terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Beata Francisca Ana Cirer y Carbonell – 27 de fevereiro


Martirológio Romano: No lugar de Sencelles, na Ilha de Maiorca, a Beata Francisca Ana de Nossa Senhora das Dores Cirer Carbonell, virgem, que, sem saber ler nem escrever, mas movida pelo zelo divino, entregou-se a obras de apostolado e caridade, e fundou a comunidade das Irmãs da Caridade († 1855)
 
     Nasceu em Sencelles, Maiorca (Ilhas Baleares), Espanha, no dia 1º de junho de 1781, filha de João Cirer e Joana Carbonell, agricultores tão pobres que nunca puderam deixá-la frequentar a escola, mas tão fervorosos, que no mesmo dia do seu nascimento a levaram à fonte batismal, quando recebeu o nome de Francisca Ana Maria Boaventura.
     Sem saber ler nem escrever, entretanto aprendeu a doutrina católica de viva voz e mereceu ser crismada aos sete anos por Mons. Pedro Rubio Benedetto, bispo da diocese, e em seguida, admitida à Primeira Comunhão.
     Crescendo, adquiriu a sabedoria das virtudes católicas com tal perfeição, que a levava a praticá-las todas em grau heroico e a tornava capaz de ensinar o catecismo às crianças, o que fazia após as Missas do domingo.
     Aos treze anos tentou entrar no convento de La Piedad, em Palma, mas não obteve o consentimento do pai, por isso permaneceu em casa, levando uma vida isolada de piedade. Ajudava aos pais nos trabalhos domésticos e agrícolas, mas, com a permissão dos pais, voltava à igreja no fim do dia para tomar parte no Rosário ou na Via Sacra.
     Em 1798, aos 17 anos, ingressou na Ordem Terceira de S. Francisco e, em 1813, na Confraria do Santíssimo Sacramento.
     A Beata tinha grande devoção à Santíssima Trindade, à Paixão de Cristo e a Nossa Senhora das Dores, a quem honrava com o terço diário e o jejum sabatino. Rezava com frequência pelas almas do Purgatório.
     Em 2 de maio de 1815, a Beata, que compreendia a importância da conformidade com a vontade de Deus e obedecia sem lamentações, recebeu a revelação de que sua casa seria transformada em um convento das Filhas de Caridade de São Vicente de Paula.
     Após a morte de seus irmãos e de sua mãe, dedicou-se com seu pai às tarefas agrícolas, sem descuidar do cuidado dos mais pobres, que a chamavam, por seu caráter alegre e dedicado, de "sa tia Xiroia".
     Aos 40 anos, Francisca ficou órfã de pai. Sendo praticamente impossível realizar seu desejo de se tornar religiosa pela idade, falta de instrução e sem dote, procurou viver como verdadeira religiosa no mundo, em companhia de uma prima, Clara Llabrés, e depois de alguns anos, de Madalena Cirer, sua sobrinha. 
Convento das
Irmãs em Sencelles
    
     Finalmente, aos 70 anos, no dia 23 de dezembro de 1850, com a aprovação de seu pároco, sua casa tornou-se convento das Irmãs da Caridade, que foi juridicamente aprovado no dia 7 de dezembro de 1851. Tinham por finalidade cuidar dos doentes e ensinar o catecismo em casa e nas paróquias. Naquele dia ela e as duas companheiras vestiram o hábito. Francisca foi eleita para ficar à frente do grupo; governou com sabedoria, prudência e humildade, cuidando da perfeita observância dos votos religiosos.
     A Beata faleceu repentinamente no dia 27 de fevereiro de 1855, aos 76 anos de idade, após ter recebido a Santa Comunhão. Seu funeral foi triunfal. Seus restos são venerados no Oratório da Casa de Caridade de Sencelles.
     Numerosos milagres, êxtases frequentes e outros fenômenos místicos foram atribuídos a ela durante sua vida. A reputação de santidade que desfrutou desde o momento de sua morte levou ao início do processo de beatificação em 1899. No entanto, isso não culminou até que ela foi solenemente proclamada beata pelo Papa João Paulo II em 1º de outubro de 1989, após a confirmação de um milagre obtido por sua intercessão.
 
