terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Santa Xênia ou Eusébia de Milasa, Virgem - 24 de janeiro

    
     Temos poucas informações sobre Eusébia, ou Xênia, e sua “vita” contém elementos legendários.
     Ela nasceu em Roma no século V; cristã convicta, era filha única do famoso senador de Roma, Eusébio. Muito jovem decidiu permanecer virgem e para evitar o casamento que lhe seria imposto, partiu para a Alexandria junto com duas escravas.
    Passou sua vida em Milasa, antiga região sul-oriental da Ásia Menor, habitada pela população de estirpe asiática, colônia grega, especialmente na costa onde floresceram cidades como Mileto, Halicarnasso, Magnesia, Cnido.
     Convenceu suas acompanhantes a chamá-la de Xênia, que em grego significa "peregrina," para que fosse mais difícil encontrá-la. Quando se encontrou com o abade do convento do apóstolo Santo André, que estava na cidade de Mileto (na Cária *) ela pediu que ele a levasse, junto com suas acompanhantes, para a cidade de Milasa.
     Ali ela comprou um terreno e construiu uma Igreja consagrada a Santo Estevão e organizou um mosteiro feminino. Um milagre feito por ela confirmou a sua santidade entre a população.
     Maiores informações são dadas na “Bibliotheca Hagiographica Graeca”, 3 vols. editada em 3a edição em Bruxelas, 1957, em língua grega ou francesa.
     Faleceu na segunda metade do século V. Durante seu falecimento ocorreram milagrosos sinais.
     A sua festa é celebrada em 24 de janeiro. Os dois nomes, Eusébia e Xênia, são de origem grega. Eusébia significa ‘piedosa, religiosa’ do grego Eysèbios, e é pouco usado no feminino; enquanto que Xênia, que significa “peregrina”, é bastante usado nos países do Oriente cristão e nos países de religião greco-ortodoxa.

Fuente: www.santiebeati.it/;
oremosjuntos.com

(*) Cária era o nome de uma região no Oeste da antiga Ásia Menor (Anatólia) que se estendia ao longo da costa da Jônia, de Mícale (Mykale) para o sul até a Lícia e para o leste até a Frígia. Os gregos jônios e dórios colonizaram a porção ocidental da Cária e se juntaram à população nativa para formar estados de matiz grega na região. Os epônimos, habitantes nativos da região, eram conhecidos como "cários" e Heródoto os descreve como sendo de ascendência minoica.
     O Reino da Cária emergiu como um reino neo-hitita por volta do século XI a.C. A costa era parte da hexápole dórica ("seis cidades") depois que eles chegaram no final da Guerra de Troia na última e mais meridional das ondas migratórias gregas para a costa Anatólia ocupando as antigas povoações micênicas como Cnido e Halicarnasso (moderna Bodrum), onde nasceu Heródoto, o famoso historiador grego, no século V a.C.
     Porém, a colonização grega atingiu apenas a costa enquanto que o interior permaneceu sob controle cário e organizado em numerosas vilas e federações locais. A Ilíada relata que, na época da Guerra de Troia, a cidade de Mileto ainda estava sob controle cário e era aliada dos troianos.
     Lemprière lembra que "como a Cária provavelmente era abundante em figueiras, uma espécie em particular recebeu o nome de 'Carica' e a expressão 'In Care periculum facere' foi utilizada proverbialmente para situações onde se corre perigo em busca de uma coisa de pouco valor". A região da Cária continua a ser uma importante região produtora de figos até hoje, respondendo por quase toda a produção da Turquia, que é o maior produtor mundial de figos.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Nossa Senhora do Milagre: aparição e conversão de Ratisbonne – 20 de janeiro

