sábado, 18 de março de 2017

São José, Patrono da Santa Igreja - 19 de março

Santa Teresa e São José


Santa Teresa:
     “Quisera subir à mais alta montanha para gritar a todos: ‘Ide a São José! Jamais recorri a ele em vão’”.
     “Quem não achar mestre que lhe ensine a orar, tome São José por mestre, e não errará o caminho”.
     Quando foi da canonização de Santa Teresa de Ávila, a grande apostola da devoção a São José e que ao seu nome consagrara 11 dos 18 mosteiros que fundara em vida, algumas das suas filhas, desejosas de glorificar a sua fundadora, quiseram mudar em alguns mosteiros o nome de São José pelo de Santa Teresa. Esta, aparecendo em Ávila à Madre Isabel de S. Domingos, deu-lhe esta ordem: “Minha filha, dirá ao padre provincial que tire o nome aos conventos e lhes restitua o de São José que já tinham”.
     Nas adversidades da vida de Santa Teresa o seu auxilio era São José. Santa Teresa conta no seu livro da vida:
     “Tendo vinte e dois anos de idade e encontrando-me tão jovem ainda atacada de paralisia, vendo o meu triste estado resolvi dirigir-me ao céu. Tomei, então, por meu advogado e protetor o glorioso São José, que me concedeu o seu socorro da forma mais visível. Este bem-amado pai da minha alma apresentou-se a livrar-me das angústias e enfermidades que vitimaram o meu corpo e livrou-me mais tarde de perigos de um outro género e mais graves, pois que me ameaçaram de me perder eternamente. Não me recordo que ele jamais me tenha recusado alguma coisa e até me tem dado sempre aquilo que eu sequer sabia desejar.
     São José fez resplandecer em mim o seu poder e bondade. Graças a ele recobrei as minhas forças, levantei-me, caminhei e fiquei livre da minha paralisia. É algo maravilhoso enumerar a quantidade de graças de toda ordem, com que o Senhor me tem cumulado, e os perigos, tanto do corpo como da alma, de que me tem livrado pelos merecimentos do meu bem-amado patrono”.


São José, pai terrestre e adotivo de Jesus Cristo e esposo da Virgem

     São muito poucos os dados sobre as origens, a infância e a juventude de José, o humilde carpinteiro de Nazaré, pai terrestre e adotivo de Jesus Cristo, e esposo da Virgem de todas as virgens, Maria.
     Sabemos apenas que era descendente da casa de David. Mas, a parte de sua vida da qual temos todo o conhecimento basta para que sua canonização seja justificada. José é, praticamente, o último elo de ligação entre o Velho e o Novo Testamento, o derradeiro patriarca que recebeu a comunicação de Deus vivo, através do caminho simples dos sonhos. Sobretudo escutou a palavra de Deus vivo. Escutando no silêncio. 
      Nas Sagradas Escrituras não há uma palavra sequer pronunciada por José. Mas, sua missão na História da Salvação Humana é das mais importantes: dar um nome a Jesus e fazê-lo descendente de David, necessário para que as profecias se cumprissem. Por isso, na Igreja, José recebeu o título de "homem justo".
     A palavra "justo" recorda a sua retidão moral, a sua sincera adesão ao exercício da lei e a sua atitude de abertura total à vontade do Pai celestial. Também nos momentos difíceis e às vezes dramáticos, o humilde carpinteiro de Nazaré nunca arrogou para si mesmo o direito de pôr em discussão o projeto de Deus. Esperou a chamada do Senhor e em silêncio respeitou o mistério, deixando-se orientar pelo Altíssimo. 
     Quando recebeu a tarefa, cumpriu-a com dócil responsabilidade: escutou solícito o anjo, quando se tratou de tomar como esposa a Virgem de Nazaré, na fuga para o Egito e no regresso para Israel (Mt 1 e 2, 18-25 e13-23). Com poucos, mas significativos traços, os evangelistas o descreveram como cuidadoso guardião de Jesus, esposo atento e fiel, que exerceu a autoridade familiar numa constante atitude de serviço.
     As Sagradas Escrituras nada mais nos dizem sobre ele, mas neste silêncio está encerrado o próprio estilo da sua missão: uma existência vivida no anonimato de todos os dias, mas com uma fé segura na Providência. 
     Somente uma fé profunda poderia fazer com que alguém se mostrasse tão disponível à vontade de Deus. José amou, acreditou, confiou em Deus e no Messias, com toda sua esperança. Apesar da grande importância de José na vida de Jesus Cristo não há referências da data de sua morte. Os teólogos acreditam que José tenha morrido três anos antes da crucificação de Jesus, ou seja quanto Jesus tinha trinta anos. 
     Por isso, hoje é dia de festa para a Fé. O culto a São José começou no Egito, passando mais tarde para o Ocidente, onde hoje alcança grande popularidade.
     Em 1870, o Papa Pio IX o proclamou São José, padroeiro universal da Igreja e, a partir de então, passou a ser venerado no dia 19 de março.
     Porém, em 1955, o Papa Pio XII fixou também, o dia primeiro de maio para celebrar São José, o trabalhador.
     Enquanto, o Papa João XXIII, inseriu o nome de São José no Cânone romano, durante o seu pontificado.

Qual a missão especial de José com relação a Maria?
     Consistiu ela sobretudo em preservar a virgindade e a honra de Maria, contraindo com a futura Mãe de Deus um verdadeiro matrimônio, mas absolutamente santo. Conforme relata o Evangelho de São Mateus (1, 20): “O anjo do Senhor, que apareceu em sonho a José lhe diz: “José, filho de Daví, não temas receber Maria como tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo”. Maria é perfeitamente sua esposa. Trata-se de um matrimônio verdadeiro (cf. Santo Tomás, III, q. 29, a. 2), mas inteiramente celeste e que devia ter fecundidade inteiramente divina.
     A plenitude inicial de graça dada à Virgem em vista da maternidade divina fazia apelo em certo sentido ao mistério da Encarnação. Conforme diz Bossuet: “A virgindade de Maria atraiu Jesus do céu… Se sua pureza a tornou fecunda, não hesitarei, no entanto, em afirmar que José teve sua parte nesse grande milagre. Pois tal pureza angélica, apanágio da divina Maria, foi também o desvelo do justo José”.
     Era a união sem mácula e inteiramente respeitosa com a criatura mais perfeita que jamais existira, em ambiente extremamente simples, qual o de um pobre artesão de aldeia. Assim, José se aproximou mais intimamente do que qualquer outro santo daquela que é a Mãe de Deus, daquela que é também a Mãe espiritual de todos os homens e dele próprio José, daquela que é Co-Redentora, Mediadora universal, dispensadora de todas as graças. Por todos esses títulos José amou Maria com o mais puro e devotado amor; era de certo um amor teologal, porquanto ele amava a Virgem em Deus e por Deus, por toda a glória que ela dava a Deus. A beleza de todo o universo nada era em face da sublime união dessas duas almas, união criada pelo Altíssimo, que encantava os anjos e ao próprio Senhor enchia de júbilo.

