quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Beata Laura Vicuña, exemplo de amor filial - 22 de janeiro

     Laura del Carmen Vicuña nasceu no dia 5 de abril de 1891 em Santiago, Chile. Ela foi a primeira filha da família Pino Vicuña. Seus pais eram José Domingo Vicuña, um soldado com raízes aristocráticas, e Mercedes Pino. Seu pai estava no serviço militar e sua mãe trabalhava em casa.
     No final do século XIX a guerra civil eclodiu no Chile. Uma figura chave em uma das facções em guerra era Claudio Vicuña, parente de José Domingo. Claudio Vicuña não conseguiu se tornar presidente; seus inimigos começaram a perseguir a família Vicuña, o que os obrigou a fugir de sua terra natal.
     Em 1894, após o nascimento de sua segunda filha, Júlia Amanda, José Domingo faleceu, deixando sua esposa e filhas sem dinheiro e em grande perigo. Mercedes decidiu viajar para a Argentina para se esconder daqueles que queriam a sua família morta.
     Mercedes e suas filhas se mudaram para a província argentina de Neuquén. Em busca de uma forma de financiar a educação de suas filhas, ela conseguiu um emprego no albergue Quilquihué. Pressionada pelos assédios do patrão, Manuel Mora, Mercedes acabou aceitando uma união pecaminosa. E passou a viver com ele na fazenda Quilquihué. Ela se agarrou a ele como a uma tábua de salvação, mas ele se transformou no seu feroz tirano. "Manuel Mora, voltando da cadeia de Chos-Malal, onde estivera preso, e passando por Las Lajas, conheceu Mercedes Pino".
     Manuel Mora tem, na vida de Laura, embora de maneira indireta, importância decisiva. É preciso, pois, conhecê-lo. Pertencia a uma família abastada da Província de Buenos Aires, cidade de Azul; depois de ter estado no Forte General Roca, no Alto Rio Negro, foi para uma região sobre o rio Quilquihué, a uns vinte quilômetros de Junin de Los Andes. Organizou ali duas estâncias: uma chamada Quilquihué, a outra Mercedes, para criação de gado.
     Algumas testemunhas limitam-se a chamá-lo: "Um sujeito mau", "um homem que por um nada puxava o facão e a pistola", "indivíduo perverso, prepotente e grosseiro", etc. As irmãs salesianas de Junin, tinham-no como: "Rico proprietário de gado, pouco instruído e sem religião". Foi justamente nas mãos desse indivíduo, como entre as garras de um condor, que caíram tristemente Mercedes Pino e suas filhas.
     O relacionamento de Mercedes com este homem influenciava negativamente na educação das duas meninas. Embora Laura fosse ainda pequena, percebia a precariedade religiosa da mãe, já que esta não era admitida aos Sacramentos devido a sua vida irregular.
     Mercedes Pino matriculou as filhas no Colégio de Maria Auxiliadora em Junin de Los Andes no início de 1900, sendo diretora, Irmã Ângela Piai.
     A 1º de abril, Segunda-feira Santa, abriu-se o ano escolar de 1900. A crônica, reduzida como a do ano anterior, assinala a presença de 14 alunas internas e 19 externas: 33 ao todo: "Meninas da roça, pobrezinhas, humildes, de casca dura e deselegantes... que mais facilmente empunham as rédeas do cavalo que a pena ou a agulha... selvagens caipirinhas que é preciso domesticar" (Crônicas).
     Em 1900, Laura foi classificada entre as alunas de segunda ou terceira elementar; Júlia Amanda entre as pequeninas da primeira. Concluiu também com sucesso, os anos de 1901 e 1902, sendo que neste mesmo ano, ela recebeu o sacramento da Crisma, conferido por Dom Juan Cagliero, filho predileto de São João Bosco. Dom Cagliero morreu em Roma em 1926, seu corpo descansa na catedral de Viedma - Argentina.
     A Irmã Azócar já então conhecia as duas irmãs, e mostrava apreciar Laura pela boa vontade que a animava e a tornava apontada entre as mais solícitas e caprichosas no cumprimento dos múltiplos deveres da vida colegial e também da vida espiritual.
     Laura Vicuña amava ardorosamente a Jesus Sacramentado e Maria Santíssima, rezava com fervor e se sacrificava pela conversão do próximo; era dócil e obediente às Irmãs do Colégio, ao ponto de, por obediência, plantar um galho seco de roseira, e a mesma brotou e permanece até hoje. Laura amava todas as religiosas, mas tinha por modelo a Irmã Ana Maria a quem imitava nas virtudes.
     Com o passar do tempo, Laura descobriu que a sua mãe vivia em pecado, morando com o fazendeiro Manuel Mora: "A primeira vez que expliquei o sacramento do matrimônio, Laura desmaiou, certamente porque pelas minhas palavras percebeu que a mãe vivia em estado de culpa..." (Irmã Azócar).
     Laura sentia pavor em passar as férias na Estância Quilquihué (lugar dos falcões), justamente porque devia enfrentar o monstro Manuel Mora que não a deixava em paz, o mesmo tentou violentá-la por várias vezes.
     Ela amava a sua mãe com terníssimo afeto; desejava revê-la e estar perto dela. Ansiava pelo ar puro do campo; e bem que gostava de se entreter mais tempo com Júlia e com qualquer outra menina, para lhes ensinar o que sabia. Mas o pensamento e a só figura de Manuel Mora enchiam-na de horror e de pavor.
     O único recurso e inabalável sustentáculo de Laura era a oração, que tanto lhe tinham inculcado em Junin e que a fazia reviver no isolamento espiritual das férias, as doces e inesquecíveis horas do colégio.
Foto das meninas contemporâneas
de Laura
     Laura fez sua Primeira Comunhão em 2 de junho de 1901. Naquele dia ela escreveu alguns propósitos muito similares aqueles do Santo aluno de Dom Bosco, Domingos Sávio:
     “Meu Deus, quero amar-Vos e servir-Vos por toda a vida; por isso Vos dou a minha alma, o meu coração, todo o meu ser. Antes quero morrer que ofender-Vos com o pecado; por isso desejo mortificar-me em tudo aquilo que me afastaria de Vós. Proponho fazer tudo o que sei e posso para que Vós sejais conhecido e amado, e para reparar as ofensas que todos os dias recebeis dos homens, especialmente das pessoas da minha família. Meu Deus, dai-me uma vida de amor, de mortificação, de sacrifício”.
