sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Santa Mônica, mãe de Sto. Agostinho - 27 de agosto


O colóquio de Santo Agostinho com Santa Mônica em Óstia     

     A mãe de Santo Agostinho, Santa Mônica (331–387), passou uns trinta anos ou mais chorando a pedir a Deus a conversão de seu filho. Santo Agostinho acabou por comer as bolotas dos porcos e começou um processo de conversão que fez dele o grande Doutor da Igreja.
     Santo Agostinho, já convertido, e Santa Mônica resolveram voltar para a África do Norte, naquele tempo inteiramente romana, e mais especificamente para a cidade de Cartago, de onde eram naturais, para ali residirem. E assim percorreram uma parte da Itália para tomar um navio em Óstia, pequeno porto perto de Roma, e de lá iam seguir para a África.
     Encontravam-se então numa hospedaria de Óstia, junto a uma janela e começaram a conversar a respeito de Deus e das coisas do Céu, quando os dois tiveram um êxtase.
     Santo Agostinho relata este colóquio extraordinário e é um dos trechos mais famosos das “Confissões”. O trecho é extraído diretamente das “Confissões”:
     Próximo já do dia em que ela ia sair desta vida - dia que Vós conhecíeis e nós ignorávamos – sucedeu, segundo creio, por disposição de Vossos secretos desígnios, que nos encontrássemos sozinhos, ela e eu, apoiados a uma janela cuja vista dava para o jardim da casa onde morávamos. Era em Óstia, na foz do Tibre, onde, apartados da multidão, após o cansaço duma longa viagem, retemperávamos as forças para nos embarcarmos.
     Falávamos a sós, muito docemente, esquecendo o passado e dilatando-nos para o futuro. Na presença da Verdade, que sois Vós, alvitrávamos qual seria a vida eterna dos santos, que 'nunca os olhos viram, nunca o ouvido ouviu, nem o coração do homem imaginou'.
     Sim, os lábios do nosso coração abriam-se ansiosos para a corrente celeste da nossa fonte, a fonte da Vida, que está em Vós, para que aspergidos segundo a nossa capacidade, pudéssemos de algum modo pensar num assunto tão transcendente.
     Encaminhamos a conversa até a conclusão de que as delícias dos sentidos do corpo, por maiores que sejam e por mais brilhante que seja o resplendor sensível que as cerca, não são dignas de comparar-se à felicidade daquela vida, nem mesmo que delas se faça menção. Elevando-nos em afetos mais ardentes por essa felicidade, divagamos gradualmente por todas as coisas corporais até ao próprio céu, donde o sol, a lua e as estrelas iluminam a terra.
     Subíamos ainda mais em espírito, meditando, falando e admirando as Vossas obras. Chegamos às nossas almas e passamos por elas para atingir essa região de inesgotável abundância, onde apascentais eternamente Israel com o pastio da verdade. Ali a vida é a própria Sabedoria, por Quem tudo foi criado, tudo o que existiu e o que há de existir, sem que ela própria se crie a si mesma, pois existe como sempre foi e como sempre será. Antes, não há nela 'ter sido', nem 'haver de ser', pois simplesmente ‘é’, por ser eterna.
     Enquanto assim falávamos, anelantes pela Sabedoria atingimo-la momentaneamente num vislumbre completo do nosso coração.
     Suspiramos e deixamos lá agarradas as primícias de nosso espírito. Voltamos ao vão ruído dos nossos lábios, onde a palavra começa e acaba. Como poderá esta, meu Deus, comparar-se ao Vosso Verbo, que subsiste por si mesmo, nunca envelhecendo e tudo renovando?
     Dizíamos pois: suponhamos uma alma onde jazem em silêncio a rebelião da carne, as vãs imaginações da terra, da água, do ar e do céu...
     Suponhamos que ela guarde silêncio consigo mesma, que passa para além de si, nem sequer pensando em si; uma alma na qual se calem igualmente os sonhos e as revelações imaginárias, toda a palavra humana, todo o sinal, enfim, tudo o que sucede passageiramente.
     Imaginemos que nessa mesma alma existe o silêncio completo, porque se ainda pode ouvir, todos os seres lhe dizem: ‘Não nos fizemos a nós mesmos, fez-nos O que permanece eternamente’. Se ditas estas palavras os seres emudecerem, porque já escutaram quem os fez, suponhamos então que Ele sozinho fala, não por essas criaturas, mas diretamente, de modo a ouvirmos a sua palavra, não pronunciada por uma língua corpórea, nem por voz de Anjo, nem pelo estrondo do trovão, nem por metáforas enigmáticas, mas já por Ele mesmo.
     Suponhamos que ouvíamos Aquele que amamos nas criaturas, mas sem o intermédio delas, assim como nós acabávamos de experimentar, atingindo num voo de pensamento, a Eterna Sabedoria que permanece imutável sobre todos os seres.
     Se esta contemplação continuasse e se todas as outras visões de ordem muito diferente cessassem, se unicamente esta arrebatasse a alma e a absorvesse, de modo que a vida eterna fosse semelhante a este vislumbre intuitivo - a visão beatifica - pelo qual suspiramos, não seria isto a realização do “entra no gozo do teu Senhor”? E quando sucederá isto? Será quando todos ressuscitarmos? Mas então não seremos todos transformados?
     Ainda que isto, dizíamos, não pelo mesmo modo e por estas palavras, contudo, bem sabeis, Senhor, quanto o mundo e os seus prazeres nos pareciam vis, naquele dia quando assim conversávamos. Minha mãe acrescentou ainda: ‘Meu filho, quanto a mim, já nenhuma coisa me dá gosto nesta vida. Não sei o que faço ainda aqui, nem porque ainda cá esteja, esvanecidas já as esperanças deste mundo. Por um só motivo desejava prolongar um pouco a minha vida: para ver-te cristão e católico, antes de eu morrer. Deus concedeu-me esta graça superabundantemente, pois vejo que já desprezas a felicidade terrena para servirdes ao Senhor. Que faço, eu, pois, aqui?’
     Santa Mônica, nesta visão, teve o prenúncio de sua própria morte, compreendeu que não tinha nada mais para fazer. Quando sentiu que Santo Agostinho estava nas mãos de Deus, não quis perder tempo vendo-o servir a Deus. Poucos dias depois ela morria, ainda estando na cidade de Óstia. Sua missão na terra estava cumprida e Nosso Senhor a chamou ao Céu para gozar do prêmio que merecia.
Morte de Sta. Mônica, por Ottaviano Nelli (séc. XV)

