sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Santa Hildegarda, Mística, Profetiza e Escritora - Festejada 17 de setembro

     Hildegarda von Bingen nasceu no Condado de Spanhein, Diocese de Maicus, no ano de 1098. Seus pais, Hildeberto e Matilde, provavelmente originários de Bermerschein, no Condado de Spanheim, pertenciam à nobreza do Palatinado.
     Conforme prática comum naquela época, com a idade de oito anos ela foi levada ao Mosteiro de Disibodensberg, ou do monte de Santo Disibode, onde foi colocada sob a direção de Jutta, filha do Conde de Spanheim, que tomou a si o encargo de cuidar dessa menina que dava sinais de grande vocação. Sua virtude sobressai de tal modo que, aos 39 anos, quando morre Jutta, as religiosas elegem Hildegarda como Abadessa.
     Sabe-se que Hildegarda tinha uma saúde muito frágil  e que sempre era favorecida por visões, além de ter intuições sobrenaturais de coisas por suceder. Todas essas manifestações sobrenaturais eram por ela narradas com simplicidade a sua tutora e a um dos monges do mosteiro de Santo Disibode, chamado Volmar, que posteriormente exercerá o ofício de seu secretário durante 30 anos.
     Como ela mesma conta em seus escritos: "Aos meus 40 anos, tive uma visão onde uma voz dizia: ‘Diga o que viste e entendeste, não à maneira de outro homem, mas segundo a vontade dAquele que sabe, vê e dispõe todas as coisas no segredo de seus mistérios’".
     Era uma ordem decisiva que indicava a vocação de Hildegarda, semelhante à dos profetas do Antigo Testamento, os quais eram as bocas de Deus. Sobre esta vocação, Hildegarda insistirá dizendo que "uma voz do Céu mandava-me tudo dizer e escrever, tal qual ouvia e era-me ensinado". Esta voz apresentou-se a ela como “a Luz viva que ilumina o que é obscuro”. 
     Durante muito tempo ela resistiu por humildade e desconfiança. Mais por temor do que por desobediência, continuava a recusar a escrever. Foi então que caiu doente. Confiou sua preocupação ao seu diretor espiritual. Depois de aconselhar-se com os religiosos mais sábios da comunidade e de interrogar Hildegarda, o Prior ordenou-lhe que escrevesse. Assim que ela começou a escrever, imediatamente se viu curada e levantou-se da cama.
     Ajudada pelo monge Volmar, escreveu, entre 1141 e 1151, a sua grande obra Scivias (Conhece as vias do Senhor), uma espécie de Apocalipse sobretudo dogmático e um pouco moral.
     Em 1147, o prior, desconfiando do seu próprio critério, apresentou os escritos de Hildegarda ao Arcebispo Henri, de Mainz, Diocese onde se localizava o Mosteiro de Disibodensberg. Aproveitando a presença do Papa Eugênio III em Trier, onde iria reunir-se um Sínodo preparatório do Concílio de Reims, o arcebispo consulta o Papa.
     Trier é a cidade do Imperador Constantino, que ali residiu com sua mãe Santa Helena até o ano 316. O Papa Eugênio III era um cisterciense formado por São Bernardo. Ele reuniu Cardeais, Bispos e Abades para um alto tema: confirmar mais uma vez as reformas empreendidas pelo Papa São Gregório VII.
     O Papa, desejoso de conhecer melhor o assunto, enviou o Bispo de Verdum, Alberon, ao Mosteiro de Hildegarda, que respondeu com simplicidade às perguntas que lhe foram feitas. Os escritos feitos até então por Hildegarda foram entregues a ele e lidos em voz alta na presença do Arcebispo, dos Cardeais e de todo o clero reunido. Entre os ouvintes estava a maior figura da Cristandade: São Bernardo de Claraval.
     A conclusão da assembléia é atribuída a São Bernardo: "É preciso impedir que se apague uma tão admirável luz animada pela inspiração divina". Este Santo conhecera Hildegarda e pediu que o Papa divulgasse tão grande graça concedida por Deus à Igreja no seu pontificado, e a confirmasse com sua autoridade.
     O Papa seguiu seu conselho, escreveu a Hildegarda: "Nós ficamos admirados, minha filha, que Deus mostre em nosso tempo novos milagres. Nós te felicitamos pela graça de Deus. Conserve e guarde esta graça"(*) Pediu ele ainda que ela relatasse com freqüência tudo que lhe fosse revelado por intermédio do Espírito Santo.
     A santa relatou ao Papa Eugênio III, em carta bastante longa, tudo quanto ouvira da voz celeste relativamente ao pontífice. Anunciava uma época difícil, cujos primeiros sinais já se manifestavam:
     “As próprias montanhas, que são os prelados, em lugar de se elevarem continuamente a comunicações íntimas com Deus, a fim de cada vez mais se transformarem na luz do mundo, descuidam-se e obscurecem-se. Daí a sombra e a perturbação que reina nas ordens superiores. E porque vós, grande Pastor e Vigário de Cristo, deveis buscar luz para as montanhas e conter os vales, dai preceitos aos senhores e disciplinas aos súditos. O Soberano Juiz recomenda-vos que condenais e repilais de junto de vós os tiranos importunos e ímpios, no temor de que, para vossa grande confusão, eles se imiscuam na vossa sociedade, mas sede compassivo com as desgraças públicas e particulares, pois Deus não desdenha as chagas e as dores daqueles que O temem”.
     Começou assim uma nova vida para Hildegarda. Sua fama, não só devido a seus escritos, mas também aos milagres, difundiu-se além do Reno. Muitos vêm visitá-la. Ela penetra nos pensamentos dos peregrinos e afasta-se dos que se aproximam com más intenções ou para provar sua virtude. Exorta à conversão à Fé verdadeira os judeus que vêm ouvi-la. Hildegarda livrou do demônio uma possessa de Colônia, que os sacerdotes da Abadia de Brauweisler não tinham conseguido expulsar.
     Santa Hildegarda mantém correspondência com Papas, Bispos e altas autoridades temporais, como, por exemplo, os Imperadores Conrado III e Frederico Barbaruiva, da Alemanha.
     Frederico Barbaruiva pede que a Santa o visite em seu palácio de Ingelheim, perto de Mainz. Os detalhes desse encontro são conhecidos pelas cartas do Imperador e das respostas de Santa Hildegarda. Ela não se intimida diante de tão ilustre destinatário e o adverte em termos proféticos e pede que o Imperador "vele pelos costumes dos Prelados que caíram na abjeção", exortando-o a que "tome cuidado para que o Supremo Rei não te lance por terra por culpa da cegueira de teus olhos. Seja tal, que a graça de Deus não te falte".
     O Imperador lutou contra o Papado, destituiu o Arcebispo de Mainz, fiel a Roma, mandou suas tropas arrasar Milão e nomeou nada menos do que quatro antipapas apenas durante o pontificado de Alexandre III.  Ficou surdo às exortações da Santa!
     Correspondia-se ela com São Bernardo de Claraval, que lhe escreveu em termos elogiosos e sobrenaturais: "Agradeço a graça de Deus que está em ti. Eu te suplico de lembrar-te de mim diante de Deus..."
     Ela recebera a vocação de aconselhar, segundo os caminhos de Deus, não só as mais altas autoridades da época, mas também pessoas simples que a ela recorriam pedindo um conselho. A todos Hildegarda respondia com o tom que caracterizava o seu estilo, isto é, com solenidade, humildade e severidade.
     Santa Hildegarda anunciou a eclosão de uma terrível heresia que ergueria o povo contra o Clero, porque este "tinha uma voz e não ousou levantá-la", o que permitiu ao inimigo "oferecer os seus próprios bens, enchendo os olhos, as orelhas e o ventre de todos os vícios!" Pouco tempo depois, explodiu a heresia dos cátaros, descrita por ela com detalhes que surpreendem os historiadores. Ela vai além, prevendo a vitória da Igreja sobre essa heresia.
Sta. Hildegarda compositora
     Santa Hildegarda é mística, profetiza, escritora, pregadora, conselheira, médica e compositora. Seus outros dois livros que compõem a trilogia hildegardina são: o Líber vitae meritorum ou Livro dos Méritos, onde são apresentados os grandes dados da moral do século II; e o Líber divinorum operum ou Livro das obras divinas, de caráter científico, contendo ilustrações de grande precisão e originalidade. Ela compôs ainda diversas obras de menor importância sobre assuntos variados, como o Tratado de Medicina. Compôs também 77 sinfonias em um estilo similar ao gregoriano.
     Santa Hildegarda viveu seus últimos anos no convento de Eibingen, o terceiro fundado por ela na outra margem do Reno. Foi o único que se salvou dos bárbaros e das guerras. Uma das religiosas narra a morte de Santa Hildegarda: "Nossa boa Mãe, depois de combater piedosamente pelo Senhor, tomada de desgosto da vida presente, desejava cada dia mais evadir-se desta Terra para unir-se com Cristo. Sofrendo de sua enfermidade, ela passa alegremente deste século para o Esposo celeste, no octogésimo ano de sua existência, no dia 17 de setembro de 1179".
     Em 1233 foi feito um inquérito sobre as suas virtudes e os seus milagres, ordenado pelo Papa Gregório IX, mas não chegou a bom termo. A partir do século XIII havia um culto de Santa Hildegarda, e em 1324 uma carta concedia indulgências a quem visitasse o seu túmulo em Bingen.