     Ela tinha uma boa amiga, Mercedes Vera, a quem ela expressava seus sentimentos mais profundos, como o seu desejo de se tornar freira. Mesmo muito jovem, Laura era madura o suficiente para entender os problemas de sua mãe, que incluía o distanciamento de Deus. Isso levou-a a rezar todos os dias para a salvação de sua mãe, e para ajudá-la a deixar Manuel.
     Durante uma de suas férias escolares, Manuel Mora bateu duas vezes em Laura, porque não queria que ela se tornasse freira. Ele tratava Laura com excessivo interesse. Durante uma festa a convida para dançar e ao ser rechaçado a arrasta para fora de casa e ela tem que dormir ao relento. Mora reage cruelmente e decide não pagar a anuidade do colégio. Mas ela permaneceu firme no seu desejo de se tornar freira. Quando as freiras de sua escola souberam do conflito, deram-lhe uma bolsa de estudos. Embora ela fosse grata a suas professoras, ela ainda ficava preocupada com a situação de sua mãe.
     Um dia, lembrando-se da frase de Jesus: "Não há ninguém maior do que aquele que dá a vida por seus irmãos", Laura decidiu dar sua vida em troca da salvação de sua mãe. Algum tempo depois ela ficou gravemente doente com tuberculose pulmonar.
     Em setembro de 1903 ela não consegue sequer tomar parte nos exercícios espirituais, tão fraca tinha se tornado a sua saúde. Tentou-se uma mudança de clima, indo para a casa da mãe. Laura partiu para Quilquihué a 15 de setembro de 1903: "Como sempre, trazia um traje simples, mas elegante para nosso pequeno mundo" (Irmã Ângela Piai), e: "Laura, naquele dia, usava um vestido roxo, modesto, mas bonito" (Irmã Rosa Azócar).
     A chegada à fazenda não podia ser alegre. Dois anos atrás tinha a menina partido de Quilquihué com ótima saúde; voltava desfeita, como arbusto que a tormenta vergou. Manuel Mora a recebeu com desprezo, não era homem para se comover com o sofrimento alheio: muito menos com o de Laura que o enfrentara, humilhando-o repetidamente nos seus insensatos intentos.
     A estada em Quilquihué em vez de lhe infundir energias, lhe renovava e aumentava as amarguras do coração. Sentia falta da Santa Missa, das amiguinhas, dos conselhos do confessor etc.
     Mercedes Pino, vendo a saúde de Laura piorar, aluga um ranchinho, de palha e barro, próximo ao Colégio: "A mãe levou de novo Laura para Junin a fim de poder ser mais atendida" (Irmã Marieta Rodrigues, enfermeira).
     No alvorecer de 1904, as forças de Laura pareciam ter chegado ao fim, a moléstia fatal que a corroía tinha terminado o seu trabalho: não restavam senão as últimas e débeis esperanças para derrocar: "Devorada por uma febre que não a deixava, Laura saía ainda, vez por outra, amparada pela mãe, mas somente nas horas frescas do dia, para respirar um pouco de ar. Caminhando devagar, rosto magro e afilado, a enferma causava dó quem parasse para vê-la" (Pe. Augusto Crestanello).
A mãe de Laura, sua irmã (de pé),
os filhos de Júlia Amanda
     Em janeiro de 1904, Mora chegou de visita, com o propósito de permanecer na mesma habitação naquela noite. “Se ele ficar aqui, eu vou para o colégio das irmãs”, ameaçou Laura escandalizada. E assim faz, embora perturbada pela doença. Mora a perseguiu e alcançou, a espancou violentamente, deixando-a traumatizada. Chegando ao colégio ela se confessa com seu diretor espiritual, renovando o oferecimento da própria vida pela conversão da mãe.
     Laura piorava a cada dia, recebeu uma procissão contínua de companheiras, conhecidas e amigas, que chegavam com admiração para visitá-la.
     No dia 22 de janeiro de 1904, que devia ser o último dia da sua vida terrena, a "... pobrezinha, reduzida a pele e osso, pôde receber a Santíssima Eucaristia como Viático".
     À tarde do mesmo dia, Laura Vicuña chama a mãe e lhe diz: "Mãe, vou morrer! Fui eu mesma que o pedi à Jesus; há dois anos ofereci minha vida a Deus em sacrifício para obter que não vivas mais em união livre. Você deve separar-se deste homem e viver santamente. Antes de morrer terei a alegria de seu arrependimento e seu pedido de perdão a Deus e que comeces a viver santamente?", a mãe, entre lágrimas, lhe diz: "Sim, minha filha, amanhã cedo vou à igreja com Amandinha e me confesso".
     A exausta menina beijou repetidas vezes o crucifixo que tinha nas mãos. Olhou para a fita azul que entretecia a inicial do nome de Maria e disse baixinho: "Obrigada, Jesus! Obrigada, Maria! Agora morro contente", serenamente expirou: "Laura morreu falando" (Júlia Cifuentes). Foi às 16 horas, sexta-feira, 22 de janeiro de 1904. O Pe. Crestanello escreve que Laura morreu às 18:00 horas: "Eram seis da tarde, e Laura não existia mais"(Vida, p. 88-90). Faltavam 2 meses e poucos dias para Laura completar 13 anos.
     Por ocasião dos funerais, Mercedes se confessou e comungou junto com Júlia Amanda. A mãe teve que mudar de nome e se disfarçar para sair da região, porque Manuel Mora a perseguia. Mercedes a partir de então levou uma vida santa.
     De 1937 a 1958, os despojos de Laura estavam no cemitério Nequén, após o que foram transferidos para Bahía Blanca.
     As Irmãs Salesianas de Dom Bosco começaram o processo de canonização de Laura em 1950. A Congregação elegeu para o trabalho a Irmã Cecilia Genghini, que passou muitos anos na coleta de informações sobre a vida de Laura. Mas ela não viu a conclusão de seu trabalho: ela morreu no mesmo ano em que o processo começou. Em 1981, o processo foi concluído pela Congregação, e em 5 de junho de 1986 ela foi declarada Venerável.
     Em 3 de setembro de 1988 Laura foi beatificada pelo Papa João Paulo II. Sua festa é celebrada em 22 de janeiro. Ela é padroeira das vítimas de abuso.

