sábado, 17 de novembro de 2018

Santa Vitória e Santo Acisclo, mártires de Córdoba – 17 de novembro

    
     A história de Acisclo e Vitória consta no Memorial dos Santos do século IX do também mártir Santo Eulógio de Córdoba. Há dúvidas sobre a veracidade histórica da existência de Vitória, mas ambos são venerados nos ritos litúrgicos moçárabes e sua veneração espalha-se por toda a Espanha e França. Seu culto é tão antigo quanto o século VI como atestável numa inscrição hispânica deste período referente a relíquias. Atualmente Acisclo e Vitória são os principais santos patronos de Córdoba e são invocados especialmente contra as tempestades.
     Segundo a narrativa de Eunápio, Acisclo e Vitória, nativos e residentes de Córdoba, foram mártires da primeira perseguição que afetou a cidade de Córdoba, sob o domínio do imperador Septimio Severo e Dião, como pretor, quem por decreto de 202, ordenou a morte dos seguidores do Cristianismo.
     Denunciados como cristãos ao prefeito Dião, descrito como um "iníquo perseguidor de cristãos", este tratou de prendê-los. A principal acusação para prendê-los era de que Acisclo teria dito que os deuses romanos eram "nada mais que pedras, não melhores que aqueles que as cultuavam". 
     Visando puni-los, Dião ordenou que fossem queimados numa fornalha, mas seu plano fracassou, com eles entoando músicas de júbilo do interior da fornalha. Em seguida, prendeu-os em pedras e lançou-os no Rio Guadalquivir, porém novamente fracassou, com ambos sendo encontrados flutuando ilesos na superfície.
     Por fim, Dião suspendeu-os sobre o fogo, mas o fogo saiu de perto deles e matou centenas de pagãos. Após tais eventos, Acisclo e Vitória, sentindo já terem demonstrado suficientemente que permaneceriam resolutamente cristãos, bem como o poder exercido por seu Deus, entregaram-se a seus pretensos carrascos, que executá-los no anfiteatro: Acisclo foi decapitado, enquanto Vitória foi morta a flechadas.
     Os corpos de Acisclo e Vitória foram sepultados por uma dama cristã chamada Minciana em sua propriedade fora dos muros da cidade.
     No século IV, época do Bispo Osio, havia três basílicas em Córdoba: uma, chamada dos Três Santos (atual basílica menor de São Pedro); outra, chamada de São Zoilo no centro da cidade e já desaparecida; e a terceira dedicada aos Santos Mártires ou de Santo Acisclo, local onde haviam sido sepultados os dois irmãos, situada na margem do Guadalquivir, junto ao Moinho de Martos. Nela foram depositados os restos dos mártires cordobeses colocados em um sepulcro de mármore em estilo greco-romano do século III ou princípios do IV, conservado até os dias atuais.
     Na época da invasão árabe, o templo cristão mais venerado depois da catedral dos Três Santos, era a dos Santos Mártires. Segundo testemunho de Santo Eulógio, nela foram depositados os corpos de São Perfeito, Santo Argemiro, São Sisenando, Santas Maria e Flora, virgens e mártires da perseguição muçulmana em Córdoba.
     A reconquista de Córdoba pelo rei São Fernando em 1236 resultou no engrandecimento da Basílica dos Santos Mártires; o rei entregou-a à Ordem de Cister. Em diversas ocasiões foram feitas ampliações. Os monges cistercienses ali permaneceram até 1527, passando para as mãos dos frades da Ordem dos Dominicanos em 1531.
     A Basílica sofreu uma diminuição devocional com o passar dos séculos, mas os dominicanos ali permaneceram até 1835, quando foram exclaustados. Foi um golpe mortal para a Basílica, abandonada e em ruinas. Em 1858 o convento foi demolido. A ermida se manteve e os devotos a visitavam, mas estava muito deteriorada. Em 1963 uma remodelação foi realizada e a ermida foi inaugurada em 17 de novembro de 1965, com a missa de abertura oficiada pelo vigário da diocese João Jurado Ruiz.
     Desde 2005 está aberta ao culto todos os domingos e dias de festa, celebrando-se missa.
     As relíquias de São Acisclo foram divididas no tempo de Carlos Magno e uma parte chegou a Toulouse, França; enquanto outra era venerada no mosteiro beneditino de São Salvador em Breda, na diocese de Gerona.
     Acisclo e sua irmã Vitoria são venerados em toda a Espanha e no sul da França, especialmente em Provence. A Basílica de São Saturnino de Toulouse, na França, possui algumas das relíquias de Acisclo e Vitória. Existe uma pequena igreja dedicada a eles nas faldas da montanha de Montserrat. O poeta Prudêncio redigiu uma homenagem a eles em versos.

Igreja de Santo Acisclo e Santa Vitória - Montserrat
Acisclo (em latim: Acisclus) ou Ocíselo (em latim: Ocysellus)

Fontes:
https://cordobapedia.wikanda.es/wiki/Basílica_de_los_Santos_Mártires
www.santiebeati.it/

Ponte romana e ao fundo Catedral - Córdoba, Espanha

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Beata Maria Luísa Merkert, Co-Fundadora - 14 de novembro

