segunda-feira, 29 de maio de 2017

Visitação da Bem-aventurada Virgem Maria - 31 de maio

     
     Na Festa da Visitação de Nossa Senhora, o segundo mistério gozoso do Rosário, também a Festa do 'Magnificat', se estende e expande a alegria messiânica da salvação. Maria, Arca da Nova Aliança, é recebida por Isabel como a Mãe do Senhor. A Visitação é o encontro entre a jovem mãe, Maria, a serva do Senhor, e o antigo símbolo de Israel expectante, Isabel. A solicitude amorosa de Maria, com a sua viagem apressada, expressa o ato de caridade. João, que pulou no ventre de sua mãe, já começa sua missão precursora. O calendário litúrgico leva em conta a narrativa do Evangelho que coloca a visitação dentro dos três meses da Anunciação e o nascimento de João Batista. (M. Rom.)
     Logo após a Anunciação, Maria Santíssima parte imediatamente para Hebron, ao sul de Jerusalém, para visitar sua prima Santa Isabel e o marido dela, Zacarias. Os católicos creem que o objetivo desta visita foi levar a graça divina para Isabel e para o seu filho ainda não nascido, João Batista. Creem ainda que o fato de João ter estremecido no ventre de Santa Isabel quando Maria a cumprimentou é sinal de que ele reconheceu a presença de Jesus e, neste instante, foi purificado do pecado original e preenchido com a graça divina. O diálogo travado entre as duas, como preservado no texto de São Lucas se tornou parte da oração da Ave Maria quando Isabel diz «Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre» (Lucas 1:42).
     Esta festa tem origem medieval, já sendo celebrada pela Ordem dos Franciscanos antes de 1263, quando São Boaventura a recomendou e eles a adotaram. A partir do breviário da Ordem, ela se espalhou para muitas outras igrejas. Em 1389, o Papa Urbano VI, com o objetivo de terminar o Grande Cisma do Ocidente, a inseriu no calendário romano, para celebração em 2 de julho. No calendário tridentino era uma festa dupla. Quando o missal do Papa Pio V foi substituído pelo de Clemente VIII em 1604, a Visitação se tornou uma festa dupla de segunda classe. Ela permaneceu assim até que o Papa João XXIII a reclassificou como uma festa de segunda classe em 1962. Ela continuou a ser comemorada no dia 2 de julho, o dia depois da oitava seguinte à festa do nascimento de João Batista, que estava ainda no ventre de Isabel na época da Visitação. Em 1969, porém, o Papa Paulo VI a moveu para 31 de maio, "entre a Solenidade da Anunciação do Senhor (25 de março) e a do Nascimento de João Batista (24 de junho), para que ela se harmonize melhor com o relato do Evangelho.

O Evangelho (Lucas 1,39-56)
     Naqueles dias, levantando-se Maria foi com pressa às montanhas, à uma cidade de Judá. E entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. E aconteceu que, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz e disse: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! E donde a mim esta dita, que a mãe do meu Senhor venha ter comigo? Porque logo que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino exultou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada tu que creste, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!” Maria então disse:

“A minha alma glorifica o Senhor,
e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos em sua humilde serva.
Por isso todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes maravilhas obrou comigo o Onipotente, cujo nome é santo. 
Cuja misericórdia se estende de geração em geração
em todos os que o temem.
Ele mostrou o poder de seu braço: 
transtorna os desígnios dos soberbos.
Derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes.
Enche de bens os necessitados e os ricos deixa vazios.
Acolheu Israel, seu povo, lembrando-se de sua misericórdia, 
Para cumprir a promessa que fez aos nossos pais,
Abraão e a todos os seus descendentes. 

     Maria ficou três meses com Isabel. Depois, voltou para sua casa


Ain Karem – Visitação
     Entre as igrejas de S. João e da Visitação, encontra-se uma fonte chamada pelos peregrinos do século XVI de “Fonte da Virgem”. Segundo uma tradição, naquele lugar Maria teria encontrado sua prima Isabel e entoado um hino de louvor, o Magnificat: canto de gratidão a Deus.

A tradição Cristã
     A visita da Virgem Maria a Isabel é situada pela primeira vez num lugar diferente da natividade de S. João, já nos inícios do século XVI: “A casa de Zacarias se encontra sobre as montanhas da Judéia... Naquele lugar existem duas igrejas... e entre estas igrejas jorra uma fonte abundante de águas. No lugar da primeira igreja se diz que Isabel foi saudada pela Bem-Aventurada Virgem Maria. Se diz também que no mesmo lugar foi escondido o bem-aventurado João Batista no tempo do massacre dos inocentes. No lugar onde se encontra a segunda igreja, nasceu João Batista” (Frei Giovanni Fedanzola de Perugia, 1330). 




sexta-feira, 26 de maio de 2017

Santa Ubaldesca Taccini, Virgem da Ordem de Malta - 28 de maio

Martirológio Romano: Em Pisa, da Toscana, Santa Ubaldesca, virgem, que durante cinquenta anos, desde os dezesseis de idade até sua morte, realizou de forma constante e perfeita obras de misericórdia no hospital de sua cidade. (c. 1130-1206).

Santa Ubaldesca Taccini: ela protestou a um anjo que ela não tinha o dote necessário para se juntar à congregação... e esmolava nas ruas de Pisa para manter a Ordem e seus ministérios.

     Santa Ubaldesca Taccini é uma santa que marcou profundamente a vida espiritual de Pisa nos séculos XII e XIII, junto com Santa Bona, São Guido da Gherardesca e São Ranieri.
     Em um período histórico que viu a República Marítima de Pisa dominar o Mediterrâneo e os seus cidadãos gozarem de um determinado padrão de vida, a santa propôs um modelo de vida separada da vida social da cidade e estritamente fiel à mensagem de pobreza e de renúncia pregada por Jesus.
     Nascida em Calcinaia em 1136 de pais de condições humildes, Ubaldesca, filha única, desde jovem mostrava-se humilde e dedicado aos pais e a Jesus. Diligente na prática da oração, muitas vezes acompanhada de jejum, a Santa de Pisa se destacou especialmente pela caridade exercida junto aos pobres.
     Chamada pelo Senhor para ingressar na Ordem de São João de Jerusalém (estabelecida alguns anos antes, em 1099, em Jerusalém, na Igreja de São João Batista sob a regra de Santo Agostinho) aos 15 anos deixou Calcinaia e dirigiu-se à cidade de Pisa, parando na Igreja do Santo Sepulcro (construída no início do século XII pelo arquiteto de Pisa Diotisalvi).
     Durante os 55 anos de vida religiosa, Ubaldesca praticou no mosteiro e no hospital da cidade a humildade e a caridade, mortificando continuamente seu corpo com jejuns intensos e prolongados. A santa realizou milagres já durante sua vida e depois de sua morte ocorrida no dia 28 de maio de 1206, Festa da Santíssima Trindade, as curas extraordinárias ligadas ao seu nome se multiplicaram.
     Atualmente algumas relíquias de Ubaldesca Taccini são encontradas também em Malta, concedidas em 31 de junho de 1587. Sisto V (1585-1590) concedeu a indulgência plenária a quem visitasse a Igreja de Malta no dia 28 de maio.