Fontes: LaVerdadCatolica.org
https://es.catholic.net/
Bibl.: B. Colombás Llull, Francisca Ana Cirer, una vida evangélica, Palma de Mallorca, Hermanas de la Caridad de San Vicente de Paul, 1971; T. Suau Puig, Sor Francinaina Cirer, una vida para los otros, Palma de Maiorca, Hermanas de la Caridad de San Vicente de Paul, 1992; J. Bouflet, Encyclopedie des phénomènes extraordinaires dans la vie mystique, I, Paris, Le jardin des Livres, 2002, pp. 23-25.
Frances Anne abençoada | Academia Real de História (rah.es)

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Beata Maria Adeodata Pisani, Beneditina - 25 de fevereiro

     
Nasceu em Nápoles (Itália) no dia 29 de dezembro de 1806. Era filha do nobre Benedetto Pisani, Barão de Frigenuini, nascido em Malta. No batismo recebeu o nome de Maria Teresa. Por causa de conflitos familiares - seus pais se separaram - foi educada por sua avó paterna, a Baronesa Elisabetta Mamo, que morava em Pizzofalcone (Nápoles). Na idade de dez anos, após a morte de sua avó, ela foi enviada para um famoso internato em Nápoles, conhecido como o "Instituto di Madama Prota", onde as senhoras aristocráticas da região costumavam obter sua educação.
     Maria Teresa permaneceu neste colégio até os 17 anos de idade, e aqui recebeu uma boa formação humana e católica. Ali recebeu a Primeira Comunhão e a Confirmação.
     Em 1820-1821 seu pai, envolvido em um movimento liberal, foi preso e condenado a morte. Tendo sua pena sido comutada pelo exílio, voltou para sempre a Malta. Maria Teresa também se mudou para a ilha, mas para viver com sua mãe, na cidade de Rabat.
     Apesar de sua mãe desejar inseri-la na vida social, querendo que se casasse, Maria Teresa preferia levar uma vida isolada do mundo, entregue totalmente a uma profunda piedade e intensa oração, quase como se fosse monja. Só saia de casa para ir, diariamente, assistir a Santa Missa. As pessoas que a conheciam começaram a comentar sobre seu comportamento piedoso. Ela nunca se intimidou com o comportamento de seu pai e sempre que o encontrava pedia sua bênção.
     Sua vocação religiosa despertou com a pregação de um frade franciscano que falou do Juízo Final. Esse sermão impressionou-a profundamente e enquanto rezava diante de uma imagem da Virgem do Bom Conselho, percebeu com certeza que era chamada a vida religiosa.
     Em 16 de julho de 1828, depois de superar a oposição de seus pais, ingressou no Mosteiro Beneditino de São Pedro, em Mdina, tomando o nome de Maria Adeodata.
     Em 4 de março de 1830, foi realizado o necessário Ato Notarial de Renúncia, que era o último passo formal necessário para ser admitida como freira. Neste ato, ela renunciou aos seus títulos e distribuiu a vasta herança que herdara de sua avó paterna, mantendo apenas o suficiente para que ela pudesse ajudar os outros durante sua vida.
     Em 8 de março de 1830 fez a profissão religiosa solene.
     Depois da profissão religiosa continuou vivendo na humildade e no sacrifício, virtudes que manifestara durante o noviciado. Nunca buscou cargos, embora tenha exercido todos. Por três vezes foi sacristã e enfermeira, ofícios de que gostava porque o primeiro lhe permitia estar em contato contínuo com Nosso Senhor, e o segundo porque podia servir melhor às suas irmãs de hábito. Foi porteira, embora este trabalho lhe fosse custoso porque dificultavam o silêncio e o recolhimento. Aproveitava esta oportunidade para ajudar os pobres, aos quais, com a permissão da Superiora, reunia e catequizava.
