sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Santa Angadrisma, Abadessa - Festejada 14 de outubro

     Angadrisma (Angadrême, em francês) nasceu na diocese de Thérouanne, no início do século VII, na nobre família dos condes de Boulogne, em Morins (Pas-de-Calais), no norte da França. Era a filha única de Roberto, amigo e sucessor de Santo Omer no cargo de Guarda dos Selos na corte de Clotário III (657-673).
     Santo Omer, Bispo de Thérouanne e preceptor da criança, ensinou a ela os preceitos do Evangelho e formou sua alma na piedade. Estimulada por seu primo São Lamberto de Lyon, que decidira ser monge em Fontenelle, Angadrisma fez secretamente o voto de virgindade. Seu pai, ignorando sua decisão, projetou casá-la com Ansberto, filho de um rico senhor de Chaussy, chamado Siwin. Mas Ansberto, ele mesmo também havia feito voto de virgindade, e seria no futuro Santo Ansberto, o Bispo de Rouen.
     Para evitar o indesejado casamento, Angadrisma rezou pedindo para se tornar menos atraente fisicamente. Suas orações tiveram como resultado que ela contraísse a lepra. Diante da tristeza e da inquietação de seu pai, ela garantiu-lhe que, como ela havia prometido ser esposa de Jesus Cristo, Ele a protegeria e a defenderia daquela deformação. O pai renunciou então ao casamento e a levou para Rouen para apresentá-la a São Audoeno. Foi das mãos deste santo que ela recebeu o hábito religioso. A partir desse dia, a doença desapareceu milagrosa e repentinamente.
 
O Mosteiro de Oroër
     Sua vida monástica era, para dizer pouco, exemplar. Cerca do ano 660, Angadrisma passou a dirigir uma comunidade de virgens e viúvas no convento que seu pai havia construído para ela próximo de Beauvais, ao lado do oratório de Santo Ebrulfo.
     Este mosteiro era muito provavelmente aquele situado em Oroër, pequena aldeia distante duas léguas da cidade de Beauvais, na rota de Amiens, entre Guignecourt e Abbeville-Saint-Lucien, no cantão de Nivillers.
     Um dia o mosteiro foi ameaçado pelas chamas de um incêndio. Angadrisma extinguiu o incêndio enfrentando-o com a exposição das relíquias de Santo Ebrulfo.
     Em seu mosteiro ela conduzia as companheiras à virtude mais pelo império de seu exemplo do que pela autoridade de suas ordens. Com efeito, ela era vista assiduamente na oração, humilde, modesta nas suas vestimentas de tecido grosseiro, cuidando dos pobres, usando uma linguagem inspirada nas Sagradas Escrituras e lhes inspirando o amor de Deus.
     Santa Angadrisma dirigiu o mosteiro durante trinta anos e faleceu no dia 14 de outubro de 695.
     Venerada como Santa imediatamente, foi incluída entre os patronos de Beauvais e é invocada contra os incêndios e as calamidades públicas. Suas relíquias foram transladadas em várias ocasiões devido à destruição do mosteiro pelos normandos e depois pela Revolução Francesa; repousam hoje na Catedral de Beauvais.
    
A Abadia Real das Beneditinas de São Paulo
     O mosteiro de Santa Angadrisma foi destruído pelos normandos em 851. Suas ruínas, propriedade da Igreja de Beauvais, serviram de fundamento para a Abadia de São Paulo. O Bispo de Beauvais, Druon, conhecido pelo seu zelo pelas casas religiosas, favoreceu esta edificação. É hoje conhecida como uma das mais belas e mais antigas abadias da França. Portanto, a Abadia de São Paulo sucedeu ao Mosteiro de Oroër, mas não é contemporânea aquela fundação, pois data de 1032 e 1040.
     Os bispos e senhores de Beauvais asseguraram grandes riquezas a este mosteiro. As abadessas pertenciam, na sua grande maioria, a famílias abastadas, o que concorreu para o renome do mosteiro. Durante a Revolução Francesa, grande parte de suas instalações foram destruídas.
 
Capela da Santa na Catedral de Beauvais
As relíquias
     A tradição narra que Angadrisma, então Abadessa de Oroër, vindo fazer suas orações na Igreja de São Miguel de Beauvais, tendo encontrado a lamparina apagada, foi pedir fogo a um padeiro vizinho. Este, sentindo-se importunado, lançou-lhe violentamente carvões ardentes, que ela recebeu em suas vestimentas sem que elas se incendiassem. Assustado, o padeiro se lançou aos seus pés.
     Este acontecimento fez que se preferisse a Igreja de São Miguel à Catedral para aí serem transferidas as relíquias da Santa quando da invasão dos normandos. Esta Igreja de São Miguel foi destruída em 1810 e substituída por uma via chamada Rua Deux-Places, hoje em dia Rua Jean-Vast.
 
Seus milagres
     Após sua morte, os milagres se sucederam. No século IX, suas relíquias preservaram a cidade de Beauvais da fúria dos bárbaros. Mais tarde, a cidade foi protegida dos ingleses. Mas, especialmente em 1472 os habitantes de Beauvais sentiram a proteção da Santa. Oitenta mil homens da Bourgogne cercaram Beauvais e a cidade estava prestes a ser tomada. O relicário da Santa foi levado para as muralhas. A vista dele a coragem foi retomada entre os habitantes de Beauvais e os invasores foram repelidos.  O relicário da libertadora foi levado triunfalmente ao santuário de São Miguel.
     A partir desta data, o culto de Santa Angadrisma, que o Bispo de Beauvais Jean de Marigny havia retomado em 1321, tornou-se mais presente do que nunca. Luis XI instituiu uma procissão anual para que se recordasse a Bem-aventurada.
     Abolida durante a Revolução Francesa, desde 1805, no 1º Império, a procissão foi restabelecida. A procissão partia da Catedral e ia cerimoniosamente até a prefeitura. Mas o cortejo religioso foi suprimido em 1839. Novamente restabelecido em 1848, a procissão vai então sofrer os efeitos da política.
     Depois de muitas idas e vindas, após a 1ª Guerra Mundial a comemoração tomou uma característica turística: desfiles militares, cenas teatrais, reconstituições históricas, e ainda se mantém até nossos dias.