(*) A carta é uma das 390 que aparecem no livro recentemente publicado na Alemanha sob o patrocínio da Abadessa Walburga Storch OSB, da própria Abadia de Santa Hildegarda, em Rüdesheim-Eibingen.

    “Por que Deus quis que ela tivesse essas visões? Porque o verdadeiro católico tem que ter uma filosofia da História. Ele deve saber que sua época é um elo entre o passado e o futuro, e deve interpretar os acontecimentos de sua época não como acontecendo só hoje, mas como nascidos de mil fatores do passado e gerando mil coisas no futuro. É um processo, é uma coisa que gera outra, que gera outra, que gera outra, que gera outra. Para nós conhecermos este processo veio esta revelação”.

Fontes: Catolicismo setembro 1998; Pe. Rohbacher

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Santa Ludmila, Duquesa e Mártir da Boêmia - Festejada 16 de setembro

      A partir do século VII, começou a evangelização dessa Nação, mas somente com a organização de um Estado e com a ascensão ao trono ducal de Borivar, o primeiro duque cristão da Boêmia, é que o Catolicismo firmou-se e começou a alcançar progressos consideráveis. Em 873, o duque Borivar casou-se com Ludmila, princesa piedosa, sagaz e ardente propulsora da Fé católica, de quem teve três filhos e três filhas.
     Ajudada pelo presbítero Paulo, capelão da corte, discípulo dos grandes evangelizadores dos eslavos, depois do batismo do marido celebrado por São Metódio, Ludmila também se converteu à fé cristã e recebeu os sacramentos das mãos do mesmo Santo, cerca do ano 874. Borivar mandou construir o Castelo de Praga, onde foi erigida a primeira igreja católica da Boêmia, dedicada a São Clemente.
     Após a morte de seu marido, ocorrida em 894, Ludmila distribuiu a maior parte dos seus bens e passou a se dedicar a uma vida de densa piedade. Durante o governo de seu filho Spytihnev, teve enorme influência sobre o reino. Depois da morte deste, subiu ao trono seu outro filho, Wratislau. Infelizmente o pai não impedira Wratislau de contrair matrimônio com Draomira, princesa pagã, de má índole e totalmente entregue ao culto dos ídolos.
     Wratislau continuou o trabalho apostólico de Borivar com grande empenho. Embora Draomira simulasse ter-se convertido, não escapava à sagacidade da duquesa Ludmila a falsidade da nora. Por isto, ao nascer-lhe os filhos Venceslau (907-935) e Boleslau, pediu a duquesa-mãe licença ao seu filho para educar os dois netos. Draomira, contudo, consentiu na separação do primogênito, conservando consigo Boleslau.
     No palácio da avó, em Praga, Venceslau recebeu sólida formação religiosa e cultural, bem como o aprendizado na carreira das armas, alcançando tal progresso, seja na virtude, seja nas ciências, que chegou a ser reputado um dos melhores príncipes de seu tempo.
     Venceslau tinha apenas treze anos quando seu pai pereceu numa batalha contra os húngaros. Embora o duque tivesse deixado a regência à sua mãe Ludmila, a nora, auxiliada por sectários e à custa de subornos, tomou as rédeas do governo. Draomira, mãe dos infantes, ficou regente e governadora do Estado, enquanto o príncipe herdeiro não chegasse à maioridade.
     Não tendo mais o marido para contê-la, Draomira deu livre curso a seu ódio contra a Religião, decretando o fechamento das igrejas, proibindo o culto divino e a evangelização. Nas escolas houve proibição absoluta de se falar de Deus. Os professores católicos foram substituídos pelos pagãos. Sacerdotes e monges foram proscritos. Ao mesmo tempo, Draomira concedeu amplos privilégios aos pagãos. A desolação e a impiedade reinavam na corte dessa nova Jezabel.
     Porém, Santa Ludmila vigiava. Com muita diplomacia foi preparando terreno para que Venceslau fosse aclamado duque aos dezoito anos. Nessa ocasião, então, a combativa princesa obteve de todas as regiões uma completa e irrestrita adesão a Venceslau, cujos predicados constituíam a honra e o orgulho da Boêmia.
     Venceslau ascendeu ao poder, exilou sua mãe e irmão numa província afastada e iniciou o trabalho de restabelecimento da ordem tumultuada pelos cinco anos de despotismo da sanguinária Draomira. Alcançou tanto êxito nessa tarefa, por sua sabedoria e prudência, que em pouco tempo transformou-se na expressão mais pura da majestade real e cristã, que iria ter em São Luís, três séculos mais tarde, um exemplo perfeito.
Este príncipe tornou-se o pai dos pobres, o protetor dos órfãos e o guardião da justiça; mas, sobretudo, o paladino da Religião. Sua força e virtude provinham do amor à Sagrada Eucaristia e à Virgem Maria, em cuja honra fez voto de castidade perpétua.
     Do seu exílio, Draomira tentava destruir a obra do filho. Convencida de que sua sogra, Santa Ludmila, era a grande incentivadora do neto, mandou assassiná-la, crime que seus sectários executaram estrangulando-a, enquanto rezava em seu oratório, na noite de 15 de setembro de 920.
     Colocado o túmulo da rainha mártir numa esplanada, próximo do seu castelo em Tetín, não tardou que o culto a Ludmila logo se espalhasse; junto ao seu túmulo muitos milagres ocorreram e um perfume se expandia pelo entorno, à noite via-se sobre ele uma luz misteriosa.
     Draomira furiosa, com tal manifestação divina, mandou edificar ali uma capela em louvor de São Miguel, para atribuir ao Arcanjo tantos prodígios.
     Venceslau fez transladar o corpo da avó da Tetín a Praga; no dia 10 de outubro de 926 os despojos e receberam sepultura definitiva na Basílica de São Jorge, na mesma cidade. Esta transferência não tinha caráter de culto oficial, mas apenas atribuir à velha rainha digna sepultura numa igreja, como então se usava.
     Só em 1142, o clero de Praga tratou de obter o reconhecimento oficial do culto, concedido pela Santa Sé um ano depois, uma vez efetuado o processo no qual se examinaram as suas altas virtudes de abnegação e devotamento pelo bem do seu povo até aceitar a morte antes que atraiçoar seus ideais. O reconhecimento do culto foi dado em 1143-1144, durante a visita do Legado Pontifício, Guido di Castello, a Praga.
     Santa Ludmila é representada com os trajes ducais e sua festa é celebrada no dia 16 de setembro. Há uma vasta literatura sobre a vida de Santa Ludmila, dela somente ou combinada com a de seu neto São Venceslau. Ela foi reconhecida como mártir da Fé; nos séculos seguintes foi proclamada "mãe da Boêmia", desenvolvendo-se mais e mais a devoção, ainda hoje muito florescente.