    
     Um dos fatos marcantes da história religiosa do século XIX foi a aparição de Nossa Senhora ao judeu Afonso Ratisbonne e sua retumbante conversão ao Catolicismo.
     A aparição está intimamente ligada à série de manifestações extraordinárias ao mundo, iniciada com a Medalha Milagrosa na Rue du Bac (Paris, 1820), e continuada de um modo mais destacado em La Salette (1846) e Lourdes (1858).
     Muito distante da fé católica vivia o jovem banqueiro Afonso Ratisbonne, natural de Estrasburgo, nascido em 1814, de riquíssima família israelita.
     No dia 20 de janeiro de 1842, em viagem turística a Roma, por curiosidade meramente artística ele acedeu entrar na Igreja de Sant’Andrea delle Fratte, acompanhado de um amigo, o Barão de Bussières.
     Enquanto este foi à sacristia, a fim de encomendar uma missa, o jovem judeu apreciava as obras de arte daquele templo.
     Quando se encontrava diante do altar consagrado a Nossa Senhora das Graças da Medalha Milagrosa (hoje conhecido como altar da Madonna del Miracolo — Nossa Senhora do Milagre), Ela apareceu-lhe e o converteu instantaneamente de inimigo da Igreja Católica em seu fervoroso apóstolo.
O quadro
     O quadro da Madonna del Miracolo (Nossa Senhora do Milagre) aparece com a fronte encimada por uma coroa e por um resplendor em forma de círculo de 12 estrelas que evoca a Mulher do Apocalipse.
     A fisionomia é discretamente sorridente, com o olhar voltado para quem estiver ajoelhado diante d’Ela. Muito afável, mas ao mesmo tempo muito régia. Pelo porte, dá impressão de uma pessoa alta, esguia sem ser magra, muito bem proporcionada e com algo de imponderável da consciência de sua própria dignidade.
     Tem-se a impressão de uma rainha, muito menos pela coroa do que pelo todo d’Ela, pelo misto de grandeza e de misericórdia. A pessoa que a contempla tende a ficar apaziguada, serenada, tranquilizada, como quem sente acalmadas as suas más paixões em agitação, como se Ela dissesse: “Meu filho, eu arranjo tudo, não se atormente, estou aqui ouvindo a você que precisa de tudo, mas eu posso tudo, e o meu desejo é de dar-lhe tudo.
Portanto, não tenha dúvida, espere mais um pouco, mas atendê-lo-ei abundantemente”.
     A pintura tem um certo ar de mistério, mas um mistério suave e diáfano. Seria como o mistério de um dia com um céu muito azul, em que se pergunta o que haverá para além do azul.  Mas não é um mistério carregado, é um mistério que fica por detrás do azul e não por detrás das nuvens.
     Notem a impressão de pureza que o quadro transmite. Ele comunica algo do prazer de ser puro, fazendo compreender que a felicidade não está na impureza, ao invés do que muita gente pensa. É o contrário. Possuindo verdadeiramente a pureza, compreende-se a inefável felicidade que ela concede, perto da qual toda a pseudo felicidade da impureza é lixo, tormento e aflição.
     Notem também a humildade. Ela revela uma atitude de rainha, mas fazendo abstração de toda superioridade sobre a pessoa que reza diante d’Ela, trata a pessoa como se tivesse proporção com Ela; quando nenhum de nós tem essa proporção, nem mesmo os santos.
     Entretanto, se aparecesse Nosso Senhor Jesus Cristo, Ela ajoelhar-se-ia para adorar Aquele que é infinitamente mais. Ela tem a felicidade inefável da despretensão e da pureza.
     Diante de um mundo que o demônio vai arrastando para o mal, pelo prazer da impureza e do orgulho, a Madonna del Miracolo comunica-nos esse prazer da despretensão e da pureza.
Oração à Madonna del Miracolo
     “Ó Imaculada Mãe de Deus, Madonna del Miracolo, que quisestes conquistar com um singular prodígio de vossa misericórdia o israelita Afonso Ratisbonne, acolhei as súplicas que vos apresentamos com confiança, como um dia acolhestes as súplicas daqueles que a Vós recorreram pedindo a conversão do filho judeu.
     “Obtende-nos também uma sincera e total conversão à graça e todos os bens da alma e do corpo. Vossa clemência triunfou sobre Ratisbonne, persuadindo-o a receber o batismo e a empenhar-se com vontade séria na observância dos Mandamentos.
     “Por esta conquista do vosso amor, obtende-nos a perseverança no cumprimento das promessas do batismo. Fazei com que nenhum obstáculo se interponha à nossa observância dos preceitos de Deus e da Igreja.
     “Vossas mãos resplandecentes são símbolo das inumeráveis graças que com maternal bondade dispensais profusamente sobre a Terra. Fazei resplandecer também sobre nós um raio da vossa misericórdia”.

Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, “Catolicismo”, janeiro 2006; e “Catolicismo”, janeiro 2007)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Beatas Felicitas Pricet, Mônica Pichery, Carlota Lucas e Vitoria Gusteau, Mártires de 1794 – 18 de janeiro


Martirologio Romano: Em Avrillé, Angers, França, Beatas Felicitas Pricet, Mônica Pichery, Carlota Lucas e Vitoria Gusteau, mártires, que, enquanto a revolução francesa recrudescia, foram fuziladas por ódio à fé cristã.

    Estas beatas estavam entre as 99 mártires de Angers, Angers, França, durante a Revolução Francesa. Estas quatro mulheres leigas morreram pela fé cristã durante a época do Terror, em 1794.
     Verdadeiras cristãs que deram seu testemunho perdoando seus verdugos. Nos últimos momentos manifestavam a profundidade de sua fé. Algumas cantavam hinos e salmos até chegar ao lugar do suplício, quando “pediram alguns minutos para dedicar a Deus o sacrifício de suas vidas e o faziam com tanto fervor, que até seus verdugos ficaram atônitos”.
     Na diocese de Angers, no dia 19 de fevereiro de 1984, na Missa de beatificação deste grupo de mulheres que elevou aos altares, o papa João Paulo II citou o testemunho do Abade Gruget, que relatou detalhes do episódio.
  
-Felicitas Pricet, leiga, camponesa, nascida em Chatillon, França, por volta de 1746.

-Mônica Pichery, leiga, comerciante, nascida em Chalonnes-sur-Loire, França, em 4 de abril de 1762.

-Carlota Lucas, leiga, professora, nascida em Chalonnes-sur-Loire, em 1º de abril de 1752, morta em Avrillé, França, em 18 de janeiro de 1794.

-Vitória Gusteau, leiga, camponesa, nascida em Chatillon, França, cerca de 1746.

     Todas foram executadas no dia 18 de janeiro de 1794.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Beata Mência ou Menzia d’Avalos, Clarissa - 15 de janeiro

    
Catedral de Palencia, Espanha


     De acordo com o martirológio franciscano, Menzia ou Mência d'Avalos é uma monja Clarissa que é definida com o título de beata.
      Neste texto ela é lembrada como um exemplo de "prudentia et devotione in Crucifixum insignis", isto é, insigne sabedoria e devoção ao Crucifixo (ou ao Crucificado).
      Também é citada entre os beatos e veneráveis espanhóis do texto do Padre Pietro Antonio, M. O. Reformado de Veneza: "Um histórico jardim seráfico de flores e frutos de virtude, zelo e santidade nas três Ordens estabelecidas pelo Grande Patriarca São Francisco”, impresso na província do Vêneto em 1710.
      No "Annales Minurum seu trium Ordinum a S. Fracisco Istitutorum" é chamada Mência e definida como uma religiosa piedosa.
      Ela viveu no mosteiro de Nossa Senhora da Consolação, perto de Palencia, uma cidade da comunidade de Castela, na Espanha, e parece que faleceu por volta de 1480.
      A Beata Menzia é lembrada no dia 15 de janeiro.



