terça-feira, 4 de agosto de 2020

Beata Cecília Cesarini, Priora Dominicana - 4 de agosto

 A Beata Cecilia recebe o hábito das mãos de São Domingos



     Na trasladação e reconhecimento das relíquias da Beata Diana de Andaló, feita em 1510, no Mosteiro de Santa Inês, Bolonha, foram encontrados três corpos no mesmo túmulo, dois dos quais foram atribuídos a Diana e a Cecília. O terceiro, que então não foi identificado, num próximo reconhecimento (1584) foi atribuído à Irmã Amada, monja vinda com as outras irmãs a convite do Beato Jordão da Saxônia, de São Sixto para Santa Inês, em 1224, a fim de estabelecer ali a vida dominicana.
     As Beatas Diana de Andaló (* Bolonha c. 1200 - † 10 de junho de 1236) e Cecília Cesarini (* Roma c. 1200 – Bolonha, 4 de agosto de 1260) são figuras virginais insignes entre aquelas que floresceram sob a influência de São Domingos de Gusmão na cidade de Bolonha.
     A Beata Diana emitiu os votos de castidade, pobreza e obediência nas mãos do Patriarca. Ela atraiu para junto de si outras religiosas, entre as quais a Beata Cecília.
     Quando São Domingos procurou um local na Itália para difundir sua obra, escolheu de maneira especial a região da cidade de Bolonha por prever que sua famosa Universidade seria um campo fértil para futuras vocações.
     Ele encontrou o local apropriado para se estabelecer, mas também a furiosa oposição dos proprietários das terras, os Andaló. Estes acabaram cedendo às súplicas de sua filha Diana, que já ouvira as pregações dos Dominicanos e havia sido tocada por elas.
     O próprio São Domingos recebeu de maneira privada os votos da jovem, que somente conseguiria tornar-se religiosa após duras batalhas com os parentes que não a queriam no convento. Isto só foi possível porque o Beato Jordão da Saxônia havia conquistado a confiança dos Andaló. A família toda aquiesceu em fundar um mosteiro para monjas dominicanas e ali Diana se instalou com quatro companheiras. Como nenhuma delas tinha experiência religiosa, foram chamadas quatro irmãs do Mosteiro de São Sixto, em Roma.
     Duas delas, Cecília e Amada, tornaram-se intimamente ligadas a Diana. Esta foi a primeira superiora do mosteiro e, após sua morte, Cecília a sucedeu.

Dados biográficos da Beata Cecília Cesarini

     Cecília nasceu em Roma nos primeiros anos do século XIII, e morreu em Bolonha no dia 4 de agosto de 1290. Não há certeza quanto à sua família, embora muitos digam que ela era uma Cesarini.
     Quando Cecília era uma jovem de dezessete anos e se encontrava no Mosteiro de Trastevere, antes de trasladar-se para o Mosteiro de São Sixto, se distinguiu por ter sido uma das primeiras religiosas a corresponder aos esforços de São Domingo para reformar as Ordens, e foi ela quem convenceu a abadessa e as outras irmãs a se submeterem à Regra do Santo.
     Foi transferida com outras religiosas de Santa Maria em Tempulo para formar o Mosteiro de São Sixto, em 28 de fevereiro de 1221.
     Em 1223, ou no início de 1224, o Papa Honório III enviou-a para Bolonha com outras três religiosas, para que ela formasse no espírito dominicano as religiosas do Mosteiro de Santa Inês, recentemente fundado pela Beata Diana de Andaló e pelo Beato Jordão da Saxônia.
     Cecília foi eleita priora do Mosteiro de Santa Inês após a morte da Beata Diana. Entre os setenta e oitenta anos, vendo sua vida exemplar chegar ao fim, e querendo edificar suas coirmãs, contava para elas as maravilhas realizadas por São Domingos em Roma, na fundação do Mosteiro de São Sixto. Suas histórias foram coletadas por Irmã Angélica e ostentam o título Miracula beati Dominici - Milagres do Beato Domingos. Desta maneira a Beata Cecília ligou o seu nome à história e à hagiografia Dominicana.
     Não deve, entretanto, causar surpresa se, feitas cerca de meio século após os fatos, essas memórias possam não ser uma fonte histórica absolutamente segura em termos de cronologia e nomes.   
     No epistolário da Beata Diana com o Beato Jordão da Saxônia, um dos primeiros companheiros do Fundador da Ordem dos Pregadores, encontra-se documentado o fervor da primeira comunidade existente no coração de Bolonha.
     Quanto à Beata Cecília, que recebeu o hábito monacal das mãos do Fundador, é atribuída a ela uma admirável descrição de São Domingos, de cujo espírito foi testemunha fidelíssima.     
     O culto das Beatas Diana, Cecília e Amada foi aprovado em 24 de dezembro de 1891 por Leão XIII. Os corpos das Bem-aventuradas ainda se conservam no Mosteiro de Santa Inês de Bolonha.

