quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Santa Francisca Xavier Cabrini, Fundadora - Festa 22 de dezembro

     Nasceu dia 15 de julho de 1850 em Sant'Angelo Lodigiano, Lombardia, Itália. Filha do agricultor Agustine Cabrini e de sua esposa Estella, era a última de treze filhos. No dia em que nasceu, um bando de pombos brancos sobrevoou a sua casa. Seu nome de batismo era Maria Francisca.
     Quando pequena, Chiquinha (como era conhecida) gostava de brincar de barquinhos e de colher violetas. Quem a conheceu dizia que tinha pequena estatura e grande espírito. Recebeu uma educação no convento de Arluno e formou-se professora. Sua mãe rezava por uma hora antes de ir para a missa e ela seguia seu exemplo. Às vezes se refugiava num local onde sozinha podia rezar tranqüila.
     Quando adolescente, era franzina e muito tímida. Mais tarde disse: "Quem diria que eu fui por tanto tempo tão tímida? Não ousava levantar os olhos, por medo de faltar a modéstia. Chegou o dia, porém, em que compreendi que na verdade devia tê-los bem aberto para o bem do Instituto. E nada mais pôde me intimidar".
     Parece que o destino de Madre Cabrini era mesmo as viagens, pois ela gostava de Geografia e vivia debruçada nos Atlas.
     Ficou órfão bem jovem e aos 18 anos queria ser religiosa, mas sua saúde delicada impediu que recebesse o véu. O Padre Serati pediu que ela ensinasse na escola de meninas "A Casa da Providência", um orfanato em Codogno, Itália, e lá ela ensinou por seis anos.
     Ela fazia tão bem seu trabalho, que quando o orfanato fechou, em 1880, o Bispo de Todi pediu que ela fundasse o Instituto das Irmãs Missionárias do Sagrado Coração de Jesus para cuidar das crianças pobres nas escolas e em hospitais.
     Segundo a tradição, embora elas não tivessem dinheiro para prover o que era necessário para as crianças, sempre que Francisca enviava uma das Irmãs para buscar leite, o pote estava sempre cheio, e quando buscava pão, o cesto de pão estava também cheio. Milagrosamente não faltava comida para as crianças.
     Madre Cabrini colocou sua obra sob a proteção do grande missionário São Francisco Xavier, de quem era devota e a quem desejaria imitar sendo missionária na China, assumindo ela mesma o nome do seu patrono. No mesmo ano ela abriu uma casa para moças e no ano seguinte abriu outra casa em Milão.
     Em 1887 foi a Roma para conseguir a aprovação das Regras do Instituto e pedir permissão para abrir outra casa em Roma. Conseguiu a aprovação para abrir duas casas: uma escola para crianças pobres e um orfanato. Em 1888 conseguiu a aprovação da Constituição do Instituto.
     De 1901 a 1913, 4.7 milhões de italianos imigraram. Era um verdadeiro problema social. Como havia um grande número de emigrantes italianos em Nova York , o Arcebispo Corrigan enviou um convite formal a ela para ir para a América, e logo depois o Papa Leão XIII deu a sua permissão e bênção para que ela fosse para os Estados Unidos.
     Ela e seis outras freiras chegaram em Nova York em 1889. Elas trabalharam principalmente com os emigrantes italianos. Em março de 1889 ela já tinha o terreno que queria. Apesar de toda fragilidade e saúde precária, nos próximos 28 anos ela viajou pelos Estados Unidos fundando escolas, orfanatos e hospitais. Nada a fazia parar.
     No dia 11 de junho de 1894, numa audiência com o Papa, ela recebeu a aprovação para uma expedição que desejava fazer para o Brasil. Em 1896 ela montou um colégio em Lima (Peru). Na mesma ocasião esteve no Equador e na Argentina.
     Ela fundou 67 instituições incluindo escolas, hospitais e orfanatos na América, Chile, Venezuela, Brasil e Argentina. Para expandir sua obra, Santa Francisca fez vinte e quatro travessias oceânicas, fato extraordinário para a época. Ela se tornou a mãe dos imigrantes italianos em toda a América.
     Em 1900 ela retornou à Argentina e apesar de muito debilitada abre o Colégio Internacional de Rosário. Debilitada pela constante febre, se vê obrigada a retornar à Itália. Nomeia as irmãs responsáveis pela continuação de suas obras. Era o ano de 1902. E quando todos pensavam que era o fim, ela se recuperou da febre para continuar o seu trabalho. Visitou uma a uma de suas obras na Itália, França e Espanha. Quanta força tinha!
     Em New Orleans , verão de 1905, uma epidemia de febre amarela matou muita gente. E as irmãs de Madre Cabrini permaneceram firmes porque sabiam que o povo precisava delas.
     Madre Cabrini com 57 anos e com a saúde debilitada não se deu por vencida e voltou a viajar. Ao invés de ficar na Itália, resolveu vir ao Brasil. Aqui já havia uma casa que tinha sido aberta por um grupo de irmãs da Argentina.
     No ano de 1908 ela enfrentava uma epidemia e uma perseguição no Rio de Janeiro. Não se deixou abater e ainda teve forças para procurar um terreno na Tijuca para abrir um colégio.
     Depois de um ano no Rio de Janeiro, Madre Cabrini voltou para os Estados Unidos a fim de percorrer suas obras. Vai para a Itália e o Papa São Pio X, com um decreto de 16 de julho de 1910, confirma Madre Cabrini como Superiora Geral vitalícia.
     Em dezembro de 1911, com as poucas forças que lhe restam, resolve voltar aos Estados Unidos, onde ainda tem forças para reerguer o Hospital Columbus de Nova Iorque. Amplia e constrói escolas e orfanatos.
     Ela faleceu de malária em 22 de dezembro de 1917 em Chicago, Illinois, USA. Foi enterrada na Capela do Colégio Madre Cabrini em Nova York. Foi canonizada em 7 de julho de 1946 pelo Papa Pio XII
     Quando Madre Cabrini faleceu, o Instituto contava com 4.000 freiras.
     Santa Francisca Cabrini é considerada a primeira santa dos Estados Unidos, já que ela obteve a cidadania americana em 1913. Mas os títulos mais importantes são o de Santa dos Italianos na América e o concedido pelo Papa Pio XII em 8 de setembro de 1950: o de patrona universal dos imigrantes. Além dos EUA, também há uma estátua de bronze em homenagem à santa na Argentina.
     No Brasil, Nova Friburgo (RJ) ganhará um monumento a Santa Francisca Xavier Cabrini. A idéia é do presidente da Associação Ítalo-Brasileira de Arte e Cultura (Aibac), Giuseppe Arno, que pretende erguê-lo na Praça do Suspiro, onde já funciona a Praça das Colônias – um complexo dedicado às representações dos países colonizadores do município.
 
