quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Um santuário para as almas no purgatório - Nossa Senhora de Montligeon

  
   
O lugar deslumbra. Imagine você passeando pelos campos da Normandia, na França. E, ao fazer uma curva na estrada, você se depara com uma basílica imponente. Assim é o Santuário onde todos os dias, desde o século XIX, reza-se pelos fiéis defuntos. E onde as pessoas podem ouvir uma palavra de conforto pela perda de um ente querido.
     O nascimento do Santuário está ligado à história de um padre, o Padre Paul-Joseph Buguet. Dois anos antes de ser nomeado pároco da pequena cidade de La Chapelle, o Padre Buguet, ainda jovem sacerdote, estava profundamente aflito por três falecimentos que tinham ocorrido em sua família.
     No dia 1 de novembro de 1876, seu irmão Augusto foi esmagado pela queda de um sino da Igreja de Nossa Senhora de Mortagne. “E sua alma?” pensava então o jovem padre. Esse acidente trágico foi seguido pela morte de duas sobrinhas, de 12 e 16 anos. “A necessidade de aliviar as almas do purgatório... É preciso que eu trabalhe por libertar essas almas”, anotou ele em seu diário.
     A ideia de criar uma ordem para esse fim germina então em seu espírito. E ela vai se tornar realidade em La Chapelle-Montligeon. Uma das preocupações do Padre era a de rezar e fazer rezar por todos os defuntos, sobretudo por aqueles que não têm quem reza por eles.
     Depois de várias providências, obteve a aprovação do Bispo de sua diocese para os estatutos de sua associação. Tornou-se, como ele mesmo dizia, o emissário das almas do purgatório, indo de diocese em diocese para construir sua obra.
     Em 1887, ele se lança a uma nova aventura: “Procuro conciliar essa dupla finalidade: propagar a oração pelas almas do purgatório e, por outro lado, obter por meio delas um meio de fazer viver os operários”. Com efeito, tendo chegado a Montligeon, ele ficou tocado pela pobreza material e humana dos habitantes da cidade. Ele fundou então uma gráfica para publicar boletins da obra e dar empregos dessa forma.
     A Obra Nossa Senhora de Montligeon, reconhecida pela Santa Sé em 1892, é dedicada à oração pelas almas dos falecidos e, em particular, – como disse a breve oração do Rosário – para os mais necessitados da misericórdia divina.
     Nas próprias palavras do Padre Buguet – retiradas de seus diários –, trata-se de rezar “para o que ninguém reza”, em grupos de oração que hoje já se espalharam por todo o mundo. O Padre Buguet havia fundado anteriormente a “Obra Expiatória para a Libertação das Almas do Purgatório” e foi encorajado pelo Papa Leão XIII que lhe concedeu o título de Protonotário Apostólico.
     Em 1887, após a primeira peregrinação organizada ao local, o fluxo de peregrinos começou a crescer de toda a Franca e do exterior. O renome de Nossa Senhora de Montligeon estendeu-se pouco a pouco pelo mundo.
     Dia 4 de junho de 1896, a primeira pedra da futura basílica foi benta.
     Em maio de 1905, o coro e a nave principal foram terminados.
     A primeira missa foi celebrada em 1 de junho de 1911.
     A 14 de junho de 1918 faleceu o Pe. Buguet. Ele está enterrado no prédio, tendo passado a vida viajando pela Europa para arrecadar fundos e construir a igreja que se tornou uma basílica em 1928.
 
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Nossa Senhora de Montligeon, rogai por nós e pelas almas do Purgatório!
     O Santuário de Nossa Senhora de Montligeon está consagrado a Maria porque Ela é a melhor advogada dos homens junto de Deus e de Seu Filho Jesus Cristo. Por outro lado, se os cristãos a chamam Nossa Senhora Libertadora ou Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, é porque desde há muito conhecem o Seu poder intercessor.
     Em Montligeon invocamos a Virgem Maria por todos os defuntos; com efeito Maria exerce relativamente à vida sobrenatural de todo o homem, uma função comparável à que exerce uma mãe relativamente aos seus filhos durante a sua vida terrestre. Após a morte, Maria não abandona jamais os seus filhos, sobretudo aqueles que já não estão longe de se encontrar com Deus. Maria contribui então para a sua “purificação” tornando-os aptos a ser acolhidos na Cidade Celeste. Ela fá-lo tanto mais de bom grado quanto mais pedimos com confiança a Ela.
     Mantendo-se ao pé da Cruz e unindo-se ao sacrifício do Seu Filho, Maria adquiriu uma grande capacidade de intercessão para todos os homens de quem se tornou Mãe. Permanecendo junto do Coração de Cristo glorificado, Ela deseja ver o mais depressa possível introduzidos na intimidade de Deus as almas que ainda estão no Purgatório.
 
