segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Santa Hildegarda von Bingen, Mística, Profetiza e Escritora – 17 de setembro

     Hildegarda von Bingen nasceu no Condado de Spanhein, Diocese de Maicus, no ano de 1098. Seus pais, Hildeberto e Matilde, provavelmente originários de Bermerschein, no Condado de Spanheim, pertenciam à nobreza do Palatinado.
     Conforme prática comum naquela época, com a idade de oito anos ela foi levada ao Mosteiro de Disibodensberg, ou do monte de Santo Disibode, onde foi colocada sob a direção de Jutta, filha do Conde de Spanheim, que tomou a si o encargo de cuidar dessa menina que dava sinais de grande vocação. Sua virtude sobressaiu de tal modo que, aos 39 anos, quando morre Jutta, as religiosas elegeram Hildegarda como Abadessa.
     Sabe-se que Hildegarda tinha uma saúde muito frágil e que sempre era favorecida por visões, além de ter intuições sobrenaturais de coisas por suceder. Todas essas manifestações sobrenaturais eram por ela narradas com simplicidade a sua tutora e a um dos monges do mosteiro de Santo Disibode, chamado Volmar, que posteriormente exercerá o ofício de seu secretário durante 30 anos.
     Como ela mesma conta em seus escritos: "Aos meus 40 anos, tive uma visão onde uma voz dizia: ‘Diga o que viste e entendeste, não à maneira de outro homem, mas segundo a vontade dAquele que sabe, vê e dispõe todas as coisas no segredo de seus mistérios’".
     Era uma ordem decisiva que indicava a vocação de Hildegarda, semelhante à dos profetas do Antigo Testamento, os quais eram as bocas de Deus. Sobre esta vocação, Hildegarda insistirá dizendo que "uma voz do Céu mandava-me tudo dizer e escrever, tal qual ouvia e era-me ensinado". Esta voz apresentou-se a ela como “a Luz viva que ilumina o que é obscuro”
Hildegarda menina entregue a Jutta
     Durante muito tempo ela resistiu por humildade e desconfiança. Mais por temor do que por desobediência, continuava a recusar a escrever. Foi então que caiu doente. Confiou sua preocupação ao seu diretor espiritual. Depois de aconselhar-se com os religiosos mais sábios da comunidade e de interrogar Hildegarda, o Prior ordenou-lhe que escrevesse. Assim que ela começou a escrever, imediatamente se viu curada e levantou-se da cama.
     Ajudada pelo monge Volmar, escreveu, entre 1141 e 1151, a sua grande obra Scivias (Conhece as vias do Senhor), uma espécie de Apocalipse sobretudo dogmático e um pouco moral.
     Em 1147, o prior, desconfiando do seu próprio critério, apresentou os escritos de Hildegarda ao Arcebispo Henri, de Mainz, Diocese onde se localizava o Mosteiro de Disibodensberg. Aproveitando a presença do Papa Eugênio III em Trier, onde iria reunir-se um Sínodo preparatório do Concílio de Reims, o arcebispo consultou o Papa.
     Trier é a cidade do Imperador Constantino, que ali residiu com sua mãe Santa Helena até o ano 316. O Papa Eugênio III era um cisterciense formado por São Bernardo. Ele reuniu Cardeais, Bispos e Abades para um alto tema: confirmar mais uma vez as reformas empreendidas pelo Papa São Gregório VII.
     O Papa, desejoso de conhecer melhor o assunto, enviou o Bispo de Verdum, Alberon, ao Mosteiro de Hildegarda, que respondeu com simplicidade às perguntas que lhe foram feitas. Os escritos feitos até então por Hildegarda foram entregues a ele e lidos em voz alta na presença do Arcebispo, dos Cardeais e de todo o clero reunido. Entre os ouvintes estava a maior figura da Cristandade: São Bernardo de Claraval.
     A conclusão da assembleia é atribuída a São Bernardo: "É preciso impedir que se apague uma tão admirável luz animada pela inspiração divina". Este Santo conhecera Hildegarda e pediu que o Papa divulgasse tão grande graça concedida por Deus à Igreja no seu pontificado, e a confirmasse com sua autoridade.
     O Papa seguiu seu conselho, escreveu a Hildegarda: "Nós ficamos admirados, minha filha, que Deus mostre em nosso tempo novos milagres. Nós te felicitamos pela graça de Deus. Conserve e guarde esta graça" (*). Pediu ele ainda que ela relatasse com frequência tudo que lhe fosse revelado por intermédio do Espírito Santo.
     A santa relatou ao Papa Eugênio III, em carta bastante longa, tudo quanto ouvira da voz celeste relativamente ao pontífice. Anunciava uma época difícil, cujos primeiros sinais já se manifestavam:
     “As próprias montanhas, que são os prelados, em lugar de se elevarem continuamente a comunicações íntimas com Deus, a fim de cada vez mais se transformarem na luz do mundo, descuidam-se e obscurecem-se. Daí a sombra e a perturbação que reina nas ordens superiores. E porque vós, grande Pastor e Vigário de Cristo, deveis buscar luz para as montanhas e conter os vales, dai preceitos aos senhores e disciplinas aos súditos. O Soberano Juiz recomenda-vos que condenais e repilais de junto de vós os tiranos importunos e ímpios, no temor de que, para vossa grande confusão, eles se imiscuam na vossa sociedade, mas sede compassivo com as desgraças públicas e particulares, pois Deus não desdenha as chagas e as dores daqueles que O temem”.