Etimologia: Laura = Aquela que triunfa, é de origem latina.

https://www.corazones.org/liturgia/santos/laura_vicuna.htm

Postado neste blog em 22 de janeiro de 2013

sábado, 18 de janeiro de 2020

Venerável Emanuela Maria Magdalena Kalb, Virgem, Religiosa – 18 de janeiro

A infância, a educação e a conversão
     Irmã Emanuela Maria Magdalena (Chaje) Kalb nasceu em 26 de agosto de 1899 em Jarosław próximo a Przemyśl, na região sudeste da Polônia (Galícia Oriental), sujeita então à dominação austríaca, em uma família hebreia, de muita fé, filha de Schie (Osias) Kalb e Jütte (Ida) Friedwald. Logo após seu nascimento, a família Kalb mudou-se para Rzeszów, cerca de 60 km de Jarosław. Chaje (seu nome na versão polonesa: Helena) foi a primogênita de seis filhos.
     Seus pais eram de confissão hebraica. O pai era comerciante, a mãe era dona de casa e, naturalmente, a ela cabia em grande parte a educação dos filhos. Chaje e os seus irmãos tiveram uma atenta educação na religião de seus pais. A mãe, à noite, frequentemente lia as Sagradas Escrituras (para os judeus há somente a Torá/Lei, os Profetas, os Salmos e os Livros Sapienciais) a seus filhos e lhes contava sobre a vinda do Messias esperado.
     Desde o início, foi instilado no coração de Chaje um imenso desejo de encontrar a Verdade, de conhecê-La, de amá-La e, ao mesmo tempo, o amor do próximo, a sensibilidade às suas necessidades e a preocupação pelo bem dos outros.
     Ao longo do tempo, a família sofreu provas muito dolorosas: o pai, antes da guerra mundial de 1914, partiu para a América em busca de trabalho (Chaje não o encontrou mais) e morreu ali nos anos 20. Em 1916, sua mãe, que durante a epidemia de tifo tinha cuidado dos enfermos foi contagiada, faleceu. Esta morte feriu profundamente o coração dos filhos e influiu decisivamente sobre os acontecimentos de sua vida no futuro. Os mais velhos, desde então, tiveram que ganhar seu sustento cotidiano. O cuidado dos menores (Natan e Raquel) coube aos parentes, que depois de um breve período decidiram entregá-los a um orfanato mantido por hebreus.
     Entre os anos 1905-1915, Chaje recebeu a instrução básica nas escolas elementares públicas em Rzeszów e continuou sua educação no ginásio do local.
     Depois da morte de sua mãe, aos dezessete anos, adoeceu e em um hospital encontrou umas religiosas.  Fascinada por sua atitude de serviço desinteressado ao próximo, começou a se relacionar com elas. Durante os colóquios conheceu melhor a figura de Cristo e acreditou firmemente que Ele era o Messias prometido.
     Não se importando com as dificuldades postas da parte da família, decidiu converter-se ao Catolicismo e, de fato, em 18 de janeiro de 1919 recebeu o Santo Batismo na Basílica Catedral de Przemyśl, assumindo o nome de Maria Madalena. Esta escolha na sua vida foi acompanhada não somente pelo abandono da própria família, mas também pelo seu assíduo empenho de levar a Cristo seus irmãos menores que permaneciam no orfanato: Natan e Raquel.
     Em outubro de 1919, com eles chegou a Miejsce Piastowe. Ficou em uma comunidade nascente que trabalhava no internato do Instituto “Trabalho e Temperança” (em 1928 foi aprovado como Congregação de São Miguel Arcanjo) e permaneceu ali por alguns anos. Seguindo seu conselho, os irmãos menores também decidiram se converter ao Catolicismo e receberam, em 1921, o Batismo na Igreja Católica.
     Maria Madalena completou a sua instrução no Instituto Estatal de Magistério de Krosno, e, em 1923, passou no exame que lhe dava o direito de ensinar nas escolas públicas. Em 1925, desejando uma vida de clausura, deixou Miejsce Piastowe.
     Na memória, seja das Irmãs de São Miguel Arcanjo como também na dos cidadãos de Miejsce Piastowe, deixou um testemunho inesquecível de fidelidade nos cumprimentos dos deveres cotidianos, sejam aqueles da construção da futura casa generalícia da Congregação religiosa, sejam aqueles do ensinamento na escola, como também sua atitude de oração, de recolhimento e de bondade para com todos que lhe eram próximos.
A vida e a atividade na Congregação das Irmãs Cônegas do Espírito Santo.
     Após ter deixado Miejsce Piastowe e depois de um breve período vivido em Łomna, próximo a Turla (agora Ucrânia), onde ajudou no Instituto mantido pelas Irmãs Franciscanas da Família de Maria, seguindo um profundo desejo de dar-se ao Senhor na vida religiosa, Maria Madalena ingressou, em 1927, na Congregação das Irmãs Cônegas do Espírito Santo, em Cracóvia. Admitida ao noviciado em agosto de 1928, recebeu o nome de Irmã Emanuela. Depois do noviciado de dois anos, em 1930, fez a primeira profissão religiosa e, em seguida, em 1933, a perpétua.
     Na Congregação, trabalhou como professora nas Escolas Elementares e nos Jardins de Infância mantidos pelas irmãs. Sente-se responsável não somente por transmitir às crianças as noções fundamentais definidas no programa, mas, também, por sua educação religiosa, seu crescer no amor de Deus.
     Gozando de plena confiança dos superiores, ocupou diversos postos de responsabilidade no seio da própria congregação: foi por duas vezes mestra de noviças, algumas vezes desempenhou o encargo de superiora local, assim como de vigária em diversas casas.
     De 1957 até o fim de sua vida, viveu na comunidade de Cracóvia, edificando as irmãs com seu dar-se totalmente a Deus, com sua fidelidade nos deveres de cada dia na vida religiosa, com a sua oração, simplicidade, disponibilidade e amor ao próximo. Não deixou nunca de se dedicar àqueles que tinham necessidade dela.
     Morreu na sua cela no convento de Cracóvia, cercada pelas Irmãs em oração, em 18 de janeiro de 1986, aos 87 anos.
Notas sobre a vida espiritual da Serva de Deus