     Simulando grande desejo de reconciliação com o filho, Draomira convidou-o para ser padrinho do primeiro filho de Boleslau, anunciando grandes festas. São Venceslau, embora duvidasse da sinceridade da mãe, não pôde deixar de aceitar o convite, visto por todos como o epílogo feliz de uma longa dilaceração no ducado.
     Depois da solene festividade do batismo e do banquete oferecido ao Santo no castelo de Stará, retirou-se este para rezar o Ofício da Virgem Maria, numa igreja. Lá Boleslau e seus sectários o assassinaram, em 28 de setembro de 935.
     A pérfida Draomira, contudo, recebeu o castigo que merecia pelos seus crimes. Certo dia em que ela passava próximo de um local onde havia mandado executar inúmeros católicos, o solo se abriu e ela foi engolida viva.
     São Wenceslau não morreu inutilmente, uma vez que, por pressão do Imperador alemão Otão I, seu irmão ímpio Boleslau voltou a favorecer o Cristianismo. A filha deste último, casada com o rei da Polônia, foi grande propagadora do catolicismo em seu reino, e um filho de Boleslau se fez monge. Outro filho seu foi Boleslau II (967-999), cognominado o Piedoso.

Fontes
: Enciclopédia Cattolica, vol. XII. p. 1179; Bnttler. Vida dos Santos, Ed. Vozes, Petrópolis. 1992. p.259; Catolicismo setembro/1995