Sta Francisca jovem religiosa
Transplante de olhos feito por Deus
 
     O caso é referido em quase todas as biografias da santa. Foi um dos milagres aprovados para a Beatificação da Madre Cabrini.
     Aconteceu no Hospital Columbus, de Nova York. A superiora e responsável pela direção geral do Hospital era a Madre Teresa Basigalupi. No processo, a Madre Teresa omite o nome da Irmã encarregada da Seção.
     O acidente aconteceu por volta do meio-dia de 14 de março de 1921. O Dr. Michal Joseph Horan e a enfermeira Srta. Maria Redmond assistiram ao parto, e foi esta quem lavou os olhos do bebê com uma solução de nitrato de prata a 50 por cento, em vez de 1 por cento, que seria o correto O recém-nascido era Peter, filho primogênito do jovem casal Peter e Margaret Smith.
     Quando uma hora mais tarde outra enfermeira - Srta. Sifert - acudiu apavorada pelo estado dos olhos do bebê, a Irmã responsável pela Seção compreendeu a tragédia que ocasionara ao fornecer por erro um vidro diferente do devido. O Dr. Paulo Casson acudiu. Os olhos do bebê estavam inflamados e pretos, tão inchados que não se abriam. Não teve dúvidas: o menino iria morrer; e, se escapasse, certamente ficaria absolutamente cego.
     Às 21 horas o Dr. Horan voltou ao leito do bebê trazendo o especialista em oftalmologia Dr. Keaney , que só com ajuda de um instrumento próprio (Lindhbers) conseguiu abrir as pálpebras inchadas e coladas. A conjuntiva estava gravemente queimada. A córnea de ambos os olhos aparecia ensangüentada, e dos lugares queimados surgia uma secreção amarelo-acinzentada. "Prognóstico: morte, e certamente em poucas horas" (qualquer espécie de inflamação pulmonar em crianças desse tamanho é mortal quase em cem por cento dos casos).
     As irmãs e as enfermeiras, nos horários em que não estavam obrigadas a ficar junto aos doentes, reuniram-se na Capela e rezaram durante toda a noite pedindo um milagre pela intercessão da Madre Fundadora. Sabiam que somente um milagre resolveria a situação do menino, do jovem casal e do próprio Hospital.
     Chegou a manhã do dia 15. Pelas 9 horas o Dr. Horan voltou com o especialista Dr. Keaney, para ver se havia alguma possibilidade de atenuação do dano causado. E o Dr. Keaney... não encontrou nada de errado no menino! Peter Smith "estava absolutamente bem. Não ficou traço algum de cicatriz apesar da queimadura profunda que houvera". Os Drs. Horan, Casson e Keaney "reconheceram espantados que havia se dado um milagre. O menino deixou o hospital absolutamente curado e em estado normal".
     Só havia um pormenor: os médicos constataram que os olhos do garoto estavam perfeitos, mas que não eram dele: eram verdes e não tinham os caracteres dos pais do garoto. Chamaram a Irmã e perguntaram o que havia acontecido, e ela falou da novena a Santa Francisca.
     Depois de 50 anos da morte da santa, desenterraram-na e seu corpo estava intacto, faltando-lhe apenas os olhos, que não estavam na cavidade ocular. Verificaram que os olhos do referido menino eram os da santa. O rapaz na ocasião já era formado de Medicina, mas da data do seu nascimento até a exumação da Santa vinte e oito anos haviam se passado!
     Na manhã de 7 de julho de 1946, Peter Smith, que já havia sido ordenado sacerdote na Igreja da Mother Cabrini School de Nova Iorque, assistiu à solene canonização de Santa Francisca Xavier Cabrini por Pio XII. Estavam também presentes Paulo Pezzini e Ettore Pagetti, protagonistas das duas curas milagrosas aprovadas para a Canonização. As curas de Peter Smith e da religiosa Delfina Grazioli foram os milagres aprovados para a Beatificação.
 

sábado, 17 de dezembro de 2011

Beata Matilde do Sagrado Coração, Fundadora - Festa 17 de dezembro

     Como em muitos casos, uma vocação forte, límpida, entusiasmada, contrasta com um pai que sonha para a própria filha um bom partido e um róseo porvir. Mas a fundadora da Congregação das Filhas de Maria Mãe da Igreja, educada desde pequena na fé católica, muito jovem havia decidido a se dedicar inteiramente a Nosso Senhor.
     Matilde Téllez Robles nasceu em Robledillo de la Vera, nas proximidades de Cáceres, Espanha, no dia 30 de maio de 1841, um dia de plenitude primaveril inundado pela luz da solenidade litúrgica de Pentecostes. No dia seguinte ela recebeu o Batismo na igreja paroquial.
     Matilde era a segunda dos quatro filhos de Félix Téliez Gómez e de sua esposa Basilea Robles Ruiz. No mês de novembro de 1841, devido à profissão de escrivão do pai, a família se estabeleceu em Béjar (Salamanca), cidade importante pela sua indústria têxtil.
     A mãe de Matilde era o centro do lar: desde muito pequenos seus quatro filhos eram ensinados a amar a Deus e a ficarem atentos às necessidades do próximo. O pai também era um bom cristão, mas, sendo um notário famoso, desejava uma vida social brilhante para seus filhos e ficou desiludido quando muito cedo sua filha manifestou claros sinais de vocação religiosa.
     E, como esta vocação não diminuiu com o passar dos anos, ele passou ao ataque cronometrando o tempo que ela passava na igreja e obrigando-a a freqüentar a sociedade. Obedecendo, ela se adorna e participa da vida social, encantando a todos com sua graça juvenil. Mas mesmo assim, a sua inclinação pelas coisas de Deus é clara, e o Sr. Félix, vencido pela constância da filha, deixa-a em liberdade para seguir o caminho por ela escolhido.
     A jovem se entregou a um apostolado intenso: preside as Filhas de Maria, na Conferência de São Vicente exerce a função de enfermeira, ensina catecismo, ajuda na paróquia, numa intensa atividade que tem como centro e inspiração um só pensamento: levar almas a Nosso Senhor Jesus Cristo.
     Matilde se sente atraída pela Eucaristia; amando profundamente aquela presença silenciosa, passava horas em adoração, conciliando com inteligência a ação com a contemplação.
     Pouco tempo depois de completar 30 anos, numa carta escrita no dia 4 de maio de 1874 ao Papa Pio IX, confia o desejo cultivado há anos: fundar um instituto religioso. Mas foi o pai que, novamente, criou obstáculos, desta vez devido ao clima anticlerical que se respirava na Espanha.
     Matilde, no entanto, sofre em silêncio, reza e espera, confortada pelo seu diretor espiritual, Pe. Manuel da Oliva, sacerdote de São Filipe, até que seu pai lhe concedeu a desejada autorização.
     No dia 19 de março de 1875, festa de São José, após a Missa na Paróquia de Santa Maria, ela e sete companheiras deveriam, unidas e solidárias, seguirem para a casa onde dariam início à vida religiosa. Mas, das sete jovens comprometidas só uma se apresenta: Maria Briz. Diante desta grande provação Matilde não desanima. Fortalecidas com a Eucaristia, ela e a sua única companheira se dirigem alegres e esperançosas, com heróica intrepidez, para a «casita de Nazaret», como Matilde a denomina.
     Com Maria, Matilde acolhe em casa um grupo de órfãs, se dedica ao ensino das crianças pobres e passa de casa em casa para cuidar dos doentes.
     No dia 23 de abril de 1876, o bispo de Plasencia, D. Pedro Casas y Souto, autorizou provisoriamente a obra; no dia 20 de janeiro de 1878, Matilde e Maria vestem o hábito religioso naquela cidade. Nasceu assim, em meio às críticas de que aquela fundação era uma autêntica tolice, as “Adoradoras de Jesus e Filhas de Maria Imaculada”.
     No dia 19 de março de 1884, o mesmo bispo erige canonicamente a obra como Instituto religioso de direito diocesano, e no dia 29 de junho, a Fundadora com outras Irmãs emitem a profissão religiosa.
     Na sua casa se respirava o espírito de Nazaré, com a vida em torno do tabernáculo, sendo Nossa Senhora amada de um modo particular. Deste modo as Irmãs encontravam coragem para trabalhar até em uma terrível epidemia de cólera, para passar tanto tempo em adoração, para dedicar-se inteiramente aos pobres e aos doentes, fieis ao moto “oração, ação, sacrifício” transmitido a elas por Matilde.
     No dia 17 de dezembro de 1902, completamente consumida por sua dedicação, pelo trabalho intenso, pelas doenças, aos 61 anos, Matilde faleceu rodeada por suas filhas. Todo o povoado chorou a sua perda como se fosse uma mãe, proclamando ao mesmo tempo a sua grande caridade e as suas numerosas virtudes.
     Suas filhas hoje se chamam Filhas de Maria Mãe da Igreja, estão presentes na Espanha, em Portugal, na Itália, na Venezuela, Colômbia, Peru e México, e continuam a ser uma “eucaristia perene” como ensinou a Fundadora.     Matilde foi beatificada em 21 de março de 2002 por João Paulo II.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Santa Adelaide, Imperatriz - Festejada 16 de dezembro