     Levava uma vida interior muito profunda. O confirmam os apontamentos escritos por ela todos os anos, desde seu ingresso na Congregação até os últimos anos de sua vida, enquanto fazia os exercícios espirituais. Além disto, por ordem do confessor e dos superiores, escreveu o Diário. Nesse apresentou o seu caminho à fé católica, anotou algumas experiências interiores, as graças da oração e a experiência da união muito íntima com Cristo.
     Sua nota distintiva é a sua solicitude pela salvação dos outros. Escreveu no Diário: “Vivo a união ao Crucificado. Gerar, no sofrimento, as almas! Sobre a terra, além disso, não desejo um amor diverso”.
     Em espírito de reparação e de sacrifício se ofereceu totalmente a Deus. Fez atos de oferta pela conversão de Israel: “para que conheça a Luz da Verdade, que é Cristo”. Durante a II Guerra mundial, preparou hebreus para o Batismo na Igreja Católica colocando em risco a própria vida.
     Sentia também um chamado particular de Cristo para rezar pelos sacerdotes, e, de modo particular, por aqueles que viviam uma crise de fidelidade, sobretudo no período depois do Concílio Vaticano II. Com essas intenções suportou as dores, as provas de fé, os sofrimentos físicos (40 anos com a perda de audição). Dedicava-se à oração, fazia penitência, aceitava penitência no lugar dos outros, para salvar aqueles que estavam em perigo de pecar.
     A sua profunda humildade, o reconhecimento da própria nulidade, a doação a Deus e a união íntima com Cristo Salvador, a introduziram em uma profunda compreensão do Mistério do Sacrifício Eucarístico, por ela revivido interiormente. Escreve no seu Diário: “Deus meu, que coisa significa as mais sublimes graças da oração, diante de uma só Comunhão Eucarística! Aqui há tal união, o nosso ser é tão absorvido por Deus, que nos tornamos um com Ele, inseparavelmente”.
     Ela assistia a Santa Missa com extraordinário recolhimento e, quando era possível, mais vezes durante um mesmo dia.  Passava horas inteiras em adoração diante do Santíssimo Sacramento. Unida ao Crucificado, vive o seu amor a Ele no caminho da fidelidade, pedindo: “Jesus, escutai-me, porque desejo com toda a alma ser uma santa heroica; amar-Te com o Teu próprio amor. Dá-me a graça para fazê-lo e toma-me como oferta pela conversão das almas”.
Dos escritos da Irmã Emanuela Kalb
     A verdade fundamental de que devemos ter consciência é aquela de que somos guiados pelo amor. O amor nos acompanha e nutre propósitos cheios de bondade em relação a nós. Devemos submeter-nos com docilidade e com total confiança (Notas, 10).
     Como posso exprimir aquele esplendor que às vezes Tu me concedes experimentar. É um mistério que se pode viver, mas exprimi-lo com palavras me é impossível. Fascina-me aquilo que em Ti é indescritível; Adoro-te porque És Aquele que É. (Diário, 1933).
     Aqui, é preciso tornar-se Jesus Crucificado. O Pai Celeste nos reconhece como seus filhos, quando ele vê, reconhece em nós, Jesus Crucificado, o próprio Filho morto na Cruz, que diz: “Tudo está consumado!” (Jo 19,30). (Diário 1982).
     Senhor meu, se me manténs junto a Ti, completamente em Ti, poderei pedir-Te tudo, em particular, quando Te peço constantemente, fortemente pelos sacerdotes que te abandonaram, para que retornem (Diário 1983).
     É graça maior poder sofrer com Jesus no silêncio total, do que receber os mais altos dons místicos. Eis porque nos são dadas as graças da oração: afim que sejamos capazes de sofrer junto a Ele, por Ele e pelo bem das almas. Deus realiza a Sua obra maior sobre a Cruz… (Exercícios espirituais, 1969).
     Ser santa não significa realizar milagres. Consiste somente em amar a Jesus com todo o coração. Deus quis que tudo o que acontece, todas as criaturas, tudo possa me ajudar a louvá-Lo e a sustentar-me para alcançar a santidade. – “Te amo, meu Deus. Transforma-me à Tua semelhança. Purifica-me do meu amor próprio. Toma posse da minha mente, da vontade e todas as potências. Viva em mim Tu somente”. (Exercícios Espirituais, 1932)
     A santidade consiste na fadiga de sacrificar a vida inteira. Não desanimes. Quem não desanima, mas segue o caminho com perseverança, estes realizarão grandes coisas. É preciso tender firmemente a Deus. (Exercícios Espirituais, 1938)
     Dizia ao Senhor: “Oh Senhor, me cansa tanto viver, desejo voltar já para Ti”.
     – Sabes quantas almas se podem salvar por meio da oração e dos sacrifícios? Não queres me ajudar na salvação das almas?
     Deus meu, eu quero, quero viver mesmo até o fim dos tempos, para poder conquistar-Te as almas, que Tu amas tanto assim. (Notas, 2º)
     Que coisa podemos dar ao Senhor? É Ele mesmo a nossa propriedade. Portanto, também o seu Sangue derramado pela salvação do mundo nos pertence. No amor tudo se torna comum. Portanto, à imensidade do seu Amor, uno uma migalha do meu eu. Assim, será um grande dom e se poderá obter muito. (Carta a Josefina, 1981).
     Esforçar-se para que todos compreendam que Deus é Amor e que de Seu Amor brota a Misericórdia. Podemos obter tantas graças de Deus se somente soubermos unir o nosso ’nada’ à Oferta de Jesus; em particular, se o fazemos durante a Santa Missa, em que Ele se oferece ao Pai por nossa salvação.  Está aqui a certeza, e nosso tesouro maior, de onde conseguiremos [a graça]. Certo, as nossas obras de penitência, é preciso uni-las aos sofrimentos do Salvador e assim elas alcançaram um grande valor.  É importante, e o deverias saber: as nossas obras têm valor somente enquanto unidas a Ele. (Carta a Josefina, 1981)
     De verdade vale à pena sofrer, vale à pena oferecer a própria vida por uma causa maior que a própria vida e que merece, portanto, gastar por essa todas as forças. (Diário, 1946).