Oração à Nossa Senhora de Montligeon
     Nossa Senhora Libertadora tem piedade de todos os nossos irmãos defuntos especialmente daqueles que mais precisam da misericórdia do Senhor.
     Intercede por todos os que nos deixaram para que se complete neles a obra do Amor que purifica. Faz que a nossa oração, unida à da Igreja, contribua à sua salvação eterna e socorra neste mundo os nossos irmãos na provação ou no pecado.
     Mãe da Igreja, ajuda-nos a viver, aqui na terra, cada vez melhor A nossa passagem para a Ressurreição. Cura-nos de toda a mancha do corpo ou da alma, faz de nós testemunhas do invisível já voltados para os bens que os olhos não podem ver, Apóstolos da Esperança semelhantes às Sentinelas da Aurora.
     Refúgio dos pecadores e Rainha de todos os Santos, reúne-nos todos um dia para a Páscoa Eterna, na casa do Pai, Por Jesus Cristo Nosso Senhor.
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O Santuário de Nossa Senhora de Montligeon, na França, é um centro mundial de oração pelos mortos
     A Basílica de estilo neogótico de Notre-Dame de Montligeon, localizada na região de La Chapelle-Montligeon, na França, a poucos quilômetros da Abadia de La Trapa – onde nasceu a Ordem Cisterciense da Estrita Observância, os Trapistas –, é um centro mundial de oração pelos mortos.
     Consagrada a Nossa Senhora Libertadora das Almas do Purgatório, a basílica está dedicada exclusivamente à oração pelas almas dos mortos. Tanto que todos os vitrais – feitos com paciente dedicação, de 1917 a 1971 – estão dedicados aos temas da escatologia cristã, desde o juízo final até a comunhão dos santos.
     A basílica foi construída pelo arquiteto francês Maître Tessier entre 1894 e 1911, no auge do neogótico, em calcário do Poitou, com duas torres em sua fachada, de sessenta metros de altura cada uma. Está localizada no topo de uma esplanada, ao leste de Mortagne-Au-Perche.
     Todos os anos, milhares de peregrinos vêm aqui em busca de conforto e esperança e para confiar seus mortos a Nossa Senhora Libertadora.
     A origem deste trabalho é simplesmente a intuição espiritual do Padre Buguet. Em conexão com esta oração, o Santuário desenvolve um ministério de compaixão e consolação para todos aqueles que estão de luto.
 


Fontes:

O santuário de Notre-Dame de Montligeon - Sanctuaire de Montligeon

Um santuário para as almas no purgatório (aleteia.org)

Blog do Deiber: Nossa Senhora de Montligeon

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Maria Santíssima, Mãe e Consoladora do Purgatório



Maria pode socorrer as Almas
     Um dia, escreve Santa Brígida nas suas Revelações, disse-me a Virgem Santíssima:
     - “Eu sou a Rainha do céu, eu sou a Mãe de misericórdia, e o caminho por onde voltam os pecadores a Deus. Não há pena no purgatório que não se alivie e que por mim não se torne menor do que se o fora sem mim” (1)
     Outra vez a Santa ouviu Jesus dizer à sua Mãe:
     - “Tu és minha Mãe, és a Rainha do céu, és a Mãe de misericórdia, és o consolo dos que estão no purgatório e a esperança dos pecadores na terra” (2)
     A providência maternal de Nossa Senhora se estende sobre seus filhos na terra e no purgatório. Ela nos socorre e ajuda até depois da morte nas chamas expiadoras. É uma verdade de fé que as almas do purgatório podem ser não só aliviadas em seus padecimentos, mas até libertadas das chamas expiadoras pelas orações, satisfações e boas obras, e pelo Santo Sacrifício da Missa, enfim, pelos sufrágios dos vivos. Todavia, a Igreja nada definiu sobre o socorro que possam os Santos do céu dar às almas padecentes. Não houve necessidade de uma definição, porque o que os hereges contestaram desde Lutero principalmente, foi o sufrágio dos vivos e até a existência do purgatório. Quem, entretanto, pode negar que a Igreja Triunfante possa auxiliar a Igreja Padecente?
     Segundo Santo Tomás de Aquino, duas coisas concorrem para que o sufrágio dos vivos aproveite aos mortos: a caridade que une a todos, e a intenção que tem eles de socorrer os mortos. Quanto ao primeiro, nenhum meio existe maior de um vínculo de caridade que o Santo Sacrifício da Missa, o Sacramento que é o vínculo dos fiéis da Igreja. Quanto à outra, a oração, tem a vantagem de levar nossa intenção diretamente a Deus quando se invoca a Divina Misericórdia.
     Ora, quem pode negar que os Santos do céu já purificados, possuam a caridade em estado de perfeição na glória e a intenção reta de ajudar às benditas almas sofredoras? Quem melhor do que eles conhece o sofrimento daquelas almas? Não há dúvida, os Santos na glória podem e socorrem as almas do purgatório. Quanto mais a Rainha dos Santos!
     Contestaram alguns com subtilidades teológicas que Maria nada poderia fazer pelas almas entregues à Justiça Divina no purgatório.
     “Alguns autores, diz o piedoso Pe. Faber, pretendem que a Santíssima Virgem não pode ajudar as almas do purgatório senão de uma maneira indireta, porque não está mais em estado de satisfazer por elas. Não gosto de ouvir isto. Não gosto que falem de uma coisa que nossa terna Mãe não possa fazer” (3)
     Pois se Maria tem todo poder no céu e na terra, se é Mãe dos remidos, Mãe de Deus, não há de poder socorrer como e quando queira os seus filhos da Igreja Padecente?
     Sim, não há teólogo seguro que o conteste, e a tradição de tantos séculos confirma esta consoladora verdade: Maria socorre seus fiéis servos depois da morte. Estende até o purgatório seu manto protetor de Mãe e Refúgio dos pecadores.
Como socorre Maria as almas sofredoras?
     Há muitas maneiras do poder misericordioso de Maria socorrer as benditas almas padecentes. O primeiro meio e mais frequente, diz o Pe. Terrien, S. J. (4) é o pensamento e a vontade que inspira aos fiéis ainda vivos neste mundo, de orar, sofrer e trabalhar pela libertação das pobres almas. Quantos devotos de Nossa Senhora não sentem de repente uma inspiração, um desejo de sufragar os seus mortos queridos ou o desejo de trabalharem pelo sufrágio do purgatório! É a Mãe bendita quem inspira estes bons desejos e resoluções. Não tem Ela nas mãos os corações de seus filhos? Um dia um santo Irmão coadjutor da Companhia de Jesus orava fervorosamente diante de uma imagem da Virgem Imaculada. Enquanto rezava, veio-lhe um certo escrúpulo do pouco zelo que tinha em orar e sufragar as almas do purgatório. Uma voz misteriosa lhe disse, então:
     - “Meu filho, meu filho, lembra-te dos defuntos!
     - Sim, minha Mãe, o farei doravante, respondeu o piedoso Irmão. E desde aquele dia se entregou às boas obras e sacrifícios e orações pelas almas (5).
     Quantas vezes Nossa Senhora em tantas revelações particulares pediu orações pelos mortos! Ainda em Fátima recomenda aos Pastorinhos a jaculatória: Meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, aliviai as almas do purgatório, especialmente as mais abandonadas! Maria, pois, ajuda os fiéis do purgatório inspirando sufrágios aos seus filhos da terra e depois, oferecendo por estas almas cativas, não as satisfações atuais, pois no céu não há sofrimento nem expiação, mas o que Ela padeceu e mereceu neste mundo. Haverá maior tesouro depois dos méritos de Cristo que os méritos de Maria?
     Maria Santíssima, pois, por estes dois meios pode e realmente socorre as almas. A Igreja, na sua liturgia, confirma esta piedosa crença e esta verdade consoladora quando assim ora na Missa dos Defuntos:
     “Ó Deus, que perdoais aos pecadores e desejais a salvação dos homens, imploramos a vossa clemência por intercessão da Bem-aventurada Maria sempre Virgem, e de todos os Santos em favor de nossos irmãos, parentes e benfeitores que saíram deste mundo, a fim de que alcancem a bem-aventurança eterna”.
     Por terem as almas maior precisão de socorro, escreve Santo Afonso de Ligório, empenha-se a Mãe de Misericórdia com zelo ainda mais intenso em auxiliá-las. Elas muito padecem e nada podem fazer por si mesmas. Diz São Bernardino que Maria desce ao cárcere do purgatório onde tem certo domínio e poder para aliviar e libertar estas esposas de Jesus Cristo. Traz alívio às almas. Aplica-lhes o Santo esta palavra do Eclesiástico: ‘Caminho por sobre as ondas do mar’ (6). Compara as ondas às penas do purgatório, porque são transitórias, e por isso diferentes das do inferno, que nunca passam. Chama-as ondas do mar porque são penas muito amargas. Os devotos da Virgem, aflitos com estas penas, são por Ela visitados e socorridos frequentemente. Eis, pois como socorre Maria as almas do purgatório.
Nossa Senhora do Carmo, Mãe do Purgatório 
    