A propósito de Santa Waldesca e das cruzes patadas de Veguillas (Espanha)
     Há indícios da presença da Ordem dos Templários na Idade Média em zonas próximas a Veguillas (Espanha) como Villel e Tramacastiel, municípios com muitos episódios históricos compartilhados. Santa Waldesca é muito conhecida, bem como a cruz patada.
      Ela na realidade se chamava Santa Ubaldesca Taccini (1136-1206). Seu nome, em grafia no século XVI, era Vvaldesca – o U e o V eram escritos da mesma forma e a troca do b pelo v era um erro de transcrição muito comum – dando origem a denominação usada em Veguilhas.
     Santa Ubaldesca era natural de Pisa (Itália) e foi monja consagrada a serviço dos doentes da Ordem Militar e Hospitalar de São João de Jerusalém, também conhecida como Ordem de Malta, fundada no século XI. Se lhe atribuíam milagres como converter a água em vinho imitando ao Messias, manter o pão durante três dias dentro do forno sem queimar-se e tirar água de um poço seco, resultando que a representação mais comum dela é com um trigo na mão e uma vasilha de vinho ou uvas na outra.
     A Ordem se implantou fortemente em Aragão, Catalunha e Valência (Reino de Aragão na Idade Média), sobretudo no vale do Ebro, desde o século XII. Tinham numerosos conventos, castelos, hospitais e herdades fruto de doações de fiéis e de negócios que exerciam.

     O símbolo da Ordem de São João de Jerusalém é a Cruz de Malta com oito pontas. Esta cruz muitos cavaleiros e ordens religiosas levavam em suas roupagens como símbolo de distinção, vermelha para os templários, branca para os hospitalários e preta para os teutônicos. Cada uma das oito pontas da Cruz de Malta representa uma das oito bem-aventuranças para o ramo religioso: lealdade, piedade, franqueza, coragem, glória e honra, desprezo à morte, ajuda ao pobre e ao doente, e respeito à Santa Igreja.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

A Virgem Iverskaia

Chamou-nos a atenção, enquanto fazíamos uma busca em textos antigos, o conteúdo do artigo que damos a seguir. Há tanta conexão com o Centenário de Fátima, que nos pareceu interessante trazê-lo ao conhecimento dos leitores deste blog. Que a Virgem Ibérica volte a reinar na nação que a profanou!

 Virgem Iverskaia, esperança de conversão da Rússia

     Uma das mais importantes coleções de ícones – pinturas religiosas típicas do Oriente – existentes na Europa, e talvez no mundo, encontra-se na pequena cidade de Torrejón de Ardoz, não longe de Madri. Ali, na antiga granja do Colégio Jesuíta de Santo Isidro, é que o nobre Sérgio Otzoup instalou seu Museu de Ícones.
     Não se sabe ao certo a data da construção do conjunto de edifícios da granja, mas tudo leva a crer que tenha sido nos primeiros anos do século XVII, quando a Companhia de Jesus adquiriu um pedaço de terra em Torrejón, para usá-lo no abastecimento do Colégio Imperial, fundado pela Imperatriz Maria, filha de Carlos V e viúva de Maximiliano I.
     Com a expulsão dos jesuítas da Espanha em 1767, a granja foi adquirida por D. Juan de Aguirre. Em 1805, o extenso imóvel estava em poder da casa dos Pignatelli de Aragão, Condes de Fuentes, muito chegados aos filhos espirituais de Santo Inácio, aos quais devolveram o direito sobre o solar, durante a restauração da Companhia de Jesus no reinado de Fernando VII.
     Expulsos novamente os jesuítas da Espanha no século XIX, volta a granja às mãos dos Condes de Fuentes, permanecendo com eles até 1902. Por fim, restaurada por D. Rafael Onieva Ariza, com toda a magnificência atual, foi ela destinada para fins culturais, recebendo o nome de La Casa Grande.
* * *
     Se percorrermos as dependências de La Casa Grande, e penetrarmos no Museu de Ícones, uma pintura da Mãe de Deus chama especialmente a atenção: a Virgem Iverskaia ou Virgem Ibérica.
     Nela, a Mãe de Deus é representada tendo em seu braço esquerdo o Menino Jesus, com a majestade de quem se assenta em seu trono natural. É em Maria que encontra Jesus suas complacências. A Virgem, ao mesmo tempo que sustém com todo cuidado e proteção o Menino Deus, com o braço direito indica ao fiel ser Ele o modelo de todas as perfeições e o Juiz supremo de todas as causas. Como Medianeira Universal de todas as graças que é, seu terno olhar volta-se para cada devoto que se apresenta a seus pés invocando sua intercessão e confiando em seu amparo.
     A harmonia, a doçura que se desprendem da pintura – toda feita de cores em que predominam o vermelho e o dourado, mas suaves e matizadas – são contrariadas violentamente ao observarmos nela alguns furos ocasionados por balas de fuzil. Percebem-se marcas claríssimas de fuzilamento, tanto no rosto da Mãe quanto no do Filho!
     Esse fato tão insólito encontra sua explicação em passado ainda recente. Sua data? 13 de maio de 1917!
     Sim. Enquanto em Fátima Nossa Senhora aparecia pela primeira vez, dando início a uma série de manifestações em que profetizava a expansão dos erros da Rússia pelo mundo inteiro, como açoite pelos pecados do gênero humano, e prometia o triunfo final de Seu Coração Imaculado, em Moscou, essa profanação era cometida durante os distúrbios que precederam à revolução bolchevista.
* * *
     Infelizmente, como se sabe, com o cisma do Oriente, pequeno foi o número dos fiéis que, no Império dos Czares, continuaram a manter sua fidelidade ao trono de São Pedro. Um belo exemplo do que restou dessa união com a Cátedra da Verdade deu-se no jubileu de São Pio X, quando uma delegação de católicos russos presenteou o Santo Pontífice com um ícone da Mãe de Deus, justamente sob a invocação de Virgem Iverskaia. De onde, tudo leva a crer que esse culto a Nossa Senhora é anterior à ruptura daquela nação com Roma. Tendo até, quem sabe, um significado auspicioso para a conversão da Rússia, anunciada na Mensagem de Fatima.
     Dentro do cisma, a Virgem Santíssima continuou ainda a ser cultuada – se bem que fora da verdadeira Igreja de Cristo – em muitíssimos santuários, e por meio de vários ícones espalhados por todo aquele vasto território.  Entre estes, destacava-se o da Virgem Ibérica, que é padroeira de Moscou, e cujo nome tinha sua origem na Ibéria, região do sul da Rússia, na zona do Cáucaso. Esta pintura de Maria ficava exposta numa pequena capela na entrada do Kremlin. Segundo prospectos e cartões do museu de Torrejón de Ardoz, esse ícone teria sido pintado no século XVI.
     Deposto o Czar, durante a efêmera regência do Príncipe Lvov, sob o governo de Kerensky, a capela de tal forma foi destruída naquele dia 13 de maio do ano da Revolução comunista, que dela não restou pedra sobre pedra. O ícone da Virgem Iverskaia foi fuzilado e consta que chorou ao ser profanado! Considerada perdida durante esses meses que antecederam a revolução bolchevista, a pintura da Mãe de Deus pode ser conservada juntamente com outros tantos ícones, graças a Sérgio Otzoup, que em dezembro de 1918 conseguiu retirá-los da Rússia.
     Hoje, exposta no Museu de Ícones de La Casa Grande, a Virgem Iverskaia – profanada por ódio à Religião – permanece como sinal de esperança, sobretudo para a Rússia e também para o mundo, da nova era prometida por Nossa Senhora em Fátima, e profetizada por São Luís Maria Grignion de Montfort – o extraordinário missionário francês do século XVII – como sendo o Reino de Maria!