Postado neste blog em 3 de agosto de 2011


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Beata Ana Petronília da Silésia, Abadessa – 2 de agosto


     
Panorama de Znojmo
     A Beata Ana Petronília de Silésia foi uma abadessa que viveu no século XV.
     Recorda-se que ela entrou nas Clarissas de Znojmo na Morávia, um mosteiro fundado entre 1271-1273, por iniciativa do rei Pyemysl Otakar II, nas proximidades do convento dos menores franciscano.
     Para a fundação o rei trouxe quatro freiras italianas e teve o mosteiro inaugurado pelo Bispo Bruno de Schauenburg de Olomouc. Neste mosteiro Ana serviu como abadessa por muitos anos.
     Irmã Ana Petronília distinguiu-se pela extraordinária prática da penitência, dormindo em cima de uma cruz por apenas algumas horas durante cada noite. A cruz onde a Irmã Ana Petronília dormia está preservada até hoje.
     No Martirológio Franciscano é relatado que a Beata morreu em 2 de agosto de 1465 e que ela é celebrada e lembrada no dia de sua morte.

Autor: Mauro Bonato



Znojmo, na Silésia Tcheca - uma bela cidade histórica, com sua localização impressionante no rio Dyje.
     O centro histórico, com inúmeras igrejas, cercadas por muros medievais, mantém o estilo renascentista. Está cheia de ruas sinuosas, vistas românticas e cantos pitorescos. E Znojmo é o centro da famosa região vinícola.


terça-feira, 28 de julho de 2020

Santa Antusa de Onoriade, Virgem, fundadora – 27 de julho


Martírio Romano: Na cidade de Mantineion, perto de Eskihisar, em Onoriade, na atual Turquia, a Santa Antusa, uma virgem que como freira foi espancada com as varas e condenada ao exílio sob o imperador Constantino Coprônimo por defender o culto de imagens sagradas e, finalmente, voltando para casa, morreu em paz.

     Sob o nome de Antusa (Anthusa), há cinco santas, todas orientais dos primeiros séculos do Cristianismo; três também são mártires.
     A mais famosa é Santa Antusa de Constantinopla, princesa imperial filha de Constantino V Coprônimo; mas ligado a ela há a Santa Antusa, quase contemporânea, que é comemorada neste dia.
     Ela nasceu no início do século VIII, provavelmente na Oroniade (província da Anatólia, na costa do Mar Negro). Seus pais eram Estrategio e Febronia, e por muitos anos ela viveu na solidão de acordo com os ensinamentos do monge eremita Sisinio.
     Mais tarde fundou dois mosteiros em sua região, um para homens em Mantineion perto de Claudiopolis, com uma igreja dedicada aos Apóstolos; e outro para mulheres, erguida em uma ilhota no lago de Efteni-Göl, com uma igreja dedicada a Nossa Senhora. O mosteiro masculino foi agregado ao mosteiro feminino e entre os discípulos havia também São Romano.
     E chegou a hora do Imperador Constantino V Coprônimo (741-775), que com rigor persecutório queria impor a decisão do Concílio de Hieria de 754, que condenou as imagens sagradas. Os monges foram mais atingidos do que os outros, e isso deu a Constantino V, por parte dos adversários, os apelidos insultantes (Coprônimo, de kopros, esterco).
     Até a fundadora, a virgem Antusa, foi acusada de adorar as imagens, então ela foi severamente espancada e enviada para o exílio.
     Reza a história que quando a Imperatriz Irene, esposa de Constantino V, deu à luz à gêmeos, um menino e uma menina, depois de um parto difícil e perigoso, Antusa, que tinha previsto o resultado feliz da gravidez conturbada, recebeu grandes honras de parte da Imperatriz, que colocou seu nome na menina recém-nascida.
     Antusa de Onoriade foi libertada da perseguição e tornou-se famosa em todo o Império, retornou para seu mosteiro e depois da realização de muitos milagres, entregou sua alma a Deus na segunda metade do século VIII, por volta de 777.
     Ela é celebrada tanto no Oriente quanto no Ocidente em 27 de julho.