Fonte: http://oise.catholique.fr/

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Beata Madalena Panattieri, Dominicana - Festejada 13 de outubro

   Inicialmente as obras de Madalena foram apenas de misericórdia. Tinha especial predileção pelas crianças nas quais via a inocência e o futuro do mundo.
     Mas o sucesso maior ela obteve não tanto como pregadora quanto como mestra de espiritualidade. Ela catequizava em uma pequena capela e suas modestas conferências a princípio eram destinadas a um grupo de senhoras, as quais reconheciam nela uma ótima conselheira.
     Pouco a pouco, alguns homens se uniram às senhoras, e até mesmo sacerdotes se sentiram atraídos pelas palavras inspiradas desta terciária dominicana. Ela insistia sobretudo na reforma dos costumes, e tratava com freqüência do problema da usura, vivo naquele tempo em que o comércio ia se expandindo.
     Por meio dela, Trino tornou-se um centro de pregações. O Prior Geral dos Dominicanos foi de Milão a Trino, e de todas as partes do Piemonte muitos pregadores iam a Trino para ouvi-la. Madalena entretanto não se vangloriava, ao contrário, dava provas de profunda humildade.
     A um homem que, incomodado com suas palavras, a golpeia com um tapa, Madalena, caindo de joelhos, disse: “Irmão, eis a outra face; te agradeço por amor de Cristo”.
     Ela foi profetisa de desventuras e nas suas pregações repetia o grito: “Ai de ti Itália! Vejo aproximar-se o flagelo”.
*
     Madalena Panattieri nasceu em Trino, Vercelli, Itália, em 1443; desde seus primeiros anos de vida revela-se uma alma cheia de graça. Adornada de rara beleza, soube fugir das insidiosas redes da vaidade, nas quais tantas jovens ficam miseravelmente enredadas, e seu espelho foi sempre o Crucifixo.
     Muito jovem ainda vestiu o hábito da Ordem Terceira de São Domingos, abraçando com grande fervor todas as austeridades da Ordem. Usou sempre uma áspera roupa de lã, observou com extremo rigor a abstinência e os longos jejuns, nas vigílias foi heróica. Fez seu o duplo espírito de contemplação e de ação, sendo dele uma expressão viva.
     Contemplava com um amor fervoroso a Paixão de Jesus, merecendo participar na alma e no corpo de todas as dores do Salvador. Uma zelosa sede de almas levou-a a trabalhar e pregar por elas. Teve o dom da pregação e em uma capela junto à igreja dos Dominicanos de Trino fazia ardentes exortações às quais assistiam também sacerdotes e religiosos, e mesmo o Mestre de Noviços ali conduzia os seus jovens religiosos.
     Madalena possuía uma arte toda celestial para conduzir as almas ao bem, e graças às suas obras os dominicanos de Trino abraçaram a estrita observância restaurada por São Raimundo de Cápua. O Marquês de Monferrato teve por ela uma particular veneração e a chamava de “sua mamãe”. Ela foi mãe de todos e de todos foi amada.
     Predisse sua morte, ocorrida no dia 13 de outubro de 1503. Quando estava em agonia, com voz dulcíssima entoou os Hinos “Jesu nostra Redemptio” e “Ave Maris Stella”.
     O seu corpo, sepultado na igreja conventual, foi logo objeto de muita veneração. No século XVII, foi ocultado no vizinho oratório de São Pedro Mártir; foi encontrado em 1964. Em 1970, com a autorização da Santa Sé, foi solenemente recolocado na igreja.
     O Papa Leão XIII confirmou seu culto em 26 de setembro de 1827.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Nossa Senhora Aparecida e O Milagre do Sol