     Em 30 de junho de 1847 foi nomeada Mestra de Noviças, ofício que desempenhou até 30 de junho de 1851, quando foi eleita Abadessa.
     Como superiora destacou-se sobretudo por seu exemplo de fidelidade à Regra e por seu empenho em ajudar as Irmãs a progredirem no caminho da perfeição. Corrigia com prudência e era mais severa consigo mesma do que com as Irmãs.
     Ela era conhecida por seu espírito de auto sacrifício e abnegação. O melhor que tinha, fosse comida ou roupa, era sempre dado a quem precisava, enquanto ela vivia feliz com sobras e roupas gastas. Durante sua vida no mosteiro, ela também escreveu várias obras, a mais famosa das quais é "O jardim místico da alma que ama Jesus e Maria", que reúne reflexões espirituais pessoais escritas na forma de um diário entre 15 de agosto de 1835 e 3 de maio de 1843.
     Ela também escreveu suas reflexões sobre a direção espiritual, e um bom número de orações, algumas das quais foram feitas para serem usadas na comunidade. Embora sua língua nativa fosse o italiano, ela fez o seu melhor para aprender a falar e escrever em maltês, e ela escreveu algumas orações em maltês para uso comum no mosteiro. Ao longo da sua vida de freira, foi um exemplo luminoso para todos na observância da Regra de São Bento, na obediência aos seus superiores, nos seus atos de caridade, na sua devoção ao Santíssimo Sacramento e à Santíssima Virgem e no seu total compromisso de amor a Deus.
Panorama de Mdina, capital de
Malta
     Eleita "Discreta" em 30 de junho de 1853, não pode levar a cabo seu último ofício devido suas condições de saúde: a debilidade física era causada especialmente pelas penitências que praticava.
     Sua saúde foi se debilitando e ocasionou o seu falecimento no dia 25 de fevereiro de 1855. Às cinco da manhã desceu com grande dificuldade ao coro para receber a Comunhão. À Irmã enfermeira, que a dissuadira de ir ao coro, respondeu: "Descerei porque é minha última Comunhão e hoje mesmo morrerei". Após ter recebido a Comunhão teve um infarto e foi levada para a cama. Pediu e obteve a Unção dos Enfermos. Às oito horas da manhã expirou.
     A espiritualidade de Madre Maria Adeodata se reflete no seu comportamento nas diversas etapas de sua vida e nos ensinamentos contidos nos seus escritos, que deixam transparecer uma vivência das virtudes teologais e cardeais que supera muito os níveis comuns da vida religiosa e claustral.
     O processo de beatificação foi iniciado em 1893. O milagre para sua beatificação ocorreu em 24 de novembro de 1897, quando a Abadessa Josefina Damiani, do Mosteiro de São João Batista, em Subiaco, Itália, teve uma repentina cura de um tumor estomacal depois de rezar pedindo a intercessão de Maria Pisani. Mas a Causa de Beatificação ficou suspensa durante anos devido à falta de fundos e problemas políticos entre Malta e Itália.
     Em 1989, a Comunidade Beneditina do Mosteiro de São Pedro apresentou uma petição para a retomada do Processo Canônico para a Beatificação e Canonização de Adeodata. Foi beatificada por João Paulo II em 9 de maio de 2001.
 
