quinta-feira, 17 de abril de 2014

Beata Maria da Encarnação Acarie, Carmelita - 18 de abril

    

      Bárbara Avrillot nasceu em Paris, no dia 1º de fevereiro de 1566, filha de Nicolau Avrillot, Senhor de Champstreaux, riquíssimo, influente na corte francesa e na vida religiosa por ser um homem muito devoto, assim como sua descendência.
     Como era costume na época, apenas adolescente Bárbara foi enviada às Irmãs Menores da Humildade de Nossa Senhora, que habitavam em Longchamp. Regressou à família aos catorze anos e não pôde optar pela vida religiosa, pois aos dezesseis anos foi entregue como esposa ao Visconde de Villemor, Pedro Acarie, Senhor de Montbrost e de Roncenay, proprietário de muitas terras, muito atuante na política da corte e cuja influência era tão forte quanto à de sua família, homem de costumes irrepreensíveis.
     O casal teve seis filhos. “A bela Acarie”, como era conhecida em Paris, iniciou a vida matrimonial e de mãe dando a todos exemplo de como sendo mãe e esposa viver uma vida religiosa e de acordo com os mandamentos de Deus, enfrentando também os deveres na administração do lar, além de colocar a família no caminho da santidade.
     Era incansável no auxílio aos necessitados, especialmente durante o assédio de Paris pelo rei Henrique IV, em 1590, durante as guerras religiosas em que se enfrentaram os católicos e os huguenotes, com a intervenção militar dos espanhóis.
     Filha devota da Igreja, Madame Acarie participou das ações contra a heresia protestante que procurava se estender na França. Deus a favoreceu com graças místicas extraordinárias, mas também lhe mandou provas exteriores e interiores.
     O rei Henrique IV, protestante, após desfazer a Liga Católica à qual seu marido pertencia, mandou-o para o exílio e confiscou todos os seus bens. Foram quatro anos de várias atribulações financeiras e de aflição de espírito. Porém Bárbara não se abateu, tomou a defesa do marido, não se detendo até provar a inocência dele e reaver todos os bens.
     Foi com essa fibra que educou os filhos, com generosidade, no respeito e no serviço aos mais pobres, doentes e mais desamparados. Ensinou-os a viver de maneira simples, sóbria, modesta, e no amor à verdade, pois a verdade é Cristo. Ensinou-lhes também o espírito de sacrifício e a força de vontade perante as dificuldades.
     Nesse período conheceu o religioso Francisco de Sales, depois também Fundador e Santo, o qual aprovava sua atitude e comportamento, vindo a tornar-se o seu diretor espiritual.
     O Edito de Nantes de 13 de abril de 1598 tolera o protestantismo, o que causa muito sofrimento aos Acarie. Como resultado, orações e trabalhos, ela mesma uma leiga, para introduzir a reforma do Carmelo na França, o que lhe foi inspirado após ler os escritos de Santa Teresa d'Ávila. Em 1602 acolheu as primeiras vocações, obteve a autorização do rei, que tinha por ela uma grande consideração, e em 1603 o papa Clemente VIII enviou-lhe sua autorização para a fundação e ela pôde construir o primeiro mosteiro carmelita na França.
     Em 29 de agosto de 1604, seis Carmelitas Descalças espanholas, entre as quais a futura Beata Ana de São Bartolomeu e a uma futura Serva de Deus, Ana de Jesus, chegaram a Paris e no dia 17 de outubro do mesmo ano foi iniciada a vida monástica naquela cidade. Iniciando assim uma forte influência na espiritualidade católica de seu tempo, Bárbara Avrillot teve a felicidade de ver a Ordem se expandir para Pontoise, Dijon, Amiens nos anos 1605/1606, e três de suas filhas ingressarem no Carmelo de Amiens.
     Em 1613 seu esposo adoeceu gravemente e depois de nove dias morreu na paz do homem justo, assistido pela santa viúva confortada pela confirmação celeste da sua salvação eterna.
     Em 7 de abril de 1614, livre de todos os deveres terrenos, Bárbara ingressou no Carmelo de Amiens como conversa, tomando o nome de Maria da Encarnação. Fez seus votos a uma de suas filhas, que se tornara abadessa do mosteiro.
     Viveu sua vida de clausura com humildade, trabalhando na cozinha, atendendo as irmãs doentes, sofreu muito com a incompreensão de uma nova priora proveniente de outro Carmelo, teve muitos êxtases e visões que a confortavam nas suas longas doenças e provações. Manteve-se sempre ativa e preparada para discussões sobre o tema da fé e sempre humilde e afetuosa como simples carmelita de sua comunidade. 
     Por motivos de saúde, foi transferida para o Carmelo de Pontoise em 7 de dezembro de 1616. Ali, após uma longa enfermidade, entregou a alma a Deus em 18 de abril de 1618, recitando várias vezes os Salmos 21 e 101. Esse dia era uma Quinta-Feira Santa. O seu corpo repousa na capela daquele convento.
     Irmã Maria da Encarnação, Madame Acarie, é considerada a "Mãe Fundadora do Carmelo na França" porque mais do que todos contribuiu para a difusão da reforma carmelita de Santa Teresa d'Ávila em solo francês.
     O decreto do papa Urbano VIII fez com que a causa de beatificação de Irmã Maria da Encarnação fosse reaberta somente em 1782 e concluída com a cerimônia de beatificação por Pio VI em 5 de junho de 1791.
 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Santa Catarina Tekakwitha, o Lírio dos Mohawks - 17 de abril