     Começou assim uma nova vida para Hildegarda. Sua fama, não só devido a seus escritos, mas também aos milagres, difundiu-se além do Reno. Muitos vinham visitá-la. Ela penetrava nos pensamentos dos peregrinos e afasta-se dos que se aproximam com más intenções ou para provar sua virtude. Exortava à conversão à Fé verdadeira os judeus que vinham ouvi-la. Hildegarda livrou do demônio uma possessa de Colônia, que os sacerdotes da Abadia de Brauweisler não tinham conseguido expulsar. 
    Santa Hildegarda mantinha correspondência com Papas, Bispos e altas autoridades temporais, como, por exemplo, os Imperadores Conrado III e Frederico Barbaruiva, da Alemanha.
     Frederico Barbaruiva pediu que a Santa o visitasse em seu palácio de Ingelheim, perto de Mainz. Os detalhes desse encontro são conhecidos pelas cartas do Imperador e das respostas de Santa Hildegarda. Ela não se intimida diante de tão ilustre destinatário e o adverte em termos proféticos e pede que o Imperador "vele pelos costumes dos Prelados que caíram na abjeção", exortando-o a que "tome cuidado para que o Supremo Rei não te lance por terra por culpa da cegueira de teus olhos. Seja tal, que a graça de Deus não te falte".
     O Imperador lutou contra o Papado, destituiu o Arcebispo de Mainz, fiel a Roma, mandou suas tropas arrasar Milão e nomeou nada menos do que quatro antipapas apenas durante o pontificado de Alexandre III.  Ficou surdo às exortações da Santa!
     Correspondia-se ela com São Bernardo de Claraval, que lhe escreveu em termos elogiosos e sobrenaturais: "Agradeço a graça de Deus que está em ti. Eu te suplico de lembrar-te de mim diante de Deus..."
     Ela recebera a vocação de aconselhar, segundo os caminhos de Deus, não só as mais altas autoridades da época, mas também pessoas simples que a ela recorriam pedindo um conselho. A todos Hildegarda respondia com o tom que caracterizava o seu estilo, isto é, com solenidade, humildade e severidade.
     Santa Hildegarda anunciou a eclosão de uma terrível heresia que ergueria o povo contra o Clero, porque este "tinha uma voz e não ousou levantá-la", o que permitiu ao inimigo "oferecer os seus próprios bens, enchendo os olhos, as orelhas e o ventre de todos os vícios!" Pouco tempo depois, explodiu a heresia dos cátaros, descrita por ela com detalhes que surpreendem os historiadores. Ela vai além, prevendo a vitória da Igreja sobre essa heresia.
     Santa Hildegarda é mística, profetiza, escritora, pregadora, conselheira, médica e compositora. Seus outros dois livros que compõem a trilogia hildegardina são: o Líber vitae meritorum ou Livro dos Méritos, onde são apresentados os grandes dados da moral do século II; e o Líber divinorum operum ou Livro das obras divinas, de caráter científico, contendo ilustrações de grande precisão e originalidade. Ela compôs ainda diversas obras de menor importância sobre assuntos variados, como o Tratado de Medicina. Compôs também 77 sinfonias em um estilo similar ao gregoriano.
     Santa Hildegarda viveu seus últimos anos no convento de Eibingen, o terceiro fundado por ela na outra margem do Reno. Foi o único que se salvou dos bárbaros e das guerras. Uma das religiosas narra a morte de Santa Hildegarda: "Nossa boa Mãe, depois de combater piedosamente pelo Senhor, tomada de desgosto da vida presente, desejava cada dia mais evadir-se desta Terra para unir-se com Cristo. Sofrendo de sua enfermidade, ela passa alegremente deste século para o Esposo celeste, no octogésimo ano de sua existência, no dia 17 de setembro de 1179".
     Em 1233 foi feito um inquérito sobre as suas virtudes e os seus milagres, ordenado pelo Papa Gregório IX, mas não chegou a bom termo.
Sta. Hildegarda com seu secretário
     Ao longo do século XIII se desenvolveu um culto popular dirigido a ela, em 1324 o papa João XXII autorizou sua veneração pública, e suas relíquias foram autenticadas no encerramento do século XV. Finalmente seu nome foi inscrito como santa na primeira edição do Martirológio Romano, de 1584, aprovada pelo papa Gregório XIII, e sua inclusão foi ratificada na edição revista de 2001 publicada sob os auspícios do papa João Paulo II, que a descreveu como "uma santa extraordinária, uma luz para seu povo e sua época que nos dias de hoje brilha ainda mais intensamente".
     A partir da segunda metade do século XX o interesse pela sua figura histórica e seus escritos renasceu, especialmente através dos estudos monumentais de Marianna Schrader, Christel Meier e Aldegundis Führkötter, e com as traduções feitas dos originais latinos para o inglês por Otto Müller, tornando acessível seu trabalho para um público muito mais vasto, de modo que atualmente sua produção já é objeto de análises particularizadas por um bom número de acadêmicos da Europa e Estados Unidos, destacando-se Peter Dronke, Barbara Newman e Heinrich Schipperges, entre muitos outros.
     Para dirimir quaisquer dúvidas que ainda pairassem sobre o seu estatuto de santa, em 10 de maio de 2012 o papa Bento XVI proclamou publicamente sua santidade e determinou que seu culto fosse estendido à Igreja Universal na forma devida aos santos, ratificando definitivamente a inclusão do seu nome na lista dos santos católicos. Em 7 de outubro do mesmo ano, através de Carta Apostólica, foi honrada com o título de Doutora da Igreja, considerando a ortodoxia da sua doutrina, a sua reconhecida santidade, a importância dos seus tratados e sua influência sobre outros teólogos.
 