     Santa Adelaide foi uma maravilha de graça e de beleza, segundo escreveu Santo Odilon de Cluny, que foi seu diretor espiritual e seu biógrafo. Deus, que a reservava para grandes obras, tinha-a dotado de muitas qualidades; era instruída e cultíssima para o seu tempo.
     Filha de Rodolfo II, rei da Borgonha, nasceu em 931, casando-se aos 16 anos com Lotário II, rei da Itália. Este a fez muito infeliz. A filha desse casamento, Ema, seria mais tarde rainha da França.
     Seu marido morreu envenenado três anos mais tarde, segundo se crê, por seu rival Berengário II. Este se proclamou rei da Itália e ofereceu a mão de seu filho à viúva de sua vítima. Recusando-se Adelaide a fazer-lhe a vontade, Berengário apoderou-se de seus Estados e conservou-a presa no castelo de Garda. Ali sofreu os maiores ultrajes, mas ninguém conseguiu demovê-la.
     Conseguindo fugir de seu cárcere, dirigiu-se ao Castelo de Canossa, propriedade da Igreja. Dessa fortaleza inexpugnável, feudo da Igreja que não podia ser invadido por um soberano temporal, em agosto de 951 chamou em seu auxílio Otão I, rei da Germânia. Este atendeu ao seu apelo com um poderoso exército, derrotou Berengário e proclamou-se rei da Itália em Pavia. Como era viúvo, casou-se com Adelaide (Natal de 951). Tiveram cinco filhos, entre os quais Otão II, sucessor de seu pai.
     Dez anos mais tarde, chamado desta vez pelo Papa João XII (955-963), a quem tinham invadido os Estados, Otão retornou a Itália e expulsou o invasor. Em retribuição, recebeu a coroa imperial que tinha sido usada por Carlos Magno. Desta forma nasceu o Sacro Império Romano-germânico que durou mais de oito séculos (962-1805).
Sta. Adelaide e seu esposo Otão I
     Após a morte de seu esposo, Adelaide foi regente do Império durante a menoridade de seu filho Otão II, e, mais tarde, de 991 a 996, durante a menoridade de seu neto Otão III.
     Otão II (973-978) sucedeu seu pai e a princípio, influenciado pela esposa, revoltou-se contra sua mãe. Temendo pela vida, ela refugiou-se na Borgonha, junto a seu irmão Conrado. Foi então que conheceu os Santos Odilon e Maiolo da Abadia de Cluny. Ela espalhou benefícios pelos mosteiros franceses, e deve-se ao seu zelo a reconstrução do mosteiro de São Martinho de Tours destruído por um incêndio. Colaborou ativamente com o Santo Abade na expansão da reforma cluniacense(*) pelo mundo germânico.
     O Abade de Cluny interveio no conflito familiar: mãe e filho se encontram em Pavia; Otão II ajoelhou-se implorando o perdão materno.
     Voltando para a Alemanha, em agradecimento pela reconciliação obtida, Adelaide enviou presentes àquela Abadia por meio de um emissário, e, ao túmulo de São Martinho de Tours, o mais rico dos mantos usado por seu filho.
     Escreveu ela ao encarregado da missão: “Quando chegardes ao túmulo do glorioso São Martinho, dizei: Bispo de Deus, recebei estes humildes presentes de Adelaide, serva dos servos de Deus, pecadora por natureza e imperatriz pela graça de Deus. Recebei também este manto de Otão, seu filho único. E vós, que tivestes a glória de cobrir com vosso próprio manto Nosso Senhor, na pessoa de um pobre, orai por ele”.
     Há uma tal grandeza na simplicidade desse contraste de títulos, que mereceria ser o epitáfio dela; ficaria bem num vitral, debaixo da figura nobre, serena, forte dela a inscrição “Santa Adelaide, Imperatriz, pecadora por natureza, imperatriz pela graça de Deus”.
     Em 983, Otão II morreu, deixando como herdeiro o infante Otão III e regente a esposa, Teófana. A imperatriz, de origem bizantina, ainda era hostil à sogra, e Adelaide teve que deixar a corte novamente.
     Com a morte súbita de Teófana em 991, ela retornou e governou durante a menoridade do neto Otão III. Governou o Império com rara sabedoria, num período que foi para ela cheio de provas e sofrimentos. Na idade de sessenta anos, conta com os sábios conselhos de alguns Santos como Adalberto de Magdeburgo, Maiolo e Odilon de Cluny.
     Adelaide nutrira sempre uma grande capacidade de perdoar os inimigos. Os três últimos anos da vida ela os dedicou mais ativamente a promover o bem da Igreja e a ajudar os pobres. Fundou e restaurou mosteiros masculinos e femininos, sendo especialmente protetora de Peterlingen, São Salvador de Pavia e Seltz. Tentou converter os eslavos, cujos movimentos na fronteira perturbaram os últimos anos de sua vida.
     Pressentindo ter chegado o seu fim, Adelaide se fez transportar para o Mosteiro de Seltz, perto de Estrasburgo, para morrer e repousar junto ao túmulo de Otão I, o Grande, seu segundo marido. Morreu santamente a 16 de dezembro de 999. Foi canonizada pelo Papa Urbano II em 1097.
     Peçamos a Santa Adelaide esse espírito de fortaleza e, ao mesmo tempo, a prudência, a sagacidade, a capacidade de discernir, de dispor dos meios adequados para chegarmos aos fins que nós temos em vista.
   
(*) Cluniacense: relativo a célebre Abadia de Cluny, localizada na Borgonha, França, fundada no século X. Entre 926 e 1156, Cluny foi governada quase ininterruptamente por santos abades: Santos Odon (926-942), Maiolo (965-994) e outros. A Abadia exerceu profunda influência na Cristandade, inclusive além de suas fronteiras. O prestígio da ilustre Abadia perdurou até o século XII.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Beatas Maria Jula Ivanisevic e 4 comp.Mártires do Drina - 15 de dezembro

