segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Santa Beatriz de Nazaré, Cisterciense - 29 de agosto


Às vezes (a alma) tem outro modo de amor, em que empreende a tarefa de servir a Nosso Senhor de maneira totalmente gratuita só com amor, sem um porquê”. (1)

     Nos mosteiros belgas do século XI havia o costume de admitir para o coro as jovens de boas famílias da alta burguesia. As outras, incultas, entravam somente na qualidade de conversas. Recebiam ajuda de famílias importantes, como os Brabantes ou Tirlemont. Beatriz nasceu no seio desta última família.
     Nós conhecemos a vida de Beatriz por uma biografia escrita por um capelão do Mosteiro de Nazaré, no século XIII. Ele não chegou a conhecê-la, mas para esta biografia se serviu dos escritos dela mesma em flamengo medieval: o Livro da vida, que era um diário seu e recolhia os 20 anos anteriores a sua estrada no Mosteiro de Nazaré; são notas que escreveu sendo já priora e seu tratado místico chamado Dos sete modos de Amor. Somente o seu tratado chegou até nós. O anônimo capelão se serviu também, para escrever a biografia, dos dados comunicados pelas monjas que a conheceram, fundamentalmente das recordações da irmã de Beatriz, Cristina, a qual lhe sucedeu como priora.
     Beatriz era a mais nova de seis irmãos e nasceu em Tirlemont, a uns 20 km de Louvaine, na diocese de Liége, Bélgica, no ano 1200. Seu pai, o Beato Bartolomeu, ao falecer sua esposa ingressou na Ordem de Cister como leigo cisterciense. Ele ajudou a construir outros três mosteiros de monjas, como o de Oplinter e o de Nazaré.
     A mãe de Beatriz a instruiu pessoalmente; com cinco anos ela era capaz de recitar integralmente o saltério de Davi. Aos sete anos, ao morrer sua mãe, seu pai a enviou à escola das beguinas de Leau (2) para que estas lhe ensinassem as virtudes e ao mesmo tempo frequentava uma escola da mesma cidade de Zoutleeuw, onde aprendeu as artes liberais. Permaneceu nela um ano, mas não chegou a acabar os estudos de artes liberais que compreendiam gramática, retórica e dialética.
     Aos dez anos ingressou como oblata no mosteiro de Bloemendaal ou Florival, que havia passado a ser cisterciense em torno do ano 1210 e onde seu pai era o administrador. Ali continuou o trivium e o quadrivium que consistia em música, aritmética, geometria e astronomia.
     Neste período o pai de Beatriz ingressou como leigo em Bloemendaal e seu irmão Wickbert ingressou também como converso; suas irmãs Cristina e Sibila entraram na mesma comunidade em 1215. Quando Bloemendaal fundou Maagdendaal, perto de Tienen, o pai de Beatriz e os irmãos desta foram enviados para aí em 1221. Neste mosteiro Beatriz realizou sua profissão solene e foi consagrada virgem pelo Bispo.
     Conta-se que nos primeiros anos ocorreu com Beatriz o que aconteceu com São Bernardo: ao meditar a Paixão de Cristo, que deu a vida por nós na cruz, entregava-se a penitências excessivas na ânsia de se imolar por amor dEle. São Bernardo lamentaria mais tarde tais excessos da juventude, pois teve que lutar toda a vida para manter-se em pé. Tal se passou com Beatriz, que se entregou a severas austeridades e mais tarde sentiu o peso daquelas penitências indiscretas.
     Logo após professar, enviaram-na ao mosteiro de La Ramée para se aperfeiçoar na caligrafia e na confecção de iluminuras de manuscritos, tornando-se uma excelente mestra na arte de fazer pergaminhos ilustrados. Em La Ramée encontrou-se com Santa Ida de Nivelles, que lhe serviria de mestra e como mãe espiritual, graças a sua experiência nas vias de Deus. Beatriz percebeu que esta religiosa se esmerava em atendê-la e ao lhe perguntar por que dedicava tanto tempo em ajudá-la espiritualmente, a Santa religiosa respondeu que era porque via claramente que Deus a havia eleito para grandes coisas. Tais palavras proféticas se cumpriram inteiramente.
     Em 1235, Maagdendaal fez a fundação de Nazaré. Em 1236, Beatriz se translada para este novo mosteiro e exerceu ali a função de mestra de noviças durante dois anos; mais tarde, foi eleita priora.
     Beatriz procurou empenhadamente seguir os passos de sua mestra, vivendo uma espiritualidade centralizada toda no amor entendido como meio pelo qual Deus se manifesta às criaturas e a quem estas podem corresponder. Como resultado de sua experiência mística, escreveu uma preciosa obra intitulada Dos sete modos de praticar o amor, a qual, segundo aqueles que a estudaram a fundo, é um tratado de uma beleza ímpar.
     “Seu estilo é sóbrio e suas frases elegantes; sua exposição límpida e clara; a prosa é doce e ágil com lindas rimas muito naturais. A autora possui uma inteligência excepcional, consegue expressar magistralmente, no plano da forma e do pensamento, suas experiências místicas extraordinárias. O tratado é muito sintético, cada palavra tem seu peso e seu valor... deixando-nos seduzir por sua mensagem através da beleza literária do texto que, mais do que outra coisa, expressa a beleza de sua alma e é testemunha de sua busca absoluta do amor”.
     Em sua vida espiritual, Beatriz se ocupou do estudo da Santíssima Trindade e para isso manejava cópias de livros sobre este tema, e isso nos mostra “a acessibilidade nos mosteiros cistercienses de obras de conteúdo teológico e recorda ao mesmo tempo o útil ofício de copista aprendido em la Ramée”. (3)