     No ano de 1655, uma jovem índia foi capturada durante uma invasão dos Iroqueses. Seu nome era Kahenta. Nascera Algonquin e fora convertida pelos padres jesuítas. Levada para o território dos Mohawks, ela se casou com um chefe Mohawk pagão, que a salvara das torturas e morte, destino de muitos cativos. A aldeia dos Mohawks ficava em Ossernenon, ao longo da margem sul do Rio Mohawk, próximo da atual Auriesville, Estado de Nova York.
     No ano de 1656, nasceu a pequena Tekakwitha, “a que põe as coisas em ordem”, e tempos depois seu irmãozinho. Tekakwitha tinha mais ou menos quatro anos quando uma epidemia de varíola exterminou muitos habitantes da aldeia, entre eles seus pais e irmão. A pequena sobreviveu, mas a doença deixou marcas em seu rosto, sua visão é afetada e sua saúde se ressentiria para sempre. Tendo ficado órfã, seu tio, o novo chefe da aldeia, a adotou.
     Após a epidemia, a aldeia foi abandonada e os sobreviventes construíram um novo povoado chamado Caughnawaga, há umas cinco milhas de distância.
     Embora sua mãe tivesse sido batizada, Tekakwitha não o fora, mas ela era católica no fundo da alma. Ela sentia muita solidão, em parte devido à sua pouca visão e à sua aparência, mas também porque percebia o que tinha de errado na vida dos Mohawks. Ela era uma criança doce e tímida. Ajudava suas tias a trabalhar no campo, onde cultivavam milho, feijão e abóbora; cuidava da tenda em que viviam. Apesar de sua visão deficiente, ela também se tornou muito hábil no trabalho com contas.
     Talvez devido às marcas em seu rosto, ela não gostava de danças e celebrações. As torturas brutais de prisioneiros era algo em que toda a aldeia participava com entusiasmo, mas Tekakwitha não podia ver os sofrimentos impingidos às vítimas e permanecia sozinha em sua tenda.
     Os Iroqueses foram vencidos pelos Franceses quando ela tinha em torno de dez anos. Um tratado de paz foi assinado, que permitia aos padres jesuítas a ida às aldeias Mohawks. Embora contra a oposição da sua tribo, da sua família e especialmente de seu tio, Tekakwitha com freqüência encontrava-se com os padres que vinham à aldeia e aprendia tudo que podia sobre Deus.
     No ano de 1670, a Missão de São Pedro foi estabelecida na aldeia Caughnawaga e uma capela foi construída em uma das tendas. Em 1674, o Padre James de Lamberville, jesuíta missionário, chegou a Caughnawaga para cuidar da Missão de São Pedro.
     Tekakwitha compreendia apenas algumas coisas sobre a Fé pregada pelos missionários, mas havia nela um grande desejo de aprender tudo que pudesse sobre o Catolicismo. Ela desejava mais que tudo ser batizada e viver uma vida católica.
     Seus tios têm outros planos para ela: frustrados por suas contínuas recusas ao casamento decidem enganá-la. Uma noite, eles pedem que ela vista suas melhores roupas, pois receberiam convidados. Eles chegaram: era um jovem e sua família. Os tios fazem-no sentar-se ao lado de Tekakwitha e ordenam que ela sirva sopa ao rapaz. Logo ela percebeu a trama: se ela oferecesse a ele a tigela, isto significaria que ela aceitava o casamento. Ela atirou a sopa no fogo e correu para fora da tenda em lágrimas, escondendo-se na plantação de milho até que os convidados tivessem partido.
     Um dia, o Pe. de Lamberville, sabendo embora da hostilidade de seu tio, seguiu um forte impulso e foi visitá-la e ela revelou o seu grande desejo de ser batizada. Vendo a sinceridade da jovem, ele concordou em instruí-la. No dia 5 de abril de 1676, com a idade de vinte anos, Tekakwitha foi batizada na pequena capela da Missão, recebendo o nome de Catarina.
     A família de Catarina não aceitou sua escolha e passou a tratá-la como uma escrava; ela se tornou objeto de crueldades por parte de seu povo. Quando ela ia para a capela ou para a fonte, as crianças atiravam lama e pedras nela. Certa vez, quando se encontrava sozinha na tenda, um homem entrou abruptamente, brandindo um grande porrete de guerra e, dirigindo-se a ela, ameaça-a com a morte caso não renuncie à religião dos Roupas Pretas (era assim que os índios designavam os missionários). Catarina responde que ela preferia morrer a desistir de sua fé. Vendo-a tão calma, com suas mãos cruzadas e sua cabeça curvada, o atacante subitamente perdeu a coragem, largou o porrete e fogiu da tenda.