Fonte: Revista Catolicismo, maio de 1986

Auxilium Christianorum, ora pro nobis!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Nossa Senhora de Quercioli – 24 de maio

   
     O Santuário de Quercioli está localizado a cem metros da estação de Massa Carrara-Pontremoli, na Toscana, Itália, e é dedicado a "Maria, Auxílio dos Cristãos". Ali é venerado um afresco antigo que representa a Virgem Mãe com o Menino e Santo Antônio de Pádua em oração. A pintura data de meados do século XVIII. Domenico Nocchi tinha mandado pintá-la na parede de sua casa em 1754. Por ocasião de sua morte, a casa foi vendida e mais tarde foi completamente abandonada, e a imagem sagrada foi coberto de sarças.
      Em 19 de setembro de 1831, três mulheres foram dar um passeio naquela localidade, e ficaram impressionadas com aquela bela imagem sorridente e, nos primeiros dias de março do ano seguinte, uma das três mulheres levou àquele local uma sobrinha muito doente que, após a oração, foi repentinamente curada. O culto à imagem começou na segunda-feira de Páscoa de 1832, quando a notícia do milagre se propagou. Imediatamente se pensou em erguer uma igreja no local, a qual foi concluída no ano seguinte.
     Em 25 de maio de 1835, houve um outro milagre: José Bertozzi, soldado do exército ducal, cego, recuperou a visão depois de ter rezado a Nossa Senhora de Quercioli.
     Em 1909, o santuário foi entregue à direção dos Frades Capuchinhos da Província religiosa de Lucca, que ainda prestam o serviço religioso no Santuário. Em 1932, quando era Reitor do Santuário o padre capuchinho Dionísio Cantarelli, o templo foi ampliado.
     Em 1946, o Santuário foi elevado à paróquia e a imagem foi solenemente coroada no dia 6 de junho de 1948. Em 1973 grandes restaurações foram iniciadas.
     A primeira igreja tinha o formato de uma cruz grega, com uma cúpula majestosa projetada pelo arquiteto José Marchelli de Modena; um século mais tarde, a igreja foi transformada em cruz latina. O milagre do soldado, pintado no arco principal, foi executado em 1932 pelo pintor Oreste Bontemps, de Massa. É a versão de uma pequena pintura a óleo feita em madeira deixada no Santuário de Quercioli em memória do milagre. Há no santuário uma pintura em têmpera, realizada por um artista desconhecido, descrevendo Nossa Senhora com os emblemas da Imaculada Conceição, Santa Maria Madalena, Santa Catarina virgem e mártir, e alguns anjos. Este quadro foi trazido do convento dos frades capuchinhos de Massa e deve ter sido feito por volta no final do século XVI e início do século XVII.
     O edifício harmônico mantém alguns paramentos sagrados e um estrado de madeira do século XVI, representando o Pai Eterno com anjos, atribuído à escola de Ghirlandaio.


Interior do Santuário

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Beata Humiliana Cerchi, Viúva e Terciária Franciscana - 19 de maio

Martirológio Romano: Em Florença, Beata Humiliana, da Ordem Terceira de São Francisco, que suportou com paciência e mansidão muitos maus tratos do esposo e, tendo enviuvado, se dedicou inteiramente à oração e às obras de caridade (†: 1246).