Etimologia: Mência = A merecedora. Origem: latina, nome feminino.

Curiosidades: Mencía, na Espanha; Jaen, em Portugal. Esta é uma uva tinta nativa da Península Ibérica, de pele grossa, azul violeta. É vigorosa e exige cuidado do viticultor para conter sua extraordinária produtividade. Amadurece cedo, em meados de setembro. É bem adequada ao clima marítimo da região, onde chuvas de outono são bastante comuns. Na Espanha, Mencía encontrou seu lar nas comunidades autônomas da Galiza e de Castela e Leão. É a principal uva de denominações como Bierzo e Ribeira Sacra.

Mércia = “graça”, “misericórdia”, “dom divino”.
     Mércia tem origem no nome inglês Mercy ou Mercia, os quais por sua vez, surgem a partir da palavra da língua francesa merci, que significa “graça”, “misericórdia”, “dom divino”.
     Na Inglaterra, seus registos datam do século XVII e foi adotado pelos cristãos, da mesma forma que os nomes Charity, Faith e Hope, que significam caridade, fé e esperança, em português.
     Assim, esse nome carrega o mesmo sentido de que o espanhol Mercedes, bem como do nome Graça. No que respeita ao nome Graça, por sua vez, este tem também origem religiosa. Trata-se, sem dúvida, de um bonito nome que reflete uma aproximação com o divino, uma vez que a graça, num sentido espiritual, significa uma dádiva ou um presente de Deus.
     Embora sua semelhança gráfica com Márcia, os nomes não têm qualquer relação, uma vez que a origem de Márcia decorre do latim Marcius, que significa “guerreiro”.

     Os d'Avalos (na Espanha, o sobrenome pode grafar Dávalos e, às vezes, também Abalón) possuem sangue gótico, no entanto, aparece em quase toda a antiga nobreza da Península Ibérica. De acordo com a tradição, quando os visigodos ocuparam a Espanha, subtraindo-a do domínio romano, o antepassado bárbaro dos d'Avalos teria se instalado na cidade de San Felix Dávalos em Navarra. Os seus descendentes passaram para Aragão e, portanto, para a Andaluzia, distinguindo-se nas operações militares plurisseculares da Reconquista.
     O primeiro Dávalos digno de menção foi Lopez Fernández Dávalos, alcaide de Ubeda no início do século XIV, durante o reinado de Fernando IV de Castela. No final do século XIV, Ruy López Dávalos tornou-se Condestável  de Castela, bem como Adelantado Mayor de Murcia, camareiro e excelente auxiliar de Henrique III, rei de Castela e de Leão. Foi Ruy López, progenitor de todos os ramos da família que se mudou para Toledo, Aragão, Múrcia, Peru.
     Ruy López Dávalos casou-se três vezes. A partir desses casamentos, ele teve dez filhos que chegaram à idade adulta. Do casamento com sua primeira esposa, Maria Gutierrez de Fontecha, teve dois meninos e uma menina: Pedro López Dávalos, Diego Lopez Dávalos e Maria Dávalos. O segundo casamento foi com Elvira de Guevara, de quem tinha dois meninos e duas meninas: Beltran Dávalos, Hernando Dávalos, Mencia Dávalos (nossa Beata) e Costanza Dávalos. O último casamento foi com Constança de Tovar, de quem ele teve três filhos: Innico, Alfonso e Rodrigo. Um desses três filhos, Innico I d'Avalos, teria originado o ramo italiano de d'Avalos.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Adele Brise e O Milagre do Incêndio de Peshtigo (EUA)