     Em virtude das hostilidades crescentes e porque ela desejava devotar sua vida a Deus, ela quer deixar Caughnawaga. Havia uma outra aldeia com o nome de Missão de São Francisco Xavier, em Sault St. Louis, próxima da colônia francesa de Montreal, uma missão jesuítica no Canadá para índios convertidos que como Catarina não tinham tranqüilidade nem segurança em suas aldeias. Uma antiga amiga de sua mãe, Anastastia Tegonhatsiio, já tinha ido para lá, mas seu tio não a deixaria ir.
     Em julho de 1677, o Pe. de Lamberville conseguiu que ela escapasse enquanto seu tio estava ausente numa viagem de negócios. Com ela foram mais duas pessoas.
     A viagem a pé, de mais de dois meses, não foi muito fácil: além das 300 milhas por densas florestas, vales profundos, rios e pântanos, seu tio, ao saber da fuga estava ao seu encalço. Catarina e seus companheiros, entretanto, conseguem escapar. Quando eles chegam ao Lago George, chamado na língua de Catarina, Andiarocte, eles encontram uma canoa e atravessaram os Lagos George e Champlain em direção ao Canadá. Finalmente eles chegam sãos e salvos na aldeia da Missão; Catarina corre para a capela para render graças a Deus.
     Catarina recebeu a 1a Comunhão no Natal do ano de 1677. Foi o dia mais feliz de sua vida. Ela tem então um lema: “Quem pode dizer-me o que mais agrada a Deus, para que eu o faça?” Embora não soubesse nem ler nem escrever, ela se dedica a ajudar os outros. Tem uma vida plena de oração, penitência, devotada a ensinar os mais jovens, a cuidar dos doentes e dos mais idosos.
     Era grande sua devoção a Mãe de Deus. Aprendeu rapidamente a Ladainha Lauretana de cor. Seu Rosário estava sempre à mão e Nossa Senhora era o seu modelo. A vida religiosa a atraia, mas os missionários negam-lhe permissão, pois ela só tem três anos de conversão.
     A 25 de março de 1679, Catarina tornou-se Esposa de Cristo: após a Sagrada Comunhão ela fez voto de perpétua virgindade. Na mesma ocasião ela se ofereceu a Maria Ssma. como filha.
     Catarina e Maria Teresa (Tegaiaguenta) tornaram-se grandes amigas e nesse ano de 1679 obtêm permissão para começar um pequeno convento na Missão.
     Como resultado de tribulações e austeridades, algum tempo depois de ter feito os votos ela caiu doente. Em breve está tão fraca, que não pode visitar a capela ou deixar o leito. Durante meses ela suportou grandes dores e febre contínua, mas nunca perdeu sua fé em Nosso Senhor Jesus Cristo e em Sua Mãe Ssma.
     Na Quinta-feira da Semana Santa, dia 17 de abril de 1680, por volta das quinze horas, ela expirou pronunciando com grande dificuldade e dor: “Jesus, Maria, eu Vos amo!”
     O Pe. Pierre Cholenec, um dos presentes no instante de sua morte, conta que, “no momento de sua morte, a face de Catarina, tão desfigurada em vida, quinze minutos após seu falecimento subitamente mudou e em instantes tornou-se tão bela, que assim que eu vi isto (eu estava rezando ao seu lado) eu dei um grito, fiquei tão aturdido, e mandei chamar o padre que estava atendendo as cerimônias da Quinta-feira Santa. Ao tomar conhecimento deste prodígio, ele acorreu com algumas pessoas que estavam com ele. Nós pudemos contemplar aquela maravilha até o momento de seu funeral. Eu admito francamente que meu primeiro pensamento, na ocasião, fora que Catarina podia ter entrado no Céu naquele instante e que ela tinha recebido – como por antecipação – em seu corpo virginal uma pequena indicação da glória que sua alma já teria possuído no Paraíso”.
     A devoção por Catarina começou imediatamente. Antes de sua morte ela prometera, tal qual Santa Teresa de Lisieux, que se lembraria dos seus amigos da Terra e que os ajudaria do Céu. Ela logo cumpriu sua promessa: curas aconteciam quando ela era invocada ou quando se usava sua relíquia.
     Catarina foi declarada Venerável a 3 de janeiro de 1943 pelo Papa Pio XII; foi beatificada por João Paulo II em junho de 1980. Catarina Tekakwitha foi a primeira americana nativa declarada bem-aventurada. Em 21 de outubro de 2012 foi canonizada pelo Papa Bento XVI.
     Santuários dedicados a Santa Catarina Tekakwitha foram erigidos em São Francisco Xavier, Caughnawaga, em Auriesville e em muitos outros lugares. Milhares de fiéis peregrinam a esses locais até nossos dias.
 