Santa Patrícia de Constantinopla, Virgem - 25 de agosto

    
     Santa Patrícia nasceu em Constantinopla no início do século VII. Filha de família nobre, seu pai era Constante II (668-685), imperador de Constantinopla e descendente de Constantino, o grande, o imperador que decretou o Cristianismo como religião oficial do Império Romano.
     Santa Patrícia foi educada por uma ama de nome Aglaia, que era cristã. Muito cedo fez voto de virgindade. Seu pai, porém, sem saber das intenções da filha, como era costume na época arranjou-lhe um nobre casamento. Patrícia explicou a seu pai suas intenções, que de imediato ele não aceitou. Patrícia então fugiu com Aglaia, e mais algumas amigas que tinham o mesmo ideal, levando parte de seus bens. Ela foi para as ilhas gregas e depois para Nápoles, Itália.
     Em Nápoles ela passou a ajudar as igrejas da cidade com seus bens, não só na decoração com ornamentos dignos, como também com utensílios essenciais para as celebrações litúrgicas. Patrícia também ajudava os conventos que cuidavam dos pobres e conseguiu várias relíquias de santos mártires para que fossem colocadas nos altares das igrejas.
     Patrícia foi para Roma colocar-se sob a proteção do Papa Libério numa possível perseguição por parte de seu pai; das mãos deste papa ela recebeu o véu, símbolo de consagração a Deus.
     Após o falecimento de seu pai, Patrícia voltou para sua terra natal com Aglaia e suas amigas. Ela então renunciou oficialmente à sua herança e à coroa, e distribuiu seus bens aos pobres. Depois, ela intentou ir em peregrinação à Terra Santa, mas o navio que a levava enfrentou ventos contrários que o fez atracar no litoral de Nápoles. Patrícia, bem como algumas de suas companheiras, foi arremetida à Ilha de Megaride, também conhecida como Castel dell’Ovo, onde havia um pequeno convento. Ali ela foi socorrida e acolhida elas Irmãs. Ela entretanto estava muito ferida devido ao naufrágio.
     Santa Patrícia faleceu pouco tempo depois no convento de Megaride. A fiel serva Aglaia organizou o funeral com a participação de muita gente, inclusive do bispo e do nobre da cidade.
     Como Patrícia havia gostado muito de Nápoles, tinha indicado o local onde gostaria de ser sepultada, isto é, diante do Mosteiro das Irmãs basilianas, dedicado aos santos Nicandro e Marciano. Ali ficaram suas relíquias e posteriormente o convento passou a ser chamado das Irmãs Patricianas, ou de Santa Patrícia.
     O povo napolitano passou a difundir o seu culta tornando-se ela padroeira da cidade junto com São Genaro.
     Ela foi canonizada em 1625, e em 1864, devido acontecimentos históricos e políticos, as relíquias da Santa, revestidas de cera e colocadas em uma urna feita de ouro, prata e adornada com pedras preciosas, foram transladadas para o Mosteiro de São Gregório Armênio, onde foram depositadas na capela lateral da monumental igreja do mosteiro.
     A população sempre venerou a Santa, assistindo estupefata o prodígio da liquefação do sangue que emana de um dente conservado em um relicário. Durante vários séculos a liquefação do sangue ocorreu de várias formas e em tempos diferentes. Este milagre é menos conhecido do que a liquefação do sangue de São Genaro, patrono principal da cidade de Nápoles.
     Seu culto é celebrado no dia 25 de agosto.
     Santa Patrícia nos dá o exemplo da perseverança, do respeito aos templos, ao culto e aos objetos sagrados. Ao renunciar à coroa e distribuir seus bens aos pobres, ela nos mostra onde está a verdadeira felicidade e nos faz lembrar que os bens deste mundo são passageiros e não valem nada em vista da felicidade verdadeira que Nosso Senhor Jesus Cristo reservou àqueles que o seguem.