     Os Cerchi, guelfos da parte branca, eram uma família ilustre: um irmão de Humiliana ocupou cargos públicos importantes. Era época de lutas infinitas, mesmo dentro das muralhas da cidade. O vizinho podia ser um inimigo e, portanto, cada casa rica tinha a sua torre. Os guelfos eram leais ao Papa e os gibelinos ao imperador alemão. Na verdade, mais do que por motivos políticos se lutava por motivos econômicos; ricos comerciantes e nobres que disputam o poder. Em Florença, as lutas começaram com a morte de Buondelmonte, no domingo de Páscoa de 1215.
     Naquele período turbulento o espírito evangélico deu origem a novas plantas dentro da Igreja, pensamos nos franciscanos e nos dominicanos. São Francisco morreu quando Humiliana tinha sete anos. A notícia causou um rebuliço mesmo em Florença, que ele tinha visitado muitas vezes, e certamente chegou aos ouvidos de Humiliana.
     Humiliana nasceu em Florença em 1219, filha de Olivério Cerchi. Por perder a mãe quando era ainda criança, foi educada pela madrasta Ermelina, consanguínea de São Filipe.
     Conhecemos pouco de sua infância, mas podemos imaginá-la bastante normal. As mulheres eram sujeitas a muitas limitações, eram submissas ao pai ou ao marido, tinha que respeitar as regras sociais, mesmo nas roupas. Aos quinze anos de idade, em obediência ao seu pai, ela se casou com Bonaguisi, um tecelão tão rico quanto ganancioso e rude, provavelmente usurário. O pai havia colocado bem as outras filhas, por exemplo, as uniões com os Adimari e os Donati. O casamento de Humiliana foi, portanto, um acordo econômico entre duas famílias ricas (o dote esponsal era um verdadeiro contrato), sendo completamente insignificantes as suas aspirações. A jovem noiva sofreu acima de tudo pelas iniquidades e má conduta do cônjuge, e tentou compensar isso com muitas obras de caridade.
     A Providência sempre vem em auxílio dos justos. Humiliana encontrou em sua nova casa uma colaboradora excepcional: a cunhada Ravena. Foi um apoio importante porque, sendo maior idade, tinha o controle da casa e juntas elas chamavam menos atenção. A união foi perfeita. Levantavam-se cedo e iam à Missa (geralmente na vizinha igreja de São Martino), faziam o trabalho doméstico, coordenando os empregados. Elas, então, dedicavam-se às obras de misericórdia. Humiliana geralmente se levantava antes do estabelecido e, enquanto o silêncio envolvia a casa, ela rezava intensamente ao seu Jesus. Ravena testemunhou que Humiliana subtraía da mesa toda a comida que podia para distribuí-la aos pobres, juntamente com sapatos e roupas. Para os doentes, uma vez que ela esvaziou metade do seu colchão. Juntas, elas visitavam o Mosteiro dominicano de Ripoli e o hospital de São Gallo.
     Humiliana também confeccionava paramentos sagrados para as igrejas que visitava, usando escondido os tecidos preciosos que o marido lhe dava: ela tinha uma grande veneração pelo culto divino. Para os pobres intervinha junto aos conhecidos ricos para obter recursos e muitas vezes trabalhava à noite, longe dos olhos das pessoas. Na caridade, a única regra era a de Cristo. Quando foi descoberta, teve que suportar insultos e espancamentos do esposo e até de parentes do marido. Mas Humiliana conhecia a passagem do Evangelho que chama Bem-aventurados os perseguidos por causa do Senhor. Encarnando perfeitamente o ideal franciscano, ela tomou o hábito da Ordem Terceira, na Igreja de Santa Cruz das mãos de Frei Michele Alberti, seu confessor.
     Humiliana teve duas filhas; o casamento durou cinco anos até a morte repentina de seu marido, que morreu com os últimos sacramentos. Os parentes tinham de manter por um ano a viúva que, em seguida, voltou para sua família. Durante este ano ela convidou para sua mesa muitos pobres. O costume cruel do tempo estipulava que as crianças deviam ser deixadas com os parentes do marido (no caso de Humiliana, felizmente, seriam cuidadas por Ravena).
     Viúva com pouco mais de vinte anos, seu pai tentou convencê-la a se casar novamente. Desta vez a negação foi inflexível, ela queria entrar no Mosteiro de Monticelli (fundado por Santa Inês, irmã de Santa Clara). Os planos do Senhor, no entanto, eram diferentes. O seu dote que foi devolvido foi cedido ao seu pai (por um ato oficial!) e não podendo se tornar uma freira, em 1241 pediu e obteve do papa autorização para viver isolada na torre dos Cérchi, próximo da Praça da Senhoria. Privada dolosamente de grande parte dos bens, se alegrou com isso, deu graças a Deus e se dedicou à penitência e a esmola, distribuindo aos pobres o pouco que lhe restava.
     A fiel Gisla era mais do que uma camareira, foi uma companheira. No isolamento de seu quarto, com o essencial, montou um altar para Nossa Senhora. Passava os dias rezando e fazendo penitência, mesmo com cilicio. Jejuava nos dias de festa e nas vigílias, durante a Quaresma e Advento. Em alguns períodos, ela também respeitava o grande silêncio. Ela sofreu muito por causa da impossibilidade de continuar as atividades caritativas. Ela se deu toda a Deus, a castidade da viuvez. Ela vivia como uma reclusa no coração de Florença, entre as pessoas que muitas vezes iam visitá-la (incluindo as filhas). Seu quarto tornou-se uma espécie de centro espiritual; entre outras coisas, a cada Quinta-feira Santa ela lavava os pés de suas irmãs terciárias. A Fé, sua riqueza mais importante, sempre a apoiara em dificuldades e Cristo recompensou consolando-a todos os dias. Não faltaram as vexações diabólicas e as provas espirituais, mas também as visões místicas. Foram muitos os dons com que Deus a agraciou: êxtases, espírito profético e poder taumatúrgico.
     Muitos episódios da sua vida mereceram ser inscritos em florilégios legendários: ser curada duma chaga dolorosa por meio dum sinal da cruz traçado por mão invisível; fazer com que a água substituísse o azeite para alimentar a lamparina do Santíssimo Sacramento; seu Anjo da Guarda a chamava de madrugada para a oração da manhã; padecendo de sede em virtude de uma febre, veio a Virgem Maria dar-lhe de beber; Jesus muitas vezes a alimentou com pão e mudou a água em vinho, e  ressuscitou uma filha morta subitamente. Satanás vinha tentá-la com alucinações e seduções, com imagens sedutoras ou formas repelentes: a firmeza de sua fé defendia-a sempre desses assaltos.
         Ela adoeceu, mas se manteve em silêncio para evitar distúrbios: uniu seus sofrimentos aos de Cristo na Cruz. No dia de sua última Páscoa terrena, ao som dos sinos caiu em êxtase. Ela morreu, assistida apenas pela fiel servidora, no alvorecer de 19 de maio de 1246. Era sábado, o dia dedicado a Maria e Humiliana tinha vinte e sete anos. O funeral foi triunfal dado que já a cercava a fama de santidade. Seus pés foram enfaixados para evitar os excessos das pessoas; ela tinha expressado esse desejo movida pelo senso de pudor que sempre lhe fora tão caro. As pessoas aclamaram-na santa e espontaneamente se dirigiam ao seu túmulo para rezar. Ela foi enterrada em sua igreja favorita de Santa Cruz. No começo, ela foi enterrada no chão, em seguida, por trás de uma parede sob as escadas do púlpito, até que seu irmão Arrigo (que seguira seu exemplo se tornando franciscano), dispôs uma capela no claustro. Hoje suas relíquias são veneradas em uma capela do transepto, em uma urna artística. A humilde beata repousa na basílica que o mundo inteiro conhece por suas obras de arte e porque ali estão sepultados alguns grandes da Itália.
     Sua vida foi escrita em latim pelo Frei Vito de Cortona (do convento de Celle) e pelo confessor Frei Miguel, sendo que os dois a tinham conhecido. Houve uma atenção incomum ao recolher testemunhos: são citadas escrupulosamente trinta e quatro testemunhas, incluindo três cunhadas, uma avó e três empregadas domésticas. Mesmo os milagres (quarenta e sete), que ocorreram nos três anos após a morte, foram registados por Frei Hipólito, do mesmo convento. A biografia foi resumida trezentos anos mais tarde por Raphael Volterrano e pelos Bollandistas. Exemplo de grande e humilde mulher, de filha, de esposa e mãe, nela resplandeceram as virtudes da humildade, da caridade e da obediência. Suas maiores devotas eram as mulheres em necessidade. O seu culto foi aprovado pelo papa Inocêncio XII em 24 de julho de 1694.
Busto relicário da Beata Humiliana



Fonte: www.santiebeati.it Autor: Daniele Bolognini

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Santas Mártires de Ancira e seu devoto, São Teódoto – 18 de maio

Martirológio Romano: Em Ankara, na Galacia, na moderna Turquia, santos mártires Teódoto e as virgens Tecusa, Alessandra, Cláudia, Faina, Eufrásia, Matrona e Julita; estas últimas foram obrigadas pelo governador a serem expostas num lugar infame, permanecendo intactas; depois foram lançadas num lago com pedras amarradas ao pescoço.