Este é o mais antigo retrato da Beata Kateri Tekakwitha, pintado pelo Pe. Chauchetière entre 1682-1693. Ele se encontra na sacristia da igreja de São Francisco Xavier, na Reserva Kanawaké Mohawk, próximo de Montreal, Quebec, Canadá.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Santas Anastácia e Basilissa, Mártires - 15 de abril


     Martirizadas em torno do ano 68 d.C.
     A tradição diz que duas nobres romanas, Basilissa e Anastácia, foram convertidas ao Cristianismo pelas pregações dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, dos quais receberam a missão e o privilégio de enterrarem os Apóstolos. Após os dois Apóstolos terem sido martirizados em Roma, Basilissa e Anastácia encontraram os seus corpos e os enterraram secretamente à noite.
     Isto teria enfurecido as autoridades que acabaram descobrindo quem havia enterrado os Apóstolos; elas foram presas e levadas diante do tribunal de Nero para renunciarem a sua fé e confessarem onde tinham enterrado os dois, para seus corpos serem exumados e queimados. Nenhuma das duas confessou o local e tiveram as suas línguas arrancadas, os braços e pés cortados antes de serem finalmente decapitadas.
     Os restos das duas gloriosas mártires, segundo o Diário Romano de 1926, ainda hoje são venerados na igreja de Santa Maria da Paz.
     Em edições anteriores o Martirológio Romano recordava as Santas Anastásia e Basilissa no dia 15 de abril, mas as últimas reformas reuniram todos os primeiros mártires cristãos de Roma em uma única comemoração no dia 30 de junho.
     Na arte litúrgica da Igreja, Basilissa e Anastácia são mostradas com as suas mãos e pés cortados fora. Em outras gravuras são mostradas enterrando os corpos de São Pedro e São Paulo.
 
Etimologia: Anastácia = do grego Anastasios, “que ressurgiu (pelo Batismo à vida nova)”; Basilissa = do grego, “rainha”.
 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Santa Madalena de Canossa, Fundadora - 10 de abril


Virgem, Fundadora da Família Canossiana Filhos e Filhas da Caridade
 
     Madalena Gabriela Canossa nasceu no dia 1º de março de 1774 na cidade italiana de Verona, que pertencia à sua nobre e influente família, terceira de seis irmãos. Ela descendia da famosa Matilde da Toscana, Senhora de Canossa. Seu pai faleceu quando tinha cinco anos. Sua mãe abandonou os filhos para se casar novamente. As crianças foram entregues aos cuidados de uma péssima educadora, que ela detesta, e em consequência Madalena adoeceu várias vezes. Deus a guiou por essas etapas dolorosas para ligá-la mais a Ele.
     Com 17 anos desejou consagrar sua vida a Deus e por duas vezes fez experiência no Carmelo de Trento e no de Conegliano (Treviso), mas intuiu que não era aquela a sua via. Voltou para a família, guardando secretamente no coração a sua vocação. No Palácio de Canossa aceitou a administração do vasto patrimônio familiar, surpreendendo a todos com seu talento para os negócios. Entretanto, nunca se interessou pelo matrimônio.
     Os tristes acontecimentos do final do século XVIII - políticos, sociais e eclesiais - marcados pelas repercussões da nefanda Revolução Francesa, bem como as alternâncias dos vários imperadores estrangeiros na região italiana, deixavam os rastros na devastação e no sofrimento humano, enchendo a sua cidade de pobres e menores abandonados.