Qual foi a missão excepcional de José perante o Senhor?
     Em verdade, o Verbo de Deus feito carne foi confiado a ele, José, de preferência a qualquer outro justo dentre os homens de todas as gerações. O santo velho Simeão teve o menino Jesus em seus braços por alguns instantes e viu nele a salvação dos povos ― “lumen ad revelationem gentium” ― mas José velou todas as horas, noite e dia, sobre a infância de Nosso Senhor.
     Muitas vezes teve em suas mãos aquele em quem via seu Criador e Salvador. Recebeu dele graças sobre graças durante os vários anos em que viveu com ele na maior intimidade do dia-a-dia. Viu-o crescer. Contribuiu para sua educação humana. Jesus lhe foi submisso. É comumente chamado de “pai nutrício do Salvador”; porém em certo sentido foi mais que isso, pois como nota Santo Tomás é acidentalmente que após o casamento um homem se vem a tornar “pai nutrício” ou “pai adotivo”, enquanto que não foi absolutamente de forma acidental que José ficou encarregado de zelar por Jesus.
     Ele foi criado e posto no mundo precisamente para tal fim. Esta foi a sua predestinação. Foi em vista de tal missão divina que a Providência lhe concedeu todas as graças recebidas desde a infância: graça de piedade profunda, de virgindade, de prudência, de fidelidade perfeita. Sobretudo, nos desígnios eternos de Deus, toda a razão de ser da união de José com Maria era a proteção e a educação do Salvador; Deus lhe deu um coração de pai para velar pelo menino Jesus. Esta é a missão principal de José, em vista da qual ele recebeu uma santidade proporcionada a seu papel no mistério da Encarnação, mistério que domina a ordem da graça e cujas perspectivas são infinitas.

(Padre Reginald Garrigou-Lagrange)


sexta-feira, 17 de março de 2017

Nossa Senhora da Misericórdia - 18 de março

A 1°. Aparição
     Sábado, 18 de março de 1536. Antônio Botta, um agricultor natural do vale de São Bernardo, a seis quilômetros de Savona, dirige-se bem cedo à sua pequena vinha para completar a poda. Como seu costume, caminha rezando o santo Rosário; junto ao regato que deve atravessar pensa em se refrescar naquelas águas, e naquele momento Nossa Senhora aparece. O seu depoimento oficial é conservado no Santuário desde 1596.
     Ele relata que no momento em que ia lavar as mãos vê descer do céu um grande resplendor; fica assustado, está prestes a cair nas águas, tanto que seu chapéu cai da cabeça, e ouve uma voz que vem da figura de Senhora que há no resplendor. “Levanta e não duvides que eu sou Maria Virgem. Vá até teu confessor e diga para ele anunciar na igreja que o povo deve fazer jejum por três sábados e vir em procissão em honra de Deus e de sua Mãe. Tu portanto confesses e comungues; no quarto sábado volte a este lugar”.
     Naquele instante Botta ouviu passar pela estrada algumas pessoas e de medo de ser notado, deseja se esconder, mas a Aparição lhe diz:  “Não te movas, pois eles não podem nos ver”. Então a Aparição desaparece e com ela também o resplendor.
     Tendo se recobrado do estupor, Antônio corre informar o fato ao Reitor de São Bernardo no Vale, um franciscano, que conhecendo a sinceridade e a honestidade do camponês, informa Mons. Bartolomeo Chiabrera, Vigário geral do Cardeal Agostino Spinola para a Diocese de Savona. Como era o tempo da Quaresma, os pregadores obedecem à ordem de Nossa Senhora e convidam o povo a fazer penitência.

A 2°. Aparição
     No dia 8 de abril, vigília do Domingo de Ramos, e quarto sábado depois da primeira aparição, Antônio Botta, fiel ao convite de Nossa Senhora, retorna ao local do milagre. Ajoelhando-se, junta as mãos em oração e eis que o prodígio se repete. O céu se abre e uma luz intensa, deslumbrante, pousa sobre uma pedra da torrente, e pouco a pouco toma a forma de uma Senhora toda vestida de branco, coroada de ouro refulgente, com as mãos estendidas num gesto de dulcíssima misericórdia.
     Então a Senhora diz: “Tu irás àqueles que em Savona mandaram pedir explicações sobre minha primeira mensagem e dirás que anunciei ao povo que jejue por três sábados e faça com que todos os religiosos e as casas de disciplinantes (que fazem penitência) realizem a procissão por três dias; e a estes disciplinantes se recomenda a disciplina (flagelação) sobretudo no Sábado Santo... E em geral anuncio a todo o povo para se emendar de suas iniquidades e deixar os vícios e pecados, porque o meu Filho está muito irado com o mundo por causa das grandes iniquidades que reinam nele atualmente”.
     Tendo dito isto, a Senhora levantou três vezes as mãos e os olhos ao céu e exclamou, dirigindo-se a Jesus: “Misericórdia, Filho, desejo e não justiça!” Então desapareceu e no lugar permaneceu um intenso perfume.