     
     Nasceu em 21 de setembro de 1817, no seio de uma família católica da burguesia, em Nysa, na Silésia de Opole (então diocese de Breslavia), cidadezinha chamada de ‘Roma silesiana’ por causa de seus numerosos monumentos, que hoje pertence à Polônia, mas naquele tempo era alemã.
     Era a segunda filha de Carlos Antônio Merkert e Maria Bárbara Pfitzner. No batismo lhe puseram o nome de Maria Luísa. Seus pais e sua irmã pertenciam à Confraria do Santo Sepulcro. Seu pai morreu quando ela tinha um ano. Sua mãe influenciou muito na inclinação de suas duas filhas, Maria Luísa e Matilde, para o serviço caritativo aos necessitados e à vida religiosa. A dureza da vida quotidiana e a direção da casa fizeram de Maria Luísa uma mulher cuidadosa, hábil nos trabalhos manuais e muito prudente.
      Por ocasião da morte da mãe, em 1842, Maria Luísa decidiu se dedicar totalmente aos pobres, aos doentes e aos abandonados. Aconselhada pelo confessor, junto com sua irmã Matilde e com Francisca Werner, uniu-se a Clara Wolff, jovem virtuosa terciária franciscana que havia decidido servir os doentes e aos pobres a domicílio.
     As quatro formaram uma espécie de associação. Clara, a mais velha, de índole vivaz, sensível, já havia assistido doentes durante uma epidemia de cólera. Francisca tinha uma personalidade forte embora fosse humilde e modesta; sobreviveu à beata, sucedendo-a como Superiora Geral da Congregação. Matilde Merkert era de índole dócil e muito religiosa.
     Elas iniciaram suas atividades em Nysa no dia 27 de setembro de 1842; prepararam-se para este passo com a confissão, a comunhão e um ato de consagração ao Sacratíssimo Coração de Jesus. O Pe. Francisco Xavier Fischer, vigário da paróquia de São Tiago, lhes deu a bênção. Mas não fizeram votos e não tinham aprovação oficial, mas conquistaram em poucos meses a atenção e a estima das autoridades eclesiásticas. Dois anos depois, o pároco apresentou uma primeira Regra.
     A partir de então Maria cumpria diariamente os compromissos assumidos, assistindo os doentes e os pobres em suas casas, e recolhendo esmolas para os mais necessitados.
     Em 8 de maio de 1846, Matilde faleceu em Prudnik, contagiada enquanto cuidava de enfermos de tifo. Foi um golpe duro, mas elas continuaram os trabalhos.
     Por vontade do confessor, Maria Merkert e Clara Wolff entraram no noviciado das Irmãs de São Carlos Borromeu de Praga, um Instituto de origem francesa, onde elas deviam formar-se para dar vida à obra de assistência que sentiam o dever de realizar. Elas trabalharam como enfermeiras nos hospitais de Podole, Litomierzyce e Nysa.
     Notando que estas religiosas consideravam secundária a assistência dos doentes a domicílio, Maria deixou seu noviciado em 30 de junho de 1850, se bem que a formação recebida nesse período lhe serviu muito. Como Jesus só e abandonado no Jardim das Oliveiras, a Beata bebeu o cálice amargo da incompreensão e hostilidade da parte de muitos, escandalizados pela sua decisão. Foi abandonada também pelo seu diretor espiritual, Pe. Francisco Fischer.
      Como uma moderna samaritana, Maria havia recebido o dom de encontrar Jesus padecente, abandonado, doente, naqueles que sofriam. E ela fez-se solidária com eles, servindo os miseráveis, crianças abandonadas e pobres. O seu pensamento constante era este: "Cuidai de tudo com atenção, assisti os doentes com amor e paciência e não vos ocupeis de nada que impeça o vosso dever".
     Foi naquele momento que Maria e Clara seguiram caminhos diversos: a última, em 1852, indo cuidar de um enfermo se envolveu em um acidente e morreu devido às feridas, no dia 4 de janeiro de 1853.
     Maria Merkert não poderia imaginar que aquele ponto do caminho, onde toda a sua obra parecia fracassar, era o momento escolhido por Deus para provar a sua fé. Ela havia escrito: "Não percamos o ânimo, façamos o que está ao nosso alcance e o mais Deus completará. O mais está nas mãos de Deus".
     Em 19 de novembro de 1850, festa de Santa Isabel da Turíngia (1207-1231), Maria Merkert e Francisca Werner, cheias de confiança em Deus recomeçaram em Nysa a atividade caritativa apostólica, escolhendo Santa Isabel por patrona da comunidade nascente, inspirando-se no exemplo desta Santa, conhecida como a santa da caridade para com os indigentes e doentes. Elas conheciam a biografia escrita por Conrado de Marburgo (confessor de Santa Isabel) onde ele dizia sobre a mesma: "Mandou construir um hospital perto de seu castelo, e recolhia todo tipo de doentes [...]. Visitava-os pessoalmente duas vezes por dia, pela manhã e à tarde. Cuidava diretamente dos mais repugnantes. Dava comida para alguns, procurava cama para outros, carregando-os sobre seus próprios ombros, empenhando-se sempre em cada atividade para fazer o bem".
     A exemplo de sua patrona, elas dedicaram-se totalmente aos pobres e aos necessitados, contemplando em seu rosto o do Redentor.
A cidade de Nysa numa gravura antiga
     Em Nysa, devido à revolução liberal na Silésia e ao seu envolvimento nas guerras prussianas e austríacas, a pobreza estava muito difusa com feridos e consequentes epidemias.  
     Muitos recorriam às Irmãs, certos de serem acolhidos e ajudados. Maria, incansável, estava sempre pronta para todos atender. Uma companheira testemunhou: “Madre Maria comprava carne, café e pão para as pobres viúvas e ela mesma levava estas coisas aos pobres e lhes dava com tanta afabilidade de coração que aqueles velhinhos choravam de alegria e todos a chamavam ‘a querida mãe de todos’”.
     Nove anos mais tarde, em 4 de setembro de 1859, a Associação de Santa Isabel recebeu a aprovação por parte do bispo de Breslavia, D. Henrique Förster. A associação já contava com sessenta religiosas em onze casas, também em regiões prevalentemente protestante. A partir daquele dia a Associação passou a ser uma Congregação religiosa de direito diocesano.
     Em 5 de março de 1860, pela primeira vez as irmãs professaram os votos religiosos de castidade, pobreza e obediência, aos quais foi acrescentado um quarto voto: servir aos enfermos e aos necessitados. Maria Merkert foi eleita a primeira Madre-Geral.
     Nos anos 1863-1865, a Beata construiu em Nysa a casa mãe da Congregação; ela se preocupou logo em dotá-la de uma igreja bela e funcional.
     O Instituto obteve o reconhecimento jurídico estatal em 1864. Dois anos depois, as primeiras Irmãs missionárias foram enviadas à Suécia. Em 7 de junho de 1871, o Papa Pio IX concedeu o "Decretum laudis" à Congregação.
     A Beata, além de doar todas as suas energias em favor do próximo enfermo e abandonado em seus domicílios, se preocupava muito com suas religiosas, que instruía intelectual e espiritualmente num espírito de humildade profunda. Nos seus vinte e dois anos de governo formou quase quinhentas Irmãs e fundou noventa casas, distribuídas em nove dioceses e em dois vicariatos apostólicos. No fim de cada ano, recolhia as notícias das várias casas. 
     Madre Maria foi mulher de grande oração, tomando como modelo Nossa Senhora, a quem recorria em todas as necessidades. Um ano antes da sua morte, a Beata escreveu: "Coloquemos fiel e devotamente a nossa vida nas mãos de Deus, pois prometemos dedicar as nossas fracas forças exclusivamente ao seu serviço". Tanto amor oferecido, tanta alegria no sofrimento. Chamavam-na “a samaritana dos pobres”.
     A missão de Madre Maria estava cumprida, tinha oferecido toda sua vida pelos outros. Em fins de 1872 pressentiu que sua caminhada nesta terra chegava ao término. No dia 14 de novembro o seu coração generoso parou de bater, tranquilamente, sem nenhuma agonia: tinha 55 anos. Morreu com fama de santidade, que foi aumentando depois de sua morte.
     Quinze anos depois Leão XIII outorgou a aprovação definitiva ao seu Instituto. Em 1964, seus despojos foram levados para a cripta da sua igreja paroquial; desde 1998 estão numa capela lateral.
     Na sua cidade de Nysa, hoje na Diocese de Opole, foi beatificada em 30 de setembro de 2007. Sua Congregação hoje está presente em diversos lugares do mundo.