Abadia de Santa Hildegarda em Rüdesheim
(*) A carta é uma das 390 que aparecem no livro recentemente publicado na Alemanha sob o patrocínio da Abadessa Walburga Storch OSB, da própria Abadia de Santa Hildegarda, em Rüdesheim-Eibingen.

    “Por que Deus quis que ela tivesse essas visões? Porque o verdadeiro católico tem que ter uma filosofia da História. Ele deve saber que sua época é um elo entre o passado e o futuro, e deve interpretar os acontecimentos de sua época não como acontecendo só hoje, mas como nascidos de mil fatores do passado e gerando mil coisas no futuro. É um processo, é uma coisa que gera outra, que gera outra, que gera outra, que gera outra. Para nós conhecermos este processo veio esta revelação”.

Fontes: Catolicismo setembro 1998; Pe. Rohbacher

Postado neste blog em 16 de setembro de 2011

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Santa Notburga de Eben, Doméstica – 14 de setembro

    
      O culto a Santa Notburga teve uma imensa difusão nos países de sua região, Áustria e nos estados vizinhos, porque era então pouco comum que uma empregada doméstica, pertencente ao mundo camponês, fosse venerada como santa. Eram comuns no campo feminino as santas religiosas, abadessas, ou também rainhas. Muitas 'Vitae' e livros devocionais foram escritos sobre ela, bem como ela foi retratada em muitas obras de arte.
     Notburga nasceu em 1265 em Rattenberg (Tirol Norte). Foi doméstica e cozinheira no vizinho Castelo de Rottenburg.
     Filha de uma família de lavradores sem fortuna do Tirol, foi educada nos princípios católicos. Aos dezessete anos foi admitida como cozinheira no palácio do Conde Henrique de Rottenburg. Henrique e Jutta, sua esposa, grandes esmoleres, designaram Notburga como sua despenseira para com os pobres que chegavam a toda hora em seu palácio. Ela distribuía generosamente aos pobres tudo aquilo que sobejava da mesa dos patrões. Ela também doava aos pobres o seu próprio alimento, especialmente às sextas-feiras.
     Seis anos viveu com os condes; com a morte deles tudo mudou para Notburga. Otília, a nova condessa, a maltratou de mil modos, e por fim a expulsou de sua casa. Mas, Otília ficou mortalmente enferma e Notburga cuidou dela e a preparou para a morte.
     Notburga depois passou a trabalhar para os agricultores do vale do Eben. Ali realizou um milagre para que os trabalhos nos campos terminassem após o toque dos sinos das Vésperas do sábado – que segundo o costume medieval indicava o início da festa dominical –, para que os camponeses pudessem se dedicar à oração e aos trabalhos da casa.
     Depois do falecimento de Otília, seus filhos, que herdaram seus bens e eram católicos piedosíssimos, acolheram a jovem, que voltou a trabalhar como cozinheira no castelo. Novamente despenseira dos pobres, continuou suas atividades caritativas até sua morte.
     Notburga faleceu em 14 de setembro de 1313 no Castelo de Rottenburg. Um pouco antes de sua morte ela dissera ao seu senhor para colocar seu corpo em uma carroça puxada por dois bois, e para enterrá-lo onde os bois parassem. Os bois dirigiram a carroça para a Capela de São Roberto, em Eben am Achensee, onde ela foi sepultada.
     A Santa é invocada como modelo e patrona da juventude rural, e venerada como patrona dos camponeses e das domésticas. O seu culto se difundiu no Tirol, Áustria, Ístria, Baviera e foi confirmado pelo Papa Pio IX com decreto de 27 de março de 1862.
     Não existem documentos contemporâneos que mencionem sua vida, somente um texto muito antigo, em alemão, pintado a óleo sobre madeira, que adornava o túmulo de Notburga em Eben am Achensee, e se perdeu.
Túmulo da Santa
     Este texto, que foi transcrito para o latim e é conservado no Museu Ferdinandeum de Innsbruck, narra numerosos milagres e prodígios que aconteceram depois de sua morte. A iconografia que a representa é numerosa e a mostra como um dos seus símbolos: a foice. Segundo a legenda, diante da insistência de um camponês em continuar a trabalhar após o toque do sino, Notburga lançou a foice para o alto, e ela ficou suspensa no ar.
     Notburga foi alvo de um culto notável nos séculos seguintes, eram numerosos os peregrinos que iam venerar seu túmulo e levavam um pouco de terra do cemitério consigo para usá-la contra as doenças que afligiam homens e animais.
     A igrejinha de Eben onde ela estava sepultada foi ampliada em 1434 e em 1516, e embelezada com o apoio do imperador Maximiliano I de Habsburg. Em 1718 as suas relíquias foram recompostas, segundo o uso da época, revestidas com seda, ouro e prata, e colocadas no altar mor em posição vertical e ali estão ainda hoje.
 Eben am Achensee
Postado neste blog em 13 de setembro de 2012

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Beata Maria Celeste Crostarosa, Monja, Fundadora - 11 de setembro