Assassinado pelo próprio irmão

Santa Catarina de Gênova - Festejada 15 de setembo

     Santa Catarina nasceu no ano de 1447, na célebre família Fieschi de Gênova. Esta família deu à Igreja dois Papas, nove cardeais e dois arcebispos, além de magistrados e capitães. Seus pais eram fervorosos católicos e a educaram no santo temor de Deus. www.NewAdvent.org;
     Catarina foi objeto de copiosas bênçãos do Céu: aos oito anos, recebeu um dom particular de oração e união com Deus; aos 12, já procurava renunciar à sua vontade para só fazer a do Divino Redentor e meditava constantemente na Paixão de Nosso Senhor; aos 13 anos, quis consagrar-se a Deus em um convento, mas devido a pouca idade não foi admitida.
     Gênova então era palco de guerras sangrentas entre guelfos (partidários do poder temporal dos Papas) e gibelinos (defendiam o poder do Imperador). Aproveitando-se da situação caótica, o duque de Milão tomou a cidade.
     Logo a paz foi restabelecida e os desentendimentos entre as famílias rivais se acalmaram. Os Fieschi e os Adornos, que se reconciliaram a partir de então, decidiram promover o casamento de Catarina Fieschi com Julião Adorno. Catarina, então com 16 anos, em tudo via a mão de Deus e aceitou o matrimônio, algo tão contrário às suas aspirações.
     Mas, Julião, de temperamento colérico, volúvel e extravagante, tornou o casamento infeliz. Ele amava as pompas e as vaidades, o luxo, os prazeres, enquanto Catarina considerava tudo vaidade e aflição de espírito. Ele passou a desprezá-la e a ultrajá-la de muitos modos. Além disso, sendo um jogador contumaz, dilapidou sua fortuna, como também o dote de Catarina. Aos poucos o casal ia caindo na pobreza.
     Catarina, porém, procurava pela paciência e pela prática das virtudes conquistar a alma do esposo para Deus. Por cinco anos ela sofreu aquela situação, parecendo-lhe que Deus a deixara entregue à sua própria sorte. Vendo-a tão provada, os parentes a aconselharam a retomar a vida social; visitas a senhoras de sua categoria, diversões e festas de seu círculo, entretanto não preenchiam os anseios de seu coração. Outros cinco anos se passaram.
     Em 1473, no dia de São Bento, foi aconselhada por sua irmã religiosa a consultar o confessor do convento. Catarina, então com 26 anos, procurou o sacerdote. Mais tarde ela contaria que assim que se ajoelhou no confessionário, "foi objeto de uma das mais extraordinárias operações de Deus na alma humana, de que tenhamos notícia. O resultado foi um maravilhoso estado de alma que durou até sua morte. Nesse estado ela recebeu admiráveis revelações, às quais às vezes se referiu aos que a rodeavam, e que estão sobretudo incorporadas em suas duas celebradas obras – os Diálogos da Alma e do Corpo e o Tratado sobre o Purgatório". (1)
     "O Senhor dignou-se iluminar sua mente com um raio tão claro e penetrante de sua divina luz, e acender em seu coração uma chama tão ardente de seu divino amor, que ela viu em um momento, e conheceu com muita clareza, quão grande é a bondade de Deus, que merece infinito amor; além disso, viu quão grande é a malícia e perversidade do pecado e da ofensa a Deus, quaisquer que sejam, mesmo ligeiros e veniais".
     Catarina sentiu uma contrição muito viva por seus pecados e um amor tão grande a Deus, que fora de si exclamava: "Amor meu, nunca mais hei de ofender-te!". O resultado deste amor foi um desejo insaciável da Santa Comunhão. Obteve a graça de poder comungar diariamente, fato raríssimo naquele tempo. Era tão grande a força transmitida pelo Pão dos Anjos, que ela passava os 40 dias da Quaresma e os do Advento sem outro alimento além de um copo de água misturada com vinagre e sal.
     Catarina praticava severas austeridades: dormia sobre uma enxerga, tendo como travesseiro um pedaço de madeira; disciplinava-se, usava cilícios e proibiu a si própria de proferir palavras inúteis; rezava diariamente de joelhos durante sete a oito horas.
     Tendo Nosso Senhor lhe aparecido com sua cruz, cheio de sofrimento e irrisão, tão profunda foi sua dor ao contemplar aquela imagem sofredora, que ela chorava com freqüência ao considerar a ingratidão dos homens depois dos benefícios da Redenção.
     Catarina conseguiu converter o marido após muitas orações, grande paciência e submissão. Combinaram viver como irmãos e praticar boas obras. Em 1482, eles se instalaram numa casa contígua a um hospital, onde cuidavam dos doentes. Julião entrou para a Ordem Terceira de São Francisco; enfrentou uma enfermidade que o levou a morte, em 1497, após receber os Sacramentos.
     Catarina entrou na Sociedade da Misericórdia, que fora constituída pelos mais distintos habitantes da cidade e por oito damas escolhidas entre as mais nobres e ricas de Gênova, tendo como objetivo o socorro os pobres.
     Ela foi encarregada da distribuição das esmolas angariadas pela associação; socorria de preferência os leprosos ou portadores de úlceras gangrenosas, procurava para eles moradia, cama, roupa e alimento. Conseguiu dominar a repugnância natural que essas pessoas provocavam e prestava a elas os mais humildes serviços, inclusive cuidar de suas chagas repugnantes.
     Admirados com sua dedicação, os administradores do Hospital Pammatone, de Gênova, entregaram a ela a sua administração, cargo que Catarina ocupou até a morte.
     A Santa sofreu, nos últimos nove anos de sua vida, uma doença que. segundo os melhores médicos da Itália, não tinha causa natural: sua origem era sobrenatural e não havia remédio para ela. Com freqüência ela ficava às portas da morte.
     Obediente ao seu confessor, Catarina escreveu duas obras que contêm doutrina e são inteiramente de acordo com as verdades de Fé: os Diálogos da Alma e do Corpo e o Tratado sobre o Purgatório. No primeiro, Catarina descreve os efeitos do amor divino em uma alma, a alegria que os acompanham. Quanto ao segundo, tão grande era seu contato com as almas do Purgatório, que essa obra valeu a ela o título de Doutora do Purgatório.
     Santa Catarina faleceu em Gênova, aos 63 anos, no dia 15 de setembro de 1510, e foi sepultada na capela do Hospital. Seu corpo incorrupto foi removido para outros lugares nos anos 1551, 1593 e 1642. Em 1694, ainda incorrupto, foi colocado num relicário de prata e cristal, sob o altar-mor da igreja erigida em sua honra no bairro de Portoria, em Gênova. Ali a Santa é venerada por muito devotos.
     Em 1837 e em 1960, o corpo incorrupto de Santa Catarina foi cuidadosamente examinado por peritos. O médico chefe da última equipe declarou: "A conservação é verdadeiramente excepcional e surpreendente, e merece uma análise da causa. A surpresa dos fiéis é justificada quando atribuem a isso uma causa sobrenatural". (3)

Notas
1. F. M. Capes, Saint Catherine of Genoa, in The Catholic Encyclopedia, Online Edition Copyright © 2003 by Kevin Knight,
2. Edelvives, Santa Catalina de Genova, in El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1955, tomo V, p. 153.
3. Joan Carroll Cruz, Saint Catherine of Genoa, in The Incorruptibles, Tan Books and Publishers, Inc., Rockford, USA, 1977, p. 160.
:(2)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Exaltação da Santa Cruz, 14 de setembro, e Santa Helena


Sta Helena enconta a Cruz
     Esta festa é uma das mais antigas solenidades litúrgicas da Igreja Católica; já era celebrada em Jerusalém no tempo de Constantino (337). Por muitos séculos a festa da descoberta da Santa Cruz foi celebrada em Jerusalém e em muitos locais do mundo inteiro no dia 3 de maio, data em que, segundo a tradição, fora encontrada. A reforma litúrgica pós-conciliar suprimiu a data de 3 de maio no calendário universal, substituindo-a pelo dia 14 de setembro.
     Escritores muito antigos, como Rufino, Zozemeno, São Crisóstomo e Santo Ambrósio, contam que Santa Helena pediu permissão a seu filho para ir buscar em Jerusalém a cruz na qual morreu Jesus.
Depois de muitas e profundas escavações, três cruzes foram encontradas. Como não se podia distinguir qual era a cruz de Jesus, levaram-nas a uma mulher agonizante. Ao tocá-la com a primeira cruz, a enferma piorou, ao tocá-la com a segunda, continuou tão doente quanto antes, porém ao tocá-la com a terceira cruz, a enferma recuperou instantaneamente a saúde.
     Santa Helena e o Bispo de Jerusalém, São Macário, e milhares de devotos levaram a cruz em piedosa procissão pelas ruas de Jerusalém. E pelo caminho se encontraram com uma mulher viúva que levava seu filho morto para ser enterrado. Ao aproximarem a Santa Cruz do morto este ressuscitou.
     Santa Helena fez com que se dividisse a cruz em três partes. Um dos pedaços foi entregue ao Bispo São Macário, para que o entronizasse na Igreja de Jerusalém; o segundo foi enviado para a Igreja de Constantinopla e o terceiro para Roma. A basílica que abrigou a relíquia chamou-se Santa Cruz de Jerusalém. Mandou também construir três edifícios: um junto ao Monte Calvário, outro na cova de Belém e um terceiro no Monte das Oliveiras.
     O Beato Pio IX encontrou num túmulo do cemitério de Ciríaca uma cruz antiga de ouro, na qual estava gravada esta inscrição:
          Crux est vita mihi (a cruz é vida para mim);
          Mors inimice tibi (e morte para ti, ó inimigo).
     Esta preciosa inscrição conserva-se hoje na Biblioteca Vaticana.
     Com grande concisão expressaram os antigos a eficácia da Cruz de Cristo, sinal triunfal da nossa Redenção, no anagrama grego que significa: A Cruz é luz e é vida.
 