Fonte:
Da Arquidiocese de Malta – Gabinete de Relações Públicas
(http://www.maltachurch.org.mt)

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Beata Isabel da França, Princesa e Clarissa - 22 de fevereiro

     A Princesa Isabel da França, irmã mais nova do Rei São Luís IX, nasceu em 1225, filha do Rei Luís VIII e da Rainha Santa Branca de Castela.
     A principal fonte sobre a vida desta beata é a "Vita" escrita por Inês de Harcourt, abadessa do Mosteiro de Longchamps fundado pela princesa, sua discípula e que se relacionou com ela até os últimos anos de sua vida.
     Educada pela mãe numa religiosidade profunda e severa, desde a infância Isabel se distinguia pela piedade. Uma longa enfermidade fez amadurecer nela a decisão de se dedicar às suas práticas de piedade, às leituras piedosas e ao cuidado dos pobres. Se distinguiu particularmente pelo culto às relíquias dos santos e por manter os Cruzados. Desde a adolescência Isabel mostrava desprezo pelo luxo que a circundava.
     Após ter recusado não poucos pretendentes e com firmeza responder negativamente ao Papa Inocêncio IV, que lhe havia escrito pedindo que ela aceitasse a mão do Rei Conrado de Jerusalém pelo bem da Cristandade, pediu e obteve a permissão para emitir o voto de perpétua virgindade.
     Em 1226 seu irmão subira ao trono e foi ele quem lhe inspirou a caridade com os pobres e o fervor religioso: todos os dias Isabel convidava à sua mesa numerosos mendigos e visitava os doentes e os pobres.
     Habilidosa para trabalhos de bordado, ofereceu a várias igrejas trabalhos confeccionados por suas próprias mãos, mostrando assim a sua grande devoção à Sagrada Eucaristia. Jejuava três dias por semana e sempre se alimentava com parcimônia. Evitava diversões fúteis. Passava os tempos de lazer em companhia do irmão Luís e das damas que tinha ao seu serviço. Visitava com frequência doentes acamados nos hospitais ou nas próprias casas, procurava atender às suas necessidades e incutir-lhes esperança e coragem.
     Um dia em que trabalhava uma linda peça de tricô, Luís a pediu para seu uso, ao que ela delicadamente respondeu: “Esta é a primeira que faço, por isso só Jesus a merece”. Deu-a a um pobre e a seguir confeccionou uma para seu irmão. 
     Quando por sua vez veio a cair gravemente enferma, a ponto de recear o desfecho mortal, recuperou a saúde graças às orações e aos cuidados de sua santa mãe.
     São Luis IX tomou parte em duas Cruzadas, que não tiveram um resultado feliz, e quando foi feito prisioneiro no Egito, durante a primeira Cruzada, foi um duro golpe para Isabel, pois ela subvencionava a manutenção de dez cavaleiros para a recuperação dos locais santos.
     Outra figura que influenciou sua vida foi Santa Clara de Assis; e em 1252, após a morte de sua mãe, Isabel decidiu fundar um mosteiro, na floresta de Rouvray (atual Bois de Boulogne), perto de Paris (depois destruído durante a nefasta Revolução Francesa), um convento onde os ideais das Clarissas seriam vividos.
     Luis IX aprovou e financiou o projeto e alguns franciscanos, entre os quais São Boaventura, foram chamados para colaborar na formulação da regra e das constituições. O novo mosteiro foi dedicado à Humildade da Bem-aventurada Virgem Maria.