As aparições da Virgem Misericordiosa a São Simão Stock e ao Papa João XXII são muito conhecidas e hoje a piedade de toda Igreja tem na devoção à Virgem do Carmo um motivo para chamar a Nossa Senhora Mãe e Rainha do purgatório. Diz a Mãe de Deus a São Simão: “Recebe, meu querido filho, este escapulário de tua Ordem como sinal distintivo da minha confraria e prova de privilégio que obtive para ti e para os filhos do Carmo. Aquele que morrer revestido do escapulário será preservado das penas do outro mundo. É um sinal de salvação, uma defesa nos perigos, o penhor de paz e proteção especial até o fim dos séculos”.
     Promete a Virgem a proteção aos seus fiéis devotos do escapulário. Esta promessa foi confirmada setenta anos depois, após uma revelação feita por Maria ao Papa João XXII. Declarou este Pontífice numa Bula, que estando em oração, Maria lhe apareceu e disse: “João, Vigário de meu Filho, és devedor da alta dignidade a que chegaste a mim, que pedi por ti. Eu te livrei dos laços dos teus adversários; espero de ti uma confirmação da Ordem do Carmo, que me foi sempre especialmente dedicada. Se entre os religiosos ou confrades, quando morrerem, se acharem alguns cujos pecados tiverem merecido o purgatório, eu descerei como terna Mãe no meio deles, no purgatório, no sábado que seguir a sua morte. Livrarei aqueles que eu lá encontrar e os levarei à Montanha Santa, à feliz morada da vida eterna”.
     É Maria revelando-se Mãe carinhosa das almas do purgatório.
     A arte cristã sempre representa a Virgem do Carmo estendendo o seu escapulário sobre o purgatório onde as almas em meio das chamas expiadoras levantam os braços e olhos suplicantes implorando a misericórdia da boa Mãe e procurando no escapulário um meio de saírem das chamas.
     Como isto é significativo e simbólico! Não é esta a Missão da Virgem Santíssima, Consolo e alívio e libertação do purgatório e o que encontram com segurança os devotos verdadeiros de Maria Santíssima? Podemos crer no grande privilégio dos Carmelitas. A Sagrada Congregação das Indulgências em 1° de dezembro de 1886 decidiu: “Seja permitido aos Padres Carmelitas pregarem ao povo que se pode crer piedosamente na assistência que esperam os Irmãos e confrades da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, a saber: que esta Senhora ajudará com suas orações contínuas e sufrágios e méritos e com uma proteção especial depois da sua morte (principalmente ao sábado, dia que lhe está consagrado pela Igreja), aos Irmãos e confrades falecidos na caridade, com a condição de que tenham levado durante a vida o escapulário, guardado a castidade de seu estado, rezado o Ofício Parvo, ou se não puderam rezá-lo, que hajam observado os jejuns da Igreja e abstido de carne nas quartas e sábados”. 
    
