segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Beata Celina Chludzinska Borzecka, Viúva e Fundadora - 26 de outubro


     
Celina Chludzinska Borzecka nasceu no dia 29 de outubro de 1833, em Antowil, então território polonês, atualmente Bielorrússia, a mais nova de dois irmãos, filhos do casal Ignacio e Petronella Chludzinska, cujas famílias eram abastadas. Celina teve uma infância feliz, que qualificou como “anos de ouro”, rodeada de afeto. A vida espiritual de Celina desenvolveu-se cedo e durante as orações sempre dirigia a Deus a pergunta: "O que queres que eu faça com a minha vida?"
     Após um retiro em Vilnius, em 1853, exprimiu o desejo de tornar-se religiosa, mas encontrou a oposição dos pais. Obedecendo à vontade deles e ao conselho do seu confessor, aos 20 anos casou-se com José Borzecki. De qualquer maneira, dentro dela permaneceu a convicção de que "a sua vida não deveria terminar de modo comum".
     O casal se instalou em Obremszczyzna. Profundamente amada pelo marido, também ela foi uma esposa amorosa e exemplar que partilhava a responsabilidade do lar e demonstrava a sua atenção aos pobres. Seus afazeres domésticos não a afastavam da oração; sua ascese estava impregnada também com o sacrifício. Além disto, enfrentou a dor que mais afeta uma mãe: a morte de seus filhos. O primeiro, Casimiro, nascido em 1855, morreu no mesmo ano. Após um período de alegria com a chegada de sua filha Celina, em 1858, novamente passou pelo duro transe em 1861, quando teve que enterrar sua filha Maria, que não sobreviveu. Finalmente, em 1863 nasceu Jadwiga (Edvige), que iria percorrer com ela a via religiosa que sempre aspirou.
     No ano em que a pequena Edviges nasceu Celina se envolveu na luta para resgatar os prisioneiros que iam ser executados em meio aos conflitos bélicos desatados em uma Polônia dividida pela invasão russa. As autoridades russas a detiveram e foi colocada na prisão, levando com ela a pequena recém-nascida.
     Em 1869, quando o marido teve um derrame cerebral que o deixou paralisado, Celina transferiu-se com a família para Viena a fim de obter melhores cuidados médicos para ele. Durante o seu sofrimento, que durou cinco anos, ela foi sua fonte de apoio espiritual e moral, além de dedicada e sensível enfermeira. Ao mesmo tempo, continuou a prodigalizar-se pela educação das duas filhas.
     Em 1875, após a morte do marido, Celina transferiu-se para Roma com as filhas, a fim de alargar os horizontes espirituais e culturais, e procurar indicações a respeito da vontade de Deus para si e para as suas filhas. 
     Em 1879 a jovem Celina casou-se com um rapaz polonês; a beata e Edviges se dispunham a fundar um convento de inspiração carmelita. Na igreja de São Cláudio Celina encontrou-se com o cofundador da Congregação da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pe. Pedro Semenenko, que há muitos anos desejava fundar o ramo feminino da Congregação. As conversas com o Pe. Semenenko fizeram-na mudar de plano.
     Em 1882 mãe e filha começaram a ser parte do sonho do fundador, preparando-se junto com outras cinco aspirantes para entrar na vida religiosa. Iniciou-se assim a vida em comunidade, em Roma, sob a direção espiritual do Pe. Semenenko. Em 1884, se instalaram em uma casa em que três anos depois abririam uma escola para meninas sem recursos.
     Em 1886, após a repentina morte do Sacerdote, Celina teve que enfrentar muitas intrigas de pessoas contrárias à nova fundação. De maneira cada vez mais forte, Celina sentia a chamada a fundar uma comunidade de mulheres dedicadas ao Mistério da Ressurreição.
     De sua primeira escola vespertina para moças foi capelão e catequista o Mons. Giacomo Della Chiesa, futuro Papa Bento XV, cujos pais residiam no apartamento ao lado da escola. O futuro pontífice deu muito apoio aos trabalhos da nova congregação.
     Depois de anos de provações e sofrimentos, Celina e sua filha Edviges, cofundadora, com outras três religiosas, fizeram a profissão dos votos religiosos a 6 de janeiro de 1891, dando início oficialmente à nova Congregação, cujo objetivo era proporcionar educação às meninas pobres, e que posteriormente se estendeu ao cuidado dos doentes. Edviges foi sua primeira superiora geral.
     Logo foram abrindo casas nos países do Leste europeu. Na Polônia, tiveram que usar de muita prudência. Resquícios da ocupação russa levaram-nas a trabalhar clandestinamente, estabelecendo a fundação em Czestochowa, perto de Jasna Góra, e em Varsóvia. Foram momentos de grandes recordações para Celina, que havia vivido de cheio o início da invasão.
     Depois, em 1900, chegaram à América, onde abriram uma casa e uma escola em Chicago. Em 1905 a fundação recebeu o decretum laudis.     
     Conforme Madre Celina avançava em idade, era consenso geral que Madre Edviges a sucederia. Mas Madre Edviges morreu inesperadamente em 27 de setembro de 1906, na idade de 43, em Kety, Polônia. Sua mãe teve que suportar mais este sofrimento e heroicamente o fez, e disse às Irmãs que “uma alma é capaz de suportar qualquer coisa por amor a Jesus”.
     Madre Celina continuou a governar a Congregação e em 1911 convocou o 1º. Capítulo Geral. Ela foi eleita Superiora Geral ad vitam. Nos últimos anos de vida ela manteve intensa correspondência e visitas às suas Irmãs, formando-as na espiritualidade do Instituto.
     A Beata expressou o dinamismo da sua vida, antes de morrer, quando escreveu num pedaço de papel, pois já não podia falar: "Em Deus reside a felicidade em eterno". Madre Celina faleceu a 26 de outubro de 1913 em Cracóvia.
     A Beata Celina pertence a um raro grupo de mulheres que experimentaram diversos estados de vida: esposa, mãe, viúva, religiosa e fundadora. Com simplicidade e humildade, escreveu, dando assim uma característica à sua vida espiritual: "Deus não me chamou para fazer coisas extraordinárias... talvez porque não queria que me tornasse orgulhosa. A minha vocação é cumprir a vontade de Deus fielmente e com amor". Ela deixou escritos como “Memórias para minhas filhas” e “Cartas desde a Bulgária”, publicadas na revista Gloria resurrectionis.
     Madre Celina foi beatificada em 27 de outubro de 2007 na Basílica de São João de Latrão, Roma.