A 3°. Aparição
     Em 18 de março de 1580, quarenta e quatro anos depois da 1°. Aparição, Nossa Senhora aparece novamente no vale de Letimbro a um frade capuchinho, o Pe. Agostinho de Genova. A aparição aconteceu sobre uma colina que se eleva solitária a noroeste do Santuário: é quase um gesto de bênção para a procissão votiva que está se dando no Santuário, a confirmação da mensagem de Nossa Senhora e de sua proteção. No local primeiro foi colocada uma Cruz (daí o nome de Crocetta (Cruzinha) dado ao local) e em 1680 foi erigida uma Capela.
     No local das aparições foi erguida uma Igreja, que se tornou até hoje um centro de peregrinações, denominado Santuário de Nossa Senhora, Refúgio dos pecadores.
     Anualmente os devotos chegam aos milhares, em busca de sua Mãe e de seu Salvador, pois onde está a Virgem Santíssima o Seu Divino Filho também está presente, curando e santificando Seus amados filhos.
     O Papa Bento XVI honrou o Santuário de Nossa Senhora da Misericórdia com a Rosa de Ouro, como sinal de especial distinção, o 2º na Itália depois do Santuário de Loreto, honrado por João Paulo II.
     Em 2015 festejou-se os 200 anos da coroação de Nossa Senhora da Misericórdia pelo Papa Pio VII, ocorrida no dia 10 de maio de 1815.


Fonte: 
www.santiebeati/it - www,donbosco-torino.it

terça-feira, 14 de março de 2017

Beata Eva, Reclusa de S. Martinho de Liège - 14 de março

Martirológio Romano: Em Liège, na Lorena, Beata Eva do Monte Cornélio, reclusa junto ao cenóbio de São Martinho, que, junto com Santa Juliana, priora do mesmo cenóbio, trabalhou muito para que o papa Urbano IV instituísse a festa de Corpo de Cristo. (1205 - c. 1265).

     O ambiente em que Eva se educou não era o mais propício para alimentar uma profunda vida cristã: era um mar de dúvidas. Pouco a pouco, entretanto, sua amiga íntima, Santa Juliana de Cornillon, foi lançando luz em todo o rico manancial, ainda inexplorado, de sua estupenda alma. A amizade sincera ajuda em momentos cruciais da existência. Assim, guiada por sua amiga, entrou no convento cisterciense de São Martinho de Liège (Bélgica).
     Eva teve a felicidade de receber com frequência a visita de sua amiga, que lhe confiava a alegria que sentia de ter fundado um instituto dedicado à glorificação do Sacramento da Eucaristia. Em diversas circunstâncias Santa Juliana teve que estar junto à sua amiga Eva no mesmo convento. Foi quando Eva constatou pessoalmente os êxtases místicos de sua amiga. Inicialmente duvidava deles, mas se convenceu mais tarde do alto grau de santidade de sua amiga e dos êxtases com que Deus a premiava.
     Graças às duas, o papa Urbano IV publicou a Bula em que anunciava a instituição da Festa do Corpo de Cristo para toda a Igreja. Esta Bula é um documento importante datado de agosto – setembro do ano 1264. Justamente no ano seguinte Eva morria em odor de santidade.
     Eva tem indistintamente o título de santa ou beata. Seus restos mortais por uma ou outra razão foram transladados para vários lugares, até que em 18 de dezembro de 1746 foram colocados no altar de São Martinho.  Sua popularidade é unida à de Santa Juliana de Cornillon.
     Seu culto foi confirmado por Leão XIII em 22 de abril de 1902.
* * *
     As informações sobre Eva (Evelina, Eva von Lüttich, Eva de Liège) aparecem na vida de Santa Juliana de Cornillon, sua amiga e confidente, a quem ajudou na instituição da festa de Corpus Christi.
     Eva nasceu entre 1205 e 1210 em um ambiente confortável e experimentou um conflito entre a vida civil e a de reclusa; sua vocação não foi clara imediatamente e Juliana influenciou muito em sua decisão.
     Entrou no Mosteiro de São Martinho em Liège, onde recebia frequentes visitas de Santa Juliana, que lhe confiava suas visões e seu grande desejo de ver instituído um culto que glorificasse o Sacramento da Eucaristia. Quando Juliana fugiu de Cornillon encontrou refúgio em São Martinho junto a Eva, que foi testemunha de seus êxtases místicos. Depois da morte de Juliana continuou sua obra, fato que fez acreditar que ela fosse a verdadeira promotora, em detrimento de Juliana que foi ignorada durante muito tempo.
Juliana, Eva e Isabel de Huy - visão do SSmo.
     Atuou junto ao Bispo de Liège, Henrique de Gueldre para obter do papa Urbano IV um decreto sobre o tema. Em 8 de setembro de 1264 o Papa enviou uma Bula, em que anunciava a criação da Festa de Corpus Christi, para a Igreja universal, pedindo que difundissem o texto. Esta Bula é a base histórica da instituição da festa em agosto/setembro de 1264, e o testemunho do fervor de Eva em trabalhar para que fosse instituída.
     A Beata morreu em São Martinho de Liège em 1265. Seu túmulo se converteu rapidamente em lugar de culto, e deram-lhe indistintamente o título de santa ou beata, embora prevalece este último.
     No século XVI os seus restos mortais foram exumados devido a trabalhos a serem realizados na igreja e foram colocados em um altar lateral; em séculos sucessivos suas relíquias foram solicitadas por rainhas e abades, até que em 18 de dezembro de 1746 foram colocados no altar de São Martinho. A popularidade de Eva chegou até nossos dias; sua memória, como a de Juliana, se perpetuou em algumas paróquias sem interrupção. O culto foi aprovado em 1902, e se celebra em Liège em 14 de março e em 25 de junho em outras regiões.
     Decreto de confirmação de culto com uma biografia latina em ASS 34 (1901-2) págs. 686-688.

Etimologia: Eva, do hebraico Hawah, forma antiga de Haih: “vivente, vida” (Gên. 3, 20)
Evelina, diminuitivo de Eva (inglês Evelyn; italiano Evelina; alemão Eveline)