Postado pela primeira vez em 12 de novembro de 2011

sábado, 10 de novembro de 2018

Beatas Mártires Espanholas Irmãs Adoradoras Escravas do Santíssimo Sacramento e da Caridade – 10 de novembro


    
     Hoje a Igreja celebra o martírio das Beatas Madre Manuela do Sagrado Coração de Jesus e suas 22 Companheiras do Instituto das Adoradoras Escravas do Santíssimo Sacramento e da Caridade, brutalmente assassinadas "in odium fidei" pelos revolucionários (milicianos) comunistas da Guerra Civil que assolou a Espanha em 1936.
     Quando se lê uma história como essa, além de indignados, causa-nos surpresa como é que 23 freiras inocentes poderiam ser acusadas de serem "um perigo" para a Espanha mesmo pelo mais fanático defensor do comunismo.
     Se é uma "ideologia política" que prega a "igualdade" e um "pretenso respeito ao cidadão", como é que esses elementos podem considerar que umas pobres freiras mereciam ser mortas por fuzilamento, sem direito a julgamento ou a defesa?
     Está claro que o objetivo principal do comunismo é fazer guerra (antes, mais declarada, agora, disfarçada) a Deus, à sua vontade e à Igreja. Que o digam os milhares de mártires espanhóis que tiveram suas vidas ceifadas injusta e brutalmente. Não há argumento, não há desculpa, não há "teoria" humanamente aceitável que justifique os crimes bárbaros que foram praticados contra clérigos, religiosos e leigos católicos nos anos 1934 - 1937 (principalmente em 1936) nas terras espanholas.
     Que essas bem-aventuradas mártires possam, no Céu, em sua contemplação contínua da Face de Deus, interceder pela Igreja e pelos missionários e missionárias que ainda hoje são perseguidos, presos, expulsos ou até mesmo mortos nas atuais terras de missão. Que roguem ao Senhor da Messe que envie mais e mais operários para sua messe e que sejam fortes na luta e na defesa da fé e do direito divino. Amém. 
   Abaixo, vai a lista das mártires cuja memória é hoje comemorada: 

- Manuela do Sagrado Coração (Manuela Arriola Uranga)
- Blasa de Maria (Juana Pérez de Labeaga García)
- Lucila Maria de Jesus (Lucía González García)
- Rosaura de Maria (Rosa López Brochier)
- Casta de Jesus (Teresa Vives y Missé)
- Borja de Jesus (Mª Zenona Aranzábal Barrutia)
- Luísa da Eucaristia (Luisa Pérez Andriá)
- Maria da Apresentação (María García Ferreiro)
- Sulpicia do Bom Pastor (Dionisia Rodríguez de Anta)
- Belarmina de Jesus (Belarmina Pérez Martínez)
- Mª Dolores da Santíssima Trindade (Mª Dolores Hernández Santorcuato)
- Mª Dolores de Jesus Crucificado (Mª Dolores Monzón Rosales)
- Máxima de São José (Emilia Echeverría Fernández)
- Prima de Jesus ( Mª Prima Ipiña Malzárraga)
- Sinforosa da Sagrada Família (Sinforosa Díaz Fernández)
- Purificação de Maria (Purificación Martínez Vera)
- Josefa de Jesus (Josefa Boix Riera)
- Herlinda (Aurea González Fernández)
- Angeles (Mercedes Tuní Ustech)
- Ruperta (Concepción Vázquez Áreas)
- Felipa (Felipa Gutiérrez Garay)
- Cecília (Concepción Iglesias del Campo)
- Madalena (Magdalena Pérez)


     Madre Emanuela do Sagrado Coração de Jesus (Manuela Arriola Uranga) e suas 22 companheiras foram beatificadas em 28 de outubro de 2007.