domingo, 25 de outubro de 2020

Beata Catarina da Bósnia, Rainha, 3ª franciscana - 25 de outubro


     As informações sobre sua vida são um tanto escassas, mas suficientes para compreender a grandeza de sua figura, prevalentemente católica, vivida em um Estado dos Balcãs ameaçado continuamente pela expansão muçulmana.
     Ela nasceu por volta de 1425, em Blagaj (atual Herzegovina), sede de seu pai Stjepan Vukcic Kosaca, Duque de São Sava, uma das mais poderosas figuras da nobreza da Bósnia, e faleceu em 1478, exilada em Roma. Sua mãe Jelena Balšić era neta do Príncipe Lazar da Sérvia. Ela nasceu na Casa de Kosaca e casou-se na Casa de Kotromanic.
     Crescendo na região do Forte Blagaj, Catarina passou sua infância lendo poesias, tocando órgão e se entretendo com as apresentações de atores vindos de Florença e Dubrovnik para a corte de seu pai. Stjepan foi um membro e importante apoiador da Igreja Bósnia, enquanto sua mãe era uma cristã ortodoxa oriental. Catarina foi criada na confissão de seu pai.
     Em 26 de maio de 1446, foi dada em casamento ao filho ilegítimo do Rei Stephen Ostoja da Bósnia, Stephen Thomas, para estreitar os laços entre a realeza e a nobreza da Bósnia no tempo em que o Conde Herman II de Celje e Zagorje, filho de Herman I e de Catarina da Bósnia, Condessa de Cilli (que por sua vez era filha de Vladislav Kotromanic), reclamava o trono da Bósnia e o perigo otomano era presente.
     A cerimônia de casamento foi realizada de acordo com o rito católico entre 19 de maio, quando Catarina chegou a Milodraz perto de Fojnica acompanhada de seu pai, e 22 de maio de 1446. A nova rainha consorte converteu-se ao catolicismo ("deixou de lado os erros de Patarin"), provavelmente antes de seu casamento, e foi autorizada pelo Papa Eugene a escolher por si mesma dois capelães entre os franciscanos bósnios.
     Tendo se mudado para Kraljeva Sutjeska, sede dos reis da Bósnia, Catarina deu à luz duas crianças: Sigismundo, em 1449, e Catarina em 1459.
     Catarina provou ser uma convertida zelosa. Preocupando-se com a difusão da Fé em seu reino, chamou os Franciscanos para se estabelecerem em Jaice, a capital, para combater e converter os numerosos hereges e cismáticos que tinham feito da Bósnia a cidadela de sua heresia que contrapunha o mundo do espírito ao da matéria, considerado a expressão da força do mal, negava a Santíssima Trindade, a natureza humana de Cristo, reduzida a uma aparência, o Antigo Testamento, não reconhecia os ritos litúrgicos, a hierarquia eclesiástica, o batismo e o matrimônio.
     Ela iniciou e financiou com seu dote a construção de igrejas em toda a Bósnia, começando com uma em Kupres em 1447, seguida por igrejas em Krupa na Vrbasu e Jezero uma igreja em Jaice foi construída em 1458. Em dezembro de 1458 ela escreveu ao Papa Pio II para solicitar que a igreja em Jajce, construída junto com um mosteiro franciscano e um vicariato fosse nomeada em homenagem a sua homônima, Santa Catarina de Alexandria. Pio II atendeu ao seu pedido emitindo uma bula em 13 de dezembro, concedendo absolvição a qualquer um que visitasse a igreja da Rainha Catarina no Natal ou na Páscoa, ou em certos dias de festa.
     Thomas faleceu em 10 de julho de 1461 e foi sucedido por seu filho, Stephen Tomasevic, que reconheceu Catarina como rainha-mãe.
     Em 1463 os turcos, capitaneados pelo sultão Maomé II, ocuparam a Bósnia e, entre outras coisas, capturaram os filhos de Catarina, obrigando-os a se tornarem muçulmanos. As crianças foram levadas para Istambul onde o filho de Catarina, agora com o nome de Ishak-beg Kraloglu, tornou-se bastante influente. Sua filha Catarina morreu em Skopje, onde lhe foi erigido um monumento, o Kral Kizi.
     A Rainha-mãe se exilou em Roma, onde foi acolhida com honras pelo Papa Pio II, tornando-se Terceira Franciscana e vivendo santamente, gozando da estima e consideração dos sucessivos pontífices, Paulo II e Sisto IV.
     A infeliz Rainha levou consigo os símbolos da casa real da Bósnia, esperando que seu reino fosse restaurado um dia. Em Dubrovnik ela deixou a espada de seu esposo para ser entregue ao seu filho, se ele retornasse do cativeiro. Sua filha mais nova casou-se com o governador de Zeta, e épico herói de Montenegro, Ivan Crnojevic.
     Em Roma, ela era respeitada entre os eslavos, mas tinha poucos recursos porque seu pai a tinha tirado do testamento. A Igreja Católica foi a única instituição que ainda reconhecia Catarina como a “rainha legítima”. Entretanto, sua influência entre a nobreza parece ter sido muito grande, pois consta que em 1472 ela compareceu ao casamento de Sofia Palaiologina e o russo Duque Ivan III, também conhecido como Ivan o Grande.
     Ela viveu em Roma numa casa próxima da Igreja de São Marcos, com sua “corte”. Eles a serviram até sua morte em 25 de outubro de 1478. Foi sepultada com solenes funerais na Igreja de Aracoeli. No seu testamento dispôs que deixava para a Santa Sé o seu reino, a espada e os símbolos reais, com a cláusula: se seu filho Sigismundo, prisioneiro dos turcos, uma vez liberado voltasse para o Catolicismo, ele deveria se tornar Rei da Bósnia.
     Os católicos daquela região visitam com frequência seu túmulo na igreja romana de Santa Maria em Aracoeli. A pedra tumular apresenta um retrato seu com os emblemas da Casa de Kotromanic e Kosaca. A inscrição, originalmente escrita em Bosancica, foi substituída em 1590 por uma em latim que diz:
     A memória da Rainha Catarina, que foi beatificada após sua morte, ainda está viva na Bósnia Central, onde os Católicos tradicionalmente celebram o 25 de outubro com uma Missa em Bobovac “no altar da terra natal”. Alguns pertences da Rainha e da família Kotromanic foram levados em 1871 para a Croácia, por Josip Juraj Strossmayer, do mosteiro franciscano de Kraljeva Sutjeska, a fim de salvaguardá-los até que a “Bósnia seja libertada”. Eles jamais foram devolvidos.
     A Ordem Franciscana celebra Catarina no dia de sua morte.
 