Fonte: Site polonês das Cônegas do Espírito Santo: http://www.kanoniczki.pl/
 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Santa Mildgita (Mildgyth ou Mildgyð), Princesa e Abadessa – 17 de janeiro

    
     Mildgita era uma princesa e abadessa que viveu no século VII. Era a filha mais nova de Merewald, o rei dos Magonsete, que governava um sub-reino do reino anglo-saxão de Mércia e de Santa Ermenburga (também chamada Domne Eafe).
     Santa Mildgita e suas irmãs Santa Mildburga e Santa Mildred, que pertenciam à dinastia do rei São Etelberto de Kent, são mencionadas na coleção medieval de textos, chamada "Kentish Royal Legend" e conhecida como "Royal Legend of Kent".
     No texto, as três irmãs foram associadas às três virtudes teológicas: Mildgita à esperança, Mildburga à fé e Mildred à caridade.
     Sabemos que Mildgita, pouco mais que uma adolescente, tornou-se freira beneditina recebendo o véu de sua mãe em Minster, na ilha de Thanet, e depois se tornou abadessa em um convento do Reino da Nortúmbria, no norte da Inglaterra, onde morreu muito jovem. E, precisamente por causa de sua morte prematura em 676, sabemos muito pouco sobre sua vida no mosteiro.
     A tradição declarou que Mildgita era uma monja cujos "poderes milagrosos frequentemente se manifestavam em seu túmulo" no Reino da Nortúmbria.
     Santa Mildgita é comemorada no dia 17 de janeiro

* * *
      
     Uma cópia da 'The Translation of St Mildgyth' faz parte de um manuscrito que foi usado para leitura durante as orações diárias (ofício divino) dos monges em Santo Agostinho, Cantuária. Santa Mildgyth, que morreu em 676, era importante na Cantuária, porque em 1085 o Arcebispo Lanfranc transladou suas relíquias para o hospital de São Gregório. Embora os detalhes de sua vida sejam nebulosos, ela era filha de Ermenburga de Kent e de Merewald, e tornou-se a abadessa de um mosteiro, frequentemente considerado o Mosteiro de Eastry, Ilha de Thanet. Suas irmãs eram Milburga e Mildred.
     No século IX, quando da invasão dos dinamarqueses, suas relíquias foram transferidas para Lyming, onde permaneceram até 1085. As relíquias de santos anglo-saxões como Mildgytha ofereceram a oportunidade de os bispos e arcebispos normandos de se conectarem com a história da igreja inglesa.
     Ler em voz alta a sua história teria sido um elemento importante na comemoração do mosteiro. A primeira página fornece o título em pequenas letras vermelhas na parte superior da primeira coluna. Depois de uma bênção para o mosteiro, a história segue, dividida em seções curtas, cada uma começando com uma grande letra colorida. As seções são numeradas consecutivamente, presumivelmente para dividir a história para leitura diária.

