
Em fevereiro de 1849, doze religiosas
oriundas da França chegavam ao Rio de Janeiro, após três meses de travessia do
Oceano Atlântico. Depois, desde o Rio de Janeiro, sobre o lombo de animais em
trilhas nas montanhas, chegavam a Mariana para fundar a primeira escola
feminina do Estado.
O Museu Casa da Providência criado em
1999, localizado na primeira construção do Colégio, do século XIX, conta muito
da história da Instituição e da vida das missionárias pioneiras. Tempos
difíceis que elas enfrentaram e cujos esforços resultaram numa sólida
Instituição cujo lema “tradição e renovação”, aparentemente formado por
palavras antagônicas, garantiu o sucesso do empreendimento e a qualidade do
ensino.
Tudo começou com o convite de Dom Antonio
Ferreira Viçoso (1787-1875) (¹), Bispo Arquidiocesano de Mariana, à Congregação
com sede em Paris, para desenvolver no Brasil um trabalho educacional. O bispo
justificou a iniciativa com a afirmação de que "somente educando a mulher,
oferecendo-lhe uma boa condição cultural é que teremos uma sociedade mais
civilizada e preparada para dar à pátria cidadãos completos". "Não
vos esqueçais de que a mulher, sobretudo a mãe, será sempre a primeira
mestra", destacou ainda.
Conta-se em Mariana que ao chegarem à
cidade no dia 3 de abril de 1849 as irmãs vicentinas foram recebidas por Dom
Viçoso de joelhos e em
lágrimas. Ele teria dito: “A educação dos jovens está salva”.
O colégio seria exclusivamente feminino,
mas um dos principais objetivos era a formação de educadoras que pudessem
realizar um efeito multiplicador, o que realmente aconteceu, pois sua fama transpôs
as fronteiras de Minas e as famílias abastadas de outros Estados mandavam as
filhas para o internato, que chegou a abrigar até 200 estudantes.

No museu temático podemos admirar as
montarias originais da primeira viagem das religiosas, livros, baús, tapetes,
documentos, paramentos, o diário de bordo da Irmã Dubost, a primeira diretora
do Colégio, e até um quarto de dormir, segundo os costumes do século XIX. Há um
armário contendo perfumes, essências e outros produtos que as religiosas
francesas faziam para obter recursos e manter a escola no início dos trabalhos.
A Coroação de Nossa Senhora, a celebração tradicional da Igreja Católica,
aconteceu pela primeira vez em Mariana, segundo documento constante do acervo
do museu. Tudo enfim retrata a vida das religiosas nos seus primeiros anos em
Mariana.
Em 2012, outra data marca o
desenvolvimento do projeto inicial: em 1902, há 110 anos, o Colégio se tornou
Escola Normal, equiparado à Escola Normal Modelo, hoje Instituto de Educação de
Belo Horizonte.
Em tese de doutorado na UFMG, a professora
do Centro Universitário de Belo Horizonte, Ana Cristina Pereira Lage, revela
que a Congregação se implantou no Brasil oito anos antes de fazê-lo em
Portugal. “O objetivo inicial de Dom Viçoso, um grande reformador da educação,
era ter gente para cuidar das órfãs, pois não havia instituição específica. Sem
recursos, as irmãs acreditavam que a futura construção da escola seria
auxiliada pela Providência Divina”, explica a professora.
O governo provincial ajudou com algum
dinheiro e o bispo batalhou por novas quantias. O Colégio então abriu as portas
para meninas ricas, pois, diz a professora, “Nessa época os anseios da
sociedade estavam mudando: para os pais, era importante ter filhas estudando
com religiosas francesas, então as mandavam para o colégio”. Na sua pesquisa,
Ana Cristina constatou que o segundo colégio feminino em Minas foi o de
Macaúbas, em Santa Luzia ,
na Grande BH. Antes recolhimento, ele teve salas de aula de 1863 a 1926 até se tornar
mosteiro.
Formação para a vida
Atualmente a gestão da escola,
anteriormente restrita às Irmãs, tem a participação de leigos. Nesses 162 anos,
o Colégio formou alunos que se tornaram sacerdotes, médicos, engenheiros,
professores. Há também a preocupação com a inclusão social: alunos bolsistas,
clínica de atendimento psicopedagógico, e outros programas.

A professora emérita de língua portuguesa
e lingüística da Universidade Federal de Ouro Preto, Hebe Maria Rola Santos,
formou-se normalista em 1949, ano do centenário do colégio. E lembra-se do
uniforme: saia de casimira bem abaixo do joelho, blusa de fustão branco,
sapatos de verniz preto e meia de três quartos. “Um sol de rachar, a gente de
meião e ninguém reclamava”, recorda, bem-humorada. Ela conta que as internas só
saíam à rua acompanhadas por uma das freiras ou em grupos. Mas eram
admiradas. “As alunas eram o charme de Mariana na época”. A professora avalia
que o colégio formava “para o lar”, ensinando, por exemplo, a fazer sabão e
creme dental, além das aulas de trabalhos manuais e economia doméstica. Isso,
no entanto, não impedia que se tornassem, como ela, professoras universitárias,
graças à base sólida do ensino.
(¹) A cidade de Mariana e o Estado de
Minas Gerais orgulham-se, “com fundadas razões”, terem tido o religioso
português “como educador e pastor” por mais de 30 anos. “Seus pés missionários
palmilharam incansáveis todos os caminhos de Minas, visitaram remotos
lugarejos, procuraram, sem discriminação, a todos que dele precisavam, em
especial os pobres e os que padeciam da verdadeira sede de Deus”. D. Antonio
Viçoso morreu em julho de 1875, aos 88 anos. O seu túmulo encontra-se na cripta
da Catedral Basílica de Mariana. Existe um processo para sua beatificação, pois
a sua memória permanece “viva”, pelo seu humanismo, a luta contra a escravatura
e as preocupações com a educação.
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