domingo, 25 de fevereiro de 2018

Maria des Vallées, «a Santa de Coutances» - 25 de fevereiro

    
     Filha de Julien des Vallées e de Jacqueline Germain, camponeses pobres ou membros de uma pequena nobreza empobrecida, Maria des Vallées nasceu em St-Sauveur-Lendelin, perto de Coutances, no dia 25 de setembro de 1590; perdeu seu pai aos doze anos. Sua mãe casou-se então com Gilles Capolain, que maltratava a pequena Maria.
     No dia 2 de maio de 1609, durante a festa de Saint-Marcouf, na vila de La Pierre, Maria, que tinha então 19 anos, encontra um pretendente que ela rechaça. Acometida de dores e convulsões, acusam o rapaz, que deixou a região na manhã seguinte, de tê-la enfeitiçado. Após três anos de sofrimentos, ela é apresentada ao bispo de Coutances, Mons. Nicolas de Briroy, que a exorciza e manda fazer uma pesquisa sobre a sua vida e a de sua família. Mas Maria não é libertada e continua a responder às perguntas em latim e em grego embora ela seja quase analfabeta.
Dom do sofrimento
     Suspeita de ser uma feiticeira, Maria foi encaminhada, em 1614, ao parlamento da Normandia, que considerou as suspeitas infundadas. Ela se transfere então para Coutances. Foi avaliado que ela estava possuída pelo demônio; ela é exorcizada por várias vezes, mas sempre sem resultado. Maria padece atrozes sofrimentos, mas acaba por aceitá-los. Ela se decide a se dar a Deus para “sofrer as penas do inferno” e oferece seus padecimentos “para a salvação da humanidade e a destruição do pecado”.
     Em 1641, Mons. Leonor Goyon de Matignon, Bispo de Coutances, pede ao Padre João Eudes para estudar o caso. O oratoriano passa a admirar a sua dirigida, considera que suas visões são sobrenaturais e, em 1655, ele reúne tudo o que sabe sobre ela em um caderno, que ele intitula A Vida admirável de Maria des Vallées e coisas prodigiosas que se passam com ela. Ela se torna sua inspiração, sua conselheira e o ajuda a fundar seminários e a difundir uma espiritualidade baseada na linguagem do “Coração” (obs.: São João Eudes difundiu a devoção ao Sagrado Coração na época em que viveu).
Morte e posteridade
     Maria faleceu no dia 25 de fevereiro de 1656 em Coutances. Imediatamente seu corpo é disputado. Ela foi inicialmente sepultada na capela São José da Igreja de São Nicolau, depois na capela do seminário dos Eudistas no dia 4 de novembro de 1656. Como o local foi transformado em liceu, no dia 5 de agosto de 1919 seus restos mortais foram transladados para perto do altar da capela de Puits, na catedral de Nossa Senhora de Coutances. Uma das três igrejas da cidade de Colombes, aberta ao culto em 1933, é dedicada a Maria des Vallées.
Críticas
     De 1656 à 1675, numerosos processos encabeçados pelo Padre Bazire com a ajuda dos jansenistas se sucedem, nos quais consideram Maria uma visionária da qual não se deveria guardar lembrança.
    Em 1674, um cônego de Rouen publica a este respeito um panfleto anônimo intitulado Cartas a um doutor da Sorbonne. No ambiente das Letras era então de bom tom fazer troça do Padre Eudes e de sua “beata”. Entretanto, no século XX o Abade Henrique Bremond tem um capítulo em sua História Literária do sentimento religioso (t. III): “O Padre Eudes e Maria des Vallées”. Ele se mostra sensível aos “dons poéticos da vidente e agastado com os detratores e os admiradores da ‘santa de Coutances”. Ele os acusa de serem partidários “do tudo ou do nada” e considera que a doença não impede que o paciente se santifique.
Jesus e Maria des Vallées
     Maria des Vallées rezava muito o Santo Rosário, e fez muitas peregrinações ao Monte Saint Michel. Ela rezava muito na catedral de Coutances. Maria se queixava a Jesus no auge dos seus sofrimentos. – Rejubilai, disse Jesus, porque vossa recompensa é grande nos céus. – Qual é a recompensa? – É a salvação das almas pelas quais nós sofremos e para as quais ganharemos o Céu.
     Antes de cada provação Maria via Nossa Senhora em lágrimas que lhe anunciava novas dores. Pois o coração de Maria des Vallées fazia um só com o coração da Mãe de Jesus e de Jesus, que lhe disse no dia 8 de fevereiro de 1652: “Eis vosso coração. É o da Mãe, mas é também o vosso, porque, enfim, Eu, minha Mãe e vós não temos senão um só coração”.
    Maria des Vallées, chamada de Irmã Maria se bem que ela não fosse religiosa, foi estigmatizada e os sinais das chagas dolorosas foram visíveis, segundo São João Eudes, “durante dezenove anos e cinco meses”. Após a morte de Maria, os lençóis com seu sangue foram distribuídos como relíquias por São João Eudes.