www.santiebeati.ithttp://en.wikipedia.org/wiki/Catherine_of_Bosnia
 
Postado neste blog em 22 de outubro de 2012

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Santa Sira de Châlons-sur-Marne, Abadessa – 23 de outubro

    Santa Sira (Cyre ou Syre) foi uma abadessa do mosteiro de Châlons-sur-Marne, que viveu entre o final do século VI e meados do século VII.
     Ela é tradicionalmente considerada irmã de São Fiacre, um eremita na região de Brie.
    Inicialmente Santa Sira havia entrado na Abadia de Faremountiers, na diocese de Meaux, fundada por Santa Fara, um mosteiro duplo, ou seja, composto por dois conventos separados, um masculino e um feminino, governados por uma abadessa.
     Somente após o pedido de Reginaldo, bispo de Châlons-sur-Marne, Santa Sira foi fundar um mosteiro nas proximidades de sua cidade episcopal, do qual ela se tornou a primeira abadessa.
     Acredita-se que Santa Sira tenha morrido por volta do ano 650. Desde os tempos antigos ela era venerada no mosteiro de Faremountiers, onde parte de suas relíquias são preservadas, e na diocese de Châlons-sur-Marne
     A festa para Santa Sira em Faremountiers e Châlons-sur-Marne está marcada para 23 de outubro.
 
http://www.santiebeati.it/dettaglio/98568
 
DIOCESE DE CHÂLONS-SUR-MARNE (CATALAUNENSIS)

Abadia de São Vitor c.1655
 
     A Diocese compreende o departamento de Marne. Unida em 1802 com a Diocese de Meaux e em 1821 com a de Reims, a Diocese de Châlons foi restabelecida em 1822, e é sufragã para Reims. 
     Lendas locais afirmam que a evangelização de Châlons por São Memmius, enviada para lá por São Pedro e assistido por sua irmã Poma, também por Santos Donaciano e Domita, ocorreu no primeiro século, mas na lista revisada dos santos diocesanos no Breviário essas lendas foram suprimidas.
     O Abbé Duchesne atribui a fundação da Sé de Châlons ao século IV, Amandinus, que participou do Conselho de Tours em 461, sendo seu nono bispo. São Lumier (Leudomerus), Bispo de Châlons por volta de 580, era conhecido por seu poder milagroso sobre os animais. Os bispos desta diocese desempenharam um papel importante no início da história francesa, e na coroação dos reis capetianos o Bispo de Châlons sempre carregava o anel real. A catedral foi consagrada em 1147 por Eugenio III, auxiliado por São Bernardo e dezoito cardeais. 
     Entre suas célebres abadias a diocese contava as de São Memmius, fundada no século V por Alpinus; Toussaints, fundada no século XI; Montier-en-Der, fundada no século VII por São Bereharius, um monge de Luxeuil; Saint-Pierre au Mont, fundada durante o mesmo período. Notre-Dame de l'Epine, perto de Châlons, foi um lugar de peregrinação já no início do século XV.

sábado, 17 de outubro de 2020

Santa Gwen de Talgarth, princesa e religiosa

     Santa Gwen, Wenna, Genuissa, Branca ou Cândida, (as variantes citadas do seu nome são todas traduções literárias) se presume tenha nascido em 463 no seio de uma família nobre.
     Decidiu se tornar religiosa. Fundou uma igreja em Talgarth, no reino de seu pai, antes de unir-se aos seus irmãos, entre os quais São Nectan, na evangelização de Cerniw setentrional. Naquela região fundou uma igreja em uma comunidade perto de Bodmin, que tomou o seu nome, e próxima das capelas em São Kew e em Cheristow.
     Foi assassinada no dia 18 de outubro, de um ano desconhecido do século VI, por alguns saxões pagãos quando retornava de uma visita a Talgarth.
     Algumas fontes afirmam que ela era viúva, mas não citam o nome do marido.
     Santa Wenna é comemorada no dia de sua morte.
https://catholicsaints.info/saint-gwen-of-tagarth/
 