     Amanhã comemoramos a festa de Nossa Senhora Aparecida, que há quase trezentos anos vela por nosso país. Os primórdios humildes não prenunciavam o alcance que a devoção, iniciada no Vale do Paraíba, em Aparecida, no interior do Estado de São Paulo, teria para a Nação toda.
     Nada supera as abundantes graças ali dispensadas pela Virgem Santíssima aqueles que a seus pés suplicam favores espirituais e materiais. Após o miraculoso encontro da imagem aparecida, as graças, os milagres e prodígios por Ela operados naquela cidade e pelo Brasil afora perpetuam os sinais de sua predileção.
     No pontificado de São Pio X, Ela foi coroada solenemente Rainha do Brasil, em 8 de setembro de 1904. Coroação efetivada num ato oficial, na presença de muitos membros do Episcopado nacional. De acordo com um decreto da Santa Sé, Nossa Senhora Aparecida passou a ser Rainha do Brasil.
     Em 31 de maio de 1931, Nossa Senhora Aparecida foi proclamada Rainha e Padroeira do Brasil. No ano anterior, no dia 16 de julho, Ela já havia recebido do Papa Pio XI esses gloriosos títulos.
Coroa doada a Na Sra Aparecida pela Princesa Isabel
     A solene proclamação ocorreu na Esplanada do Castelo, no Rio de Janeiro (então capital do País), depois de esplendorosa procissão com a milagrosa Imagem da Virgem Mãe Aparecida, com a participação de todos os bispos brasileiros, do Chefe de Estado, ministros, autoridades civis e militares, além de mais de um milhão de fiéis.
     No dia de 12 de outubro, milhares de peregrinos de todas as regiões de nosso país continental acorrem ao Santuário de Aparecida para rezar, agradecer, pedir, enfim, venerar Aquela que é a Rainha e a Padroeira do Brasil.
     Na atual encruzilhada que o País atravessa, mais do que nunca necessitamos da proteção de nossa Augusta Rainha e Padroeira.
     Mas, como estarão as almas de nosso povo? Em meio ao dilúvio de crises que se abate sobre o mundo, esse mesmo povo, parece por vezes dEla se esquecer.
     No início do século XX, as multidões enchiam o Anhangabaú para assistir as comemorações do Congresso Eucarístico, evento que elevava e nutria uma Fé sadia e cheia de princípios; hoje, elas se aglutinam para assistir ao satânico Rock in Rio, que causa desordens físicas e mentais!...
     É verdade que, graças à ação do Divino Esposo de Maria Santíssima, são muitos os que, tocados pela graça, procuram, na prática dos Mandamentos, o sentido para sua vida. Mas, numa população de cerca de 190 milhões, qual é a porcentagem dos que continuam fieis aos princípios católicos?
     No século XIX, não só no Brasil, mas no mundo todo, surgiram almas de fogo que fizeram coisas estupendas pela Santa Igreja e pelas almas. Nossos arquivos incompletos contam com cerca de 140 Santas e Beatas que naquele século viveram e deram glória a Deus, seja fundando obras que até hoje existem, seja abrindo sendas de luz, como é o caso de Santa Teresinha do Menino Jesus que com sua “pequena via” entusiasmava muitos a segui-la; ou como Santa Catarina Labouré e Santa Bernadete, que foram mensageiras de Nossa Senhora que, sempre velando pela Igreja e pelas almas, apareceu-lhes exortando-as a conclamar os fieis à penitência e à oração. Lembremo-nos também das aparições de Nossa Senhora em La Salette, França, em que Ela chorava e cuja mensagem poucos conhecem.
     No dia 13 de outubro de 1917, Nossa Senhora em Fátima, com o milagre do sol assistido por milhares de católicos portugueses, fez com que se prostrassem de joelhos (embora não voluntariamente) os ateus e congêneres que perseguiam os Pastorinhos e desacreditavam a Aparição da Mãe de Deus.
     Não podia haver mais dúvidas de que Ela ali aparecia e deixava uma Mensagem exortando à conversão, à penitência e à oração; admoestando que, caso não fosse ouvida, não poderia impedir que Seu Divino Filho castigasse o mundo pelos seus pecados. Há quase cem anos Ela apareceu... e a Humanidade continua surda aos seus pedidos!
     Ela chorou em Siracusa, Itália (1953), lacrimejou em Orleans, EUA (1972), seus olhos verteram sangue em Akita, Japão (1973)... e a dureza dos corações não derreteu diante de tanto afeto, de tanta bondade!
     Parafraseando São Luis Maria Grignion de Montfort em sua Oração Abrasada, nos voltamos para Nossa Senhora e imploramos: Ah! Permiti que brade por toda parte: Fogo! Fogo! Fogo! Socorro! Socorro! Socorro! Fogo na casa de Deus! Fogo nas almas! Fogo até no santuário! Socorro, que assassinam nosso irmão! Socorro, que degolam nossos filhos! Socorro que apunhalam nosso bom Pai! ... Erguei-vos, Senhora, por que pareceis dormir? Erguei-vos em todo o vosso poder, em toda a vossa misericórdia e justiça, para formar-vos uma companhia seleta de guardas que velem a vossa casa, defendam vossa glória e salvem tantas almas que custam todo o sangue de vosso Divino Filho, para que só haja um aprisco e um pastor, e que todos Vos rendam glória em vosso santo templo: Et in templo eius omnes dicent gloriam. Amém.

