a Cristo das mais remotas regiões’.
     Santo Agostinho sublinha que eles procuraram com fé mais ardente Àquele que punham de manifesto o clarão da estrela e a autoridade das profecias.
     São João Crisóstomo completa dizendo: “porque buscavam um Rei celeste, embora nada descobrissem nele denotador da excelência real, contudo, contentes com o só testemunho da estrela, adoraram-no”.

Fonte:

Urna dos Reis Magos, Catedral de Colônia, Alemanha

Dado essencial: houve o fenômeno astronômico denominado “estrela de Belém”

     No post anterior referimos a tese do astrônomo Mark Thompson, da Royal Astronomical Society de Londres e apresentador científico da BBC, noticiada por "The Telegraph". Cabe ponderar que essa tese não é a única nos meios científicos.
     Há anos, Werner Keller, num livro muito divulgado e que é digno de uma atualização com as novas descobertas científicas (Werner Keller, “E a Bíblia tinha razão”) recolhe afirmações avalizadas de cientistas de fama universal.
     Pouco antes do Natal, no dia 17 de dezembro de 1603, o famoso matemático imperial e astrônomo da corte, Johannes Kepler, estava em Praga observando, com seu modesto telescópio, a “conjunção” de Saturno e Júpiter na constelação de Peixes.
     Kepler lembrou que segundo o rabino Abarbanel (1437-1508) para os astrólogos judeus o Messias viria por ocasião de uma conjunção de Saturno e Júpiter na constelação dos Peixes.
     Após muitos cálculos, Kepler decidiu-se pela ideia que aquela “conjunção” aconteceu no ano 6 a.C. Mas, a época de Kepler era a dos “filósofos das Luzes”, laicistas e agnósticos, que recusavam a priori tudo o que falasse em favor do cristianismo, e não prestou ouvidos à hipótese do cientista.
     Em 1925, o assiriólogo alemão Paul Schnabel decifrou as anotações cuneiformes da escola astrológica de Sippar, na Babilônia. Nelas encontrou uma nota sobre a conjunção de Júpiter e Saturno cuidadosamente registrada durante cinco meses no ano 7 antes do nascimento de Cristo!
     Para os caldeus, Peixes representava Ocidente e para a tradição judaica, simbolizava Israel e o Messias. Júpiter foi considerado por todos os povos e em todos os tempos a estrela da sorte e da realeza.
     Segundo a velha tradição judaica, Saturno deveria proteger Israel; Tácito comparava-o ao Deus dos judeus. A astrologia babilônia considerava o planeta dos anéis como astro especial das vizinhas Síria e Palestina.
     Uma aproximação esplendorosa de Júpiter com Saturno, protetor de Israel, na constelação do “Ocidente”, do Messias, significava o aparecimento de um rei poderoso no Ocidente, na terra de Israel. E esse foi o motivo da viagem dos magos do Oriente, conhecedores das estrelas! Assim como eles podiam prever os futuros eclipses do Sol e da Lua, souberam prever com exatidão a data da “conjunção” seguinte: o 3 de outubro, data da festa judaica da propiciação.
     Os magos devem ter entrado em Jerusalém em fins de novembro.
     “Onde está o rei dos judeus, que nasceu? Porque nós vimos a sua estrela no Oriente, e viemos adorá-lo. E, ouvindo isso, o Rei Herodes turbou-se, e toda a Jerusalém com ele” (Mateus 2.2, 3).
     Para os conhecedores dos astros do Oriente, essa devia ser a primeira e natural pergunta, e era lógico que produzisse espanto em Jerusalém.
     Herodes era um tirano odiado, fora posto no trono pelos romanos, não era propriamente judeu, e sim idumeu. O anúncio de um rei recém nascido fê-lo temer pela sua soberania.
     O historiador judeu Flávio Josefo informa que, por essa época, correu entre o povo o rumor de que um sinal divino anunciara o advento de um soberano judeu.
     Herodes consultou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo para indagar onde havia de nascer o Cristo. Estes encontraram no livro do profeta Miquéias:
     “E tu, Belém Efrata, tu és pequenina entre milhares de Judá; mas de ti é que me há de sair aquele que há de reinar em Israel...” (Miquéias 5.2).
     Ouvindo isso, Herodes mandou chamar os magos “e enviou-os a Belém” (Mateus 2.4 a 8).
     Como em 4 de dezembro Júpiter e Saturno se reuniram pela terceira vez na constelação de Peixes, eles “...ficaram possuídos de grandíssima alegria” e partiram para Belém, “e eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles” (Mateus 2.10 e 9).
     Na terceira conjunção, Júpiter e Saturno pareciam fundidos numa grande e rutilante estrela e, no crepúsculo do anoitecer, apareciam no sul, isto apontando o caminho de Jerusalém para Belém. Desta maneira, tinham a brilhante estrela sempre diante dos olhos, e, como diz o Evangelho, a estrela ia “adiante deles”.
     Afinal, temos vontade de perguntar: com o que foi a conjunção de Júpiter: com Saturno, como diz Kepler, ou com Regulus, como diz Thompson?
     A pergunta só poderá ser respondida em definitivo pelos cientistas.
     O mesmo pode se dizer sobre a relativa disparidade das datas. As avançadas hoje por Mark Thompson têm em seu favor a precisão de computadores que Kepler e os astrônomos da Babilônia não dispunham.
     Nós, como simples leigos, entretanto, tiramos uma certeza: é que segundo o que a ciência pôde apurar, uma grande conjunção de astros formou a famosa “estrela de Belém” que conduziu os três Reis até Belém como narra o Evangelho.
     A fé fica pois confortada pela ciência.
     Sobre se foi Saturno ou Regulus, e se os babilônios, Kepler ou os computadores acertaram melhor as datas, os cientistas algum dia se porão de acordo.
     Mas, qualquer que for a solução final, não mudará o fato histórico essencial: a estrela existiu bela e esplendorosa apontando para o local onde o Salvador do mundo haveria de nascer.

Fonte:

Adoração dos Magos, Museu do Vaticano
Sarcófago dos primórdios do Cristianismo