   
     A Beata Maria Celeste Crostarosa transformou em realidade o projeto contemplativo redentorista. Uma mulher ao mesmo tempo forte e terna, devorada pelo fogo do Espírito Santo. Contemplar a ação de Deus em sua vida é uma verdadeira parábola de sabedoria.
     Ela nasceu em Nápoles no dia 31 de outubro de 1696, décima dos doze filhos de José Crostarosa, magistrado e descendente de uma nobre família de Abruzzo, e de Paula Battistini Caldari. Foi batizada no dia 1º de novembro na igreja de São José Maior, com o nome de Júlia Marcela Santa.
     Precoce em inteligência e capacidade de raciocinar, dotada de um caráter decidido e extrovertido, a infância e adolescência de Júlia transcorreu na serenidade abastada de sua casa. Iniciou o aprofundamento de sua vida espiritual, mas não foi isenta de crise; aconselhada pelo Pe. Bartolomeu Cacace conseguiu superar aquela fase.
     Em 1716, aos 20 anos, acompanhou com sua mãe a irmã, Úrsula, ao mosteiro carmelita, recentemente fundado, de Santa Maria das 7 Dores em Marigliano, na província de Nápoles. Decidiu também ficar naquele mosteiro, já que há 3 anos fizera voto de castidade. Em 21 de novembro de 1718 as duas irmãs vestiram o hábito carmelita e iniciaram o noviciado, terminado no ano seguinte. Júlia tomou o nome de Irmã Cândida do Céu.
     Quando o mosteiro foi fechado por causas de força maior, as duas irmãs foram obrigadas a deixar Marigliano, em 16 de outubro de 1723. Depois de uma breve permanência na família, aceitaram o convite do Pe. Tomás Falcoia, das Obras Pias, que havia fundado dois anos antes o mosteiro da Santíssima Conceição em Scala, província de Salermo, ao qual dera a regra da Visitação. Elas se transferiram para lá em janeiro de 1724; Júlia assumiu o nome de Irmã Maria Celeste do Santo Deserto e foi seguida em breve por outra irmã, Joana.
A Beata jovem
     Em 25 de abril de 1725, depois da Comunhão, ocorreu o primeiro dos acontecimentos extraordinários dos quais seria protagonista. Foi revelado a ela como, por seu intermédio, o Senhor introduziria no mundo um novo instituto religioso. Por obediência à mestra de noviças redigiu o texto “Instituto e Regras do Santíssimo Salvador contidos nos Santos Evangelhos”.
     A aprovação foi alcançada depois de um atento exame por parte de um conselho de teólogos napolitanos, solicitado pelo Pe. Falcoia, e em seguida a não poucas dificuldades por parte dos superiores e de algumas coirmãs. Foi determinante, para a solução da contenda, a contribuição de um sacerdote napolitano, Pe. Afonso Maria de Liguori (o santo e doutor da Igreja).
     Em 13 de janeiro de 1731 teve início a Ordem do Santíssimo Salvador, que com a aprovação pontifícia, em 1750, mudará o título para “do Santíssimo Redentor”. Os religiosos são geralmente conhecidos como “Redentoristas”.
     A tantas graças logo sucederam momentos difíceis para Irmã Maria Celeste. Não poucas incompreensões surgiram entre ela, o Pe. Falcoia e a comunidade religiosa. A questão tornou-se mais complicada quando o novo bispo de Scala impôs à fundadora firmar uma nova versão da Regra, não ter mais como diretor espiritual o Pe. Falcoia e não se relacionar com um leigo, Tosquez. De fato, ela foi isolada da comunidade e privada da Eucaristia.
     Devido ao clima pesado que se criara, no mês de maio sua irmã Joana escreveu ao pai: desejava deixar o mosteiro. O Pe. Jorge Crostarosa, jesuíta, foi então para Scala e sugeriu que ela interrompesse seu relacionamento com Tosquez, mas não assinasse as Regras remanejadas, e se contentasse com o confessor ordinário do mosteiro. A conclusão do dissídio chegou no dia 14 de maio de 1733: Irmã Maria Celeste foi expulsa e com ela, voluntariamente, saíram as suas duas irmãs.
     Por 10 dias, de 26 de maio em diante, elas foram hóspedes do mosteiro beneditino da Santíssima Trindade de Amalfi. No mês de junho se retiraram no conservatório dominicano da Santíssima Anunciada em Pareti di Nocera (hoje Nocera Inferior, província de Salermo). Irmã Maria Celeste se tornou superiora e o reformou, exercendo o bem seja dentro como fora dos muros do claustro. O seu novo diretor espiritual, depois de 5 anos, foi Pe. Bernardino Sommantico.
     A pedido do Duque Ravaschieri de Roccapiemonte, em 7 de novembro de 1735 partiu novamente para uma tentativa de fundação. A sua comunidade se transferiu para o novo conservatório do Santíssimo Salvador em 4 de outubro de 1739, onde, em 26 de março de 1742, ocorreu a vestição de oito jovens. Finalmente Irmã Maria Celeste podia atuar segundo o que lhe fora inspirado, guiando as coirmãs, mas também as jovens que vinham ser educadas no mosteiro com equilíbrio e responsabilidade.
     Para ela a vida das monjas devia ser uma perfeita imitação da vida de Cristo; em consequência, a comunidade religiosa era concebida como “viva memória” de Seu amor redentor. O critério fundamental que as devia inspirar era a essência bebida na familiaridade com o Evangelho e concretizada no doar-se sem reserva ao próximo, como escrito na Regra. 
    Além da estima de Santo Afonso Maria de Liguori, Irmã Maria Celeste gozava da amizade do jovem irmão redentorista Gerardo Maiella (ele também canonizado, conhecido entre nós como São Geraldo Magela) e de todo o povo de Foggia, que a chamava “a santa priora”. Por volta de 1750, aconselhada por seu diretor espiritual escreveu sua autobiografia, fonte de numerosos detalhes sobre sua história pessoal.
     Sua existência terrena se encerrou em 14 de setembro de 1755 no mosteiro de Foggia, enquanto o sacerdote que a assistia, lendo a Paixão segundo São João, chegara às palavras “Consummatum est” – “Está consumado”.
     Além da autobiografia, Madre Maria Celeste deixou um substancioso epistolário que completa o quadro de sua personalidade e permite observar sua vida interior. Como resultado de suas 14 obras ascéticas é considerada uma das maiores místicas italianas do século XVII.
     Na realidade, Madre Maria Celeste é uma grande desconhecida, entretanto, por sua obra e seus escritos merece um lugar de destaque na história da espiritualidade católica. Fundadora da Ordem do Santíssimo Redentor (Comunidades Contemplativas Redentoristas) em 1731, e inspiradora da Congregação do Santíssimo Redentor (Missionários Redentoristas) fundada por Santo Afonso Maria de Liguori em 1732, as comunidades redentoristas se expandiram pelo mundo todo, levando seu canto, louvor e serviço.
     A Beata dava uma importância extraordinária ao Evangelho como fonte primeira de inspiração tanto para o Instituto como para sua vida espiritual. Meditações sobre o Advento, Natal e Quaresma são valiosa ajuda para nos aproximar do Mistério de Cristo através da contemplação dos mistérios de Sua vida. Madre Maria Celeste vai percorrendo os textos do Evangelho e comentando os parágrafos para nos ajudar a aprofundá-lo e a nos encontrarmos com Deus, o Deus encarnado em Jesus Cristo por amor de nós.
     Graças a sua fama de santidade, de 9 de julho de 1879 ao 1º de julho de 1884, foi introduzido um processo informativo, seguido pelo decreto da Congregação dos Ritos em 11 de agosto de 1901. A validade jurídica do processo apostólico foi reconhecida em 21 de maio de 1999.
     Os cardeais e bispos membros da Congregação para a Causa dos Santos, na sessão ordinária de 7 de maio de 2013, reconheceram que a Serva de Deus exerceu em grau heroico as virtudes teologais, cardeais e anexas. Em 3 de junho de 2013 o papa Francisco autorizou a promulgação do decreto sobre a heroicidade das virtudes.
     Em 14 de dezembro de 2015 foi promulgado o decreto sobre o milagre ocorrido pela intercessão de Madre Maria Celeste. A beatificação foi celebrada no dia 18 de junho de 2016, em Foggia, conduzida pelo Cardeal Amato como enviado do papa.
     A memória litúrgica da Beata Maria Celeste Crostarosa, para as monjas redentoristas e os padres redentoristas fundados por Santo Afonso, é o dia 11 de setembro.