     A Princesa não adotou a regra de Santa Clara: ela escreveu uma regra que mitigava o voto de pobreza, especialmente para uma comunidade de religiosas de origem nobre. Juntamente com São Boaventura, que residia em Paris, e lecionava na Universidade, Isabel redigiu a Regra que traz o seu nome, e que foi aprovada por Alexandre IV em 1259 e 1262. Para redigir essa Regra, a ilustre Princesa Isabel combinou diversos elementos das Regras anteriores à aprovação da Forma de Vida de Santa Clara, preparando assim sua Regra própria, adaptada às circunstâncias de sua fundação.
     Além da aprovação de Alexandre IV essa Regra foi ainda aprovada por Urbano IV a 27 de julho de 1263. Essa Regra coloca as Irmãs Menores, assim chamadas, sob a direção dos Frades Menores. A pobreza e a humildade são a base da Regra de Isabel; enquanto Santa Clara destaca a pobreza material como uma espécie de sinal sensível e sacramento da humildade, Isabel põe mais em destaque a humildade, mitigando um pouco e espiritualizando o sentido da pobreza material. 
     Isabel dotou o convento de boa parte de bens destinados à sua própria sobrevivência e continuou sua atividade de assistência aos pobres. Muito provavelmente ela jamais emitiu os votos perpétuos devido a sua saúde precária. A decisão de viver em um local separado do edifício, sem um contato estreito com as celas das Irmãs, parece ter sido o resultado de sua humildade unido ao desejo de se proteger de uma eventual eleição a abadessa.
     Por dez anos ela levou no mosteiro uma vida de jejuns, penitências, contemplação e oração. Viveu santamente em Longchamps até sua morte que ocorreu depois de dois anos de enfermidade. 
    Antes de sua morte, o seu capelão, o confessor e a Irmã Inês, sua futura biógrafa, foram testemunhas de seu êxtase. Morreu em 23 de fevereiro de 1270, com 45 anos de idade. No momento do seu desenlace, algumas religiosas ouviram cânticos angélicos entoando: “Na paz está sua morada”. São Luís esteve presente no funeral da irmã, e dirigiu palavras de consolação à comunidade de Clarissas. Poucos meses depois, seu santo irmão morria em Túnis, ao retornar da segunda Cruzada.
     A Beata foi sepultada na igreja do convento; atualmente suas relíquias estão em Paris, junto ao túmulo de São Luis IX e em parte da Catedral de Meaux.
     Após a morte de São Luis IX, Carlos d’Anjou, irmão do Rei e de Isabel, pediu a uma das damas de companhia da Princesa que escrevesse sua vida tendo em vista sua canonização. Inês d’Harcourt publicou essa narração hagiográfica em 1280, mas Isabel somente seria beatificada em 3 de janeiro de 1521, com a bula Piis omnium do Papa Leão X, sendo ela uma das primeiras santas Clarissas.
     Durante algum tempo a Beata Isabel da França foi celebrada pela Ordem Franciscana no dia 8 de junho, junto com suas coirmãs Inês da Boêmia e Camila Batista de Varano. Luis IX foi um dos primeiros terceiros franciscanos a ser reconhecido como santo.
 
Fontes:
Beata Isabel da França – Federação Sagrada Família – Ordem de Santa Clara (clarissas.net.br)
Beata Isabel da França. Princesa da França. Irmã do rei São… | by Edson Weslenn | Quo Primum | Medium
“Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola. 
 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Santa Lúcia Yi Zhenmei, Catequista chinesa, mártir - 19 de fevereiro

 
   