     Uma croata, duas eslovenas, uma austríaca e uma húngara foram elevadas à glória dos altares em 24 de setembro de 2011 como "mártires do Drina". Elas fazem parte da Congregação das Filhas do Amor Divina.
     Num mundo em que a honra e a dignidade feminina são substituidas por uma liberdade que descamba para a libertinagem, essas cinco mártires da castidade, em pleno século XX, nos dão exemplo de qual é a verdadeira face da mulher católica.
*
     A Serva de Deus Madre Francisca Lechner, Fundadora da Congregação das Filhas do Amor Divino, recebeu do Arcebispo Josef Stadler o convite para a abertura de uma Comunidade de Religiosas em Sarajevo, Bósnia. Após os trâmites legais, a própria Madre Francisca e duas Irmãs partiram de Viena, Áustria, no dia 24 de abril de 1882, e chegaram a Sarajevo no dia 28 do mesmo mês.
     Em Sarajevo as Irmãs trabalhavam em escolas e acolhiam alunas internas e crianças órfãs. Rapidamente seu trabalho foi reconhecido e ganhou o prestígio da população. A missão das Filhas do Amor Divino foi se expandindo em Sarajevo e arredores, com o trabalho abnegado e generoso das Irmãs. Para atender a demanda da missão, foi necessário realizar novas fundações.
     Assim, em 1911, em Pale, localidade distante cerca de 20 k de Sarajevo, abriram um convento, “Casa de Maria”. Inicialmente esta casa era destinada para o repouso das religiosas que trabalhavam no Instituto São José, em Sarajevo, e para a recuperação de doentes. Entretanto, a “Casa de Maria” foi recebendo credibilidade e se tornou famosa pelas obras de caridade exercidas em favor de todos os necessitados que batiam às suas portas. Pale era um corredor de muitos transeuntes, pessoas que iam e retornavam de Sarajevo. Nesta casa também eram acolhidas pessoas, sem fazer distinção de etnia, cultura, cor, religião, que vinham de diferentes lugares. Ali recebiam alimentação e, não raras vezes, lugar para um repouso restaurador de energias para então seguir a viagem.
     As culturas ocidental e oriental - e seus respectivos interesses políticos e econômicos - chocavam-se seguidas vezes. A 2ª Guerra Mundial foi particularmente trágica na Bósnia oriental. O Rio Drina estabelece o limite entre as duas partes que hoje divide a Bósnia da Sérvia. Houve um conflito acirrado entre os sérvios e a população muçulmana e católica da Bósnia oriental. Estes povos foram duplamente provados pelas tragédias: em primeiro lugar, porque um grande número de civis inocentes perdeu a vida; em segundo, porque os que sobreviveram ao massacre tiveram de abandonar o seu ambiente e foram forçados a fugir.
     Havia duas facções que entravam em atrito: os četnik”, membros voluntários da tropa armada do Estado da Sérvia. É um grupo irregular com conotação terrorista contra os povos não Sérvios; os “uštasa”, croatas revolucionários da direita. Aqueles multiplicavam os ataques às populações civis católicas e muçulmanas. Os incêndios às vilas indefesas, as torturas mais desumanas e os assassinatos em massa, o corte das linhas de comunicação faziam parte da ordem do dia. Estes, apoiados pelas forças armadas de ocupação ítalo-germânica, instituíam, a exemplo destes, os campos de concentração onde perderam a vida dezenas de milhares de opositores ao regime, mas também civis inocentes.
     Neste ambiente conflituoso, as Irmãs viviam e doavam a sua vida em favor do próximo e experimentavam a dor do povo indefeso e inocente.
     As cinco Irmãs Filhas do Amor Divino que formavam a comunidade “Casa de Maria”, em Pale, eram:
- Maria Jula Ivanišević, croata, nascida em 1893, a Superiora. Ela entrou no convento aos 48 anos de idade, após o falecimento da mãe, que considerava essencial sua permanência na família e nunca deu permissão para ela se tornar freira. Era particularmente admirada pelas Irmãs por sua obediência e cuidado delas, fazia o serviço com cuidado, calma e paciência.
- Berchmana Leidenix, austríaca, nascida em 1865, de 76 anos, sofria de asma, via pouco e andava com dificuldade. Em sua juventude, dera aula, ensinara o catecismo, cuidara dos doentes e também fora mestra de noviças, "lutando por elas como uma leoa".
- Krizina Bojanc, eslovena, nascida em 1885, "silenciosa e diligente como uma abelha", entrou no convento com 36 anos, quando as condições da família o permitiram. Aos 56 anos de idade, ela tinha um olhar atento para ajudar e confortar suas coirmãs, porque ela era simples, mas "cheia de Deus, era como se estivesse sempre pensando em Deus".
- Atonija Fabjan, eslovena, nascida em 1907, de 34 anos, para alguns era 'um tanto séria demais', mas para todos era a irmã que nunca "tem que pedir um favor, porque ela vê primeiro as nossas necessidades e está imediatamente pronta para ajudar".
- Bernadeta Banja de origem húngara, nascida na Croácia em 1912, de 29 anos, era a cozinheira da comunidade, mas tão pequena de estatura que tinha que subir em um banquinho para desempenhar sua função. Era de uma família devota e numerosa, que considerou sua vocação como uma bênção de Deus; alegre, ela escolheu ser "fiel no pouco", e fazia um grande trabalho sobre si mesma para melhorar seu caráter e ser mais prestativa e humilde.
     O ódio obscurece corações e consciências, e sem razão golpeia a dignidade humana, a dignidade da mulher, da religiosa. Por isso, era perigoso viver em Pale. Diante das sugestões de abandonar o povo, as Irmãs que ali viviam decidiram permanecer no meio dele, para compartilhar sua sorte e continuar a testemunhar-lhes o Amor Divino. Como era de se esperar, em 11 de dezembro de 1941, os soldados da milícia četnikaprisionaram as Irmãs, saquearam e incendiaram o convento.
     Assim iniciou a via-sacra dessas cinco Irmãs. Elas foram obrigadas a marchar, durante 4 dias e 4 noites, pelos caminhos da montanha Romanija, com frio e na neve, sem veste adequada, com interrogatórios, ameaças e ofensas. Irmã Berchmana, com 76 anos, não podendo prosseguir a caminhada, foi levada a Sjetlina, onde se recuperaria do cansaço. Conforme o combinado, ela deveria ser levada também para Goražde, a fim de se juntar ao grupo de suas coirmãs, o que não aconteceu. Consta que ela foi morta no dia 23 de dezembro, no bosque de Sjetlina.
     As demais Irmãs tiveram de continuar a sua caminhada até Goražde, percorrendo cerca de 70 km. Ali chegaram na tarde de 15 de dezembro e foram levadas à caserna (2° andar do quartel), próxima ao rio Drina. À noite, os četnik, completamente embriagados, invadiram o seu quarto com intenção de violentá-las, pediram que renunciassem à vida religiosa. Em troca, suas vidas seriam garantidas, teriam trabalho e graduação militar. Elas, porém, resistiram fortemente e declararam que estavam prontas a morrer antes de trair Deus e a própria consagração.
     Em defesa da dignidade e honrando o voto de castidade, Irmã Jula, Superiora da Comunidade, para evitar o estupro, abriu a janela e convidou as demais Irmãs a segui-la. Com a invocação “Jesus, salva-nos!”, lançou-se no vazio e as outras três fizeram o mesmo. Os soldados furiosos, sentindo-se derrotados, às pressas desceram as escadas até o local onde as Irmãs haviam caído e com muitíssimos golpes de faca mataram-nas. Depois, chutaram seus corpos até as margens do rio Drina. Um soldado, também ferido por este grupo, viu como cada uma delas, antes de morrer, fez o sinal da cruz.
     As Irmãs Jula, Berchmana, Krizina, Antonija e Bernadeta, conhecidas como as Mártires do Drina, verdadeiras missionárias na Bósnia sofrida, serviram a Deus e aos pobres com generosidade e amor desinteressado. Ao derramarem seu sangue, confirmaram a fidelidade a Deus. As cinco Mártires são extraordinários modelos de fé a Deus e de verdadeiro amor aos necessitados. O ato heróico dessas Filhas do Amor Divino teve o reconhecimento oficial da Igreja. O sangue derramado seja semente de novos cristãos comprometidos e de novas vocações. Que elas intercedam a Deus pelas nossas necessidades.
 