Santa Helena, Viúva, mãe do Imperador Constantino (+ 330)

     Helena nasceu em meados do século III, provavelmente em Bitínia, região da Ásia Menor. Os autores britânicos afirmam que ela nasceu na Inglaterra, naquele tempo uma província roman a, e que Constâncio Cloro, tribuno e mais tarde governador da ilha, enamorou-se dela e a tomou por esposa. Por volta do ano 274 tiveram um filho a quem deram o nome de Constantino.
     Constâncio Cloro chegou a ser marechal de campo e o imperador Maximiano nomeou-o co-regente e, portanto, seu sucessor no Império, mas com a condição de que repudiasse sua mulher e esposasse sua enteada Teodora.
     Tanto Helena quanto Constâncio Cloro eram pagãos. Levado pela ambição, Constâncio se separou dela e levou para Roma seu pequeno filho, Constantino. Helena chorou sua desgraça por 14 anos. Em 306, com a morte de Constâncio, Constantino foi nomeado imperador, iniciando para ela uma nova vida. Constantino mandou vir sua mãe para viver na corte, conferindo-lhe o nome de Augusta e o título de imperatriz.
     Helena recebeu o Batismo, provavelmente no ano 307, e foi uma cristã exemplar e testemunha da grande jornada em que Constantino colocou pela primeira vez a cruz nos estandartes de suas legiões para vencer em batalha o seu rival Maxêncio, no mês de outubro do ano 312. (1)
     No início do ano 313 o imperador publicou o Édito Milão, pelo qual permitia o cristianismo no Império. Seguindo o exemplo de sua mãe, converteu-se, sendo batizado pelo Papa São Silvestre. Depois de trezentos anos de perseguição, a Igreja de Cristo assentava-se triunfante sobre a terra. A piedosa imperatriz dedicou-se inteiramente a socorrer os pobres e aliviar as misérias de seus semelhantes.
     Quando já anciã - tinha então setenta e sete anos - visitou os santos lugares. Subiu ao topo do Gólgota, onde havia sido erguido um templo à Vênus. Este templo fora construído por ordem do imperador Adriano, que odiava os cristãos, e certamente quis com isso evitar que aquele local fosse venerado pelos discípulos de Nosso Senhor.
     Conhecendo o costume judaico de enterrar no lugar da execução de um malfeitor os instrumentos que serviram para sua morte, Santa Helena mandou derrubar o templo e procurar a cruz onde padecera o Redentor.
     Tendo sido encontradas três cruzes, era difícil saber qual delas era a de Nosso Senhor. Uma antiga tradição narra o modo milagroso como se conseguiu identificar a que correspondia a Jesus: a cura de uma agonizante.
     Santa Helena estava com oitenta anos quando regressou de sua viagem. Faleceu pouco depois, provavelmente em Tréveris, por volta do ano 328 ou 330. O Martirológio Romano comemora sua festa em 18 de agosto. Uma capela dedicada a ela, em Roma, conserva algumas de suas relíquias.

(1) O historiador Eusébio de Cesaréia relata que o filho de Santa Helena era pagão, mas respeitava os cristãos. No ano 311, tendo que enfrentar uma terrível batalha contra o perseguidor Maxêncio, chefe de Roma, na noite anterior à batalha teve um sonho no qual viu uma cruz luminosa no ar e ouviu uma voz que lhe dizia: "Com este signo vencerás", e ao iniciar a batalha mandou colocar a cruz em várias bandeiras dos batalhões e exclamou: "Confio em Cristo em quem crê minha mãe Helena". A vitória foi total e Constantino chegou a ser Imperador. Logo decretou a liberdade para os cristãos.

Helena significa: "tocha resplandecente" 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Beata Maria de Jesus López de Rivas, Carmelita Descalça - Festa 13 de setembro