Etimologia: Mildgita deriva do nome do alto alemão antigo “Mildgyth”, composto de dois elementos: do protogermânico “mildijaz” (suave, suave, terno, gentil, gentil, misericordioso, generoso, manso) e do germânico antigo “guntho/gunþiz" (batalha, luta, ato de matar, golpe, golpe).

https://it.wikipedia.org/wiki/Mildgita

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Venerável Ana de Guigné - 14 de janeiro

A Venerável algumas semanas antes de seu falecimento
Uma tão grande alma para uma tão pequena menina

     Em 1915, um ano após o início da primeira guerra mundial, enquanto os combates se atolam nas trincheiras, todas as famílias de França sabem que uma visita de oficiais do estado civil num lar significa o anúncio de uma morte na frente de batalha. Assim, quando a 29 de julho de 1915, a Senhora de Guigné vê o presidente da câmara de Annecy-le-Vieux chegar à porta da sua residência, ela percebe que o seu marido, ferido já em três ocasiões, não regressará mais.
     “Ana, se me queres consolar, tens de ser boazinha”, diz a mãe à sua filha de tão somente quatro anos de idade, a mais velha dos seus quatro filhos. A partir desse momento, a criança até aí voluntariosamente desobediente, orgulhosa e invejosa, vai realizar, com tenacidade e continuidade, um combate de cada instante a fim de se tornar boa, o combate da sua transformação interior que ela vencerá graças à sua vontade, obviamente, mas sobretudo – e é ela a dizê-lo – através da oração e de sacrifícios que ela se impõe.
     Veem-na ficar vermelha, serrando os seus pequenos punhos para controlar o seu forte caráter perante as contrariedades que enfrenta; depois, pouco a pouco, as crises diminuem até ao ponto dos seus familiares e conhecidos ficarem com a impressão que tudo se lhe tornou agradável. O amor pela sua mãe que ela quer consolar vai assim tornar-se o seu caminho para o seu Deus.
     Este caminho encontra-se balizado pelas numerosas reflexões de Ana que nos revelam a intensidade da sua vida espiritual e pelos numerosos testemunhos dos seus próximos que recordam os esforços contínuos que ela fazia para progredir na sua conversão. Para Ana de Guigné, o farol que ilumina o seu caminho de conversão é a sua primeira comunhão à qual aspira com todo o seu ser e toda a sua alma e que ela prepara com alegria. Chegado o momento, a sua tenra idade necessitando uma licença especial, o bispo impõe-lhe um exame que ela ultrapassará com uma facilidade desconcertante. “Desejo que estejamos sempre ao nível de instrução religiosa desta criança”, dirá o seu examinador.
     A continuação da sua curta vida traduz a paz de uma grande felicidade íntima alimentada pelo amor ao seu Deus que se aplica, à medida que cresce, a um círculo de pessoa cada vez mais vasto: seus parentes e familiares, pessoas com quem vai contatando, os doentes, os pobres, os não crentes.
     Ela vive, reza, sofre pelos outros. Atingida precocemente pelo reumatismo, ela sabe o que é o sofrimento e corresponde-lhe com uma oferta: “Jesus, eu vo-lo ofereço”, ou ainda “Ó, eu não sofro; aprendo a sofrer!”
Inocência: Ana aos 9 anos
     Mas em dezembro de 1921, é afetada por uma doença cerebral – sem dúvida uma meningite – que a força a permanecer acamada. Ela repete incessantemente: “Meu Deus, eu quero tudo o que quiserdes”, e acrescenta sistematicamente às orações que são feitas pelas suas melhoras: “e curai também todos os outros doentes”.
     Ana de Guigné morre na madrugada de 14 de janeiro de 1922 após este último diálogo com a religiosa que vela por ela: “Irmã, posso ir com os anjos?” - “Sim, minha bela pequena menina”. - “Obrigada, Irmã! Ó obrigada!”.
     Esta menina é uma “santa”, tal é então o veredito geral. Os testemunhos abundam, artigos são publicados e o Bispo de Annecy inicia em 1932 o processo de beatificação. Mas então a Igreja não tinha tido ainda a necessidade de ajuizar sobre a santidade de uma criança que não fosse mártir. Os estudos conduzidos em Roma sobre a possibilidade da heroicidade das virtudes da infância foram concluídos positivamente em 1981 e a 3 de março de 1990 o decreto reconhecendo a heroicidade das virtudes de Ana de Guigné e declarando-a “venerável” era assinado pelo papa João Paulo II. 

Notas escritas e bilhetes
     “Meu pequeno Jesus, eu vos amo e para vos agradar tomo a resolução de obedecer sempre.” (Bilhete deixado sobre o altar quando da sua primeira comunhão)
     “O pequeno Jesus parece-me que me respondeu no meu coração. Eu dizia-Lhe que queria ser muito obediente e pareceu-me ouvir: sim, sê-o.” (bilhete à mãe 1917)
     “Eu quero que o meu coração seja puro como um lírio”.
     “Quero que Jesus viva e cresça em mim. Que meios tomar para isso?” (Notas de retiro 1920)
     “Bem podemos sofrer por Jesus pois Jesus sofreu por nós”.

     Numa imagem do Calvário que ela tinha feito, Ana escreve: “De pé diante da Cruz sobre a qual o seu Filho estava suspenso, a Mãe das dores chorava com resignação. Dai-me a graça de chorar convosco”. Ela acrescentava: “Porque Jesus não é suficientemente amado”.
     Emprestai-m’O, Oh Maria minha boa Mãe
     Emprestai-me o vosso filho, apenas um segundo,
     Colocai-o nos meus humildes braços.
     Permiti-me, Maria
     De beijar os pés do vosso querido Filho
     Que me deu tantas graças.
     Como eu desejo, ó Maria
     Receber nos meus braços o vosso Filho,
     Dai-m’O, dai-m’O!
     Que feliz eu sou agora
     Pois tenho-O comigo!
(Canto composto por Ana para a comunhão)
Primeira Comunhão antes dos 6 anos completos
     À sua mãe que lhe pergunta por que razão deixou de usar o seu missal, ela responde: “Porque sei de cor as suas orações e distraio-me facilmente ao lê-lo. Pelo contrário, quando falo ao pequeno Jesus nunca me distraio. É como quando falamos com alguém, Mãezinha, sabemos muito bem o que dizemos”. (dezembro de 1919)