Este decreto foi publicado em Roma em 15 de fevereiro de 1615 pelo Santo Ofício. Ora, não é a Igreja confirmando a consoladora doutrina da assistência e proteção de Maria sobre o purgatório? Invoquemos sempre a Mãe querida das pobres almas do purgatório. Sejamos devotos da Virgem do Carmo e do Santo Escapulário.
Exemplo: Maria liberta as santas almas nas suas festas
     Diz o Venerável Dionizio Cartuziano que cada ano, nas grandes festas, a Mãe de Deus desce ao purgatório e liberta muitas almas do sofrimento, levando-as para a glória, sobretudo nas festas da Páscoa, do Natal e da Assunção. São Pedro Damião conta a propósito um caso que diz ter ouvido de um sacerdote fidedigno. Vou traduzi-lo do latim tal como o deixou escrito São Pedro Damião:
     “Uma mulher em Roma entrou no dia da Assunção na basílica erigida em honra da Santíssima Virgem no Capitólio. Grande foi a sua surpresa ao ver ali uma das suas vizinhas, que um ano antes havia morrido. Não podendo chegar-se a ela pela multidão que enchia o templo, foi esperá-la ao sair da igreja numa das ruas estreitas da cidade, por onde havia de passar.
     - Não és Marozia, minha vizinha, lhe perguntou, que morreu há cerca de um ano?
     - Sim, sou eu mesma.
     - E como estás aqui?
     E Marozia confessou que havia sofrido muito no purgatório por umas faltas da meninice e acrescentou: ‘Hoje, porém a Rainha do mundo rogou por mim e tirou a mim e a muitas outras almas do lugar da expiação e é tão grande o número das almas libertadas, que sobrepuja aos habitantes de Roma. Eis porque visitamos, em ação de graças, os lugares consagrados à nossa gloriosa Rainha’.
     E como prova da verdade da aparição, anunciou que a sua amiga dentro de um ano morreria também. O que de fato aconteceu”.
     Santa Francisca Romana, favorecida com tantas visões, contemplou também, num dia da Assunção, o triunfo de Maria e uma multidão de almas libertadas do purgatório pela intercessão da Mãe de Misericórdia. — (S. Petr. Damian. Opusc. XXXIV — Disput. de variis apparition, et miraculis. C. 3. P L. CXLV — 586-587.).
 
Observações:
(1) Revel. Sanct. Birgitae — I, VI.
(2) Idem — Cap. X, I — Cap. XVI.
(3) Faber: “Tudo por Jesus” — C. IX — Purgatório, 5.
(4) Terrien, S. J. — La Mere de Dieu et La Mere de homes — Tom. II — Lib. X, cap. II.
(5) La Puente — Vida del P. Baltazar Alvares — C. 44.
(6) Eccl. XXXIV, 8 — “Glórias de Maria” — Santo Afonso — I. par. Cap. VIII.
 
(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 Meditações e Exemplos sobre o Purgatório e as Almas. 1948, p. 162-169)
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terça-feira, 24 de outubro de 2023

Rainha Branca de Castela, Mãe de São Luís IX, e o Rosário

Estátua da Rainha no
Jardim de Luxemburgo
No mês do Rosário, conheçamos uma grande propulsora desta devoção 
 
     A Rainha Branca de Castela (1187-1251), a esposa do Rei Luís VIII, estava profundamente triste porque ela ainda não tinha filhos após 12 anos de casamento. Quando São Domingos de Gusmão foi vê-la, ele aconselhou-a a rezar o terço todos os dias para pedir a Deus a graça da maternidade.
     Ela seguiu o seu conselho fielmente. Em 1213, ela deu à luz seu filho mais velho, Filipe, mas a criança morreu na infância. O fervor da Rainha não foi de modo algum embotado por essa decepção.
     Pelo contrário, ela procurou a ajuda de Nossa Senhora, mais do que nunca. Ela havia distribuído um grande número de Rosários para todos os membros da corte e também para as pessoas em várias cidades do Reino, pedindo-lhes para se juntar a ela rogando a Deus por uma bênção que desta vez seria completa.
     Em 1215, ela deu à luz a São Luís, o príncipe que viria a ser a glória da França e o modelo de todos os Reis Católicos. Ele usou sua coroa terrena de modo perfeito, e assim ganhou uma coroa celestial cuja glória nunca se apagará.
     Esta história foi relatada em um livro de exempla Mariano, o Ulm Rosary Handbook, escrito por Alanus de Rupe em 1483. Mais tarde, São Luís Maria Grignion de Montfort iria repetir a história em seu livro O Segredo do Rosário, para incentivar a oração do Rosário.
Nascimento de S Luís IX
     Se São Luís foi um Rei católico exemplar, sua mãe Branca de Castela foi o modelo de Rainha Católica piedosa, forte. No livro Married Saints [Santos Casados] (p. 110-128), lemos que ela combinou o gênio para governar com as melhores qualidades da maternidade:
     Com a morte prematura de Luís VIII, o reino enfrentou uma crise uma vez que Luís era apenas um menino de 12 anos. A Rainha Branca governou o reino como regente por oito anos – 1226-1234 – com sabedoria e vigor até que ele pudesse ser coroado como Luís IX. Ela frustrou repetidamente as tramas dos barões contra seu filho, e entrou em guerra contra os nobres, quando necessário, para preservar a unidade do reino. Ela foi muito mais inteligente do que eles e, finalmente, conseguiu fazê-los respeitar sua autoridade.
     Branca levou São Luís com ela em suas campanhas militares, e fê-lo sentar-se ao lado dela nos conselhos de Estado. Isto deu a ele treinamento na arte de governar, pois ele aprendeu não só através de preceitos, mas através da demonstração ocular. Branca não se contentou em treinar seu filho para ser um rei, ela o instruiu também nos caminhos da santidade. Ela ensinou-lhe a fé católica e a devoção, e incutiu-lhe o costume de rezar, que ele nunca abandonou.
     Desde os seus primeiros anos, ela se esforçou para impressionar a sua mente sensível com o valor da santidade. Ela costumava dizer-lhe: “Eu preferiria vê-lo morto a saber que você deve viver para cometer um pecado mortal”.
A Rainha ensinando
São Luís IX
     A confiança que São Luís IX tinha em sua mãe é óbvia: quando ele pegou em armas na guerra santa contra os sarracenos, no Egito, ele fez Branca a Rainha regente da França.
     Em sua partida, ele disse à sua mãe: “Deixo os meus três filhos para a senhora guardá-los. Deixo este reino da França para a senhora governá-lo. Verdadeiramente eu sei que meus filhos vão ser bem guardados e o reino bem governado”.
     A Rainha Branca realmente suprimiu rebeliões e ampliou o poder da dinastia francesa.
     Em 1249, enquanto o seu filho estava na Cruzada, ela completou a absorção do sul da França para o Reino e fez alianças vantajosas. Como resultado, o Reino da França ficou mais próximo da aparência que tem hoje.
 