O Cristianismo foi anunciado na China do século V ao início do século VII, quando foi ereta a primeira igreja. Graças ao profundo espírito de religiosidade dos chineses, o Cristianismo floresceu naquele imenso país. No século XIII constituiu-se a primeira missão católica com sede episcopal em Belfin.
     A partir do século XVI, quando a comunicação entre o Oriente e o Ocidente passara a ser mais frequente, a Igreja Católica pretendeu intensificar a evangelização e enviou vários missionários escolhidos com cuidado, entre os quais o jesuíta Mateus Ricci, para instaurar relações religiosas e também sociais e científicas.
     Em 1591, o excelente trabalho destes pioneiros levou o imperador “filho do céu” K'ang Hsi a assinar o primeiro decreto de liberdade religiosa, que permitia aos súditos aderirem ao Cristianismo. Os missionários podiam pregar por toda parte, alcançando milhares de conversões e chineses batizados.
     Mas, a partir da primeira década do século XVII as coisas mudaram. A penosa questão dos “ritos chineses” irritou o imperador e a forte influência do vizinho Japão, hostil ao Cristianismo, deram margem às perseguições que aberta ou veladamente, em sucessivas ondas até a metade do século XIX, resultaram na morte de muitos missionários e de inúmeros fiéis leigos chineses, e a destruição de várias igrejas.
     São Francisco Fernandez de Capillas, da Ordem dos Pregadores, martirizado em 1648, é considerado como o Protomártir da China; foi o primeiro de uma longa lista de mártires missionários ocidentais, pertencentes a várias Ordens Religiosas, como os Dominicanos, os Franciscanos, os Agostinianos, e sacerdotes da Missão de Paris, os Lazaristas, as Franciscanas Missionárias de Maria. Pelo fim do longo período de perseguições também os Jesuítas, desde o início respeitados, sofreram o martírio em julho de 1900; os Salesianos de Dom Bosco tiveram dois mártires, Santos Luís Versiglia e Calisto Caravario, em 1930.
     Os fiéis leigos, dos quais muitos apostataram com medo das perseguições, souberam resistir e testemunharam com seu sangue a fidelidade a Cristo. Entre estes figuram catequistas leigos, tanto homens como mulheres, que davam aos catecúmenos exemplo de entusiasmo, de fidelidade a Igreja Católica, aos missionários, sofrendo até o martírio com eles.
     Destes numerosíssimos mártires religiosos e leigos, 120 foram canonizados em 1º de outubro de 2000 por João Paulo II.
     Dentre os milhares de mártires chineses, destacou-se uma humilde leiga chinesa Lúcia Yi Zhenmei, para representar aqueles que como ela souberam enfrentar os tormentos e a morte infringidos por seus compatriotas, especialmente os famigerados “boxers”, que por motivos políticos e econômicos, ou de intolerância e inveja dos bonzos, desencadearam as longas e sanguinolentas perseguições contra “a religião dos estrangeiros odientos”.
     Lúcia Yi Zhenmei nasceu no dia 17 de janeiro de 1815 em Mainyang, Sichuan, última de cinco irmãos. O pai era um católico convertido há pouco do budismo.
     Com 12 anos adotou o nome de Lúcia e se consagrou ao Senhor, mas os pais, segundo o uso, a haviam prometido em casamento. Não sabendo como livrar-se da situação, Yi Lúcia se finge se boba, conseguindo assim desfazer acordos matrimoniais futuros.
     Retomou os estudos para tornar-se professora e ao mesmo tempo pode dedicar-se ao progresso de sua vida espiritual.
     Os missionários católicos lhe deram o encargo de ensinar catecismo. Seus dias transcorriam serenos entre os afazeres domésticos, o atendimento dos enfermos e o ensino do catecismo.
     Quando adulta, decidiu se separar da família e passou a viver com as irmãs missionárias. Uma grave enfermidade a obrigou a retornar para sua casa. Naquela ocasião pessoas malévolas lançaram dúvidas sobre sua moral, levando até a superiora a acreditar nelas. Os seus familiares quiseram vingar-se, mas ela se opôs suportando tudo com paciência.
     Posteriormente foi chamada pelo bispo de Kweichow que lhe deu o cargo de catequista da aldeia do Vicariato. Superando as dificuldades postas pela família, que temiam novos perigos para ela, Lúcia Yi Zhenmei logo se entrega ao trabalho, coadjuvando a obra missionária do Padre João Pedro Néel, da Missão de Paris, ele também mártir e proclamado santo em outubro de 2000.
     Durante a perseguição desencadeada pela seita “Ninfa Branca”, foi presa pelos soldados. Durante o interrogatório lhe fizeram propostas vantajosas se renunciasse a religião católica – a proposta era apoiada também pelo ex noivo, que havia conservado afeto e estima por ela.
     Lucia com firmeza recusou e por isso foi condenada a decapitação. Aceitou com dignidade a condenação, rebelando-se somente quando quiseram despojá-la das vestes antes da sentença, conseguindo evitar tal humilhação.
     Foi decapitada no dia 19 de fevereiro de 1861 em Kaiyang, Guizhou, tinha 47 anos. Nos dias 18 e 19 foram mortos também o Padre Néel, três homens catequistas.
     Seu véu, banhado de sangue, foi levado para casa e ao ser colocado sobre o corpo de sua sobrinha Paula, gravemente enferma, esta se restabeleceu imediatamente.
     Foi declarada venerável com o grupo de mártires de Guizhou em 2 de agosto de 1908 e beatificada em 2 de maio de 1909 por São Pio X. Canonizada por João Paulo II em 1º de outubro do Ano Santo 2000, a sua festa com o grupo de Guizhou é no dia 19 de fevereiro e, no dia 9 de julho, com todos os 120 mártires canonizados no dia 1º de outubro de 2000.
     Infelizmente as perseguições na China continuam, agora perpetradas pelo comunismo. Os católicos chineses sofrem contínuas agressões e têm enfrentado com heroísmo a dura realidade que enfrentam naquela Nação.
 