Alguns de seus "bilhetes"
Fonte: http://www.annedeguigne.fr/

Postado neste blog em 14 de janeiro de 2015

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Santa Liberata, Virgem e mártir - 11 de janeiro

    
     A antiga Balchagian, hoje Bayona (Baiona), bela região da costa galega, era sede de Lucio Catelo, régulo da Galícia e Portugal. Sua esposa se chamava Calcia e ambos eram idó­latras e inimigos dos cristãos.
     Calcia teve em um só parto nove filhas, e pensando que este fato extraordinário poderia despertar suspeitas de seu esposo, e já que ele estava ausente, em segredo mandou que as nove meninas fossem lançadas no Rio de Ramallosa, distante dois quilômetros de Bayona.
     A parteira tomou as recém-nascidas e dirigiu-se para o local onde deveria cumprir a ordem de sua ama; entretanto, na metade do caminho, movida de compaixão por aquelas infelizes criaturas, pensou em salvá-las e, mudando de rumo, se dirigiu a um povoado próximo. Ali deixou as meninas aos cuidados de umas mulheres cristãs que se encarregaram de cria-las. Elas foram batizadas, educadas na fé cristã e no temor de Deus, e as nove irmãs ofereceram sua virgindade ao Senhor.
     No século II uma funesta perseguição ameaçava os cristãos estendendo-se até Balchagiarn. Os idólatras denunciaram as santas virgens que foram detidas e levadas à presença de Catelo. Este as ameaçou com o suplício se continuassem no cristianismo, mas elas não vacilaram diante de suas ameaças e responderam com firmeza que preferiam mil vezes a morte a abandonar a fé de Cristo.
     Impressionado com a fortaleza das meninas e notando serem elas parecidas com sua esposa, Catelo perguntou sua origem, e chamando Calcia, esta as reconheceu como suas filhas. Catelo então se viu diante de uma luta interna entre o amor de pai e a autoridade de juiz; tinha o maior empenho em convencê-las e suplicou com todo carinho que sacrificassem aos deuses. Calcia também tentou, entre lágrimas, persuadi-las, mas nada conseguiram. O pai enfurecido renovou as ameaças, concedendo-lhes um dia de prazo para decidirem-se a adorar os ídolos ou a morrer.
     As nove irmãs decidiram evitar o crime de seu próprio pai e fugiram da cidade cada uma por um caminho diferente. Catelo mandou persegui-las e oito delas foram martirizadas em diferentes locais. Liberata se retirou em um ermo e ali se entregou à oração e à penitência, alimentando-se de raízes e ervas, macerando seu corpo com todo tipo de rigor. Entretanto, como suas irmãs, foi descoberta pelos gentios que, atraídos por sua beleza, a instigaram ao pecado carnal, sendo sempre rechaçados por ela.
     Após ser capturada, a obrigaram a adorar aos deuses, saindo triunfante também desta prova. Para intimidá-la, mencionaram o martírio de suas oito irmãs, o que a levou a amar ainda mais a Deus e com alegria se entregou a seus verdugos. Foi submetida a vários tormentos e por último crucificada em Castraleuca, Lusitânia, no ano 139.
     Seu corpo existia na Catedral de Siguenza e alguns dos ossos de sua cabeça constavam em um sumário da Câmara Santa de Oviedo.
Culto e relíquias
     Ocorreram muitas confusões com o culto de Santa Liberata. Em 1568, com a reforma de Trento e a revisão dos cultos e breviários locais, o ofício próprio de Santa Liberata foi suprimido junto com todo o breviário de Siguenza, por conter muitos dados apócrifos de vários santos, não apenas de Liberata. Embora o culto à santa não tivesse sido suprimido, começou-se a rezar o ofício comum de virgens mártires.
     Em 1585 foram iniciadas gestões para que se tornasse a aprovar o antigo ofício e lições. Em 1599, nova insistência, porém havia uma polêmica nada pequena sobre o corpo que se venera em Siguenza. Se dizia que em 1300 o bispo Dom Simão havia trazido o corpo verdadeiro de Como, Itália. O corpo havia chegado ali após passar por um mosteiro de monges e outro de monjas, e repousar na Itália mais de oito séculos. Não esqueçamos de um detalhe: em Como, efetivamente, se venera uma Santa Liberata (16 de fevereiro), uma monja muito posterior à nossa Liberata.
     No século XIX isto foi refutado, demonstrando que o que o Bispo Simão fizera fora uma invenção das relíquias dentro da mesma igreja catedral de Siguenza, colocando umas relíquias dentro de uma urna de prata. Por uma bula de Inocêncio IV se pode afirmar que o mencionado corpo já era venerado em 1251. Esta Bula concede indulgências aos devotos da santa, o que leva a concluir que o santo corpo já era suficientemente venerado naquele local antes de 1300.
     Barônio acrescentou o nome de Santa Liberata no Martirológio Romano, com a anotação: “In verbo Liberatae, de hac tabula Ecclesiae Comensis, ubi acta ejus asservari dicuntur”. Uma parte destas relíquias foram dadas a Las Tablas, Panamá, onde há muita devoção à Santa Liberata.
     A capela de Santa Liberata consagrada em honra da mártir filha de Baiona e primeira mulher crucificada no mundo é de estilo italiano e a sua construção foi iniciada em 1695 por subscrição popular. A fachada do templo possui duas elegantes torres; no centro, sobre o lintel e escoltada por um antigo escudo de Baiona e outro do reino da Galiza, um nicho com a imagem da santa crucificada.