http://es.catholic.net/op/articulos/6078/cat/171/maria-celeste-crostarosa.html

As Filhas da Beata no Brasil
     Duas jovens brasileiras transpuseram os mares para ingressar no Mosteiro Redentorista de Bruges, Bélgica:  Helena Isnard (Irmã Maria Tereza do Menino Jesus) e Irmã Maria Luiza do Coração de Jesus. Elas regressaram ao Brasil no dia 14 de junho de 1921; o grupo das fundadoras desembarcou no Rio de Janeiro:  Madre Maria Clemente, Irmã Maria Verônica, Irmã Maria Tereza do Menino Jesus, Irmã Maria Luiza do Sagrado Coração de Jesus.
     Inicialmente as religiosas se instalaram em Vassouras – RJ e se transladaram para Itu – SP em fevereiro de 1924.
     Em março de 1952, a Irmã Maria Letícia da Virgem Misericordiosa, com outras irmãs oriundas de Itu, fundou o Mosteiro do Imaculado Coração de Maria na cidade de Belo Horizonte – MG.
     Em 22 de maio de 1969, Madre Letícia fundou, com algumas irmãs, o Mosteiro da Santa Face e do Puríssimo e Doloroso Coração de Maria, em Diamantina, que foi transladado em 1970 para Campos, onde chegaram em 26 de julho; por fim, este Mosteiro foi transladado para São Fidélis – RS, onde as Irmãs chegaram no dia 28 de dezembro de 2003.
     Para maiores detalhes sobre Madre Maria Letícia, vide post deste blog em 2 maio 2015.

Postado neste blog em 10 de setembro de 2017

sábado, 7 de setembro de 2019

Natividade de Nossa Senhora - 8 de setembro

    