     Em 1801, duas adolescentes pobres e abandonadas pediram abrigo em seu palácio. Então ela compreendeu qual era a sua vocação: não “reinaria” no palácio da família, que havia hospedado Napoleão e Alexandre I da Rússia. Ela não só as abrigou como recolheu muitas outras. Pressentiu que este era o caminho que Deus desejava que ela seguisse e descobriu em Cristo Crucificado o ponto central de sua espiritualidade e de sua missão. Abriu o Palácio dos Canossa e fez dele não uma hospedaria, mas uma comunidade de religiosas, mesmo contrariando seus familiares.
     Sete anos depois, superou as últimas resistências de sua família, deixando definitivamente o palácio. Madalena foi para o bairro mais pobre de Verona para concretizar aquela que interiormente reconhece ser a vontade do Senhor: servir aos mais necessitados fundando a Congregação das Filhas da Caridade, para a formação de religiosas educadoras.
     O amor à Cristo Crucificado ardia no coração de Madalena; suas companheiras se tornaram testemunhas do mesmo amor em cinco âmbitos específicos: a escola; a catequese a todas as categorias, privilegiando os distantes; a assistência voltada principalmente aos enfermos dos hospitais; os seminários residenciais para formar jovens professoras de áreas rurais; cursos de exercícios espirituais anuais para as damas da alta nobreza, com o objetivo de incentivá-las espiritualmente e envolvê-las nas várias áreas caritativas.
     Madalena escreveu as Regras da Congregação das Filhas da Caridade em 1812, obteve de Pio VII a aprovação inicial pontifícia para sua obra, após a queda de Napoleão, e entre 1819 e 1820 obteve a aprovação eclesiástica nas várias Dioceses onde as Comunidades existiam. Leão XII aprovou a Regra do Instituto com o Breve Si Nobis em 23 de dezembro de 1828.
     Em 1816, o Imperador Habsbourg Francisco I, que reinava sobre o sul Lombardo-Vêneto, visitou Verona com sua terceira filha, Maria Luiza d’Este, que adoeceu e faleceu naquela cidade; seu velório foi feito em uma das salas do Palácio de Canossa. Mas Madalena não aparecia mais com frequência no palácio: ia de Veneza a Milão, e depois a Roma e a Trento, para fundar novas sedes e escolas.
     Depois de várias tentativas malsucedidas, perto do fim de sua vida Madalena conseguiu dar andamento à Congregação masculina, como havia projetado inicialmente. No dia 23 de maio de 1831 abriu em Veneza o primeiro oratório dos Filhos da Caridade para a formação cristã dos jovens e adultos, confiando-o ao sacerdote veneziano Francesco Luzzo, auxiliado por dois leigos de Bergamo: José Carsana e Benedito Belloni.
     Madalena encerrou sua intensa e fecunda existência terrena numa Sexta-feira da Paixão, dia 10 de abril de 1835, com apenas 61 anos, em Verona, assistida pelas suas Filhas.
     Em 2 de outubro de 1988, João Paulo II proclamou-a Santa, determinando o dia de sua morte para seu culto litúrgico.
     Santa Madalena legou aos seus Filhos da Caridade a grande herança de viver "dispostos pelo divino serviço a ir a qualquer país, até mesmo o mais remoto" (Madalena, Ep. II / I, p. 266). As Filhas da Caridade atravessaram o oceano para o Oriente em 1860, atualmente são cerca 4.000, presentes nos cinco continentes; os Filhos da Caridade são cerca 200 e atuam em diversas cidades da Itália e além-mar. Os filhos de Madalena são chamados de Irmãs e Irmãos Canossianos.
 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Beata Ursulina de Parma, Virgem - 7 de abril