* * *
 
Santa Gwenn, rainha
 

     Santa Gwenn (Santa Branca em francês) ou Gwen, ou Guen, ou Gwendoline é apelidada em bretão Teir Bronn ("três seios") porque dela nasceu pelo menos três Santos. Ela é a esposa de São Fragan; eles viveram no século VI.
     Santa Gwen era uma rainha britânica nascida em 472. Era uma das três filhas de Cynyr Ceinfarfog, rei de Dyfed, que se estabelecera em Caer Goch nas vizinhanças de Mynyw; era irmã de Santa Non e tia de São David, patrono de Gales.
     Santa Gwen casou-se com Salom del Cerniw, recordado como o chefe supremo dos britânicos, que era o filho mais novo do rei Erbin da Dumnonia.
     Deste matrimônio não sabemos quantos filhos nasceram, com segurança temos os nomes dos Santos Guethenoc e Jacut eram gêmeos e São Cadfan.
     Sabe-se muito pouco a seu respeito. Se recorda somente que ela fundou a igreja de Morval, próximo de Duloe, em Cerniw na Cornualha e que morreu provavelmente no ano de 544.
     Não devemos confundir Santa Gwen rainha com a sua homônima e contemporânea Santa Gwen de Talgarth, ambas festejadas no mesmo dia, 18 de outubro.
História e tradição
     O casal e seus dois primeiros filhos nasceram no Gales, seu país de origem. O terceiro filho teria nascido logo após a família desembarcar na foz do rio Brahec, em Brieuc. Segundo a legenda, Deus lhe deu um terceiro seio para amamentar seus trigêmeos, daí seu apelido bretão "santez Gwenn Teir Bronn", literalmente "a santa com três seios". Segundo Joseph Chardonnet, esta é uma interpretação equivocada da expressão latina trimammis que significa "três vezes mãe" (epíteto composto por duas palavras bretãs, tipo "três" e mamm "mãe") porque a tradição relata que apenas Guethenoc e Jacut eram gêmeos.
     Gwenn é mãe de uma grande família sagrada. Além de seus três filhos santos já mencionados, ela também tem uma filha, Santa Clervie. 
     Santa Gwenn é protetora das crianças e é invocada por mães sem leite; é também a santa padroeira das babás.
 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Madre Jacinta de São José, Fundadora do 1º Convento Carmelita do Brasil

(continuação)

Aparição de Santo Tomás de Aquino

    
“Encontramos este fato na vida da serva de Deus, Madre Jacinta de São José, carmelita descalça, fundadora do Convento de Santa Teresa, no Rio de Janeiro e falecida em odor de santidade a 2 de outubro de 1768.
     No dia 5 de janeiro de 1745, aprouve ao Senhor revelar à sua fidelíssima Serva a Imaculada Conceição da Virgem Maria, não sendo naquela época declarada ainda Dogma de fé. Eram duas horas da madrugada, quando ouviu uma voz que a chamava sem ver ninguém. Imediatamente perdeu os sentidos e sua alma foi levada à augusta presença da Santíssima Trindade, onde conheceu distintamente as Três Divinas Pessoas e o Ser infinito de Deus. Foi-lhe em seguida mostrada a criação da Virgem Maria, formada por Deus com todo o primor, sem mancha alguma de Pecado Original e toda Pura e Imaculada na sua Conceição, porque havia de ser sua Santíssima Mãe segundo a natureza humana.
     Nesta visão tão clara, achava-se presente Santo Tomás de Aquino, de cuja presença teve ela certeza, e quando perdeu de vista a Nossa Senhora, ficou com o Santo, comunicando-se por conceitos. Então, lhe disse S. Tomás, que Deus a elevava a ver a criação da Senhora, para que testemunhasse o que vira e fosse aceito e recebido na Igreja Católica seu testemunho. Desejava e suspirava que a Igreja se resolvesse logo a declarar a Conceição Imaculada de Maria Santíssima e que para esse fim rogasse continuamente a Deus. Jacinta ofereceu-se prontamente; e o Santo tornou, que quando escrevesse sobre o que tinha visto da Conceição da Senhora (sabendo já como havia de explicar tal assunto) assistiria com especial cuidado sua alma”.
 
(Vida da Serva de Deus, Madre Jacinta, por Frei Nicolau de São José, C.D., pág. 77).
Fonte: Mensário “Mensageiro do Santo Rosário”, de Março de 1936; Redação e Administração no Convento dos Dominicanos – Uberaba/MG.
 
http://cumpetroetsubpetrosemper.blogspot.com/2017/06/uma-aparicao-de-santo-tomas-de-aquino.html?spref=pi
http://heroinasdacristandade.blogspot.com/2016/10/madre-jacinta-de-sao-jose-carmelita-2.html
 