Etimologia: Patrícia = do latim, “de nobre descendência”.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Santa Joana Antida Thouret - 24 de agosto

   
    “Minha filha, aqui é a vontade de Deus! Ele quer você na França. Os jovens ignorantes abandonados estão esperando por você. Vá, portanto, como uma filha generosa de São Vicente de Paulo e evangelize os pobres”, disse um eremita à jovem Joana Antida Thouret.
     Joana Antida Thouret nasceu em Sancey-le-Long, próxima de Besançon, na França, no dia 27 de novembro de 1765. Francisco e Cláudia eram seus pais, tiveram cinco filhos sendo ela a primeira. Joana, de natureza melancólica, tinha uma saúde delicada, um caráter gentil e era muito caridosa. Desde cedo aspirava a uma vida de comunhão com Deus. A família simples, dedicada a vida rural, sempre foi voltada para a fé cristã.
     Quando aos dezesseis anos sua mãe faleceu, Joana ficou tão abalada que só encontrou amparo na imensa devoção que dedicava à Virgem Maria. A partir de então ela teve de assumir as responsabilidades da casa e da família, da qual cuidou com muito amor e determinação. Mas o apelo de Deus ao seu coração era muito forte e aos 22 anos, com o consentimento do pai, ela ingressou no noviciado do Convento das Irmãs da Caridade de São Vicente de Paulo, indo para Langres e depois para Paris.
     Naquela época era normal a noviça ser submetida aos trabalhos pesados da comunidade. Assim foi com Joana que, em função da mudança de clima e do grande esforço físico, acabou adoecendo gravemente. Temendo ser enviada de volta para a casa paterna, rezou muito pedindo a Deus para cura-la. Foi atendida através de uma dedicada enfermeira que a tratou com medicação especial. Em 1788 recebeu o hábito religioso das vicentinas.
     Nesta época, a Revolução Francesa espalhava morte e terror, levando muitos religiosos, leigos e sacerdotes à condenação e à morte pela guilhotina. Em 1795 Joana e suas companheiras foram para a Suíça, mas em 1797 ela retornou a sua cidade natal. Em 1799 fundou em Besançon uma escola gratuita para meninas, onde funcionava também o atendimento aos pobres. Algum tempo depois abre uma nova escola e uma farmácia. Entretanto os revolucionários a descobriram e teve de se esconder por dois anos.
     Em 1799 pôde retornar e junto com quatro religiosas fundou outra escola com farmácia, formando o primeiro núcleo do Instituto das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo. Em 1802 escreveu as regras e em 1807 fundou o Instituto das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo. 
     Logo as discípulas de Joana Antida aumentaram e a nova congregação se expandiu pela França, Suíça, Saboia e Nápoles. Nesta cidade, em 1810, Joana assumiu a direção de um grande hospital. A Santa passou a última etapa de sua vida em Nápoles, onde empreendeu intensa atividade abrindo muitos institutos, desenvolvendo assim sua congregação.
      Em 23 de julho de 1819 as regras do Instituto são aprovadas pelo Papa Pio VII.
     Joana continuou a empreender vigorosos esforços na fundação de novas casas até que no dia 24 de agosto de 1826 faleceu no convento de Nápoles rodeada por suas religiosas.
     Foi beatificada em 23 de maio de 1926 pelo Papa Pio XI e canonizada também por ele em 14 de janeiro de 1934, tendo sido indicada sua celebração para o dia de sua morte.