Etimologia: Anthousa é um nome grego do sexo feminino, que se classifica como uma variante do russo Anfisa, que tem relação com o nome Anthea e Antheia, da mitologia grega. Anthousa é uma das formas gregas antigas do nome, que deriva do grego “anthos”, ou seja, “flor”. A variante italiana é Antusa. Este nome é praticamente desconhecido do Ocidente, e Anfisa é usado em russo, sendo o nome de uma santa bizantina do século IX.

domingo, 26 de julho de 2020

Santa Ana e São Joaquim – 26 de julho


Pais da Santíssima Virgem Maria

     Santa Ana era a esposa de São Joaquim e foi escolhida por Deus para ser a mãe de Maria, sua própria Mãe abençoada na terra. Ambos eram da casa real de Davi, e suas vidas estavam totalmente ocupadas em oração e boas obras. Só faltava uma coisa em sua união - eles não tinham filhos, e isso era considerado um infortúnio amargo entre os judeus.
     Por fim, quando Ana era uma mulher idosa, Maria nasceu, fruto mais da graça do que da natureza, e a filha mais de Deus do que do homem. Com o nascimento de Maria, a idosa Ana começou uma nova vida: ela assistia todos os seus movimentos com reverente ternura e sentia-se santificada a cada hora pela presença de sua filha Imaculada. Mas ela recebeu sua filha de Deus e a Ele Ana devolveu.
     Maria tinha três anos quando Ana e Joaquim a levaram aos degraus do templo, a observaram entrar no santuário e depois não mais a viram. Assim, Ana foi deixada sem filhos na velhice solitária e privada de sua mais pura alegria terrena exatamente quando ela mais precisava. Ela humildemente adorou a Vontade Divina, e começou novamente a praticar o bem e rezar, até que Deus a chamou para um descanso interminável com a Santíssima Trindade na glória celestial.
*
     Deus fica satisfeito com os efeitos visíveis que testemunham o quanto Ele é honrado pela devoção dos fiéis a Santa Ana, que é grande modelo de virtude para todos no estado de casado e encarregada da educação dos filhos. Foi uma dignidade sublime e uma grande honra para esses santos darem a um mundo perdido a advogado da misericórdia e, ao mesmo tempo, serem os pais dessa advogada que em breve seria exaltada com dignidade inimaginável como Mãe de Deus.
    Mas era uma felicidade muito maior ser, pela graça de Deus, o maior instrumento da virtude de Maria, e ser espiritualmente sua mãe por uma educação santa, em perfeita inocência e santidade. Santa Ana, sendo ela mesma um vaso de graça, não apenas pelo nome, mas pela posse desse rico tesouro, foi escolhida por Deus para formar a alma da Santíssima Virgem Maria em perfeita virtude - e seu piedoso cuidado com essa ilustre filha foi o maior meio de sua própria santificação e glória na Igreja de Deus até o fim dos tempos.
     É uma lição para todos os pais cujo principal dever é a santa educação de seus filhos. Com isso, eles glorificam seu Criador, perpetuam Sua honra na terra e santificam suas próprias almas. São Paulo diz que é pela educação de seus filhos que os pais serão salvos. No entanto, vemos pais solícitos pelas qualificações mundanas de seus filhos e empenhados em conseguir um estabelecimento no mundo; mas extremamente descuidados em nutri-los na virtude, na qual somente a verdadeira felicidade deles consiste.
     Essa reflexão levou às lágrimas Crates, um filósofo pagão que desejava subir ao lugar mais alto de sua cidade e gritar, com todas as suas forças: “Cidadãos, o que vocês pensam? Vocês empregam todo o seu tempo acumulando riquezas para deixar para seus filhos; todavia, não se preocupam em cultivar suas almas com virtude, como se um estado fosse mais precioso que eles mesmos”.
Apresentação de Na. Sra. no Templo
     A palavra hebraica ‘Ana’ significa ‘graciosa’. São Joaquim e Santa Ana, os pais da Bem-Aventurada Virgem Maria, são justamente honrados na Igreja, e sua virtude é altamente louvada por São João Damasceno. O imperador Justiniano I construiu uma igreja em Constantinopla em homenagem a Santa Ana, por volta do ano 550. Codinus menciona outra construída por Justiniano II em 705. Seu corpo foi levado da Palestina para Constantinopla em 710, de onde algumas partes de suas relíquias foram disseminadas no Ocidente. F. Cuper, o bolandista, colecionou um grande número de milagres obtidos ​​por sua intercessão.
     Dois santuários populares para Santa Ana são o de Ste. Anne D'Auray, na Bretanha, no oeste da França, e o de St. Anne de Beaupre, perto de Quebec, onde há inúmeras lembranças em ação de graças pelos favores e curas concedidas.