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Santa Laura de Córdoba, Abadessa e Mártir - 19 de outubro

     
Laura pertencia a uma nobre família e era casada com um importante funcionário do emirado independente cordobês. Ao enviuvar, entrou no Mosteiro de Santa Maria de Cuteclara (¹), vizinho de Córdoba, chegando inclusive a ser abadessa em 856, sucedendo Santa Áurea.
     Quando desatou uma perseguição muçulmana contra os cristãos, Laura proclamou publicamente sua Fé católica e o emir Muhammad I mandou prendê-la e açoitar. Ao verem que ela não renegava o Cristianismo, foi levada perante o tribunal islâmico, foi processada e condenada a morrer em um banho de óleo fervente. Depois de três horas de atrozes sofrimentos, entregou sua alma a Deus, no dia 19 de outubro de 864.
     Embora haja poucas informações sobre esta Santa, o seu culto se expandiu enormemente e o seu nome é muito difundido em toda a Europa. Muitos estudiosos acreditam que o seu nome derive do Latim, ‘laurus’: ‘loureiro’ (árvore) símbolo de sabedoria e de glória. Também pode ter como origem a ‘coroa de louros’ ou ‘laurel’, que significa ‘vitória, triunfo’, pois das folhas daquela árvore eram feitas coroas que cingiam a cabeça dos vencedores de jogos e de torneios poéticos. Nos tempos dos romanos era mais comum encontrar o nome Laurência do que Laura.
     O Martirológio Espanhol narra que durante a ocupação muçulmana Laura recusou abjurar a Fé cristã. Ela faz parte do grupo dos 48 Mártires de Córdoba. Sua festividade se celebra no dia 19 de outubro.
 
      (¹) O Mosteiro de Santa Maria de Cuteclara, provavelmente existia desde antes da invasão muçulmana e era um mosteiro do tipo chamado duplo, quer dizer, acolhia uma comunidade masculina e outra feminina no mesmo cenóbio, sendo a feminina, segundo alguns estudos, predominante neste caso.
     Existiam, portanto, um abade e uma abadessa ao mesmo tempo, e de vários deles conhecemos os nomes, como, por exemplo, Frugelo, Pedro de Écija e Artêmia. Áurea, Maria, Columba foram monjas de Cuteclara, e tanto elas como os outros mencionados são considerados santos mártires pela Igreja Católica, ao serem executados em meados do séc. IX, por sua pública e deliberada rejeição ao Islã.
     Não se tem dados sobre quando o mosteiro desapareceu.

