quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Mélanie Calvat, a vidente de La Salette



     Há 182 anos, no dia 7 de novembro de 1831, Mélanie Calvat nascia em Corps (Grenoble, França). Era a 4ª de dez filhos da família de um lenhador. Colocada ao serviço dos agricultores locais, em 19 de setembro de 1846, enquanto pastoreava perto da aldeia de La Salette, junto com Maximin Giraud (1835 -1875), tornou-se protagonista de uma das grandes aparições marianas dos séculos XIX e XX: Rue du Bac (1830), Lourdes (1858) e Fátima (1917).
     Os dois adolescentes viram uma mulher sentada com a cabeça entre as mãos, os cotovelos sobre os joelhos, numa atitude de profunda tristeza. Vestia-se como as mulheres da região e tinha no pescoço um colar com um crucifixo em cujos lados apareciam os símbolos da Paixão de Jesus: um alicate e um martelo. A "Bela Senhora" - como a chamaram os dois videntes - passou-lhes uma longa mensagem a ser transmitida. Mélanie e Maximin contaram o que aconteceu para o pároco e a partir desse dia toda a comunidade ficou agitada.
     Desde o início acreditava-se que a "Bela Senhora" de "La Salette" era a Santíssima Virgem que aparecera naquela tarde de sábado, em que se iniciava, com o Ofício, a festa litúrgica de Nossa Senhora das Dores, então celebrada no 3º domingo de setembro.
     Começaram as peregrinações ao local da aparição - onde nasceu uma fonte de água que começou a operar milagres – e uma comissão de teólogos e eclesiásticos analisou a mensagem que, em 1851, teve sua veracidade aprovada bispo de Grenoble, Philibert de Bruillard. Isto abriu caminho para a devoção a Nossa Senhora de La Salette expandir-se na França e no exterior.
     No ano seguinte, o Bispo instituiu a congregação dos Missionários de Nossa Senhora de La Salette e começou a construção de um santuário dedicado a Virgem ‘Reconciliadora dos pecadores’ no lugar da aparição, que em 1879 foi elevado à categoria de Basílica.
     A partir da Aparição, Mélanie Calvat iniciou um caminho de sofrimentos e de mal-entendidos que se estenderam por toda sua vida. Ela passou quatro anos nas Irmãs da Providência em Corps, mas foi o novo bispo de Grenoble, Mons. Jacques Marie Achille Ginoulhiac, que se recusou a aceitar os seus votos religiosos.
     Para escapar de Napoleão III, a quem ela acusou de cesaropapismo, e do clero francês, que se lhe tornara amplamente hostil, Mélanie começou seu êxodo para a Europa, deslocando-se da Inglaterra para a França e a Grécia, até aterrissar na Itália, em Castellammare di Stabia (Nápoles). Ali ela passou 17 anos sob a direção espiritual do Abade Luís Salvatore Zola (1822-1898) dos Cônegos Regulares Lateranenses (*). Depois, quando este foi nomeado arcebispo de Lecce, em 1892, ela o seguiu mudando-se para Galatina (Lecce).
     E na pequena cidade de Salento, no dia 8 e 9 de agosto de 1897, ela conheceu o Padre Aníbal Maria di Francia (fundador dos Rogacionistas, canonizado em 2004). Dele lhe haviam falado o Cônego Vincenzo De Angelis de Oria, confessor de Maria Palma Matarrelli, de quem Mélanie também tinha se aproximado em segredo, e o beato de Palermo, Giacomo Gusman. O padre a tinha procurado com insistência convidando-a a assumir o ramo feminino de sua Obra, ameaçado de supressão devido a uma série de incidentes desagradáveis e ​​de intrigas.
     Dada a gravidade das circunstâncias, Mélanie aceitou o convite e no dia 14 de setembro de 1897 foi para Messina e pôs mãos às rédeas com decisão diante da situação delicada. O Padre Aníbal convidou todos a seguirem as suas instruções: "Coragem, a Superiora é uma santa, ela falou com Nossa Senhora: por isso sejam felizes em obedecê-la”. As dificuldades foram superadas e assim como uma rajada de ar a sua presença limpou o ambiente de brigas e descontentamentos. E isto foi suficiente para tranquilizar a autoridade eclesiástica. Depois de pouco mais de um ano, Mélanie deixou Messina assegurando ao Padre: "Eu sou de vossa Congregação".
     Para agradecer à Virgem Maria pela presença de Mélanie e a fim de mantê-la em Messina, em 2 de agosto de 1898, o Padre Aníbal fez uma peregrinação a La Salette. Aquele ano de bênção foi considerado o início efetivo da obra feminina graças às orações e à ação de Melanie; como consequência, o Padre quis inclui-la como cofundadora do Instituto.
     Depois dela ainda ter estado na França e na Itália, em 16 de junho de 1904, Mélanie se retirou incógnita em Altamura (Bari), onde faleceu em 14 de dezembro de 1904.
     Em 1918 o Padre Aníbal abriu uma Casa das Filhas do Divino Zelo em Altamura e imediatamente tomou medidas para garantir que os restos mortais da vidente de La Salette fossem trasladados para a igreja do Instituto, o que aconteceu em 19 de setembro do mesmo ano. Ele tentou também abrir - mas em vão - o processo diocesano para o reconhecimento de suas virtudes.
     "Nos meus Institutos, afirmava o Padre, a memória de Mélanie é santa e não deixamos de agradecer a Deus que de uma forma admirável no-la deu por um ano e a deixou mais tarde como protetora. Mélanie é uma criatura na qual o Altíssimo prodigalizou graças singulares, uma criatura cujo nome ressoou em todo o mundo, predileta de Deus, admirada pelos homens. A Santa Igreja vai colocá-lo sobre os altares, cingida da luminosa aureola dos santos". 
Sto. Aníbal e Mélanie Calvat
A "mensagem" e os "segredos" de La Salette
     Deve-se distinguir o conteúdo da "mensagem" e dos "segredos" de La Salette.
     Na mensagem que Maria deu aos dois adolescentes, enquanto se queixava com eles dos pecados da humanidade admoestava as pessoas a se converterem, a respeitar o dia santo dedicado a Deus, a condenarem as blasfêmias. Era um convite à penitência para afastar as catástrofes naturais, para escapar da punição divina, mas também para difundir o Evangelho da misericórdia e da reconciliação no mundo todo.
     Pelo contrário, os "segredos" confiados aos dois videntes foram divididos da seguinte forma: o segredo de Mélanie consistia no anúncio de grandes calamidades para a França e para a Europa, com referências ao anticristo e à ruína de Paris, e uma dura repreensão contra pessoas consagradas, mas infiéis; o segredo confiado a Maximin Giraud anunciava a misericórdia e a esperança.
     Em julho de 1851, a pedido da autoridade eclesiástica, Mélanie e Maximin escreveram seu segredo, que foi entregue ao Papa Pio IX.
     Infelizmente Mélanie continuaria com suas divagações proféticas, orquestradas posteriormente pelo talento de Léon Bloy (1846-1917), escritor francês animado em suas obras de um fervor profético e um fanatismo místico, o que deu origem a uma corrente chamada ‘melanista', referindo-se a La Salette, mas com base em declarações posteriores de Mélanie Calvat.
     O Padre Aníbal tinha seguido com paixão toda a história de La Salette e o debate que provocou, e cuja polêmica não dá sinais de desaparecer. Apesar de estar entre os mais fervorosos defensores da devoção a Nossa Senhora de La Salette, não podia tolerar que se passasse sobre a autoridade da Igreja.
     A este respeito, é significativa a carta dirigida por ele a Leon Bloy - o autor do livro chamado Celle qui pleure (Aquela que chora), onde não faltavam censuras amargas contra a atitude demasiadamente cautelosa e desconfiada, até a hostilidade, dos bispos franceses - na qual ele lhe suplicava: "retirai todas as cópias do seu livro e enviai para mim, e desde que são todas, eu as comprarei e as destruirei...".
     Enquanto isso o "segredo", lançado na íntegra em 1858, com a sua linguagem profética, repreensões tristes e o patético apelo ao clero, os anúncios de castigos da justiça divina, foram julgados muito duros e a ira de uma grande parte do episcopado francês chegou a tons inéditos. Mélanie foi reputada exaltada, louca, visionária e o segredo nascido de sua mente desequilibrada.
*
     (*) O Servo de Deus, Mons. Luís Salvatore Zola, foi um dos primeiros e o mais convicto apoiador de Mélanie. Em 1879 concedeu o imprimatur à publicação editada pela mesma Mélanie Calvat sobre a história da aparição de La Salette e seu "segredo".
 