     Jesus havia dito a ela um dia: - “Vós sois minha Cruz viva. Eu me revesti de vossas carnes, é por isto que vossos sofrimentos são de um valor quase infinito”. Como São Paulo, Maria sofria nela, no corpo que Jesus se apropriara, o que faltara à Paixão de Nosso Senhor, pelo seu Corpo que é a Igreja.
     São João Eudes relata uma visão que ele assistiu em 1649. Nosso Senhor pergunta a Maria: – Quem sois? - Eu não sou nada, responde Maria. – Diga, diga, insiste Jesus. – Eu sou a mais miserável das criaturas. – Não, não é isto, retoma Nosso Senhor. Então Maria declara: – O Verbo se revestiu de minha carne e é Ele que sofre em mim.
     Em um último período de sofrimentos Maria vê tudo o que uma alma que rejeita o bem e Deus sofre por sua própria vontade.
Profecias
     A vida de Maria des Vallées revela a existência de seitas e da prática da feitiçaria. Jesus lhe disse: “Estes últimos tempos são minha obra e minha paixão. O fim será cheio de consolação, glorioso, digno de admiração, mas também mais desastroso, mais violento e mais assustador que se possa crer. Ele ceifará a terra com três filhas: a fé, a esperança e a Igreja militante”.
      Nosso Senhor lhe disse: “Vais dizer uma coisa três vezes triste”... “São estas palavras: ‘Spiritus Domini replevit orbem terrarum’”. “Entende-se isto pelo tempo em que o Espírito Santo espalhará o fogo do Amor divino por toda a terra, e que Ele fará o seu dilúvio. Pois há três dilúvios, todos os três tristes, e que são enviados para destruir o Pecado. O primeiro dilúvio é o do Pai eterno, que foi o dilúvio de água; o segundo é o do Filho, que foi o dilúvio de sangue; o terceiro é o do Espírito Santo, que será um dilúvio de fogo”. (*)
     “Mas ele será triste também como os outros, pois ele encontrará muita resistência e grande quantidade de madeira verde que será difícil de queimar. Dois já aconteceram, mas resta o terceiro; e como os dois primeiros foram preditos por muito tempo antes que chegassem, assim o último somente Deus conhece a data”.
     “Nosso Senhor diz que virá um tempo em que Ele fará chover um dilúvio de graças sobre toda a terra (...). Ele dará belos vasos de ouro para a Igreja, que é o símbolo de bons pastores com que ela será ornada e enriquecida. Para a conversão geral, todos os amigos de Deus por sua vez virão a terra para fazer o cerco às almas”.
     “Haverá grandes mártires embora os carrascos não os toquem, pois eles serão mártires do Amor divino. O Amor divino é que os martirizará. Eles serão consumidos na fornalha do Amor e serão em tal quantidade, maior do que os primeiros mártires que sofreram o martírio pela esperança das coroas e da glória, e estes não olharão a recompensa, mas somente a glória de Deus. E a Santa Virgem sustentará as forças destes fieis em seus combates terríveis”.
     “Não sofra por causa disto, lhe dizia Nosso Senhor, mas sabei que quando minha Misericórdia vier no tempo da Grande Tribulação, ela lançará todos os filhos pelas janelas e ela os esmagará. Quer dizer que ela matará todos os pecados que são os filhos dos pecadores. E será minha Misericórdia Divina que fará este massacre e que executará os castigos que acontecerão então. Mas não a conhecerão por tal. Acreditarão que será a Justiça, porque ela se revestirá das vestes da Justiça”.   
     Maria via as misérias do povo sob a forma de cordas que atraiam a cólera de Deus sobre a terra, a fim de punir os crimes, destruir o pecado e estabelecer o reino da Graça.
     Um dia Nosso Senhor lhe disse: “Minha esposa ficou leprosa. Que ela vá portanto se lavar sete vezes no Jordão; tomai esta camisa que minha Mãe lhe dá, e a use”. Maria viu um dia o pecado sob a figura de uma serpente cujo corpo fazia uma tríplice volta (o pecado dos padres, o dos chefes de Estado, e o do povo) e que mordia sua cauda, quer dizer, que se autodestruía.
     Um dia em que chamava Jesus de “Rei do céu e da terra”, Ele a interrompeu bruscamente: “Não, não da terra, é o pecado que aí reina. Mas Eu o expulsarei e o castigarei logo, esse monstro, e Eu reinarei em todo o universo”.
      Maria mesma anunciou: “Tempo virá, após uma crise universal que deve chegar, quando não haverá senão a justiça sobre a terra e o pecado será banido”. Como Deus lhe havia falado sobre uma conversão universal, ela se ofereceu como vítima expiatória para que ela pudesse se realizar, “e Deus, escreveu São João Eudes, ouviu suas preces”.
     “Eu vi, ela conta, a Força vir sobre um cavalo branco, que simboliza a alegria. Ela trazia na garupa a Verdade. Ela lhe deu um papel grande sobre o qual havia inscrições e lhe disse: ‘Eis o Jubileu que te prometi’. E Nosso Senhor me disse ainda que a expiação geral não acontecerá antes de um grande e terrível sinal que chegará, mas Ele não me explicou qual será o sinal”.