domingo, 15 de outubro de 2023

Santa Margarida Maria Alacoque, Visitandina - 16 de outubro

     
Margarida Maria Alacoque nasceu no dia 22 de julho de 1647, na Borgonha, França. Seu pai, Claude Alacoque, era escrivão real; sua mãe, Philiberte Lamyn, era filha do também escrivão real François Lamyn. Sua família de posses, religiosa, com reputação de seriedade e honra, sofreu duro golpe após a morte do pai. Margarida teve uma juventude difícil: enfermidades, sua e da mãe, a resistência dos parentes para que abraçasse a vida religiosa. Finalmente, aos 24 anos, entrou no convento da Visitação de Santa Maria, em Paray-le-Monial, Ordem fundada por São Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal.
     Ela permaneceu entre as Visitandinas por 20 anos, e desde o princípio se ofereceu como “vítima ao Coração de Jesus”. Foi incompreendida pelas religiosas, mal julgada pelos superiores; até os diretores espirituais desconfiaram dela julgando-a uma visionária.
     Finalmente, São Cláudio La Colombière tornou-se o guia precioso desta mística Visitandina, ordenando-lhe narrar, numa autobiografia, as suas experiências místicas. Por inspiração desta Santa a festa do Sagrado Coração de Jesus nasceu, e a ela se deve a prática das Nove Primeiras Sextas-feiras do mês.
     Santa Margarida Maria faleceu no dia 17 de outubro de 1690, em Paray-le-Monial, na França. Em março de 1824, Leão XIII a declarou Venerável, e em 18 de setembro de 1864, Pio IX a beatificou. Santa Margarida Maria foi canonizada por Bento XV em 1920.
     Quando seu túmulo foi aberto canonicamente, em julho de 1830, ocorreram duas curas instantâneas. Seu corpo repousa sob o altar da capela em Paray, e muitos favores são obtidos por peregrinos atraídos a este lugar de todas as partes do mundo.
*
     A humilde visitandina, à qual o Sagrado Coração de Jesus fez suas confidências, viveu no tempo em que reinava na França Luís XIV, consagrado universalmente com o título de Roi-Soleil. Epíteto que correspondia à realidade, diziam que havia nele estofo para cinco reis. Luís XIV representava o tipo clássico daqueles reis de contos de fada que costumam deslumbrar a imaginação das crianças.
     Com uma alma privilegiada chamada a grandes realizações, cheio de predicados físicos e de grande personalidade, se aquele Rei tivesse seguido o exemplo de São Luís, talvez ele tivesse podido impedir a explosão da Revolução Francesa, a pseudo-reforma protestante sofresse desastres irreparáveis, e a História teria tomado um outro rumo.
     A vida de Luís XIV teve altos e baixos. Ávido de prazeres, ambicioso e vaidoso, sacrificou os recursos e prestígio que Deus lhe havia dado à sua sede de prazeres e à sua própria glória. Provocou guerras com o intuito de dilatar seus Estados, desuniu as potências católicas ameaçadas pelo protestantismo; aliou-se aos próprios muçulmanos contra o Santo Império, enfim, mereceu a censura de todos os franceses verdadeiramente católicos, mesmo os seus mais fiéis súditos.
     Entretanto, ele prestou assinalados serviços para a Igreja, entre os quais figura com destaque a revogação do Edito de Nantes. Além disso, grandes foram os avanços em todos os campos da vida temporal, impulsionados por sua inteligência e bom gosto.
     O certo é que o Rei não desempenhava aquela missão providencial à qual fora chamado por Deus.
     Em determinado momento, a humilde Visitandina intervém. Entre as revelações que o Divino Redentor lhe fazia, certa feita mandou que ela dissesse ao Rei para consagrar a si próprio e o Reino ao Sagrado Coração. Nosso Senhor usou de um tom imperativo, e deixava claro que a sua recusa acarretaria para ele e para a França os mais severos sofrimentos. O Sagrado Coração de Jesus desejava uma consagração autêntica, que implicava na renúncia a todos os pecados e a todos os erros do Rei.
     Santa Margarida Maria fez chegar a comunicação a Luís XIV por meio de uma pessoa da nobreza com quem tinha relações. O Rei, porém, não lhe deu importância e a consagração não foi efetuada.
     Resultado: o Reino foi caindo mais e mais nos abismos da impiedade e da libertinagem, até que a Revolução Francesa lançou por terra o trono dos Bourbons, e espalhou pelo mundo inteiro o espírito de rebeldia e de ódio a Deus e a Religião Católica.
     Tempos mais tarde, entre os papéis do Rei Luís XVI, encontrados em sua prisão do Templo, se achou uma nota em que este soberano prometia se consagrar, e toda a França, solenemente, ao Coração de Jesus, caso fosse libertado, o que desde logo, em forma privada, ele o fazia no cárcere. Ele esperava com isto que o Coração de Jesus arrancasse a França aos horrores da Revolução. Mas, este ato piedoso valeu apenas para que ele enfrentasse com dignidade a guilhotina, e muitos o consideram como mártir.
*
     A devoção ao Sagrado Coração de Jesus enfrentou muitas peripécias na sua expansão, mas atingiu o seu auge na Santa Igreja Católica no século XIX e no período que vai mais ou menos até meados do reinado de Pio XI, já no século XX.
     Com efeito, esta devoção foi muito estudada, ela teve grandes doutores, entre os quais São João Eudes, ela foi bem recebida pelos papas, Leão XIII fez uma consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus. Um pouco por toda parte encontramos igrejas consagradas ao Sagrado Coração de Jesus nas cidades construídas em fins do século XIX, ou no começo do século XX no Brasil, por exemplo. Era uma devoção que realmente fazia muito bem às almas.
     Esta devoção começou a ser objeto de uma campanha a partir do momento em que a heresia modernista, condenada por São Pio X, e que parecia estar em letargo, começou a levantar a cabeça com o rótulo de Ação Católica e Movimento Litúrgico.
     No reinado de Pio XI e até o reinado de Pio XII, inclusive, o modernismo não fez senão se desenvolver sorrateiramente dentro da Igreja e começou a combater a devoção ao Sagrado Coração de Jesus numa manobra a mais perigosa: o silêncio! Deixou-se de impulsionar esta devoção; deixou-se de falar a respeito dela; fez-se caso omisso disto.
     Com isto, esta devoção, como tantas outras, está posta de lado. São tesouros com que ninguém se preocupa, são fontes de graças que a Providência abriu para salvar o mundo e que, por estarem esquecidas, não produzem os frutos de salvação desejados pelo Coração que tanto nos ama.
 *
A Grande Revelação (entre 13 e 20 de junho de 1675)
     “Eis o Coração que tanto amou os homens, que nada poupou, até se esgotar e se consumir para lhes testemunhar seu amor. Como reconhecimento, não recebo da maior parte deles senão ingratidões, pelas suas irreverências, sacrilégios, e pela tibieza e desprezo que têm para comigo na Eucaristia. Entretanto, o que Me é mais sensível é que há corações consagrados que agem assim. Por isto te peço que a primeira sexta-feira após a oitava do Santíssimo Sacramento seja dedicada a uma festa particular para honrar Meu Coração, comungando neste dia, e O reparando pelos insultos que recebeu durante o tempo em que foi exposto sobre os altares”.
     “Prometo-te que Meu Coração se dilatará para derramar os influxos de Seu amor divino sobre aqueles que Lhe prestarem esta honra”. (¹)
 
Fórmula de consagração individual ao Sagrado Coração de Jesus, composta por Santa Margarida Maria Alacoque
      Eu (nome), vos dou e consagro, ó Sagrado Coração de Jesus Cristo, minha pessoa e minha vida, minhas ações, penas e sofrimentos, para não querer mais servir-me de nenhuma parte de meu ser senão para vos honrar, amar e glorificar. É esta minha vontade irrevogável: ser todo vosso e tudo fazer por vosso amor, renunciando de todo o meu coração a tudo quanto vos possa desagradar.
     Tomo-vos, pois, ó Sagrado Coração, por único objeto de meu amor, protetor de minha vida, segurança de minha salvação, remédio de minha fragilidade e de minha inconstância, reparador de todas as imperfeições de minha vida e meu asilo seguro na hora da morte. Sede, ó coração de bondade, minha justificação diante de Deus, vosso Pai, para que desvie de mim sua justa cólera.
     Ó coração de amor! Deposito toda a minha confiança em Vós, pois tudo temo de minha malícia e de minha fraqueza, mas tudo espero de vossa bondade! Extingui em mim tudo o que possa desagradar-vos, ou se oponha à vossa vontade. Seja o vosso puro amor tão profundamente impresso em meu coração, que jamais possa eu esquecer-vos, nem me separar de Vós. Suplico, por vosso infinito amor, que meu nome seja escrito em vosso coração, pois quero fazer consistir toda a minha felicidade e toda a minha glória em viver e morrer como vosso escravo.
     Amém.
 