segunda-feira, 13 de março de 2017

Santa Eufrásia, virgem – 13 de março

     
    Eufrásia nasceu no ano de 380, em Constantinopla, na Ásia Menor. Antígono, seu pai, era um nobre de grande dignidade e qualidade na corte de Teodósio, o jovem, quase ligado por sangue a esse imperador, e honrado por ele com vários cargos importantes no Estado. Ele era casado com Eufrásia, uma mulher não menos ilustre por seu nascimento do que pela virtude, com quem ele tinha apenas uma filha e herdeira, chamada também Eufrásia, a santa de quem tratamos.
   Depois de seu nascimento, seus piedosos pais, com mútuo consentimento, comprometeram-se com o voto de continência perpétua, para que pudessem aspirar mais perfeitamente às alegrias invisíveis da vida futura; e desde esse tempo viveram juntos como irmão e irmã, nos exercícios de devoção, esmolas e penitência.
     Antígono morreu dentro de um ano, e a santa viúva, para evitar o assédio de pretendentes a casamento e a distração de amigos, pouco tempo depois mudou-se com sua filha pequena para o Egito, onde ela possuía uma muito grande propriedade.
     Nesse país fixou sua residência perto de um mosteiro de cento e trinta monjas que nunca usavam outro alimento além de ervas, que comiam apenas depois do pôr-do-sol e algumas só uma vez em dois ou três dias; elas vestiam e dormiam em sacos, faziam trabalhos manuais e rezavam quase sem interrupção. Quando doentes, suportavam suas dores com paciência, considerando-as uma misericórdia divina e, agradecendo a Deus por isto, nem buscavam alívio de médicos, exceto em casos de necessidade absoluta, e então só eram permitidos remédios comuns, como os monges da Trapa fazem nos dias atuais. A atenção excessiva à saúde alimenta o amor-próprio e a falta de mortificação (1) e muitas vezes destrói aquela saúde que ansiosamente se tentou preservar.
     Com o exemplo dessas virgens santas, a devota mãe era afervorada nos exercícios da religião e da caridade, a que se dedicava totalmente. Frequentemente visitava estas servas de Deus, e rogava que aceitassem uma ajuda anual, com a única obrigação de sempre rezarem pela alma de seu falecido marido. Mas a abadessa recusou a oferta, dizendo: "Renunciamos a todas as conveniências do mundo para comprar o céu. Nós somos pobres e tais desejamos permanecer". Ela só aceitou um pequeno donativo para suprir o óleo da lâmpada da igreja e para o incenso a ser queimado no altar.
      Aos sete anos de idade, Eufrásia fez um pedido à sua mãe: que lhe fosse permitido servir a Deus neste mosteiro. A piedosa mãe, ao ouvir isto chorou de alegria, e não muito tempo depois apresentou-a à abadessa que, tomando uma imagem de Cristo, entregou-a em suas mãos. A tenra virgem beijou-a, dizendo: "Por voto me consagro a Cristo". Então a mãe a conduziu diante de uma imagem de nosso Redentor, e levantando as mãos ao céu, disse: "Senhor Jesus Cristo, receba esta criança sob Vossa proteção especial. Somente Vós ela ama e busca; a Vós ela se recomenda". (2) Então, voltando-se para sua querida filha, disse: "Que Deus, que lançou os alicerces dos montes, te fortaleça sempre no Seu santo temor". E deixando-a nas mãos da abadessa, saiu do mosteiro chorando.
     Algum tempo depois, ela adoeceu e, sendo avisada de sua morte, deu as últimas instruções a sua filha com estas palavras: "Temei a Deus, honrai vossas irmãs e servi-as com humildade. Nunca penses no que fostes, nem digas a ti mesmo que es de extração real. Seja humilde e pobre na terra, para que sejas rica no céu". A boa mãe logo depois dormiu em paz.
     Após a notícia de sua morte, o Imperador Teodósio (3) mandou chamar a nobre virgem para a corte, e a prometeu em casamento a um jovem senador. Mas a virgem escreveu-lhe de próprio punho a seguinte resposta:
     "Imperador invencível, tendo-me consagrado a Cristo em castidade perpétua, não posso faltar ao meu compromisso e me casar com um homem mortal, que em breve será alimento de vermes. Pelo amor aos meus pais, peço o favor de distribuir suas propriedades entre os pobres, os órfãos e a Igreja. Ponha em liberdade todos os meus escravos, e dispense os meus vassalos e servos, dando-lhes o que é devido. Ordene aos ecônomos de meu pai para perdoarem os meus agricultores de tudo o que eles devem desde a sua morte, para que eu possa servir a Deus sem impedimentos, e possa estar diante dEle sem a solicitude dos assuntos temporais. Reze por mim, vós e vossa imperatriz, para que eu possa ser digna de servir a Cristo".
     Os mensageiros retornaram ao imperador levando esta carta; este derramou muitas lágrimas ao lê-la. Os senadores que a ouviram também em lágrimas disseram à sua majestade: "Ela é a digna filha de Antígono e Eufrásia, do vosso sangue real, e a santa fonte de um acúmulo de virtudes". O imperador executou tudo, conforme desejado por ela, um pouco antes de sua morte, ocorrida em 395.
     Santa Eufrásia era para suas piedosas irmãs um modelo perfeito de humildade, mansidão e caridade. Se ela se via agredida por qualquer tentação, imediatamente a revelava à abadessa para afastar o demônio com aquela humilhação e buscar um remédio. Em tais ocasiões, a discreta superiora lhe dava um trabalho penitencial humilde e doloroso, como carregar grandes pedras de um lugar para outro. Certa vez, sob um obstinado assalto de tentação, continuou por trinta dias a fazer este trabalho com uma simplicidade maravilhosa, até que o demônio, derrotado por sua humilde obediência e castigo de seu corpo, deixou-a em paz. Sua refeição eram ervas que ela comia após o pôr-do-sol, inicialmente todos os dias, mas depois apenas uma vez em dois ou três, ou às vezes sete dias. Mas sua abstinência tinha como mérito principal sua humildade, sem a qual teria sido um jejum de demônios. Eufrásia limpava as celas das outras freiras, carregava água para a cozinha e, por obediência, empregava-se alegremente nos trabalhos mais inferiores, tornando o trabalho doloroso uma parte de sua penitência.
     Para mencionar um exemplo de sua extraordinária mansidão e humildade é relatado que um dia uma empregada na cozinha perguntou a ela por que jejuava semanas inteiras, sendo que nenhuma outra tentava fazer isto além da abadessa? Sua resposta foi que a abadessa lhe tinha ordenado essa penitência. A outra a chamou de hipócrita. Diante disto Eufrásia caiu a seus pés, implorando-lhe que a perdoasse e orasse por ela. Neste ato é difícil dizer se devemos admirar mais a paciência com que ela recebeu a injusta repreensão, ou a humildade com que ela sinceramente condenou a si mesma, como se por sua hipocrisia e imperfeições ela tivesse sido um escândalo para os outros.
     Ela foi favorecida com milagres antes e depois de sua morte.
     No dia 12 de março do ano 410 a superiora do convento teve uma visão profética na qual recebeu um aviso de que Eufrásia morreria e seria proclamada santa. Santa Eufrásia, ainda jovem, nada sentia. Porém, acreditou na mensagem e pediu para receber os Sacramentos. Então, no dia seguinte, 13 de março de 410, como tinha sido previsto, ela teve uma febre muito forte e veio a falecer. Venerada como santa pelo grande exemplo de vida, de fraternidade, de amor e caridade, Santa Eufrásia foi sepultada no mesmo convento onde passou a vida e ao qual tanto amor devotava.
     Seu nome está registrado neste dia, 13 de março, no Martirológio Romano.