     A Reforma Teresiana do Carmelo se difundiu da Espanha para toda a Europa e depois para o mundo todo, graças a numerosas personalidades, algumas injustamente pouco conhecidas. É o caso da Beata Maria de Jesus, que Santa Teresa definiu como o seu "pequeno teólogo".
     Durante oitenta anos de sua longa vida, a Espanha conheceu poder e esplendor, mas também a decadência. Maria, do convento de Toledo, do qual não se afastou, viveu os vários acontecimentos à luz da Fé, que olha além da realidade terrena. Algumas autobiografias falam dela, bem como seus escritos e o testemunho de contemporâneos e de santos que mantiveram com ela relacionamento, bem como a própria Santa Teresa de Jesus.
     Maria López de Rivas nasceu numa nobre família de Tartanedo (Guadalajara) no dia 18 de agosto de 1560. Seu pai morreu quando ela tinha somente quatro anos e como era a única filha, herdou um patrimônio considerável. A mãe muito jovem tornou a se casar e a pequena ficou com os avós e tios paternos em Molina de Argon, onde foi educada nos princípios católicos.
     De "rara beleza", dos catorze aos dezessete anos travou uma luta consigo mesma e com os familiares por causa do desejo que sentia de consagrar-se ao Senhor na Ordem Carmelita, há pouco reformada.
     Deixando bem-estar e riqueza, entrou no convento de Toledo, introduzida pelo jesuíta Padre Castro, em 12 de agosto de 1577. Ela foi recebida por Santa Teresa, que nove anos antes havia fundado aquele convento. A Madre prognosticou a futura santidade da postulante e às hesitações em aceitá-la devido à saúde precária respondeu: "Deixemo-la professar, ainda que tivesse que ficar de cama todos os dias da sua vida. Esta é a vontade de Deus".
     Santa Teresa propunha uma doação total de si ao Senhor o que correspondia ao desejo de Maria, apesar de sua timidez se manifestar às vezes de modo "sanguíneo e colérico".
     Professou dia 8 de setembro de 1578. Os primeiros anos foram dedicados principalmente à oração, começando a se manifestar os dons místicos como os estigmas nas mãos, nos pés e na cabeça.
     Com 24 anos foi nomeada mestra de noviças, cargo que ocupou por oito vezes, alternado com o de sacristã, enfermeira e sub-priora. Ausentou-se de Toledo por cinco meses em 1585, para a fundação de um novo convento em Cuerva. Pela primeira vez, aos 31 anos, foi nomeada priora.
     Em 1600, quando faltava um ano para o término do segundo triênio de priorado, durante uma visita canônica, o superior, dando crédito às acusações infundadas de uma religiosa, depôs a Beata do cargo. Irmã Maria aceitou a prova sem ressentimento, conservando o bom humor inalterado. Por 20 anos suportou humildemente as calúnias, algumas doenças e aflições espirituais com as quais o Senhor provou a sua santidade.
     Um ano depois da morte da acusadora, pela qual Maria rezou intensamente para obter uma morte serena, foi publicamente reabilitada pelo mesmo superior, que diante da comunidade lhe pediu perdão. Foi unanimemente reeleita priora em 25 de junho de 1624. Por causa da saúde ruim, pede e obtém autorização para ser apenas conselheira e mestra de noviças, cargo que exerceu até a morte.
     No dia da Epifania de 1629, o Senhor lhe disse: "Maria, tu me pedes para ser libertada da prisão do corpo; saibas que ainda não é hora, porque se até agora tu viveste para ti, agora deves viver para outros; para o teu repouso uma eternidade se espera". E ela verdadeiramente se deu toda para o bem da comunidade e do próximo.
     Naqueles anos a nova capela do convento estava sendo construída e ela se dedicou ao bom êxito da obra, valendo-se até das boas amizades para recolher os fundos necessários. Apesar de muito idosa e com diversas enfermidades causadas em parte pelas penitências, participava da vida de oração da comunidade, causando admiração dos fieis que freqüentavam a igreja aos quais ela acolhia no parlatório.
     dia 13 de setembro de 1640, no extremo das forças, pediu à superiora a permissão para morrer. Após ter recebido Jesus Eucarístico, expirou. Eram as 10 h da manhã; tinha oitenta anos, dos quais sessenta e três consagrados ao Senhor.
     Circundava-a uma aura de santidade. Irmã Maria tinha respondido plenamente ao que o Senhor havia pedido: "Filha, o teu amor é tão veemente, que ninguém o merece além de Mim".
     O melhor elogio é dado a ela pela Santa Madre Teresa, que a teve por colaboradora também na feitura dos seus escritos. Maria, por sua vez, foi uma importante testemunha no processo de canonização de Teresa, que aconteceu, para sua grande alegria, em 1622.
     A Beata conheceu São João da Cruz (o primeiro encontro foi em 17 de agosto de 1578) e quando o Santo escapou da prisão e se refugiou no convento de Toledo, Maria foi um das suas mais atentas ouvintes. A confiança entre os dois durou muitos anos e o místico doutor teve sempre por ela uma grande consideração
     O primeiro Provincial do Carmelo Reformado, Padre Jerônimo Gracian da Mãe de Deus, refere haver constatado os estigmas da Paixão do Senhor em Maria, misticamente impressos em seu corpo. 
     Manteve relacionamento com a Beata Ana de São Bartolomeu e com o Venerável Domingos de Jesus e encontrou o Rei da Espanha, Felipe III, que lhe pediu orações. Como todas as grandes místicas, Maria tinha os pés no chão. Compreendia bem as necessidades do próximo sofredor e eram muitas as pessoas que a procuravam para serem confortadas, tanto no parlatório como por meio de carta.
     Suas grandes devoções eram: o Menino Jesus, que definia "doutor da enfermidade de amor"; o Sagrado Coração, Maria, a Eucaristia. Repetia as Irmãs: "Só aquele que tem a grande sorte de tornar Cristo senhor do seu próprio ser sabe conhecer a Deus Divino e Humano; só ele envereda por caminho seguro".
     Às suas religiosas repetia com um tom que tocava o coração: "Filhas, sabem que somos de casa com o Ssmo. Sacramento, que vivemos com sua Majestade sob o mesmo teto? Se os religiosos fossem conscientes de tal privilégio, nenhum julgaria adquiri-lo a preço demasiado caro, ainda que fosse à custa de lágrimas e de sangue".
     Beatificada no dia 14 de novembro de 1976 por Paulo VI, a sua festa é celebrada dia 13 de setembro.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Beata Maria Toribia (Maria da Cabeça), Esposa de S Isidoro Lavrador - Festa 9 de setembro