domingo, 9 de outubro de 2011

Beata Ângela Maria Truszkowska, Fundadora - Festejada 10 de outubro

     Sofia Camila Truszkowska nasceu no dia 16 de maio de 1825 em uma família abastada de Kalisz (Polônia). Veio ao mundo prematuramente e com a saúde muito frágil, foi batizada só em 1° de janeiro de 1826.
     Recebeu em casa a primeira instrução, dada por uma senhora dotada de excelentes qualidades intelectuais e morais. A menina logo se tornou vivaz e de bom coração; desde pequena tinha um olhar especial para os pobres. A mãe, atenta e zelosa, dedicava a ela, que era a primogênita, e aos irmãos todo o seu dia.
     A família transferiu-se para Varsóvia, onde Sofia frequentou a prestigiosa Academia de Madame Guerin; seu professor foi o poeta Estanislau Jachowicz que infundiu nela sentimentos bons e altruístas. Foi obrigada a interromper os estudos quando, aos 16 anos, contraiu a tuberculose. Para curar-se, permaneceu um ano na Suíça.
     Nesse período, Sofia amadureceu a inclinação pela solidão e, contemplando o majestoso cenário dos Alpes, sentiu o desejo de consagrar-se ao Senhor. No futuro afirmaria que ali aprendeu a rezar.
     De volta para Varsóvia, iniciou uma atividade caridosa em favor dos pobres, enquanto enriquecia sua cultura graças à vasta biblioteca paterna, e freqüentava assiduamente os Sacramentos. Pensou entrar no Mosteiro das Visitandinas, mas, seguindo a sugestão do confessor, dedicou-se no cuidado do pai doente.
     Retornando das termas de Salzbrunn, onde estivera acompanhando o pai, permaneceu em Colônia. Entre as ogivas silenciosas da Catedral de Colônia compreendeu que o Senhor a queria por esposa, embora não soubesse ainda como.
     Em 1854, fundou um asilo para dar assistência a algumas crianças órfãs dos bairros pobres de Varsóvia e aos idosos sem casa. Esta obra ficou conhecida como Instituto da Senhora Truszkowska. Sua habilidade e dedicação atraíram muitas voluntárias e devotos amigos influentes, de modo que a obra do Instituto floresceu. Inscreveu-se na Ordem Terceira Franciscana tomando o nome de Ângela. Seu pai espiritual era o capuchinho Padre Honorato Kozminski (1829–1916), ele também declarado beato posteriormente. Ele tornou-se seu confessor até a sua morte.
     Depois de algum tempo, com a prima Clotilde, transferiu a própria residência para o Instituto, a fim de estar noite e dia mais presente junto aos pequenos hóspedes. Em 21 de novembro de 1855, com a prima, se consagrou ao Senhor, com a finalidade de servir os pobres. Nascia assim a futura Congregação das Irmãs de São Felix de Cantalicio.
     Ângela muitas vezes levava os órfãos à igreja dos Capuchinhos de Cracóvia. Ali rezava diante do quadro que representava São Felix abraçando o Menino Jesus. No Divino Redentor feito homem meditava o amor misericordioso de Deus que chama para Si a humanidade. Como o santo capuchinho, ela também desejava abraçar e ajudar, em nome do Senhor, todos que encontrasse no caminho.
     O número dos órfãos aumentou em pouco tempo e o Beato Honorato foi nomeado Diretor do Instituto. Em 10 de abril de 1857, com nove companheiras, Ângela vestiu o hábito religioso, tomando o nome de Irmã Ângela Maria. A comunidade agregou-se a Ordem Terceira Franciscana.
     Era um tempo difícil para a Polônia, que estava sob a ocupação russa. O Instituto foi reconhecido somente como uma obra de caridade, pois as Congregações religiosas estavam proibidas.
     Contudo, Madre Ângela mantinha sua Congregação em segredo, e o desenvolvimento da obra foi grande: em apenas sete anos 34 casas foram abertas. Além disso, um ramo contemplativo nasceu para atrair todas aquelas que aspiravam pela clausura. Hoje este ramo tem o nome de Irmãs Capuchinhas de Santa Clara.
     A Madre, como era chamada a Irmã Ângela Maria, embora mantivesse o governo dos dois institutos, se retirou no ramo contemplativo. Foi eleita Superiora em 1860 e confirmada em 1864.
     Em 1863, o povo polonês se insurgira contra o invasor: as Irmãs Felicianas transformaram suas casas em hospital para tratar dos feridos, indistintamente poloneses e russos.
     Em 16 de dezembro de 1864, suspeitando que as Irmãs apoiavam os insurgentes, os russos suprimiram o Instituto. A Beata, com o ramo claustral, se retirou junto às Irmãs Bernardinas – as outras voltaram para suas casas.
Varsóvia - Pça Castelo Real
     Um ano depois, quando a Polônia ficou sob o jugo da Áustria, o Imperador Francisco José concordou com a restauração da Congregação, mas, devido a uma enfermidade, Madre Ângela só pode reunir-se às suas Irmãs na Cracóvia em 17 de maio de 1866.
     Dois anos depois, ela foi eleita Superiora Geral, professando publicamente os votos perpétuos. No ano seguinte, porém, renunciou ao cargo por causa do agravamento das condições de saúde, incluindo uma grave surdez. Viveu os 30 anos restantes (de 1869 a 1899) em seu retiro, dando um grande exemplo de virtude às Irmãs.
     Naqueles anos, intensa foi a sua atividade epistolar. Passava os dias rezando, frequentemente com o Santo Rosário, preocupando-se com o decoro da igreja. Para tanto, cultivava pessoalmente as flores para adorná-la, e cosia os hábitos sacerdotais.
     Em 1872, foi atingida por um câncer do estomago. Os sofrimentos foram tais, que se pensou, a um certo ponto, que ela tivesse perdido as faculdades mentais. Ela, no silêncio, oferecia as suas provações ao Senhor para o bem da obra.
     Em 1874, o Instituto obteve do Beato Pio IX o “decretum laudis”. No mesmo ano, as primeiras missionárias partiram para as Américas, abençoadas pessoalmente pela Beata. Três meses antes de sua morte, em julho de 1899, as Constituições foram aprovadas definitivamente.
     O câncer havia devastado o seu corpo, golpeando também a coluna vertebral. À sua cabeceira estavam presentes muitas Irmãs, que abençoou impondo suas mãos. Madre Maria Ângela Truszkowska faleceu no dia 10 de outubro de 1899. Os seus despojos são hoje venerados na igreja da Casa Mãe de Cracóvia.
     Ela foi elevada às honras dos altares em 18 de abril de 1993.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Beata Maria Rosa Durocher, Fundadora - Festejada 6 de outubro