Oração a Santa Ana
     Santa Ana, fostes especialmente favorecida por Deus para ser a mãe da Santíssima Virgem Maria, a Mãe de Nosso Salvador. Pelo seu poder junto à sua filha puríssima e ao seu Filho Divino, obtenha gentilmente para nós a graça e o favor que agora buscamos.
       Rogamos, garanta também o perdão dos pecados passados, a força para cumprir fielmente nossos deveres diários e a ajuda que precisamos para perseverar no amor de Jesus e Maria.
Amém.

Fonte: Vida dos Santos de Butler em 1894;
Tirada da Vida dos Santos de Butler em 1903



sexta-feira, 24 de julho de 2020

Beata Luísa de Savoia, Esposa exemplar, Clarissa perfeita – 24 de julho

     

     Luísa provavelmente nasceu em Bourg-en-Bresse no dia 28 de dezembro de 1462, quinta de nove filhos do Beato Amadeu IX de Savoia e de Iolanda de França, irmã do rei Luís XI. Por parte da mãe era neta do Rei Carlos VII da França, sobrinha do Rei Luís XI e prima de Santa Joana de Valois. Se ilustre era pela nobreza de linhagem, mais ilustre se tornou pela santidade de vida.
     A capital do ducado era Chambery, mas a corte era itinerante para um controle direto dos territórios sob sua jurisdição. A Casa de Savoia já então era proprietária do Santo Sudário, tesouro precioso que acompanhava a corte em seus deslocamentos. Podemos imaginar toda a veneração de que esta relíquia era alvo por parte de Amadeu e da pequena Luísa.
     Extremamente religioso e magnânimo, depois de ter assegurado ao seu povo um longo período de paz, o Beato Amadeu morreu em Vercelli no dia 30 de março de 1472, aos trinta e oito anos de idade. Luísa não tinha ainda dez. Herdou do pai uma fé profunda; a mãe, de caráter mais forte do que o esposo, tornara-se regente do ducado há alguns anos.
     A menina foi educada admiravelmente por sua mãe. Desde muito pequena dava mostras de possuir qualidades espirituais extraordinárias. Catarina de Saulx, uma das damas de honra de Luísa escreveu sobre ela as seguintes palavras: “Era tão doce e generosa, bem disposta e amável, que despertava o afeto de todos que se deixavam levar por sua atração e conquistar pelo seu encanto”.
     A doçura da jovem Luísa atraiu Hugo de Châlons-Arlay, Senhor de Château-Guyon catorze anos mais velho do que ela, membro do ramo deposto dos Senhores de Borgonha, hóspede em Chambery durante sete anos após ter caído em desgraça.
     Os eventos políticos daqueles tempos eram muito complicados, os interesses territoriais causavam numerosas guerras. Iolanda selara um pacto com Carlos o Temerário, Duque de Borgonha, mas sendo alvo de uma suspeita de complô, foi presa com os filhos pelo seu aliado (1476). Na solidão de uma prisão não tão rígida, Luísa fez um retiro e conheceu o franciscano Padre João Perrin, que no futuro teria muita importância para ela.
     Hugo visitou-a na prisão e entre eles foi crescendo o afeto. Embora Luísa começasse a desejar o retiro na clausura, foi o Padre Perrin quem a convenceu de que também no matrimônio ela poderia viver santamente.
     Entrementes, devido a intercessão do Rei Luís XI, Iolanda e os filhos foram libertados. Iolanda morreu no Castelo de Moncalieri no dia 29 de agosto de 1478. Luísa e a irmã Maria foram conduzidas à corte de Luís XI que se considerava tutor natural das sobrinhas. Ele tinha um interesse: o casamento da sobrinha com Hugo de Châlons significava ter um importante aliado. Luísa aquiesceu.