Veja sua vida autêntica em Rosweide, p. 351, D'Andilly, e mais correto na Acta Sanctorum pelos Bollandistas.
Nota (1) É severamente condenado por São Bernardo, Ep. 345. ol. 321. p. 316, e Serm. 50. in Cant. St. Ambrose. Serm. 22. in Ps. 118 e pelo Abade Rance, reformador da Trapa.
Nota (2) Esta passagem é citada por São João Damasceno, Or. 3. de Imagin.
Nota (3) -  Teodósio nasceu no ano de 347, em Cauca, atual Coca (Segóvia, Espanha) com o nome de Flávio Teodósio, filho de Termância e de Flávio Honório Teodósio, o velho, lugar-tenente hispano e um dos generais mais prestigiados de Valentiniano I, dito duque eficacíssimo (dux efficacisimus - chefe, ou general, altamente eficaz) por isso.
     Em 380, Teodósio, "Augusto do Oriente", após a paz com os godos, entrou triunfante em Constantinopla, que será sua capital e lugar de residência habitual até 388, quando se dirige a Mediolano. Aparece a crônica de São Jerônimo.
     Pelo Édito de Tessalônica, de Teodósio I, se confirma o Cristianismo como religião de Estado no Império Romano. Teodósio batiza-se como cristão devido a uma grave doença, contraída em Tessalônica, escolhida por ele como capital temporária, sendo assim o primeiro imperador romano que exerceu o poder estando batizado, apesar dos seus predecessores, desde Constantino, à exceção de Juliano, se declarassem cristãos e tentassem se comportar como tais. Foi talvez por isso que foi o primeiro imperador que recusou o título de pontífice máximo (pontifex maximus), que podemos traduzir por "Supremo Guardião" dos velhos cultos romanos.
     Como reconhecesse que os bárbaros, especialmente os teutônicos e germânicos, podiam ajudar o exército, bastante minado pelas lutas internas, Teodósio os admitiu como soldados e oficiais, de modo que em suas dioceses (subdivisões civis) tanto romanos como teutônicos se encontravam entre seus generais. Com Graciano edita um decreto que manda que todos os súditos professem a fé dos bispos de Roma e Alexandria. Os templos dos arianos e heréticos não podiam ser chamados de igrejas.
     Teodósio morreu em Milão, depois de combater um edema vascular, a 17 de janeiro de 395. Suas últimas palavras foram as do salmo 116 (5): Diligo Dominum quia audivit vocem obsecrationis meae - "Amo o Senhor porque ouviu a voz de minha súplica".
     Deixou aos cuidados de Santo Ambrósio seus dois filhos, Arcádio, enfermiço de 17 anos e Honório de 10. Santo Ambrósio organizou e logrou que seu corpo repousasse numa propriedade em Milão. Ambrósio pronunciou um panegírico intitulado De Obitu Theodosii ante Estilicão e Honório, no qual detalha a supressão da heresia e do paganismo por Teodósio. Os seus restos mortais foram trasladados definitivamente para Constantinopla a 8 de novembro de 395.
     Estilicão, o general de origem vândala casado com sua sobrinha Serena, foi o encarregado de cuidar de Honório, augusto do Ocidente, enquanto Rufino cuidava de Arcádio, augusto do Oriente. Mas o império estava agonizando e praticamente morria com seu último grande imperador.

The Lives of the Saints, Vol. III: March, by Rev. Alban Butler (New York: D.&J. Sadlier Publishers, 1866), pp. 585-586.

Etimologia: Eufrásia deriva do grego Eyphrasia e significa “Alegria”.


     

sexta-feira, 10 de março de 2017

Beata Justina Bezzoli Francucci, Virgem beneditina - 12 de março

Martirológio Romano: Em Arezzo, na Toscana (Itália), Beata Justina Bezzoli Francucci, virgem da Ordem de São Bento e reclusa († 1319).