     Uma jovem nascida em um vilarejo, de saúde frágil, jamais pensou que um dia iria fundar uma Congregação de irmãs educadoras, difundida hoje em várias partes do mundo. Mas Nosso Senhor se serve de instrumentos pequenos.
     Eulália Melânia Durocher nasceu em Saint-Antoine-sur-Richelieu, pequena aldeia de Quebec (Canadá), no dia 6 de outubro de 1811, de uma família muito religiosa. Era a última de dez filhos, três dos quais se tornaram sacerdotes e duas religiosas. Os pais, agricultores, também na juventude tinham pensado em consagrar-se a Deus.
     Eulália cresceu em um ambiente sadio, tranqüilo e profundamente católico. Aprendeu com a mãe a rezar e a socorrer os pobres e doentes. O avô paterno ministrou-lhe os primeiros rudimentos de letras.
     Na idade de 10 anos foi mandada para o Colégio das Irmãs de Nossa Senhora em St. Denis, onde permaneceu por dois anos e recebeu a Primeira Comunhão. Retornou para casa por problemas de saúde, até que em 1827, amadurecendo a vocação religiosa, entrou na comunidade de Montreal daquela Congregação. Nos três anos seguintes, teve que voltar para casa várias vezes, sempre devido a saúde precária, e, finalmente, renunciou ao seu desejo de tornar-se religiosa.
     Com a idade de 19 anos, quando da morte de sua mãe, teve que assumir a responsabilidade do governo da casa. Pouco depois, o seu irmão Teófilo, pároco de Beloeil, chamou-a para tomar conta da residência paroquial, onde se alojavam padres e seminaristas doentes. Transferiu-se então com o pai para junto do irmão sacerdote.
     Não lhe faltaram sofrimentos da parte das empregadas mais antigas, que suportou com paciência, sem se queixar. Além do trabalho da casa, ocupou-se em dirigir as obras de caridade da paróquia e estimular a piedade mariana das jovens.
     No ano seguinte, algumas jovens começaram a ajudá-la e formaram a associação das Filhas de Maria, a primeira do Canadá. Eulália foi eleita diretora da associação, mas o seu desejo de consagrar-se toda a Deus permanecia forte e, em 1841, pronunciou, nas mãos do confessor, os votos privados de pobreza, castidade e obediência.
     O trabalho na paróquia a fazia compreender quão necessária era a instrução dos pobres, que naquele tempo estavam quase privados dela.
     A situação sócio-política do Canadá era complicada. No século anterior, depois da guerra entre a França e a Inglaterra (1763), o país havia passado para o controle inglês. Desde a sua fundação (1603), a “Nouvelle France” (a Nova França) havia nascido graças à imigração do velho continente, regulada por normas precisas. Os habitantes eram todos católicos franceses e a convivência com os ingleses (protestantes) não era fácil.
     Com a Revolução Americana, os colonos que não queriam separar-se da Coroa Britânica se refugiaram no Canadá. Eles se estabeleceram sobretudo no oeste, em Ontário, deixando aos franceses os territórios do leste. A convivência entre as duas comunidades, que implicava na escolha dos governos, a liberdade de imprensa e o controle do comércio, era difícil. Houve revoltas contidas à força (1838), porque os franceses, sendo a maioria, tinham menos direitos.
     Nesse ambiente complexo se insere a história da beata. Na sua cidadezinha, para instruir o povo, se procurou fazer vir da França a Congregação dos Santos Nomes de Jesus e Maria que, impossibilitada de abrir uma casa no ultramar, mandou suas próprias constituições para que se inspirassem nelas.
     O confessor de Eulália, um Missionário Oblato de Maria Imaculada (fundado por Santo Eugênio de Mazenod), aconselhou então a jovem a dar vida a uma nova família religiosa.
     Eulália, contra toda expectativa, junto com duas amigas, formou a primeira comunidade, alojando-se em uma velha escola. Naquele mesmo ano, Santo Eugênio de Mazenod enviou da França os seus missionários a Montreal, o que facilitava o desenvolvimento de sua Congregação. A diocese católica era grande e havia muito trabalho a fazer.
     Nasceu assim, em Longueuil, no dia 28 de outubro de 1843, as Irmãs dos Santos Nomes de Jesus e Maria. Aprovada pelo Bispo Ignace Bourget em 29 de fevereiro do ano seguinte, em 8 de dezembro de 1844, procedeu-se à profissão religiosa e Eulália adotou o nome de Maria Rosa, sendo nomeada superiora e mestra de noviças.
     Em 1845, a Congregação teve sua personalidade jurídica reconhecida pelo Parlamento. A direção dos Oblatos de Santo Eugênio foi fundamental na formação das religiosas, bem como a ajuda dos irmãos de Madre Maria Rosa, em particular de Teófilo. Mantiveram as constituições do Instituto de Marselha, adotando o método de ensino dos Irmãos das Escolas Cristãs.
     A Congregação multiplicou o seu apostolado, algumas iniciativas eram a pagamento e assim se pode financiar a atividade educativa para as famílias pobres.
     Madre Maria Rosa tinha finalmente cumprido sua missão terrena, lançando no seio da Santa Igreja uma semente fecunda. Morreu com somente 38 anos, em 6 de outubro de 1849. Pouco antes de expirar, sorridente, disse às Irmãs reunidas em torno de seu leito: “As vossas orações me detêm aqui, deixem-me ir!”
     A Congregação, que em 1877 se tornou de direito pontifício, se dedica ainda hoje principalmente à instrução e à catequese, seguindo a espiritualidade inaciana. Difundiu-se por várias partes do mundo: além do Canadá e dos Estados Unidos, está presente no Japão, Brasil, Peru, Camarões, Haiti, Nigéria.
     Os despojos mortais de Madre Maria Rosa são venerados na Catedral de Santo Antonio da diocese de St-Jean-Longueuil. Foi beatificada em 23 de maio de 1982.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Santa Maria Faustina, a Apóstola da Divina Misericórdia - Festa 5 de outubro

Santa Maria Faustina é a apóstola da Divina Misericórdia. Por meio dela Nosso Senhor Jesus Cristo enviou ao mundo a grande mensagem da sua Misericórdia Divina.