 
Tesouro Carmelitano: fioretti no Brasil colonial
 
      Irmã Francisca de Jesus Maria, infelizmente pouco conhecida mesmo nos ambientes católicos do Brasil, é irmã da Madre Jacinta de São José, fundadora do Carmelo Descalço no Brasil.
      Nasceu Francisca no Rio de Janeiro, em 1719, sendo a última dos quatro filhos de José Rodrigues Ayres e Da. Maria Lemos Pereira, ambos pertencentes a famílias católicas e abastadas. O virtuoso casal proporcionou a seus filhos, dos quais três abraçaram o estado religioso, sólida formação.
      Francisca, reconhecendo desde logo o modo extraordinário pelo qual a Providência divina dirigia sua irmã Jacinta, deixou-se docilmente guiar por ela, apesar da diferença de apenas quatro anos na idade. Obedecia-a como sua superiora e, desde a infância, empregavam ambas o tempo que lhes sobrava, após as ocupações domésticas, em leitura espiritual, meditação, silêncio, mortificação e penitências rigorosíssimas.
Cilícios como presentes
      Um fato surpreendente para nossa época ocorreu nessa família: José Ayres, compreendendo que um desígnio especial pairava sobre suas filhas, não só não proibia, mas incentivava as santas inclinações de ambas, chegando a dar-lhes cilícios como presente de Natal, certo de agradá-las com este gesto, como também a Deus.
     Francisca ainda não atingira os 12 anos de idade quando Jacinta expôs-lhe as vantagens do estado religioso, resolvendo ambas, então, abandonar o mundo para se encerrar no claustro.
     Embora recebessem do pai todo apoio, encontraram por parte da mãe uma oposição peremptória. A morte repentina do pai submeteu-as por completo à vontade materna, sem contudo deixarem as duas irmãs de viver em casa como se estivessem num convento, ao mesmo tempo que cumpriam fielmente seus deveres filiais. As duas irmãs compraram uma chácara, em local deserto do Morro do Desterro, adaptando as toscas habitações nela existentes, onde as duas irmãs iniciaram a vida em comum.
O prêmio da obediência
     Um dia, Jacinta, na qualidade de superiora, dirigiu-se a Francisca e mandou-lhe plantar alguns pedregulhos, por estarem precisando de coentro, planta medicinal da família das umbelíferas.
     Francisca obedeceu incontinenti, regando todos os dias o que plantara, como se se tratasse de preciosas sementes. Deus Nosso Senhor abençoou aquele ato de obediência operando o milagre: daqueles pedregulhos nasceram magníficos coentros.
Obediência após a morte
     Em consequência do excessivo trabalho e das austeridades, Francisca foi atacada de congestão pulmonar. Durante os grandes sofrimentos da última doença, guardou sempre o mesmo semblante sereno e alegre. No dia 13 de julho de 1748, entregou a alma a Deus, aos 30 anos de idade.
     Quando Madre Jacinta a foi amortalhar com algumas outras jovens, que a elas se tinham associado na mesma vida de austeridade, era tal a flexibilidade do corpo de Francisca, que sua irmã não conseguia colocar nele as meias. Disse-lhe, então, Madre Jacinta: "Francisca, não estareis quieta com essas pernas?" Imediatamente o cadáver suspendeu-as, de maneira a facilitar o trabalho da irmã.
     Entretanto, a notícia da morte da serva de Deus e do estado de seu corpo percorreu a cidade. Inúmeras autoridades vieram presenciar o milagre. O corpo foi depositado provisoriamente num sepulcro, mas o povo, acorrendo em massa para ver a "bem-aventurada" - como a chamavam - abriu a sepultura e o caixão. Uns moviam-lhe os braços, outros lhe abriam os olhos, admirados e louvando a Deus.
     Dias depois, os Irmãos Terceiros Franciscanos, querendo para si aquele tesouro, apesar do desejo contrário da Madre Jacinta, que desejava ter o corpo junto a si - com insistência e quase com violência - começaram a transportar os santos despojos para sepultá-los em sua igreja. Jacinta, no entanto, ordenou ao cadáver: "Francisca, veste-te de corrupção!". Imediatamente desapareceram todos os vestígios gloriosos e o corpo se corrompeu. Os Irmãos Terceiros, admirados, retiraram-se. Apenas tinham eles se afastado, o corpo recuperou sua incorruptibilidade anterior, sendo em seguida revestido com o hábito do Carmo e sepultado na capela do convento, onde se encontra até hoje.
 
Fontes: Notícias históricas pelas religiosas do Convento de Sta. Teresa, Rio de Janeiro; Frei Nicolau de São José OCD, "Vida da Serva de Deus Madre Jacinta de São José", Est de Artes Graf C Mendes Jr., Rio de Janeiro, 1933.
 
https://heroinasdacristandade.blogspot.com/2012/07/tesouro-carmelitano-pouco-conhecido-do.html
 
A Capela do Menino Deus localizada na Rua Riachuelo, no bairro da Lapa, RJ.
 
     A sua história confunde-se com a da fundação do antigo Convento de Santa Teresa. Numa manhã de maio de 1742, Madre Jacinta de S. José e a sua irmã Francisca, passavam pelo Caminho da Bica (depois, Rua de Matacavalos; atualmente Rua Riachuelo), onde exploraram uma antiga chácara ali existente, a Chácara da Bica. Encontraram a antiga casa em ruínas e, por entre o arvoredo em abandono, uma fonte. Ao regressar à casa, pediram ao tio delas, Manuel Pereira Ramos, que adquirisse a propriedade, no que foram satisfeitas.
     As duas irmãs para lá se transferiram, fundando o Recolhimento do Menino Deus, primeiro convento de monjas carmelitas descalças na então Colônia, sob a direção de Madre Jacinta São José. Tendo dado início à construção da primitiva capela, a mesma foi consagrada e teve sua primeira missa celebrada em 1 de janeiro de 1744. Mais tarde, diante da ameaça de demolição quando da retificação do traçado daquela importante via urbana, as irmãs, à época, obtiveram a promessa e o empenho do então governador Gomes Freire de Andrade, 1º Conde de Bobadela (1685-1763), de que tal não aconteceria. De fato, pode verificar-se que no local a rua faz uma curva notável, quase em frente à capela.
     Aquele governante, afirma-se que impressionado pela reputação de virtude de Madre Jacinta, obteve junto ao então bispo do Rio de Janeiro, o terreno onde se encontrava a Ermida do Desterro, no Outeiro do Desterro (atual bairro de Santa Teresa), para onde se transferiram as instalações do convento, permanecendo no antigo local apenas a Capela do Menino Deus. Com o tempo, a capela foi abandonada, caindo em ruínas. Foram recolhidos, então, ao convento, a imagem do Menino Deus e as demais relíquias.
     Em 1925, a capela veio a ser reconstruída, após ter sido praticamente toda demolida a antiga capela pelo Conselho Superior da Sociedade de S. Vicente de Paulo, com autorização das freiras do Convento de Santa Teresa, sob condição de que fosse reconstruída. Foram, assim, devolvidas à capela as relíquias da época de Madre Jacinta (a imagem do Menino Deus, o cálice e os sinos), as quais foram transladadas em procissão no dia 6 de janeiro de 1925. De acordo com a tradição, o escritor Machado de Assis aqui passou num Natal para assistir à missa, tendo escrito, a seguir, o seu "Auto de Natal".
     Em finais do século XVIII, se colocaram, na portaria do Convento de Santa Teresa, uma série de belos azulejos brancos-azuis provenientes de Portugal, de autor desconhecido, além de três bons altares de talha em estilo (rococó), também de autoria ignorada. No convento, há um retrato da fundadora, Madre Jacinta, datado de 1769, de autoria do pintor colonial carioca José de Oliveira Rosa. No século XX, houve algumas obras que removeram certos elementos do interior, mas que não chegaram a descaracterizá-lo.
     No convento, estão enterrados Gomes Freire de Andrade, 1.º Conde de Bobadela (Gomes Freire de Andrade), impulsor do projeto e (José Fernandes Pinto Alpoim) (Alpoim), o arquiteto.
     Sobre o Convento, Mons. Pizarro, em sua obra Memórias Históricas do Rio de Janeiro (ed.1825), assim o descreve: "O local do convento é mui agradável por se desfrutarem dali as vistas do mar, desde a barra até o interior da enseada e da terra, pelo centro da cidade e suas circunvizinhanças. O edifício, fabricado com prospecto regular, e majestoso, contém acomodações mui suficientes, e dentro dos seus muros um terreno sofrível, que as próprias habitantes fazem cultivar para seu recreio".
     No Brasil Pitoresco (ed. 1859), Charles Ribeyrolles, achando encantador o sítio onde o construíram, escreve: "Castelo senhorial, que vale bem o castelo da Alma, ao qual se chega pelo caminho da perfeição".