     As Atas destes mártires são consideradas autênticas por seu estilo, linguagem e sobretudo por sua antiguidade provada. As cópias mais antigas procedem dos mosteiros de São Sabas (*), onde este martírio era comemorado.
     Em Ancira (atual Ankara, Turquia), durante a perseguição de Diocleciano (284-305), viviam um estalajadeiro chamado Teódoto e sete virgens, todas provectas, chamadas Tecusa, Alessandra, Cláudia, Faina, Eufrásia, Matrona e Julita. O estalajadeiro Teódoto, convertido por Tecusa, tornara-se seu filho espiritual.
     Teódoto era um bom cristão que, em tempos de perseguição escondia os perseguidos em sua própria casa. Principalmente se esmerou em caridade durante o período em que governava Teotecno, cujo empenho em destruir o Cristianismo em Ancira era feroz.
     Neste tempo, sete virgens de Ancira foram acusadas de serem cristãs e levadas ao juiz. Três delas eram virgens consagradas da igreja local.
     O juiz mandou a soldadesca insultá-las e vexá-las, para desmoralizá-las. Quando um deles arrancou o véu da cabeça de Tecusa, ela o recriminou: “Pare com tua impertinência, jovem! Olhe meus cabelos prateados. Por acaso não tens uma mãe idosa? Portanto reverencia sua cabeça cinza na minha!” O jovem, envergonhado, a deixou em paz. Mas Teotecno, juiz tirano, estava determinado a quebrar a constância das sete mulheres, para que não fossem exemplo para os outros cristãos.
     Ao chegar o dia em que as deusas Diana e Minerva iam tomar o banho anual num lago dos arredores, o governador pagão obrigou Tecusa e suas companheiras a acompanhar o carro que levava as estátuas. Quando o cortejo chegou ao destino, obrigou-as a sacrificar às deusas. Estas se recusaram e ele mandou açoitá-las diante da multidão.
     Entrementes, Teódoto tinha ido à casa de uns amigos, Teocário e sua esposa. Esta tinha se aproximado do lago e contou como as sete cristãs foram humilhadas no meio das risadas do povo. Tentaram vesti-las com túnicas adornadas e com coroas, mas elas resistiram, preferindo ficar nuas a vestir túnicas de idólatras. Quando elas submergiram, o governador ordenou que atassem pedras aos seus pescoços e as afogassem.
     Teódoto, que era bom nadador, empenhou-se em trazer para a terra a sua mãe espiritual e as outras virgens. Ele e seus amigos combinaram ir ao lago naquela noite. A noite era muito escura, mas uma estrela guiou o caminho dos cristãos até o local do martírio. Além de a noite ser escuríssima, começou a chover.
     Ao chegar ao local correto, viram que os guardas colocados pelo governador para vigiar o lago tinham se afastado para se proteger da tormenta. Então, Teódoto e seus amigos cortaram as cordas que prendiam os corpos das santas no fundo do lago e em um carro puxado por cavalos transportaram os corpos. Eles piedosamente deram sepultura aos corpos deixando uma marca visível do local.
     Na manhã seguinte, descobriu-se que os corpos tinham sido resgatados. O governador enfureceu-se e mandou que o caso fosse averiguado. Um dos amigos de Teódoto o denunciou, indicando inclusive o local onde as mártires haviam sido enterradas.
     Teódoto foi preso e torturado. Depois seria martirizado num local designado pelo governador. Toda Ancira seguiu o cortejo macabro, rindo e ridicularizando o mártir. Quando Teódoto chegou ao local definitivo do martírio, ajoelhou-se e ergueu ao céu uma oração, em seguida foi decapitado. Não contente com isto, Teocteno ordenou que o corpo de Teódoto fosse queimado em público em uma grande fogueira, para que os cristãos não pudessem venerá-lo.
     Entretanto, apenas foi acesa a fogueira, a chuva apagou o fogo, e Teocteno adiou a queima do santo para o dia seguinte, deixando guardas encarregados de impedir os cristãos de se aproximar. Estes, assim que ficaram sozinhos, fizeram uma cabana de ramos e folhas.
     Um grande amigo de Teódoto, o sacerdote Fantão, pároco de Malos, perto de Ancira, ao anoitecer carregou um burro com um odre bem cheio de vinho e encaminhou-se para Ancira. Ao passar pelo posto dos guardas, estes o convidaram a permanecer com eles sob o abrigo. Fantão perguntou o que eles faziam ali debaixo da chuva e eles narraram a morte do estalajadeiro. Ele ficou sabendo que estavam guardando seu corpo para ser queimado e então urdiu um plano.  “Pensei que vós tivésseis sede”, disse-lhes oferecendo seu vinho. Eles esvaziaram o odre até à última gota, ficaram bêbados e dormiram um sono de chumbo.
     Imediatamente Fantão tomou o corpo do amigo, colocou-o sobre o burro e encomendando-se a Deus, o deixou livre. Para não levantar suspeitas, Fantão ficou ao lado dos soldados, enquanto o burro, levando o corpo do mártir, voltava a Malos. Depois, começou a chorar e a gritar. Os soldados despertaram e perguntaram o que estava acontecendo. Fantão lhes disse que seu burro havia escapado; os soldados, rindo dele, o expulsaram dali e continuaram a dormir.
     Fantão correu para sua ermida e encontrou seu burro diante da porta, esperando-o com seu precioso tesouro nas costas. Fantão tomou o corpo do amigo, rezou e depositou-o no local que havia prometido construir e junto ao qual viveu em paz. Eis o que explica que mais tarde as relíquias de São Teódoto vieram a ser veneradas nesta paróquia e tenha sido construída ali uma bela igreja em sua honra
     Isto aconteceu em 304, imperando Maximiano e Diocleciano.
     São Teódoto é o padroeiro dos estalajadeiros.