    
     Quando jovem, Marie Adele Joseph Brise viveu na Bélgica, origem de sua família. Pertenceu a um grupo de fervorosas amigas, que tinham feito promessa de se tornarem religiosas. Mas em meados do século XIX seus pais decidiram emigrar da Bélgica rumo aos Estados Unidos, um país novo e meio desconhecido. Pior ainda, não iriam para uma cidade ou região já civilizada, mas se estabeleceriam no Wisconsin, então um local na fronteira entre a civilização e o desconhecido. Nem indícios de conventos havia por lá. Enquanto as amigas cumpriam a promessa, aos 24 anos (ela nascera em 30/1/1831) obedeceu aos pais e partiu com seus familiares para o outro lado do mundo. Na região os imigrantes tendiam a ficar em fazendas muito distantes entre si e devido à falta de igrejas, capelas ou escolas, iam perdendo a fé por falta de práticas religiosas.
     Em outubro de 1859, Adele ia ao moinho levando um saco de grãos na cabeça, quando viu entre duas árvores uma Senhora vestida de branco. Assustada, não se moveu. A Senhora nada disse, e lentamente desapareceu, deixando uma nuvem branca no local. Adele terminou sua tarefa e retornou para casa, onde comentou com os pais o sucedido. Estes julgaram que talvez se tratasse de uma alma do Purgatório que necessitava de orações.
     No domingo seguinte, dia 9 de outubro, ela saiu para ir à missa, acompanhada de sua irmã e uma vizinha. A igreja ficava a 17 quilômetros de distância, e para lá chegar era necessário passar pelo mesmo local da aparição. Novamente Adele viu a Senhora de branco. Suas companheiras nada viram, mas ficaram impressionadas com o temor que notavam em Adele. Depois de algum tempo ela disse que a Senhora tinha desaparecido. Conversando sobre o assunto, concluíram novamente que seria uma alma do Purgatório.
Conselho do confessor
     Após a missa, Adele se confessou com o Pe. Verhoef e narrou-lhe os dois episódios. O sacerdote disse-lhe para não ter medo, e que perguntasse à Senhora de branco o que desejava; se fosse uma mensageira de Deus, não lhe faria qualquer dano. No caminho de volta, no mesmo local, Adele viu novamente a Senhora, e desta vez notou que tinha uma fita amarela na cintura. Seguindo as indicações do confessor, perguntou: “Em nome de Deus, quem sois e o que desejais?”. E a Senhora lhe respondeu: “Sou a Rainha do Céu, que reza pela conversão dos pecadores, e desejo que faças o mesmo. Recebeste a Sagrada Comunhão hoje de manhã, e isso é bom. Mas tens que fazer mais ainda. Deves fazer uma confissão geral e oferecer a comunhão pela conversão dos pecadores. Se eles não se converterem e não fizerem penitência, meu Filho será obrigado a puni-los”.
     Nesse momento as duas companheiras perguntaram a Adele com quem ela falava, pois não viam nada. Ela simplesmente lhes disse: “Ajoelhem-se, pois Ela diz ser a Rainha do Céu”. E as duas companheiras assim fizeram obedientemente, o que alegrou a Santíssima Virgem, pois disse: “Bem-aventurados os que acreditam sem ver”. E voltando-se para Adele, acrescentou: “Que fazes aqui parada, enquanto tuas companheiras trabalham na vinha de meu Filho?”. Era uma alusão direta ao fato de suas companheiras belgas terem cumprido a promessa de se tornarem religiosas, mas ela ainda permanecia como leiga. Ouvindo a reprovação de Nossa Senhora, ela se comoveu e perguntou:
     — O que mais posso fazer, querida Senhora?
     — Reúne as crianças deste país e mostra-lhes o que deveriam saber para se salvarem.
     — Mas como lhes ensinarei, se eu mesma sei tão pouco?
     — Ensina-lhes o catecismo, como fazer o sinal da cruz e como se aproximarem dos sacramentos; isso é o que desejo que faças. Vai e não tenhas medo. Eu te ajudarei.
     Após este breve diálogo a Senhora levantou as mãos, como implorando uma bênção sobre aquelas que estavam a seus pés, e desapareceu lentamente.
     Estimulada pela aparição, Adele começou a reunir as crianças e ensinar-lhes os princípios da fé católica. Um primeiro oratório de madeira foi construído por seu pai, Lambert Brise, no local da aparição; uma capela de madeira foi construída em 1861. A capela logo se tornou muito pequena para acomodar os peregrinos. Em meio a numerosas provações, em 1867 Adele conseguiu construir uma escola, bem como congregou outras jovens para ajudá-la.  Em 1869, elas anunciaram seu internato, Academia de Santa Maria, e logo atraíram muitos estudantes. Adele realizou também muitas peregrinações apostólicas para conclamar os pecadores à conversão. Nessa missão, ela chegava a caminhar mais de 80 quilômetros no meio de florestas, passando por todo tipo de perigos.
     Embora sendo conhecidas como Irmãs da Boa Ajuda – Adele e suas companheiras eram tratadas como Irmãs e usavam um hábito modificado –, essas mulheres formavam uma ordem terceira secular, isto é, mulheres leigas que escolheram viver juntas, seguindo o modo de vida franciscano.
     "Irmã" Adele nunca fez votos em uma comunidade religiosa, embora algumas de suas companheiras mais tarde o fizessem. Duas companheiras de seu grupo - Celina Londo e Cecilia Frisque - se juntaram às Irmãs de São Francisco da Santa Cruz em Bay Settlement em 1903. Essas Irmãs assumiram a responsabilidade pela capela e sua escola em 1902. Elas fizeram isso seis anos após a morte de Adele, a pedido do bispo Sebastian Messmer.
     Finalmente, em 5 de julho de 1896, com a idade de 66 anos, Adele faleceu no cumprimento de sua vocação e foi enterrada na capela construída no local das aparições.
     Numa época em que as pessoas se esquecem da salvação da própria alma e vivem em função do dinheiro e dos prazeres, temos o dever de lembrar a todos que o verdadeiramente importante é a vida eterna, e que os sacramentos nos são indispensáveis para lá chegarmos. Pode haver melhor momento para alertar as almas sobre isso?
     Na opinião do Pe. John Doefler, Reitor do Santuário de Nossa Senhora da Boa Ajuda, estas aparições poderiam estar vinculadas às da Virgem de Lourdes em 1858.