Fontes: Congregação das Filhas do Amor Divino; santiebeati/it

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Santa Odilia (ou Otilia) da Alsacia, Abadessa - Festa 13 de dezembro

     Na época de Childerico II, havia na Alsácia um duque franco chamado Adalrico, primeiro Duque da Alsácia, casado com Beresinda, sobrinha de São Leodegário, Bispo de Autun. Eles viviam em Obernheim, nas montanhas do Vosges, cerca de 40 km ao sul de Strasburg, no sopé do Monte Hohenburg.
     Eles esperavam um filho que assegurasse a sua descendência, mas, por volta do ano 660, nasceu-lhes uma filha... e cega! O pai encolerizado considerou tal nascimento uma desgraça e desonra para a família. A mãe tentou apaziguá-lo dizendo que era a vontade de Deus, que Ele devia ter seus desígnios, tudo em vão: o pai chegou a desejar que matassem a menina.
     Beresinda conseguiu finalmente dissuadi-lo desse crime, mas ele a fez prometer que levaria a criança para longe sem dizer a que família pertencia. Beresinda cumpriu a primeira parte da promessa, mas não a segunda, pois confiou a menina aos cuidados de uma ama que estivera a seu serviço e lhe disse que era sua filha. Beresinda providenciou a ida de toda a família da ama para o local que hoje é conhecido como Baume-le-Dames, próximo de Besançon, onde havia um convento em que a menina poderia educar-se mais tarde.
     Ali viveu ela até os doze anos sem ter sido batizada. Foi então que um anjo revelou a Santo Eraldo, Bispo de Regensburg, abade do mosteiro recém-fundado de Eberheim-Münster, que ele devia ir ao convento de Baume, aonde encontraria uma jovem cega de nascença. Ele devia batizá-la e dar-lhe o nome de Odília.
     Santo Eraldo foi consultar São Hidulfo em Moyenmoutier e, juntos, se dirigiram a Baume, onde fizeram o que tinha sido indicado na revelação. Depois de ungir a cabeça de Odília, Santo Eraldo passou o óleo do Crisma em seus olhos e ela recobrou a visão.
     Odília permaneceu no convento servindo a Deus. Porém, o milagre que recebera e os progressos que fazia em seus estudos provocaram a inveja de algumas das religiosas que tornaram sua vida difícil. Odília resolveu então escrever para seu irmão Hugo e pedir-lhe ajuda. Entrementes, Santo Eraldo havia comunicado a Adalrico a cura de sua filha. O pai não se abrandou diante de tal milagre e proibiu o filho de ajudar a irmã. Hugo desobedeceu ao pai e mandou vir a irmã.
     Um dia em que Hugo e Adalrico estavam em uma colina dos arredores, Odília se apresentou em uma charrete, seguida por uma multidão. Quando Adalrico soube de quem se tratava, descarregou sua pesada espada sobre a cabeça de Hugo e o matou de um golpe. Os remorsos finalmente mudaram seu coração e começou a amar sua filha tanto quanto a havia odiado antes.
     Odília se fixou em Obernheim com algumas companheiras que se dedicavam como ela aos atos de piedade e às obras de caridade entre os pobres.
     Adalrico, convertido graças às orações da filha, deu a ela o castelo que possuía no Monte Hohenburg. Odília transformou-o em mosteiro e foi sua primeira abadessa.
     O Monte Hohenburg tem mais de 2.000 m de altura e fica próximo do vale do Reno. Como a montanha era muito escarpada e dificultava o acesso dos peregrinos, Santa Odília fundou outro convento, Niedermünster, um pouco mais abaixo, a 703 m , e edificou um hospital junto a ele para acolher pobres e leprosos. São João Batista lhe apareceu e indicou o local e as dimensões da capela que devia construir ali em sua honra.
     A regra adotada por Santa Odília foi a beneditina, o que sugere a influência de seu tio-avô, São Leodegário, grande apóstolo do monasticismo beneditino na região. Em apenas dez anos o mosteiro já abrigava 130 religiosas, entre as quais três filhas de Adelardo, outro irmão de Santa Odília. Estas sobrinhas foram: Santa Eugênia, sucessora de Santa Odília, Santa Atala, abadessa do mosteiro de Santo Estevão de Strasburg, e Santa Gundelinda.
     Odília governou os dois conventos e tornou-se popularíssima na Alsácia, na Lorena e na região de Baden. Conta-se que após a morte do pai Santa Odília soube, durante uma visão, que ele fora livre do Purgatório graças às suas orações e penitências.
     Uma Fonte de Santa Odília existe ainda hoje. Ela fica fora do mosteiro, e, segundo a tradição, Santa Odília a fez surgir tocando a rocha com o cordão de seu hábito. Ela voltava da costumeira visita aos doentes, quando encontrou um homem cego que lhe pediu água. Como ela não tivesse água à mão, fez o milagre. E o homem ficou curado da cegueira. Muitas outras visões da Santa são narradas e numerosos milagres lhe são atribuídos.
     Depois de governar o mosteiro durante muitos anos, Santa Odília morreu no dia 13 de dezembro de 720, deitada sobre uma pele de urso. Como Santa Odília não pudera receber o Santo Viático, as prementes orações de suas irmãs de hábito alcançaram a graça dela recobrar a vida. Após descrever as belezas do Céu para elas e receber o Viático, a Santa morreu novamente e foi sepultada na Igreja do mosteiro.
     As suas fundações são mencionadas pela primeira vez em 783, numa doação feita para a abadessa da época. Carlos Magno garantiu imunidade às fundações de Santa Odília, o que foi confirmado em 9 de março de 837 por Luis, o Pio (Böhmer-Mühlbacher, "Regesta Imperii", I, 866, 933).
     A Igreja de São João Batista e o túmulo da Santa foram mencionados pela primeira vez pelo Papa Leão IX em 17 de dezembro de 1050. O Imperador Frederico I mandou restaurar a igreja e o mosteiro. A Abadessa Relinde estabeleceu ali uma escola para as filhas da nobreza. Uma outra abadessa, Herrade de Landsberg (1167-1195) tornou-se a famosa autora de um importante trabalho teológico chamado Hortus Deliciarum (Paradiesgarten). Em 1546, Niedermünster foi destruído num incêndio, e as religiosas não mais retornaram.
     Algumas relíquias da Santa foram transferidas para outros locais. O Imperador Carlos IV, por exemplo, recebeu o braço direito em 4 de maio de 1353, relíquia que hoje se encontra em Praga. Outras relíquias, que ficaram no mosteiro primitivo, foram salvas da Revolução Francesa - inclusive o sarcófago, que recebeu posteriormente um revestimento de mármore - e foram colocadas sob o altar em 1842. As relíquias que foram levadas para Einsiedeln no século XVII foram destruídas pela Revolução.
     Seu túmulo é venerado e ainda hoje milhares de peregrinos a procuram e lhe prestam culto. O Monte Santa Odília é o local da Alsácia mais freqüentado pelos católicos. Santa Odília foi designada patrona da Alsácia em 1807 pelo Papa Pio VII. Ela é também patrona de Strasburg e é invocada nas doenças dos olhos e dos ouvidos. É venerada também na diocese de Mônaco, Meissen e nas abadias beneditinas femininas da Áustria.
     Santa Odília é festejada no dia de sua morte, 13 de dezembro. No Monte, Santa Odília ela é celebrada no dia do aniversário da transladação de suas relíquias, ocorrida em 7 de julho de 1842.
     Desde o século XV, a Baviera e a Alsácia adotaram a versão Otília de seu nome.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Sta Maria Maravilhas de Jesus, Fundadora - Festa 11 de dezembro