(*) SÃO SABAS
     Nascido em 439 na Capadócia e filho de uma família bárbara convertida ao Cristianismo, Sabas teve uma infância difícil. A disputa dos parentes por sua herança o levou a procurar ajuda num mosteiro, onde foi acolhido apesar de ser ainda uma criança. Apesar de pouca instrução tornou-se um sábio na doutrina cristã.
     Foi monge na solidão e experimentou também a vida comunitária. Dividiu tudo o que herdou entre os cristãos pobres e doentes. Trabalhou na conversão de seus conterrâneos e ajudando os cristãos perseguidos em sua pátria. Era caridoso e valente.
     Fundou uma comunidade monástica na Palestina, onde anos mais tarde seria erguido o Mosteiro de São Sabas. A fama dos prodígios e também a grande sabedoria sobre a doutrina de Cristo, fizeram essa comunidade crescer muito. A eloquência da sua pregação do Evangelho atraia cada vez mais os pagãos à conversão.
     Morreu em 5 de dezembro de 532, na Palestina, aos noventa e três anos de idade. Santo Sabas está presente na relação dos grandes sacerdotes fundadores do monaquismo da Palestina. 


Fontes: www.jesuitas.pt,  www.es.catholic e www.santiebeati.it; "Vidas de los Santos". Tomo V. Alban Butler. REV. S. BARING-GOULD;

domingo, 14 de maio de 2017

Sta. Corona e São Vitor, Mártires – 14 de maio

Martirológio Romano: Na Síria, Santos Vitor e Corona, mártires, que juntos sofreram o martírio. 

     Vítor e Corona são dois mártires cristãos. A maior parte das fontes afirma que eles foram mortos na Síria na época do imperador romano Marco Aurélio, porém, os vários textos hagiográficos discordam sobre o local do martírio, com alguns afirmando que foi em Damasco, enquanto que as fontes coptas afirmam que foi em Antioquia. Algumas fontes ocidentais citam Alexandria ou a Sicília. As diversas versões também discordam sobre a data do evento e eles podem ter morrido também na época de Antonio Pio (138-161), ou de Diocleciano (243-313), enquanto que o Martirológio Romano afirma que eles foram mortos no século III.
     A legenda afirma que Vítor era um soldado romano de ascendência italiana e que servia na cidade de Damasco, na Síria, na época de Antonino Pio. Ele foi torturado - inclusive tendo os olhos arrancados - por um comandante chamado Sebastião.
     Enquanto ele sofria as torturas, a esposa de dezesseis anos de um de seus companheiros chamada "Corona" (também "Stefania" ou "Stephana", uma tradução para o grego do seu nome latino, que significa "coroa") o confortava e encorajava. Por isso, ela foi presa e interrogada. De acordo com a passio de Corona, ela foi atada à duas palmeiras curvadas e despedaçada quando os troncos foram soltos. O jovem soldado terminou decapitado.
     Outra versão afirma que Vítor e Corona eram marido e mulher.
     Fora da cidade de Feltre, na encosta do Monte Misnea, está a igreja de SS. Vitor e Corona, erguida pelos Cruzados de Feltre ao retornarem da 1ª. Cruzada. Por volta do ano 1000, Otão III trouxe as relíquias de Santa Corona para Aachen, Alemanha.
     Santa Corona é particularmente venerada na Áustria e na Baviera oriental.
     Santa Corona é patrona em assuntos de dinheiro e São Vitor é patrono de Siena para pedir por qualquer doença e contra as tropas inimigas.
     Na Espanha há várias igrejas dedicadas aos mártires: Tarancón, Cuenca etc. (conforme vídeo https://youtu.be/nlI6NF5Ma5o)

Fontes: www.santiebeati.it; http://vidas-santas.blogspot.com.br/2013/05/santos-victor-y-corona-martires.html




sexta-feira, 12 de maio de 2017

Francisco e Jacinta: os novos santos e a sua diretora espiritual – 13 de maio

Do livro do Padre Demarchi, “Era uma Senhora mais brilhante do que o sol...”, Seminário das Missões de Nossa Senhora de Fátima, Cova da Iria, 3a. Edição:

     "A verdadeira diretora espiritual de Jacinta, Francisco e Lúcia foi, essencialmente, Nossa Senhora. A bondosa Senhora da Cova da Iria tomou à sua conta a realização dessa obra-prima e, como não poderia deixar de ser, a levou a cabo com pleno êxito. Das suas mãos prodigiosas saíram três anjos revestidos de carne, mas que, ao mesmo tempo, eram três autênticos heróis. A matéria prima era de uma plasticidade admirável e da Artista o que mais dizer? Na sua escola os três serranitos deram em breve tempo passadas de gigantes no caminho da perfeição. Nela se verificou à letra as palavras de um grande devoto de Maria, São Luiz Maria Grignion de Monfort. Na escola da Virgem, a alma progride mais numa semana do que num ano fora dEla. A pedagogia da Mãe de Deus não sofre confrontos. Em dois anos a Virgem Santíssima conseguiu erguer os dois irmãozinhos - Francisco e Jacinta - até os cumes mais elevados da santidade cristã”.
     “O retrato que a mão segura de Lúcia nos traça de Jacinta é revelador. Jacinta tinha um porte sempre sério, modesto e amável, que parecia traduzir a presença de Deus em todos os seus atos, próprios das pessoas já avançadas em idade e de grande virtude: ‘Não lhe vi nunca aquela demasiada leviandade e o entusiasmo próprios das crianças pelos enfeites e brincadeiras. Não posso dizer que as outras crianças corressem para junto dela, como faziam para junto de mim, isso talvez porque a seriedade do seu porte era demasiado superior à sua idade. Se na sua presença alguma criança ou mesmo pessoas adultas diziam alguma coisa ou faziam qualquer ação menos conveniente, repreendia-as dizendo: ‘Não façam isso que ofendem a Deus, Nosso Senhor, e Ele já está tão ofendido’”.


Os pastorinhos que viram Nossa Senhora serão canonizados pelo Papa Francisco neste dia 13 de maio

     Foi apresentado em Fátima nesta segunda-feira o retrato oficial dos mais novos santos da Igreja católica: Francisco e Jacinta Marto, pastorinhos de Fátima que testemunharam as aparições de Nossa Senhora em 1917 e que serão canonizados pelo Papa Francisco neste dia 13 de maio, data do centenário da primeira aparição.
     Os dois também são os mais jovens santos não-mártires da Igreja! O retrato oficial se baseia nas fotografias utilizadas na cerimônia da beatificação, no ano 2000. Sua formulação destaca a psicologia dos dois santos, conforme a postulação da causa de canonização: “Jacinta olha de frente para o observador, em atitude de interpelação; Francisco ergue os olhos para o alto, apontando uma atitude eminentemente contemplativa”.
     As imagens são da pintora Sílvia Patrício e serão colocadas na fachada da Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima durante a cerimônia de canonização.
Destaques das imagens

     
     A fotografia original é de 1917. A pintura baseada nela acrescenta cores às vestes, com base em pesquisa etnográfica da autora.
     Além disso, ressaltam-se atributos especiais dos novos santos, como o terço em mãos, a candeia e os detalhes nas auréolas em formato de peças de ourivesaria: na de Francisco, aparecem a silhueta do Anjo de Fátima e as espécies eucarísticas; na de Jacinta, as figuras do Papa e da Virgem Maria, representada com o seu Imaculado Coração.