     Em Florença, no mosteiro beneditino de Santa Maria das Flores, em Lapo, se conserva e venera o corpo incorrupto da Beata Justina Bezzoli Francucci, aqui traduzido do mosteiro do Espírito Santo de Arezzo em 1968. Desde 1938 a igreja do mosteiro é também uma paroquia. O coro das monjas é uma extensão da igreja e o centro é o Tabernáculo.
     Em 1350 as primeiras monjas ali se instalaram e em 13 de outubro daquele ano o bispo S. Andrea Corsini consagrou o mosteiro com a Regra de Santo Agostinho e o título de Santa Maria das Flores, tornando-se a mais antiga igreja de Florença. Em 1808, as monjas tiveram que abandonar o mosteiro devido as leis de supressão das ordens religiosas. Os beneditinos depois se encarregaram dele em 1817. A urna com o corpo da Beata se encontra em uma parede que une as duas comunidades. Seu rosto pode ser visto através do vidro e parece nos convidar a dedicar um tempo adequado a oração.
     Descendente da nobre família Bezzoli Francucci, Justina nasceu em Arezzo entre 1257 e 1260. De caráter humilde e amável, cresceu adquirindo uma certa maturidade. Na casa do pai rico, na facilidade e comodidade, assimilava com a oração diária os sentimentos religiosos mais genuínos. Com frequência se privava de alimento e gostava de se retirar para rezar; sentiu-se atraída a consagrar-se a Deus, o que resultou na imediata negativa dos pais e sem apelação. Era filha única, herdeira amada de uma fortuna considerável, tinha como futuro invejável o casamento com um homem digno de sua linhagem.
     Os caminhos de Deus, entretanto, não são os caminhos dos homens: primeiro convenceu seu pai a custo de lágrimas, depois foi a vez de seu tio paterno, que também não queria se privar de sua única sobrinha. Uma grave doença de seu pai o fez refletir sobre a transitoriedade de todas as coisas e Justina obteve a sua aprovação.
     Justina tinha tão somente 12 anos de idade e esta decisão nos parece incompreensível, mas naquela época as decisões importantes eram tomadas algumas vezes nessa idade. Justina foi recebida no Mosteiro de São Marcos (que já não existe) levando somente uma imagem do Crucificado.  Deixou tudo para se dedicar à meditação da Palavra de Deus; o hábito grosseiro tomou lugar das roupas opulentas. Nas tarefas mais simples mostrava encanto em responder com obediência às necessidades da comunidade.
     Justina permaneceu no mosteiro por quatro anos, quando foi obrigada a sair com as irmãs por causa das guerras que sacudiram a cidade. Com seu crucifixo se transferiu para o Mosteiro de Todos os Santos, porém neste local não ficou por muito tempo. Chegara aos seus ouvidos que numa cela, no Castillo di Civitella (Civitella dela Ciana), vivia reclusa voluntariamente uma virgem chamada Lúcia. Compartilhar as práticas mais austeras das virtudes cristãs se converteu em seu desejo supremo.
     Com a permissão do bispo Umbertini, mudou-se para a ermida de Santa Lúcia que muito feliz a recebeu. Na pobreza extrema foram visitadas pelo pai de Justina, o qual, podemos imaginar com que angustia, tratou em vão leva-la para casa.
     A coexistência destas anacoretas durou somente uns anos, até que Lúcia adoeceu gravemente e sua jovem companheira ajudou-a até o momento de sua morte. Uma vez sozinha, Justina continuou vivendo dedicada à oração e à penitência, visivelmente aliviada pelo Esposo Celestial, que por meio de um anjo a defendeu em várias ocasiões de ataques de lobos.
     Estas e muitas privações minaram sua saúde e aos trinta e cinco anos começou a ter sérios problemas de visão. Viu-se obrigada a retornar ao mosteiro, para a alegria das irmãs, que agora viam que sua alma não era deste mundo. O mosteiro, porém, foi objeto de incursões de soldados e o bispo teve que transladá-las a um lugar mais seguro. Era o ano de 1315 e Justina voltou a mudar de casa.
     A Beata tinha uma singular devoção pela Paixão de Cristo e mesmo doente utilizava os cilícios, chegando inclusive à flagelação. Passou os últimos vinte anos de sua vida completamente cega, caindo muitas vezes em êxtase, inclusive na presença das irmãs. Morreu rezando, rodeada de suas companheiras, no dia 12 de março de 1319. Eram evidentes em seu corpo as feridas causadas por uma corrente de ferro que usou durante anos.
     As graças obtidas por sua intercessão são numerosas. Um lírio branco nasceu espontaneamente em seu túmulo. O corpo, dez anos depois de sua morte, era surpreendentemente flexível e o bispo de Arezzo ratificou a veneração de que se tornou objeto.
     Dois séculos depois de ter sido colocado em uma caixa de ferro, o corpo tornou a aparecer excepcionalmente incorrupto. Em seu caixão foi encontrada uma bandeira de guerra deixada por um capitão como um ex-voto em torno de 1384. Alguns fragmentos da bandeira foram distribuídos aos fiéis como relíquias.
     A Beata Justina é invocada especialmente pelas pessoas cegas; diante de sua urna também foram exorcizados alguns demônios. Seu culto foi confirmado pela Santa Sé em 14 de janeiro de 1891. No dia 12 de cada mês uma associação faz celebrar Missa em recordação de sua comemoração litúrgica.

Para maior informação contatar:
Mosteiro de Santa Maria del Fiore en Lapo
Via Faenza, 24750133 Florença 055/587444