Nota: O retrato acima de Madre Jacinta se encontra no Convento de Santa Teresa no Rio de Janeiro. Este quadro teria sido pintado um dia após a morte da religiosa (2/10.1768) e, segundo relato das religiosas, "não traduziria os traços mais característicos da grandeza da Fundadora, de grande coração, gênio alegre, muito alegre e igualmente grave, de ânimo sincero, cheia de piedade, muito prudente e de uma presença muito respeitável, também era formosa e muito graciosa  e tudo nela era natural e sem afetação".


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Madre Jacinta de São José, Fundadora do 1º Convento Carmelita do Brasil

   

     No começo do século XVII foi construída por Antônio Gomes do Desterro, no Morro do Desterro, atual Morro de Santa Teresa, uma ermida consagrada à Sagrada Família. Esta, sob invocação a Nossa Senhora do Desterro, era muito frequentada por romeiros e devotos e nela eram celebradas cerimônias do culto com regularidade. Assim formou-se o Caminho do Desterro, depois chamado Rua dos Barbonos e, a partir de 1870, Rua Evaristo da Veiga, na Lapa, centro do Rio de Janeiro.
    O primeiro Convento de Carmelitas Descalças surgiu do empenho pessoal de uma leiga, Jacinta Pereira Ayres, filha de importante família, que com o apoio do Bispo do Rio de Janeiro, Dom Frei João da Cruz, Carmelita Descalço, e do Governador da Província, Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela, o fundou em 1750, nas encostas do Morro do Desterro, nas imediações do atual Bairro da Lapa.
     Na América, o aparecimento e desenvolvimento do Carmelo Descalço feminino deu-se, em certa medida, de forma semelhante ao caso francês e belga. Sem poder contar com a iniciativa direta da Ordem, muitos que alimentavam o desejo de que se fundassem conventos carmelitas em suas terras, tiveram que constituí-los por conta própria, recebendo quando muito um apoio indireto por parte da Ordem.
     Madre Jacinta – como ficou conhecida por todos, apesar de nunca haver professado canonicamente – nasceu no Rio de Janeiro, a 15 de outubro de 1715, festa de Santa Teresa de Jesus, de pais profundamente cristãos. Crescendo nesse ambiente de profunda religiosidade, desde pequena foi favorecida de graças extraordinárias e tornou-se admirável por suas virtudes e pela vida perfeita que levava na casa paterna. Jacinta sentiu-se naturalmente inclinada a abraçar a vida religiosa. Revelou o seu desejo à sua irmã Francisca, e ambas resolveram entrar num Convento. Não havendo, porém, convento de religiosas naquele tempo no Rio de Janeiro, o padrasto - pois seu pai já havia morrido - requereu a licença de Sua Majestade D. João V, Rei de Portugal, que benignamente deferiu, a fim de que Jacinta e sua irmã Francisca fossem para Lisboa e aí escolhessem o Convento e a Ordem que mais lhes agradasse.
     É interessante a observação da historiadora Leila Mezan Algranti: "Numa colônia de população tão rala, não havia espaço para a vida contemplativa feminina. Embora a presença de religiosos homens tenha marcado a colonização desde o início, o estabelecimento de congregações de mulheres é bem posterior. Mesmo quando a colonização já ia avançada, nos séculos XVII e XVIII, a Coroa procurou manter-se fiel à política de incentivo ao casamento, proibindo, sempre que possível, o surgimento de mosteiros para mulheres, principalmente nas zonas menos povoadas e pouco desenvolvidas”.
     Faltando, contudo, pouco tempo para seu embarque a Lisboa, um acidente impediu Jacinta de deixar o Rio de Janeiro. Presa à cama com o quadril fraturado, sem poder andar ou ficar de pé, Jacinta se viu obrigada então a abandonar seu projeto.
     Mais tarde, já se convalescendo da fratura, Jacinta "um dia, ao descer a ladeira do Desterro, depois de assistir à Missa que ali era celebrada, teve a feliz inspiração de escolher naqueles arredores um lugar solitário para aí, com sua irmã e outras piedosas donzelas que a quisessem acompanhar, viver debaixo de uma Regra".
     Encontrando uma chácara abandonada, conhecida como chácara da Bica, Jacinta, com o apoio de um tio, conseguiu adquiri-la por preço moderado e, no dia 27 de março de 1742, acompanhada por seu irmão por parte de pai, que era sacerdote, e uma criada, deixou a casa paterna e, "depois de se ter confessado e comungado, ouvido Missa na ermida do Desterro, foi encerrar-se naquela chácara isolada, com a firme intenção de nunca mais sair dali". No dia seguinte, Francisca juntava-se a Jacinta. As duas, com a ajuda do irmão José, improvisaram então, em meio às ruínas da chácara, um insólito convento, estabelecendo inclusive clausura. Construíram uma capelinha em honra ao Menino Deus, que ainda hoje existe na Rua Riachuelo, restaurada pela Sociedade de São Vicente de Paula.
     Logo a notícia do aparecimento da nova casa se difundiu por toda a cidade, causando ótima impressão na opinião pública, e no poder civil e eclesiástico da Colônia. Assim, a partir de 1748, outras jovens foram se agregando a elas e, desde então, Madre Jacinta passou a contar com o apoio e a admiração do governador, o Conde de Bobadela, Gomes Freire de Andrade, e do Bispo, Dom Frei João da Cruz. Aconselhada pelo confessor do bispo, Frei Manoel de Jesus, também Carmelita Descalço, Madre Jacinta resolveu adotar, para regular a vida de sua nascente comunidade, as Constituições da reforma teresiana, ainda que oficialmente as donzelas da Chácara da Bica continuassem a ser leigas.