As Beatas sendo levadas para o paredão

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Santas Eustolia e Sopatra, virgens e monjas de Constantinopla – 9 de novembro

    
     Os menologistas são muito lacônicos a respeito destas santas. No entanto, o código gregoriano do Vaticano 807 (século X) dá-nos uma informação mais difundida: Eustolia, nascida em Roma, foi a Constantinopla e se pôs a visitar as igrejas para fazer suas devoções. Próximo da Basílica da Santa Mãe de Deus, no distrito de Blacherna, ela conheceu Sopatra, filha do imperador Maurício (582-602), que se uniu a ela e implorou que ela se tornasse sua "mãe espiritual".
     Elas conquistaram outras jovens e tentaram fundar um mosteiro. Sopatra obteve uma terra de seu pai, onde construiu uma capela e edifícios monásticos. Com a morte de Eustolia, ela assumiu a direção do mosteiro: este foi construído perto do chamado toù panagiòn, que mais tarde recebeu o título de Theotocos dos "mongóis", sob o Phanar.
     A festa das duas santas está inscrita no dia 9 de novembro no Martirológio Romano e no sinassário bizantino.





O monaquismo

     A palavra ‘monaquismo’ vem do grego ‘moncos’ = aquele que está só; designa uma forma de vida cristã totalmente consagrada a Deus no retiro, no silêncio, na oração, na penitência e no trabalho.
     O monaquismo cristão tem seus fundamentos imediatos no próprio Evangelho, onde Nosso Senhor Jesus Cristo aconselha a deixar tudo e seguir incondicionalmente o Cristo - ver Lc 9,57-62; Mt 19,16-22, 1Cor 7,8s.25-35. Pode-se crer, com o testemunho de São Paulo em 1Cor 7, que já nas primeiras décadas do Cristianismo havia homens e mulheres que se abstinham do casamento para poder-se consagrar mais plenamente ao serviço de Deus.
     No século III essa modalidade de vida ascética tomou a forma eremítica: os cristãos retiravam-se para o deserto, tendo como modelo Santo Antão (251-356), considerado o Patriarca do monaquismo. Filho de família rica, ouviu o apelo do Senhor proclamado na igreja e resolveu deixar tudo, retirando-se para o deserto do Egito, após ter providenciado a subsistência de sua irmã mais jovem. A Vida de Sto. Antão, escrita no século IV por Santo Atanásio, exerceu grande influência sobre as gerações posteriores.
...
     A vida eremítica foi cedendo aos poucos à vida cenobita ou comunitária. Esta apresentava suas vantagens, a saber: mais frequente ocasião de se praticar a caridade e controle da comunidade sobre atitudes e comportamentos, às vezes esdrúxulos, dos monges eremitas. São Pacômio (c.346) foi o primeiro organizador da vida cenobítica, que ele quis submeter a uma Regra e a um superior chamado “Abade” (= pai). A Regra visava a regulamentar a disciplina dos monges na oração, no trabalho, no vestuário, na alimentação, apresentando um caminho de santificação concebida pela sabedoria do Fundador. A casa dos cenobitas tomou o nome de monastérion em grego (donde mosteiro, em português). O primeiro mosteiro data de 320, fundou-o São Pacômio em Tabenisi, a 575 km ao sul da moderna cidade do Cairo.
     Em Constantinopla, o monaquismo desenvolveu-se por influência dos monges orientais. O primeiro mosteiro foi fundado em 382.
     Os mosteiros tanto podiam acolher um reduzido número de monges como algumas centenas. Desenvolviam tarefas de carácter caritativo como: o acolhimento de órfãos e de pessoas idosas, a administração dos hospitais e de hospícios. A sua fundação cabia geralmente à iniciativa de um particular, cujos objetivos eram, acima de tudo, fazer uma doação pia e ao mesmo tempo reservar o seu lugar de recolhimento ou de sepultura. No entanto, os mosteiros e os seus monges permaneceram sempre sob a autoridade do bispo.
...
     Ao lado dos mosteiros masculinos fundaram-se grande número de mosteiros femininos. Estes tinham suas raízes especiais na prática de consagrar a virgindade ao Senhor seja mediante voto particular, seja mediante voto público de castidade (cf. 1Cor 7,37s). Os escritores dos séculos III e IV: Tertuliano (c.220), São Cipriano (c.258), Metódio de Olímpio (c.311), Santo Ambrósio (c.397) deixaram escritos que louvam e recomendam a virgindade consagrada.
     São Pacômio fundou dois mosteiros femininos. Geralmente tais mosteiros ficavam situados nas proximidades dos cenóbios masculinos, a fim de facilitar o intercâmbio espiritual, o mútuo auxílio econômico e a proteção em casos de assalto (como ocorriam às margens dos desertos). Houve mesmo mosteiros duplos – o masculino e o feminino – separados entre si pela igreja conventual.
     Esta disposição acarretava perigos de ordem moral, por isto o concílio regional de Agde (Gália) em 506 e o Imperador Justiniano em 546 proibiram a existência de mosteiros duplos. O concílio de Nicéia II em 787 proibiu ao menos a fundação de novos e baixou medidas relativas aos já existentes. Todavia no Ocidente esse tipo de instituição perdurou até o fim da Idade Média com bons frutos espirituais, principalmente no século XII.
     Em Bizâncio, os mosteiros tiveram um papel de relevo. No entanto, durante a crise iconoclasta, os monges foram perseguidos de tal forma que tiveram que fugir para o Ocidente. Só com a Imperatriz Irene é que retomaram o lugar perdido para novamente serem perseguidos no segundo período iconoclasta. Depois do triunfo dos ícones, assistiu-se a uma renovação e incremento da vida monástica, visível do século IX ao século XI, continuando os monges a ser beneficiados pelos imperadores. Foram dotados de meios importantes e tornaram-se materialmente independentes, adquirindo mais autonomia, mesmo em relação ao poder do bispo.
     A partir do século XII, a fundação de mosteiros fica muito restringida e durante o século XIII passaria a ser raríssima, uma situação que se vê agravada com a tomada de Constantinopla pelos latinos. Teria de se esperar pela renovação cultural que ocorreria no século XIV para se assistir ao nascimento de novas fundações.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Beata Josefa Naval Girbès, Leiga, Terceira Carmelita – 6 de novembro