     Santa Maria Faustina nasceu no dia 25 de agosto de 1905, no vilarejo de Glogowiec, próximo da cidade de Turek, como terceira filha de uma prole de dez crianças do casal Mariana e Stanislao Kowalski. No batismo recebeu o nome de Helena. Frequentou a escola somente por três anos. Era uma aluna atenta e inteligente, mas a necessidade de ajudar a sua mãe nos trabalhos a impediram de estudar.
     Completados os 15 anos, foi trabalhar como doméstica na casa de conhecidos dos pais em Aleksandròw Lúdzki; depois trabalhou em Lúdz e Ostrúwek perto de Varsóvia, até a sua entrada no convento. Desde criança, sentia o desejo de aproximar-se de D eus, amadurecendo nela a decisão de torna-se religiosa. Em seu diário, com muita discrição, ela diz: “Aos sete anos ouvi pela primeira vez a voz de Deus na minha alma, isto é, a chamada a uma vida mais perfeita, mas nem sempre obedeci a voz da graça. Não encontrei ninguém que me esclarecesse estas coisas”.
     “O chamado contínuo da graça era para mim um grande tormento, porém procurava sufocá-lo com os passatempos. Evitava encontrar-me com Deus intimamente e com toda a alma me abria às criaturas. ... Uma vez fui a um local de dança com uma das minhas irmãs. Enquanto todos se divertiam muitíssimo, a minha alma começou a experimentar íntimos tormentos. No momento em que comecei a dançar, percebi Jesus perto de mim, Jesus flagelado, sem as suas vestes, todo coberto de feridas, e que me disse estas palavras: ‘Quanto tempo ainda deverei suportar-te? Até quando me renegarás?’ No mesmo instante acabou o alegre som da música; desapareceu da minha vista a companhia com que me encontrava. Ficamos só Jesus e eu. Sentei-me perto da minha querida irmã, fazendo passar por uma dor de cabeça aquilo que tinha acontecido dentro de mim. Pouco depois abandonei a companhia de minha irmã e fui à Catedral de S. Estanislau Kostka. Era quase noite. Na catedral havia poucas pessoas. Sem dar importância ao que acontecia ao meu redor, me ajoelhei com os braços apertos diante ao SS. Sacramento e pedi ao Senhor que se dignasse de me fazer conhecer o que deveria fazer. Então escutei estas palavras: ‘Parte imediatamente para Varsóvia, lá entrarás no convento’. Levantei da oração e fui para casa. Fiz as coisas indispensáveis. Coloquei minha irmã ao corrente do que tinha acontecido à minha alma, pedi a ela que cumprimentasse nossos pais e assim, só com um vestido, sem nada mais, cheguei em Varsóvia”.
     Era julho de 1924. No mesmo mês, Helena se apresentou à Congregação das Irmãs da Beata Virgem Maria da Misericórdia pedindo ser admitida. Não lhe foi negado, mas pediram a ela que esperarasse um ano. Finalmente, foi acolhida no convento o dia 1° de agosto de 1925. Durante a vestição (30/04/1926) recebeu o nome de Maria Faustina. Irmã Faustina esteve em várias casas da sua congregação: em Varsóvia, em Plock, em Wilno, em Cracóvia até a sua morte, e também por breves períodos em Kiekrz, perto de Poznan, em Walendòw e Derdy e, por motivos de saúde, em Skolimòw perto de Varsóvia e em Rabka.
     Irmã Maria Faustina trabalhou como cozinheira, jardineira, vigia, como ajudante na padaria e se ocupou dos vestiários do convento. Algumas ocupações, devido a sua saúde frágil, eram muito cansativas e às vezes insuportáveis. Em diversas ocasiões, Irmã Maria Faustina foi acusada de simular a doença para não trabalhar. Isto a fazia sofrer muito, mas não se lamentava.
     Irmã Maria Faustina foi uma filha fiel da Igreja, que ela amava como Mãe e como Corpo Místico de Cristo. Sabendo qual era o seu lugar na Igreja, colaborava com a Misericórdia Divina na obra da salvação das almas perdidas. Respondendo ao desejo e ao exemplo de Jesus, oferecia a sua vida em sacrifício.
     A missão de Irmã Maria Faustina foi descrita no "Diário" que ela escrevia seguindo o desejo de Jesus e à sugestão dos padres confessores, anotando fielmente todas as palavras de Jesus e revelando o contato da sua alma com ele.
     Irmã Faustina ofereceu a sua vida a Deus em sacrifício pelos pecadores, a fim de salvar as suas almas, e por essa razão foi submetida a numerosos sofrimentos. Nos últimos anos de vida intensificaram-se os sofrimentos interiores da "noite passiva do espírito",  bem como os problemas físicos de saúde. Desenvolveu-se a tuberculose, que atacou os pulmões e o estômago. Em razão disso, por duas vezes, e por um período de vários meses, permaneceu em tratamento no hospital de Pradnik, em Cracóvia.
     Completamente esgotada fisicamente, mas em plena maturidade espiritual e misticamente unida a Deus, faleceu no dia 5 de outubro de 1938 com fama de santidade, tendo apenas 33 anos de idade, dos quais 13 anos de vida religiosa. Seu corpo foi sepultado em um túmulo no cemitério do convento, em Cracóvia. No período do processo informativo para a sua canonização, em 1966, foi transferido para a capela do mesmo convento.
A Imagem da Divina Misericórdia
Diário, 22 de fevereiro de 1931:
     À noite, quando me encontrava na minha cela, vi Nosso Senhor vestido de branco. Uma das mãos estava erguida para a bênção, e a outra tocava-lhe a túnica, sobre o peito. Da túnica entreaberta sobre o peito saíam dois grandes raios, um era vermelho e o outro branco. Em silêncio, eu contemplava o Senhor. A minha alma estava cheia de temor, mas também de grande alegria.
     Logo depois, Jesus me disse: Pinta uma Imagem de acordo com o modelo que estás vendo, com a inscrição: Jesus, eu confio em Vós. ... Prometo que a alma que venerar esta Imagem não perecerá. Prometo também, já aqui na Terra, a vitória sobre os inimigos e, especialmente, na hora da morte.
     ... Eu desejo que haja a Festa da Misericórdia. Quero que essa Imagem, que pintarás com o pincel, seja benta solenemente no primeiro domingo depois da Páscoa, e esse domingo deve ser a Festa da Misericórdia.
     Eugênio Kazimirowski, famoso e hábil pintor, mostrou-se digno de pintar a Imagem de Jesus Misericordioso. Pintar sob orientação significava renunciar à própria visão artística, em prol de uma execução fiel do que lhe era relatado por Irmã Maria Faustina, que vinha ao ateliê do pintor ao menos uma vez por semana, durante seis meses, a fim de sugerir detalhes e apontar os erros.
     "Quando fui à casa daquele pintor que estava pintando a Imagem, e vi que ela não era tão bela, como o é Jesus, fiquei muito triste com isso, mas escondi essa mágoa no fundo do meu coração. … A Madre Superiora ficou na cidade para resolver diversos assuntos e eu voltei para casa sozinha. Imediatamente dirigi-me à capela e chorei muito. Eu disse ao Senhor: Quem vos pintará tão belo como sois? Então ouvi estas palavras: O valor da Imagem não está na beleza da tinta, nem na habilidade do pintor, mas na minha graça." (Diário, 313).
     O extraordinário cuidado na execução da Santa Efígie do Salvador, gravada na memória de Santa Maria Faustina, é confirmado pelo fato de que a efígie pintada corresponde perfeitamente às proporções e à figura estampada no Sudário de Turim.
     Desde 2005 a Imagem é venerada na mesma capela-santuário de Ostra Brama, hoje Santuário da Misericórdia Divina, em Vilnius, Lituânia. A primitiva Imagem, pintada pelo pintor Eugênio Kazimirowski, e feita segundo a orientação direta da Irmã Faustina, não deve ser confundida com a pintura feita em 1944 pelo artista Adolfo Hyla, que pintou segundo a sua própria concepção; essa obra encontra-se exposta em Cracóvia, Polônia. O simples cotejo entre ambas revela a autenticidade e superioridade da pintura feita por Eugênio Kazimirowski conforme as indicações de Santa Maria Faustina.