     Maravilhas Pidal y Chico de Guzmán, este era o seu nome de leiga, nasceu em Madrid no dia 4 de novembro de 1891 em uma família profundamente cristã; o pai, Luis Pidal y Mon, segundo Marquês de Pidal, naquele tempo era embaixador da Espanha junto à Santa Sé.
     Sentiu o chamado à vida religiosa desde criança, e com esta finalidade Maravilhas pôs em prática todas as virtudes cristãs, que foram coroadas com sua entrada no mosteiro das Carmelitas Descalças de El Escorial (Madrid), em 1919, onde pronunciou os votos em 7 de maio de 1921.
     Nos primeiros anos de sua vida religiosa no mosteiro realizou o seu ardente desejo de uma vida humilde e escondida.
     Em 1923, quando ainda era professa de votos temporários, se sentiu inspirada pelo Senhor, em diversas ocasiões, a fundar um mosteiro carmelita no Cerro de los Angeles, local onde o Rei Afonso XIII havia inaugurado, em 1919, um monumento ao Sagrado Coração de Jesus e feito a consagração da Espanha àquele Coração Sagrado.
     Em 19 de maio de 1924, ela deixou o Escorial, transferindo-se com três religiosas e, por obediência aos superiores, fundou o mosteiro em Getafe, território atualmente da Arquidiocese de Madrid.
     Nomeada primeira priora da nova comunidade pelo Bispo de Madrid, em 31 de outubro de 1926, dirigiu o mosteiro, inaugurado próximo do monumento ao Cristo Rei, com fortaleza e doçura, instaurando uma fidelidade teresiana total com um grande espírito apostólico, um senso profundo do ideal contemplativo.
     Embora respeitando a clausura, viveu a sua vida de contemplativa interessada nas necessidades dos menos favorecidos; por outro lado, seu amor pela Cruz era tão grande, que chegava ao heroísmo: por penitência, durante 35 anos dormiu apenas três horas por noite, vestida e sentada no chão com a cabeça apoiada no leito.
     Em 1933, oito das suas Irmãs fundaram um mosteiro de clausura em Kottayam na Índia, onde ela também deveria ir, mas foi impedida pelos superiores.
     Por causa da revolução espanhola que ensanguentou a Espanha com a perseguição e o ódio contra tudo que se relacionasse com a religião, Madre Maria Maravilhas de Jesus foi obrigada a deixar o mosteiro com todas as suas religiosas em 22 de julho de 1936.
     Acolhidas primeiramente pelas Ursolinas francesas de Getafe, em agosto seguinte se fixou em uma casa de Madrid e depois atravessou Valencia, Barcelona, Port-Bou, Lourdes, retornando em outra parte da Espanha, estabelecendo-se em uma antiga ermida da Ordem do Carmo em Las Batuecas (Salamanca).
     Em maio de 1939, o mosteiro de Cerro de los Angeles foi reaberto e dali partiram as Irmãs dirigidas por ela, que graças ao maravilhoso florescimento de vocações carmelitas puderam abrir várias Casas: Mancera (1944), Duruelo (Ávila) em 1947, Cabrera (1950), Arenas de San Pedro (1954), Córdoba (1956), Aravaca - Madrid (1958), La Aldehuela (1961), Málaga (1964); finalmente, em 1966, restaurou e desenvolveu o mosteiro da Encarnação de Ávila e a casa de Santa Teresa.
     Graças às numerosas vocações atraídas por sua personalidade forte, pode mandar três Irmãs para o mosteiro de Cuenca (Equador), em 1954, o qual necessitava de reforços. Fez construir um convento e igreja para os Carmelitas Descalços na província de Toledo
     Chamavam-na “a Santa Teresa de Jesus do século XX”.
     Retirou-se no convento de La Aldehuela (Madrid), em 1961, vivendo em grande pobreza, de onde dirigia o movimento e a vida regular de tantos os mosteiros com a sua palavra materna e o seu exemplo.
     Em 1967, em Ventorro, promoveu a fundação de colégios para crianças privadas de escola; em 1969 conseguiu 16 casas pré-fabricadas para famílias pobres.
     Em 1972 a Santa Sé aprovou a Associação de Santa Teresa, constituída por ela para os seus mosteiros, associação esta empenhada em iniciativas sociais, da qual foi eleita presidente.
     Entre 1972 e 1974, ajudou na construção de 200 habitações, com a igreja e as obras sociais em Perales del Rio, colaborando com o pároco local. Com a bondade daqueles que confiavam nela e na sua obra, ajudou a construção da nova clínica para religiosas e monjas em Pozuelo di Alarcón (Madrid).
     Foi atingida por uma pulmonite na Sexta-Feira Santa de 1967 e desde então foi se debilitando, mas não abandonava a fidelidade à Regra e às Constituições. Morreu santamente depois de breve enfermidade no dia 11 de dezembro de 1974, no mosteiro da Aldehuela (Madrid).
     Mulher notabilíssima por suas virtudes e por suas capacidades humanas, com seu espírito de oração contemplativa, com o desejo de ajudar a Igreja e com o anelo de salvar as almas, Madre Maravilhas deixou um traço indelével que a tornaram fidelíssima à sua vocação e autora corajosa de obras para a glória de Deus.
     A sua espiritualidade se exprimia na oração contínua, na sua pobreza excepcional e na de seus mosteiros, na vida austera sustentada pelo trabalho que permitia manter-se e ajudar as grandes iniciativas sociais e beneficentes da Igreja, que ainda falam dela.
     Os seus despojos repousam na paupérrima capela do mosteiro de La Aldehuela.
     A causa para sua canonização foi introduzida em 19 de junho de 1980; foi beatificada por João Paulo II em 10 de maio de 1998 na Praça de São Pedro, em Roma.  
     Em 4 de maio de 2003, o mesmo pontífice a canonizou em Madrid, com a participação de uma enorme multidão.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Sta. Narcisa de Jesus Martillo Morán e a Imaculada Conceição