     Desejosa de transformar o recolhimento em Convento Carmelita Descalço, Jacinta pediu a autorização e o apoio do bispo D. Frei João da Cruz que, entusiasmado com a ideia, iniciou os procedimentos para obter as licenças que deveriam ser dadas por Roma e pela Coroa portuguesa. Entrementes, permitiu que se recebesse oficialmente postulantes em seu recolhimento, autorizando que vestissem o hábito carmelitano depois de cumprido o tempo regular da profissão religiosa. Ao mesmo tempo, Madre Jacinta, providenciava com o Governador o projeto do edifício que abrigaria a primeira comunidade carmelitana do Brasil, cuja pedra seria assentada pelo Bispo, às 15:00 h do dia 24 de junho de 1750, "debaixo da invocação e título de Nossa Senhora do Desterro, para religiosas que hão de professar a regra de Santa Teresa", por Provisão do Bispo, de 15 de junho do mesmo ano.
     O Governador, Gomes Freire de Andrade, atraído pela fama das virtudes de Madre Jacinta e suas filhas, foi visitá-las com o Bispo D. Antônio do Desterro e adquiriu-lhes tão grande estima, que tendo alcançado do Bispo a doação da antiga ermida do Desterro (não se pode precisar o ano de sua fundação; sabe-se que sua construção data de 1629, no dia 15 de agosto.), que há mais de um século se elevava no outeiro do mesmo nome (o atual Morro de Santa Teresa), um pouco acima da Chácara, onde muitas vezes ela tinha ido rezar, edificou ao lado o Convento de Santa Teresa, à sua custa, segundo o projeto do Brigadeiro José Fernandes Alpoim (1700-1765) – um dos principais nomes da arquitetura do século XVIII no Brasil colonial, como o Aqueduto da Carioca e o claustro do Mosteiro de São Bento, todos no Rio de Janeiro – indo muitas vezes inspecionar o andamento da construção.
     Antes, porém, que pudesse encaminhar os pedidos de oficialização do Convento, D. João da Cruz viu-se obrigado a deixar a Diocese, passando o governo a D. Frei Antônio do Desterro, franciscano, que orientado por Madre Jacinta e pelo Conde de Bobadela, deu prosseguimento às gestões de seu antecessor.
     O D. Frei Antônio do Desterro, embora vendo com bons olhos a devoção das religiosas e o estabelecimento de mais um convento em sua diocese, não aprovava o exagero místico de Jacinta de São José e as regras demasiado severas de Santa Teresa, sendo estas ordenadas a professar, no novo convento, as regras de Santa Clara.
     Quando chegou o Breve Pontifício, em janeiro de 1751, Madre Jacinta e suas companheiras não o aceitaram, recusando-se a professarem numa Regra que não condizia com as suas reivindicações. Sentindo-se traídas, pediram a intervenção do Conde de Bobadela para que convencesse o Bispo a mudar de ideia e lhes permitissem professar na Regra que haviam escolhido. Como ele se mantinha inflexível, Madre Jacinta decidiu resolver pessoalmente a questão, indo a Lisboa em busca de um novo breve e da licença real.
     "Uma teia de intrigas desencadeou-se a partir da viagem de Madre Jacinta..." Mas depois de examinar os documentos referentes ao caso e investigar pessoalmente a Madre, o Padre Col manifestou-se favorável ao seu pedido, julgando-a capaz e bem intencionada. Entretanto, buscando testar a humildade e obediência da brasileira, sugeriu ao monarca, em seu parecer, “que lhe fosse vedada a condição de Fundadora e Priora e que, para o estabelecimento do convento, fossem enviadas de Portugal carmelitas experientes”.
     Assim instruído e tendo entrevistado pessoalmente Madre Jacinta, o rei, D. José I, não apenas expediu o alvará favorável, como ainda providenciou para que seu representante em Roma, Antônio Freire de Andrade Encerrabodes, obtivesse a fundação de um convento segundo a Regra e as Constituições da Reforma Carmelitana de Santa Teresa. Este foi expedido no dia 22 de dezembro de 1755.
     Munida das devidas licenças, Madre Jacinta retornou ao Brasil, aportando no Rio de Janeiro a 17 de abril de 1756.
     Apesar das autorizações, o Bispo D. Antônio não quis professar canonicamente Madre Jacinta e suas filhas, indo de encontro às disposições oficiais de Roma e Portugal. Porém, em vista desta divergência irreconciliável, o Conde de Bobadela achou prudente não insistir mais, esperando que com o tempo, havia afinal de desaparecer todos os embaraços. Madre Jacinta, que podia apelar à Corte e à Sé apostólica, resolveu aceitar o conselho do conde e não insistiu mais no assunto.

    
Em 1757, concluídas as obras do edifício do convento, Madre Jacinta e suas filhas ali se recolheram definitivamente, “vivendo em observância religiosa, seguindo em tudo a Regra e Constituições da reforma carmelitana...” Em 1767, o Recolhimento de Santa Teresa contava já com 21 mulheres, número máximo definido pelas Constituições.
      Madre Jacinta, findou seus dias na prática constante das virtudes e no dia 2 de outubro de 1768 morre, aos 52 anos de idade, sem ter podido receber a profissão canônica. Seus restos mortais são conservados no Convento de Santa Teresa, assim como os do fundador, Gomes Freire de Andrade, falecido em 1º de janeiro de 1763.
     As filhas de Madre Jacinta continuaram recolhidas em seu Convento, imitando os exemplos de sua admirável Fundadora, até que após a morte de D. Frei Antônio do Desterro, ocorrida em 1773, o seu sucessor, D. Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco, em 1780, reconheceu oficialmente a clausura e vestiu canonicamente as recolhidas com o hábito carmelitano. Em seguida, no dia 23 de janeiro de 1781, finalmente, as filhas de Madre Jacinta professaram os votos religiosos solenes.
     Quantos anos de perseverança! Vinte e cinco anos desde a expedição do Breve Pontifício! O Convento de Santa Teresa teve a alegria de celebrar os seus 250 anos de Fundação, no ano Jubilar 2000 do nascimento de Jesus Cristo (1750 - 2000).
 