     As núpcias foram celebradas solenemente em Dijon a 24 de agosto de 1479. Luísa tinha dezessete anos. O Castelo de Nozeroy foi escolhido para morada do novo casal. Hugo se tornara proprietário de um patrimônio considerável; nos arquivos de Arlay e de Besançon podemos tomar conhecimento das largas doações feitas pelo casal aos menos favorecidos.
     O Senhor de Nozeroy era um homem tão bom quanto rico. De acordo com sua esposa, impôs em seu castelo uma vida perfeitamente católica. Tanto por exemplo como por preceito, marido e mulher criaram um nível de vida moral e material para todos os que moravam em suas terras e dependiam deles de alguma maneira. Em contraste com os palácios e residências de outros nobres, o suntuoso palácio dos de Châlons parecia um mosteiro. Com grande empenho se combatia o costume de jurar ou de usar palavras grosseiras.
     Luísa foi a primeira dama a ter uma caixa para os pobres, na qual todos os que viviam ou visitavam sua casa tinham a obrigação de colocar dinheiro, caso jurassem ou dissessem palavras feias. Luísa prodigalizou grande caridade aos enfermos e necessitados, viúvas e órfãos, especialmente aos leprosos. Ela se dedicava pessoalmente na confecção de tecidos para distribuí-los aos pobres ou para ornamentar as igrejas.
     Nas vigílias das festas de Nossa Senhora, Luísa rezava 365 Ave-Marias. Rezava muitas vezes o saltério. Confessava-se frequentemente e comungava nas festas. Muitas vezes, depois duma festa mundana, dizia: “Senhor Deus, quanto estou aborrecida! De tudo isto será preciso dar contas”. Os decotes desgostavam-na e ela proibia-os às suas damas. Não queria que se jogasse a dinheiro, mas tolerava, caso se tratasse de insignificâncias. E a quem perdia aconselhava: “Dê tudo por Deus, não conserve nada”.
     Enfim, a oração era o fundamento da união do casal. Tão feliz união, entretanto, durou somente dez anos: em 1490 a dor golpeia Luísa novamente. Depois de ter assistido seu esposo até seu sepultamento, restava a ela como único refúgio a fé. O casal não tivera filhos; Luísa poderia viver como rica viúva no seu castelo, ou contrair um novo casamento, mas seu desejo maior era de consagrar-se ao Senhor.
     O Padre Perrin a guiou espiritualmente até seu ingresso no Mosteiro de Santa Clara de Orbe (Vaud, atual Suíça). Ela precisou de dois anos para colocar em ordem todos os assuntos; durante este período usou o hábito dos terciários franciscanos, aprendeu a rezar o Ofício Divino e se levantava a meia-noite para rezar Matinas. Toda sexta-feira se disciplinava. Distribuiu sua fortuna, contestou as objeções de seus parentes e amigos.
     Em vida do marido, na Quinta-feira Santa ele lavava os pés a treze pobres e ela a treze mulheres. Morrendo ele, ela manteve as treze mulheres da Semana Santa, mas acrescentou, em todas as sextas-feiras, a lavagem dos pés de cinco pobrezinhas, dando-lhes depois esmola.
     Finalmente, em 1492, acompanhada de suas duas damas de honra, Catarina de Saulx e Carlota de Saint-Maurice, foi admitida no Convento das Clarissas Pobres de Orbe. Este mosteiro havia sido fundado pela mãe de Hugo de Châlons, e desde 1427 era ocupado por uma comunidade de Santa Coleta, a reformadora francesa das Clarissas. Muitas vezes Luísa ali fora para rezar e visitar sua cunhada, Filipina, monja naquele mosteiro.