     A vida desta mulher humilde, escondida com Cristo em Deus, trabalhadora, esposa, mãe de família, viúva e anacoreta, transcorreu na região de Madrid, recém conquistada pelo rei castelhano Afonso VI aos mouros do reino taifa de Toledo. A região tinha pertencido até então ao califado de Córdoba, onde se falava o árabe e onde os cristãos perseveravam na fé católica segundo os costumes da Espanha herdados dos visigodos. Terras que formaram parte da Castela de El Cid (1099), que se esforçava por aclimatar-se aos francos que entravam com os que faziam a Reconquista.
     Contexto de paz instável devido às continuas incursões dos mouros que não resistiam ao avanço cristão depois da conquista de Toledo (1085). Em um século XII onde o Norte ibérico é sulcado por enxames de peregrinos europeus que percorrem o Caminho em direção ao túmulo do Apóstolo Santiago, que em Toledo se começa a verter para o Latim a sabedoria transmitida pelos árabes e com uma Córdoba que respira o refinamento do Oriente.
      Este era o contexto em que viveu Maria Toríbia, esposa de Santo Isidoro e mãe de Santo Ilano. A dureza das condições da vida do campo era sentida, sobretudo pelas mulheres. Nesse quadro real se santificou a mulher que seria mais tarde o marco de referência da capital e da Corte de um império que estenderia o culto dessa camponesa das Filipinas até a Califórnia.
      No século XVIII, ao preparar o texto litúrgico das Matinas do Ofício Divino se escreve, com grande esmero histórico, uma primeira e breve biografia dela. O relato, destinado à oração, resume o mais substancial que se conservou dela na memória popular:
      Maria da Cabeça nasceu em Madrid, ou próximo desta localidade. Seus pais, piedosos e honestos, pertenciam ao grupo dos chamados moçárabes (do árabe musta'rab, "arabizado", com este nome eram conhecidos os cristãos que viviam sob a dominação muçulmana na Andaluzia). Foi esposa de Santo Isidoro o agricultor.
     Não é fácil dizer com que santidade viveu sua condição de mulher casada. Suas ocupações eram arrumar a casa, limpá-la, cozinhar, fazer o pão com suas próprias mãos, tudo tão simples, que a única coisa que brilhava em sua vida era: a humildade, a paciência, a devoção, a austeridade e outras virtudes com as quais se tornava rica aos olhos de Deus.
     Era muito serviçal e atenta com seu marido. Viviam tão unidos como se fossem uma só carne, um só coração e uma única alma. Ela o ajudava nos afazeres rústicos; cuidava das hortaliças e procurava exercer a caridade, sem abandonar nunca sua contínua oração.
     Como ambos não tinham outro desejo senão o de levar uma vida pura e fervorosamente dedicada a Deus, um dia entraram de acordo em separar-se, depois de criar seu único filho, permanecendo ele em Madrid e ela indo para uma ermida situada num local próximo do Rio Jarama, a ermida de Nossa Senhora da Piedade, em Torrelaguna, onde seria sepultada à sua morte.
     O novo gênero de vida solitário consistia em venerar a Virgem Maria, fazer longas e profundas meditações, tendo Deus como mestre, limpar a sujeira da capela, adornar os altares, pedir aos povoados vizinhos ajuda para cuidar da lâmpada e outros trabalhos.
     Ela realizou milagres similares aos de seu esposo, enquanto Isidoro permanecia em Madrid com seu filho Ilano dedicando-se a educação do menino, transmitindo a ele seus ensinamentos e poderes. Quando o pai morreu, Ilano mudou-se para Villalba de Bolobras e se tornou ermitão junto a um castelo templário, fazendo os mesmos milagres que seus pais, relacionados com a água, a agricultura e os animais.
     O texto mais antigo que menciona esta Beata é o manuscrito conhecido como o Códice de João Diácono, uma coleção de milagres realizados por seu esposo Santo Isidoro, escrito em Latim, com primorosa caligrafia, em meados do século XIII, quando ainda se conservava viva a memória dos santos esposos. O pergaminho se encontrava no arquivo da velha paróquia madrilena de Santo André. O autor poderia ter sido um diácono de Almudena, ou o franciscano Juan Gil de Zamora, secretário de Afonso X, o Sábio.
     Até fins do século XVI, quando teve início o seu processo de beatificação, não existe documento escrito que fale dela, falecida por volta de 1175, em Castela, e sepultada no Convento Ermida de Santa Maria. O seu corpo foi encontrado em 1596, mas o seu culto já havia se difundido muito havia vários séculos.
     Aquela ermida, por causa da presença da cabeça da Beata, foi denominada de Santa Maria da Cabeça e a ela mesma foi dado o nome de Maria, embora algumas tradições anteriores ao século XVI referiam que seu verdadeiro nome era Toríbia.
     Próximo ao Convento de Santa Maria existia há muito uma confraria intitulada Santa Maria da Cabeça, em que ela era festejada no dia 9 de setembro. Em 1615, quando o processo de beatificação se iniciou, suas relíquias foram transferidas para Torrelaguna. O Papa Inocêncio XII confirmou o culto da Beata em 11 de agosto de 1697.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Natividade de Nossa Senhora e a Padroeira da India - 8 de setembro

     Esta festa tem sua origem em Jerusalém. Começou a ser celebrada no século V como festa da Basílica Sanctae Mariae ubi nata est, atualmente conhecida como Basílica de Sant’Ana. No século VII, já era celebrada pelas igrejas bizantinas e em Roma como festa do nascimento da Bem-Aventurada Virgem Maria. A festa foi incluída no calendário tridentino em 8 de setembro e permanece até hoje nesta data.
     De acordo com a tradição, Maria nasceu de pais já idosos e estéreis, Joaquim e Ana, como resposta às suas preces. A paciência e a resignação com que sofriam a esterilidade alcançaram-lhes o prêmio de ter por filha aquela que havia de ser a Mãe de Jesus. Residiam em Jerusalém, ao lado da piscina de Betesda, onde hoje se ergue a Basílica de Sant’Ana; e aí, num sábado, 8 de setembro do ano 20 a.C., nasceu-lhes uma filha que recebeu o nome de Miriam, que em hebraico significa "Senhora da Luz", passado para o latim como Maria. Maria foi oferecida ao Templo de Jerusalém aos três anos, tendo lá permanecido até os doze anos.
     Nenhum acontecimento extraordinário visível acompanhou o nascimento de Maria e os Evangelhos nada dizem sobre sua natividade. No entanto, São João Damasceno afirma que o nascimento a partir de uma mãe estéril já é um sinal das bênçãos especiais que recaem sobre Maria. Ainda, em sua Homilia sobre a Natividade de Maria diz: "Hoje é o começo da salvação do mundo, porque na Santa Probática foi-nos gerada a Mãe de Deus, através de quem o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, nos foi gerado".
     No século IV, e posteriormente, no século XV, surgiu a crença que Maria também teria sido concebida por uma virgem, pelo poder do Espírito Santo. Esta crença foi condenada como um erro pela Igreja Católica em 1677. A Igreja ensina que Maria foi concebida de maneira natural, mas foi miraculosamente preservada do pecado original para ser a Mãe de Cristo.
     Assim se exprimiu o Padre Antonio Vieira sobre essa celebração
 
“Quereis saber quão feliz, quão alto é e quão digno de ser festejado o Nascimento de Maria? Vede o para que nasceu. Nasceu para que dEla nascesse Deus. (...) Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina, dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde; perguntai aos pobres, dirão que nasce para Senhora dos Remédios; perguntai aos desamparados, dirão que nasce para Senhora do Amparo; perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para Senhora da Consolação; perguntai aos tristes, dirão que nasce para Senhora dos Prazeres; perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança. Os cegos dirão que nasce para Senhora da Luz; os discordes, para Senhora da Paz; os desencaminhados, para Senhora da Guia; os cativos, para Senhora do Livramento; os cercados, para Senhora da Vitória. Dirão os pleiteantes que nasce para Senhora do Bom Despacho; os navegantes, para Senhora da Boa Viagem; os temerosos da sua fortuna, para Senhora do Bom Sucesso; os desconfiados da vida, para Senhora da Boa Morte; os pecadores todos, para Senhora da Graça; e todos os seus devotos, para Senhora da Glória. E se todas estas vozes se unirem em uma só voz, dirão que nasce para ser Maria e Mãe de Jesus" (Sermão do Nascimento da Mãe de Deus).
 
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Nossa Senhora de Vailankanni
 
Na Índia, o Santuário dedicado à memória das aparições de Nossa Senhora, cultuada como da Boa Saúde de Vailankanni, é denominado “Lourdes do Oriente” e atrai aproximadamente dois milhões de romeiros por ano.
 