Fontes:
http://www.santiebeati.it/dettaglio/37200

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Santa Gúdula, padroeira de Bruxelas - Festejada 8 de janeiro

     
     A Catedral de Bruxelas é visitada por todos que vão àquela cidade por causa de seu grande valor histórico e arquitetônico. Ela é dedicada a Santa Gúdula, virgem, padroeira de Bruxelas, muito pouco conhecida fora da Bélgica. Para muitos o seu nome soa estranho e bárbaro, como a longínqua época em que ela viveu.
     Segundo uma biografia escrita em 1047, Santa Gúdula nasceu numa aristocrática família franca. Seu pai era Viterico, duque da Lorena, e sua mãe, Santa Amalberga.
     Gúdula veio ao mundo no ano de 650, no Brabante, região central da atual Bélgica. É uma das estrelas de uma constelação de santos: filha de Santa Amalberga, afilhada de Santa Gertrudes de Nivelles e irmã de São Aldeberto e Santa Reinalda.
     Gúdula foi educada no Convento de Nivelles sob a tutela de sua santa madrinha. Por ocasião da morte de Santa Gertrudes, em 659, retornou à casa de seus pais. De acordo com alguns historiadores, Gúdula viveu reclusa no oratório de São Salvador de Moorsel, distante poucas milhas de sua casa paterna. Segundo outros, ela passou a viver em casa, levando uma vida extraordinária de piedade e de recolhimento.
     Narra a tradição que todas as manhãs, antes da aurora, Santa Gúdula se dirigia à capela de madeira dedicada a São Salvador, em Moorsel. Certa manhã, o demônio, furioso por vê-la tão devota, apagou a lanterna que ela levava. Gúdula ajoelhou-se no chão lamacento, se pôs a rezar e a lanterna acendeu milagrosamente. Este fato deu origem à iconografia da Santa: uma lanterna às vezes substituída por uma vela que a Santa tem na mão, enquanto o demônio, iracundo, jaz a seus pés e um anjo acende de novo o círio.
     Outra versão, conta que toda vez que Gúdula buscava chegar até a capela, o demônio enviava diabinhos para que estes, perturbassem sua concentração e com isso, conseguissem apagar a chama da lanterna. Vendo isto, Gúdula intensificava sua oração e um anjo do Senhor aparecia ao seu lado, afastando o mal. Cansado e vencido, o mal partia e Gúdula chegava protegida até a capela.
     Isto nos faz refletir sobre a força e o poder da oração, que é uma luz que nos conduz e nos protege em nosso caminho, afastando o mal que tenta nos prejudicar.
     A ação do anjo (protegendo e guiando Santa Gúdula) nos mostra como estas criaturas divinas colaboram na obra do Senhor e velam por nós, nos protegendo, mas também nos orientando em direção à Luz Divina. Nos momentos difíceis, somos guiados e protegidos pelos anjos do Senhor (por isso, a devoção aos anjos e, sobretudo, ao anjo da guarda é importante em nossa caminhada espiritual).
     Humberto, o antigo cronista de Lobbes, apresenta Santa Gúdula como uma mulher consagrada de corpo e alma ao socorro do próximo. Voltando um dia da capela de Moorsel, encontrou uma pobre mulher que levava nos braços um menino de dez anos, paralítico de pés e mãos. Gúdula tomou-o em suas mãos, acariciou-o e rezou com fervor Àquele que disse: "Tudo o que pedirdes a meu Pai em meu nome vos será concedido". O menino se sentiu curado imediatamente e começou a dar saltos de alegria.
     Em outra ocasião, uma leprosa chamada Emenfreda foi ao seu encontro. A Santa examinou suas chagas, consolou-a com pensamentos sublimes e em seguida a curou. Estes fatos prodigiosos rapidamente se tornaram conhecidos na região e uma multidão de sofredores procuravam-na em busca de alívio para os seus males.
     Após breve enfermidade Gúdula morreu, provavelmente em 8 de março de 712. O cronista Humberto descreve a desolação da pobre gente da comarca, que estava acostumada a vê-la como a uma espécie de fada protetora, e relata os grandes louvores que dela fizeram. Nunca se tinha visto tantas muletas e sacolas numa missa de funeral, que foi rezada na igreja de Ham (Alost, Bélgica). Gúdula foi enterrada em Vilvoorde.

Catedral S. Miguel e Sta. Gúdula, Bruxelas 
    Tempos depois, o corpo de Santa Gúdula foi transladado para Moorsel, e junto ao seu túmulo construiu-se um mosteiro que durou pouco tempo.
     Mais tarde, provavelmente em 977, seus despojos foram confiados a Carlos de França, filho de Luis, duque da Lorena. Durante uns sessenta anos Santa Gúdula repousou na Igreja de São Géry de Bruxelas.
     Finalmente, em 1047, o Conde de Lovaina, Lamberto II, transladou a preciosa relíquia para a Igreja de Molemberg, dedicada a São Miguel, a primeira paróquia de Bruxelas, mudando o seu nome para o de Santa Gúdula. O Conde erigiu ali uma colegiada. Nos Arquivos Gerais do Reino de Bruxelas encontramos um relato da história desta fundação. A partir de então, Bruxelas tomou-a como sua padroeira.
     O Martirológio Romano celebra a festa de Santa Gúdula em 8 de janeiro; a arquidiocese de Malinas e a diocese de Gante a celebram no dia 19 do mesmo mês.


https://en.wikipedia.org/wiki/Gudula
http://catholic.net/op/articles/1648/cat/1205/saint-gudule-of-brussels-.html

Relicário contendo fragmentos do rânio de Santa Gúdula (Catedral de
São Miguel e Santa Gúdula)


Postado neste blog em 5 de janeiro de 2012