Adele (círculo) com suas companheiras e alunos
O milagre do incêndio de Peshtigo
     O incêndio de Peshtigo aconteceu no dia 8 de outubro de 1871 - o mesmo dia do Grande Incêndio de Chicago, que é tão conhecido na história americana. Embora ofuscado pelo Incêndio de Chicago, o incêndio de Peshtigo matou mais pessoas (cerca de 2.500) e destruiu mais propriedades.
     O Pe. Pedro Pernin descreve a ferocidade do incêndio em um emocionante relato em seu livro, The Great Peshtigo Fire, um relato de testemunha ocular.
     Em 6 de outubro, o Pe. Pernin viu um toco de madeira espontaneamente explodir em chamas, mesmo não havendo faíscas ou incêndios nas proximidades. Enquanto o fogo era apagado, isto sinalizou as piores coisas que viriam e o Pe. Pernin decidiu se preparar para o pior. Levou várias horas para cavar um poço no chão para enterrar objetos sagrados, estátuas, livros, roupas sob uns 30 cm de terra, que ele considerou suficiente. Enquanto isto, vários vizinhos riam dele por fazer esse esforço.
      Quando terminou, o Pe. Pernin quase não teve tempo de soltar seu cavalo e carregar o tabernáculo em um carrinho de mão. A conflagração caiu logo sobre a aldeia e tudo ficou no caos. As pessoas corriam em todas as direções. O Pe. Pernin tropeçou e caiu sobre os cadáveres de uma mãe e sua filha.
     Ao longo de um lado do rio, as chamas dos edifícios da aldeia formavam um dossel impenetrável de fogo. O Padre Pernin foi para o outro lado. À beira da água, ele encontrou pessoas de pé, olhando com espanto, atordoadas e boquiabertas, à vista do caos em torno delas. Ele começou a empurrá-las para a água, pois era o único lugar seguro. Imediatamente todos a sua volta entraram dentro d’água.
     O ar tornou-se uma mistura de cinzas, faíscas, fumaça, fogo e calor opressivo. Em um ponto, um moinho de madeira explodiu em chamas. Esta estrutura que normalmente levaria horas para queimar foi consumida em trinta minutos. O calor era intenso. Todos ficaram na água fria jogando água uns sobre os outros por quase cinco horas. No pico do incêndio, o Pe. Pernin descreveu o ar acima deles como um furacão de fogo, mais brilhante do que o dia, causando cegueira temporária. Era uma cena do inferno na terra.
     O incêndio finalmente afastou-se de Peshtigo. Com os ventos servindo de fole, o fogo continuou seu caminho destrutivo, acabando por queimar um total de 1,2 milhões de acres.
Enquanto Peshtigo queimava, uma capela de madeira foi poupada
     Enquanto esse caos ocorria em Peshtigo, havia uma cena diferente na aldeia de Robinsonville, Wisconsin. Agora chamada de Champion, esta aldeia estava no caminho do indomável inferno.
     A vila era o local da primeira aparição de Nossa Senhora nos Estados Unidos, à Adele Brise, em 1859. Em homenagem à aparição, uma capela de madeira fora construída e dedicada a Nossa Senhora da Boa Ajuda. Muitos habitantes locais acreditavam na aparição, em grande parte devido à reputação de santidade de Adele.
     No início da manhã de 9 de outubro, os moradores buscaram a segurança da proteção de Nossa Senhora da Boa Ajuda. Parece irracional procurar segurança em uma estrutura de madeira no meio do maior incêndio na história americana. No entanto, a fé às vezes vai contra o que parece racional. Os habitantes locais tinham tanta confiança na proteção de Nossa Senhora, que eles levaram seus animais para a capela.
     Adele liderou uma procissão dos habitantes com uma imagem de Nossa Senhora enquanto rezavam o rosário. Quando o ar se tornou opressivo, eles foram obrigados a continuar a rezar dentro da capela. As vozes dos fiéis enchiam o ar de uma oração esperançosa.
     Apesar do furor do incêndio, a estrutura de madeira milagrosamente se recusou a queimar. As orações dos fiéis foram ouvidas. Os ventos pesados ​​que dirigiam a conflagração se acalmaram e o fogo diminuiu. O som doce da chuva logo foi ouvido. Foi tão imediato quanto quando Jesus ergueu as mãos para acalmar a tempestade. Os fiéis ficaram admirados.
Confirmação do Milagre
     O Pe. Pernin, que testemunhou a selvageria do incêndio em Peshtigo, foi investigar esse suposto milagre com seus próprios olhos. Ele contou o que viu em um segundo manuscrito chamado, The Finger of God (o Dedo de Deus).
     "[Todas] as casas e cercas do bairro foram queimadas, com exceção da escola, da capela e as sebes que cercam os seis hectares de terra consagrados à Santíssima Virgem. (...) [A propriedade] santificada pela presença visível da Mãe de Deus agora brilhava como uma ilha de esmeralda em meio a um mar de cinzas". (1)
     Todos os habitantes locais e seus animais foram poupados. A capela de madeira foi poupada. A cerca de madeira em torno do terreno foi poupada. Não há uma lição a ser aprendida com isso?
     Este milagre foi fundamental para convencer o Bispo David L. Ricken a declarar, em 8 de dezembro de 2010, Festa da Imaculada Conceição, a autenticidade das aparições de 1859 a Adele Brise. Este local sagrado agora é chamado de Santuário de Nossa Senhora da Boa Ajuda.
     Segundo declarações do Prelado, “a vida de Adele é um dos testemunhos mais convincentes da autenticidade das aparições. Em vez de atrair a atenção dos outros para si, dedicou-se humildemente a cumprir a missão que a Virgem lhe incumbira”. Adele “podia passar vários dias com as crianças ensinando-lhes o catecismo e conversando com seus pais sobre a fé. Realmente tinha um espírito evangelizador e o demonstrou não só com sua mensagem, mas com toda sua vida”.
     Curiosamente, o grande Incêndio de Peshtigo diminuiu no 12º aniversário de uma das aparições, em 9 de outubro.
 