     Do nascimento da gloriosíssima Mãe de Deus, Maria, Senhora nossa, a Santa Igreja tem, em uma antífona, estas palavras: “Vossa natividade, ó Virgem e Mãe de Deus, trouxe gozo e alegria ao mundo inteiro. Porque de vós nasceu o Sol de justiça, Cristo nosso Deus, o qual, desfazendo a maldição (debaixo da qual estávamos compreendidos), lançou sua copiosa bênção sobre nós e, vencendo e matando a morte, nos deu a vida sempiterna e perdurável”. Com efeito, “festejando solenemente o nascimento da Virgem Maria, a Igreja canta a aurora da Redenção, a aparição, no mundo, daquela que devia ser a Mãe do Salvador”.
     Recordando tudo o que anunciava este nascimento, a Igreja exulta e pede a Deus um aumento de graças de paz, trazidas aos homens pelo mistério da Encarnação” (Missal romano quotidiano, D. Gaspar Lefebvre).
Onde nasceu Nossa Senhora?
     Essa pergunta, versando sobre tema muito caro aos católicos, por diversas razões não encontra fácil resposta.
     Para entender a escassez de informações nos primeiros séculos da Igreja, sobre a vida de Nossa Senhora, convém levar em conta as particularidades daquela época.
     O mundo pagão, por efeito da decadência em que se encontrava, era politeísta, ou seja, os homens adoravam simultaneamente vários deuses. Os pagãos não achavam ilógico nem absurdo que houvesse várias divindades, ou que elas não fossem perfeitas. Pior ainda. Consideravam normal que os deuses dessem exemplo de devassidão moral, sendo, por exemplo, adúlteros, ladrões ou bêbados. Obviamente, nem todos os deuses eram apresentados como subjugados por esses vícios, mas o fato de haver vários deles nessas condições tornava imensamente árduo para os pagãos entender a noção católica do verdadeiro e único Deus, de perfeição infinita.
     Por isso a primitiva Igreja teve muito cuidado ao apresentar Nossa Senhora como Mãe de Deus, pois aqueles povos, com forte influência do paganismo, rapidamente tenderiam a transformá-la numa deusa. Somente após a queda do Império Romano do Ocidente e a sucessiva cristianização dos povos começou a Igreja – que nunca negou a importância fundamental da Virgem Santíssima na história da salvação – a colocar Nossa Senhora na evidência que lhe compete e a exaltar suas maravilhas. E com isso, a fazer um bem indescritível às almas dos fiéis.
     É fácil compreender por que nesse longo período, cerca de 400 anos, muitas informações a respeito da Santíssima Virgem tenham se perdido e outras se encontrem em fontes não inteiramente confiáveis. Não obstante, a Tradição da Igreja conservou fielmente aqueles atributos d’Ela que eram necessários para a integridade da fé dos católicos. O essencial foi transmitido, e, para um filho que ama sua Mãe, qualquer dado a respeito d’Ela é importante.
     Entre esses dados, sobre os quais um véu de mistério permaneceu, está o local em que nasceu Nossa Senhora.
Belém, Seforis ou Jerusalém
     Três cidades disputam a honra de ter sido o local de nascimento da Mãe de Deus. (1) A primeira é Belém. Deve-se essa tradição ao fato de Nossa Senhora ser de estirpe real, da casa de Davi. Sendo Belém a cidade de Davi, foi essa a razão pela qual São José e a Virgem Santíssima – ambos descendentes do Profeta-Rei – dirigiram-se àquela localidade, por ocasião do censo romano que ordenava a todos registrarem-se no lugar originário de suas famílias. Por isso, o Menino Jesus nasceu em Belém, e é aclamado, no Evangelho, como Filho de Davi. O principal argumento dos que sustentam a tese de que Nossa Senhora nasceu em Belém encontra-se num documento intitulado De Nativitate S. Mariae, incluído na continuação das obras de São Jerônimo.
     Outra tradição assinala a pequena localidade de Seforis, poucos quilômetros ao norte de Belém, como o local do nascimento da Virgem. Tal opinião tem como base que, já na época do Imperador Constantino, no início do século IV, foi construída uma igreja nessa localidade para celebrar o fato de ali terem residido São Joaquim e Santa Ana, pais de Nossa Senhora. Santo Epifânio menciona tal santuário. Os defensores de outras hipóteses assinalam que o fato de os genitores da Virgem Santíssima terem morado lá não indica necessariamente que Nossa Senhora haja nascido naquela localidade.
     A hipótese que congrega maior número de adeptos é a de que Ela nasceu em Jerusalém. São Sofrônio, Patriarca de Jerusalém (634-638), escrevendo no ano 603, afirma claramente ser aquela a cidade natal de Maria Santíssima. (2) São João Damasceno defende a mesma posição.
A festa da Natividade
     Na Igreja católica celebramos numerosas festas de santos. Havendo, felizmente, milhares de santos, comemoram-se milhares de festas. Ocorre que não se celebra a data de nascimento do santo, mas sim a de sua morte — correspondendo ao dia da entrada dele na vida eterna. Somente em três casos comemoram-se as festas no dia do nascimento: Nosso Senhor Jesus Cristo (Natal); o nascimento de São João Batista; e a natividade da Santíssima Virgem.
     A festa da Natividade era celebrada no Oriente católico muito antes de ser instituída no Ocidente. Segundo uma bela tradição, tal festa teve início quando São Maurílio a introduziu na diocese de Angers, na França, em consequência de uma revelação, no ano 430. Um senhor de Angers encontrava-se na pradaria de Marillais, na noite de 8 de setembro daquele ano, quando ouviu os anjos cantando no Céu. Perguntou-lhes qual o motivo do cântico. Responderam-lhe que cantavam em razão de sua alegria pelo nascimento de Nossa Senhora durante a noite daquele dia. (3)
     Em Roma, já no século VII, encontra-se o registro da comemoração de tal festa. O Papa Sérgio tornou-a solene, mediante uma grande procissão.
     Posteriormente, Fulberto, Bispo de Chartres, muito contribuiu para a difusão dessa data em toda a França. Finalmente, o Papa Inocêncio IV, em 1245, durante o Concilio de Lyon, estendeu a festividade para toda a Igreja.
Comemoração na atualidade
     Por uma série de motivos curiosos, a festa da Natividade é celebrada muito especialmente na Itália e em Malta. Sendo o povo italiano muito vivo e propenso a celebrações familiares, não surpreende esse fato.
     Em Malta, a principal comemoração da festa consiste numa solene procissão na localidade de Xaghra. (4)
     Na cidade de Florença, no dia da festa, numerosas crianças dirigem-se ao rio Arno levando pequenas lanternas, que são colocadas na água e lentamente vão atravessando a cidade.
     Na Sicília, na localidade de Mistretta, a população celebra a festa representando um baile entre dois gigantes. À primeira vista, pareceria que isto nada tem a ver com o fato histórico. Mas ele corresponde a uma tradição: foi encontrada uma imagem de Santa Ana com Nossa Senhora ainda menina. Levada à cidade, a imagem misteriosamente retornou ao local onde havia sido achada, e os habitantes julgaram que só poderia ter sido levada por gigantes. Proveio dessa lenda o costume.
     Em Moliterno, ao contrário, existe o lindo e pitoresco costume de as meninas da localidade fixarem pequenas candeias nos chapéus de seus trajes típicos. Em determinado momento desaparecem as outras luzes e só permanecem as das meninas, que executam uma dança regional.
     Curiosamente, em muitas localidades as luzes desempenham papel determinante na festa. Podemos conjeturar uma razão para o fato: a Natividade de Nossa Senhora representou o prenúncio da chegada ao mundo da Luz de Justiça, Nosso Senhor Jesus Cristo.
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Notas:
1. www.enciclopediacatolica.com  
2. Nuevo Diccionario de Mariologia, Ediciones Paulinas.
3. La fête angevine N.D. de France, IV, Paris, 1864, 188.
4. http://www.gozo.gov.mt/generalactivity (The Nativity of Our Lady in Xaghra 
Fontes: www.catolicismo.com.br - Valdis Grinsteins;
https://ipco.org.br/08-09-natividade-de-nossa-senhora/



sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Alta nobreza na atitude de uma mulher