Santa Lúcia Yi Zhenmei, Virgem Chinesa, Catequista e Mártir, por Maria Garcia de Fleury
Santa Lúcia Yi Zhenmei (santiebeati.it)

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Beata Felipa Mareri, Clarissa - 16 de fevereiro

 
    A primeira Clarissa a ser honrada com culto público não foi Santa Clara, mas a Beata Felipa Mareri, morta em 1236, quando Santa Clara ainda vivia em São Damião, em Assis.
     Felipa nasceu no final do século XII, cerca do ano 1195, da nobre família dos Mareri, no castelo de sua propriedade situado em San Pietro de Molito, hoje Borgo San Pietro, província de Rieti.
     O fundador da baronia da família Mareri foi Felipe, que teve pelo menos quatro filhos: Tomás, Gentil, Felipa e outra filha cujo nome se desconhece. O maior incremento da fama e fortuna da família se deveu a Tomás, que foi um alto funcionário do imperador Frederico II.
     Felipa começou já na infância a dar mostras de virtude pouco comum e de aptidão excepcional para os estudos. Era-lhe familiar a língua latina o que a ajudou na leitura das Escrituras.
     Orientada para a vida de perfeição por São Francisco de Assis nos anos 1221-1225, quando o Santo, peregrinando pelo Vale de Rieti, se hospedava na casa de seus pais, Felipa tomou ainda jovem a decisão de consagrar-se a Deus, e se manteve com tal firmeza em seu propósito, que não conseguiram dobrar sua vontade nem as pressões dos parentes, nem as ameaças de seu irmão Tomás, nem as ofertas e pedidos de seus pretendentes.
     Diante da atitude de seus familiares, Felipa, como anos antes Santa Clara de Assis, cortou por si própria o cabelo, vestiu hábito pobre e, junto com sua irmã e algumas companheiras, se refugiou em uma gruta nas montanhas próximas de seu castelo, desde então chamada “Gruta de Santa Felipa”.
A "Gruta da  Beata Felipa"
     Ela a adaptou com austeridades para seus fins e ali permaneceu até que seus irmãos Tomás e Gentil subiram ao monte para solicitar-lhe o perdão e ofereceram às servas de Deus uma igreja dedicada a São Pedro e, com uma ata notarial datada de 18 de setembro de 1228, lhe deram o castelo de sua propriedade em San Pietro de Molito e a antiga igreja beneditina anexa.
     Para ali se trasladaram Felipa e suas seguidoras, e em seguida começaram a organizar sua vida claustral seguindo a forma de vida e as normas que São Francisco havia dado a Santa Clara e a suas irmãs do mosteiro de São Damião em Assis.
     São Francisco indicou um de seus primeiros companheiros, o Beato Rogério de Todi, para dirigir espiritualmente a Beata e as Clarissas do mosteiro por ela fundado. Para tanto, Rogério se trasladou para o Vale de Rieti, e ali permaneceu cumprindo sua missão até a morte da Beata em 1236.
     O Beato Rogério de Todi, por seu equilíbrio, associado ao mais fervoroso zelo missionário, fora enviado por São Francisco à Espanha para implantar ali a Ordem Franciscana. Erigiu conventos, acolheu religiosos que soube formar no espírito seráfico e os organizou como Província religiosa. Terminada sua missão, regressou à Itália.
     Com os sábios conselhos do Beato Rogério, homem de grande fervor e não menor prudência, a comunidade de Felipa Mareri, se firmou exemplarmente na Regra da Ordem Segunda. Felipa se ligou com afetuosa devoção ao franciscano de Todi, sob cuja direção a comunidade por ela querida progredia na perfeição.
     O mosteiro logo se converteu em uma escola de santidade. A ocupação principal da comunidade monástica era o culto e o louvor de Deus, a vida litúrgica, a leitura e o estudo da Sagrada Escritura, a oração e a contemplação. Porém, ao mesmo tempo, o trabalho era tido em grande consideração, como também o atendimento dos pobres e o apostolado.
     No mosteiro eram preparados remédios que eram distribuídos gratuitamente aos doentes pobres. O fervor da caridade nas palavras e nas obras, bem como o estilo de vida daquelas Clarissas, com Felipa à frente e todas seguindo o Santo de Assis, fizeram reviver a vida evangélica no Vale de Rieti, como antes havia acontecido no Vale de Espoleto.
     Quando Felipa se sentiu próxima da morte, pediu a presença do Beato Rogério. Ela morreu no seu mosteiro no dia 16 de fevereiro de 1236. Nas orações fúnebres o Beato Rogério a invocou como se faz aos santos.
     O Beato Rogério de Todi sobreviveu pouco a sua filha espiritual: faleceu em 1237 e Bento XIV aprovou o seu culto em 24 de abril de 1751.
Santuário atual
     Logo o túmulo de Felipa se converteu em meta de peregrinações e as graças e os favores extraordinários alcançados de Deus por sua intercessão se multiplicaram.
     Em 1706 foi feito um reconhecimento de seus restos mortais e se constatou que seu coração permanecia incorrupto e é ainda hoje conservado em um relicário de prata.
     O Papa Inocêncio IV deu o título de “santa” a Felipa em uma bula de 1247, mas foi o Pio VII quem, em 30 de abril de 1806, confirmou seu culto imemorial e aprovou a missa e o ofício em sua honra.
     Em 1940, o antigo Borgo San Pietro e o mosteiro de Clarissas fundado por Santa Felipa ficaram submersos sob as águas de um novo lago artificial, às margens do qual foi reconstruído tanto o mosteiro como o povoado. A capela do século XIII, onde eram venerados os restos mortais da Santa, foi restaurada na nova igreja com as mesmas pedras medievais, e foi decorada com os afrescos que a adornavam no antigo mosteiro.
      No Borgo de San Pietro a Beata é comemorada no dia 16 de fevereiro, data de seu nascimento para o céu.