O Santuário e a Capela atuais

Nota: (1) Fr. Edward Looney, Our Lady of Good Help, Mary’s Message and Mission for Adele Brise and the World, p.16.

Fontes: Catolicismo, por Valdis Grinsteins, março de 2011 www.catolicismo.com.br

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Beata Júlia Della Rena de Certaldo - 9 de janeiro

Martirológio Romano: Em Certaldo, na Toscana, Beata Júlia della Rena, da Ordem Terceira de Santo Agostinho, que permaneceu encerrada em uma pequena cela junto à igreja, na qual viveu somente para Deus.

     Júlia Della Rena, conhecida como Beata Júlia, viveu em uma cela localizada em Certaldo. Ela se dedicou completamente à penitência e à oração e morreu após trinta anos de isolamento.
     A pobreza das fontes literárias em relação a Beata Julia é desconcertante: muito do que sabemos é, de fato, o resultado da tradição oral.
Infância entre Certaldo e Florença
      Tendo nascido em 1319 na nobre família Della Rena, em decadência, ficando órfã muito jovem, Júlia foi para Florença e passou a trabalhar para a família Tinolfi, com quem era aparentada.
     Em contato com os agostinianos e sua espiritualidade e com receio das tentações que uma cidade como Florença poderia oferecer, ela decidiu tomar o hábito das agostinianas seculares. Sentindo-se chamada à uma vida mais radical e austera, decidiu a abandonar a cidade de Florença e refugiar-se em um lugar solitário em Certaldo.
      Uma vez chegada ao seu destino, ela salvou um menino de um prédio em chamas, provocando a admiração de seus concidadãos: isto desencadeou a decisão de se trancar em uma pequena cela perto da abside da igreja dos Santos Tiago e Filipe.
     Primeiro foram abertas duas pequenas janelas: uma que dava para a igreja, para assistir aos atos litúrgicos; outra para o exterior, com a finalidade de receber o alimento que a piedade popular lhe oferecesse. Fez colocar sobre uma parede um crucifixo e depois, com solenidade, foi colocado um muro que impossibilitasse o acesso à cela.
     Como as reclusas, Júlia não mais deixaria a pequena cela e viveria segregada do mundo por um período de cerca de 30 anos, percorrendo a via da ascese e da mística. Penitência e oração eram suas ocupações cotidianas.
     Os habitantes de Certaldo e arredores tinham como ocupação mantê-la com vida. Conta a tradição popular que inclusive as crianças corriam muitas vezes para ajudá-la, levando-lhe algum alimento, e que Júlia agradecida e sorridente lhes retribuía com flores frescas em qualquer estação do ano.
     Nada mais se sabe dela a não ser que era muito venerada por seus concidadãos pela vida de piedade que seus olhos deixavam transparecer.
O funeral
     A morte chegou em 9 de janeiro de 1367 (ou 1370): os moradores de Certaldo foram alertados pelo som dos sinos que misteriosamente começaram a tocar sozinhos. As exéquias foram celebrados com grande presença do público e houve numerosos milagres em torno de seu caixão.
     Já em 1372 um altar foi erguido na igreja dos Santos Tiago e Filipe para guardar seus restos mortais.
     Ao longo dos séculos, seu túmulo viu transformações notáveis. Atualmente, seus restos ainda estão na igreja dos Santos Tiago e Filipe, em um nicho recentemente construído (nos anos sessenta do século XX), aproximadamente no mesmo ponto em que o primeiro altar de 1372 foi erguido; acima desse nicho foi colocada a placa do século quinze onde os episódios de sua vida são ilustrados.
Celebrações
     Desde 1506 o município de Certaldo contribuía para a festa em honra da Beata, a cuja proteção foi atribuída várias vezes a libertação de contágios e de pestes.
      Todos os anos, no primeiro domingo de setembro, a cidade celebra a sua festa com uma procissão que vai da vila medieval até a parte baixa da cidade para terminar na propositura de Santo Tomás; na quarta-feira seguinte, uma procissão carrega a urna com os restos mortais da Beata da propositura à igreja dos Santos Tiago e Filipe, em Certaldo Alto.
      Originalmente o festival era celebrado no dia 9 de janeiro, o dia da morte, como acontece com todos os santos, mas devido aos rigores do inverno, a festa foi movida para o primeiro domingo de setembro, para ter um comparecimento maior de pessoas e para mais dignamente comemorar a santa padroeira.
      Alguns anos atrás, surgiram os "Cavaleiros de Beata Júlia", um grupo que segue atividades paroquiais e mais de perto o culto da Beata, patrona de Certaldo.
     Seu culto imemorial foi confirmado por SS Pio VII em 1819.

Fontes: www.santiebeati/it; www.wikipedia

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Epifania do Senhor - Dia dos Santos Reis - 6 de janeiro

   