    
     Josefa Naval Girbés nasceu em Algemesi, na Ribera del Júcar, a 32 km de Valência, Espanha, no dia 11 de dezembro de 1820, tendo sido batizada no mesmo dia na Igreja de São Tiago Apóstolo, recebendo o nome de Maria Josefa.
     Seus pais Francisco Naval Carrasco e Josefa Girbés tiveram cinco filhos sendo Josefa a primogênita. Josefa Naval herdou de seus pais grande espírito de fé, ardente caridade, amor ao trabalho e sincero desejo de viver sempre na graça de Deus.
     Algemesi era um povoado eminentemente agrícola, com quase 8.000 habitantes, uma única paróquia, um convento de Dominicanos, um hospital, escassos centros de instrução e poucas indústrias elementares. Josefa adquiriu uma cultura suficiente para desenvolver-se no meio em que vivia. Aprendeu a bordar, atividade que com tanto acerto ensinou às suas numerosas alunas. Em sua formação religiosa colaborou eficazmente sua mãe.
     Desde pequena aprendeu a amar à Santíssima Virgem, venerada perto de sua casa no convento dos Padres Dominicanos, e já manifestava um caráter reto, um tanto enérgico, que ela depois administraria em sua atividade apostólica. Fez sua Primeira Comunhão quando apenas contava com nove anos, fato incomum na época.
     Sua mãe morreu quando ela tinha treze anos. A Virgem inspirou-lhe que nunca a abandonaria. Com seu pai e três de seus irmãos (os outros faleceram em tenra idade) Josefa foi viver com sua avó materna.
     Em 1847, quando sua avó faleceu, Josefa tornou-se a perfeita “dona” da casa na qual viviam o pai, o tio, mantenedores econômicos, e os irmãos Vicente de 20 anos e Maria Joaquina de 22. Josefa cuidou com dedicação do tio e do pai nos seus últimos anos de vida. O pai faleceu quando Josefa tinha 42 anos,
     Mas sua vida não era dedicada somente à família: frequentava com assiduidade a paróquia vizinha, comungava todos os dias, colocou-se sob a direção espiritual do pároco Pe. Gaspar Silvestre. Aos 18 anos, no dia 4 de dezembro de 1838, escolheu Jesus como seu esposo e a Ele consagrou para sempre sua virgindade; praticou os três princípios: obediência, laboriosidade, perseverança, fazendo deles uma norma de vida.
     Josefa ensinava os pobres, aconselhava os que a ela se dirigiam, restaurava a paz nas famílias desunidas, organizava reuniões em sua casa com o fim de ajudar as mães em sua formação cristã, encaminhava as mulheres que haviam se afastado do reto caminho e com prudência admoestava os pecadores. Além disso, cuidava da confecção, conservação e limpeza dos ornamentos litúrgicos e do adorno dos altares.
     Seus trabalhos eram intercalados de leituras piedosas, orações, jaculatórias, meditação, recitação do Rosário. Viveu sempre unida às dores de Cristo: ao sofrimento redentor de Nosso Senhor uniu os seus, as dores de cabeça que sofreu desde os trinta anos até sua morte e as penitências, inclusive materiais, como jejuns e cilícios, que se impunha e eram autorizadas por seus diretores espirituais.
     A obra na qual concentrou todos os seus cuidados e energias foi a da educação religiosa e humana das jovens, para as quais abriu em sua casa uma escola gratuita de bordado, atividade manual em que era muito habilidosa. Aquela atividade, à qual acudiam muitas jovens de todas as esferas sociais, se converteu em um centro de convivência fraterna, oração, louvor a Deus, explicação e aprofundamento da Sagrada Escritura e das verdades eternas.
     A jornada diária de Josefa era muito apertada: levantava muito cedo para assistir a primeira Missa da paróquia, comungava e fazia oração mental; a seguir dedicava algum tempo à limpeza; o horário da escola-oficina era das 9 às 12 e das 14 às 18 horas.
     Consciente das dificuldades que se opõem à perfeição, dizia a suas alunas: “Filhas minhas, não temos que temer demasiadamente as dificuldades do caminho que temos empreendido; é verdade que esse caminho é pedregoso e está cheio de trabalhos e privações, porém também é certo que nosso Divino Capitão o trilhou durante sua vida, paixão e morte”.
     Josefa primava pela confiança em Deus e a infundia às suas alunas: “Que nenhuma de vocês desconfie à vista de seus muitos pecados; nossa confiança não se apoia no que nós somos, senão no que Deus é e no amor misericordioso que Ele nos tem”.
     Terminada a jornada de trabalho, para dar prosseguimento à sua formação espiritual, as alunas mais seletas permaneciam de ordinário no jardim da casa. Deste grupo escolhido saíram tantas jovens religiosas, que o Cardeal Guisasola, Arcebispo de Valência, em visita pastoral a Algemesi perguntou cheio de admiração: “Que povo é este que tem tantas religiosas em todos os conventos de nossa arquidiocese?”.
     Amante da pureza, que ela mesma vivia plenamente, recomendava às jovens: “Sede limpas, asseadas no modo de vestir, sede muito honestas como a Virgem. Todas as virtudes embelezam a alma, porém, a pureza a embeleza de um modo especial, fazendo-a semelhante aos anjos”.
     Josefa, entretanto, não descuidou das jovens inclinadas ao matrimônio; a elas dedicou tempo e esforço. De sua escola saíram excelentes esposas e mães de família. Dizia: “Haveis de levar vossa cruz e cumprir o próprio dever como Deus manda: as solteiras, como solteiras; as casadas, como casadas”.
     A caridade de Josefa brilhou na epidemia de cólera de 1885, quando contava 65 anos. Ela e algumas de suas alunas se dedicaram a atender aos empestados que estavam sozinhos e, portanto, os mais necessitados de ajuda.
     Josefa amou profundamente a Igreja e infundia esse amor àqueles que se acercavam dela: “Amemos a Igreja a que pertencemos e aproveitemo-nos de seus meios de santificação”. Ela viveu e morreu em um século difícil para a Igreja. Dois Papas sofreram exílio da cidade de Roma; perderam-se os Estados Pontifícios, o movimento trabalhista se instalou com virulência implacável contra o Catolicismo. Consciente do que ocorria, Josefa sofreu com a Igreja e compartilhou suas alegrias: exultou com a declaração do dogma da Imaculada Conceição.
     Por tudo isso, ganhou grande estima e fama de santidade entre o clero e o povo, inclusive depois de sua morte.
     Uma doença crônica a manteve no leito por 15 dias em fevereiro de 1893. Rodeada de suas filhas espirituais, piedosamente faleceu em 24 de fevereiro de 1893.   
     Vestida com o hábito da Ordem Terceira do Carmo, seu venerável corpo foi depositado em um humilde ataúde. Josefa foi depositada em um nicho adquirido por Josefa Esteve Trull, sua discípula predileta. Ali permaneceu incorrupto até 20 de outubro de 1946, quando foi transladado para a paróquia Basílica de São Tiago de Algemesi.
     A causa para sua beatificação foi introduzida em Roma a 27 de janeiro de 1952, e a cerimônia de beatificação foi celebrada em Roma no dia 25 de setembro de 1988.
     Sua celebração litúrgica é 24 de fevereiro; os Carmelitas Descalços celebram sua memória em 6 de novembro.
     Inspirado por sua obra, Bernat Asensi y Cubells (1889 - 1962), também de Algemesi, fundou a Congregação das Missionárias da Divina Providência e promoveu a beatificação de Josefa Naval, além de escrever sua biografia.