   
 A Beata Ursulina, como São Vicente Ferrer, Santa Coleta e outras grandes almas que floresceram naquele período lutuoso da Igreja e da História, foi o anjo protetor colocado por Deus no mundo para que estendesse suas brancas asas, e voando em direção ao céu mostrasse aos homens o caminho da verdadeira felicidade.

     Ursulina era filha de Pedro Veneri e de Bertolina. Manuscritos conservados no Arquivo de Estado de Parma e no de Siena, redigidos por seu confessor, testemunham a intensa vida espiritual de Ursulina e o seu dom de contemplação. Como oblata beneditina, foi próxima dos beneditinos dos mosteiros de Parma, mas não pertenceu a nenhum instituto monástico.
     Sua vida transcorreu durante o problema do cisma de Avignon que angustiava a Igreja. Duas vezes ela foi a Avignon acompanhada da mãe para convencer Clemente VII a por fim à divisão na Igreja, sem êxitos positivos.
     Toda a vida da Beata Ursulina de Parma está impregnada de feitos sobrenaturais. As celestiais aparições e o milagre se alternam na vida da Beata durante sua peregrinação pela terra. O narrador, como na vida de São Patrício, apóstolo de Irlanda, caminha de maravilha em maravilha.
     Apenas Ursulina apareceu em seu berço e Deus concedeu a ela o tesouro de suas divinas graças. Desde 14 de maio de 1375, dia em que a cidade de Parma teve a honra de contar entre seus filhos a Beata Ursulina, até o de seu ditoso trânsito para a morada celestial, ocorrido em 7 de abril de 1408, não há momento em que Deus não tenha favorecido Suas generosas dádivas ao piedoso coração de sua predileta serva.
     Aos quatro meses, Ursulina já pronunciava diante de sua mãe, com voz clara e segura, estas palavras: Deus, Nosso Senhor. Simão de Zanacci, monge cartuxo, historiador da Beata Ursulina, refere que o sono daquela menina bem-aventurada era velado pelos Apóstolos São Pedro e São Paulo, segundo a própria Ursulina declarou a Bertolina, sua mãe.
     Desde os seis ou sete anos, ela se entregava à oração mental; Nosso Senhor lhe aparecia e comunicava admiráveis luzes a respeito dos mistérios de nossa fé e das realidades da vida futura. Durante seus primeiros anos guardava para si os segredos destas comunicações divinas; porém depois, na idade de nove anos, desejosa de ser útil às almas e à glória de Deus, suplicou a um sacerdote, venerável por sua idade e ciência, que tivesse a bondade de escrever o que ela lhe ditasse.
     Este sacerdote, chamado Tomás Fosio, não quis atender ao pedido de Ursulina, acreditando ser tudo fruto de uma imaginação infantil. Mas, atraído pela modéstia, seriedade e recato da jovenzinha, consentiu em ouvir suas declarações, ficando assombrado como uma menina sem instrução nenhuma falava das mais altas questões como faria um consumado teólogo.
     Outros personagens que ouviram Ursulina, entre muitos, foram: Nicolás, da Ordem dos Ermitãos; Santiago de Sibinago, procurador da Cúria Romana; Amico, médico de Roma; o Doutor Donnino de Garomberti. Todos foram unânimes em afirmar o caso como prodigioso e prognosticaram dias de glória para Ursulina.
     Sua reputação chegou tão alto, que Bonifácio IX reclamou seus serviços. A Igreja estava então dividida por um dos mais lamentáveis cismas que afligiram a Cátedra de São Pedro: pouco depois da eleição de Urbano VI, no ano 1378, alguns cardeais, alegando não terem votado com inteira liberdade, elegeram um substituto de Urbano, Roberto de Genebra, que tomou o nome de Clemente VII, fixando sua residência em Avignon, França.
     Ursulina trabalhou com zelo para a causa da unidade da Igreja. Como prova de seu grande interesse, acompanhada de sua mãe, no Domingo de Pascoa de 1393 viajou para a Provença com o objetivo de ver o falso papa Clemente e fazê-lo deixar imediatamente aquele poder injustamente usurpado. A viagem era sumamente perigosa, mas todos os perigos desapareciam diante da nobre figura de um ancião que as acompanhava: era o Apóstolo São João! A entrevista com o antipapa, entretanto, não obteve o êxito esperado.
     Bonifácio IX ficou admirado com a atitude daquela humilde mulher e, após consultar os cardeais, confiou-lhe o encargo de levar uma carta ao antipapa Clemente.
     Mais uma vez Ursulina se dirigiu à França, e novamente o Cardeal Pedro de Puy, com sua influência, lhe abriu as portas do palácio de Avignon.
     Com grande eloquência Ursulina expôs diante do falso pontífice os males da Igreja e a necessidade de uma paz imediata. Ao escutá-la, um dos presentes, Guilherme Novellet Cardeal de Saint-Ange, exclamou em voz alta que queria submeter-se a Bonifácio IX. O bando cismático ficou indignado, mas Ursulina continuou falando. A maioria dos cardeais ia reconhecer Bonifácio, mas aconselharam ao antipapa que suspendesse a audiência.
     Os inimigos da Igreja não perdoaram a Beata Ursulina, submetendo-a a uma severa vigilância e a acusaram de bruxaria. Deus porém preservou-a daquelas maquinações ferindo de morte repentina o débil e irresoluto Clemente VII. Ursulina voltou para Roma e depois de obtida a bênção do Sumo Pontífice, dirigiu-se para sua cidade natal, Parma.
     De volta de uma peregrinação à Terra Santa (1396) adoeceu em Veneza onde deixou uma marca tão viva de sua santidade, que depois de 40 anos de seu falecimento a República queria promover a sua canonização e dedicar a ela um mosteiro.
     As discórdias e guerras civis que desolavam então Parma pouco tempo depois a obrigaram a se refugiar em Bolonha, onde haveria de concluir sua peregrinação terrena.
     Quinze anos antes Deus havia revelado a data de sua ditosa morte, que ocorreu no dia 7 de abril de 1408, aos trinta e três anos de idade. Seu corpo foi levado pela mãe para a Igreja de São Quintino, em Parma, tão logo a paz foi restabelecida.
     Além do já mencionado Simão de Zanacci, cartuxo, a vida da Beata Ursulina foi escrita pelo historiador Antonio Testi.
     Seu culto foi aprovado por um decreto do Papa Pio VI, em 11 de fevereiro de 1786.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Beata Aleth ou Aliete, Mãe de S. Bernardo de Claraval - 4 de abril