(continua)


(Vida da Serva de Deus, Madre Jacinta, por Frei Nicolau de São José, C.D., pág. 77). Fonte: Mensário “Mensageiro do Santo Rosário”, de Março de 1936; Redação e Administração no Convento dos Dominicanos – Uberaba/MG.

sábado, 10 de outubro de 2020

Beata Maria Catarina, Virgem, Serva de Maria - 10 de outubro

     
     Maria Catarina Irigoyen Echegaray nasceu em pleno século XIX, em 25 de novembro de 1848, em Pamplona, no coração da Navarra; era a última de oito irmãos e gêmea do sétimo. Em 26 de novembro, festa dos Esponsais da Virgem, foi batizada na Igreja Catedral de Pamplona e em 26 de novembro de 1860 Maria Catarina recebeu a Primeira Comunhão.
     A sua família, aparentada com aquela de São Francisco Xavier, era fervorosa e observante, e contribuiu de maneira decisiva na maturação da sua fé.
     Ela foi educada no Instituto das Irmãs Dominicanas, distinguindo-se por sua particular devoção filial a Nossa Senhora. Eleita presidente da Congregação das Filhas de Maria, nos momentos livres visitava o hospital da cidade para assistir aos anciãos e as pessoas abandonadas, enquanto com algumas companheiras mantinha em sua casa uma oficina para a confecção de roupas para os necessitados.
     Na idade de 30 anos começou a colaborar com as religiosas Servas de Maria, que estavam abrindo uma casa em Pamplona, cuja principal obra apostólica era o tratamento gratuito dos doentes, um serviço diurno e noturno feito nos domicílios, nas clínicas, nos hospitais, dispensários e ambulatórios (*)
     Com o passar do tempo o relacionamento entre Maria Catarina e a Congregação se intensifica e se consolida, enquanto nela se delineia os contornos da chamada à vida religiosa naquele Instituto. Assim sendo, solicitou à fundadora, Santa Maria Soledade Torres Acosta, ser admitida na Congregação.
     Tendo entrado como Postulante em Pamplona em 31 de dezembro de 1881, foi transferida para Madri para o noviciado. Emitiu sua Profissão Temporária em 14 de maio de 1883 e a Profissão Perpétua em 15 de julho de 1889. Permaneceria até sua morte na capital da Espanha.
     Se entrega com dedicação ao serviço domiciliar dos doentes, operando com caridade, paciência, determinação. Naquele período uma pandemia de cólera, influenza e varíola fazia vítimas nas casas, provocando o abandono dos doentes por parte dos familiares pelo medo do contágio.
     Desprezando o perigo, a religiosa os assiste incansavelmente. E a fama de suas extraordinárias capacidades, alimentadas pelo inexaurível espírito de caridade, se difunde rapidamente por toda Madri, a ponto de em algumas casas se colocarem cartazes com a frase: “Se eu adoecer, que eu seja tratado pela Irmã Maria Catarina”.
     Após 23 anos de serviços junto aos enfermos, devido a uma grave forma de surdez teve que renunciar à sua amada atividade; assumiu então o encargo de recolher as ofertas que os benfeitores destinavam ao sustento da Congregação.
     Seus sofrimentos, entretanto, não terminaram. Em 1913, foi diagnosticada com uma tuberculose óssea que lhe causavam dores tremendas. A doença bloqueia o físico, mas não o coração e o espírito: a sua vida se torna uma oração contínua por todas as intenções que lhe são confiadas por tantos que a consideravam “fonte de força e porta para chegar até Deus”.
     Irmã Maria Catarina visitou mais de 400 casas de doentes, sem contar as visitas que realizou no tempo da epidemia de cólera. As famílias admiravam sua dedicação e entrega, especialmente nas epidemias de cólera, gripe e varíola. Havia ocasiões em que Irmã Maria Catarina encontrava os doentes abandonados por seus familiares para evitar contrair alguma daquelas enfermidades.
     Madre Alfonsa relatou que “Irmã Maria Catarina resistia sem medo do contágio, atendendo incansavelmente aos infectados, dedicando seu tempo, sua vida e até o sustento que lhe chegava de Chamberi. Dizem que essa dedicação e sua maneira hábil de cuidar dos enfermos eram tão conhecidas, que nas fachadas de algumas casas se podia ler o letreiro: ‘se adoeço, que Irmã Maria Catarina cuide de mim’”.
   “Com tanta solicitude e bondade”, se lê entre os testemunhos do seu processo de glorificação, “acorria aos pedidos e às necessidades dos doentes, que muitos deles a consideravam como uma mãe amorosa e muitas famílias a solicitavam como enfermeira ideal”.
     Irmã Maria Catarina faleceu no dia 10 de outubro de 1910, na casa-mãe da Congregação, no quarteirão madrileno de Chamberi, onde hoje repousam os seus despojos.
     O milagre que possibilitou sua beatificação aconteceu em La Paz, na Bolívia: graças à sua intercessão, um cirurgião acometido de uma doença cerebral se recuperou e retornou ao trabalho.
     Irmã Maria Catarina foi beatificada em 29 de outubro de 2011.
 
(*) O Instituto conta hoje com 1.600 religiosas distribuídas em 115 comunidades, e está presente em 22 países da Europa, América, África e Ásia.
 

Fonte: www.vaticaninsider.it
http://www.santiebeati.it/dettaglio/95461
 
Postado neste blog em 8 de outubro de 2013