(¹) Cf. Vida e Obras de Santa Margarida Maria, publicação da Visitação de Paray, 1920
 

sábado, 14 de outubro de 2023

Santa Angadrisma, Abadessa - Festejada 14 de outubro

     
Angadrisma (Angadrême, em francês) nasceu na diocese de Thérouanne, no início do século VII, na nobre família dos condes de Boulogne, em Morins (Pas-de-Calais), no norte da França. Era a filha única de Roberto, amigo e sucessor de Santo Omer no cargo de Guarda dos Selos na corte de Clotário III (657-673).
     Santo Omer, Bispo de Thérouanne e preceptor da criança, ensinou a ela os preceitos do Evangelho e formou sua alma na piedade. Estimulada por seu primo São Lamberto de Lyon, que decidira ser monge em Fontenelle, Angadrisma fez secretamente o voto de virgindade. Seu pai, ignorando sua decisão, projetou casá-la com Ansberto, filho de um rico senhor de Chaussy, chamado Siwin. Mas Ansberto, ele mesmo também havia feito voto de virgindade, e seria no futuro Santo Ansberto, o Bispo de Rouen.
     Para evitar o indesejado casamento, Angadrisma rezou pedindo para se tornar menos atraente fisicamente. Suas orações tiveram como resultado que ela contraísse a lepra. Diante da tristeza e da inquietação de seu pai, ela garantiu-lhe que, como ela havia prometido ser esposa de Jesus Cristo, Ele a protegeria e a defenderia daquela deformação. O pai renunciou então ao casamento e a levou para Rouen para apresentá-la a São Audoeno. Foi das mãos deste santo que ela recebeu o hábito religioso. A partir desse dia, a doença desapareceu milagrosa e repentinamente.
 
O Mosteiro de Oroër
     Sua vida monástica era, para dizer pouco, exemplar. Cerca do ano 660, Angadrisma passou a dirigir uma comunidade de virgens e viúvas no convento que seu pai havia construído para ela próximo de Beauvais, ao lado do oratório de Santo Ebrulfo.
     Este mosteiro era muito provavelmente aquele situado em Oroër, pequena aldeia distante duas léguas da cidade de Beauvais, na rota de Amiens, entre Guignecourt e Abbeville-Saint-Lucien, no cantão de Nivillers.
     Um dia o mosteiro foi ameaçado pelas chamas de um incêndio. Angadrisma extinguiu o incêndio enfrentando-o com a exposição das relíquias de Santo Ebrulfo.
     Em seu mosteiro ela conduzia as companheiras à virtude mais pelo império de seu exemplo do que pela autoridade de suas ordens. Com efeito, ela era vista assiduamente na oração, humilde, modesta nas suas vestimentas de tecido grosseiro, cuidando dos pobres, usando uma linguagem inspirada nas Sagradas Escrituras e lhes inspirando o amor de Deus.
     Santa Angadrisma dirigiu o mosteiro durante trinta anos e faleceu no dia 14 de outubro de 695.
     Venerada como Santa imediatamente, foi incluída entre os patronos de Beauvais e é invocada contra os incêndios e as calamidades públicas. Suas relíquias foram transladadas em várias ocasiões devido à destruição do mosteiro pelos normandos e depois pela Revolução Francesa; repousam hoje na Catedral de Beauvais.
 
A Abadia Real das Beneditinas de São Paulo
     O mosteiro de Santa Angadrisma foi destruído pelos normandos em 851. Suas ruínas, propriedade da Igreja de Beauvais, serviram de fundamento para a Abadia de São Paulo. O Bispo de Beauvais, Druon, conhecido pelo seu zelo pelas casas religiosas, favoreceu esta edificação. É hoje conhecida como uma das mais belas e mais antigas abadias da França. Portanto, a Abadia de São Paulo sucedeu ao Mosteiro de Oroër, mas não é contemporânea aquela fundação, pois data de 1032 e 1040.
     Os bispos e senhores de Beauvais asseguraram grandes riquezas a este mosteiro. As abadessas pertenciam, na sua grande maioria, a famílias abastadas, o que concorreu para o renome do mosteiro. Durante a Revolução Francesa, grande parte de suas instalações foram destruídas.
 
As relíquias
     A tradição narra que Angadrisma, então Abadessa de Oroër, vindo fazer suas orações na Igreja de São Miguel de Beauvais, tendo encontrado a lamparina apagada, foi pedir fogo a um padeiro vizinho. Este, sentindo-se importunado, lançou-lhe violentamente carvões ardentes, que ela recebeu em suas vestimentas sem que elas se incendiassem. Assustado, o padeiro se lançou aos seus pés.
     Este acontecimento fez que se preferisse a Igreja de São Miguel à Catedral para aí serem transferidas as relíquias da Santa quando da invasão dos normandos. Esta Igreja de São Miguel foi destruída em 1810 e substituída por uma via chamada Rua Deux-Places, hoje em dia Rua Jean-Vast.
 