terça-feira, 7 de março de 2017

Beata Maria Antônia de S. José, Virgem - 7 de março

   
      Em 1760, em Santiago del Estero, Maria Antônia de Paz y Figueroa reuniu um grupo de jovens que viviam em comum, rezavam, exerciam a caridade e colaboravam com os padres jesuítas. Elas eram então chamadas de “beatas”, atualmente se diz leigas consagradas. Durante 20 anos Maria Antônia esteve a serviço dos padres jesuítas, assistindo-os especialmente nas tarefas auxiliares dos exercícios espirituais.
     Por ocasião da expulsão dos jesuítas em 1767, Maria Antônia pediu ao frei mercedário Diego Toro que assumisse as tarefas próprias da pregação e da confissão, enquanto ela se ocuparia com suas companheiras do alojamento e as provisões para continuar com os exercícios espirituais. A amizade com os jesuítas ela manteve via epistolar.
Viajava caminhando descalça
     Tempos depois abandonou Santiago del Estero para organizar exercícios espirituais em Jujuy, Salta, Tucumán, Catamarca e La Rioja.
     “Mama Antula”, como a chamavam, era uma mulher com um estilo muito peculiar. Fazia as viagens caminhando descalça e pedindo esmolas. Não se tem testemunhos de quantas vezes preparou exercícios em algumas cidades, porém só em Tucumán foram feitos sessenta. Apesar de viajar por montanhas, desertos e lugares que desconhecia, jamais sofreu percalço algum. Em Catamarca sofreu uma doença e foi desenganada pelo médico. “Me recomendei ao Sagrado Coração e logo me senti curada, sem nenhum remédio”, assegurou. Uma vez quebrou uma costela, em outra ocasião deslocou um pé, “mas fui curada uma e outra vez por mão invisível”, repetia.
     Em menos de um ano organizou em Córdoba oito eventos de 200 e 300 pessoas. Sempre conseguia as esmolas suficientes para manter toda essa gente, inclusive em certas ocasiões havia um excedente que seria para ajudar os pobres e os presos.
     Em Buenos Aires, entretanto, ela não foi bem recebida. Trataram-na como louca, bêbada, fanática e até de bruxa. As crianças das periferias da cidade ao vê-la chegar com um aspecto desagradável devido à longa viagem, começaram a apedrejá-la e a apupá-la. O bispo mostrou desconfiança e postergou uma resposta por nove meses, enquanto solicitava informação sobre Maria Antônia. Em breve não apenas deu autorização, como também se tornou um grande admirador seu e lhe deixou um apreciável legado.
     Um ferrenho opositor seu foi o vice-rei Vértiz, devido sua antipatia visceral a tudo que fosse jesuítico. Nessa atitude permaneceu por dois anos e, como tinha poderes no terreno religioso, negou autorização a Maria Antônia para organizar os exercícios espirituais. Na época deu-se um grande reboliço e só se falava dela, que realizava os exercícios de forma clandestina em casas alugadas pelo bispo. As pessoas da nobreza começaram a concorrer a eles às escondidas e quando se soube disto Maria Antônia não pode esconder o fato. Ela tinha conseguido uns terrenos nas cercanias de Buenos Aires por meio de doações. As promessas de um trabalho melhor no centro de Buenos Aires, junto com a fé que depositavam em Cristo graças à pregação de Maria Antônia, haviam sido o motor para a grande viagem que realizaram a pé. Ao ser descoberta oficialmente, ela se viu obrigada a ter uma reunião com o vice-rei. Chegaram a um acordo em que ela aceitou ceder seus escravos ao vice-rei e a pô-los a seu serviço em sua propriedade pessoal se este aceitasse as práticas e lhe facilitasse a mão-de-obra para a construção de sua sede religiosa.
     Uma vez que este acordo se tornou oficial, as pessoas da nobreza e as pessoas de alto poder econômico e social que não tiveram que ocultar-se para frequentar os exercícios fizeram grandes doações a Mama Antula para que ela pudesse construir a atual casa de exercícios espirituais.
     Duas amigas suas haviam empreendido a organização dos exercícios em Salta e Tucumán. Isto deu a ela alento para dar forma a seu pequeno grupo de beatas, iniciando um postulantado, vestição de hábito e a formulação de votos privados.
     Tempos depois ela foi convidada pela Região Oriental (hoje Uruguai) para propagar ali os exercícios espirituais.
     Em 1788, Ambrósio Funes escreveu uma carta contando que em oito anos umas setenta mil pessoas haviam feito os exercícios espirituais, por isso projetava uma casa dedicada especialmente a estas práticas. Como resposta obteve a doação de três parcelas de terreno contiguas, a primeira delas doada em 27 de novembro de 1788 por Antonio Alberti e Joana Agostinha Marin, pais do sacerdote Manuel Alberti, integrante da Primeira Junta; poucos dias depois, um segundo lote foi doado por Pedro Pavón e Benedita Ortega; e em 10 de dezembro, Alfonso Rodriguez e Francisca Jirado doam a terceira parcela. Porém, faltava tudo, de maneira que ela começou a pedir ajuda e teve como auxiliar a Cornélio Saavedra.
     A prática dos exercícios espirituais passou a ser uma das atividades religiosas mais prestigiosas da vida portenha, e tanto os setores mais privilegiados como os de condição humilde encontraram em Mama Antula a pessoa a quem encomendar suas orações.
     Em 1784 o bispo de Buenos Aires, Sebastião Malvar y Pinto, enviou carta ao Papa informando que durante os quatro anos em que se realizaram os exercícios espirituais nessa cidade, cerca de 15 mil pessoas passaram por eles sem que se lhes tivesse pedido “dinheiro pelos dez dias de sua estadia e abundante manutenção”.
     Em Roma, as cartas de Maria Antônia a seus amigos jesuítas, depois de traduzidas para o latim, francês, inglês e alemão, eram enviadas à diferentes nações, em particular para a Rússia, único país que não havia acatado o desterro dos jesuítas. Certos conventos franceses se reformaram após lerem suas cartas. A importância dada pelo bispo de Buenos Aires aos exercícios o levou a dispor que “nenhum seminarista se ordenasse sem que primeiro a beata certificasse a conduta com que se haviam portado nesses exercícios”. Isto demonstra o papel significativo de Maria Antônia na Igreja portenha daquela época.
O retiro final
     Maria Antônia sentia que as forças fraquejavam. Estava com sessenta e nove anos e não pode concluir sua obra: faleceu no dia 7 de março de 1799. Entretanto, o grupo de mulheres que a acompanhavam se tornou uma pujante congregação religiosa em 1878, que hoje desempenha suas tarefas apostólicas em várias províncias. O coração de Madre Antula continua palpitando na Santa Casa de Exercícios que se conserva em Buenos Aires como um dos edifícios mais antigos da cidade e entesoura velhas recordações em forma de imagens, muros, portas e pátios, que constituem um patrimônio vivo da história argentina.
Beatificação
     Ela foi proclamada Beata em Santiago del Estero pelo Cardeal Ângelo Amato, enviado especial do Papa Francisco, em 27 de agosto de 2016. Um cartaz com o seu lema "Chegar até onde Deus não seja conhecido para fazer com que o seja" foi colocado no altar em meio a aplausos de umas 50 mil pessoas reunidas na praça Gerardo Sueldo, do parque Aguirre, na capital provincial. Cantavam “Que Cristo viva!”, enquanto as imagens de Nosso Senhor dos Milagres de Mailin, das virgens de Loreto, da Consolação de Sumampa, de Huachana e a do Padre Brochero (que foi canonizado em 16 de outubro de 2016) chegavam ao cenário colocado na praça.
     O Cardeal Amato indicou que a festa litúrgica em honra a esta leiga consagrada é o dia 7 de março, data de sua morte.
     Mama Antula se tornou a nona pessoa de nacionalidade argentina a ser beatificada.


Beata Maria Antônia e a devoção à São Caetano
(Extraído do livro: “Vida breve de María Antonia y la devoción a San Cayetano”)
     Não foram os imigrantes italianos que trouxeram a devoção à São Caetano, mas a muito argentina Maria Antônia de São José.
     Desde que partiu de Santiago del Estero o colocou como patrono de sua obra evangelizadora, pois ele é o “Santo da Providência” e a ele se recomendou em todas as suas tarefas. E São Caetano atendeu. Nunca faltou o sustento material na casa fundada pela Beata e a primeira imagem do santo se venera na Santa Casa de Exercícios quase desde sua fundação em 1795.
     Depois de sua morte a devoção à São Caetano cresceria desde a capela da Santa Casa de Buenos Aires, se transladaria para Liniers, onde as Irmãs Filhas do Divino Salvador levantam um colégio e uma capela.
     As Irmãs fomentaram a devoção ao Santo da Providência e em várias ocasiões de grandes secas os chacareiros do lugar recorriam a São Caetano para que os socorresse e este ouvia suas preces; então começou-se a invocá-lo como o “patrono do pão e do trabalho”.
     Assim nasceu e cresceu a devoção ao tão popular São Caetano. A cada dia 7 do mês, e em todos os dias 7 de agosto, milhares de peregrinos recorrem ao Santo agradecidos e pedindo saúde e trabalho. Na parede lateral do Santuário se encontra a imagem da Beata Maria Antônia.