Basílica de Sta. Joana Antide Thouret em sua cidade natal.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Beata Paula Montaldi, Virgem - 18 de agosto



Virgem religiosa da Segunda Ordem (1443-1514)


     Nascida em 1443, com 15 anos entrou no mosteiro das Irmãs Clarissas de Santa Luzia, Mântua, onde foi abadessa durante muitos anos. A Paixão de Jesus era para ela o assunto mais frequente das conversas, bem como das meditações e contemplações. Foi também singularmente devota da Eucaristia. Levava uma vida austera, com cilícios, flagelações e jejuns, e sentia-se feliz nas humilhações, fadigas e trabalhos.
     No relacionamento com as Irmãs mostrava-se cheia de caridade e sempre pronta a ajudá-las em qualquer necessidade. Sob a sua direção o mosteiro de Santa Luzia ganhou fama pelas numerosas vocações e pela vida seráfica das religiosas.
     Em agradecimento ao Senhor pelos favores por Ele concedidos, costumava repetir esta oração: “Meu Deus, eu te amo de todo o coração, com um amor sem medida, e nunca deixarei de cantar os teus louvores”.
     Nos 56 anos de vida religiosa, nunca causou qualquer desgosto às Irmãs. Como superiora, procurou não apenas o bem espiritual das religiosas, mas também o bem material da comunidade, convencida de que não pode haver perfeita observância da regra se falta o indispensável para a vida. No jardim mandou abrir um poço, que veio a chamar-se o “Poço da Beata Paula”, a cuja água se tem atribuído propriedades curativas.
     Era grande a sua confiança em Deus. Amiúde repetia a expressão de São Paulo: “Sei em quem confio!”. Era às vezes arrebatada em êxtase, e outras vezes ouviram-se coros angélicos a cantarem junto ao sacrário. Escreveu vários opúsculos, em especial sobre o nome de Jesus, que lamentavelmente se perderam.
     Um dia, estando a orar em êxtase diante dum crucifixo situado ao cimo dumas escadas, foi atacada pelo demônio, que a lançou por terra. Socorrida pelas irmãs, foi reclinada num enxergão. Eram os seus últimos dias e as suas últimas palavras. Exausta pelas prolongadas vigílias, pelos rigorosos jejuns e outras ásperas penitências, assistida pelo seu confessor e pelas Irmãs, apertando contra o coração o crucifixo repetia mais uma vez a sua jaculatória predileta “Paixão de Cristo, Sangue de Cristo, misericórdia!”, expirou serenamente no dia 18 de agosto de 1514. Tinha 71 anos, 56 dos quais passados no mosteiro.
     Seu culto foi aprovado por Pio IX em 6 de setembro de 1876.

Fonte: “Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Beata Hugolina de Vercelli, Virgem e eremita - 16 de agosto