     O hábito simples franciscano substituiu as roupas preciosas. Tendo sido um modelo de donzela, de esposa e de viúva, Luísa se tornou um modelo de monja. Foi sempre uma religiosa exemplar. Grande era seu espírito de piedade e de oração, em uma atmosfera austera e pobre. Sua humildade era sincera e natural: lavava os pratos, varria, ajudava na cozinha, limpava os corredores e tudo fazia bem e com gosto. Com a mesma simplicidade e naturalidade aceitou e desempenhou o cargo de abadessa quando a elegeram. Neste cargo mostrou especial solicitude em servir aos frades de sua Ordem, e qualquer deles que chegassem a se hospedar no convento era atendido regiamente; a presença dos padres e dos irmãos era como uma bênção de Deus e nada podia faltar aos filhos do “bom pai São Francisco”.
     Escreveu meditações sobre o Rosário e é-lhe atribuído um pequeno tratado sobre a importância da fidelidade à Regra, e os sinais de tibieza num mosteiro. Citemos: “Quando se frequentam demais os locutórios... Quando se leem livros espirituais mais para aprender do que praticar; quando se leem capítulos por costume e se dizem culpas a fingir e não para procurar emenda... Quando se tem mais cuidado do exterior que do interior...”. Estes manuscritos foram levados pelas irmãs quando da transferência de Orbe para Evian, mas hoje estão desaparecidos.
          Ela também teve muito empenho na canonização de Colette de Corbie. Entre 1492 e 1495, a Irmã Luísa tomou medidas para encerrar o caso de forma bem sucedida, pedindo também o apoio do rei da França, mas suas aspirações serão realizadas séculos depois: primeiro com a beatificação de 23 de janeiro de 1740 pelo Papa Clemente VIII (1536 - 1605) e depois com a canonização de 24 de maio de 1807 sob o pontificado de Pio VII (1742 -1823).
     No último período de sua vida Santa Luísa sofreu diversas doenças. Morreu sussurrando o nome da Virgem Maria no dia 24 de julho de 1503. Tinha somente quarenta anos; foi sepultada no cemitério do convento. A fama de sua santidade logo se difundiu; as primeiras notas biográficas foram escritas por Catarina de Saulx, sua companheira fiel por vinte anos, antes e depois da entrada no mosteiro.
     Quando em 1531 as monjas foram expulsas de Orbe, os seus despojos, bem como os da cunhada Filipina, foram colocados em uma única arca de carvalho, transportada para o convento franciscano de Nozeroy. Durante a nefasta Revolução Francesa o convento foi destruído e se perdeu qualquer pista dos túmulos.
     Em 1838, escavações foram feitas em busca da arca, a qual foi encontrada em boas condições. Os ossos de Luísa foram reconhecidos pelo médico Dr. David após uma escrupulosa perícia baseada na altura e idade das duas falecidas. Foram confiadas ao Mons. Vogliotti, capelão régio, a fim de serem transportadas a Turim para serem colocadas, com as devidas honras, na capela interna do Palácio Real, na época paróquia, junto ao altar dedicado ao pai de Luísa, o Beato Amadeu IX (1840).
     O Papa Gregório XVI confirmou, em 1839, o culto prestado deste tempo imemorial à beata. Teve Ofício e Missa nas dioceses do antigo reino da Sardenha, a 11 de agosto, e entre os franciscanos, a 1º de outubro; ficou sendo festejada a 24 de julho.