Fonte: Aleteia Brasil | Maio 09, 2017

terça-feira, 9 de maio de 2017

Beata Beatriz I d'Este, virgem, monja beneditina - 10 de maio

Martirológio Romano: Em Pádua, Beata Beatriz d’Este, virgem, que fundou nas colinas de Euganei o mosteiro de Gemmola e no breve espaço de sua vida percorreu um árduo caminho de monja à santidade.

    Parece mentira, mas num espaço de 40 anos viveram três beatas e uma santa com este nome e da mesma família real, todas entre 1220 e 1267.
     A Beata Beatriz I d’Este, que comemoramos hoje, era filha de Azzo VI (Azzolino) Marquês d’Este, filho de Azzo V d’Este e sua esposa, e de Sofia (Eleonora) de Maurienne, filha de Humberto III, Conde de Maurienne e de Savoia e sua terceira esposa Clemência von Zähringen.
     Beatriz nasceu em Este, província de Pádua, cerca de 1200. Nos anos da juventude viveu abastadamente nos castelos d’Este e de Calaone, e conheceu os divertimentos e os privilégios da vida de corte; foi celebrada pelos poetas do tempo por sua virtude e beleza.
     Sua vida serena foi perturbada primeiramente pela guerra entre guelfos e gibelinos, no Vêneto, que levou à morte prematura do pai; poucos meses depois, a família sofreu o cerco e a humilhante rendição ao exército formado por habitantes de Pádua, Vicência e Bassane, comandados pelo jovem Ezzelino da Romano. O seu irmão mais velho, Aldobrandino, sucessor do pai, foi morto (talvez envenenado) em 1215.
     Após estes acontecimentos dolorosos Beatriz maturou a escolha pela vida religiosa. Inicialmente a nobre dama ingressou no mosteiro beneditino de Santa Margarida no monte Salarola (Calaone) onde permaneceu um ano e meio (1220-1221) sem o consenso do irmão Azzo VII, o novo Marquês d’Este.
     Em abril de 1221, após ter se reconciliado com o irmão, Beatriz obteve do bispo de Pádua o mosteiro masculino de São João Batista, no monte Gemmola, há tempos abandonado e cedido definitivamente a Diocese. Ali Beatriz desejava fundar uma nova comunidade feminina sob a Regra beneditina. Para esta finalidade destinou seus bens à reconstrução do edifício monástico e da igreja.
     Fundada a comunidade, os votos feitos, a jovem monja atraiu, com a sua fama e o seu exemplo, várias nobres que se uniram a ela, vindo até de longe à Gemmola. Entre estas podemos citar a Beata Juliana dos Condes de Collalto, sepultada na igreja de Santa Eufêmia da Ilha dela Giudecca, em Veneza, e a Beata Maria Enselmini da nobre família de Pádua, a qual pertencia também a Beata Helena.
     Beatriz e suas companheiras levavam uma dura vida de penitência, de oração, de jejum e de pobreza. A sua humildade se reflete na recusa de se tornar abadessa. As fontes indicam Desiderata como aquela que foi eleita para governar o mosteiro. Provavelmente as condições de vida tão austera, em completa clausura, minaram a saúde de Beatriz, que adoeceu depois de poucos anos.
     Faleceu em seu mosteiro de Gemmola no dia 10 de maio de 1226, com a idade aproximada de 34 anos.
     O túmulo de Beatriz se tornou alvo de grande devoção, o seu corpo permaneceu incorrupto e depois de alguns anos foi transladado para uma urna de mármore, cuja lápide, considerada única no seu gênero e conservada em Santa Sofia de Pádua, tem escritas as notas biográficas e a data da morte.
     Ocultada por duas vezes para defendê-la de inimigos d’Este, no final de 1578 a urna foi transferida para Pádua, para a Igreja de Santa Sofia. Em 1957, a Beata foi finalmente colocada na Igreja de Santa Tecla em Este.
     Em 19 de novembro de 1763, o Papa Clemente XIII confirmou o culto e o título de beata, que há séculos lhe era tributado, concedendo a Missa e o Ofício próprio.
As fontes históricas
     Os seus dados biográficos constam da Vita Beatae Beatricis redigida por seu pai espiritual, Frei Alberto, prior do Espírito Santo de Verona. O antigo texto permaneceu desconhecido por séculos, e foi encontrado e publicado no século XVIII pelo abade João Brunacci, e agora é conservado em um só códice na Biblioteca Universitária de Modena.
 
A Beata Beatriz I d'Este jovem dama na corte de seu pai
Fontes:
www.santiebeati.it/;
https://it.wikipedia.org/wiki/Beatrice_I_d%27Este


Etimologia: Beatriz, do latim Beatrix e significa “a que faz feliz alguém“; feminino de beatus, “feliz, beato, ditoso, bem-aventurado”.