     Dos sete modos de Amor é o compêndio da vida de Beatriz. Ela lê toda sua vida à luz do amor de Deus e a reconhece nesta palavra, minne (4). Minne leva em si a realidade divina e a experiência humana. “O amor de Deus – de quem Beatriz fala – é seu amor por Deus, no qual, paradoxalmente, Deus mesmo se dá a conhecer. Fazer isto evidente sete vezes é sua finalidade e sua tarefa”. (5)
     No segundo livro de sua Vida, aumentam estas experiências que vão se centrando na união mística; a mais significativa foi a ocorrida em Maagdendaal no ano 1232, onde Beatriz vê o Senhor que se aproxima dela e atravessa sua alma com uma lança ardente. Existe o simbolismo entre a lança que penetrou o Lado de Cristo em sua Paixão e a lança que penetra a alma de Beatriz e que lhe anuncia a união amorosa com o Amado, esposa eleita dos Cânticos.
     Em Nazaré, onde por mais de trinta anos serviria a comunidade como mestra de noviças e segunda superiora, desde o mês de julho de 1231 até 1268, ano de sua morte, lhe foi concedido o tempo de amar. Beatriz expressou, de maneira magistral, sua própria síntese, regalando-nos um admirável canto lírico de amor místico, como belamente definiu o Padre Mikkers seu pequeno tratado das sete maneiras do santo Amor de Deus.
     Ela escreveu ainda outras obras. Suas leituras preferidas eram as Sagradas Escrituras e os tratados sobre a Santíssima Trindade.
     Beatriz faleceu em 29 de agosto de 1268. Seus restos mortais tiveram que ser escondidos para que os calvinistas não os profanassem e se acredita que seu corpo foi transladado por anjos para Lier. 

Etimología: Beatriz = a que faz feliz, do latim.

Cidade de Lier

Fontes: www.santiebeati/it
Ir. Marina Medina/Mosteiro Cisterciense da Santa Cruz–Espanha
http://caminocisterciense.blogspot.com.br/2011/03/beatriz-de-nazaret.html - traduzido por José Eduardo Câmara de Barros Carneiro, para a Abadia Nossa Senhora Aparecida, das Monjas Cistercienses de Campo Grande.

Notas:
(1) Beatriz de Nazaret, Los siete modos de amor. II modo, Barcelona 1999, p. 287.
(2) As beguinas eram uma associação de mulheres católicas, contemplativas e ativas, que dedicaram sua vida tanto na defesa dos desamparados, enfermos, mulheres, crianças e anciãos, como em um brilhante labor intelectual. Organizavam a ajuda aos pobres e aos enfermos nos hospitais, ou aos leprosos. Trabalhavam para se manter e eram livres de deixar a associação a qualquer momento para se casar.
(3) V. Cirlot, b. garí, La Mirada interior. Escritoras místicas y visionarias en la Edad Media, Barcelona 1999, p. 118-119.
(4) Minne (feminino) é originariamente o pensamento (vivo em alguém) da pessoa amada.
(5) Liliana Schiano Moriello, Beatriz de Nazaret (1200-1268). Su persona, su obra, Cistercium 219 (2000) 442.

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