    
     Hugolina nasceu em Vercelli no seio da nobre e poderosa família De Cassami (ou De Cassinis, segundo estudos recentes). Era filha única e bem cedo se destacou por sua prática da caridade ao próximo, a oração constante, a perfeita adesão aos ensinamentos transmitidos por sua piedosa mãe.
     A jovem tinha um amor especial pelos peregrinos, que naquele tempo eram numerosos. Quando ficava sabendo que a meta era a Terra Santa, lhes dava dinheiro para a viagem.
     Aos 14 anos, ao morrer sua mãe, seu pai quis seduzi-la, mas graças a sua oração conseguiu guiar seu pai na senda correta. De qualquer forma, o equilíbrio familiar ficou prejudicado e Hugolina confiou à uma senhora de nome Libera seu desejo de servir ao Senhor na oração, vivendo retirada do mundo. Esta senhora lhe disse que meditasse sobre sua decisão e que esperasse um sinal do céu.
     Quando seu pai se encontrava em viagem a Turim, Hugolina fugiu de sua casa disfarçada de homem. Chegou a um bosque, distante uma milha da cidade, no local onde havia uma capela de Santa Maria de Belém. Um ermitão de nome São Favorino, regressando da Terra Santa, construíra aquele local para ali viver santamente. A cela que ele ocupara ao lado da capela estava vazia e Hugolina resolveu que aquele seria o local de seu retiro.
     Durante 47 anos, tomando o nome de Hugo, ela ali viveu com o estritamente necessário, em oração, em intensos colóquios com Deus e penitências para combater as tentações, que não lhe faltaram.
     A capela se tornou um ponto de referência para toda a região, local de oração, de conselho para pessoas de diferentes classes sociais. Hugolina se comunicava, sem mostrar seu rosto, através de uma pequena janela. Somente seu confessor, o padre dominicano Valentino, e sua confidente, Libera, sabiam de sua identidade.
     Após muitos anos, suas forças físicas começaram a declinar, dores de estomago e febres levaram-na ao leito. Uns dias antes de sua morte, chamou o Padre Valentino (que seria seu biógrafo*), fez uma confissão geral e recebeu o Viático. Faleceu no dia 16 de agosto de 1300.
     A notícia de sua morte rapidamente se difundiu na cidade. O Bispo, Mons. Aimone de Challant, que estava a par de toda a história de Hugolina, revelada a ele pelo Padre Valentino, em procissão solene com o clero e o povo vai prestar-lhe homenagem. Ugolina repousava na paz do Senhor num pobre leito de palhas, com o Crucifixo, que tinha nas mãos, apoiado nos lábios. Comovido, o bispo ajoelhou-se e beijou suas mãos. Todo o povo desfilou diante dos seus despojos, ficando então sabendo que ela era a filha do rico De Cassami.
     De acordo com seu desejo, Hugolina foi sepultada em sua cela, posteriormente foi transladada para a igreja. Seu túmulo se tornou meta de peregrinações e local onde se produziam muitos milagres.
     Em 1453 os franciscanos erigiram ao lado da igreja um importante convento, chamado de Santa Maria de Belém, perdurando a devoção a Beata.
     A relíquia do crânio foi autenticada pelo bispo Mons. d’Angennes em 26 de junho de 1832. Por ocasião das supressões napoleônicas das ordens religiosas esta relíquia ficou em poder de uma pessoa piedosa, para depois ser finalmente recolocada na igreja.

* Esta importante obra foi citada pelo franciscano Luís da Cruz, que escreveu a biografia mais antiga desta Beata.

Etimologia: Hugolino (a) adaptação do italiano Ugolino (a), derivado de Hugo.
Hugo, abreviação do alto alemão antigo de Hugubert: “brilhante (bert) no pensar, na mente (hugu).

Fonte: www.santiebeati.it 

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A Glória extraordinária da Assunção de Nossa Senhora - 15 de agosto


    