     A festa da adoração dos Reis Magos ao Menino Jesus recebeu o nome de Epifania do Senhor. Epifania vem do grego: πιφάνεια que significa “aparição; fenômeno miraculoso; manifestação”. Este fato é narrado pelo evangelista São Mateus, no Capítulo 2, versículos 1-12. Trata-se de uma história impressionante, com vários símbolos importantes para a nossa vida. A festa se comemora no dia 6 de janeiro, ou seja, doze dias após o Natal, ou 2 domingos após o Natal, dependendo do calendário litúrgico usado.
     Andaram as gentes na tua luz e os reis no esplendor do teu nascimento”, profetizou Isaías (Is 60, 3). E São Tomás de Aquino explica: “Os Magos foram as primícias dos gentios que acreditaram em Cristo. E neles se manifestou, como um presságio, a fé e a devoção das gentes que vieram a Cristo das mais remotas regiões”.
     Santo Agostinho sublinha que eles procuraram com fé mais ardente Àquele que punham de manifesto o clarão da estrela e a autoridade das profecias.
     São João Crisóstomo completa dizendo: “Porque buscavam um Rei celeste, embora nada descobrissem nele denotador da excelência real, contudo, contentes com o só testemunho da estrela, adoraram-no”.
Eram reis?
     São Mateus chama-os apenas de “Magos”. Porém, esta palavra tinha vários significados. Designava a origem geográfica de pessoas da Pérsia. Por isso, deduzimos que os magos eram daquele país. Designava também pessoas da realeza. Por isso, acredita-se que eles eram reis. Por fim, “mago” significava também o que chamaríamos hoje de “cientistas”, pois eles conheciam profundamente a matemática, a medicina, a astronomia – tanto que detectaram o aparecimento de uma nova estrela – a química e outras ciências já conhecidas na época. Tudo isso concorda com a tradição científica dos persas.
Seguindo uma estrela
     O aparecimento de uma nova estrela no céu mudou a vida daqueles homens. O conhecimento científico permitiu que eles descobrissem o novo astro. Daí se deduz que eles eram conhecedores dos mapas celestes e bons viajantes. Naquele tempo, os viajantes do deserto viajavam à noite e guiavam-se pela posição das estrelas. Por isso, eles detectaram o aparecimento da nova estrela. Porém, não apenas detectaram: eles conheciam as profecias messiânicas e compreenderam que tal estrela anunciava o nascimento do Rei dos reis, o soberano das nações, o Salvador. Por isso se uniram para preparar e empreender viagem em busca do Rei Salvador.
     São Beda, uma das máximas autoridades dos primeiros tempos da Idade Média pelo fato de ter recolhido relatos transmitidos oralmente pelos Apóstolos aos seus sucessores, e destes aos seguintes, no tratado “Excerpta et Colletanea”, assim recolhe as tradições que chegaram até ele:
     “Melquior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio. E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz”.
     É, pois, São Beda quem por primeira vez escreveu o nome dos três. Nomes com significados precisos que nos ajudam a compreender suas personalidades.
     Gaspar significa “aquele que vai inspecionar”; Melquior quer dizer: “Meu Rei é Luz”; e Baltasar se traduz por “Deus manifesta o Rei”.
     Para São Beda – como para os demais Doutores da Igreja que falaram deles – os três representavam as três raças humanas existentes, em idades diferentes.
Surpresa em Israel
     Seguindo a estrela, aqueles sábios viajantes chegaram a Israel. Como procuravam por um rei, soberano das nações recém-nascido, dirigiram-se à capital Jerusalém, pensando que o Menino Deus seria descendente do então rei de Israel. A chegada desses homens na capital foi motivo de alarde e espanto, segundo o relato de São Mateus, pois o povo não sabia do nascimento do Messias, embora desejasse ardentemente este acontecimento. São Mateus diz que Jerusalém entrou em polvorosa com a chegada dos magos.
     Tal foi a importância da visita dos magos a Jerusalém, que foram recebidos pelo rei Herodes. Este, provavelmente, recebeu-os como chefes de Estado, com todas as honras. Ao saber, porém, o real motivo da visita, Herodes sente-se ameaçado. O Rei Salvador recém-nascido poderia roubar seu trono, pensou. Por isso, fingindo interesse, procurou saber sobre as profecias ouvindo os escribas e enviou os magos a Belém. E disse a eles que, depois de encontrarem o menino, voltassem para indicar o local onde ele estava, para que também Herodes pudesse ir adora-lo. Herodes, na verdade, sanguinário que era, queria matar o menino. Herodes, com efeito, já tinha cometido vários assassinatos, inclusive de dois filhos seus, por causa de seu medo de perder o poder. Embora tenha construído grandes obras em Jerusalém, Herodes, que não era judeu, mas sim nabateu e odiado pelos judeus, era um homem doente pelo poder, capaz de qualquer coisa para se manter na realeza.
O encontro com o Menino Jesus
     São Mateus diz que, tão logo os magos saíram de Jerusalém, avistaram novamente a estrela e encheram-se de alegria. Seguiram-na e ela os levou ao local onde Jesus estava. Chegando, depararam-se com a maior das surpresas: o Rei, soberano das nações, o Filho de Deus, nascera numa família pobre, simples. Não nasceu em berço de ouro, mas numa manjedoura! Sua mãe, uma jovem simples e seu pai, adotivo, um carpinteiro. Mesmo assim, os reis reconheceram naquele menino o soberano das nações, o Príncipe da Paz. Os magos, reconhecendo naquele Menino o Rei dos reis, ofereceram-lhe presentes. Também seus presentes têm um significado simbólico.
     Melquior deu ao Menino Jesus ouro, o que na Antiguidade queria dizer reconhecimento da realeza, pois era presente reservado aos reis.
     Gaspar ofereceu-Lhe incenso (ou olíbano), em reconhecimento da divindade. Este presente era reservado aos sacerdotes.
     Por fim, Baltasar fez um tributo de mirra, em reconhecimento da humanidade. Mas como a mirra é símbolo de sofrimento, veem-se nela preanunciadas as dores da Paixão redentora. A mirra era presente para um profeta. Era usada para embalsamar corpos e representava simbolicamente a imortalidade.
     Desta maneira, temos o Menino Jesus reconhecido como Rei, Deus e Profeta pelas figuras que encarnavam toda a humanidade.
A ciência se ajoelha diante de Deus
     A adoração dos Magos ao Menino Jesus tem um significado profundo. Sendo cientistas, eles representam a ciência que procura a Deus, encontra-o, reconhece-o e se ajoelha diante dele num gesto de humildade e adoração. Os Magos nos ensinam que a ciência e o conhecimento nos levam ao reconhecimento de Deus. Num mundo onde alguns cientistas procuram negar a Deus, outros, em grande número, seguem o exemplo dos Magos, reconhecem a Deus na criação e em tudo o que existe e o adoram como Deus, Pai e soberano do universo.
Fugindo de Herodes
     Depois da visita, os magos foram avisados em sonhos para não voltarem a Herodes. Reconhecendo nisso uma mensagem divina, eles obedeceram e voltaram por outro caminho. Ao descobrir que tinha sido enganado, Herodes, furioso, manda matar todos os meninos com menos de dois anos, nascidos em Belém. Ele queria ter certeza de que o Messias, visto por ele como rival, fosse morto.
Fuga para o Egito 
    José foi avisado também em sonho e partiu para o Egito, fugindo com a Sagrada Família da ira de Herodes. Assim, os meninos de Belém com menos de dois anos deram suas vidas para que Jesus sobrevivesse. Eles passaram a ser conhecidos como Santo Inocentes, o que, de fato, são.
     A Sagrada Família permaneceu no Egito até a morte de Herodes. Então, voltaram para Israel e foram viver em Nazaré, longe da capital Jerusalém.
Veneração
     A tradição cristã conservou a veneração aos três os reis magos. Até 474 os cristãos guardavam seus restos mortais em Constantinopla. Depois, foram levados para a grande catedral de Milão, Itália. Mais tarde, em 1164, foram trasladados para a bela cidade de Colônia, Alemanha. Lá, foi construída a esplendorosa Catedral dos Reis Magos, que guarda os restos mortais dos três reis santos até os dias de hoje.
Oração aos reis magos
     “Ó amabilíssimos Santos Reis, Baltazar, Melquior e Gaspar! Fostes vós avisados pelos Anjos do Senhor sobre a vinda ao mundo de Jesus, o Salvador, e guiados até o presépio de Belém de Judá, pela Divina Estrela do Céu. Ó amáveis Santos Reis, fostes vós os primeiros a terem a ventura de adorar, amar e beijar a Jesus Menino, e oferecer-lhe a vossa devoção e fé, incenso, ouro e mirra. Queremos, em nossa fraqueza, imitar-vos, seguindo a Estrela da Verdade. E descobrindo a Menino Jesus, para adorá-lo. Não podemos oferecer-lhe ouro, incenso e mirra, como fizestes. Mas queremos oferecer-lhe o nosso coração contrito e cheio de fé católica. Queremos oferecer-lhe a nossa vida, buscando vivermos unidos à sua Igreja. Esperamos alcançar de vós a intercessão para receber de Deus a graça que tanto necessitamos.
     (Em silêncio fazer o pedido)
     Esperamos, igualmente, alcançarmos a graça de sermos verdadeiros cristãos. Ó bondosos Santos Reis, ajudai-nos, amparai-nos, protegei-nos e iluminai-nos! Derramai vossas bênçãos sobre nossas humildes famílias colocando-nos debaixo de vossa proteção, da Virgem Maria, a Senhora da Glória, e São José. Nosso Senhor Jesus Cristo, o Menino do Presépio, seja sempre adorado e seguido por todos. Amém!”