Livro Santos de cada Dia, de www.jesuitas.pt

Postado neste blog em 22 de julho de 2016

terça-feira, 21 de julho de 2020

Beata Lucrécia Garcia Solanas, Viúva e mártir de 1936 - 21 de julho

   
      Lucrécia Garcia Solanas nasceu em Aniñon, perto de Zaragoza, no dia 13 de agosto de 1866. Em 9 de outubro de 1910 casou-se com José Gaudi Negre, que faleceu em 1926. Não se sabe se tiveram filhos. Desde então ela passou a viver no convento das monjas do Instituto das Descalças Mínimas de São Francisco de Paula, em Barcelona, em uma casa fora da clausura, para ficar próxima de sua irmã, Madre Maria de Montserrat.
     Sempre à disposição das monjas, atuava como porteira recebendo as mensagens para elas; era mediadora entre o mosteiro e o mundo exterior. Muito piedosa, se habituara a seguir as orações da comunidade.
     Sua história foi recentemente relatada pelo Monsenhor Vicente Cárcel Ortí, historiador e autor de vários livros que contam a história de católicos perseguidos na Espanha.
     Conforme seu relato, tudo começou no dia 19 de julho de 1936, quando Lucrécia foi correndo ao convento para avisar as religiosas para deixarem o lugar imediatamente, uma vez que várias igrejas em Barcelona estavam sendo queimadas pelos responsáveis pela perseguição religiosa.
     Madre Maria de Montserrat, superiora daquele Instituto, que apesar da violência até aquele momento não quisera deixar o convento, ordenou às irmãs que se vestissem como civis, se escondendo em uma torre nas proximidades do local, além de se refugiarem em vários lugares, incluindo o porão da casa da viúva, que ficava ao lado do convento.
     Em 21 de julho um grupo armado entrou no mosteiro, forçando a porta com dinamite. Os “vermelhos” entraram na igreja adjacente, a profanaram e depois a queimaram. Tentando saquear o mosteiro, os republicanos profanaram os corpos de duas irmãs enterradas alguns meses antes, deixando-os expostos ao ridículo público.
     De onde estavam escondidas, algumas das Irmãs podiam ouvir o ruído dos milicianos que com a ajuda de cães buscavam suas vítimas.
     No dia 22 de julho, o grupo de refugiadas aumentou, porque algumas delas voltaram por não poderem permanecer mais em suas casas. No dia seguinte, o porteiro do convento as traiu. Os anticatólicos as encontraram na torre rezando o Rosário. Perguntaram quem era a Madre Superiora para interrogá-la sobre as riquezas que esperavam encontrar no mosteiro.
     A Madre ofereceu a própria vida em troca da de suas Irmãs, disse aos milicianos que Lucrécia era uma leiga, porém eles não a escutaram e quiseram saber onde estavam as outras monjas. Encontraram-nas no sótão, rezando de joelhos. Todas foram aprisionadas e começou para elas o Calvário.
     Os comunistas insultaram as religiosas, colocaram seus rosários ao redor de seus pescoços e, ridicularizando-as, puseram-nas em fila para arrastá-las pela rua. Somente uma delas, irmã de um famoso anarquista, foi poupada. Amparo Bosch Vilanova, testemunha ocular, descreveu o fim das outras Irmãs: “Colocaram-nas em fila como se fossem receber a Comunhão, empurraram-nas para a rua onde havia um caminhão, onde as jogaram como sacos de batatas, com uma violência tal, que com certeza lhes quebraram algum osso”.
     O caminhão se dirigiu a Santo André, onde as mulheres, depois de terem sido submetidas a prolongadas torturas, foram assassinadas. Algumas testemunhas disseram que por volta das 19 h desse dia foram ouvidos vários disparos. Os corpos das monjas foram deixados amontoados. Era um total de dez, nove religiosas e uma leiga. Tinham feridas de arma branca no peito e nas partes íntimas, as roupas arrancadas.
     Enquanto eram torturadas pelos “vermelhos”, todas as monjas, e com elas Lucrécia, temiam mais a violação do que a morte e em seus corpos deixaram sinais de uma luta terrível. Uma mulher relatou que os próprios agressores ficaram perturbados diante da valentia dessas mulheres, inclusive comentado no bar, depois de tê-las martirizado: “Que monjas mais valentes morreram hoje!” Segundo outras testemunhas, as dez mártires haviam dado suas vidas rezando de joelhos e pedindo o perdão para seus verdugos.
     No dia 13 de outubro de 2013, 522 mártires da Guerra Civil Espanhola foram beatificados em Tarragona. Entre os mártires estavam sacerdotes, religiosos, religiosas, vários leigos que deram sua vida em defesa da Fé, inclusive Lucrécia Garcia Solanas. 

As mártires Descalças Mínimas


Etimologia: Lucrécia, do latim Lucretius: “que atrai, que lucra”. Alguns estudiosos acreditam que deriva do Monte Lucretilis, em Sabina, Itália, de onde a gens Lucretia proveio.