A primeira figura da idade moderna
       Em 1547 o vice-rei de Nápoles, D. Pedro de Toledo, decidiu estabelecer ali o Tribunal da Inquisição nos moldes do espanhol. A nobreza e o povo se amotinaram e a sedição foi afogada em sangue. Isso resultou numa verdadeira guerra civil. As súplicas e mediações de São Caetano foram em vão. Como registra a bula de sua canonização, “aquebrantado pela dor ao ver Deus ofendido pelos tumultos populares, e mais ainda pela suspensão do Concílio de Trento, no qual havia posto tantas esperanças, caiu enfermo de morte”11 e faleceu no dia 7 de agosto de 1547. A bula diz ainda que, no mesmo dia de seu falecimento, cessaram todas as revoltas populares, segundo se crê por sua intercessão.
     Seu ofício litúrgico afirma que São Caetano, por seu infatigável zelo, mereceu ser chamado Caçador das almas. O povo cristão o invoca com o título de Pai de Providência, porque sua intercessão é muito eficaz para se obter para as famílias e indivíduos os dons da Providência Divina. Um escritor, referindo-se ao santo, afirmou que, “como homem e como sacerdote, é a primeira figura da idade moderna”.

domingo, 5 de março de 2017

Santas Kyneburga, Kyneswida, Tibba - 6 de março

     
Na Catedral de Lichfield estátuas de parentes das Santas
     Estas Santas viveram no século VII. As duas primeiras eram filhas de Penda, o rei pagão de Mércia (*), e irmãs de três sucessivos reis cristãos: Peada, Wulfere, e Etelredo, e do piedoso príncipe Merovaldo.
     Kyneburga, como nos informa São Beda (1), foi casada com Alfrido, filho mais velho de Oswi, e no período de vida de seu pai, rei de Bernicia. Diz-se que viveram em continência perpétua. Por ocasião de sua morte, Kyneburga ficou viúva na flor da idade e, renunciando ao mundo, governou um convento de freiras que construiu, ou, de acordo com outros, encontrou-o construído por seu irmão Wulfere, em um lugar húmido nos confins dos condados de Huntingdon e de Northampton, então chamados Dormundcaster, e depois por sua causa, Kyneburgecaster, atualmente Caster.
     O autor de sua vida relata que ela viveu ali um exemplo de toda santidade e que nenhuma palavra pode expressar as entranhas de caridade com que ela acolhia as almas que sob seu cuidado serviam a Deus; como ela ficava atenta ao seu comportamento, e como era zelosa em instruí-las e exortá-las; e com que dilúvio de lágrimas ela implorava para elas a graça e a misericórdia divinas. Ela tinha uma maravilhosa compaixão pelos pobres, e exortava seus irmãos reais a dar esmolas e a fazer obras de misericórdia.
   Kyneswida e Kynedrida (embora muitos confundam a última com Santa Kyneburga) também eram filhas de Penda, deixadas muito jovens em sua morte. Por meio de uma consagração da virgindade a Deus, elas se dedicaram a Seu serviço, e ambas abraçaram o estado religioso. Kyneswida tomou o véu sagrado no mosteiro de Dormundcaster. Como sua irmã Kyneburga, Kyneswida foi abadessa daquele mosteiro.
     Os corpos destas santas foram transladados para Peterborough, onde sua festa foi mantida no dia 6 de março, juntamente com a de Santa Tibba, a virgem santa, sua parente, que, tendo passado muitos anos na solidão e na devoção, faleceu santamente no dia 13 de dezembro. Camden nos informa (2) que ela foi honrada com particular devoção em Rihal, uma cidade perto do rio Wash, em Rutlandshire.
Catedral de Peterborough onde estão sepultadas as Santas

Notas:
See Ingulphus, Hist. p. 850. Will. of Malmesbury, l. 4. de Pontif. p. 29. Capgrave and Harpsfield, sæc. 7. c. 23.
Note 1. Beda, Hist. l. 3. c. 21.
Note 2. Camden in Rutlandshire.
The Lives of the Saints, Vol. III: March, by Rev. Alban Butler, New York, D.&J. Sadlier Publishers, 1866, pp. 522-523.

(*)    A Mércia foi um dos sete reinos que compunham a Heptarquia anglo-saxônica no que é hoje a Inglaterra. Localizava-se na região das Midlands, com centro no vale do Rio Trent e de seus tributários. A Mércia fazia fronteira com a Nortúmbria, Powys, os reinos de Gales, Wessex, Sussex, Essex e Anglia Oriental. O termo sobrevive hoje apenas nos nomes de algumas unidades policiais e militares inglesas.
    A evolução da Mércia a partir das invasões anglo-saxônicas é mais obscura do que a da Nortúmbria, de Kent e mesmo de Wessex. Conforme pesquisas arqueológicas, os anglos instalaram-se nas terras ao norte do Rio Tâmisa em torno do século VI. O termo "Mércia" vem do inglês antigo e significa "gente da marca" ("marca" na acepção de fronteira, divisa). À noção que o reino teve origem na fronteira entre os galeses e os invasores anglo-saxões, P. Hunter Blair contrapõe a ideia de que ele surgiu ao longo da fronteira entre o Reino da Nortumbria e os habitantes do vale do Rio Trent.
     O primeiro rei da Mércia de que se tem registro é Creoda, que teria subido ao poder em torno de 585 d.C.
     O último rei da Mércia, de nome Burgred, subiu ao trono em 852 e foi expulso do reino pelos vikings em 874. Em 886, a porção oriental do reino foi incorporada ao Danelaw. A parte ocidental, independente, passou a ser governada por um "ealderman", não um rei, Atelredo, que governou de 883 a 911. Sua mulher, Etelfleda, filha de Alfredo, o Grande, do Wessex, assumiu as rédeas do poder quando o marido faleceu e foi sucedida no governo da Mércia pelo irmão, Eduardo, o Velho, rei do Wessex.

     Foi grande a influência da família das Santas que hoje comemoramos na implantação da fé católica na região da Mércia. Eles construíram igrejas, mosteiros, e muitos descendentes foram santos.
Interior da Catedral de Peterborough