Fontes:
http://fradescarmelitas.org.br/beata-josefa-naval-girbes-terceira-carmelita/
http://es.catholic.net/op/articulos/35628/josefa-naval-girbs-beata.html#modal

Postado pela 1ª vez em 23 de fevereiro de 2013

Adendo
     Sabemos, com certeza, pelas disposições realizadas no Processo Ordinário (para a causa de Beatificação-Canonização) e por dados recolhidos na “Biografia da Serva de Deus Josefa Naval Girbés”, escrita pelo Pe. Bernardo Asensi Cubells (Valência, 1957; 2ª. 1962) que a Beata “foi inscrita na Ordem Terceira do Carmelo” e que, como tal, “dispôs que por ocasião de sua morte a revestissem com o hábito do Carmo”, que “tinha uma especial devoção ao Escapulário do Carmo”, e que por causa disso, quando morreu, suas discípulas “lhe vestiram... o hábito carmelitano, visto que pertencia à Ordem Terceira do Carmo”.
     Sabemos ademais pelo livro “Algemesi e sua patrona” (1907), que a Fraternidade do Carmo havia sido fundada nessa cidade em 1854, e por tradição conservada em Algemesi e comunicada oralmente por várias pessoas ao Postulador Geral em algumas das visitas à cidade, que existiam alguns grupos de Irmandades do Carmo em vários lugares da Província de Valência, cuja condição era de “agregados à Terceira Ordem desta cidade” e que, no final do século XIX, havia muita comunhão entre a Ordem Terceira de Algemesi e os Padres Carmelitas de Alboraya, em Valência, cuja Comunidade havia sido restabelecida em 1884, e que, em seus registros, os Terceiros Seculares existiam em mais de um milhar em 1891.
     Josefa Naval Girbés, como abrindo de par em par sua alma, dizia muitas vezes: “meu ideal não é largar a vida, senão santificar minha alma”. Praticou em grau heroico as virtudes teologais da fé, esperança e amor, cujo exercício, bem sabemos os Carmelitas, nos levam ao abandono, à abnegação e à doação de nós mesmos, como ideais vocacionais.
     A oração do Ângelus ao meio dia, e algumas outras práticas de piedade, entre as que sobressaía era a recitação do Rosário a cada dia, se possível com suas discípulas.
     Esta era sua repetida mensagem: “oração, oração; fazer a cada dia um momento de oração e tudo vos parecerá maneiro e suave. Aprendei a falar com Deus sem palavras e fazei assim um momento de oração meditativa. Diante do sacrário havemos de estar com grandíssima fé e reverência”. Este último conselho ela dizia como expressão de seu espírito eucarístico.
     Seu amor à cruz foi uma mensagem constante para todas suas alunas. Assim dizia: “correspondamos ao amor sacrificado de Jesus em sua Paixão. Haveis de levar a vossa cruz, cumprindo o dever como Deus manda. Sofrei com amor, aproveitando todas as ocasiões de pequenas doenças. Amar, amar e sofrer em silêncio; o amor se prova no sacrifício. Sacrificai vossos gostos”.
     Praticou heroicamente a virtude da fortaleza, que fortalece a alma para servir a Deus, sem deter-se por nada, nem ante nada, nem sequer ante o temor da morte.
     Era exigente consigo mesma, logo o era também com os demais. Para exercitar-se na fortaleza, seguindo adiante com exemplo, propunha a suas discípulas a prática da mortificação. Mortificações às vezes simples, porém saturadas de vitória contra si própria que pouco a pouco a preparavam a oferecimentos mais amplos e generosos. Dizia às suas alunas: “filhas minhas, se é necessária a fortaleza para empreender o caminho de Deus, não o é menos para aceitar o que Ele envia ou permite para nossa purificação, a saber: moléstias, enfermidades, desprezos...”.
     Outra das virtudes que Josefa exercitou heroicamente foi a da temperança, necessária para moderar a inclinação ao prazer sensível, que pode impedir a perfeição e conseguir assim a posse de Deus. Fez como norma de sua vida aquela que São Paulo pregava: “castigo meu corpo e o reduzo à servidão” (I Cor 9,27). Castigou seu corpo, porém com prudência.
     Sua comida era sóbria, mas bem pouca e às vezes, voluntariamente, sem sabor. Não comia carne, a não ser por prescrição médica. Não bebia vinho (coisa muito comum naquela época e em sua região). Jejuava com certa frequência. Na Semana Santa não comia nada desde Quinta-Feira Santa até o dia do “Glória” (noite do Sábado Santo).
     À mortificação exterior superava a interior; essa vitória contra si própria que ela dissimulava com seu perene sorriso. Ninguém adivinhava que ela estava constantemente vigilante sobre suas paixões; porque tudo o fazia com grande naturalidade, sem sobressaltos, sem pôr em perigo sua inata longanimidade e equilíbrio emocional.