 
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     No livro de Pie Regamey, “Les plus beaux textes sur la Vierge” – Os mais belos textos sobre a Virgem – (Livre De Poche Chrétien, 1962), vem um depoimento feito por Mélanie Calvat (excertos):
     “A Santíssima Virgem era alta e bem proporcionada. Parecia tão leve que um sopro poderia atingi-La. Entretanto, Ela permanecia imóvel e inalterável”.
     “Sua fisionomia era majestosa, imponente, mas não imponente como são as grandes da terra. Ela impunha um temor respeitoso, ao mesmo tempo em que sua majestade impunha respeito entremeado de amor. Ela atraía”.
     “Ao seu redor, como em sua pessoa, tudo inspirava majestade, esplendor, magnificência de uma rainha incomparável. Ela parecia bela, clara, imaculada, cristalina, celeste”.
     “Parecia-me também como uma boa mãe cheia de bondade, amabilidade, amor para conosco, compaixão e misericórdia”.
     Mélanie descreveu também o pranto de Nossa Senhora:
     “A Santa Virgem chorava quase o tempo todo enquanto falava. Suas lágrimas corriam lentamente até os joelhos e desapareciam como faíscas de luz”.
     “Eram brilhantes e cheias de amor. Eu desejava consolá-la, para que não chorasse mais. Mas me parecia que tinha necessidade de mostrar suas lágrimas, para melhor evidenciar seu amor esquecido pelos homens”.
     “Eu quis me jogar nos seus braços e dizer-lhe: Minha mãe querida, não choreis! Quero vos amar por todos os homens da terra. Mas parece que Ela dizia: Há tantos que não me conhecem".
     “As lágrimas de nossa terna mãe, longe de diminuir seu ar de Majestade, Rainha e Senhora, pareciam embelezá-la, torná-la mais bela, mais poderosa, mais cheia de amor, mais maternal, mais encantadora. Eu talvez tivesse ingerido suas lágrimas, que faziam meu coração estremecer de compaixão e de amor”.
     “É compreensível que vendo chorar uma mãe, e uma tal mãe, se queira empregar todos os meios imagináveis para a consolar, para transformar suas dores em alegria”.
 
Para saber mais sobre as Aparições de La Salette acesse:
 

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