     Aleth nasceu na segunda metade do século XI, por volta de 1070; era filha do Conde Bernardo, Senhor de Montbard (Côte d’Or), da nobre família descendente dos duques de Borgonha, e de Umberga (Umbelina) de Ricey.
     Destinada à vida religiosa, ela foi educada em uma escola monástica onde aprendeu a ler e a escrever o latim e o grego, a cantar os Salmos, a conhecer perfeitamente as Escrituras. Mas, por razões de alianças, ela foi dada em casamento aos 15 anos ao Senhor de Chatillon sur Seine, Tescelin, chamado o Vermelho, homem de grande virtude.
     Aleth era doce, benevolente e reservada. Seus cabelos louros em tranças caiam ao lado da face. Tescelin era um nobre cavaleiro a serviço do Duque da Borgonha, Eudes 1º, que apreciava seus conselhos e sua bravura. O duque lhe confiou a fortaleza de Fontaines-lez-Dijon que ele tinha construído em 1080 para defender a cidade de Dijon.
     Foi ali que Aleth viveu, no castelo do qual ainda restam elementos que foram restaurados recentemente. Ali nasceram seus sete filhos (Guido, Gerardo, Bernardo, André, Bartolomeu, Nivaldo, Umbelina). Em 1090, nasceu o terceiro, Bernardo, futuro Abade de Claraval, o grande Santo, Pai da Igreja, fundador de 70 mosteiros cistercienses, a maior figura da Cristandade da Idade Média. O quarto onde ele nasceu foi transformado em capela no século XV, confiada à congregação dos Feuillants (cistercienses reformados) de Dijon.
     Desde o nascimento Aleth ofereceu seu filho Bernardo a Deus na capela que mandara construir no castelo em honra a São Ambrosiniano, bispo e mártir armênio cuja relíquia lhe fora trazida da Armênia por um peregrino. Em 1619 no local foi inaugurado um santuário que incluía a capela. A Revolução Francesa provocou a ruina do castelo e a destruição do santuário. No século XIX o conjunto foi restaurado.
     Desde o início da gravidez de Bernardo Aleth via em sonhos um pequeno cão branco e preto que latia com força e lhe profetizava que sua criança seria um grande orador e um pregador poderoso. Aleth tomou para si os cuidados da primeira educação de seus filhos. No castelo ela cumpria conscienciosamente suas obrigações domésticas e levava socorro e consolo aos pobres e aos doentes da vizinhança. Ela exigia de sua família uma disciplina litúrgica estrita e desejava ardentemente que todos seus filhos se dedicassem ao serviço de Deus.
     Muito culta, Aleth tinha um estreito relacionamento com o Abade de São Benigno, Jarenton, personagem célebre, antigo prior do Mosteiro de Chaise Dieu, bispo de Landres e legado do papa para numerosas missões. O Mosteiro de São Benigno de Dijon era à época “Cabeça” de quarenta mosteiros na França e Guilherme de Volpiano havia mando construir uma Abacial majestosa que o Abade Jarenton restaurou.
     Era para esta abacial que Aleth levava o pequeno Bernardo para assistir às cerimônias e escutar o canto gregoriano, ou para rezar na cripta dos santos sob as famosas “rotondas” sobre o túmulo de São Benigno, ou na capela da Virgem. Somente esta cripta subsiste da abacial daquela época.
     Aleth foi esposa e mãe exemplar, fez de seus filhos cristãos perfeitos e excelentes gentis-homens. Grande era sua caridade com os pobres: ia de casa em casa à procura dos mais necessitados e dos doentes, que socorria generosamente não desprezando os serviços mais humildes.
     No dia da festa de São Ambrosiniano, patrono da vila, Aleth convidava todos os sacerdotes para uma festa em seu castelo. E foi exatamente na festa daquele Santo, no dia 1º de setembro de um ano impreciso entre 1105 e 1110, que Aleth, ainda jovem, entregou sua bela alma a Deus. Seu corpo foi solenemente transferido pelo Abade Jarenton para a cripta de São Benigno, pois ela já tinha fama de santidade.
     Seu túmulo foi cercado de uma grande devoção durante mais de cem anos. No final do século XII, seu túmulo apresentava esculturas representando seus 6 filhos que se tornaram monges cistercienses seguindo o irmão, Bernardo. Sua filha, Umbelina, também ingressou na Ordem em 1132 e tornou-se abadessa do mosteiro cisterciense de Jully les Nonnains e foi declarada Santa. Seu esposo, Tescelin, também se retirou no fim da vida no Mosteiro de Citeaux. Em 1250 o Abade de Claraval fez transferir os restos da Bem-aventurada Aleth para seu mosteiro, colocando-os ao lado do túmulo de São Bernardo.
     A morte da mãe afetou muito o jovem Bernardo, à época com 16 anos, mas mesmo após sua morte Aleth manteve uma grande influência sobre seu filho: no momento dele decidir entrar como monge na Abadia de Citeaux ela lhe apareceu, toda vestida de branco, para confirmar que “Deus o havia escolhido” para uma grande vocação e que ele devia arrastar seus irmãos para a vida monástica.
     A Beata Aleth é festejada no dia 4 de abril. Este nome e seus assimilados ou derivados como Alete, Aliete, Alethia, Alithia, Alice, têm por origem o nome grego “alétheia”, que significa “a verdade”, bem como o adjetivo latino “alitis”, que significa “que tem asas”.