Fonte:

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Beata Teresa Manganiello, Terceira franciscana, Fundadora - 4 de novembro

    
     Teresa Manganiello nasceu perto de Montefusco, província de Avelino (Itália), no dia 1º de janeiro de 1849, undécima de doze filhos de uma família de camponeses. Seus pais eram Romualdo Manganiello e Rosária Lepore, “honestos concidadãos” cheios de fé e de profunda piedade cristã. No dia seguinte ela recebeu o batismo na Igreja de São João del Vaglio.
     Aos sete anos recebeu a Primeira Comunhão na igreja de Santo Egídio, anexa ao convento Capuchinho do mesmo nome.
    Como muitas crianças camponesas do sul da Itália daquela época, não frequentou a escola e sempre cresceu à sombra da casa colonial edificada nos campos daquela zona do país. Adolescente, manifestou o desejo de consagrar sua vida a Deus. Em contínua união com Deus, Teresa desde jovenzinha convidava com gentileza suas companheiras a cultivar a pureza e o amor a Deus e ao próximo. Tinha predileção pelas crianças, que cuidava como mãe dedicada.
     Como prova de sua particular devoção à Virgem Imaculada, bem jovem Teresa cortou sua longa e farta cabeleira e fez dela um presente a Nossa Senhora. A vida da jovem terceira franciscana era penetrada de orações marianas tão intensas, que poderia parecer inacreditável se se considera que ela se dedicava aos afazeres domésticos da manhã à noite. O Rosário preenchia toda a sua jornada. Teresa concluiu sua existência terrena repetindo a sua bela invocação: “Ó minha querida Mamãe! Só em vossa companhia serei digna de me apresentar ao vosso Filho, ao meu belo Esposo, Jesus!
     A "Farmácia" de Teresa, que ela criara em sua casa com medicamentos extraídos das ervas cultivadas por ela, estava sempre aberta. Ali ela fazia o papel de enfermeira: lavava com água morna as lesões, com delicadeza as medicava com as poções preparadas por ela, curava micoses, eczema, sarna, doenças que figuravam no século XIX entre “as mais asquerosas da espécie humana”.
     Quando tinha 18 anos, o Padre Ludovico Acernese, homem sincero e humilde, cheio de caridade, de grande talento e de piedade seráfica, mas também determinado em suas ações, chegou ao convento de Santo Egídio. Este padre instituiu em Montefusco a Ordem Terceira Franciscana.
     Teresa se sentiu atraída pelo ideal franciscano e correu registrar-se, tornando-se a primeira terceira de Montefusco; elegeu o Padre Acernese como seu diretor e confessor. Em 15 de maio de 1870, aos 21 anos, vestiu o hábito e no ano seguinte fez a profissão dos votos, tomando o nome de Irmã Maria Luísa.
     Teresa buscava seguir perfeitamente os exemplos de São Francisco e nutria forte devoção e amor para com Maria, à qual chamava de “Mamma Bella”, com a costumeira e cotidiana expressão do coração: “Mãe Formosa, fazei que não entre em mim aquilo que Jesus não quer”.
     O Padre Ludovico Acernese soube reconhecer nela todas as qualidades mais profundas de sua alma, o que o fez nomeá-la primeira conselheira e depois, pela perfeição do seu ideal franciscano, mestra de noviças.
     A família nunca apoiou seu desejo de se tornar monja, principalmente para não privar-se da grande ajuda que era ter Teresa vivendo em casa. Ela levava um estilo de vida monacal, foi chamada popularmente "monachella santa"; estava sempre presente na Missa diária na igreja de Santo Egídio, além disso, vivia intensamente a oração que junto a ásperas mortificações corporais oferecia pela reparação dos escândalos. Apesar disso, sempre e em toda parte mostrava um sorriso que atraía a todos.
     Entre as principais ocupações desta terciária capuchinha estava a caridade para com o próximo. Generosa antes de tudo na família: fadigas, trabalhos e várias incumbências encontravam-na sempre disponível e generosa, dia e noite, não só para cumprir a sua parte de serviço, mas também para aliviar a canseira à mãe, às irmãs e às próprias cunhadas. E na família encontrou também o modo de se santificar exercendo a paciência e a compreensão para com uma das suas cunhadas que a insultava continuamente. Muitas testemunhas afirmaram que a sua generosidade não se detinha diante de nada nem de ninguém. Acolhia os doentes e os mendigos, que naquele tempo eram numerosos nas / aldeias.
     Teresa se sentia chamada a um alto e difícil apostolado: a reparação. Compreende que deve rezar e expiar os males cometidos no mundo e desta forma se antecipou ao que foi pedido por Nossa Senhora em Fátima aos três pastorinhos: “Muitos vão para o inferno porque não há quem reze e se sacrifique por eles. Vós quereis vos oferecer?” Teresa havia se oferecido pela conversão dos pecadores e sempre teve nos lábios a sua jaculatória preferida: “Misericórdia, Senhor, misericórdia dos pecadores!
     Hoje podemos admirar, expostos no “Memorial Teresa Manganiello”, preparado na Casa Mãe das Irmãs Franciscanas Imaculatinas em Pietradefusi, os instrumentos de seu suplício voluntário, diurno e noturno, realizado no silêncio, na alegria, na ânsia apostólica de converter os pecadores e salvar as almas.
     Embora fosse analfabeta, respondia com sabedoria inclusive a pessoas de vasta cultura; foi a executora do Movimento Terciário Franciscano em Irpina e em Sannio, junto com o Padre Acernese, que ante a insistência de Teresa Manganiello pelo seu ideal religioso e falando dele com outras terceiras, planejou a fundação de uma comunidade para elas.
     Para obter uma aprovação especial, ele a mandou em 1873 a uma audiência com o Papa Pio IX, para lhe apresentar sua intenção. O beato pontífice a abençoou e a animou a ir adiante e quando Teresa já era considerada como a primeira superiora da nascente Congregação de Religiosas Terceiras Franciscanas, sua saúde começou a declinar.
     Em 14 de fevereiro de 1874, enquanto rezava na igreja teve a primeira hemoptise acompanhada de uma grave artrite; naquela época foi uma enfermidade que atacou pessoas de toda idade e condição social. Teresa seguiu adiante entre os altos e baixos da enfermidade até que no verão de 1876 o mal a prostrou.
     A muitos sacerdotes e fieis que foram visitá-la presenteou sempre com seu maravilhoso sorriso, totalmente entregue nas mãos de Deus, a quem rezava fervorosamente. Do leito de dores Teresa deu os extremos ensinamentos com o sangue, com a palavra e com o heroico sorriso. A quem se admirava com tanta resignação ela dizia: “O Senhor me fez a graça de sofrer por Ele e eu devo me lamentar? Ele já sabe que eu preciso de ajuda!
     Faleceu no dia 4 de novembro de 1876 com apenas 27 anos e foi sepultada no cemitério de Montefusco.
     Cinco anos após sua morte, o Padre Ludovico Acernese, confiando em sua proteção espiritual, fundou em Pietradefusi a Congregação das Monjas Franciscanas Imaculatinas, das quais Teresa é a "Pedra angular" e a "Mãe espiritual". Em seu patrimônio espiritual cada monja encontra ricos exemplos e ensinamentos para uma vida de total consagração ao serviço de Deus e da Igreja.
     Em 1976, por ocasião dos cem anos de sua morte, as Monjas Franciscanas Imaculatinas iniciaram a causa para sua beatificação, reconhecendo nela o papel fundamental na fundação da Congregação. As atas do processo foram aprovadas pela Santa Sé em 12 de dezembro de1992. Teresa Manganiello foi beatificada em 22 de maio de 2010.
     Continuam sendo frequentes os sinais de graças, curas e favores de ordem moral e espiritual conseguidos por sua intercessão.