Fonte : Daniel Doré, Marie des Vallées. La «sainte de Coutances». Actes du colloque tenu au centre diocésain des Unelles à Coutances le samedi 1° juin 2013, réunis par le P. Daniel Doré, cjm, Vie Eudiste, hors série, 2013, 84 p., 13 €.

(*) São Luís Maria Grignion de Montfort teve conhecimento das visões e revelações proféticas de Maria des Vallées, e esta figura dos três dilúvios é inserida em sua famosa Oração Abrasada.
     Uma santa religiosa do Carmelo de Pontoise, Maria do Santo Sacramento, falecida em 30 de junho de 1642, confirmou que em 1634 tinha tido a revelação de que uma pobre filha do povo que vivia no abandono e escondida, tratada como insana, detinha a torrente da cólera divina que de outra forma teria se abatido sobre a França por causa de seus pecados. Deus permitiu que o segredo desta mulher somente fosse conhecido por sete pessoas, entre elas duas grandes figuras da espiritualidade francesa do século XVII: São João Eudes e o Barão de Renty. Eudes e Renty foram apóstolos da Normandia como Montfort o foi da Vandeia.
     Maria des Vallées ainda não foi canonizada pela Igreja, mas a canonização de São João Eudes constitui uma confirmação não só da sua santidade, mas também da veracidade das suas revelações, sempre reforçada pelo santo da Normandia. A Providência determinou que as revelações de Maria des Vallées fossem do conhecimento de poucos eleitos, enquanto que as de Santa Margarida Maria foram difundidas ao mundo todo, mas ambas confluem para uma grande única devoção, o Sagrado Coração de Jesus, e o nome de São João Eudes e de Maria des Vallées se uniram inseparavelmente aos de Santa Margarida Maria e de São Cláudio de la Colombière.

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