    
     Um desses exemplos me caiu recentemente nas mãos, com a leitura das memórias da Grã-duquesa Maria Pavlovna da Rússia (*), prima-irmã do último czar Nicolau II. Nascida em 1890, ela viveu durante o auge da crise do Império Russo, passando pela Primeira Guerra Mundial, e finalmente pelas trágicas convulsões da revolução comunista. Com muita dificuldade ela conseguiu escapar da Rússia, ao mesmo tempo que os bolcheviques massacravam os membros da nobreza, inclusive seu próprio pai.
     O período que nos interessa compreende a grande guerra de 1914-18. Como muitas mulheres da mais alta nobreza, a grã-duquesa Maria se engajou como voluntária para o serviço de enfermaria das tropas russas. Exerceu essa função com máximo empenho, durante quase todos os quatro anos do terrível conflito. No início, como simples auxiliar de enfermagem, e depois como enfermeira, procurando ocultar sua identidade para poder trabalhar em qualquer tarefa que lhe fosse requisitada, além de evitar lisonjas ou louvores. Depois, como seu prestígio e experiência aumentassem, assumiu o comando de um importante hospital de campanha.
     Um pequeno episódio revela como, apesar de ser prima do imperador, Maria não procurava ostentar sua posição diante das tropas. No início da guerra, em uma aldeia perto do front de batalha, acabara de chegar um oficial com a mão ferida. Ao ver o grupo de enfermeiras, das quais uma era a princesa, ele perguntou:
     — Irmãzinhas, não tereis por acaso uma atadura limpa para trocar o meu curativo?
     O oficial não distinguiu a grã-duquesa entre as enfermeiras. O tratamento que ele usou (irmãzinhas) para se dirigir a elas se explica pelo fato de as enfermeiras se trajarem à maneira de freiras. Maria se ofereceu de imediato para trocar o curativo. Enquanto o fazia, outro militar se aproximou sem que ela percebesse, e perguntou:
     — Vossa Alteza Imperial permite que eu a fotografe?
     Confusa, a princesa-enfermeira voltou-se, reconheceu o militar, e suplicou:
    — Não, não faça isso, pelo amor de Deus!
    Logo ela notou que a mão ferida da qual cuidava começou a tremer. O oficial ferido examinava-lhe atentamente o rosto, abaixando o olhar mais de uma vez, antes que o curativo estivesse concluído. A princesa permanecia em silêncio.
     — Permite-me agora que lhe pergunte quem é? Indagou o oficial.
     Maria não via mais motivos para ocultar seu nome, e após a revelação, o ferido outra vez lhe perscrutou o rosto em silêncio, e repentinamente ajoelhou-se na calçada, diante de todos, tomou nas mãos a barra do vestido da princesa e o osculou. Ela mesma conta que ficou perturbadíssima; e sem olhar para o oficial, sem despedir-se, fugiu em direção à farmácia.
     Este belo fato revela muito mais do que a manifestação do respeito e admiração dos russos pelos membros da nobreza. Também não se trata apenas de um episódio no qual a força militar — a força física, diríamos — reconhece a superioridade de uma frágil enfermeira. Há no episódio algo mais revelador da mentalidade do russo, que a própria grã-duquesa explicita em suas memórias:
     “A atitude dos soldados em relação a nós [enfermeiras] era profundamente tocante. Dir-se-ia que personificávamos para eles tudo o que lhes era caro, tudo o que lhes tocava o coração. Com nossas toucas brancas, representávamos de certo modo esse ente feminino superior, no qual se reúnem as qualidades de mãe e de esposa completadas pelas de religiosa, concepção especialmente apreciada pelo povo russo”.
     Aí está! A superioridade feminina se expressa justamente naquilo que ela tem de autêntico. Superioridade essa invariavelmente rejeitada pelas feministas radicais de hoje. 


(*) Memórias, Maria, grã-duquesa da Rússia, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, sem data de publicação.

Fonte: 