Postado anteriormente em 3 de novembro de 2013

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Santa Lumbrosa de Cea, virgem e mártir – 1º de novembro

     Santa Lumbrosa de Cea em León, na província autônoma de Castela, segundo a tradição, foi martirizada pelos muçulmanos no ano de 830, quando Almanzur destruiu o mosteiro de São Facundo.
      Nós não sabemos nada sobre Santa Lumbrosa. Apenas a sua tumba de mármore é preservada na capela de São Mâncio, na igreja do mosteiro de São Facundo, localizado na cidade de Sahagún.
      No decorrer dos séculos, a veneração por essa mártir estava muito viva, de modo que o povo fez um furo em seu sarcófago para roubar as relíquias, e no século XVII só restava a cabeça da mártir.
      Sua festa era celebrada em 1º de novembro e só era lembrada no Martirológio Hispanicum de Tamayo de Salazar.


Ruinas do Mosteiro
Mosteiro Real de São Bento (Sahagún)
     Antigo mosteiro beneditino em Sahagún (província de León, Espanha) foi muito importante durante a Idade Média, chegando suas possessões desde Tierra de Campos até Liébana e Segóvia. Foi o principal foco da reforma dos mosteiros beneditinos quando se introduziu pela primeira vez a regra de Cluny no ano de 1080 na península ibérica.
     A história do mosteiro começa com Afonso III o Magno, quando ele adquire uma igreja existente no lugar onde se venerava as relíquias dos santos mártires Facundo e Primitivo, para doa-la ao abade Alonso que fugia das perseguições aos cristãos decretadas em Córdoba. O primeiro documento escrito sobre o mosteiro data da época, quando no ano de 904 Afonso III doa a vila de Calzada ao abade Afonso.
     No ano 988 Almanzur destruiu a abadia durante uma incursão.
     A época de maior esplendor do mosteiro está associada com a figura de Afonso VI, ao eleger este lugar para tomar o habito e professar nele antes de tornar-se rei. Seu casamento com Constança de Borgonha propiciou a entrada dos monges de Cluny na abadia, pois devido sua ascendência francesa estava interessada em implantar a liturgia romana que se praticava na França.
     Em 1080 Afonso VI nomeou abade o francês D. Bernardo de Aquitânia, e em 1085 concedeu a Sahagún foros que propiciaram o crescimento da vila, sob o poder da abadia.
     Afonso VI faleceu em 1109 e foi enterrado no mosteiro, como também suas esposas. Este costume de utilizar o mosteiro como panteão funerário foi seguido por outros nobres.
     A decadência do mosteiro começou no século XV coincidindo com a fundação do mosteiro de São Bento de Valladolid e a reforma implantada no mesmo. O desaparecimento do mosteiro foi fruto também da continua luta com a cidade de Sahagún pelo poder sobre a população, que provocou que o mesmo fosse incendiado várias vezes.
     Em 1755 o Terremoto de Lisboa afetou a estrutura do cruzeiro da basílica, foi preciso realizar uma série de reformas profundas para evitar a ruina do mosteiro.
     No ano 1820 o decreto de supressão das ordens monacais realizadas durante o Triênio Liberal provocou a exclaustração do mosteiro. Em 1837, com a desamortização de Mendizabal os edifícios que conformavam o mosteiro passaram a ser propriedade pública.

https://es.m.wikipedia.org/wiki/Monasterio_Real_de_San_Benito_(Sahagún)