sábado, 1 de outubro de 2011

Santa Teresinha do Menino Jesus, Carmelita e Doutora - Festa 1 de outubro

A personalidade de Santa Teresinha em duas fotografias
     Alguém poderia objetar que, para ter sede das almas, é preciso senti-las. Como é que se sentem, como é que se percebem as almas? Qual é a atitude ordenada que a pessoa deve ter diante da alma que percebe?
     Para que essa questão muito importante ficasse bem clara, achei que nada seria melhor do que trazer aqui esta magnífica fotografia de Santa Teresinha do Menino Jesus. É realmente magnífica; falta apenas o relevo, para se dizer que ela está viva.
     Para comentar essa alma, eu pediria um esforço um pouco singular, que é o seguinte: não prestar tanta atenção no que irei dizendo, mas em si mesmos. Procurarei explicitar, não o que eu penso de Santa Teresinha, mas o que uns tantos ou quantos pensam dela. Quer dizer, que impressão a visão desta fotografia produz em uns tantos ou quantos.
Primeira impressão
     A primeira impressão, ao olhar para ela, é a seguinte: Que menina! A primeira explicitação, o primeiro jorro, deve ser assim. Ela é ainda menininha, cheia de vida, de frescor, saltitante, e com essa espécie de extroversão própria de uma menina ainda na infância. Aí se vê a beleza de uma alma de criança, na delicadeza, na fragilidade, na louçania da natureza feminina. Como essa fotografia é bem apanhada, e como pegou bem essa menina! Essa é a primeira impressão.
Idéia de pureza
     Por detrás dessa impressão entra uma outra, pela qual a pessoa reconhece tudo aquilo, mas ao mesmo tempo em que se embevece com a inocência, com a vivacidade e a louçania dessa menina, sente uma idéia de pureza associada a isso. E sente-a mais ou menos em tudo. A pureza vem presente, antes de tudo, no seguinte: nota-se nela, no sentido verdadeiro da palavra, uma boa espontaneidade.
     É uma menina que não esconde nada, que não tem o hábito de esconder nada, e que sabe perfeitamente que não tem o que esconder. Ela não tem fraude nem dissimulação. Dela se pode dizer o que Nosso Senhor disse de Natanael: "Aqui está um verdadeiro israelita, no qual não há fraude" (Jo. 1, 47). Aqui está uma verdadeira menina, pura, filha de uma família católica, que tem em si toda a pureza, toda a candura de uma vida de família católica, toda aquela delicadeza virginal que a vida de família católica comunica especialmente a uma menina. E isso sem fraude nenhuma. Ela tem isso inteira, e não tem o hábito de pecar.
A infância meditativa
     Era uma criança altamente meditativa. No fim da vida, quando estava madura para o Céu, e portanto quando tinha atingido a santidade a que a havia destinado o desígnio da Providência, ela contava que quando tinha por volta dos dez anos - quer dizer, um pouquinho mais velha do que está aqui - ia com a irmã a um belvedere lá dos Buissonnets, e tinham conversas em que ela recebia tantas ou mais graças do que as que receberam Santo Agostinho e Santa Mônica no famoso colóquio da hospedaria de Óstia, pouco antes de Santa Mônica morrer. Portanto, quando a santidade de Santa Mônica estava consumada, e ela estava para ir para o Céu.
     No fundo, nota-se isso no olhar dela. Não se pode descrever um olhar. Se se perguntasse a São Pedro o que lhe disse o olhar de Nosso Senhor, o que poderia ele responder? Responderia: "Ele disse algo por onde eu chorei a vida inteira. As lágrimas mais amargas e mais doces que jamais se choraram, depois das de Nossa Senhora, chorei-as eu". E não teria outra coisa para dizer, pois o olhar é algo de inefável.
A principal etapa da vida
    Quero insistir sobre o seguinte ponto: Santa Teresinha morreu aos 24 anos, e se volta muito para a sua infância. Essa época marcou tão profundamente os rumos de sua vida, que é a mais ilustrativa para se conhecer o seu espírito. Tenho impressão de que na vida de Santa Teresinha os pontos culminantes são a sua infância e o fim, às vésperas da morte.
     Aqui está, a meu ver, um elemento precioso para o conceito de infância espiritual. Não é bobeira, não é tolice, muito menos irreflexão. É, de dentro de uma alma pequena, de uma alma de criança, ser capaz das maiores coisas; com uma apresentação amável, afável e autêntica, não a pura apresentação do espírito de uma criança. Aqui está a questão, e aqui, a meu ver, está a nota: Santa Teresinha poderia repetir que as nossas cogitações e as nossas vias não são as dela.
     Mas não é o que ela nos diria. A sua missão é a de, pela sua presença, e como num "flash", apresentar a via dela e atrair, arrastar para a sua via. E isso com o afável, com o pequeno, o acessível, o encantador que a infância tem. Mas que infância meditativa! Que infância fecunda! Uma infância que se pode comparar ao fim da vida de Santa Mônica! É uma santa falando de si mesma.
     Aí se vêem os tesouros de maturidade, de meditação, de profundidade, e, se necessário for, de atividade, que cabem dentro da verdadeira infância espiritual. Foi ela quem disse: "Para o amor nada é impossível". Em nossa linguagem isso se traduz: "Para o enlevo, para o zelo do verdadeiro católico, nada é impossível". (¹)
 