     Embora a Assunção (em latim: assūmptiō - "elevado") tenha sido definida em tempos relativamente recentes como um dogma infalível pela Igreja Católica, a própria Igreja interpreta o capítulo 12 do Apocalipse como fazendo referência ao evento.
     A mais antiga narrativa é o chamado Liber Requiei Mariae ("O Livro do Repouso de Maria"), que sobrevive intacto apenas em uma tradução etíope. Provavelmente composta no início do século IV, esta narrativa apócrifa cristã pode ser do início do século III. Também muito primitivas são as diferentes tradições dos "Narrativas da Dormição dos 'Seis Livros'". As versões mais antigas deste apócrifo foram preservadas em diversos manuscritos em siríaco dos séculos V e VI, embora o texto em si seja provavelmente do século IV.
     A Assunção também aparece no De Transitu Virginis, uma obra do final do século V atribuída a São Melito que preserva uma versão teologicamente editada das tradições presentes no Liber Requiei Mariae.
     De Transitus Mariae conta a história de como os Apóstolos teriam sido transportados por nuvens brancas até o leito de morte de Maria, cada um vindo da cidade em que estava pregando no momento.
     Uma carta em armênio atribuída a São Dionísio, o Areopagita, também menciona o evento, embora seja uma obra muito posterior, escrita em algum momento do século VI. São João Damasceno é a primeira autoridade eclesiástica de sua época a advogar a doutrina pessoalmente (e não na forma de obras anônimas). Seus contemporâneos, São Gregório de Tours e Modesto de Jerusalém, ajudaram a promover o conceito por toda a Igreja.
     Em algumas versões da história, o evento teria ocorrido em Éfeso, na Casa da Virgem Maria, embora esta seja uma tradição muito mais recente e localizada. As mais antigas apontam que o fim da vida da Virgem Maria se deu em Jerusalém. Pelo século VII, uma variação apareceu, que conta que um dos apóstolos, geralmente identificado como sendo São Tomé, não estava presente na morte de Maria Ssma., mas sua chegada atrasada teria provocado uma reabertura do túmulo da Virgem, que então se descobriu estar vazio, com exceção de suas mortalhas. A Virgem Maria teria lançado do céu sua cinta para o apóstolo como uma prova do evento. Este incidente aparece muitas vezes nas pinturas sobre a Assunção.
     A doutrina da Assunção de Maria se tornou amplamente conhecida no mundo cristão, tendo sido celebrada já no início do século V e já estava consolidada no Oriente por volta de 600. O evento era celebrado no Ocidente na época do Papa Sérgio I no século VIII e foi confirmada como oficial pelo Papa Leão VI. O debate teológico sobre a Assunção continuou depois da Pseudo Reforma Protestante e atingiu um clímax em 1950, quando o papa Pio XII o definiu como dogma para os católicos.

Definição dogmática

     Em 1º de novembro de 1950, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, o Papa Pio XII declarou a Assunção da Virgem Maria como um dogma:
     “Pela autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e em nossa própria autoridade, pronunciamos, declaramos e definimos como sendo um dogma revelado por Deus: que a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, tendo completado o curso de sua vida terrena, foi assumida, corpo e alma, na glória celeste”.
     Desde a declaração solene da infalibilidade papal pelo Concílio Vaticano 1º, em 1870, esta declaração de Pio XII foi a única vez que um papa fez uso ex cathedra da prerrogativa. Pio XII deliberadamente deixou em aberto a questão se Maria teria ou não morrido antes da Assunção.
     Antes da definição dogmática, em Deiparae Virginis Mariae, Pio XII buscou a opinião dos bispos católicos e um grande número deles apontou para o Gênesis (Gen 3:15) como um suporte escritural para o dogma. Em Munificentissimus Deus (item 39), Pio XII faz referência à "luta contra o inimigo infernal" como neste versículo e a "vitória completa sobre o pecado e a morte", como em I Coríntios (I Coríntios 15:54).
*
     “À medida que Ela ia subindo, com certeza, como numa verdadeira transfiguração, como num verdadeiro Monte Tabor, a glória interior dEla ia transparecendo aos olhos dos homens. Falando dEla diz o Antigo Testamento: omnis glória filia regis ab intos - toda [a] glória da filha do rei lhe vem de dentro, daquilo que está dentro dEla. E com certeza essa glória interna que Ela tinha se manifestou do modo mais estupendo quando, já no alto de sua trajetória celeste, Ela olhou uma última vez para os homens, antes de definitivamente deixar esse vale de lágrimas e ingressar diante da glória de Deus”.
     (Conf. SD de 10/8/1968, por Plinio Corrêa de Oliveira)

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Agnès de La Barre de Nanteuil - 13 de agosto

(continuação)