Postado neste blog em 20 de julho de 2014

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Santa Odília de Colônia, mártir – 18 de julho


Santa Odília e os crúzios que encontraram suas relíquias
Padroeira dos Cônegos Regulares da Ordem da Santa Cruz

     Odília de Colônia foi uma mártir e santa da Igreja Católica do século IV, filha de um poderoso governante da Grã-Bretanha. Por volta do ano 383 Odília e dez outras virgens, entre elas Santa Úrsula, partiram da Inglaterra, em uma peregrinação ao Oriente. Essas virgens foram procurar um lugar onde pudessem praticar sua fé em paz e sossego, mas às portas de Colônia (Alemanha) foram recebidas pelos bárbaros Hunos e morreram em defesa de sua pureza e fé cristãs.
     Cerca de 800 anos mais tarde, em 1287, Odília apareceu a João Novelan, um irmão dos Cônegos Regulares da Ordem da Santa Cruz, e lhe disse que tinha sido nomeada por Deus para ser a Padroeira e Protetora dos membros da Ordem (agora comumente chamados de Padres Crúzios). Ela informou também que suas relíquias se encontravam em um pomar em Colônia e pediu-lhe para desenterrá-las. Ele pediu a permissão de seu superior, mas foi recusada. Santa Odília apareceu mais duas vezes. Finalmente, o Prior consentiu e ordenou um padre da Ordem para acompanhar o irmão.
     Quando os dois chegaram à Colônia, tiveram problemas em encontrar as relíquias. Eles informaram o arcebispo, que veio pessoalmente para testemunhar os resultados. Três urnas foram descobertas, e nelas foram encontrados os restos mortais de Odília, Ida e Ema.
     Santa Odília havia instruído o Irmão João que suas relíquias deviam ser levadas para a Casa Mãe da Ordem em Huy, na Bélgica.
     Em 1797, na época da Revolução Francesa, o Mosteiro de Huy foi totalmente destruído, entretanto um padre conseguira escapar com as relíquias de Santa Odília. As relíquias permaneceram em uma igreja paroquial em Kerniel, Bélgica, durante muitos anos.
     Felizmente, em 1949, suas relíquias foram devolvidas para a Ordem, e uma grande porção de seus ossos foi levada para Onamia, Estados Unidos, onde permanecem em um relicário de mármore, dentro de um santuário.
     Santa Odília é a Padroeira dos Crúzios e sua festa litúrgica é no dia 18 de julho.

*

    Os Cruzios
     A palavra significa portadores cruzados; foram fundados no ano de 1210 em Liege, Bélgica, pelo Beato Teodoro De Celles. Em 1287 Odília apareceu para o Irmão João de Eppa no mosteiro em Paris. Ela explicou que Deus ordenara que ela seria a protetora da Ordem. Ela disse-lhe onde suas relíquias seriam encontradas, e afirmou que elas deveriam ser levadas para a Casa-Mãe em Huy, Bélgica.
     A Ordem sofreu muito durante as Revoluções Protestante e Francesa. A Casa-Mãe foi destruída em 1797, mas um padre escapou com as relíquias de Sta. Odília. Mais tarde, elas foram encontradas em uma igreja paroquial em Kerniel, Bélgica. Finalmente, em 1949, as relíquias foram devolvidas aos crúzios e foram levadas em procissão solene ao mosteiro s Ordem em Diest, Bélgica.
     Em 1850, os crúzios chegaram à região de Green Bay, Wisconsin, mas ficaram apenas cerca de 26 anos. Em 1910, vários membros da Ordem se estabeleceram em Onamia (*), viajando da Holanda com imigrantes holandeses. Em 1922, eles tinham construído uma igreja e um mosteiro. Em 1952, uma grande porção de um osso do braço foi trazida para a Onamia e um santuário foi criado para homenagear a Padroeira dos Cegos e Aflitos e a Padroeira da Ordem Crosier. Muitas curas foram obtidas através da intercessão de St. Odília. Vale a pena uma viagem à Onamia para ver esse lindo santuário, os vitrais na capela e os prédios históricos.
     Em 2010, os crúzios celebraram seu Ano Jubilar, 800 anos desde a fundação da Ordem em 1210 e 100 anos desde seu estabelecimento permanente nos Estados Unidos em 1910. Hoje, mais de 400 crúzios vivem e servem a Igreja em onze países em cinco continentes, incluindo 75 deles nos Estados Unidos. Os crúzios comprometem-se com uma vida de comunidade, oração e ministério; eles compartilham uma espiritualidade, a da cruz. Santo Agostinho ensinou que conhecemos e experimentamos Deus em nossas relações com os outros, especialmente na comunidade. O título canônico completo é o Cânones Regular da Ordem da Santa Cruz de Santo Agostinho.

(*) Onamia é uma cidade localizada no estado americano de Minnesota, no Condado de Mille Lacs.
 
Relicário de Santa Odília de Colônia