     Da. Silvania Gellibert de Negrete, nobre dama de Guayaquil, se despertou ao ouvir o ruído de fortes pancadas. O que estaria acontecendo na casa a estas horas da madrugada?
     Pressurosa e assustada dirigiu-se ao sótão, de onde parecia provir os sons. Encostou o ouvido à parede para escutar melhor. Ouviu, então, os estalos de violentas chicotadas e, ao mesmo tempo, fervorosas orações pedindo a Deus perdão pelos pecados dos homens. Atônita e com muita curiosidade, Da. Silvania procurou aguçar a vista e, por uma fenda da parede de madeira, viu sua jovem hóspede ajoelhada diante de um crucifixo, coroada de espinhos, com as costas ensangüentadas, castigando cruelmente seu corpo com um látego de pontas de aço.
     Quem seria essa mulher que se inflige semelhante castigo? Seu nome é Narcisa de Jesus Martillo Morán. Trata-se de uma alma chamada por Deus para reparar, por meio de extraordinárias penitências, os pecados cometidos em sua época.
Nasce uma vítima expiatória
     Transcorria a primeira metade do século XIX. As guerras e as convulsões sociais eclodiam em quantidade na América do Sul. Quando Narcisa nasceu, no dia 29 de outubro de 1832, em Nobol, diocese de Guayaquil, havia pouco tempo que o Equador tinha se transformado em república.
     Seus pais, Pedro Martillo e Josefina Morán, eram agricultores. Ela foi a sexta de nove filhos. Faltam dados sobre o início de sua vida, tendo-se apenas a data de sua Crisma, recebida aos sete anos, no dia 16 de setembro de 1839.
     Muito pequena perdeu a sua mãe. Ela teve de se encarregar da educação dos seus irmãos mais novos. Dessa época da sua vida é lembrada a sua especial caridade, a sua alegria, o seu grande amor pela oração e a grande importância que atribuía à direção e aconselhamento espiritual.
     Na adolescência dedicava-se aos trabalhos domésticos, e aos 15 anos aprendeu o ofício de costureira, que exercia em sua casa e nas casas das famílias vizinhas. Desde muito jovem gostava de cantar e tocar viola, mas não participava das festas em família: limitava-se a ajudar na preparação e depois se isolava para dedicar-se às orações solitárias.
     Em 1851, aos 18 anos, seu pai faleceu e ela transferiu-se para Guayaquil, onde moravam seus parentes. Ali trabalhou como costureira, para não ser um peso para os seus hospedeiros, e começou a trabalhar com Luís Tola, que depois se tornará bispo de Portoviejo.
     Parte do que ganhava como costureira doava aos pobres e doentes. Manteve sempre um caráter alegre, divertido e amável e não deixava transparecer as privações pelas quais passava e a que se submetia livremente. Dedicou muito tempo ao apostolado, especialmente dirigido às crianças, a quem ensinava o catecismo. Trabalhou também com jovens abandonadas e refugiadas na Casa de Acolhimento, visitava doentes e moribundos.

Sta. Narcisa no esquife

     Suas moradas preferidas eram as águas furtadas e os esconderijos, para praticar o recolhimento e dedicar-se às penitências. Queria seguir o exemplo da Santa, também equatoriana, Marianita de Jesus (1618-1645), oferecendo sacrifícios pela expiação de sua cidade. Chegou a mandar fazer uma cruz salpicada de pregos, sobre a qual deitava todas as noites por quatro horas, antes de se acomodar sobre o chão para um breve repouso.
     Nunca professou votos religiosos solenes, mas tornou-se leiga dominicana, ingressando na Ordem Terceira Dominicana (ramo leigo da Ordem dos Pregadores). Depois de sua morte soube-se que fez votos particulares de virgindade perpétua, pobreza, obediência, clausura, vida eremítica, jejum a pão e água, comunhão cotidiana, confissão, mortificação e oração.
     Em 1865 seu diretor, gravemente enfermo, pediu que ela o acompanhasse a Cuenca, onde se restabeleceria em uma casa de religiosas. Narcisa permaneceu por dois anos em Cuenca, até a morte de seu diretor. Retornando a Guayaquil, encontrou uma amiga, Mercedes Molina, venerada como beata, empenhada na direção de um orfanato. Não hesitou em ajudá-la na formação das crianças e na confecção de indumentárias. As duas amigas assistiam a Missa cotidiana e moravam no orfanato.
     Segundo testemunhas da época, "Narcisa era muito bela, alta e bem proporcionada; sua cabeleira loura, abundante e anelada, chamava a atenção das pessoas; era muito estimada na cidade. Como caráter, era muito amável e em certos momentos dava demonstração de sua alegria cantando, enquanto sua amiga tocava a viola. Era muito caridosa".
     Em 1868, o frade franciscano Pedro Gual, que se tornara seu diretor espiritual, convidou Narcisa a transferir-se para Lima, onde ela ficaria hospedada no convento dominicano de Patrocínio. O capelão daquele mosteiro tornou-se seu confessor até a sua morte.
     Apesar de sua compleição robusta, no último período de sua vida era evidente a crescente debilidade resultante de suas penitências.
     Poucas horas antes de seu falecimento, na noite do dia 8 de dezembro de 1869, ao despedir-se das Irmãs, como que zombando, disse que partiria para uma longa viagem. Um pouco antes da meia-noite, a Madre que devia fazer o turno de vigília percebeu que a cela de Narcisa estava misteriosamente iluminada, e dela provinha um perfume fortíssimo. A religiosa foi verificar o que ocorria e "ao abrir a porta do quarto de Narcisa, viu a mesma claridade que se notava do lado de fora e sentiu que ali a fragrância era maior; ela tinha falecido, abrasada pela febre de seu corpo e, sobretudo, pelo ardor do amor divino". Tinha apenas 37 anos. Faleceu no dia da inauguração do Concílio Vaticano I, oferecendo seus últimos sofrimentos por este importante evento.

Santuário em Nobol, Equador

     Foi beatificada por João Paulo II em 25 de outubro de 1992. A sua canonização ocorreu em 12 de outubro de 2008, sendo a quarta pessoa oriunda da América Latina a ser canonizada por Bento XVI e a terceira santa equatoriana. Bento XVI referiu-se a Narcisa com as seguintes palavras: "Santa Narcisa de Jesus nos mostra um caminho de perfeição cristã. Oferece-nos um testemunho atraente e um exemplo acabado de uma vida totalmente dedicada a Deus e aos irmãos".
     Seus santos despojos se encontram no Santuário que ostenta seu nome, na sua cidade natal, Nobol, no Equador.
     Por ter-se santificado tanto no campo como na cidade, em sua pátria como fora dela, muitos migrantes têm especial devoção por ela.
 
 
 
                        Festa da Imaculada Conceição
 
     A festa da Imaculada Conceição, comemorada em 8 de dezembro, foi definida como uma festa universal em 1476 pelo Papa Sisto IV.
     A Imaculada Conceição foi solenemente definida como dogma pelo Papa Pio IX em sua bula Ineffabilis Deus em 8 de dezembro de 1854. A Igreja Católica considera que o dogma é apoiado pela Bíblia (por exemplo, Maria sendo cumprimentada pelo Anjo Gabriel como "cheia de graça"), bem como pelos escritos dos Padres da Igreja, como Santo Irineu de Lyon e Santo Ambrósio de Milão. Uma vez que Jesus tornou-se encarnado no ventre da Virgem Maria, era necessário que ela estivesse completamente livre de pecado para poder gerar seu Filho.
     Em sua Constituição Apostólica Ineffabilis Deus, que definiu oficialmente a Imaculada Conceição como dogma, o Papa Pio IX recorreu principalmente para a afirmação do Gênesis 3:15, onde Deus disse: "Eu porei inimizades entre ti e a mulher, entre tua descendência e a dela", assim, segundo esta profecia, seria necessário uma mulher sem pecado para dar à luz o Cristo, que reconciliaria o homem com Deus. O verso "Tu és toda formosa, minha amada, não há mancha em ti" (na Vulgata: "Tota pulchra es, amica mea, et macula non est in te"), no Cântico dos Cânticos (4,7) é usado para defender a Imaculada Conceição, outros versos incluem:
     "Também farão uma arca de madeira incorruptível; o seu comprimento será de dois côvados e meio, e a sua largura de um côvado e meio, e de um côvado e meio a sua altura." (Êxodo 25:10-11)
     "Pode o puro [Jesus] vir dum ser impuro? Jamais!" (Jó 14:4)
Em Lourdes Na. Sra. confirma o dogma
     "Assim, fiz uma arca de madeira incorruptível, e alisei duas tábuas de pedra, como as primeiras; e subi ao monte com as duas tábuas na minha mão." (Deuteronômio 10:3)
     Outras traduções para a palavra incorruptível ("Setim" em hebraico) incluem "acácia", "indestrutível" e "duro" para descrever a madeira utilizada. Moisés usou essa madeira porque era considerada muito durável e "incorruptível". Maria é considerada a Arca da Nova da Aliança (Apocalipse 11:19) e, portanto, a Nova Arca seria igualmente "incorruptível" ou "imaculada".
     Na definição oficial do dogma da Imaculada Conceição de Maria assim o Papa se expressou:
Em honra da santa e indivisa Trindade, para decoro e ornamento da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da fé católica, e para incremento da religião cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e com a nossa, declaramos, pronunciamos e definimos a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante de sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha de pecado original, essa doutrina foi revelada por Deus e, portanto, deve ser sólida e constantemente crida por todos os fiéis.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Santa Maria Josefa Rossello, Fundadora - Festejada 7 de dezembro