    Mas Agnès quer fazer mais pelo seu país. Com 20 anos ela é recrutada como agente de ligação: com sua velha bicicleta, sob as barbas dos alemães e dos colaboradores, ela percorre as estradas da Bretanha para encontrar os agentes e transmitir as instruções dos líderes da rede. As cartas que ela leva, com risco de sua vida, estão escondidas no guidão de sua bicicleta, no revestimento de suas roupas, em seus sapatos. Ao mesmo tempo, com ar de quem não quer nada, ela dá aulas de inglês, leva as crianças para jogar no campo de Vannes, sai com as amigas e, como a mais velha da casa, ajuda a mãe nos trabalhos domésticos: "Sempre a alegria, a paz, a irradiação onde quer que ela chegue", escreveu dela seu primo Raul de Vitton. Seus amigos não suspeitam de nada.
     Mas, em março de 1944, ela foi denunciada, presa, torturada pela Gestapo e encarcerada em Rennes. Embora torturada, ela nada revelou por muitos dias, para dar aos seus companheiros combatentes tempo para se esconder. Ela encontra na prisão sua irmã Catarina, também resistente.
     No início de agosto, quando os norte-americanos estão às portas de Rennes, a prisão é evacuada e todos os prisioneiros são deportados para a Alemanha. Nesse comboio de 2.000 pessoas, durante um ataque de caças aliados na região de Langeais, Agnès foi ferida por um soldado alemão. Gravemente ferida no estômago, ela foi colocada de volta no vagão do trem quase destruído e foi sacudindo de estação a estação no caminho para St-Pierre-des-Corps (Indre-et-Loire) e Paray-le-Monial (Saône-et-Loire), onde o ferimento foi finalmente cuidado, a despeito da oposição da SS.
     Ela foi então colocada numa maca e em um vagão de carga quente e sem água. Ela sobreviveu por mais três dias sem reclamar. Segundo o testemunho das 35 prisioneiras presentes nas suas três horas de agonia, no vagão que as levaria à deportação, Agnès sofreu atrozmente: no ferimento mal cuidado se havia instalado uma gangrena. Mas de seus lábios não se ouve nenhuma lamentação, apenas palavras de encorajamento.
Vagão das deportações
     Esta jovem “tão bela, tão loira, tão jovem e tão corajosa” lhes fala de sua família, de seu Deus e só pede a elas para rezarem o terço junto dela. Com frequência elas a ouvem murmurar: “Ave Maria, perdoai-os”. “E ela morreu sob nossos olhos, calmamente, heroicamente, seu rosto iluminado”. No início da guerra ela havia escrito ao seu pai espiritual: “Eu creio que morrer jovem é uma grande graça que o Bom Deus concede, eu desejaria tanto de ser digna logo. Ó não vos inquieteis, não é que eu esteja farta de viver, longe disto! Mas ver o Bom Deus face a face, que perspectiva!”
     Ela morreu com a idade de 22 anos, no dia 13 de agosto de 1944, na estação de trem de Paray-le-Monial, mas antes de expirar ela pode ditar uma última mensagem para sua família: "Eu dou a minha vida ao meu Deus e ao meu país... fui traída, mas eu perdoei...".
     Seus companheiros de infortúnio, alguns deles membros da Juventude Comunista, rezam e fazem uma vigília por ela, "uma santa com um rosto bonito", como eles diziam, antes de entregar o seu corpo para as autoridades civis de Paray-le-Monial. A Cruz Vermelha enterrou-a temporariamente naquela cidade, na presença de guias escoteiros e líderes, que foram informados de sua morte.
     De uma família profundamente católica, Agnès de Nanteuil é certamente uma digna "mulher forte do Evangelho". A religião é o motor de sua vida, uma vida que ela ofereceu por seu país e pelo próximo. Até o fim ela reza e perdoa os franceses que a denunciaram, o alemão que a ferira, aqueles que a torturaram. No último vagão, deitada em sua maca, as jovens comunistas acompanham-na em seus últimos momentos e rezam com ela o Rosário.
-.-
     Em 1947, Charles de Gaulle condecorou-a postumamente com a Medalha da Resistência. Em 1951, ela recebeu a Legião de Honra. Sua mãe e seus outros irmãos também foram condecorados pela França, Estados Unidos e Reino Unido. Na Bretanha várias ruas levam o seu nome e várias unidades de escoteiros também, mas nenhuma escola pública, porque ela não era comunista ou membro ateu da Resistência.
     Em 2002, Agnès foi nomeada patrona da 26ª turma da Escola Militar de Saint-Cyr-Coëtquidan. Com Santa Joana d'Arc, ela é a única mulher a ser honrada desta maneira pela prestigiada Academia Militar.
Escola Militar de Saint-Cyr-Coëtquidam
Fontes:
1. (*) Christophe Carichon, Agnès de Nanteuil (1922-1944), Artège 18 €. Sobre o Autor: Casado e com cinco filhos, é professor de história na escola de Anjou e pesquisador associado ao Centro de Pesquisa bretão e celta (Universidade de Brest). Historiador especializado na história dos movimentos de juventude e história religiosa, ele é autor de dezenas de artigos e livros sobre esses assuntos.
2. Reproduzido com a permissão de Paul Vegliò. Traduzido por Nobility.org a partir do original francês, que foi publicado em 23 de fevereiro de 2014, no Boulevard Voltaire.