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     "Ecce in pace amaritudo mea amarissima". Essa frase do Rei Ezequias (Isai. 38, 17) costuma ser transcrita junto a estampas representando Nosso Senhor ou Nossa Senhora durante a Paixão.
     Quem sabe vislumbrar através dos traços de uma fisionomia um estado de alma não pode deixar de pensar que essas palavras mereceriam estar escritas ao pé desta segunda fotografia, que nos mostra uma figura sorridente, mas indizivelmente dolorosa.
     O sorriso não procura esconder a dor, mas afirmar-se por um prodígio de virtude, de fidelidade à graça, apesar da dor. Os lábios sorriem só porque a vontade quer que eles sorriam, e a vontade o quer porque essa alma tem fé, e sabe que depois das provações e das trevas desta vida terá como prêmio Aquele que disse de Si: "Serei Eu mesmo vossa recompensa demasiadamente grande" (Gen. 15, 1). Essa recompensa será Aquele de quem Santa Teresa de Ávila proclamou: "Ainda que não houvesse Céu eu Vos amara, ainda que não houvesse inferno eu Vos temera". Nessa alma há ordem, e há aquela tranqüilidade inconfundível que vem da ordem: apesar de um oceano de dor, há verdadeira paz.
    De um oceano de dor, dizíamos. Um desses oceanos de aridez e sofrimento tão grandes que não cabem na terra, e só em uma alma católica e generosa podem caber.
     Vítima do Amor misericordioso, Santa Teresinha se oferecera em holocausto, e esse holocausto fora aceito. Ela estava a dois passos da morte, por efeito de uma moléstia implacável, e provas interiores misteriosas e terríveis enchiam sua alma. Dias antes de morrer, escreveu. "O demônio anda em volta de mim: não o vejo, mas sinto-o, porque me está atormentando e segurando-me com mão de ferro, sem me deixar o menor alívio, para com a força das dores me fazer desesperar... Quão necessária é aquela oração de completas: "Livrai-nos, Senhor, dos fantasmas da noite" (História de uma Alma, cap. XII).
     É toda essa dor que se exprime no olhar luminoso e triste, que parece chorar enquanto os lábios sorriem. É uma tristeza ordenada, sem revolta, nem sentimentalismo, nem vaidade. Uma tristeza que na mera criatura lembra o divino modelo da tristeza profunda, mas santamente sujeita à vontade divina, do Cordeiro de Deus.
     Junto à Santa, dois símbolos: o lírio e a cruz fria e nua de Nosso Senhor Jesus Cristo.     Aí está a tranqüilidade da ordem, em meio à aridez e à dor. E ainda aqui, se poderia dizer à humanidade: "Se conhecesses o dom de Deus..." (Jo. 4, 10).
*   *   *
     Se todas as almas, na alegria como na dor, procurassem a paz verdadeira, então sim, o mundo teria essa paz que lhe poderá dar. Mas, dirá alguém, isto é para Freiras. Objeção ignóbil e ridícula, como a do indivíduo que vendo um regimento desfilar com garbo ou morrer com bravura, dissesse: "Patriotismo não é comigo. É coisa para soldado". (²)
 
Fontes:
(¹) Plinio Corrêa de Oliveira, Conferência maio de 1968 (excertos);
(²) Plínio Corrêa de Oliveira, Catolicismo Nº 111 - Março de 1960 (excertos).