sábado, 6 de maio de 2017

Santa Flávia Domitila, Mártir - 7 de maio

     
     É o ano 95 da era cristã. O imperador de Roma é Vespasiano. Flávio Clemente é seu sobrinho e é o cônsul. Ele e sua esposa, Flávia Domitila, se tornam cristãos. Flávio Clemente tem dois primos, Tito e Domiciano, que não têm descendência direta masculina e, portanto, deveriam deixar seu posto para um dos filhos de Flávio Clemente, segundo o direito romano. Faltou pouco para que no 1º século a Igreja tivesse um imperador cristão. Não só isto não ocorreu, como Domiciano iniciou uma violenta perseguição aos cristãos.
     Na época, os que governavam Roma não faziam muita distinção ente judeus e cristãos. Eram chamados simplesmente de ‘pagãos’, porque nem uns nem outros adoravam os ídolos dos romanos.
     Vespasiano e Tito tinham guerreado e destruído Jerusalém e seu Templo. Os judeus e os cristãos, que para eles era a mesma coisa, deviam pagar impostos. Diante da arrecadação, Domiciano se dá conta do grande número de ‘pagãos’ que há no Império e vê que estão presentes em todos os segmentos e que uma depuração étnica se impõe. Flávio Clemente, entre muitos, é denunciado, diz Suetônio: “com acusações muito débeis”, e é martirizado junto com sua esposa, ou quem sabe esta foi mandada para o exílio na ilha de Pandataria, como era costume entre os romanos para as pessoas da nobreza.
     O bispo cristão Santo Eusébio de Cesareia (ca.265–339) na sua História Eclesiástica escreve: "Nessa altura o ensinamento da nossa fé brilhou a tal ponto, que mesmo aqueles escritores que estavam fora da nossa tradição não hesitaram em citar nas suas histórias a perseguição e os martírios que nessa cidade tiveram lugar. Incluso indicaram o tempo com precisão ao contar que no décimo quinto ano de Domiciano, juntamente com muitíssimos outros, Flávia Domitila, filha de uma irmã de Flávio Clemente, então um dos cônsules de Roma, foi, por dar testemunho a Cristo, condenada ao exílio na ilha de Ponza”.
     Em outra obra sua, a Crônica, que sobrevive numa tradução feita por São Jerônimo (c. 340–420), Santo Eusébio indica o nome de um escritor que dá informações semelhantes às dadas na História Eclesiástica: em relação ao ano 16 de Domiciano (96 d.C.), na Olimpíada 218, diz que "Bruttius escreve que sob Domiciano muitos cristãos foram martirizados, incluindo Flávia Domitila, sobrinha, por parte de sua irmã, do cônsul Flávio Clemente, que foi exilada para a ilha de Ponza por haver-se declarado cristã".
     Jorge Sincelo, que morreu depois de 810, repetiu o texto da Crônica de Santo Eusébio, mas acrescentou que Flávio Clemente morreu por Cristo e assim foi o primeiro a dizer que este cônsul do século I era cristão. Ao citar a Eusébio, Sincelo diz que Domitila era ἐξαδελφή de Flávio Clemente, palavra que pode significar também "prima" e não unicamente, como São Jerônimo a interpretou, "sobrinha".
     Em 404, São Jerônimo, ao escrever sobre a morte de Santa Paula, diz que na sua viagem de Roma para a Terra Santa esta piedosa viúva fez uma parada na ilha de Ponza, "que ficou famosa pelo exílio de Flávia Domitila, a mulher mais famosa do seu tempo", e que visitou "as células onde ela passou um longo martírio".
     César Barônio (1538–1609) foi o primeiro a dizer que existiam duas distintas Flávias Domitilas: na antiguidade nenhum autor falou assim e Suetônio achava que os seus leitores entenderiam de quem falava ao dizer que Estevão, o assassino de Domiciano, era mordomo "de Domitila".
     Outros julgam mais provável que houve apenas uma Flávia Domitila banida por Domiciano, e que há erros no texto de Dião Cassio, ou no de Eusébio ou ambos. De acordo com eles, é possível, por exemplo, que houve uma confusão entre as ilhas geograficamente próximas de Ponza e Pandateria.
A Legenda
     De acordo com certos historiadores, os mártires Nereu e Aquileu, elogiados numa inscrição do Papa São Dâmaso I (366–384) como soldados convertidos, morreram na perseguição de Diocleciano dirigida inicialmente contra os cristãos do exército (295-298) e, em seguida, contra a Igreja cristã como tal (a partir do ano 303).
     A legenda torna-os, de soldados do século terceiro, para eunucos do primeiro século à serviço de Flávia Domitila, que a persuadem a renunciar ao casamento para o qual ela está embelezando-se e a abraçar uma vida de virgindade. O noivo faz que ela seja exilada para a ilha de Ponza e que os eunucos sejam martirizados. Mais tarde, depois de fazê-la levar para Terracina, ele pretende usar-lhe violência, mas morre milagrosamente. Por instigação do irmão dele, Flávia Domitila é martirizada.
     De grande importância é a inscrição mutilada encontrada no século XVIII no cemitério na Via Ardeatina. A inscrição, agora mantida na parede da Basílica de SS. Nereu e Aquileu naquele cemitério, esclarece que Tazia Baucilla, nutriz dos sete filhos de Flávio Clemente e Flávia Domitila, obteve desta o terreno para um túmulo. No documento afirma-se ainda que Flávia Domitila era "neptis", isto é, sobrinha de Vespasiano, o pai de Domiciano, confirmando, assim, a afirmação de Dião Cassio segundo a qual a mulher de Flávio Clemente 'era consanguínea” de Domiciano.
     Para amenizar as "confusões" em que os historiadores teriam incorrido ao indicar os locais de confinamento das duas Domitilas, Umberto Fasola aponta que as ilhas de Ponza e Pandateria eram muito tristemente notórias para serem confundidas uma com a outra. Em Ponza, na verdade, foram confinadas as filhas de Calígula e um filho de Germânico, e foram confinados em Pandateria Júlia, filha de Augusto, Agripina, esposa de Germânico, e Otávia, esposa de Nero.
     A veneração por Flávia Domitila em Ponza é antiga. Mas o nome de Domitila não aparece nem na Depositio Martyrum, nem no Martirológio Geronimiano. A sua celebração em 12 maio não é anterior ao século IX, e foi introduzida nos livros litúrgicos sob a influência do Martirológio de Floro, que a incluiu na sua lista provavelmente por engano, trocando o Flávio lembrado no Geronimiano na data de 7 de maio.
     As informações sobre Flávia Domitila que aparecem na “passio” legendária (séc. V-VI) não têm credibilidade: entre outras coisas, esta “passio” fala de dois "eunucos", Nereu e Aquileu, que converteram Domitila à fé cristã, quando na realidade ficamos sabendo por um poema dedicado aos dois mártires que eles antes da conversão eram militares a serviço do perseguidor. E, como dito anteriormente, viveram no século III.
     A existência, no entanto, das duas Domitilas e a sua condenação ao exílio por terem abraçado o Cristianismo são fatos incontestáveis, como claramente demonstrado pelos documentos. O corpo de uma Flávia Domitila é venerado na igreja dos SS. Nereu e Aquileu.
     A edição do Martirológio Romano diz, na data de 7 de maio: "Em Roma, comemoração de Santa Domitila, mártir, que, sendo filha da irmã do cônsul Flávio Clemente, durante a perseguição do imperador Domiciano foi acusada de negar os deuses pagãos e, por motivo do seu testemunho a Cristo, foi banida com outros para a ilha de Ponza, na qual experimentou um prolongado martírio”.
     Em 1969 o nome de Domitila foi removido do Calendário Romano Geral. 

Fontes: www.santiebeati.it; Wikipédia


Etimologia: Flávia, de origem latina, Flavius = “louro, áureo, de cabelos louros, ou dourados”. Domitila, do latim Domitilla, feminino e diminutivo de Domício, do latim Domitius = “o senhor, o da casa, dono”. 

Nota: A figura acima é foto de uma estátua em mármore de uma dama romana ignota do primeiro século. Consideramos que representa melhor as Flávias do texto do que possíveis concepções artistas posteriores. No nosso entender, esta dama bem poderia ser a nossa mártir.