Reis Magos e pastores: a santa harmonia social aos pés do Menino Deus
      Os medievais tinham uma devoção encantada pelos Reis Magos. Essa devoção tem seu fundamento nos Evangelhos, mas eles a desenvolveram com uma força que chega até nossos dias.
     Quis a Providência que o Menino Jesus recebesse a visita de três sábios — que segundo uma venerável tradição eram também reis — e alguns pastores.
     Precisamente os dois extremos da escala humana dos valores. Pois o rei está de direito no ápice do prestígio social, da autoridade política e do poder econômico, e o sábio é a mais alta expressão da capacidade intelectual.
     Na escala dos valores o pastor se encontra, em matéria de prestígio, poder e ciência, no grau mínimo, no rés-do-chão.
     Ora, a graça divina, que chamou ao presépio os Reis Magos do fundo de seus longínquos países, chamou também os pastores do fundo de sua ignorância.
     A graça nada faz de errado ou incompleto. Se ela os chamou e lhes mostrou como ir, há de lhes ter ensinado também como apresentar-se ante o Filho de Deus.
     E como se apresentaram eles? Bem caracteristicamente como eram.
     Os pastores lá foram levando seu gado, sem passar antes por Belém para uma “toilette” que disfarçasse sua condição humilde.
     Os Magos se apresentaram com seus tesouros — ouro, incenso e mirra — sem procurar ocultar sua grandeza que destoava do ambiente supremamente humilde em que se encontrava o Divino Infante.
     A piedade cristã, expressa numa iconografia abundantíssima, entendeu durante séculos, e ainda entende, que os Reis Magos se dirigiram para a gruta com todas as suas insígnias.
     Quer isto dizer que ao pé do presépio cada qual se deve apresentar tal qual é, sem disfarces nem atenuações, pois há lugar para todos, grandes e pequenos, fortes e fracos, sábios e ignorantes.
     É questão apenas, para cada qual, de conhecer-se, para saber onde se pôr junto de Jesus.

Excertos de artigo do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Catolicismo, dezembro/1955