     Benedita Rossello era natural da belíssima cidade de Albissola Marina, em Savona, na Itália. Nasceu no dia 27 de maio de 1811, em uma humilde família de fabricantes de vasilhas; desde cedo teve literalmente que "colocar a mão na massa" para ajudar o pai com a modelação da argila.
     Mas, trabalhar para a família não era o suficiente para Benedita. O que ela mais queria era trabalhar para o próximo. Desde cedo compreendeu que era preciso haver, ao lado de um apostolado religioso, uma assistência material para aqueles que se encontravam na ignorância e na pobreza.
     Estudiosa, cheia de caridade para com os necessitados, devota do Crucificado e da Santíssima Virgem, inscreveu-se muito jovem na Ordem Terceira de São Francisco (provavelmente antes de 1830). E com ardor ela procurou cuidar e instruir os jovens dos bairros populares.
     Tentou inscrever-se numa instituição de caridade, mas a falta do dote financeiro suficiente a impediu de concretizar o sonho. Nesse tempo, perdeu o pai e uma irmã, tendo de prover a família durante um período.
     Aos dezenove anos, empregou-se por sete anos (1830-1837) na residência da família Monteone, casal sem filhos, para dar assistência ao chefe da família imobilizado na cama. Fez um trabalho tão dedicado e confortador, que ao morrer o doente a viúva quis adotar Benedita como filha, com a perspectiva desta herdar todo o patrimônio da família.
     A oferta foi recusada, porque a condição para adoção era ela não se tornar religiosa. Sua recusa foi criticada por alguns, mas, como ela escreveria mais tarde: "Se não somos generosos com Deus, Ele não será conosco. Não se responde ao amor senão com o amor".
     Ela recebeu de fato o prêmio da sua generosidade e do seu amor quando, em 1837, o Bispo de Savona, Mons. Agostino De Mari (1835-1840), aceitou que a ex-doméstica se ocupasse da juventude feminina negligenciada materialmente e moralmente em perigo.
     Uma casa modesta e alugada serviu de semente para o que seria uma grande obra, desde logo dirigida por Benedita, com apenas três companheiras, Ângela e Domingas Pescio e Paulina Barla.
     No dia 22 de outubro de 1837, aconteceu a primeira vestição e o Bispo impôs-lhe o nome de Maria Josefa. Animadas por Maria Josefa, formou-se assim uma pequena Congregação colocada sob a proteção de Nossa Senhora da Misericórdia, de quem se disseram filhas e, como Ela, deveriam ser instrumentos de salvação.
     A missão da nova instituição: a instrução e educação das jovens pobres e a assistência aos doentes. Além disso, deveriam prestar serviço nas escolas e nas paróquias, nos hospitais e onde quer que fossem necessárias.
     Ângela Pescio, a mais velha, foi eleita superiora, Benedita era a mestra de noviças e ecônoma. A Congregação das Filhas de Nossa Senhora da Misericórdia começou "com quatro irmãs, um saco de batatas e quatro moedas de prata".
     Dois anos depois, em 2 de agosto de 1839, as Irmãs pronunciaram os votos perpétuos. Em 1840 eram já sete Irmãs professas e quatro noviças; durante o capítulo do mesmo ano, Irmã Maria Josefa foi eleita superiora por unanimidade, cargo que ocupou por cerca de quarenta anos.
     À Madre Maria Josefa era confiada grande parte dos trabalhos materiais. “A mão no trabalho, o coração em Deus”, ela recomendava às outras Irmãs. E quando a tarefa parecia muito espinhosa: “Faça o que puderes; Deus fará o resto”.
     A redação do regulamento definitivo foi confiada ao Padre Inocêncio Rosciano, carmelita, e solenemente entregue às Irmãs em 14 de fevereiro de 1846 pelo novo Bispo de Savona, Mons. Alessandro Ottaviano Riccardi (1841-1866).
     Sob a direção de Madre Maria Josefa o Instituto iniciou sua expansão na Ligúria, no período 1842-1855. Em 1856, começa a contribuir com a obra de resgate dos escravos africanos, a qual se dedicavam dois beneméritos sacerdotes, Nicolau Olivieri e Biagio Verri. O Instituto hospedava crianças negras libertadas de uma aviltante escravidão.
     O espírito missionário da Fundadora se manifestou ainda mais em 1876: conseguiu enviar o primeiro grupo de 15 Irmãs para Buenos Aires, Argentina. Em 1859, uma nova fundação, a “Casa da Providência” foi iniciada por Madre Maria Josefa, para a re-educação e inserção na vida de jovens das classes pobres.  Outros centros análogos foram abertos em Voltri, Sant’ Ilario, Porto Mauricio (1860) e em Albissola, onde surge a “Segunda Providência” (1866-1867).
     Dez anos depois, em 1869, Madre Maria Josefa empreendeu uma outra obra corajosa: o “Pequeno Seminário para os rapazes da classe operária”, permitindo-lhes a carreira eclesiástica gratuitamente. Esta obra lhe custou não poucas amarguras pelos obstáculos colocados contra esta instituição.
     A última iniciativa, sonhada e realizada postumamente, foi a constituição em Savona da “Casa das Arrependidas” (1880), um refúgio para as jovens arrependidas, e em vias de conversão, afastadas da prostituição.
     “Se a obra que empreendemos é de Deus, chegaremos a cumpri-la”, dizia Madre Rossello, sem jamais esmorecer.
     A fundadora morreu em 7 de dezembro de 1880, e foi sepultada no cemitério local. Em 1887, seu corpo foi transladado para a casa mãe em Savona.
     Quando Madre Maria Josefa faleceu, o Instituto possuía já 68 casas (escolas, orfanatos, hospitais e refúgios para jovens arrependidas); e em 1949, quando foi canonizada, as Irmãs de Na. Sra. da Misericórdia eram mais de três mil, servindo em 260 casas de caridade na Itália e na América Latina.
     No dia 23 de janeiro de 1892, com um decreto episcopal, São José foi oficialmente reconhecido co-patrono do Instituto. Com o Decreto de 14 de setembro de 1900, Leão XIII reconheceu a missão que o Instituto desenvolvia na Igreja. Em 12 de janeiro de 1904, São Pio X aprovou definitivamente o Instituto e as Constituições. Em 12 de junho de 1949, Pio XII declarou-a Santa.
     José Mazzotti, conhecido como Bepi, foi o promotor do pedido de que Santa Maria Josefa Rossello se tornasse patrona dos ceramistas. O pedido foi aceito pela Congregação Pró Culto Divino com a bula de 27 de fevereiro de 1989.
     Ela, que dedicou toda sua vida aos doentes e às crianças, mesmo quando ainda não era religiosa, nasceu Benedita e bendita foi sua dedicação à caridade. É venerada com festa litúrgica no dia de sua morte. As suas relíquias são veneradas na capela da casa mãe das Filhas de Nossa Senhora da Misericórdia em Savona.