Fontes (excertos): www.santiebeati.it
A. CHENAL, http://iconesalain.free.fr/Presentations/34.Sainte.Aleth.Presentation.htm
Ref Bibliogr.: - St. BERNARD du P. André PHILBEE (Ed. Cerf ); - St. BERNARD de Claude CLEMENT ( Ed. F. Lanore et F.Sorlot)

terça-feira, 1 de abril de 2014

Santa Maria Egipcíaca, Penitente - 1 de abril

    
A principal fonte de informação sobre Santa Maria do Egito é a Vita escrita por Sofrônio, Patriarca de Jerusalém (634-638).

     Santa Maria nasceu algures no Egito, provavelmente por volta de 344, e aos doze anos foi para a cidade de Alexandria, onde viveu uma vida dissoluta. Muitos escritos se lhe referem como prostituta durante este período, mas Sofrônio na sua Vita afirma que ela se negou frequentemente a aceitar o dinheiro oferecido em troca dos seus favores sexuais. Na mesma linha, a Vita expõe que vivia principalmente da mendicidade, trabalhando na fiação de linho.
     Após 17 anos vivendo neste estilo de vida, Maria viajou para Jerusalém para a festa da Exaltação da Santa Cruz. Em Jerusalém continuou sua vida desregrada. Na Vita relata-se que, quando tentava entrar na Igreja do Santo Sepulcro para a celebração, uma força invisível a impediu de o fazer. Consciente de que este estranho fenômeno era por causa da sua impureza, sentiu um forte arrependimento e chorando batia no peito, lamentando-se dos seus pecados.
     Nesse momento pousou seus olhos em uma imagem da Santíssima Virgem e com profunda fé e humildade implorou encarecidamente a Nossa Senhora que a ajudasse, e que lhe permitisse entrar no templo para venerar o sagrado madeiro em que Jesus havia sofrido, prometendo que se Ela atendesse seu pedido renunciaria para sempre ao mundo e seus prazeres, e dai em diante iria para onde a Virgem a guiasse.
     Animada pela oração e contando com a misericórdia da Mãe de Deus, se aproximou novamente da porta da igreja, conseguindo entrar sem a menor dificuldade. Depois de adorar a Santa Cruz e beijar o pavimento da igreja, voltou até onde estava a imagem de Nossa Senhora e, enquanto rezava ali agradecendo, rogou que direção a seguir e escutou uma voz que lhe dizia "Se cruzares o Jordão, encontrarás um glorioso descanso". De imediato dirigiu-se para o mosteiro de São João Batista na margem do Rio Jordão, onde recebeu a comunhão.
     No dia seguinte cruzou o rio e caminhou em direção ao deserto que se prolonga até a Arábia. Retirou-se então no deserto para viver o resto da sua vida como uma eremita. Segundo a legenda, levou para si apenas três pães (símbolo da Eucaristia), e viveu do que podia encontrar na natureza.
     Ali viveu absolutamente só por 47 anos em retiro de solidão, subsistindo aparentemente de ervas, quando um sacerdote e monge chamado Zózimo, que seguindo o costume de seus irmãos havia saído de seu mosteiro para passar a Quaresma no deserto, encontrou-a e ouviu de seus próprios lábios a estranha história de sua vida. Tão logo se encontraram, chamou Zózimo pelo seu nome e o reconheceu como sacerdote. Depois de terem conversado e rezado juntos, ela rogou a Zózimo que viesse encontrá-la na noite da Quinta-feira Santa do ano seguinte e lhe trouxesse o Sacratíssimo Sacramento.
     Quando chegou o dia combinado, Zózimo, segundo contam, pôs em um pequeno cálice uma porção do intocado Corpo e do Precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo (P. L. LXXIII, 686; "Mittens in modico calice intemerati corporis portionem et pretioso sanguinis D.N.J.C.") e foi para o local indicado. Pouco tempo depois Maria apareceu na margem oriental do rio e tendo feito o Sinal da Cruz, caminhou sobre a água em direção ao poente. Após ter recebido a Sagrada Comunhão, levantou suas mãos para o céu e disse com voz alta as palavras de Simeão: "Agora podes dispor de tu servo em paz, ó Senhor, segundo tua palavra, porque meus olhos viram sua salvação".
     Ela então disse para Zózimo vir no ano seguinte ao local onde a havia encontrado pela primeira vez, acrescentando que a encontraria na condição que Deus ordenara.
     No ano seguinte Zózimo dirigiu-se ao lugar onde se reunira pela primeira vez com ela e aí encontrou-a morta. De acordo com uma inscrição escrita na areia ao lado da cabeça, Maria tinha morrido na mesma noite em que tinha recebido a santa comunhão no ano anterior e o seu corpo ficou preservado incorrupto. Zózimo, ainda segundo a legenda, enterrou o seu corpo com a ajuda de um leão do deserto. No regresso ao mosteiro, relatou a história de Maria aos irmãos, e entre eles ficou a tradição oral até ter sido escrito o relato de São Sofrônio.
     Há divergências entre as diversas fontes sobre a data da vida de Maria do Egito. Os Bolandistas datam a sua morte no ano 421, mas outros dão como data 522 ou 530. O único indício dado na sua vida é que o dia do seu falecimento foi 1º de abril, Quinta-feira Santa. Segundo o Calendário Juliano, em uso na época, há 24 anos em que o dia 1º de abril foi quinta-feira. Destes, os anos nos quais a Páscoa seria em 4 de abril são 443, 454, 527, 538 e 549.
     É notável que o Synaxarion exponha que Zózimo viveu durante o reinado do imperador Teodósio II o Jovem, que reinou de 408 a 450 no Império Romano do Oriente. Segundo a tradição, Zózimo viveu quase cem anos, morrendo no século VI, e na Vita diz-se que tinha cinquenta e três anos de idade quando se reuniu com Santa Maria do Egito.
     Na iconografia clássica, Santa Maria do Egito é representada como uma anciã de cabelo branco e de pele escurecida pelos longos anos no deserto, nua ou coberta pelo manto que pediu a Zózimo. É representada muitas vezes com os três pães que comprou antes de empreender a sua viagem ao deserto.
     Há uma capela dedicada a Santa Maria do Egito na Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, que comemora o momento da sua conversão.
     Em torno das ordens religiosas inspiradas por Maria do Egito começaram a construírem-se em Espanha desde o século XIV diversos «estabelecimentos ou casas» denominadas genericamente de Egipcíacas. Em 1372 foi fundada uma "casa de Egipcíacas" em Barcelona.
     Em Espanha denominavam-se indistintamente como Arrependidas, Recolhidas ou Egipcíacas as mulheres que abandonavam o exercício público da prostituição, ou seja, as que eram antes da conversão denominadas “mulheres públicas”.
     As relíquias da santa são veneradas em Roma, Nápoles, Cremona, Amberes, e em alguns outros lugares.