terça-feira, 3 de setembro de 2019

Beata Angela Maria (Jeanne) Littlejohn, Virgem e mártir - 3 de setembro



     Jeanne Littlejohn nasceu em Túnis, Tunísia, em 22 de novembro de 1933, filha de Guillaume Littlejohn, de origem maltesa, que se casara em segundas núpcias com a italiana Viola Simone. Quando seu pai morreu em 1941, ela e seus irmãos foram recebidos no colégio interno: o único homem nas Filhas da Caridade, as três mulheres nas Irmãs Missionárias de Nossa Senhora dos Apóstolos, em Túnis.
     Ao completar quinze anos, em 28 de maio de 1948, ela recebeu a Confirmação na paróquia do Sagrado Coração de Túnis. Algum tempo depois, Jeanne voltou às irmãs que ela já conhecia, para ser uma delas. Para verificar a genuinidade de sua vocação, ela foi enviada por um ano para Lourdes, em 1956. No final desse período, foi admitida no postulado na casa mãe de Vénissieux, perto de Lyon. Na profissão religiosa ela mudou seu nome para Irmã Angèle-Marie.
     Irmã Angèle-Marie permaneceu na casa-mãe até os votos temporários, emitidos em 8 de setembro de 1959. Foi então enviada para Bouzaréah, nos arredores de Argel, onde as Irmãs mantinham um orfanato e um colégio para jovens: ela cuidava das alunas mais jovens e ensinava as mais velhas, já tendo se tornado particularmente hábil nas rendas tradicionais da Argélia, que ela ensinava às meninas.
     Em 1964, quando a Escola de Artes de Argélia em Belcourt foi aberta, por causa dessa habilidade ela foi admitida como instrutora de bordados, ali permanecendo até sua morte. No ano seguinte, 8 de setembro de 1965, ela fez os votos perpétuos. Juntamente com as duas irmãs da pequena comunidade da qual ela fazia parte, visitava as famílias das estudantes, preocupando-se com as suas ausências e garantia que durante o exame as meninas fossem julgadas corretamente.
     Ela era circunspecta, mas, se necessário, sabia expressar sua alegria como as mulheres argelinas, que muitas vezes a convidavam para as festas de casamento e a viam dançando com elas. Paciente, íntima e simples com as meninas, ela desejava incutir nelas o amor pela arte, por um trabalho bem feito; ela falava na língua delas. A Irmã Angèle-Marie se sentia profundamente ligada à Argélia, aos seus habitantes, à sua missão, compartilhando com este povo as alegrias e as tristezas.
     As ameaças aos estrangeiros, entretanto, tornavam-se cada vez mais frequentes. Diante dos riscos que se prenunciavam, a Irmã Angèle-Marie reagiu com a oração, como escreveu: "Estou triste, desamparada, rezo a Nossa Senhora dos Apóstolos na missa cotidiana, na oração, no Rosário e na amizade de pessoas".
     O Padre Bonamour, sacerdote da paróquia, falava do perigo. A superiora geral das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora dos Apóstolos perguntou às suas irmãs na Argélia se elas queriam sair ou ficar. Irmã Angèle-Marie escolheu a segunda opção: “Para testemunhar a Jesus. Não tenho medo, porque estou com Ele e com a Santa Virgem. No final desses dias de oração e reflexão escolhi ficar”.
     Afinal, as pessoas do bairro as amavam: "Bom dia, mamães", saudavam quando passavam na rua para ir ao mercado. Elas respondiam com um sorriso: "Bom dia, filhinhos!".
     No dia 3 de setembro de 1995, a Irmã Angèle-Marie e sua superiora, Irmã Bibiane Leclercq, foram à missa nas freiras salesianas. À uma irmã que manifestou seu medo da violência, Irmã Angèle-Marie responde: "Não devemos ter medo. Só temos que viver bem no momento presente... O resto não nos pertence". Às 19h15, elas deixaram a capela das freiras e voltavam para casa. Chegando à altura do número 92 da Via Benlouzaïd, na qual moravam no número 105, foram atingidas por tiros. Elas haviam tomado as precauções necessárias, mas era óbvio que alguém as perseguira.
     As duas Irmãs Missionárias de Nossa Senhora dos Apóstolos foram incluídas na causa que contava dezenove candidatos aos altares, todos religiosos, mortos de 1994 a 1996, durante os chamados "anos negros" da Argélia. Seu inquérito diocesano ocorreu em Argel, de 5 de outubro de 2007 a julho de 2012.
     Em 26 de janeiro de 2018, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto relativo ao martírio dos dezenove religiosos. Sua beatificação foi celebrada em 8 de dezembro de 2018 no santuário de Nossa Senhora de Santa Cruz em Oran, presidida pelo cardeal Angelo Becciu, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, como enviado especial do Santo Padre.
     A memória litúrgica de todo o grupo foi marcada para 8 de maio, o dia do nascimento no céu dos dois primeiros mortos, Irmão Henri Vergès e Irmã Paul-Hélène Saint-Raymond.

Argel, capital da Argélia

     Argel, com uma população de mais de um milhão de habitantes, ao norte da África é a capital da Argélia, o segundo maior país da África. No século IV havia neste país entre 600 e 700 bispos católicos.
    Santo Agostinho, um dos maiores santos da Igreja, era argelino. Os árabes aí impuseram a religião islâmica a partir do século VII. Hoje o Islamismo é a religião do estado, praticada por 98% da população. Nas quatro dioceses argelinas não há mais que cerca de 60.000 católicos.
    Em Argel encontra-se um célebre santuário mariano dedicado à Nossa Senhora da África. Duas mulheres foram as idealizadoras deste templo: Margarida Bergezio e Anna Cuiquien, francesas, de origem italiana. Elas acompanharam o bispo Dom Pavy, em 1846, para dedicarem-se às obras sociais que o mesmo bispo fundara na Argélia. Quando ali chegaram as missionárias não encontraram nenhum santuário mariano. Por isso colocaram uma pequena imagem da Virgem sob uma oliveira nas proximidades de Argel. Pouco a pouco o lugar se transformou num centro de peregrinação por parte de numerosos devotos de Nossa Senhora. As piedosas mulheres recolheram dinheiro e construíram uma capela provisória em 1857.
    O atual santuário foi concluído em 1872 sobre um promontório que domina o mar e a cidade de Argel. Numerosos são os peregrinos que o visitam. Há milhares de ex-votos espalhados nas paredes. Não apenas católicos, como também muçulmanos, especialmente as mulheres, vêm de todas as partes para rezar ante à imagem da Santíssima Virgem, chamada em árabe de “Lalla Mariam”.

Escola de bordado árabe Luce Ben Aben I, Argel, Argélia 
    Esta impressão fotocrômica do interior de uma escola de bordado em Argel é parte das “Imagens de pessoas e lugares na Argélia”, do catálogo da Detroit Publishing Company (1905).
     Em 1845, a francesa Eugénie Luce (1804 a 1882) abriu uma escola para garotas muçulmanas em Argel que tinha como objetivo educar as jovens locais nos moldes europeus. Ela incluiu o ensino de bordado no currículo, assim como francês e outras disciplinas. 
     Em 1861, a administração franco-argelina retirou o financiamento da escola. A ênfase da escola passou então de educação geral para bordado e treinamento para o comércio. O artesanato tradicional feminino na Argélia, assim como a tecelagem, o bordado e a fabricação de tapetes, havia sofrido com a concorrência dos produtos importados feitos à máquina; a Escola Luce Ben Aben buscou trabalhar contra os efeitos dessa tendência. Em 1880, a neta de Madame Luce, Madame Ben-Aben, dirigia a escola.

Vista parcial de Bouzaréah
Fontes:
https://www.santiebeati.it/
https://19martyrs.jimdo.com/mgr-claverie-et-ses-18-compagnons/qui-sont-ils/jeanne-littlejohn-sœur-angèle-marie/