Seus milagres
     Após sua morte, os milagres se sucederam. No século IX, suas relíquias preservaram a cidade de Beauvais da fúria dos bárbaros. Mais tarde, a cidade foi protegida dos ingleses. Mas, especialmente em 1472 os habitantes de Beauvais sentiram a proteção da Santa. Oitenta mil homens da Bourgogne cercaram Beauvais e a cidade estava prestes a ser tomada. O relicário da Santa foi levado para as muralhas. A vista dele a coragem foi retomada entre os habitantes de Beauvais e os invasores foram repelidos.  O relicário da libertadora foi levado triunfalmente ao santuário de São Miguel.
     A partir desta data, o culto de Santa Angadrisma, que o Bispo de Beauvais Jean de Marigny havia retomado em 1321, tornou-se mais presente do que nunca. Luís XI instituiu uma procissão anual para que se recordasse a Bem-aventurada.
     Abolida durante a Revolução Francesa, desde 1805, no 1º Império, a procissão foi restabelecida. A procissão partia da Catedral e ia cerimoniosamente até a prefeitura. Mas o cortejo religioso foi suprimido em 1839. Novamente restabelecido em 1848, a procissão vai então sofrer os efeitos da política.
     Depois de muitas idas e vindas, após a 1ª Guerra Mundial a comemoração tomou uma característica turística: desfiles militares, cenas teatrais, reconstituições históricas, e ainda se mantém até nossos dias.
Capela da Santa na Catedral de Beauvais


Fonte: http://oise.catholique.fr/

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Santa Maria Soledade Torres Acosta, Fundadora - 11 de outubro

     
Canonizada em 1970, a venerável Madre Soledade Torres Acosta, é a fundadora das Servas de Maria, religiosas dedicadas aos cuidados dos doentes. O nome Soledade se refere à Maria Santíssima na Paixão do seu Divino Filho.
    Nasceu em Madri, a 2 de dezembro de 1826. Era filha de Francisco Torres e Antônia Acosta, eram pequenos comerciantes. A criança foi batizada como Bibiana Antônia Manuela.
     Viveu numa Espanha perturbada pelos conflitos entre absolutistas e liberais, que produziram às vezes para a Igreja anos custosos.
     Estudou com as Irmãs Vicentinas e ao ver a dedicação total destas religiosas aos mais pobres, se entusiasmou pela vida religiosa. Porém tinha uma saúde muito débil e não foi admitida na comunidade.
     Chegando aos 25 anos, pensava ainda em ingressar na vida dominicana, quando o Pe. Miguel Martínez Sanz, sacerdote pároco do bairro populoso de Chamberi, conquistou-a para a sociedade de religiosas, guardas de doentes, que projetava organizar. Desde pequena ela havia assistido a vários moribundos e sentia um gosto especial em assistir a doentes e agonizantes. Era uma graça que o Espírito Santo lhe havia concedido.
     O Pe. Miguel compreendeu que a jovem tinha aquele dom especial do Espírito para levar a cabo o projeto que tinha em mente, e por isso, juntamente com ela e mais seis companheiras, fundou a Comunidade das Servas de Maria, ou Ministras dos Enfermos.     
     A 15 de agosto de 1851, a jovem entrou no grupo das sete primeiras Servas de Maria, adotando o nome de Irmã Soledade. Embora chegando tarde, depressa foi promovida a superiora.
     Mas Pe. Miguel partiu para as missões no estrangeiro. O novo diretor espiritual julgou acertado mudar a superiora: Madre Soledade foi despachada para Getafe, no Sudoeste de Madrid, para um hospitalzinho. Madre Soledade aceitou tudo por obediência. Ir-se-ia dissolver a congregação em estado deplorável? O Pe. Gabino Sánchez Cortez repôs Madre Soledade à frente das irmãs, e deu ao Instituto uma regra bem adaptada.
     Em 1861, as Servas de Maria receberam a aprovação diocesana, e o agostiniano, Pe. Angel Barra, foi nomeado diretor. A instituição ampliou seu campo de ação para atender também as jovens delinquentes e as fundações se multiplicaram.
     Fundaram-se 46 casas durante a vida da Santa. A rainha Isabel II exigiu suas religiosas para o hospital de São João de Deus, em Madrid.      
     Em 1867 a caridade levou Madre Manuela para Valência, onde a guerra civil fazia inúmeras vítimas. Em 1885, uma epidemia de cólera invadiu metade do país. A congregação manifestou aí sua grande utilidade e importância salvando vidas e ajudando outras a partirem dignamente.
     A congregação recebeu aprovação papal definitiva em 1876 do Papa Pio IX.
     Atualmente, a Congregação conta com mais de 2000 religiosas, também nas duas Américas, na Inglaterra, na Itália, na França e em Portugal.
     Santa Soledade faleceu no dia 11 de outubro de 1887 com 61 anos de idade. Seus restos mortais foram enterrados em um terreno simples em torno de religiosos de sua congregação, mas foram exumados e transferidos para a capela da Casa Mãe em 18 de janeiro de 1893. Seus restos mortais foram considerados intactos e foi relatado que seus restos exalavam um líquido semelhante a sangue e um odor doce. Mas não demorou muito, após outra inspeção, que seus restos mortais estavam limitados a ossos, o que significava que a decomposição havia avançado, talvez devido à primeira exumação e transferência.
     Madre Soledade foi beatificada por Pio XII em 5 de fevereiro de 1950 e canonizada por Paulo VI em 1970. Ela viveu o heroísmo do amor e da caridade para com os doentes, especialmente os doentes terminais, dando-lhes dignidade e paz na hora da morte.
     Santa Maria Soledade Torres Acosta, junto com Maria Micaela Desmaisieres, Joaquina Vedrun de Mas e Vicenta López, faz parte do grupo insigne de virtuosas mulheres espanholas que alcançaram um grau de santidade heroica a serviço dos doentes no século XIX.
 


Fontes: www.santiebeati.it; Santos de cada dia, Pe. José Leite, S.J.