 
     Arokia Matha em língua tamil significa Nossa Senhora da Boa Saúde. Também podemos nos referir a ela como Nossa Senhora de Vailankanni — nome do local, no sul da Índia, onde se encontra o santuário.
     Trata-se do maior ponto de peregrinação dos católicos indianos. A cada ano, milhões de pessoas vão ali pedir graças. O local é realmente protegido pela Santíssima Virgem.
     Exemplo dessa proteção foi o ocorrido durante o tsunami de dezembro de 2004, que matou pelo menos 230.000 pessoas. Enquanto mais de mil delas eram ceifadas num raio de um quilômetro em torno do Santuário, os dois mil devotos que se encontravam em seu interior nada sofreram (¹).
Os três primeiros milagres
     A história do santuário inicia-se com três milagres que a tradição nos transmitiu. O primeiro ocorreu em algum momento do século XVI, quando os portugueses iniciaram o nobre trabalho de conversão do país. São Francisco Xavier já havia passado por lá. Um jovem hinduísta­ — não pertencente, portanto, à pequena comunidade católica da região — carregava certa quantidade de leite para entregar a um freguês. Em determinado momento ele se deteve debaixo de um banyan — árvore do lugar que proporciona muita sombra — localizado perto de um reservatório de água.
     Apareceu-lhe então uma Senhora com um menino nos braços, pedindo-lhe um pouco de leite para dar à criança. Movido por um sentimento de piedade, o rapaz deu certa quantidade de leite à Senhora e continuou seu caminho. Chegando à casa do freguês, pediu desculpas pelo atraso, e pelo fato de trazer menos leite, relatando o ocorrido. Porém, ao abrir o recipiente, verificou que este estava totalmente cheio. O rapaz e o freguês, ambos pagãos, ficaram surpresos e decidiram voltar ao local onde o fato ocorrera. Ao chegarem lá, Nossa Senhora apareceu novamente. Tal lugar ficou conhecido como Matha Kulam, ou o reservatório de água de Nossa Senhora.
     O segundo milagre deu-se alguns anos depois. Desta vez, o beneficiado foi um rapaz inválido que vendia manteiga numa praça da periferia do povoado de Vailankanni. Nossa Senhora lhe apareceu e pediu um pouco de manteiga para dar ao filho. Também impelido pela compaixão, o inválido atendeu ao pedido. A Virgem Santíssima solicitou-lhe então que fosse até o povoado vizinho de Nagapattinam informar da aparição certo católico muito rico que ali morava. O inválido levantou-se e começou a andar, sem se dar conta de início que sua perna estropiada havia sido curada. Ao encontrar o rico católico, este lhe contou que tivera um sonho na noite anterior, no qual Nossa Senhora lhe pedia para construir uma capela. Ambos voltaram então ao local do milagre e tiveram a dita de reencontrar Nossa Senhora. Atendendo ao pedido da Mãe de Deus, ali foi construída uma capela, que recebeu do povo o título de Arokia Matha ou Nossa Senhora da Boa Saúde.
     O terceiro milagre deu-se poucos anos mais tarde. Um navio, no qual viajavam vários comerciantes portugueses, enfrentou tremenda tempestade na Baía de Bengala. Golpeada pelos ventos e pelas ondas, a embarcação naufragou. Os comerciantes, contudo, foram salvos pela intercessão da Virgem e chegaram à praia de Vailankanni. Pediram então aos habitantes da localidade para ir à capela próxima — que não era outra senão a de Vailankanni — agradecer por estarem vivos. E prometeram construir ali uma capela maior e melhor, o que realmente fizeram. Posteriormente, no decurso de subseqüentes visitas, foram acrescentando melhorias à construção. Eles dedicaram esta capela à Natividade de Nossa Senhora, que se celebra no dia 8 de setembro, data em que foram salvos.
Recompensa da generosidade
     Chama a atenção em todos esses relatos o fato de Nossa Senhora ter aparecido a pagãos que viviam em contato com católicos. A Virgem submeteu-os a uma prova solicitando-lhes um gesto de generosidade. Podemos imaginar que eram pobres e que doar parte dos produtos de seu pequeno comércio representava para eles um gesto de desprendimento. E embora talvez tivessem pensado que se atendessem ao pedido passariam alguma necessidade, contudo eles não hesitaram e, movidos por uma graça, fizeram de bom grado a doação, recebendo em troca enorme recompensa.
     Mas como Nossa Senhora ama também os ricos que praticam a virtude, apareceu ainda, segundo a mesma tradição, a outros personagens que possuíam muitos bens. No primeiro caso, ao freguês. Este, ao ouvir o relato do leiteiro, poderia ter-se revoltado. Pelo contrario, ele aceitou a versão do vidente e, depois de constatado o fato surpreendente de que não faltava leite, resolveu voltar com ele ao local da aparição.
Gesto premiado com nova manifestação da Santíssima Virgem
     No segundo caso, é um rico católico que teve um sonho. Mas um sonho é sempre algo duvidoso, pode ser uma imaginação, um engano. Ele é confirmado por um milagre, e o católico rico atende ao pedido feito por Nossa Senhora. Portanto, um ato de generosidade.
     No terceiro caso, embora os comerciantes já tivessem muitos motivos para agradecer à Virgem, eles foram generosos cumprindo de modo superlativo o prometido. Outro caso de liberalidade.
     Nossa Senhora, por assim dizer, pagou a generosidade desses personagens com juros. A quantidade de milagres operados neste santuário é realmente impressionante, a ponto de ser comparado com Lourdes!
Popularidade do santuário
     Por não terem milagres, as religiões falsas não dispõem de locais onde estes ocorrem. Explica-se assim que até indianos não-católicos visitem o Santuário de Nossa Senhora de Vailankanni, edificado em belo estilo neogótico. É para eles um convite à conversão.
     Fato curioso, mas típico dessa região, é que o santuário tornou-se popular sem que a mídia tivesse se ocupado dele. A causa de sua popularidade está no fato de que os peregrinos, ao voltar para suas casas, contavam o que viram. E sendo os indianos muito abertos aos aspectos maravilhosos da vida, explica-se que ainda em nossos dias multidões deles, provenientes até de regiões longínquas, visitem aquela igreja.
     Merece menção o fato de que no museu da Basílica existem tantos ex-votos doados por peregrinos — muitos deles de ouro e prata — que é impossível expô-los todos ao mesmo tempo. Por isso são colocados em caixas, as quais são periodicamente trocadas para dar lugar a novos ex-votos.
 
 (¹) Catolicismo, fevereiro/2005)
Fonte: www.catolicismo.com.br