Vista do Borgo de San Pietro
Fontes:
Beata Filippa Mareri (santiebeati.it)
Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus: setembro 2016 (santosebeatoscatolicos.com)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Beata Eustáquia Bellini, Virgem beneditina - 13 de fevereiro

     
     Seu nascimento não foi legítimo:
Lucrécia Bellini nasceu em Pádua, em 1444, de uma freira do mosteiro beneditino de São Prosdócimo e de Bartolomeu Bellini. Com quatro anos o demônio tomou posse de seu corpo, sem tolher-lhe o uso da razão, atormentando-a praticamente por toda a sua vida.
     Aos sete anos foi confiada aos monges de São Prosdócimo, que administravam no mosteiro uma espécie de internato. A conduta da comunidade não era exatamente exemplar, mas Lucrecia às diversões mundanas preferia o retiro, o trabalho e a oração; era muito devota de Nossa Senhora, de São Jerônimo e de São Lucas.
     Em 1460 o Bispo Jacopo Zeno, após a morte da abadessa, tentou impor uma maior disciplina no mosteiro, mas tanto as monjas como as pensionistas voltaram para suas casas, só permanecendo Lucrécia Bellini. Em substituição, vieram as monjas beneditinas do convento de Santa Maria da Misericórdia, sob a orientação da abadessa Justina de Lazzara.
     Lucrécia, então com 18 anos, pediu para entrar naquela Ordem e, em 15 de janeiro de 1461, recebeu o negro hábito beneditino tomando o nome de Eustáquia.
     O demônio, que por algum tempo a havia deixado em paz, voltou de novo ao seu corpo, obrigando-a a fazer atos contrários à Regra, fazendo-a agir em atos tão barulhentos e violentos, que as Irmãs ficavam aterrorizadas e tiveram que amarrá-la por vários dias a uma coluna.
     Mas a paz durou pouco, depois que Eustáquia foi libertada a abadessa adoeceu de uma doença estranha e ela foi culpada, quase a consideravam uma hipócrita bruxa; foi trancada em uma prisão durante três meses a pão e água.
     Mas todas essas provas não acovardaram a noviça e aos que lhe diziam para voltar ao mundo ou mudar de mosteiro, respondia que todas as tribulações eram bem aceitas e destinadas a expiar a culpa da qual ela nascera, ali mesmo onde foi cometida; em sua solidão se consolava na recitação do Rosário ou da coroa de Salmos e de orações por ela compostas.
     Uma vez libertada, ela voltou a ser atormentado pelo diabo com flagelações, vômitos incontroláveis ​​e outros sofrimentos estranhos que ela suportava com grande paciência, o que convenceu as Irmãs de suas virtudes. Finalmente, em 25 de março de 1465, foi admitida à profissão solene e, como era o costume da época, dois anos depois lhe foi dado o véu negro da Ordem Beneditina.
     Sua vida não foi muito longa. Ela tinha sido muito bonita, mas as possessões diabólicas, as doenças e as penitências a tinham reduzido a um esqueleto vivo; os últimos anos da sua vida foram passados ​​principalmente na cama, doente, absorta em oração e meditação sobre a Paixão de Jesus.
      Morreu no dia 13 de fevereiro de 1469 com a idade de 25 anos; o seu fim foi tão sereno, que seu rosto pode recuperar a sua beleza antiga; algumas horas antes o demônio finalmente a tinha deixado em paz.
     Eustóquia é o único exemplo conhecido de uma fiel que chegou à santidade embora ao longo de sua vida estivesse possuída pelo demônio. Quatro anos após sua morte, seu corpo foi exumado do túmulo original, o qual começou a encher-se de água puríssima e milagrosa, que deixou de surgir apenas quando o mosteiro foi suprimido.
     Em 1475 o corpo foi levado para a igreja, e desde 1720 foi colocado em uma arca de cristal. O mosteiro de São Prosdócimo foi supreso em 1806 e o corpo da Beata beneditina foi transferido para a Igreja de São Pedro, sempre em Pádua. Sobre o altar de mármore que contém o seu corpo, se encontra o retábulo de Guglielmi representando a Beata enquanto pisa o demônio.
     Em 1760, o Papa Clemente XIII, que já fora Bispo de Pádua, confirmou o seu culto na cidade de Pádua e, em seguida, em 1767, estendeu-o a todos os Estados da República Vêneta.
     Sua festa religiosa, ainda hoje comemorada em toda a diocese de Pádua, é no dia 13 de fevereiro.
 
Beata Eustochio (Lucrezia) Bellini di Padova (santiebeati.it)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Santa Cointa ou Quinta, Virgem e Mártir - 8 de fevereiro

 
     Cointa (Coynta ou Quinta), pertence ao grupo que o Martirológio de Floro menciona em 20 de fevereiro com o título geral de "os Mártires de Alexandria". A fonte de informação de Floro é o historiador Eusébio, mas segundo ele, o escritor de "Vetus romanum" (ou seja, Adon) distribuiu por sua conta os mártires do grupo em muitos dias do ano.
     Assim, encontramos Metras ou Metrano em 31 de janeiro, encontramos Cointa e depois encontraremos Apolônia ou Apolila. Segundo Adon, o Martirológio Romano menciona o nome de Cointa no dia 8 de fevereiro, com uma nota manifestamente inspirada em Eusébio ("Hist. Eccl.", L.6, c. 41). O mesmo nome aparecia um pouco mudado em outras datas, por exemplo, Greven também nomeia Tonita ou Cointa, virgem e mártir da Alexandria, no dia 15 de janeiro.
     Em outro lugar, Cointa figura no dia 21 de agosto, como “nobre de Alexandria”. O célebre historiador eclesiástico Eusébio de Cesaréia cita uma carta do Bispo de Alexandria, São Dionísio, a Fabiano, Bispo de Antioquia, sobre o derramamento de sangue de muitos mártires em Alexandria do Egito, sob o Imperador Décio. A passagem de Eusébio é um extrato daquela carta que narra os combates heroicos dos mártires naquela cidade durante a perseguição de Décio. Diz a carta:
     "Os perseguidores conduziram uma mulher cristã, que se chamava Cointa ou Quinta, ao templo pagão e queriam forçá-la a adorar os ídolos. Ela, porém, teve horror a isto e resistiu, dando-lhes as costas. Então ataram seus pés a um cavalo arrastando-a pelos pavimentos ásperos de toda a cidade, fazendo-a bater contra grandes pedras. Não satisfeitos que as pedras agudas dos caminhos tivessem maltratado o seu corpo, golpearam-na com um látego (chicote, azorrague). Finalmente, voltando ao templo, mataram-na sob uma chuva de pedras no mesmo local em que mataram Metrano”.
     Seu martírio ocorreu no ano 249 d.C. Venerada como uma santa mártir, sua comemoração no dia 8 de fevereiro é relatada ainda hoje pelo Martirológio Romano.